Meu nome é Vermelho



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Um dia, como costumo fazer com todos os meus miniaturistas, apareci de improviso na casa dele, para uma inspeção. Em contraste com meu local de trabalho e o de muitos artistas, o dele era uma pocilga, um verdadeiro cafarnaum de pinturas, pincéis e utensílios variados. Para mim, é um enigma ele não ter demonstrado a menor vergonha por isso. Quanto ao mais, não aceita encomendas clandestinas a pretexto de ganhar umas moedas de prata a mais. Tendo eu relatado isso tudo, o Negro comentou que Oliva era o que mostrava mais aplicação e aptidão para as novas regras de pintura à européia explicadas por seu finado Tio. Entendi logo que era uma opinião bastante positiva do ponto de vista, redondamente falso, daquele falecido idiota. Não sei dizer se Oliva permanecia muito mais profunda e secretamente apegado do que deixava transparecer às regras da tradição de Herat — que, inculcadas por seu pai, remontavam ao mestre deste, Siyavush, ao mestre de Siya­vush, Muzaffar, aos velhos mestres anteriores a Muzaffar e ao próprio Bih­zad, quando ainda morava lá —, mas eu sempre me perguntei se ele não acalentava alguma outra tendência oculta. De todos os meus pintores, ele é sem dúvida o mais silencioso, o mais fechado, o mais culpado, o mais sorra­teiro e o mais tortuoso (disse isso tudo sem nenhuma reserva). Quando pen­so nos interrogatórios infligidos pelo Jardineiro-Mor, é ele que me vem à men­te em primeiro lugar. (Eu queria e, ao mesmo tempo, não queria que ele fosse submetido à tortura.) Tem olhos de djim; vê tudo, nada lhe escapa, in­clusive minhas falhas. Mas, com sua prudência de imigrante sempre pronto a se acomodar a todas as circunstâncias, é raro que abra a boca para apontar qualquer erro. Certamente é um espertalhão, mas, na minha opinião, não é um assassino. (Mas isso eu não disse ao Negro.) Porque Oliva não acredita em nada. Nem no dinheiro, embora seja verdade que ele o entesoura sofre­gamente. Ora, ao contrário do preconceito, o que caracteriza todos os assas­sinos não é sua descrença mas precisamente o excesso contrário: a supersti­ção. As miniaturas são um desafio magnífico à pintura, e a pintura, como todo o mundo sabe — e isso vai dito sem nenhuma blasfêmia —, é uma es­pécie de desafio a Alá. Oliva, não sendo crente, é portanto um artista genuí­no. E no entanto, no que concerne aos seus dons, eu o colocaria abaixo de Borboleta e até mesmo de Cegonha. Gostaria de tê-lo como filho. (Dizendo isso, eu queria enciumar o Negro, mas ele se contentou com fixar em mim seus grandes olhos de azeviche, seus olhos de garoto atento.) Salientei então o quanto Oliva era prodigioso em suas criações à tinta preta; nos persona­gens, guerreiros ou caçadores, como os que se vêem nos álbuns; nas paisa­gens à maneira chinesa, povoadas de garças e cegonhas; e naquelas cenas em que belos efebos sentados debaixo de uma árvore recitam poesias, ao som do alaúde; e em sua maneira de expressar os tormentos, os célebres langores dos amantes, os imperadores irados, sabre em punho, ou o rosto pálido dos heróis que se esquivam do ataque de terríveis dragões.

“Talvez meu Tio também quisesse lhe confiar aquela última imagem, em que figuraria em grande detalhe, no estilo dos europeus, o rosto do Nos­so Sultão e sua maneira de sentar-se”, disse o Negro.

Será que ele estava tentando me testar?

“Supondo-se que Oliva tenha matado seu Tio, que motivo teria ele pa­ra, depois de fazê-lo, roubar uma miniatura que já conhecia? Ou, se você preferir, por que, para poder contemplá-la, ele precisaria matá-lo?”

Refletimos por um momento, cara a cara.

“Porque faltava alguma coisa na pintura”, respondeu o Negro. “Ou por­que ele temia alguma coisa que teria posto na imagem e que o assustava. Ou então...” Pensou um pouco. “Ou então para levar uma lembrança da morte do meu querido Tio, por pura maldade, ou por nada, gratuitamente. Por que não, afinal de contas? Oliva é um grande pintor, que sabe apreciar uma bela miniatura.”

“Já discutimos sobre o fato de que Oliva é um grande pintor”, disse eu, irritando-me, “mas essas imagens para o seu Tio não são boas.”

“Não vimos a última”, replicou desafiadoramente o Negro.

AS QUALIDADES DE BORBOLETA

Ele é também conhecido pelo nome de Hassan Chelebi, do distrito da Fábrica de Pólvora, mas para mim sempre foi Borboleta. Esse apelido ainda me lembra o belo garoto e rapaz que ele foi. Era tão bonito que os que o viam pela primeira vez não acreditavam em seus olhos, tinham de olhar uma se­gunda vez para ele. Aliás, um prodígio que nunca parou de me espantar e que seu talento iguale sua beleza. É um mestre da cor, e é aí que reside a sua força. Ele pinta apaixonadamente, inebriando-se com o prazer de apli­car as cores. Mas, esclareci de imediato ao Negro, ele também sempre foi volúvel, irrefletido, indeciso. Depois, para não ser injusto, acrescentei: é um miniaturista autêntico, que pinta com o coração. Se é verdade que a pintura não é destinada nem ao intelecto nem a adular a besta que dorme dentro de nós — e tampouco a inflar o orgulho do sultão —, se a pintura destina-se a agradar os olhos, então Borboleta é um autêntico pintor. Como se ele hou­vesse feito seu aprendizado no apogeu de Kazvin, quarenta anos atrás, sua li­nha é leve, ampla, feliz e solta; ele aplica com segurança mas com audácia as cores mais brilhantes, sem nunca misturá-las, e sempre há um espiralado delicadamente oculto na composição das suas miniaturas. Mas fui eu que o formei, não a gente de Kazvin, que está morta há muito tempo. Talvez por isso eu o ame como a um filho, não, mais que a um filho, mas sem nunca ter sentido por ele uma verdadeira admiração. Como a todos os meus alu­nos, nunca me privei de lhe ministrar uns bons corretivos, com a régua, o cabo do pincel, até mesmo com um cacete, quando ele era criança, depois jovem aprendiz, sem nunca porém ter lhe faltado com o respeito. Do mes­mo modo, não é porque batia com freqüência em Cegonha que lhe faltava com a consideração. Ao contrário do que às vezes se imagina, a severidade do mestre não elimina os djins do talento nos jovens aprendizes, ela apenas os mantém na linha — momentaneamente. Se é uma severidade justa e bem aplicada, os djins e o Demônio despertam e estimulam vivamente, em nosso jovem artista, o desejo de criar. No caso de Borboleta, meus corretivos fize­ram dele um pintor contente de si mesmo e obediente.

No mesmo instante senti a necessidade de elogiá-lo ao Negro: “A arte de Borboleta é uma prova inconteste de que o ideal de felicidade, tal como o poeta Rumi invoca em sua Grande Obra, só pode ser alcançado com o dom de saber usar as cores, que provém do próprio Alá. Ao entender isso, en­tendi também o que falta a Borboleta: aquela momentânea perda de fé que Jami chama em seu poema de ‘a noite escura da alma’. Como se já estivesse nos nimbos do Paraíso, Borboleta trabalha com um prazer e uma fé inabaláveis, convencido de que é capaz de pintar a felicidade. E, de fato, consegue. Nossos exércitos sitiando a fortaleza de Doppio, o embaixador dos magiares beijando os pés do Nosso Sultão, a ascensão dos sete céus por Nosso Profeta cavalgando Burak, todas essas cenas são sem dúvida, em si, acontecimentos felizes, mas ilustradas por Borboleta tornam-se vôos de êxtase alçando-se da página. Se porventura encontro, num dos meus trabalhos em curso, dema­siado negrume na morte ou demasiada gravidade numa reunião do Divã basta dar carta branca ao meu querido Borboleta para que logo os estandar­tes ao longe em meio às águas, os trajes de cerimônia pesados como morta­lhas se animem e ondulem ao vento da sua inspiração. Às vezes chego a pen­sar que Alá quer que o mundo seja visto da maneira como Borboleta o ilustra que Ele deseja que a vida seja regozijo. Sim, um reino em que as cores reci­tem harmoniosamente, uma para a outra, magníficos gazéis, um reino em que o tempo pára, em que o Diabo nunca aparece”.

Mas isso não basta, e Borboleta sabe. Aliás, alguém já deve lhe ter sus­surrado esta verdade no ouvido: em sua obra, tudo é alegria, como nos dias de festa, mas sem a menor profundidade. Os infantes e as velhas concubinas decrépitas do Grande Harém adoram sua pintura, mais que os homens de ação, que, estando no mundo e na vida, têm de enfrentar o mal. Consciente do fundamento dessas críticas, Borboleta às vezes se rebaixa a ponto de inve­jar outros artistas, muito menos talentosos, e recrimina-os por só pintarem possuídos pelos espíritos malignos. Quando, na verdade, o que ele imagina ser um feito dos demônios e dos djins geralmente não passa de uma mani­festação da maldade e inveja deles.

O que me irrita em Borboleta é que, ao pintar, ele não se deixa perder nesse mundo maravilhoso, não se rende ao seu deslumbramento, mas só al­cança aquelas alturas quando imagina que sua obra vai agradar e encantar os outros. Sem falar no prazer que tem de ganhar dinheiro! Mais uma ironia da vida: muitos artistas, menos talentosos que ele, entregam-se muito mais, sem nenhum cálculo, ao ofício de pintor.

A necessidade compulsiva que ele tem de compensar essa carência le­va-o a sempre tentar provar sua abnegação. Como todos esses desmiolados que pintam nas unhas ou em grãos de arroz cenas que mal são visíveis a olho nu, ele se compraz com trabalhos diminutos e delicados. Uma vez perguntei a ele se tinha vergonha daquele talento enorme que Alá lhe concedeu para se aventurar assim num gênero de ambição que custou a vista a mais de um artista ainda jovem. Porque somente um mau pintor cede a esse anseio indigno de ficar famoso, de atrair as deferências e as graças de um patrocina­dor grosseiro, pintando todas as folhas de uma árvore num grão de arroz.

Essa propensão a desenhar e pintar para os outros, que vale muito me­nos que ele, em vez de fazê-lo para si mesmo, faz de Borboleta um escravo da aprovação e dos elogios desses outros. Foi por isso que ele, tão medroso, pôde ambicionar tornar-se Grande Mestre do nosso ateliê. Para responder ao Negro, que levantava essa hipótese, eu disse:

“Sim, de fato, sei que ele age para tomar o meu lugar, depois que eu morrer.”

“E o senhor acha que ele possa ter chegado ao ponto de matar seus pró­prios colegas?”

“É possível, porque, embora seja um grande pintor, não sabe que é e, quando pinta, permanece preso a este mundo.”

Eu mal havia pronunciado essas palavras quando me dei conta de que eu também queria que, depois da minha morte, Borboleta me sucedesse à frente do ateliê. Não podia confiar em Oliva e, quanto a Cegonha, creio que acabará, sem nem sequer perceber, submetendo-se ao estilo dos pintores do Ocidente. Muito embora a idéia de que Borboleta pudesse ser culpado de um assassinato me perturbasse, sua vontade de agradar seria vital para poder lidar com o ateliê e com Nosso Sultão. Só a sensibilidade e a fé cega de Bor­boleta na cor podiam oferecer resistência à arte européia, que engana os olhos ao tentar pintar a própria realidade em todos os seus detalhes, em vez de pin­tar a sua representação: retratos, com sombras e tudo, de cardeais, pontes, barcos, candelabros, igrejas e estábulos, bois e rodas de carros de boi, como se tudo isso tivesse a mesma importância para Alá.

“Nunca lhe aconteceu visitá-lo de surpresa à noite, como fez com os ou­tros pintores?”

“Quem vê uma vez as miniaturas de Borboleta logo sente que ele com­preendeu todo o valor do amor, assim como a importância da tristeza e da ale­gria sinceramente vividas. Mas, como ocorre com todos os amantes da cor, ele se deixa levar por suas emoções e é muito volúvel. Como eu apreciava muito o magnífico talento que Alá lhe deu e a sensibilidade quase milagrosa que ele tinha para com as cores, acompanhei-o com toda atenção em sua ju­ventude e sei tudo o que há para saber a seu respeito. Mas o que acontece nesses casos é que os outros pintores, por ciúme, envenenam e prejudicam essa relação entre mestre e discípulo. E Borboleta nunca pôde absorver todo o meu afeto, pois vivia sempre inquieto e amedrontado com o que os outros pu­dessem dizer. Desde que, recentemente, ele se casou com a bonita filha do fruteiro do bairro, não tive tempo — e perdi todo desejo — de ir visitá-lo.”

“Corre o boato de que ele teria ligação com os seguidores do hodja de Erzurum”, comentou o Negro. “Dizem que ele tem muito a ganhar, se o hodja e seu bando conseguirem que sejam condenados como incompatíveis com a religião e, portanto, proibidos os nossos livros de vitórias, em que são ilustradas batalhas, armas, cenas sangrentas, e os livros de festividades, em que aparece todo o mundo, de cozinheiros a mágicos, de dervixes a jovens dançarinos, de vendedores de kebab a serralheiros, e nos confinem à imita­ção dos livros e dos modelos antigos.”

“Mesmo se pudéssemos voltar, vitoriosamente e com a mesma mestria, às maravilhosas pinturas da época de Tamerlão, àquele estilo de vida inteira­mente dedicado ao amor à nossa arte em todas as suas minúcias — como o inteligente Cegonha seria o mais apto a fazer depois de mim —, no fim das contas tudo isso seria esquecido”, concluí num tom desenganado. “Porque todos acabarão querendo pintar à européia.”

Será que eu acreditava mesmo nessas palavras de danação?

“Meu Tio dizia a mesma coisa”, disse o Negro mansamente, “mas isso parecia alegrá-lo.”

AS QUALIDADES DE CEGONHA

Eu o vi assinar seu nome como Mustafá Chelebi, miniaturista pecador. Sem se incomodar nem um pouco em saber se tinha ou precisava ter um es­tilo, se devia ser identificado por uma assinatura ou, como os velhos mestres de outrora, permanecer anônimo, se a humildade mandava ou não agir as­sim, ele simplesmente assina seu nome com um traço largo e vencedor, e franco como um sorriso.

Ele seguiu ousadamente o caminho que eu lhe tracei e levou ao papel coisas que viu e que nunca haviam sido levadas antes. Como eu, foi observar os sopradores de vidro que giram seus compridos tubos modelando a massa em fusão recém-saída do forno, para fazer jarros azuis e garrafas verdes; ele viu, e reproduziu, os couros, as agulhas e os moldes de madeira dos sapatei­ros, curvados com atenção sobre os sapatos e botas; os balanços, montados em carroças, que oscilam graciosamente nos dias de festa; o óleo que jorra das olivas no lagar; o estrépito da infantaria lançando sua carga contra as fi­leiras inimigas; e cada cano, cada coronha de cada escopeta. Tudo isso ele viu e pintou, sem nunca objetar que os velhos mestres da época de Tamer­lão e os lendários ilustradores de Tabriz e Kazvin jamais se rebaixaram a se­melhante trabalho. Foi o primeiro miniaturista muçulmano a ir à guerra, e voltar são e salvo, a fim de preparar o Livro das vitórias. Foi o primeiro a fa­zer com ardor estudos das praças-fortes, dos canhões, dos exércitos, dos cava­los com suas feridas ensangüentadas, dos cadáveres e dos moribundos.

Identifico suas obras mais pelo conteúdo do que pela forma; mais ainda que pelo conteúdo, pela atenção meticulosa que dedica aos detalhes sutis — que sou o único a notar. Por isso eu podia, com plena tranqüilidade, lhe confiar todos os aspectos de uma miniatura, do arranjo das páginas e da sua composição ao colorido dos menores detalhes. Desse ponto de vista, ele se­ria sem dúvida o mais apto para me suceder. Mas é tão malicioso, tão con­vencido e cheio de desprezo para com todos os seus colegas, que teria gran­de dificuldade de dirigir aquela gente toda e acabaria ocorrendo uma debandada geral. Na verdade, se o deixassem fazer, ele simplesmente se en­carregaria de toda pintura do ateliê. Com a sua incrível energia, seria bem capaz de dar conta do recado. E um grande pintor, sem dúvida nenhuma, conhece seu ofício. E se admira muito. Melhor para ele.

As vezes que o visitei sem avisar, surpreendi-o em pleno trabalho, as obras em curso espalhadas por mesas de trabalho, pranchetas, almofadas: mi­niaturas para mim, quero dizer, para a biblioteca do Nosso Sultão; esboços de trajes pitorescos para esses vergonhosos álbuns de costume que nos ridi­cularizam ante os europeus excêntricos de passagem; uma página de um tríp­tico suntuoso destinado à vaidade de um paxá; cenas para álbuns de imagens e algumas páginas feitas para seu deleite pessoal — sem falar numa cena de fornicação. Comprido e magro, Cegonha ia de uma ilustração a outra como uma abelha entre as flores, cantarolando alguma canção popular, beliscava de passagem a bochecha do aprendiz que preparara as tintas e acrescentava um toque cômico na pintura em que estava trabalhando, antes de mostrá-la a mim com um riso satisfeito. Em vez de, como os outros, interromper o trabalho numa cerimoniosa demonstração de respeito quando eu chegava, exi­bia feliz o vivo resultado daquele talento que Alá lhe deu em profusão e da habilidade que adquiriu trabalhando duro (ele era capaz de fazer o trabalho de cinco ou seis miniaturistas ao mesmo tempo). Pego-me pensando em se­gredo que, se o ignóbil assassino é um desses três pintores, espero que seja ele, Cegonha. Quando ele era meu aprendiz, não posso dizer que vê-lo che­gar à minha porta, toda sexta-feira de manhã, me proporcionava a mesma alegria que meu querido Borboleta.

Como ele dava igual atenção a todos os detalhes, quaisquer que fossem, sem seguir nenhuma lógica precisa, a não ser a de ficar visível, sua posição estética aproxima-o dos europeus. Mas, ao contrário destes últimos, nosso al­tivo Cegonha nunca dá, nem aos rostos nem ao resto, traços reconhecíveis e particulares. Isso sem dúvida porque, em seu desprezo mais ou menos bem disfarçado pelos outros, ele não dá a menor importância à fisionomia deles. Tenho certeza de que seu falecido Tio não lhe confiou a execução do rosto do Nosso Sultão.

Mesmo quando pinta uma cerimônia da mais elevada importância, ele não consegue se impedir de pôr, a certa distância, um cachorro de olhar des­confiado ou um mendigo horroroso, cujo aspecto miserável diminui o es­plendor e a pompa de toda a cena. É tão seguro de si que pode caçoar da sua própria pintura, do seu tema e de si mesmo.

“O assassinato do Elegante Efêndi parece com a maneira como os ir­mãos de José, por inveja, o jogaram no fundo de um poço”, comentou o Ne­gro. “E a morte do meu Tio lembra o assassinato brutal de Khosrow por seu filho, que tinha se apaixonado pela madrasta, Shirin. E todo o mundo diz que Cegonha adora pintar cenas atrozes de batalha e carnificina.”

“Imaginar que um pintor se parece com o tema que pinta é não enten­der como somos. O que nos revela é muito menos o tema das nossas obras, que é determinado por quem as encomenda e que quase nunca varia, do que a sensibilidade que passamos discretamente com a nossa maneira de tratá-lo: uma luz que parece emanar das profundezas da imagem, a contenção ou a impetuosidade que caracterizam uma composição de árvores, personagens ou cavalos, a nostalgia ou o desejo que expressa a silhueta, alongada para o céu, de um cipreste solitário, ou também a paciência, a renúncia que intro­duzimos no desenho dos azulejos das paredes, cujos motivos são complicados a seu bel-prazer pelo pintor, a ponto de lhe custar a vista... São esses nos­sos sinais distintivos, e não todos aqueles cavalos que parecem se repetir in­definidamente. Quando um pintor representa o furor e a rapidez de um ca­valo, não pinta seu próprio furor e sua rapidez. Ao tentar pintar o cavalo perfeito, ele revela seu amor à riqueza deste mundo e a seu criador, utilizan­do as cores da paixão pela vida. Somente isso e nada mais.”

42. Meu nome é Negro

Várias páginas manuscritas estavam espalhadas diante de mim e do Gran­de Mestre Osman, algumas com o texto caligrafado e prontas para serem en­cadernadas, algumas ainda não coloridas, ou inacabadas de uma forma ou outra, sei lá por que razão; nós avaliávamos os mestres miniaturistas, as pági­nas do livro do meu Tio e fazíamos nossos comentários. Pensávamos que não veríamos aparecer outros guardas do Jardineiro-Mor — muito grosseiros em aparência, mas respeitosíssimos —, que nos haviam trazido as páginas encon­tradas ao revistarem as casas dos três pintores (boa parte do material recolhi­do por eles não tinha nada a ver com nossos livros, mas confirmava de forma irrefutável o vil comércio clandestino que eles faziam do seu belo talento), quando apareceu mais um, o mais despachado de todos, que se dirigiu ao ilustre mestre e lhe entregou uma folha de papel que tirou da cintura.

De início não prestei atenção, pensando tratar-se de uma dessas cartas de um pai que, desejando colocar o filho na escola do Grande Ateliê, fazia chegar às mãos do maior número possível de chefes de repartição e agás da Porta. A pálida luz que agora filtrava na sala através dos respiradouros me fez perceber que o sol matinal tinha sido encoberto. Para descansar os olhos, eu praticava o método indicado pelos antigos mestres de Shiraz aos miniaturistas que queriam conservar sua vista além de certa idade: esforçava-me para olhar ao longe, sem fixar nada de preciso. Foi então que reconheci, com um tremor, a cor suave e as adoráveis dobras da carta que Mestre Osman exami­nava com uma atenção mesclada de incredulidade. Parecia, demasiadamen­te aliás, com as cartas que Shekure me mandava por intermédio de Ester. Eu ia exclamar como um bobo “que coincidência!”, quando pude notar que havia com ela, como na primeira mensagem de Shekure, um desenho feito em papel ordinário!

Mestre Osman guardou o desenho e entregou-me a carta, que logo com­preendi, não sem embaraço, ser mesmo de Shekure.



Meu caro marido Negro,

Mandei Ester conversar com a viúva do nosso falecido Elegante Efêndi, Kalbiye, para saber o que havia com ela. Kalbiye mostrou-lhe então a pá­gina ilustrada que envio com esta. Eu mesma fui mais tarde à casa de Kalbiye e fiz tudo o que estava a meu alcance para persuadi-la de que ela tinha todo interesse em me dar o desenho. Esta página foi descoberta no corpo do pobre Elegante Efêndi, quando foi removido do poço. Kalbiye jura que ninguém nunca encomendou a seu falecido marido — que ele descanse na luz divina — nenhum desenho de cavalos. Nesse caso, quem os desenhou? Os homens do Jardineiro-Mor revistaram a casa dele. Se mando esta mensagem, é porque esses cavalos certamente são importan­tes. As crianças beijam as suas mãos. Sua esposa, Shekure.

Reli três vezes, com devoção, as três últimas palavras da carta — três ro­sas num jardim. Depois debrucei-me sobre a folha desenhada, que Mestre Osman examinava com a lupa. Logo notei que as figuras, muito borradas porque a tinta havia escorrido, eram cavalos desenhados de um só traço de cálamo, à maneira dos antigos mestres.

Mestre Osman, que lera a carta sem reagir, dessa vez perguntou: “Quem desenhou isto?”.

Depois respondeu a si mesmo: “Certamente o mesmo miniaturista que desenhou o cavalo para o livro do seu Tio”.

Como ele podia ser tão taxativo? Além do mais, não estávamos nem um pouco seguros quanto ao autor do cavalo desenhado para o meu Tio. Pegamos esse desenho de volta na série das nove miniaturas, a fim de observá-lo mais atentamente.

Era um simples cavalo alazão, mas tão bonito que não dava para tirar os olhos dele. Estava sendo sincero ao dizer isso? Eu havia tido mais de uma oportunidade para admirá-lo em companhia do meu Tio e, de fato, devo con­fessar que não me detive tanto assim nele, então. Sim, era um belo animal mas sem nada de extraordinário. Tão ordinário que nem conseguíamos iden­tificar seu autor. O pêlo era cor de castanha ou de tâmara, um pouco doura­do, com uma pontinha à-toa de vermelho. Eu tinha visto tantos cavalos as­sim em tantos outros livros e em tantas outras miniaturas, que sabia que este havia sido desenhado maquinalmente, sem que o miniaturista parasse para pensar.

Tínhamos até então olhado para este cavalo com a convicção íntima de que ele ocultava um segredo. Mas ainda estávamos subjugados pela impres­são de força que dele emanava, como um sutil halo de beleza e de vida inte­riores, que se difundia trêmulo ante nossos olhos, até abarcar todo o espaço. “Quem será o miniaturista que tem um toque assim mágico, para pintar este cavalo da maneira que Alá o veria?”, eu me perguntava esquecendo-me de que se tratava de um ignóbil assassino. Porque o cavalo estava ali, diante dos meus olhos, como um cavalo de verdade, mesmo se uma parte do meu espí­rito soubesse que ele era desenhado. E essa oscilação entre as duas idéias pro­duzia na minha alma uma sensação estranha, fascinante, de plenitude e de perfeição.




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