Meu nome é Vermelho



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Vocês hão de entender que só lhes conto todas essas coisas porque elas têm relação com meu caso. Bastaria que eu revelasse um só detalhe relacionado ao assassinato em si, para que tudo ficasse claro para vocês e eu deixas­se de ser um assassino sem nome e sem rosto, vagando entre vocês como uma assombração, e me reduzisse ao estado de réu ordinário e confesso, que logo pagaria seu crime com a sua cabeça. Por isso, permitam-me não me alongar muito em cada detalhe e guardar alguns indícios só para mim: tentem des­cobrir quem eu sou baseando-se nas palavras e nas cores que escolho, do mesmo modo que uma pessoa sutil, assim como vocês são, é capaz de en­contrar um ladrão pelas pegadas que ele deixou. Isso nos leva à questão do estilo, tão na moda hoje em dia: um pintor tem, pode ter um estilo pessoal, uma cor e como que uma voz particular?

Tomemos uma miniatura de Bihzad, o maior dos mestres, pai Venerá­vel de todos os pintores. Encontrei esta obra-prima, que se aplica muito bem à minha situação, pois se trata de uma cena de assassinato, nas páginas de um irretocável manuscrito de Herat, de noventa anos atrás, proveniente da biblioteca de um jovem príncipe do Irã, morto numa das implacáveis lutas de sucessão deles, que contava a história de Khosrow e Shirin. Vocês sabem o fim de Khosrow e Shirin, quero dizer, não na versão de Firdusi, mas na de Nizami:

Depois de um sem-fim de agruras e tribulações, os dois amantes se ca­sam, mas o jovem e diabólico Shiruye, filho do primeiro casamento de Khos­row, não ia deixá-los em paz. O príncipe está de olho não só no trono, mas também na jovem esposa de seu pai. O ambicioso Shiruye, sobre o qual Ni­zami escreve: “Seu hálito tem o fedor de uma boca de leão”, maquina um meio de liquidar o pai e tomar seu lugar. Certa noite, ele entra no quarto em que Khosrow repousa ao lado de Shirin, acha a cama tateando na escuridão e transpassa as entranhas do pai com sua adaga. Até raiar o dia, Khosrow der­rama seu sangue no leito nupcial, e acaba morrendo ao lado da bela Shirin, que dorme tranqüilamente.

Esse quadro do grande mestre Bihzad, tanto quanto o próprio conto, ex­prime o terrível medo que carreguei dentro de mim anos a fio: o pavor de acordar no meio da noite e perceber a presença de alguém. Você ouve seus ruídos quase imperceptíveis enquanto avança no negrume do quarto. Imagi­na-o empunhando uma adaga e, com a outra mão, já agarrando você pela garganta. As paredes artisticamente decoradas, os ornamentos da janela e da sua moldura, os arabescos do tapete, de um vermelho estridente como o grito que se abafa na sua garganta estrangulada, e a incrível profusão de flores amarelas e lilás — tão minuciosa e alegremente pintadas — na magnífica coberta bordada que os pés sujos do seu assassino amarfanham enquanto ele o mata, todos esses elementos tendem para um mesmo fim: ao mesmo tem­po que exaltam a beleza do quadro que você contempla, eles lembram não apenas a beleza do quarto em que você agoniza, mas a beleza deste mundo que você deixa. Ao admirar essa imagem, logo fica claro o sentido fundamen­tal do quadro: a indiferença deste mundo e das belezas da pintura diante de sua morte, e sua solidão absoluta ao morrer — mesmo com uma bela esposa a seu lado.

“É um Bihzad”, me dizia, vinte e cinco anos atrás, o velho mestre ao ver comigo aquele livro que eu segurava com a mão trêmula. O rosto dele esta­va iluminado, não pela vela ali junto de nós, mas pelo prazer de contemplar a obra. “É tão Bihzad, que nem precisa de assinatura.”

E como Bihzad tinha plena consciência disso, não ocultou sua assina­tura em nenhum canto do quadro. O velho mestre via nisso um sinal de pu­dor e de modéstia. O artista que possui um verdadeiro talento e um autênti­co virtuosismo é capaz de pintar obras-primas inigualáveis, sem deixar um só vestígio da sua identidade.

Como eu temia por minha própria vida, executei minha infeliz vítima num estilo, se ouso dizer, ordinário e grosseiro. Essas questões de estilo ocu­pam cada vez mais meus pensamentos, desde que passei a voltar todas as noi­tes ao terreno baldio, para ver se não deixei algum indício que, por causa de minhas obras, possa me trair. Na verdade, essa coisa que é venerada como estilo nada mais é que a imperfeição ou a falha que revela a mão culpada.

Mesmo sem a claridade difusa da neve caindo, eu poderia encontrar, entre as ruínas das casas incendiadas, o local em que assassinei aquele que foi meu colega ao longo de vinte e cinco anos. A neve apagou, encobrindo-os, os vestígios visíveis que teriam podido ser minha assinatura. Isso prova que Alá está de acordo com Bihzad e comigo mesmo nessa questão do estilo e da assinatura. Porque se colaborar para aquele livro nos houvesse de fato tornado culpados, ainda que sem sabermos, de um crime inexpiável — co­mo aquele imbecil havia afirmado quatro dias antes —, Alá, naquela noite, não teria demonstrado tanta benevolência para conosco, os pintores.

Naquela noite, ainda não nevava quando entrei no terreno baldio com o Elegante Efêndi. Ouvíamos ao longe os uivos dos cães respondendo-se.

“Por que viemos aqui?”, perguntou o infortunado. “O que você quer me mostrar a uma hora destas?”

“Mais adiante há um poço, e a doze passos dele um tesouro que enter­rei há muitos anos”, respondi. “Se você guardar segredo de tudo o que lhe contei, o Tio Efêndi e eu mesmo saberemos mostrar-lhe a nossa gratidão.”

“Devo entender que desde o começo você sabia o que estava fazendo?”, ele perguntou, agitado.

“Sim”, menti, como se me custasse confirmar.

“Você sabe que o quadro que vocês estão executando é um grande pe­cado?”, indagou, ingenuamente. “Uma heresia e um sacrilégio inauditos? Vocês vão arder no fundo do Inferno e seus tormentos horríveis não terão fim. E ainda querem fazer de mim seu cúmplice?”

Ouvindo-o dizer isso, senti com pavor que suas palavras tinham tama­nha força e gravidade que muita gente era capaz de se convencer delas, na esperança de que se mostrassem verdadeiras aplicadas a outros miseráveis mas não a eles. Aliás, rumores detratando desse modo o Tio Efêndi não pa­ravam de correr, estimulados por causa do tal livro secreto que ele estaria preparando e das somas que ele estaria disposto a pagar — e também por­que Mestre Osman, o Grande Iluminador, o detestava. Eu até disse a mim mesmo que talvez nosso irmão iluminador, o Elegante, tenha usado esses fa­tos com a hipócrita intenção de sustentar suas falsas acusações. Como saber se ele era sincero?

Forcei-o a repetir as críticas que ele proferia de maneira tão perigosa pa­ra nosso bom relacionamento. Ele carregou nas tintas. Tão eloqüente quan­to outrora, quando éramos aprendizes e ele me pedia para não revelar ao Grande Mestre Osman esta ou aquela bobagem que ele cometera, para es­capar de uma surra. Naquela época, nunca duvidei da sua sinceridade. Por­que não só ele arregalava aqueles mesmos olhos inocentes, mas estes ainda não haviam encolhido pela metade de tanto trabalhar nas iluminuras. Mas eu não ia me enternecer, tanto mais que ele estava disposto a revelar tudo a todo o mundo.

“Escute aqui”, eu lhe disse afetando exasperação, “nós iluminamos as páginas, realçando-as com ouro e mil cores, ornamos as margens, traçamos linhas e alegramos com a mesma perfeição um estojo ou o painel de um ar­mário; fazemos isso há anos, é nossa profissão; fazem-nos encomendas, orde­nando que pintemos um navio, um cabrito-montês, um sultão, dentro de uma moldura com margens de determinado tipo, que requerem certo tipo de passarinho ou de homens, que ilustremos tal cena da história com tais personagens. E nós executamos. Mas desta vez, veja só, o Tio Efêndi me pe­diu para desenhar um cavalo ‘que viesse de mim’. Passei então três dias desenhando, a partir dos modelos dos grandes mestres antigos, centenas de cava­los, a fim de compreender o que significava um cavalo ‘que viesse de mim’.”

Acabei mostrando ao Elegante uma série de cavalos traçados a lápis, co­mo exercício, numa folha do pesado papel de Samarcanda. Ele pegou a fo­lha com interesse e pôs-se a examiná-la ao luar, aproximando-a dos olhos. Lembrei-lhe o que afirmavam os antigos mestres de Shiraz e Herat: que para pintar um cavalo tal como ele é visto e desejado por Alá, é preciso passar cin­qüenta anos desenhando cavalos. Diziam também que o melhor desenho de cavalo deve ser feito na mais completa escuridão, porque o mestre autên­tico, ao cabo de cinqüenta anos de trabalho, estará totalmente cego mas sua mão terá memorizado o animal.

A expressão inocente em seu rosto, a mesma que eu conhecia desde a nossa infância, dizia-me que ele estava completamente absorto na contem­plação dos meus cavalos.

“Fazem a encomenda, e nós tentamos desenhar o cavalo mais misterio­samente perfeito, conforme os velhos mestres faziam. Só isso. E injusto eles nos responsabilizarem por algo além das ilustrações.”

“Não sei se você tem razão”, disse ele. “Nós também temos uma respon­sabilidade, uma vontade. Quanto a mim, não temo ninguém, somente Alá. Ele nos deu a razão para que saibamos distinguir o bem do mal.”

Era uma resposta adequada.

“Alá vê tudo e sabe tudo...”, citei em árabe. “Ele saberá que você e eu fizemos esse trabalho sem ter consciência do que fazíamos. A quem você quer denunciar o Tio Efêndi? Não entende que por trás dessa obra está Nos­so Venerado Sultão?”

Silêncio.

Eu me perguntava se ele era de fato um bufão ou se seu temor a Alá era mesmo tamanho que o levara a perder toda compostura e a disparatar.

Paramos à beira do poço. Na escuridão, entrevi vagamente seu olhar e compreendi que ele estava com medo. Tive piedade dele. Mas já era tarde demais para isso. Pedi a Alá que me enviasse um sinal de que aquele homem diante de mim era, além de um covarde, um canalha.

“Cave a terra, a doze passos daqui.”

“E depois, o que vai fazer?”

“Vou explicar tudo ao Tio Efêndi. Ele queimará os desenhos. Que mais podemos fazer? Se essa história chegar aos ouvidos dos fanáticos de Nusret Hodja de Erzurum, é o nosso fim e do Grande Ateliê. Você conhece algum dos erzurumis? Pegue logo o dinheiro, para que tenhamos a certeza de que você não vai nos denunciar.”

“Quanto tem?”

“Vinte e cinco moedas de ouro venezianas num pote de pepinos em conserva.”

Os ducados de Veneza eram fáceis de explicar, mas não sei por que me veio à cabeça a idéia do pote de pepinos em conserva. Era tão ridículo que parecia verdade. Foi assim que compreendi que Alá estava comigo e tinha me enviado um sinal. Meu velho companheiro de aprendizado, que com o passar dos anos fora ficando cada vez mais cobiçoso, já começara a contar todo excitado os doze passos na direção indicada.

Duas coisas me passaram então pela mente. Primeiro, já que não há um só ducado veneziano nem nada do gênero enterrado aqui, se eu não lhe der o dinheiro, esse cretino vai certamente trazer nossa ruína. Por um instante pensei em abraçar aquele idiota e beijá-lo no rosto, como às vezes fazia quan­do éramos aprendizes, mas os anos nos haviam afastado tanto um do outro! Perguntei-me também com que ele ia cavar. Com as unhas? Mas esses dois pensamentos, se assim se pode chamá-los, não duraram mais que um piscar de olhos.

Em pânico, peguei com cautela uma grande pedra que havia ao lado do poço. E, alcançando-o no sétimo ou oitavo passo, golpeei-o na nuca com toda a minha força. Acertei-o tão rápida e violentamente, que tive um sobres­salto, como se minha cabeça é que tivesse sido golpeada, e cheguei até a sen­tir a dor.

Mas, para não me angustiar com o que eu havia feito, quis terminar o trabalho o mais depressa possível. Ele já começara a se debater no chão e eu entrava cada vez mais em pânico.

Só bem depois de tê-lo atirado no fundo do poço é que reparei que ha­via no meu ato uma grosseria em nada condizente com a imagem refinada que se tem de um miniaturista.

5. Eu sou o vosso Tio

Eu sou o Tio materno do Negro, mas muita gente também me chama de Tio. Houve uma época em que sua mãe fez questão que ele se dirigisse a mim como Tio Efêndi, depois todo o mundo, não só ele, passou a me cha­mar assim. Ele começou a freqüentar nossa casa trinta anos atrás, quando morávamos naquela rua escura e úmida atrás do Palácio Branco, sombreada pelos castanheiros e as tílias. Se no verão eu ia para o campo com Mahmud Paxá, quando voltava no outono para Istambul descobria que o Negro e sua mãe tinham se instalado em nossa casa. Sua mãe, descanse em paz, era a ir­mã mais velha da minha pranteada esposa. Às vezes também, quando eu vol­tava para casa nas noites de inverno, encontrava sua mãe e a minha abraça­das, queixando-se juntas das nossas desgraças. O pai do Negro, que dava aulas em pequenas escolas religiosas, nunca conseguia ficar muito tempo no mes­mo posto, por ser violento, colérico e ter um fraco pelo álcool. O Negro ti­nha seis anos na época e chorava ao ver sua mãe soluçar, ficava quieto quan­do a via emudecer e olhava para mim, seu Tio, com medo.

Alegra-me constatar que ele se tornou um adulto seguro de si e um so­brinho respeitoso. Esse respeito que ele atesta por mim, sua maneira de me beijar a mão, de me dizer, por exemplo, “exclusivamente para o vermelho”, quando me deu aquele tinteiro mongol que me trouxe de presente, sua pos­tura educada e cuidada, joelhos juntos, quando se senta diante de mim, tudo isso me faz lembrar, e aliás é o que ele quer me mostrar, que já é um homem maduro, ponderado, e que eu me tornei o ancião Venerável que aspirava ser.

Ele se parece com o pai, que vi uma ou duas vezes: grande e magro, com movimentos nervosos, mas convenientes, das mãos e dos braços. Sua maneira de pousar as mãos nos joelhos, de olhar atentamente nos meus olhos com ar de quem diz: “Entendo, sou todo ouvidos”, quando digo algo impor­tante, o menear da sua cabeça num ritmo misterioso que parece marcar mi­nhas palavras, tudo é perfeito. Na idade a que chego, sei que o verdadeiro respeito não vem do coração, mas procede de uma junção entre a observân­cia de pequenas regras e a deferência.

Durante esses anos em que sua mãe, percebendo que havia um futuro para seu filho em nossa casa, trazia-o aqui a qualquer pretexto, sua paixão pelos livros nos aproximou e, segundo a expressão da gente de casa, fiz dele meu “aprendiz”. Expliquei-lhe como um novo estilo havia aparecido em Shiraz, a partir do momento em que tinham começado a pintar a linha de hori­zonte no alto da página. Contei-lhe como o Grande Mestre Bihzad — en­quanto todos os outros representam Majnun, louco de amor por Leila, vagando abandonado pelo deserto, barba e cabelos hirsutos — conseguiu, ao contrá­rio, sublinhar muito melhor sua solidão situando-o no meio de uma multi­dão de mulheres à entrada das tendas em que estas cozinham e assopram ra­minhos secos para atiçar o fogo. Mostrei-lhe o ridículo em que incorrem a maioria dos pintores que, não tendo lido Nizami, escolhem como bem lhes parece, na cena em que Khosrow observa Shirin banhando-se nua num lago à meia-noite, as cores para o pêlo dos cavalos e a roupa dos personagens, fazendo-lhe ver que não há razão alguma para pagar ao pintor mais que o pre­ço do seu cálamo e do seu pincel, se ele não se der ao trabalho de ler e en­tender.

Regozijei-me ao ver que o Negro havia compreendido muito bem a prin­cipal regra das artes e da pintura: que não se deve considerá-las uma vulgar profissão, sob pena de se expor a desilusões. Por maior que sejam o talento e o senso artístico que alguém tenha, é melhor que busque o lucro e o reco­nhecimento fora da arte, para que não venha abandoná-la se não for recom­pensado à altura dos seus dons e do seu trabalho.

Ele me contou que os pintores e os calígrafos de Tabriz, a quem conhe­ceu pessoalmente quando preparava livros destinados aos paxás, aos ricos se­nhores de Istambul e potentados das províncias, viviam miseráveis e deses­perados com sua sorte. E que não apenas em Tabriz, mas também em Mechhed e Alepo, essa pobreza e a indiferença dos que os contratavam aca­baram levando um grande número de pintores a abandonar a pintura de ma­nuscritos e passar a produzir simples desenhos de uma só página, imagens indecentes ou monstros para divertir os viajantes vindos da Europa. Ele ou­viu dizer que o livro oferecido a nosso soberano pelo xá Abas, por ocasião do tratado de paz, teria sido desmontado e as miniaturas reutilizadas para outra obra. Já Akbar, o sultão das Índias, teria resolvido gastar fortunas numa nova grande obra, de modo que os pintores mais brilhantes de Tabriz e de Kazvin largaram seu trabalho no ponto em que estava e foram para sua corte.

Contando-me essas histórias, ele introduzia agradavelmente algumas anedotas, por exemplo, a divertida história da vinda de um falso mahdi, ou me fazia rir ao descrever o embaraço dos safávidas quando o principezinho débil mental que eles entregaram em refém aos uzbeques como garantia da paz pegou uma forte febre e morreu três dias depois. Mas pela sombra que passava por seu rosto compreendi que o dilema que ele não abordava e que nos deixava tão apreensivos estava longe de se ver resolvido.

Naturalmente, o Negro, como qualquer outro jovem que freqüentava nossa casa, que tinha ouvido o que se dizia a nosso respeito ou que sabia, mesmo vagamente, da minha linda filha, Shekure, tinha se apaixonado por ela. Na época, não achei que fosse sério o suficiente para merecer minha atenção — afinal, todo o mundo se apaixonava por minha Shekure, a mais linda de todas as moças, mesmo quem nunca tinha posto os olhos nela. A aflição do Negro era a paixão arrebatadora de um malfadado rapaz que ti­nha livre acesso à nossa casa, era bem aceito e querido e que, portanto, ti­nha o privilégio de ver Shekure em pessoa. Mas ele não foi capaz de manter oculto seu amor, como eu esperava, e, em vez disso, cometeu o erro de reve­lar sua incontida paixão por minha filha.

Em conseqüência, foi preciso pôr fim às suas visitas.

Creio que também sabe que, três anos depois de ele ter ido embora de Istambul, minha filha, na flor da idade, casou-se com um tenente da cavalaria, e este, depois de lhe fazer dois filhos, cismou de ir para a guerra, da qual nunca mais voltou, e há quatro anos ninguém tem notícias suas. Digo a mim mesmo que ele deve saber disso tudo não só por meio do diz-que-diz que cor­re solto pela cidade, mas também pelo que ele pode ler em meus olhos nos momentos de silêncio. Mesmo quando se mantém debruçado sobre o Livro da alma aberto no leitoril, sinto que aguça os ouvidos para a voz das crian­ças correndo pela casa e sabe que minha filha voltou a morar aqui com seus dois pimpolhos há dois anos.

Eu e ele nunca abordamos o tema da casa nova que construí durante a sua ausência. É bem provável que o Negro, como qualquer rapaz determi­nado a se tornar um homem rico e prestigiado, considerasse uma descorte­sia abordar esse assunto. No entanto, quando ele veio a casa pela primeira vez, comentei enquanto subíamos a escada que, como o segundo andar era bem mais seco, ter me instalado ali aliviou um bocado minhas dores lomba­res. Ao falar no “segundo andar”, senti aliás certo incômodo, mas deixem-me lhes dizer uma coisa: em breve, gente com muito menos dinheiro do que eu, até mesmo um simples militar com seus magros benefícios, poderá cons­truir uma casa de dois andares.

Estávamos no quarto de porta azul que utilizo como ateliê no inverno e senti que o Negro adivinhava a presença de Shekure no aposento ao lado. Sem mais tardar, abordei a razão essencial da carta que lhe mandei a Tabriz convidando-o a voltar para Istambul.

“Estou dirigindo a feitura, por pintores e calígrafos, de um livro de mi­niaturas, exatamente como você fazia em Tabriz. Meu cliente é ninguém menos que nosso Venerado Sultão, Pilar do Universo. Como é uma obra que deve permanecer confidencial, Nosso Sultão me remunera com seus fundos secretos, por intermédio do Tesoureiro-Mor. Eu me entendi com cada um dos melhores artistas do Grande Ateliê do Nosso Sultão. Pedi a um deles pa­ra pintar um cachorro, outro uma árvore, outro nuvens no horizonte para ornar uma margem, outro os cavalos. Eu queria que as coisas que pedi para pintar figurassem todo o mundo do Nosso Sultão, como nos quadros dos mes­tres venezianos. Mas, nem é preciso dizer, em vez de ressaltar os bens e as riquezas materiais, como fazem os venezianos, eram sobretudo as riquezas interiores, as alegrias e os temores do reino sobre o qual Nosso Sultão exerce seu poder que deviam ser representados. Se mandei pintar ouro, foi para me­lhor condená-lo, e o Diabo e a Morte eu pus como exemplos dos nossos temores. Não sei nem quero saber de que falam os fuxicos. O que eu queria era que a árvore, com sua folhagem imortal, o cavalo, em seu cansaço, e até os cães, com todo o seu despudor, representassem nosso soberano e seu rei­no na terra. Também pedi a meus ilustradores, a quem dei os apelidos de Ce­gonha, Oliva, Elegante e Borboleta, que escolhessem temas a seu gosto; e mesmo nas mais frias e inóspitas noites de inverno, sempre um dos pintores do nosso Sultão aparecia secretamente aqui em casa para me mostrar o que havia preparado para o livro.

“Que tipo de imagens estamos fazendo e por que elas são como são, por ora eu não saberia dizer. Não que eu queira esconder alguma coisa de você. A verdade é que eu mesmo não sei direito o que essas miniaturas significam. Mas sei, isso sim, que tipo de imagens elas têm de ser.”

Fiquei sabendo, pelo barbeiro da minha antiga rua, da volta do Negro a Istambul quatro meses depois de ter enviado minha carta, e convidei-o à mi­nha casa. Eu sabia que o relato que ia lhe fazer estabeleceria entre nós esse gênero de vínculo que a alegria ou a pena prometem.

“Toda imagem conta uma história”, disse a ele. “Para embelezar um li­vro, o pintor deve escolher a mais bela cena de cada história. O primeiro en­contro dos amantes; o herói Rustam cortando a cabeça de um monstro de­moníaco; a dor do mesmo Rustam ao perceber que o estrangeiro que ele matou era seu próprio filho; Majnun, o louco de amor, perdido na natureza selvagem e desértica, no meio de veados, chacais, tigres e leões; Alexandre na floresta, lendo o futuro no vôo dos pássaros, antes de uma batalha: sua tristeza ao ver uma águia dilacerando uma narceja. Nossos olhos, cansados de ler as histórias, distraem-se com as imagens. E se alguma coisa, numa his­tória, cria uma dificuldade para nossa inteligência ou para nossa imagina­ção, a imagem vem nos socorrer: as imagens são a história florescendo em cores, mas uma pintura sem uma história que a acompanhe é inimaginável!

“Inimaginável, pelo menos era o que eu acreditava”, acrescentei como que me lamentando. “Mas era realizável, sim. Dois anos atrás, voltei a Vene­za como embaixador do Sultão. Lá, eu sempre ia ver os retratos que os mes­tres venezianos pintavam. Sem saber que história e que cena eles ilustravam, eu tentava adivinhar a história a partir da imagem. Até o dia em que fiquei paralisado diante de um desses quadros, pendurado na parede de um palácio. Tratava-se, antes de mais nada, da imagem de uma pessoa, alguém como eu. Um infiel, evidentemente, não um de nós; e, no entanto, olhando para ele, eu me sentia seu semelhante. Ele não se parecia em nada comigo, por sinal: seu rosto era redondo e mole, sem os pômulos salientes, sem o me­nor sinal da minha imponente mandíbula. Não se parecia comigo portanto, e no entanto, diante daquele quadro, eu sentia meu coração alvoroçar-se co­mo se aquele retrato fosse o meu.

“Soube pelo dono da casa, que me mostrava o palácio, que aquele re­trato na parede era de um dos seus amigos, membro ilustre, como ele, de uma das grandes famílias de Veneza. Ele mandara representar naquele qua­dro tudo o que lhe era importante na vida: no fundo, pela janela, via-se uma fazenda numa paisagem, uma aldeia e uma floresta que, graças à mistura de cores empregada, parecia de verdade. Em cima da mesa, no primeiro plano, um relógio, livros, o tempo, o mal, a vida, uma pena, um mapa, uma bússo­la, um baú com moedas de ouro, bugigangas, todo um bricabraque, uma porção de coisas indecifráveis e ao mesmo tempo distintas, que provavelmen­te também eram incluídas em outros retratos, sombras de djins e do Demô­nio. E, por fim, ao lado do pai, uma moça de uma beleza estonteante.




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