Meu nome é Vermelho



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Para recobrar essa serenidade e, sob o efeito do vinho, contei duas his­tórias. Um aprendiz de calígrafo, comprido e magro, muito pálido mas de bochechas rosadas, ouvia-me com a maior atenção e seus bonitos olhos ver­des fixados em mim.

DUAS HISTÓRIAS SOBRE A CEGUEIRA E O ESTILO QUE O MINIATURISTA CONTOU PARA ALIVIAR A SOLIDÃO DA SUA ALMA



Alif

A idéia de pintar cavalos observando cavalos de verdade não é, como se acredita, uma invenção dos pintores europeus. Nós a devemos ao Grande Mestre Djamaluddin, de Kazvin. Depois da tomada dessa cidade por Has­san, o Alto, à frente da Horda do Carneiro Branco, o velho Djamaluddin não se contentou simplesmente com incorporar-se ao ateliê do cã vitorioso, mas partiu em campanha com ele, proclamando que desejava ilustrar a Gesta do novo soberano com cenas de guerra recolhidas ao vivo. Assim, esse grande artista, que durante sessenta e dois anos pintara cavalos e cavaleiros, comba­tes e formações de combate sem nunca tê-los visto, foi para a guerra pela pri­meira vez. Mas, antes de ter ocasião de assistir em pessoa a um ataque real, com seu estrépito de armaduras e relinchos de cavalos suados, teve as duas mãos e os olhos arrancados por um projétil de canhão. Como todos os ver­dadeiros grandes pintores, Djamaluddin já esperava mesmo a hora de ficar cego — era um sinal da graça de Alá —, e também não lamentou muito a perda das mãos. De fato, ele tinha o costume de sustentar que a memória do artista não reside na mão, mas no coração e na alma, e até declarava que foi só quando ficou cego que pôde enfim contemplar as verdadeiras imagens da natureza, as paisagens e os “verdadeiros cavalos” sem defeitos, como Alá quer que sejam vistos. Para compartilhar essas maravilhas com os amantes da ar­te, contratou um aprendiz, um magro e pálido calígrafo de bochechas rosa­das e belos olhos verdes, a quem ditou como desenhar exatamente os mara­vilhosos cavalos que lhe apareciam na divina escuridão de Alá — como ele próprio os teria desenhado se pudesse segurar um pincel na mão. Depois da morte do mestre, seu método para desenhar trezentos e três cavalos come­çando da perna dianteira esquerda foi compilado pelo belo aprendiz de calígra­fo em três volumes intitulados: A pintura de cavalos, A torrente de cavalos e O amor aos cavalos, que tiveram seu momento de glória e foram muito apre­ciados por certo tempo, pelo menos nas regiões controladas pela Horda do Carneiro Branco. No entanto, embora vários manuscritos tenham circulado, permitindo que numerosos jovens pintores, seus aprendizes e discípulos os aprendessem de cor usando-os como livros de exercício, a lembrança de Dja­maluddin e a sua obra não sobreviveram ao apogeu dos turcomanos e foram eclipsadas pelo brilho da Escola de Herat. A virulência das críticas, tal como a deflagrada contra ele por Kamaluddin Riza, de Herat, em sua refutação, também em três volumes, intitulada Os cavalos do cego, em que diz à guisa de conclusão que aqueles modelos mereciam ser queimados, não foi alheia a esse seu declínio. Kamaluddin Riza sustentava, no fundo, que nenhum dos cavalos descritos nos três livros de Djamaluddin podia ser uma visão divina, dada sua extrema imperfeição e visto que o velho mestre se baseava, para des­crevê-los, em suas próprias lembranças, breves embora, de uma batalha real e de cavalos vivos. Como o tesouro de Hassan, o Alto, fez parte do butim tra­zido para Istambul por Mehmet, o Conquistador, não seria de espantar se eventualmente alguns dos seus trezentos e três escritos aparecessem por aqui no meio de todos esses manuscritos que se amontoam na cidade, e até mesmo se alguns cavalos fossem desenhados de acordo com as instruções ali contidas.

Lam

Em Herat e Shiraz, quando, ao cabo de uma vida de excessivo labor, um mestre miniaturista acabava perdendo a vista, isso era para ele um duplo motivo de glória: não apenas como sinal da sua determinação, mas também como reconhecimento pelo próprio Alá do seu trabalho e do seu talento. Em conseqüência disso houve em Herat uma época em que era malvisto um ar­tista chegar a uma idade avançada sem ficar cego, o que teria levado certo número de velhos pintores a fugir do opróbrio induzindo a própria cegueira. Houve assim um longo período em que os homens reverenciosamente re­cordavam artistas que se cegaram, seguindo os passos dos legendários mes­tres que haviam preferido furar os olhos a trabalhar para outro monarca ou a mudar de estilo. Foi nessa época que Abu Said, neto de Tamerlão pela linha­gem de Miran Xá, introduziu uma nova excentricidade em seu ateliê, de­pois de conquistar Tachkent e Samarcanda: honrar mais a imitação da ce­gueira do que a verdadeira cegueira. Veli, o Negro, o velho artista que inspirou Abu Said, havia afirmado que um miniaturista cego podia ver, do fundo das suas trevas, os cavalos tal como Alá os vê; mas que o verdadeiro talento con­sistia em poder, sem ser cego, enxergar e pintar essa visão dos cegos. Dizem que ele demonstrou isso aos sessenta e sete anos de idade desenhando um cavalo que veio à ponta do seu pincel sem olhar um instante sequer para a folha, apesar de seus olhos terem ficado o tempo todo abertos e fitos no papel. Ao fim dessa cerimônia artística, durante a qual Miran Xá mandara mú­sicos surdos tocarem alaúde e contadores mudos recitarem histórias para se­cundar o legendário mestre em sua proeza, o esplêndido cavalo que Veli, o Negro, havia desenhado foi comparado demoradamente com os outros cavalos que ele tinha feito. Não foi encontrada nenhuma diferença entre eles, para grande contrariedade de Miran Xá. Então o Grande Mestre declarou que um miniaturista em plena posse do seu talento sempre e somente verá cavalos dessa maneira, isto é, da maneira como Alá os percebe. E no caso dos grandes miniaturistas, não há diferença entre os cegos e os videntes: a mão sempre desenharia o mesmo cavalo, porque naquela época ainda não havia essa novidade européia chamada “estilo”. Os cavalos feitos pelo Gran­de Mestre Veli, o Negro, foram imitados por todos os pintores do islã duran­te um período de 110 anos. Ele próprio, após a queda de Abu Said e a disso­lução do seu ateliê, mudou-se de Samarcanda para Kazvin, onde foi acusado, dois anos depois, do sombrio desígnio de atentar contra o versículo corânico segundo o qual “os videntes e os cegos não são iguais”. Começaram por lhe furar os olhos, depois ele foi executado pela Jovem Guarda de Nizam Xá.

Eu estava a ponto de iniciar uma terceira história, contando para o apren­diz de calígrafo de belos olhos como o Grande Mestre Bihzad se cegou, por que ele nunca mais desenhou nada depois que foi levado à força de Herat, cidade de onde nunca tinha desejado sair, para Tabriz, porque o estilo de um pintor é o estilo do ateliê a que ele pertence, e muitas outras histórias mais que eu ouvira de Mestre Osman. Mas o contador de histórias me cha­mou à parte: como é que eu soubera que ele ia contar a história do Diabo aquela noite?

“É que foi o Diabo o primeiro a dizer ‘Eu’“, tive vontade de responder. “Só o Diabo tem um estilo, e é o Diabo que distingue o Oriente do Ocidente!”

Fechei os olhos e desenhei no papel ordinário do satirista a imagem do Diabo, tal como meu coração mandava. Enquanto eu desenhava, o satirista e seu ajudante, os outros artistas e os curiosos, todos riam e me incentivavam.

Vocês acham que eu tenho meu próprio estilo ou é ao vinho que eu o devo?

47. Eu, o Diabo

Adoro o cheiro da pimenta vermelha fritada no azeite, a chuva que cai ao raiar do dia no mar calmo, a aparição furtiva de uma mulher à janela, o silêncio, a reflexão, a paciência.

Acredito em mim e a maior parte do tempo não dou bola para o que possam falar de mim. Mas esta noite vim sentar-me neste café, com a inten­ção de me dirigir a nossos irmãos miniaturistas e calígrafos e desmentir cer­tos mexericos, mentiras e inverdades.

Claro, como sou eu que falo, vocês já estão propensos a crer no contrá­rio do que eu disser. Mas vocês são astutos o bastante para adivinhar que o contrário do que digo nem sempre é verdade e para pressentir todo o inte­resse do que posso dizer de sensato, mesmo desconfiando de mim. Afinal de contas, meu nome, que aparece nada menos de cinqüenta e duas vezes no Venerável Corão, é um dos mais citados.

Comecemos justamente pelo livro de Alá, o Venerável Corão. Tudo o que aí está dito a meu respeito é verdade. Faço questão de que saibam que estou falando com toda humildade ao afirmar isso. O problema está é na for­ma. A maneira como o Corão me rebaixa sempre me magoou muito. Mas essa mágoa é meu modo de viver. É assim, e pronto.

É verdade, Alá criou o homem diante dos nossos olhos de anjos. Depois pediu que nos inclinássemos diante dele, homem. E é verdade que, como ensina a surata A vaca, enquanto todos os outros anjos se inclinavam, eu me recusei a fazê-lo, porque objetei que Adão foi feito de barro, enquanto eu fui criado a partir do fogo, um elemento muito mais nobre, como todos vocês sabem. Não me humilhei, e Alá achou-me orgulhoso.

“Desça do Céu”, disse ele. “Aqui não há lugar para quem tem sonhos de grandeza, como você.”

“Deixe-me em troca viver até o Dia do Juízo”, repliquei, “até o dia em que os mortos se levantarão.”

Ele concedeu. Jurei então que tentaria para sempre os descendentes de Adão, por causa do qual fui castigado, e Ele disse que mandaria para o Infer­no todos os que eu conseguisse corromper.

Inútil dizer que mantive a palavra. Acho que não tenho muito a acres­centar sob esse aspecto.

Alguns sustentaram que, naquela ocasião, Alá e eu fizemos um pacto. Segundo eles, eu seria para Alá um ministro de que ele se serviria para testar os homens, e minha função seria preparar-lhes armadilhas. Os bons tomam a decisão correta e seguem no bom caminho, enquanto os maus se deixam vencer por seus desejos carnais e caem em pecado, enchendo depois as pro­fundezas do Inferno. O que realizo é importantíssimo, porque, se todos fos­sem para o Paraíso, ninguém nunca teria medo, e como o mundo e os Esta­dos nunca poderiam ser regidos unicamente com base na virtude... De fato, o mal é tão necessário quanto o bem, e o vício tanto quanto a virtude. Co­mo os planos do Todo-Poderoso se realizam na minha presença, como ajo sempre com seu aval (por que, então, ele teria deixado que eu vivesse até o Juízo Final?), é meu tormento secreto ser sempre acusado de “mau” e nun­ca ter o reconhecimento a que faço jus. Gente como o místico Mansur, o Cardador, ou Ahmad, irmão mais moço do célebre imã Gazali, chegaram, por esse raciocínio, à conclusão de que, se os pecados sugeridos por mim são cometidos com a permissão e de acordo com a vontade de Alá, é que eles são o que Alá deseja, logo não são nem bons nem maus, porque emanam do Altíssimo, de que também sou parte.

Alguns desses desmiolados receberam com toda justiça a morte na fo­gueira, acompanhados de seus livros. Porque, é claro, o bem e o mal existem, e a responsabilidade de traçar o limite que os separa cabe a cada um de nós. Não sou Alá, não permita Ele, e não fui eu que pus tais absurdos na ca­beça desses obtusos: eles pensaram assim por conta própria.

Isso me faz chegar à minha segunda objeção. Eu não sou a fonte de to­do o mal, de todos os pecados do mundo. Com muitíssima freqüência, as pessoas não precisam ser provocadas, nem persuadidas, nem induzidas ao erro para cometer o pecado: elas o cometem por simples tolice ou infantili­dade, por serem incapazes de superar suas fraquezas, seus apetites e suas re­les cobiças. Se certos escritos sufistas são ridículos em seus esforços para me absolver de toda malignidade, também o é essa opinião que me atribui toda a culpa, contradizendo o Venerável Corão. Não sou eu que inspiro o frutei­ro quando ele vende conscientemente ao freguês maçãs podres, nem a crian­ça que diz mentiras, nem os vis bajuladores, nem as nojentas obsessões dos velhos, nem a masturbação dos jovens. Se bem que Alá, lá em cima, não ache nada ruim que ponham a culpa em mim por estes dois últimos casos.

Claro, eu me esforço o máximo para que vocês cometam pecados, mas os hodjas que escrevem que os peidos, os bocejos e os espirros de vocês são instigados por mim não entendem nem um pouco o que sou.

Deixe-os continuar sem compreender você, assim poderá enganá-los mais facilmente — vocês poderiam sugerir. É verdade. Mas devo lembrar que te­nho meu orgulho e que foi essa, por sinal, a causa principal da minha queda. Embora eu possa assumir todas as formas imagináveis e embora em incontá­veis livros esteja registrado dezenas de milhares de vezes que eu tentei com sucesso muitos homens pios, especialmente sob o agradável aspecto de uma bela e atraente mulher, poderiam meus irmãos miniaturistas aqui presentes esta noite me explicar por que insistem em me pintar como uma criatura hor­renda, repugnante, com chifre, rabo e uma cara coberta de verrugas?

Chegamos assim ao cerne da questão: a pintura figurativa. Existe aqui, em Istambul, um bando de malandros, guiados por um pregador cujo nome calarei para não aborrecer ainda mais vocês, que pretendem que a prece can­tada, as reuniões em que os dervixes sentam-se no colo uns dos outros para cantar ao som de seus instrumentos e o consumo de café são contrários à pa­lavra de Alá. Ora, ouvi dizer que alguns miniaturistas, que morrem de medo desse pregador e da sua horda, também me atribuem a nova pintura “à moda dos francos”. Ouvi muitas calúnias durante todos esses séculos, mas nun­ca tinham ido tão longe!

Comecemos do começo. Todo o mundo se agarra ao fato de que fiz Eva comer o fruto proibido, mas esquecem como tudo isso começou. Não, não começou tampouco com minha arrogância diante de Alá. Antes de tudo o mais, houve essa história de Ele nos apresentar o homem e querer que nos inclinássemos diante deste, o que encontrou minha legítima e decidida re­cusa, embora os outros anjos tenham obedecido. Vocês acham correto que, depois de me ter criado do fogo, Ele exija que eu me incline diante do ho­mem, que Ele criou do mais reles barro? Ora, meus irmãos, digam a verda­de, em sã consciência! Está bem, sei que vocês já pensaram no assunto mas temem que o que for dito aqui não fique apenas entre nós: Ele vai ouvir tu­do e um dia vai lhes pedir explicações. Tudo bem, não me interessa saber por que Ele lhes deu uma consciência assim. Admito, vocês têm por que ter medo, portanto vamos deixar para lá essa questão do barro e do fogo. Mas tem uma coisa de que não me esqueço nunca, sim, uma coisa de que sem­pre me orgulharei: nunca me inclinei diante do homem.

Ora, é precisamente o que fazem os europeus. De fato, não só eles fa­zem questão de retratar e de exibir todos os detalhes daqueles grão-senhores, daqueles padres e daqueles ricos mercadores, e até das mulheres deles — cor dos olhos, textura da pele, contornos dos lábios, efeitos de sombra de um de­cote, rugas na testa, anéis nos dedos, até os tufos de pêlo que saem das ore­lhas —, mas ainda por cima colocam essas pessoas no centro de seus qua­dros, que exibem igual fazem com seus ídolos, como se o homem fosse um objeto de culto e todos devessem se prosternar diante dele! Ora, porventura o homem é tão importante assim para que desenhem todos os seus detalhes, inclusive sua sombra? Se desenhássemos as casas de uma rua de acordo com a falsa percepção do homem, isto é, diminuindo de tamanho à medida que estão mais distantes, não seria usurpar para o homem o centro do mundo, que é o lugar que cabe a Alá? Bem, Ele, o Todo-Poderoso, em sua clarividên­cia, saberá julgar melhor que eu, mas acho que todos compreenderão que é um absurdo me culpar pela idéia de fazer esses retratos, logo a mim que so­fro as conseqüências — a dor indescritível do exílio, a perda da graça de Alá, de quem eu era o favorito, tornando-me objeto de pragas e injúrias — da mi­nha recusa original de me inclinar diante do homem. Mais razoável seria fazer como certos mulás e pregadores esclarecidos que me apontam como res­ponsável pelas crianças brincarem com suas partes e as pessoas peidarem.

A esse respeito, gostaria de fazer um derradeiro comentário, mas minhas palavras não se dirigem aos que só querem saber de pavonear-se, de satisfa­zer seus apetites carnais, sua obsessão pelo dinheiro e outras paixões deplo­ráveis. Só Alá, em Sua incomensurável sabedoria, me compreenderá: acaso não foste Vós que ensinastes ao homem o orgulho, ao fazer todos os anjos se prosternarem diante dele? Agora eles concedem a si próprios o mesmo trata­mento inaugurado pelos anjos, eles se adoram e se situam em pleno centro do mundo. Todos, até Vossos mais fervorosos servidores, querem ser pinta­dos à maneira dos europeus. Sei com tanta certeza quanto sei meu próprio nome que esse narcisismo terminará fazendo-os esquecer-Vos por completo. E eu é que levarei a culpa!

Como fazer vocês se convencerem de que tudo isso não me importa muito? Naturalmente, mantendo-me inabalável, apesar dos séculos e sécu­los de implacável apedrejamento, maldições, injúrias e xingamentos. Meus irados e frívolos inimigos, que nunca se cansam de me condenar, melhor fa­riam se se lembrassem que foi o próprio Todo-Poderoso que me permitiu vi­ver até o Dia do Juízo, enquanto eles não ganharam mais que sessenta ou se­tenta anos de vida. Se eu lhes desse o conselho de beber café para viver mais tempo, aposto que alguns deles, só porque fui eu que disse isso, iriam fazer o contrário e parariam totalmente de tomar café ou, pior ainda, por-se-iam de traseiro para cima e tentariam derramá-lo no cu.

Não riam. O que conta não é o conteúdo, mas a forma do pensamento. Não é o que os miniaturistas pintam, mas seu estilo. Só que isso não pode dar muito na vista. Eu ia lhes contar uma história de amor para terminar, mas já está ficando tarde. Nosso excelente contador de histórias, que me em­prestou sua voz esta noite, promete que a contará quando pendurar na pare­de o retrato da Mulher, depois de amanhã, quarta-feira à noite.

48. Eu, Shekure

Sonhei que meu pai estava me contando coisas incompreensíveis, tão aterrorizantes, que até acordei. Shevket e Orhan dormiam grudados em mim, um de cada lado, e o calor do corpo deles me fazia suar. Shevket estava com o braço na minha barriga; Orhan com a cabeça suada encostada no meu pei­to. Mesmo assim consegui sair da cama e do quarto sem acordá-los.

Atravessei o corredor e abri sem fazer barulho a porta do Negro. A luz tênue da minha vela, eu não conseguia enxergá-lo, só via a beirada do seu colchão branco, que jazia como um cadáver em sua mortalha no meio do quarto escuro e gelado. A luz da vela parecia não chegar até ele.

Quando aproximei um pouco mais a minha mão, a luz alaranjada ba­teu no rosto cansado e por barbear do Negro, em seus ombros nus. Aproxi­mei-me dele. Vi que ele dormia como Orhan, enrolado como uma lagarta, e seu rosto tinha a expressão de uma mocinha adormecida.

“É este o meu marido”, disse a mim mesma. Eu o sentia tão distante e tão estranho que me enchi de tristeza. Se levasse comigo uma adaga, acho que eu o teria matado. Não, na verdade eu não desejava fazer uma coisa dessas, apenas especulava, como qualquer criança costuma: “e se eu o ma­tasse?”. Não acreditava que ele houvesse vivido anos a fio pensando em mim, como afirmava, nem naquela sua inocente expressão de criança adorme­cida.

Cutuquei seu ombro com a ponta do meu pé descalço para acordá-lo. Em vez de parecer, como eu teria desejado, encantado e animado em me ver, ele primeiro se assustou; depois, sem esperar que ele voltasse plenamen­te à realidade, fui dizendo:

“Vi meu pai em sonho. Ele me contou uma coisa horrível: foi você que o matou...”

“Não estávamos juntos quando seu pai foi morto?”

“Eu sei”, respondi, “mas você sabia que meu pai ia estar sozinho naque­la hora.”

“Não, não sabia. Foi você quem mandou Hayriye sair com as crianças. Além de Hayriye, talvez Ester também soubesse. Se mais alguém estava a par, você é quem sabe melhor que ninguém.”

“Às vezes tenho a impressão de que uma voz interior vai me revelar por que tudo desandou desse jeito, desvendar o segredo desses acontecimentos sinistros. Abro a boca, como para ajudar essa voz a sair mas, como em meus sonhos, nenhuma voz sai. E você também não é mais o Negro amável e in­gênuo da minha infância.”

“Esse Negro ingênuo, você e seu pai mandaram para bem longe daqui.”

“Se você se casou comigo para se vingar do meu pai, deve estar conten­te. Vai ver que é por isso que meus filhos não gostam de você.”

“Sei que eles não gostam”, replicou sem demonstrar tristeza. “Ontem à noite, antes de deitar, enquanto você estava lá embaixo, eles diziam bem al­to, para que eu ouvisse: ‘Negro, Negro, de rabo negro’.”

“Você devia ter dado uma coça neles”, repliquei. De início, desejei um pouco que ele tivesse mesmo feito isso, mas logo acrescentei, em pânico: “Se você levantar a mão para eles, eu te mato!”.

“Vá para a cama. Senão vai morrer de frio.”

“É bem possível que eu nunca vá para a sua cama. Talvez tenhamos co­metido um erro nos casando. Andam dizendo por aí que nosso casamento não tem legitimidade diante do islã. Ontem à noite, antes de dormir, ouvi um ruí­do de passos; tenho certeza de que era Hassan. Reconheci seus passos. Afinal ouvi-os durante anos, quando vivia sob o mesmo teto que ele na casa do meu falecido marido. Meus filhos gostam muito dele. É um homem implacável, ele. Tem uma espada vermelha, é bom você tomar cuidado com ela.”

Havia no olhar do Negro uma dureza, um fastio, que me fizeram com­preender que eu não conseguiria assustá-lo.

“De nós dois, sou eu a mais desamparada e, ao mesmo tempo, quem mais espera. Eu teimo em não querer ser infeliz, em proteger meus filhos, enquanto você só se obstina em se justificar, e não em provar que me ama.”

Ele me disse então quanto me amava, contou-me longamente como pensava o tempo todo em mim, durante as noites de inverno, nos caravançarás perdidos nas montanhas silenciosas e desoladas. Se ele não tivesse me fa­lado assim, eu teria acordado meus filhos e voltado para a casa do meu pri­meiro marido. De repente, senti necessidade de dizer:

“Às vezes tenho a impressão de que meu ex-marido pode voltar a qual­quer instante. Tenho medo, mas não porque temo ser surpreendida no meio da noite dormindo no mesmo quarto que você, ou ao lado dos meus filhos, tenho medo é de que, assim que nos abraçarmos, ele bata na porta.”

Lá fora, bem perto do portão do pátio, ouviam-se os gritos dos gatos lu­tando pela vida. Depois um longo silêncio. Achei que ia desatar em soluços. Não me sentia capaz nem mesmo de pôr em cima de um tamborete a vela que levava na mão, ou de voltar para o quarto, para junto dos meus filhos. Disse comigo mesma que não sairia daquele quarto antes de estar persuadi­da de que ele não tinha nada a ver com o assassinato do meu pai.

“Você nos subestima”, disse ao Negro. “Desde que nos casamos, você olha de cima para a gente. Antes, você tinha dó de nós, porque meu marido estava ausente; agora que meu pai foi morto, você nos olha com uma com­paixão maior ainda.”

“Minha respeitada Shekure”, disse ele cautelosamente. Agradava-me que houvesse começado assim. “Você sabe muito bem que nada disso é ver­dade, que por você eu faço qualquer coisa.”

“Então saia da cama e espere de pé, como eu.”

Por que é que eu disse que esperava alguma coisa?

“Não posso”, respondeu-me envergonhado, apontando para o meio da sua camisola, debaixo das cobertas.

Era verdade. Mas de qualquer maneira fiquei irritada por ele não aten­der o meu pedido.

“Antes de assassinarem meu pai, você entrava nesta casa como um gato que vem derramar o leite, mas agora, quando me chama de ‘Minha respeita­da Shekure’, soa falso, como se quisesse que entendêssemos que é falso mesmo.”

Eu tremia, não de raiva, mas por causa do frio que penetrava minhas pernas, minhas costas, minha garganta.

“Venha para a cama e seja minha mulher”, disse ele.

“E como vamos encontrar o assassino do meu pai? Se demorar muito, não poderei continuar vivendo aqui com você.”

“Graças a Ester e a você, temos uma pista, os cavalos. Mestre Osman trabalha nela.”

“Mestre Osman era um inimigo mortal do meu pai, descanse em paz. E o coitado está vendo, lá de cima, que é de Mestre Osman que você depen­de para encontrar seu assassino. Que aflição isso deve lhe causar!”




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