Meu nome é Vermelho



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Comparando por um momento os esboços borrados daquela folha com o cavalo executado com mestria para o livro do meu Tio, pudemos concluir, com toda a certeza, que o autor era o mesmo. A pose altiva daqueles vigoro­sos e elegantes garanhões sugeria mais o repouso que o movimento. Observan­do o que fora feito para o meu Tio, eu era tomado pela mesma fascinação.

“Que cavalo magnífico”, comentei. “Dá vontade de pegar uma folha, copiá-lo e, depois, desenhar tudo o mais que há no mundo.”

“O melhor elogio que se pode fazer a um artista é dizer que ele nos in­sufla a paixão de pintar também”, disse Mestre Osman. “Mas, agora, vamos deixar de lado o talento dele, que é um ser diabólico, e tratemos de desco­brir sua identidade. Seu Tio nunca disse que gênero de história esta imagem deveria ilustrar?”

“Não. Para ele, tratava-se de representar um cavalo como os que Nosso Poderoso Sultão possui em todo o seu império. Um belo cavalo, um cavalo de raça otomana. Um símbolo que desse ao doge de Veneza uma idéia das riquezas do Nosso Sultão e das terras sob seu poder. Mas, por outro lado, es­se cavalo tinha de ser, como tudo o que os mestres venezianos pintam, mais natural do que um cavalo nascido da visão de Alá — um cavalo como os que a gente vê em Istambul, com seu cavalariço e sua baia numa estrebaria, de modo que, ao vê-lo, o doge dissesse consigo mesmo: ‘Assim como os minia­turistas otomanos acabaram vendo o mundo como nós, os próprios otoma­nos também acabaram por se parecer conosco’, e aceitasse portanto o poder e a amizade do Nosso Sultão. Porque pintar um cavalo de outra maneira é começar a ver o mundo com outros olhos. Mas, apesar dessa originalidade, este cavalo é de um estilo bem fiel à antiga escola.”

Quanto mais conversávamos sobre o cavalo, mais bonito e precioso ele se tornava para mim. Seus beiços entreabertos deixavam perceber a ponta da língua; seus olhos brilhavam; suas ancas eram ao mesmo tempo robustas e elegantes. Um desenho fica famoso por seu próprio mérito ou pelos méri­tos que lhe atribuímos? Enquanto isso, Mestre Osman continuava impertur­bável a examinar o cavalo com a lupa.

“O que este cavalo tenta nos dizer?”, perguntei ingenuamente. “Por que ele existe? Com que fim? Por que parece tão admirável?”

“As miniaturas, tal como os livros encomendados por sultões, xás e pa­xás, servem para proclamar sua força e seu poder”, respondeu Mestre Os­man. “Eles admiram nossas obras, com sua abundância de folhas de ouro e as incontáveis horas de trabalho que nos exigem e que às vezes nos custam a vista, porque elas são a prova da sua opulência. A beleza do desenho é signi­ficativa porque demonstra que o talento do miniaturista é tão raro e dispen­dioso quanto o ouro usado na criação da pintura. Mas outros admiram um cavalo numa miniatura, num livro, porque ele se parece com um cavalo de verdade ou com a sua imagem na visão de Alá. O efeito da semelhança é cre­ditado ao talento. Para mim, a beleza de uma pintura está na sutileza e na profusão de significações. E, é claro, adivinhar atrás deste cavalo a mão do assassino, a marca do Demônio, só aumenta o significado desta imagem. Mas há outra coisa também, que é descobrir, além da beleza da imagem, a beleza do próprio cavalo; ou seja, ver a imagem do cavalo não como uma ima­gem, mas como um verdadeiro cavalo.”

“O que o senhor vê, quando olha para esta pintura como se estivesse olhando para um cavalo?”

“Pelas suas proporções, não é um pônei das Cíclades. A julgar pelo com­primento e pela curva do seu pescoço é um cavalo de boa raça, e a linha re­ta da sua seladura atesta que é bom para longas cavalgadas. Sua perna com­prida e fina aparenta-o aos puros-sangues árabes, mas difere deles pelo lombo, que é mais comprido e largo. Se confiarmos no que Ibn Fadlan, de Bukha­ra, diz das boas montarias no seu Tratado das doenças dos eqüídeos, a elegân­cia das suas patas deixa prever que atravessaria convenientemente um rio, sem recuos nem passarinhadas bruscas. Eu me lembro perfeitamente do que ele diz dos melhores cavalos nesse mesmo tratado, tão bem traduzido em turco por nosso grande veterinário, Fuyuzi, e posso afirmar que cada deta­lhe se aplica ao alazão que aqui temos: ‘Um bom cavalo tem uma cabeça bo­nita e olhos de gazela; suas orelhas são retas como caniços, com uma boa distância entre elas; tem dentes pequenos, testa saliente, sobrancelhas finas; é alto, de crina longa, narinas miúdas, espáduas igualmente pequenas, enquanto seu dorso é largo e reto; a anca é cheia, o pescoço alongado, o pei­to amplo e a parte superior dos membros anteriores bem carnuda. Nos obstá­culos, que ele salta com garbo, admiraremos a elegância; no passo de estra­da, ele dirige graciosamente, à direita e à esquerda, cumprimentos de cabeça’.”

“É exatamente este!”, exclamei, fixando extasiado a imagem do cavalo.

“Identificamos nosso cavalo”, prosseguiu Mestre Osman, não sem uma ponta de ironia, “mas isso, infelizmente, não nos ajuda muito na identifica­ção de quem o pintou. Porque eu tenho certeza de que nenhum miniaturis­ta são de espírito tomaria como modelo um cavalo real. Não preciso dizer que meus artistas pintam de memória, de um só gesto. Prova disso, lembre-se, é que a maioria deles começa a desenhar o cavalo da ponta de um dos seus cascos.”

“Não é para pôr em evidência a firmeza do seu apoio no chão?”, sugeri timidamente.

“Como escreveu Djamaluddin, de Kazvin, no seu Tratado sobre pintu­ra de cavalos, só é possível acabar o desenho de um cavalo partindo do casco conhecendo-se previamente, de cor, todos os demais detalhes. Ora, é bem sabido que um cavalo pintado à força de muita reflexão ou puxando demais pela memória, ou, mais ridículo ainda, tomando como modelo um cavalo vivo, progredirá da cabeça ao cangote e daí ao resto do corpo. Parece que os venezianos fazem comércio de ilustrações representando, com um toque in­certo, qualquer pangaré encontrado na esquina para vendê-las a alfaiates e açougueiros. Essas ilustrações não têm nada a ver com o significado do mun­do ou com a beleza das criaturas divinas. Mas estou convencido de que eles também sabem que uma obra autêntica não se baseia na observação de ne­nhum cavalo em determinado momento, e sim na mestria que a mão adqui­re e memoriza. O pintor está sempre sozinho diante do papel. Isso implica que ele sempre depende da sua memória. Só nos resta pois o ‘método da aia’ para determinar que assinatura secreta pode trazer nosso desenho, cuja li­nha foi claramente feita de um só traço. Olhe bem aqui...”

Sua lupa continuava percorrendo, sempre com a mesma lentidão, o ma­ravilhoso cavalo meio borrado, como se procurasse um tesouro num velho mapa rabiscado em um pergaminho.

“Sim”, disse eu com o tom de um aluno ansioso por resolver rapidamen­te um problema difícil, a fim de impressionar seu mestre. “Poderíamos compa­rar os motivos e as cores empregadas na manta com os das outras miniaturas.”

“Meus mestres miniaturistas não se rebaixariam a fazer esse gênero de detalhes. Como os tapetes, as roupas e os panos das tendas, é um trabalho de aprendiz. No máximo, quem sabe, o falecido Elegante Efêndi... Mas dei­xemos esse detalhe de lado.”

“E as orelhas?”, apenas sussurrei. “As orelhas dos cavalos.”

“Não. As orelhas não mudam de forma desde a época de Tamerlão. São como folhas de caniço, todos sabemos.”

“E o trançado, os fios da franja pintados detalhadamente?”, eu já ia di­zendo, mas calei-me, farto daquele jogo de professor e aluno. Se sou um aprendiz, tenho de saber qual é o meu lugar.

“Olhe bem aqui”, disse Mestre Osman, com o ar preocupado de um médico mostrando a um colega o bubão de um empestado. “Está vendo?”

Ele havia movido sua lupa sobre a cabeça do cavalo e, agora, levantava-a lentamente para regular o aumento. Debrucei-me sobre a página para enxergar melhor o que a lente ampliava.

O focinho do cavalo tinha uma peculiaridade: suas narinas.

“Está vendo?”, repetiu Mestre Osman.

Para ter certeza do que eu via, pus-me exatamente no eixo da lupa; e como Mestre Osman teve o mesmo reflexo, nossos rostos se tocaram. Quase sobressaltei com o contato frio e rugoso da sua barba e do seu rosto.

Ficamos calados. Era como se alguma coisa fabulosa se produzisse ali a um palmo dos nossos olhos cansados, alguma coisa de que só pouco a pou­co tomávamos consciência.

“O que há com estas narinas?”, acabei perguntando num murmúrio.

“São desenhadas de uma forma esquisita”, respondeu Mestre Osman sem erguer os olhos do papel.

“O pincel escorregou? Será um erro do autor?”

Não parávamos de examinar o desenho estranho, peculiar, das narinas do cavalo.

“É desse ‘estilo’ inspirado nos venezianos que todo o mundo, até os gran­des mestres da China, deram de falar?”, perguntou Mestre Osman num tom de galhofa.

Fiquei ressentido, achando que ele estava zombando do meu falecido Tio: “Meu Tio, descanse em paz, dizia que um erro que não provém de uma falta de habilidade ou talento, mas emana do interior da alma do artista, dei­xa de ser um erro e se torna um estilo”.

Em todo caso, venham de onde vierem, da mão do artista ou do próprio cavalo, aquelas narinas eram o único indício a nos pôr na pista do ignóbil as­sassino do meu Tio. De fato, fora as narinas, mal dava para discernir as cabe­ças dos cavalos borrados na página encontrada com o pobre Elegante Efêndi.

Procuramos demoradamente, entre as outras obras recentes dos três mi­niaturistas preferidos do mestre, imagens de cavalos que nos oferecessem o mesmo defeito nas narinas. Como o Livro das festividades, ainda em curso, reproduzia os desfiles das diferentes guildas e corporações — a pé — diante da tribuna do Nosso Sultão, só havia no conjunto de duzentas e cinqüenta miniaturas um pequeníssimo número de cavalos. Sempre com a permissão do Nosso Sultão, foram despachados homens ao prédio que abriga as cole­ções dos livros de imagens, iluminuras e cadernos de esboços, bem como as dependências privadas do Sultão e ao harém, para trazer toda obra que já não estivesse guardada a chave no tesouro do palácio.

Primeiro, numa página dupla do Livro das vitórias encontrado no quarto de um dos jovens príncipes, que representava a cerimônia dos funerais de Suleyman, o Magnífico, durante o cerco de Zigetvar, examinamos a carrua­gem fúnebre, puxada por dois cavalos tristes, cobertos com capas suntuosas e selas adornadas a ouro, um alazão com uma estrela branca na testa e um cavalo cinzento, com olhos de gazela. Borboleta, Oliva, Cegonha, todos eles tinham participado. Tanto a parelha da imponente carruagem de rodas enor­mes, como os que saudavam a procissão com seus olhares úmidos, todos os cavalos, de ambos os lados do pálio vermelho que cobria os despojos de seu amo, ostentavam a mesma atitude altiva e elegante, herdada dos antigos mo­delos de Herat: uma pata anterior erguida, a outra firmemente posta no chão. Todos os pescoços eram longos e bem arqueados, as caudas presas em co­ques e as crinas iguais, bem penteadas. E nenhum deles mostrava o defeito preciso que buscávamos, nem tampouco, de resto, as centenas de outros que serviam de montaria aos comandantes da cavalaria, a doutos sábios ou a mo­destos hodjas, entre a multidão que se apinhava nos morros ao redor para prestar sua derradeira homenagem ao falecido sultão Suleyman.

Parte da tristeza daquele melancólico funeral também nos afetou. E abalava-nos ver que aquele maravilhoso livro, a que Mestre Osman e seus miniaturistas haviam dedicado tanto esforço, tinha sido maltratado, que as mulheres do harém, ao brincar com os príncipes, haviam rabiscado e mar­cado suas páginas aqui e ali. Assim, lia-se numa árvore pertencente ao cená­rio de uma caçada do avô do Nosso Sultão, a inscrição: “Venerado Efêndi, meu amor vos espera tão pacientemente quanto esta árvore solitária”. Por is­so, consultávamos aqueles livros lendários, cuja elaboração, ela própria obje­to de lendas, eu conhecia apesar de nunca os ter visto, com certo desalento.

No segundo volume do Livro dos misteres, que também recebeu o to­que do pincel dos três mestres miniaturistas, vimos atrás da infantaria e das bocas-de-fogo troantes, passando no alto de umas colinas rosadas, centenas de cavalos de todas as cores, inclusive baios, cinzentos e azuis, cujos cavalei­ros, de cota de malha e equipamento completo, faziam formidável estrépito batendo as cimitarras nos escudos, mas nenhum deles tinha narinas imper­feitas. “E, afinal, o que é uma imperfeição!”, exclamou um pouco mais tar­de Mestre Osman, quando examinávamos dessa vez, no mesmo livro, uma página que reproduzia a Porta do Talismã e a Esplanada dos Desfiles, onde por acaso estávamos naquele momento. Também não encontramos a marca nas montarias dos guardas, dos capitães de cavalaria, nem dos secretários do Divã figurados nessa página, que mostrava o hospital, à direita, e a Sala de Audiências, sombreada por árvores pequenas o bastante para caber na mol­dura e grandes o bastante para terem importância aos nossos olhos. Contem­plamos o avô do Nosso Sultão, o sultão Selim, o Cruel, quando declara guer­ra ao soberano de Dulkadir e arma seu acampamento à beira do rio Küskün lançando seus galgos negros de rabo vermelho em perseguição às gazelas de ancas no ar e às lebres fujonas, antes de deixar um leopardo banhando nu­ma poça de sangue rubro, suas manchas desabrochando como flores negras. Tampouco o corcel do padixá, com seu pêlo alazão e a estrela branca na tes­ta, ou, em frente, os cavalos dos falcoeiros emboscados atrás do morro ver­melho mostravam a marca que procurávamos.

Até o cair da noite, passamos em revista centenas de cavalos pintados por Oliva, Borboleta e Cegonha nos quatro ou cinco anos anteriores: os três garanhões de Mehmet Giray, cã da Criméia, um negro, o outro dourado, o terceiro um alazão malhado, com suas orelhas elegantes; os cavalos de com­bate, com pelagem rosada ou cinzenta, de que só se vêem a cabeça e o pes­coço do lado de lá da crista da serra; e toda a cavalaria de Haydar Paxá, que partira para retomar dos espanhóis a fortaleza de Halqulwad, na Tunísia; e, diante dela, as montarias dos infiéis, que fogem a todo galope, vermelho dou­rado, verde pistache, uma delas caindo de cabeça, numa confusão total; um cavalo negro que fez Mestre Osman dizer: “Não tinha percebido este. Quem será que fez um trabalho tão ruim!”; um cavalo vermelho virando as orelhas respeitosamente para o alaúde que um pajem real dedilhava debaixo de uma árvore; Shabdiz, o cavalo de Shirin, tímido e elegante como ela, aguardando paciente à beira do lago em que ela se banha ao luar; os pesados cavalos mon­tados nas justas de lança; o impetuoso corcel e seu belo estribeiro, que fez Mestre Osman dizer: “Amei-o muito em minha juventude, agora estou can­sado”; a égua alada, flamejante como o sol, que Alá enviou ao profeta Elijah, para salvá-lo de um ataque dos pagãos (as asas, por engano, tinham sido postas em Elijah); o puro-sangue cinzento de Suleyman, com sua cabeça pe­quenina e seu corpo maciço, que olha com amor e tristeza para o jovem im­perador; cavalos desembestados; cavalos a galope; cavalos esfalfados; belos cavalos; cavalos que ninguém notava; cavalos que nunca sairiam daquelas páginas; e cavalos que saltam fora da moldura ornamentada, escapando do seu confinamento.

Nenhum trazia a assinatura que buscávamos.

E, no entanto, apesar do cansaço e da decepção que se abatia sobre nós, nosso ardor não diminuía. Mais de uma vez esquecemos nossa busca para nos perder em adoração ante a profundidade de uma miniatura e a magnifi­cência das cores. Mestre Osman as contemplava — algumas eram de sua la­vra — com mais nostalgia do que admiração. “Esta é de Kasim, o Kasim do distrito de Kasim Paxá!”, disse a certa altura, apontando para um gramado roxo no qual estava montada a tenda de campanha vermelho-guerreiro de Suleyman, o Magnífico. “Não era em absoluto um mestre, mas durante qua­renta anos preencheu os espaços vazios com flores, sempre as mesmas, sem­pre perfeitas, até sua morte súbita há dois anos. Era sempre a ele que eu con­fiava esse gênero de flores, porque nisso ele não tinha igual.” Calou-se um instante e por fim exclamou: “Que pena, que pena!”. Senti com toda a mi­nha alma que ele falava de um mundo que já não existia.

A escuridão quase já nos envolvera quando um raio de luz inundou a sala. Sobreveio um burburinho. Meu coração disparou, porque compreendi que era ele, o Senhor do Mundo, Sua Excelência Nosso Sultão, que acaba­va de entrar. Prosternei-me a seus pés e beijei a orla da sua veste. Minha ca­beça girava, eu era incapaz de olhá-lo nos olhos.

Para dizer a verdade, já fazia um tempo que ele falava com o Grande Mestre Osman. Vendo conversar com Ele o homem ao lado do qual eu ha­via passado todo aquele tempo contemplando as mesmas miniaturas, senti-me invadido por um imenso orgulho. Eu não podia acreditar! Nosso Sultão estava agora sentado no lugar em que eu mesmo estivera e ouvia com toda a atenção, como eu, as explicações do Grande Mestre. Ao lado deles o Tesou­reiro-Mor, o agá dos Falcoeiros e outros personagens, que não pude identifi­car, acompanhavam com os olhos Seus menores gestos e observavam embe­vecidos as miniaturas nas páginas abertas dos livros. Juntando toda a minha coragem, ousei contemplar, um pouco de esguelha, o rosto e até os olhos do nosso Soberano e Senhor do Mundo. Como ele era belo! Que elegância, que distinção! No momento em que meu coração recobrava sua calma, o olhar dele encontrou o meu.

“Eu gostava tanto do seu Tio, Alá o guarde”, disse. Sim, era a mim que Ele se dirigia! A emoção me fez perder parte das suas palavras:

“... uma grande tristeza. Consola-me ver que cada uma das pinturas que ele fez para mim é uma obra-prima. Quando aquele veneziano infiel as vir seu respeito por minha sabedoria será igual ao seu espanto. Agora, resta-lhes descobrir quem é o autor desse cavalo de narinas abertas, senão, embora tal crueldade muito me custe, será necessário submeter todos os mestres minia­turistas, um a um, à tortura.”

“Soberano Protetor do Mundo, Vossa Excelência Meu Sultão”, disse Mestre Osman, “talvez pudéssemos encontrar mais facilmente qual dos meus miniaturistas é o responsável por essa escorregadela do pincel, se mandásse­mos cada um deles desenhar um cavalo numa folha de papel em branco, bem depressa e sem nenhuma história em mente.”

“Só que não se trata de uma escorregadela do pincel, nem de um erro”, notou com muita perspicácia Nosso Sultão.

“Meu Padixá”, respondeu Mestre Osman, “se com esse fim fosse anun­ciado, esta noite mesma, um concurso expressamente promovido por Vossa Alteza e se um guarda visitasse cada um dos Vossos miniaturistas, pedindo-lhes que desenhem rapidamente numa folha em branco um cavalo para es­se concurso...”

Nosso Sultão virou-se para o Jardineiro-Mor lançando-lhe um olhar que queria dizer: “Entendeu?”, depois perguntou:

“Sabem a história do poeta Nizami, sobre concursos, que eu prefiro?”

Uns responderam: “Sabemos”. Outros indagaram: “Qual?”. Outros, eu entre eles, ficaram calados.

“Não é a do concurso dos poetas nem a que opõe pintores da China e do Ocidente a um espelho”, disse o formoso Sultão. “Minha preferida é a dos médicos que rivalizam até a morte.”

Dito isso, deixou-nos bruscamente, a fim de não se atrasar para a prece da noite.

Mais tarde, ao escurecer, depois de sair dos portões do Palácio, eu cor­ria para o meu bairro durante o chamado do muezim, pensando feliz em Shekure, nos meninos e em nossa casa, quando me lembrei com horror da história do concurso dos médicos.

Um dos dois médicos — tradicionalmente representado num traje rosado — que competiam em presença do sultão confecciona uma pílula verde contendo um veneno forte o bastante para matar um elefante, que ele dá ao outro doutor, sempre pintado num cafetã azul. Este último engole a pílula venenosa e, logo em seguida, toma um antídoto de cor azul que preparara pouco antes, exibindo um sorriso de quem não tem nada a temer. Tanto mais que agora era a sua vez de dar ao rival um antegosto da morte. Com a mes­ma displicência e saboreando o prazer de ser a sua vez, colhe uma rosa no meio do jardim e, levando-a aos lábios, recita em voz inaudível um misterio­so poema maléfico dentro das pétalas. Depois, com gestos que denotavam uma extrema confiança, estende a rosa ao rival, para que ele aspirasse seu aroma. A força do poema sussurrado apavora a tal ponto o doutor vestido de rosa que, mal leva ao nariz aquela flor, que não tinha nada além do seu per­fume natural, cai fulminado pelo medo e morre.

43. Chamam-me Oliva

Antes da prece da noite bateram na porta, abri: um bonito rapaz sorri­dente, bem-apresentado e limpo no seu uniforme da guarda do Jardineiro-Mor. Vinha do Palácio e trazia, além da lanterna que projetava em seu rosto mais sombras do que luzes, papel e uma prancheta. Logo me explicou: por ordem do Nosso Sultão, promovia-se um concurso entre os mestres miniatu­ristas para ver quem desenhava o mais belo cavalo ao primeiro esboço. As instruções eram para desenhar, na mesma hora, rapidamente, sentado no chão, sobre a prancheta posta nos joelhos, no espaço delimitado pela mol­dura previamente traçada, o mais belo cavalo do mundo.

Fiz meu convidado entrar. Depois fui correndo buscar meu pincel mais fino, de pêlo de orelha de gato, e tinta. Sentei-me no chão. Perguntei-me: não haveria nessa história algo que pudesse pôr em risco minha vida? Que jogo era esse? Onde estava a armadilha? E, afinal de contas, os velhos mes­tres de Herat não desenharam sempre suas lendárias ilustrações com as tê­nues linhas que correm entre a morte e a beleza?

Eu morria de vontade de desenhar, mas, como sob o efeito do pânico, hesitei em seguir exatamente os antigos mestres.

Olhando para a folha em branco, aguardei um instante, para que meu espírito se livrasse daquela apreensão. Concentrei toda a minha força e a mi­nha atenção para só pensar no magnífico cavalo que ia criar.

Todas as imagens de cavalos que eu havia desenhado ou visto puseram-se a desfilar diante dos meus olhos. Mas um era o mais perfeito de todos. Era um cavalo que ninguém jamais havia conseguido representar e que eu ia de­senhar agora. Eu o fiz surgir no escuro. Tudo o mais se apagou, como se de repente eu me houvesse esquecido de mim, de que estava sentado ali e até do que ia desenhar. Minha mão molhou por si mesma o pincel no tinteiro — a tinta tinha boa consistência. Vamos, mão, traga o maravilhoso cavalo da minha imaginação para este mundo! O cavalo e eu tínhamos nos tornado um só e estávamos prestes a aparecer.

Seguindo minha intuição, escolhi o ponto apropriado dentro da página em branco já margeada. Imaginei o cavalo ali e, de repente:

Antes que eu fosse capaz de pensar, minha mão pôs-se resolutamente em movimento, como por vontade própria — vejam com que graça —, e, girando veloz a partir do casco, desenhou a bonita e fina canela e subiu. Ao curvar-se com a mesma audácia, passando pelo joelho e continuando depres­sa até a base do peito, exultei! Arqueando a partir daí, moveu-se vitoriosa­mente mais alto: que lindo era o peito do animal! O peito estreitou-se para formar o pescoço, exatamente como o daquele cavalo que eu via com os olhos do meu espírito. Sem tirar o pincel da folha, desci pela bochecha che­gando à poderosa boca, que resolvi deixar aberta após pensar um instante de nada; entrei na boca — é assim que vai ser: abra bem a boca agora, meu ca­valo! — e trouxe a língua um pouco para fora. Fiz lentamente o contorno do focinho — não há margem para hesitação! Angulando com segurança pa­ra cima, contemplei por um momento toda a imagem e, quando vi que ti­nha traçado minha linha exatamente como eu a imaginara, esqueci inteira­mente o que estava desenhando, e minha mão fez sozinha, inigualáveis, as orelhas e a magnífica curva do pescoço. Ao desenhar de memória o dorso, minha mão fez uma pausa por conta própria, para deixar as cerdas do pincel beberem no pote de tinta. A anca, a garupa forte e cheia, me encheram de contentamento. Estava completamente absorto no meu desenho. Eu me sentia como se estivesse ao lado daquele cavalo que desenhava, quando co­mecei transbordando de alegria a cauda. Era um cavalo de guerra, um cava­lo de corrida! Dando um nó na cauda e enrolando-a em torno dele, movi-a exuberantemente para cima. Ao desenhar a inserção da cauda e as nádegas, senti um frescor agradável no meu próprio traseiro e no meu ânus. Delicia­do com aquela sensação, completei feliz a esplêndida maciez da coxa, a per­na traseira esquerda que estava levemente atrás da direita e, então, os cascos. Estava assombrado com o cavalo que havia desenhado e com minha mão, que traçara, exatamente como eu havia concebido, a elegante posição da perna dianteira esquerda.




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