Meu nome é Vermelho



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Levantei a mão da página e desenhei celeremente os olhos coruscantes e melancólicos; com um breve momento de hesitação, fiz as narinas e a se­la. Fiz o sombreado da crina fio a fio, como se a penteasse amorosamente com meus dedos. Provi o animal de estribos, acrescentei uma estrela branca na testa e completei-o devidamente com os culhões e uma verga ardente e de bom tamanho, mas tudo perfeitamente em harmonia com o desenho.

Quando desenho um cavalo magnífico, torno-me esse magnífico cavalo.

44. Chamam-me Borboleta

Creio que foi na hora da prece da noite. Vieram me dizer que o Sultão havia anunciado um concurso. Às suas ordens, amado Sultão! De fato, quem poderia fazer melhor que eu a mais bela imagem de um cavalo?

Mas, ao saber que devia ser um desenho ao cálamo e tinta preta, sem usar cores, hesitei. Por que não cores? Só porque sou o que melhor as esco­lhe e as aplica? E quem vai decidir qual o melhor desenho? Interrogando o bonito rapaz, de ombros largos e lábios rosados, que veio do Palácio, tive a intuição de que por trás daquilo estava o Grande Mestre Iluminador. Mestre Osman, sem sombra de dúvida, conhece meu talento e, de todos os mestres miniaturistas, sou seu preferido.

Então, enquanto eu fitava a folha em branco, a pose, a atitude, o ar do cavalo que agradaria ao Sultão e a Mestre Osman vinham ao mundo pouco a pouco, diante dos meus olhos. O cavalo tinha de ser vivo, mas sério, como os que Mestre Osman fazia dez anos atrás, e devia estar empinando à manei­ra que sempre agradava Nosso Sultão, pois que era para agradar os dois. E quantas moedas de ouro iam dar de prêmio? Como Mir Musavvir teria feito este desenho? E Bihzad?



De repente, o animal veio à minha mente com tamanha rapidez que, quando entendi o que era, a danada da minha mão já havia agarrado o pin­cel e começado a desenhar o cavalo milagroso, de uma maneira que nin­guém seria capaz de imaginar, a partir da perna dianteira erguida no ar. De­pois de juntar velozmente a perna ao corpo, fiz duas curvas com rapidez prazer e confiança — se vocês tivessem visto, teriam dito: este artista não é um desenhista, é um calígrafo! Eu olhava extasiado para a minha mão, que se movia como se fosse a mão de outro. Aquelas curvas maravilhosas torna­ram-se o amplo ventre do cavalo, o peito sólido e o pescoço esbelto como o de um cisne. Pronto, ali estava meu cavalo! Ah, que talento me possui! Vi então minha mão traçar o focinho e a boca aberta do forte e exultante ani­mal, fazer a testa inteligente, as orelhas. Depois, novamente, olhe, mamãe, como é bonito, desenhei lepidamente outra curva, como se estivesse com­pondo uma letra, e por pouco não desandei a gargalhar. Precipitei-me para baixo numa curva perfeita, do pescoço do meu corcel empinando à sua sela. Minha mão cuidava da sela enquanto eu olhava orgulhoso para o meu cava­lo, que agora ganhava existência, com um corpo robusto e redondo, não mui­to diferente do meu. Todo o mundo ficaria pasmo com este cavalo. Pensei nas doces palavras que Nosso Sultão diria quando eu ganhasse o prêmio; ele me presentearia com uma bolsa cheia de moedas de ouro; e eu tinha vontade de gargalhar de novo, ao me imaginar contando-as em casa. Bem nesse ins­tante, minha mão, que eu espiava com o canto do olho, acabou a sela, levou meu pincel ao pote de tinta e voltou, para eu começar a anca, rindo como se tivesse contado uma piada. Delineei vivamente a cauda. Que suave e ar­redondado eu fiz o traseiro, dava vontade de pegá-lo na concha das mãos co­mo se fossem as nádegas delicadas de um garoto que eu estivesse a ponto de enrabar. Enquanto eu sorria, minha mão hábil terminava a perna traseira, e meu pincel parava: era o mais lindo cavalo empinando que o mundo já co­nheceu. Eu não cabia mais em mim de satisfação, pensando, feliz, em co­mo apreciariam o meu cavalo, como iriam me declarar o mais talentoso dos miniaturistas e até como iriam anunciar, na mesma hora, que seria eu o Gran­de Mestre do Ateliê. Imaginei o que mais aqueles idiotas iriam dizer: “Co­mo ele desenhou depressa, parecia até que estava brincando!”. Fiquei preo­cupado com que só por isso eles não levassem minha maravilhosa ilustração a sério. Então, fiz meticulosamente a crina, as narinas, os dentes, os fios da cauda e a manta, nos mais ínfimos detalhes, para que não restasse dúvida de que eu havia de fato trabalhado a imagem. Dessa posição, isto é, da lateral traseira, os testículos do cavalo seriam bem visíveis, mas não os pus, porque poderiam dar maus pensamentos às mulheres. Estudei orgulhosamente meu cavalo: empinando, movendo-se como uma tempestade, forte e poderoso! Era como se o vento houvesse levantado e posto em movimento pinceladas elípticas, como as letras de uma linha de escrita, embora o animal estivesse em perfeito equilíbrio. Eles apreciariam o esplêndido miniaturista que fez essa ilustração tanto quanto um Bihzad ou um Mir Musavvir e, então, eu se­ria igualado a eles.

Quando desenho um cavalo magnífico, torno-me um grande mestre do desenho de cavalos.

45. Chamam-me Cegonha

Quando eu ia saindo para o café, depois das preces da noite, disseram-me que havia uma visita na porta. Boas novas, esperei. Fui ver e encontrei um mensageiro do Palácio. Ele explicou o concurso do Sultão. Ótimo, o mais bonito cavalo do mundo. É só me dizerem quanto pagam por cada um, e eu desenho rapidamente cinco ou seis.

Não respondi assim, fui mais prudente, e convidei o pajem a entrar em casa. Pensando melhor, não via bem o que era para desenhar: o mais bonito cavalo do mundo não existe. Posso desenhar cavalos de batalha, cavalos mon­góis enormes, puros-sangues árabes, cavalos agonizantes, cobertos de sangue, ou um infeliz cavalo de tiro, puxando uma carroça cheia de pedras, mas nin­guém poderia dizer que eram o mais bonito cavalo do mundo. Naturalmente, entendo que por “o mais bonito cavalo do mundo” Nosso Sultão quer dizer o mais esplêndido de todos os cavalos já pintado milhares de vezes na Pérsia, respeitando todas as fórmulas, modelos e poses tradicionais. Mas por quê?

Claro, há muita gente que não quer que eu ganhe a bolsa de ouro. Se fosse para desenhar um cavalo qualquer, é bem sabido que ninguém seria capaz de competir comigo. Quem será que engabelou Nosso Sultão? Nosso soberano, a despeito de todas as intrigas que os invejosos põem em circulação, sabe muito bem que sou eu o mais talentoso dos seus miniaturistas. Ele admira meus trabalhos.

De repente, minha mão pôs-se furiosamente em ação, como se quisesse se elevar acima de todas essas considerações irritantes e, num esforço con­centrado, desenhei um cavalo de verdade, começando pela ponta do casco. Vocês podem ver um assim nas ruas ou numa batalha. Cansado, mas firme. Depois, no mesmo impulso de furor, desenhei outro, de um sipaio, e este fi­cou melhor até. Nenhum dos miniaturistas do ateliê era capaz de desenhar animais tão belos. Eu já ia desenhar outro de memória, quando o pajem do Palácio disse: “Basta um”.

Ele ia levando a folha, mas detive-o, porque eu sabia muito bem, tanto quanto sei meu nome, que aqueles patifes se recusariam a me dar uma bolsa de moedas de ouro por aqueles cavalos.

Se eu ilustrar do jeito que me agrada, eles não vão me dar o ouro! Se eu não ganhar o ouro, meu nome vai ficar manchado para sempre. Parei para pensar. “Espere um pouco”, disse ao rapaz. Fui lá dentro e voltei com duas moedas de ouro venezianas, tão brilhantes quanto falsas, e dei-as ao rapaz. Ele ficou assustado, seus olhos se arregalaram: “Você é valoroso como um leão”, falei.

Peguei um dos cadernos de modelos que mantenho escondidos dos olhos dos outros. Era neles que eu vinha fazendo em segredo, ao longo dos anos, cópias das mais belas miniaturas que se pode conseguir, sem falar nas que Djafar, um anão da guarda do Tesouro, em troca de dez moedas de ouro, es­tá sempre disposto a trazer para você admirar: árvores, dragões, pássaros, ca­çadores e guerreiros, encontrados nas mais belas, preciosas e inacessíveis pá­ginas dos volumes ali trancados. Meu caderno é excelente, não para os que gostariam de ver nas pinturas e ilustrações o mundo real em que vivem, mas para os que querem recordar o mundo das lendas e dos antigos mestres.

Folheei-o, mostrando as imagens ao pajem, e escolhi o melhor cavalo. Fiz rapidamente com um alfinete uma série de furinhos no contorno da fi­gura, e pus uma folha em branco sob o modelo. Salpiquei uma boa quanti­dade de pó de carvão na folha de cima, depois a sacudi de modo que o pó passasse pelos furos. Retirei o modelo. O pó de carvão transferira, ponto a ponto, toda a silhueta do magnífico cavalo para a folha de baixo. Dava pra­zer em ver.

Peguei o cálamo. A inspiração jorrou de repente: liguei elegantemente os pontos com traços rápidos e decididos e, à medida que ia desenhando seu ventre, o gracioso pescoço, o focinho, a anca, eu sentia apaixonadamente o cavalo dentro de mim. “Pronto”, disse. “O mais lindo cavalo do mundo. Ne­nhum daqueles idiotas seria capaz de fazer um igual.”

Para que o rapaz do Palácio também pensasse assim e pudesse explicar ao Nosso Sultão quão inspirado eu estava ao fazer esse desenho, dei-lhe mais três moedas falsas. Deixei claro que lhe daria outras mais, caso eu ganhasse o ouro. Sem contar que também pensava, creio eu, que assim poderia espiar mais uma vez minha mulher, que ele havia entrevisto boquiaberto. Muita gente acha que dá para saber se um miniaturista é bom pelos cavalos que de­senha; mas, para ser o melhor miniaturista, não basta fazer o melhor cavalo, é preciso além disso convencer Nosso Sultão e sua roda de cretinos que vo­cê, de fato, é o que melhor os faz.

Quando desenho um cavalo magnífico, eu sou o que sou, nada mais.

46. Serei chamado Assassino

Vocês conseguiram descobrir quem sou eu a partir de como desenhei o cavalo?

Assim que ouvi dizer que tinha sido convidado a desenhar um cavalo, compreendi que não se tratava de um concurso: queriam me pegar através da minha ilustração. Sei perfeitamente que um dos inúmeros esboços eqües­tres que fiz foi encontrado no corpo do pobre Elegante Efêndi. Mas ele não contém nenhum defeito, nenhuma marca de estilo que lhes permita dedu­zir minha identidade. Disso tenho a mais absoluta certeza. E, não obstante, o tempo todo que fazia o desenho que me pediam senti certa inquietação. Será que fiz alguma coisa capaz de me incriminar ao desenhar o cavalo para o Tio? Eu tinha de fazer outro cavalo dessa vez. Pensei então em coisas com­pletamente diferentes. “Refreei-me” e tornei-me outro.

Mas quem sou eu? Um artista que renunciaria às obras-primas que sou capaz de produzir para me adequar ao estilo do ateliê, ou um artista que, um dia, pintaria triunfalmente o cavalo que traz no fundo de si?

Percebi de repente, aterrorizado, a existência desse miniaturista triun­fante dentro de mim. Era como se eu estivesse sendo espiado por outra alma e, em poucas palavras, sentisse vergonha.

Logo compreendi que não conseguiria ficar em casa e saí, para cami­nhar a passos largos pelas ruas escuras. O sheik Osman Baba escreveu, no seu Livro das precauções, que o verdadeiro dervixe errante, para se livrar do Diabo que traz dentro de si, tem de vagabundear a vida inteira, sem nunca se estabelecer; mas que, depois de vagar de cidade em cidade por sessenta e sete anos, ele acaba se cansando e se rendendo ao Diabo. E também essa a idade em que os mestres miniaturistas chegam à cegueira, ou escuridão de Alá, a idade em que eles involuntariamente consumam um estilo, ao mes­mo tempo que se libertam de todas as imposições do estilo. Percorri o Mer­cado das Aves no bairro de Bajazet, a praça vazia do Mercado de Escravos, em meio ao cheiro gostoso de sopa e de arroz-doce, como se estivesse à pro­cura de alguma coisa. Passei pelas portas fechadas das barbearias, das lavan­derias, de um velho padeiro que contava seu dinheiro e que olhou surpreso para mim, por um armazém recendendo a legumes em conserva e peixe sal­gado. Mais adiante, meus olhos foram atraídos pelas cores de uma loja de er­vas e especiarias, entrei: o comerciante pesava alguma coisa, e à luz da lâm­pada contemplei com paixão, como alguém que olha para o ser amado, os sacos de café, gengibre, açafrão e canela, as latas coloridas de goma de mas­car, o anis cujo aroma exalava do balcão, os montículos de cominho casta­nho e negro. Às vezes me dava vontade de enfiar tudo na boca; às vezes ti­nha ganas de encher uma página com uma pintura daquilo tudo.

Entrei no lugar em que já havia matado a fome duas vezes na última se­mana e que eu chamava de “sopa dos oprimidos” — dos “miseráveis” seria mais apropriado, a bem da verdade. Ficava aberto até o meio da noite para os que sabiam da sua existência. Lá dentro havia uns poucos desventurados vestidos como ladrões de cavalos ou como homens que haviam escapado das galés; um par de personagens patéticos cujo infortúnio e desespero lhes dava um olhar de quem gostaria de ir-se deste mundo para paraísos distantes, co­mo o dos fumantes de ópio; dois mendigos de causar vergonha a seus pró­prios colegas; e um rapaz distinto sentado num canto, à distância daquela tur­ba. Dirigi um gracioso cumprimento ao cozinheiro sírio, depois enchi meu prato de trouxinhas de repolho, regando-as generosamente com coalhada e pimenta vermelha, antes de ir me instalar ao lado do rapaz de família.

Ê assim, todas as noites: a tristeza e a infelicidade tomam conta de mim. Oh, irmãos, queridos irmãos, estamos sendo envenenados, estamos apodrecendo, morrendo, estamos nos esgotando com essa vida, estamos afundados até o pescoço na miséria... Certas noites, sonho que ele sai do poço e vem em minha direção, mas eu sei que nós o enterramos bem fundo, debaixo de muita terra. Ele não pode levantar do túmulo.

O jovem cavalheiro, que pensei estar com o nariz enterrado na sopa e esquecido do resto do mundo, puxou conversa. Seria um sinal de Alá? “Sim”, respondi, “cozinharam a carne no ponto certo, o repolho recheado estava uma delícia.” Perguntei sobre ele: acabava de fazer vinte anos e, tendo saído recentemente do colégio, começava seu aprendizado como escriturário a serviço de Arifi Paxá. Não perguntei por que ele não estava, naquelas horas da noite, em casa do seu paxá, na mesquita ou em seu lar, nos braços da es­posa amada, em vez de ali, naquela espelunca ordinária apinhada de soltei­rões celerados. Ele quis saber quem eu era e de onde vinha. Pensei um pouco.

“Eu me chamo Bihzad, venho de Herat via Tabriz. Pintei as mais lin­das miniaturas, as obras-primas mais perfeitas. Na Pérsia e na Arábia, em to­dos os ateliês em que se fazem livros à oriental, com o correr dos séculos dei origem a um dito: ‘Parece real como um trabalho de Bihzad’.”

Não é assim, claro. Minha pintura mostra o que nossa alma, e não nos­sa vista, vê. Mas a pintura, como vocês sabem muito bem, também é uma festa para os olhos. Se vocês conciliarem essas duas idéias, meu mundo emer­girá. Isto é:

Alif: A pintura dá vida ao que o espírito vê, numa festa para os olhos. Lam: O que os olhos vêem no mundo passa para a pintura na medida em que serve ao espírito.

Mim: Por conseguinte, a beleza é o olhar descobrindo neste mundo o que o espírito já conhece.

Será que meu jovem recém-formado havia acompanhado, com seu cé­rebro de vinte anos, essa lógica que um lampejo de inspiração fizera crepi­tar nas trevas da minha alma? Certamente não. Por quê? Porque, quando vo­cê passou três anos sentado diante de um hodja que dá aulas numa escola corânica de subúrbio a vinte moedas de prata por dia — vale dizer, hoje em dia, vinte pães —, você ainda não tem a menor idéia de quem era Bihzad. Porque é óbvio que o hodja de vinte pratas também não sabe quem ele era. Pois bem, eu explico:

“Eu pintei tudo, absolutamente tudo. Nosso Profeta na mesquita, dian­te do nicho verde, sentado com seus quatro califas. Em outro livro, o Após­tolo e Profeta de Alá subindo os sete céus na noite da Ascensão; Alexandre a caminho da China, batendo no gongo de um templo à beira-mar para espan­tar um monstro que agitava o oceano com suas tempestades; um sultão que se masturba ao som de um alaúde, espiando as beldades do seu harém nada­rem nuas em sua piscina; um jovem lutador certo da sua vitória depois de aprender todos os golpes do seu adversário, pois este tinha sido seu mestre, mas que será derrotado por ele em presença do sultão, porque o mestre guar­dara em segredo um derradeiro golpe; Leila e Majnun crianças, ajoelhados numa escola de paredes refinadamente ornamentadas, apaixonando-se en­quanto recitavam o Venerável Corão; a dificuldade que têm os enamorados, dos mais tímidos aos mais ousados, de olhar um para o outro; a construção pedra por pedra dos palácios; a punição pela tortura de um culpado; o vôo das águias; coelhos brincalhões; tigres traiçoeiros; ciprestes e plátanos sem­pre com alguma pega empoleirada; a morte; um concurso de poesia; o ban­quete em comemoração de uma vitória; e gente como você, que não enxer­ga nada além do prato de sopa que tem diante do nariz.”

O jovem escriturário já não estava tão reservado e, sempre atento mas já sem nenhum temor, sorria para mim com um ar divertido.

“Seu hodja deve ter te dado para ler, imagino, a célebre história de amor do Roseiral de Saadi, sabe qual é, quando o rei Dario se perde do seu séqui­to durante uma caçada e sai vagando pelas colinas. De repente, um estranho de cavanhaque e ar ameaçador surge diante dele. O rei se assusta e pega seu arco no flanco do cavalo, mas o desconhecido implora: ‘Não dispares tua fle­cha contra teu escravo! Não reconheces aquele a quem confiaste tuas cente­nas de cavalos e potros? Quantas vezes, porém, nos encontramos! Eu conhe­ço cada um desses animais por seu caráter e seu temperamento, e até por suas cores. Como é possível que tu prestes tão pouca atenção em nós, teus humildes servidores, mesmos os que tu vês com tanta freqüência?’.

“Quando pinto essa cena, ponho tanta felicidade e tanta serenidade nos cavalos negros, alazões e brancos, de que o cavalariço cuida com tanto cari­nho naquele pasto de um verde paradisíaco, abundantemente florido de todas as cores, que o mais apalermado dos leitores, ao ver a imagem, logo com­preende o sentido da lenda contada por Saadi: a beleza e o mistério deste mundo se revelam no afeto, na atenção, no interesse e na compaixão. Se vo­cê deseja viver no Paraíso onde vivem éguas e garanhões felizes, saiba abrir bem seus olhos e observar o mundo prestando a maior atenção às cores e aos detalhes, inclusive os mais curiosos.”

Aluno laborioso de um hodja medíocre, meu ouvinte parecia ao mes­mo tempo divertido e desconcertado. Eu o assustava. Ele bem que gostaria de largar sua colher e correr dali, mas não lhe dei tal oportunidade.

“É assim que o mestre dos mestres, Bihzad, pintava um rei, um cavalariço e seus cavalos”, prossegui, “e é esse modelo que há cem anos os miniaturistas que pintam cavalos não param de seguir. Assim, cada animal saído do fundo do coração e da imaginação de Bihzad, depois de pintado por ele, transforma­va-se em exemplo. Somos centenas de miniaturistas, e eu um deles, capazes de reproduzi-los de cor. Você já viu alguma vez um cavalo desenhado?”

“Um dia eu vi um cavalo alado, num livro de magia que um grande e sapientíssimo hodja deu a meu falecido pai.”

Eu não sabia se enfiava em seu prato de sopa a cara daquele paspalhão que, como seu hodja, levara a sério o Bestiário prodigioso, e o afogava, ou se o deixava descrever com palavras apaixonadas o único desenho de cavalo que ele já vira na vida — nem ouso imaginar em que cópia ordinária! Escolhi uma terceira alternativa: largar minha colher e sair daquele lugar.

Depois de andar bastante, cheguei por fim ao convento abandonado dos dervixes, onde reencontrei uma sensação de paz. Pus um pouco de ordem e sentei-me para escutar o silêncio.

Mais tarde, fui tirar meu espelho do esconderijo e coloquei-o de pé, em cima de uma escrivaninha baixa. Depois pus na prancheta, instalada no meu colo, uma folha dupla de papel e, quando pude ver de onde estava sentado meu rosto no espelho, comecei a desenhar meu retrato a carvão. Desenhei por muito tempo, pacientemente. Quando, bem mais tarde, constatei que meu rosto no papel não se parecia com o meu rosto no espelho, fiquei tão triste que as lágrimas brotaram em meus olhos. Como será que faziam aque­les pintores venezianos de que o Tio tanto me falou? Tentei então me ima­ginar como um deles, achando que, se desenhasse nesse estado de espírito, talvez pudesse fazer um auto-retrato convincente.

Ainda mais tarde, amaldiçoei todos os pintores europeus, e o Tio com eles, apaguei o que havia feito e recomecei meu trabalho ao espelho.

Por fim, dei comigo vagando outra vez pelas ruas, depois num café no­jento. Nem sei direito como fui parar lá. Ao entrar, eu me senti tão incomo­dado no meio de todos aqueles miniaturistas e calígrafos miseráveis que mi­nha testa ficou empapada de suor.

Senti que eles estavam olhando para mim, avisando os outros da minha presença com cotoveladas, rindo de mim — eu podia perfeitamente vê-los agindo assim. Fiquei sentado num canto, tentando me comportar com na­turalidade. Mas ao mesmo tempo meus olhos procuravam entre os presen­tes os outros dois mestres, meus queridos irmãos que foram aprendizes de Mestre Osman ao mesmo tempo que eu. Tinha certeza de que ambos, co­mo eu, tinham recebido naquela noite o pedido de um desenho de cavalo e de que ambos tinham se esforçado ao máximo, por terem levado a sério o concurso inventado por aqueles idiotas.

O satirista efêndi ainda não havia iniciado sua história, nem mesmo pen­durado na parede o desenho daquela noite. Vi-me forçado, portanto, a me aproximar dos freqüentadores do café.

Olhem, vou ser franco com vocês: eu também, como todo o mundo, contribuí com minha cota de piadas, de histórias indecentes, beijando os co­legas com uma efusão tão exagerada quanto incongruente, e cometi infames trocadilhos, insinuações e duplos sentidos, ao indagar sobre o que andavam fazendo os jovens mestres assistentes do ateliê, e soltei farpas ferinas, como todos os outros, contra nossos inimigos comuns. E, quando tomei gosto por aquele jogo, cheguei até a fazer algazarra e a beijar o pescoço de uns ho­mens. Mas eu sabia que uma parte da minha alma permanecia como espec­tadora implacável daquele meu comportamento ignóbil, o que me causava um horrível tormento.

Mas isso não me impediu de fazer um enorme sucesso comparando, nu­ma linguagem figurada e cheia de floreios, meu cacete e os de outros muito falados com pincéis, caniços, colunas de café, flautas, cabeços de cais, aldravas, alhos-porós, minaretes, rolinhos de pão-de-ló em calda, pinheiros... e, duas vezes, em alto e bom som, fiz igual sucesso ao comparar a bunda de uns formosos meninos, de quem muito se falava, com laranjas, figos, doces, almofadas e até cupinzeiros. Enquanto isso, o mais conceituado dos calígrafos da minha idade só conseguia comparar seu instrumento — mas de ma­neira muito amadorística e sem maior convicção, devo acrescentar — com um mastro de navio e uma vara de carregador. Depois fiz alusões ao pinto dos velhos miniaturistas, já incapazes de ficar duros; aos lábios cor de cereja dos novos aprendizes; aos mestres calígrafos que escondem seu dinheiro (co­mo eu também faço) em certo lugar (“no buraco mais nojento”); à reputa­ção dos últimos grandes mestres de Tabriz e Shiraz; à mistura de café com vinho em Alepo; e aos calígrafos e belos efebos que a gente encontra por lá — tudo isso me desculpando um pouco, a pretexto de que teriam posto ópio, em vez de pétalas de rosa, no vinho que eu estava tomando.

Às vezes parece que um dos dois espíritos que tenho dentro de mim sai vitorioso e neutraliza o outro, e eu por fim esqueço aquele meu aspecto taci­turno e mal-amado. Nesses momentos eu me lembro das celebrações dos fe­riados da minha infância, durante as quais eu era capaz de ser eu mesmo no meio dos outros. Aqui, apesar das brincadeiras, dos beijos e abraços, eu sen­tia dentro de mim um silêncio que me fazia sofrer e me deixava solitário en­tre toda aquela gente.

Quem tinha me dotado desse espírito taciturno e implacável — não era um espírito mas um djim —, que não parava de me censurar e me isolava dos outros? Satanás? Mas o silêncio dentro de mim não se aliviava com as grosserias e maldades instigadas pelo Diabo; ao contrário, minha alma só se aplacava com as mais puras e simples histórias.




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