Meu nome é Vermelho



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Ele pulou subitamente da cama na minha direção. Nem tive tempo de me mexer. Mas, ao contrário do que imaginei, limitou-se a apagar a vela e a ficar ali, imóvel. Fazia uma escuridão de breu.

“Assim seu pai não pode mais nos ver”, sussurrou. “Estamos a sós. Ago­ra me diga uma coisa, Shekure: quando voltei, doze anos depois, você me deu a sensação de que seria capaz de me amar, de que poderia reservar um lugar para mim no seu coração. Nós nos casamos. E desde então você vem fugindo desse amor.”

“Eu me casei com você porque fui obrigada”, sussurrei.

Ali, no escuro, senti sem dó nem piedade, como diz Fuzuli, minhas pa­lavras se cravarem na sua carne.

“Se eu te amasse, já te amaria na nossa infância”, sussurrei de novo.

“Diga-me então uma coisa, minha bela das trevas”, disse ele. “Você de­ve ter espionado todos esses miniaturistas que freqüentavam a sua casa e de­ve conhecê-los bem. Na sua opinião, qual deles é o assassino?”

Gostei de ver que ele ainda era capaz de manter o bom humor. Afinal de contas, era meu marido.

“Estou com frio.”

Será que eu disse mesmo isso? Não consigo me lembrar. Começamos a nos beijar. Abraçando-o no escuro, ainda com o castiçal na mão, sentia sua língua aveludada na minha boca, e minhas lágrimas, meus cabelos, minha camisola, meu corpo trêmulo e o dele também, tudo participava daquele êxtase. Como era gostoso aquecer meu nariz em sua face quente! Mas a tími­da Shekure se refreava. Enquanto eu o beijava, não me entregava nem largava a vela, mas pensava em meu pai que estava me vendo, em meu ex-marido, nos meus filhos que dormiam na cama.

“Tem alguém em casa”, gritei. Repeli o Negro e saí para o corredor.

49. Meu nome é Negro

Saí antes de raiar o dia, sem ninguém me ver e sem fazer barulho, co­mo um convidado que não está com a consciência tranqüila, depois andei um bom momento pelas ruas enlameadas e escuras. Passei pela mesquita de Bajazet para as minhas abluções antes da prece matinal. Dentro dela, além do imã, só havia um velhote que conseguia fazer sua oração dormindo, raro talento que requer a prática de toda uma longa vida. Imerso em meus pen­samentos e em minhas lembranças sombrias, ainda entorpecido pelo sono, eu sentia que Alá olhava para nós e pedi a Ele, como quem entrega uma sú­plica esperando que chegue às mãos do Sultão, que me desse um lar feliz, cheio de pessoas que me amassem.

Ao chegar em casa de Mestre Osman, eu me dei conta de que, no espa­ço de uma semana, ele havia ocupado no meu espírito o lugar deixado vago por meu Tio. Mestre Osman mostrava-se mais frio e distante comigo, mas sua fé na pintura era cada vez mais forte. Ele parecia muito mais um velho e introspectivo dervixe do que o Grande Mestre que deflagrara por tantos anos tempestades de medo, temor e amor entre os miniaturistas.

Ao sairmos da sua casa rumo ao Palácio — ele curvado em seu cavalo, eu a pé mas também curvado para a frente —, devíamos nos assemelhar ao velho dervixe e seu discípulo daquelas ilustrações baratas que acompanham os velhos contos populares.

Chegando ao Palácio, encontramos o Jardineiro-Mor e seus homens, que nos aguardavam mais ansiosos do que nós mesmos. Pois Nosso Sultão estava persuadido de que, naquela manhã, ao examinarmos os cavalos dese­nhados pelos três mestres, seríamos capazes de determinar num abrir e pis­car de olhos qual deles era o maldito assassino, tanto assim que já havia da­do ordens para que o criminoso fosse imediatamente torturado, sem nem sequer lhe permitir que respondesse à acusação. Portanto não fomos levados para a praça da fonte, onde são realizadas as execuções públicas, mas para um casebre decrépito no fundo do Jardim Privativo do Sultão, que era o pre­ferido para os interrogatórios, a tortura e os estrangulamentos secretos.

Um rapaz, elegante e educado demais para ser um dos homens do Jardi­neiro-Mor, dispôs com autoridade as três folhas de papel numa escrivaninha.

Mestre Osman tirou fora sua lupa, e meu coração pôs-se a bater mais forte. Como uma águia planando majestosamente sobre uma planície, seu olho, que ele mantinha a uma distância constante da lente, passava lenta­mente por sobre as três maravilhosas ilustrações. E, como a águia avistando um filhote de gazela que poderia ser sua presa, quase se imobilizava sobre as narinas de cada cavalo, focalizando-as atentamente, sem trair a menor emoção.

“Não está aqui”, acabou por dizer, friamente.

“O que não está?”, perguntou o Jardineiro-Mor.

Eu havia pensado que o Grande Mestre trabalharia com maior afinco, examinando minuciosamente cada detalhe, dos cascos à crina.

“O maldito não deixou o menor sinal”, disse Mestre Osman. “Estes de­senhos não nos permitem deduzir qual dos três ilustrou o cavalo alazão.”

Eu mesmo agarrei então a lupa que ele havia largado e pude constatar, dando uma olhada nas narinas dos três cavalos, que ele tinha razão: nenhum deles apresentava aquele detalhe estranho, aquela assinatura no cavalo pin­tado para o livro do meu Tio.

Lembrei-me então dos torturadores que esperavam à porta, com um ins­trumento que eu nem podia imaginar para que servia. Quando tentava ob­servá-los melhor pela porta entreaberta, vi um deles sair em disparada de re­pente, como se estivesse possuído por um djim, e se esconder com a cara enfiada no chão detrás de uma amoreira.

Nesse momento, qual um raio de sol iluminando a manhã cinzenta, o Pilar do Mundo, Nosso Sultão, entrou na sala.

Mestre Osman explicou-lhe sem rodeios que não dava para concluir na­da do exame daqueles três desenhos. Mas não pôde impedir-se de chamar a atenção do Nosso Sultão para o empinado verdadeiramente régio de um ca­valo, para a atitude do segundo em elegante equilíbrio e para a pose grave e altiva do terceiro, desenhada a partir de um modelo antiqüíssimo. Ao mes­mo tempo, conjeturava quem era o autor de cada um dos três desenhos, e o pajem que fora à casa dos três artistas confirmava suas suposições.

“Não se espante, meu Soberano, se conheço meus pintores tão bem quanto a palma da minha mão”, disse Mestre Osman. “O que me deixa per­plexo é como um desses homens, que de fato conheço como a palma da mi­nha mão, pode ter deixado uma marca tão incomum. Mesmo as falhas de um mestre miniaturista têm sua razão de ser.”

“Como assim?”, indagou Nosso Sultão.

“Próspero Sultão, Protetor do Mundo, creio que a assinatura secreta que vimos na forma das narinas do cavalo alazão não é simplesmente um erro absurdo, sem significado, mas um vestígio que remonta a um passado dis­tante, a outras pinturas, a outras regras, outros estilos e quem sabe até a ou­tros cavalos. Se cotejássemos certas páginas dos manuscritos trancados há sé­culos nas arcas de ferro, nos armários e nos porões do Grande Tesouro, poderemos identificar como uma regra o que hoje nos parece um defeito e, assim, atribuir o desenho ao pincel de um dos três miniaturistas.”

“Você quer ter acesso às salas do Tesouro?”, exclamou o Sultão assom­brado.

“Sim”, confirmou Mestre Osman.

Era um pedido tão audacioso quanto o de entrar no harém. Compreen­di naquele momento que, assim como ocupavam os dois mais formosos re­cantos no pátio do Paraíso Privativo do palácio do Nosso Sultão, o Tesouro e o harém também ocupavam os dois recantos mais caros do seu coração.

Eu tentava ler o que ia acontecer no belo rosto do Nosso Sultão, que eu agora fitava sem medo, mas ele desapareceu repentinamente. Teria ficado furioso, ofendido? Será que nós, ou até mesmo todos os miniaturistas, sería­mos castigados por causa daquela insolência de Mestre Osman?

Enquanto olhava para os três cavalos diante de mim, eu imaginava que nunca mais ia ver Shekure e que ia morrer sem compartilhar a sua cama. Apesar de estarem ao alcance da minha mão, com todos os seus belos atri­butos, aqueles magníficos cavalos pareciam emergir de um mundo estranho e distante.

Durante aquele silêncio terrível, compreendi perfeitamente que, do mesmo modo que ser levado criança para o palácio, aí crescer e viver signifi­ca servir ao Nosso Sultão e, eventualmente, morrer por ele, ser um miniatu­rista significa servir a Alá e morrer por Sua beleza.

Bem mais tarde, quando os homens do Tesoureiro-Mor nos escoltaram até a Porta da Saudação, a idéia de morte ocupou a minha mente, o silêncio da morte. Mas, ao passar pelo portão onde inúmeros paxás haviam sido exe­cutados, os guardas agiram como se nem mesmo nos vissem. A Praça do Di­vã, que ontem mesmo me deslumbrara como se fosse o próprio Paraíso, sua torre e seus pavões não me causaram mais nenhuma impressão. Eu havia compreendido que estavam nos levando para o centro do mundo secreto do Sultão, o Enderun, o setor mais reservado do palácio de Topkapi.

Passamos assim pelas portas que nem mesmo os grão-vizires atravessam sem salvo-conduto. Como o garotinho perdido das fábulas, eu não ousava er­guer os olhos, com medo de ver surgir toda espécie de monstros e prodígios. Nem sequer conseguia olhar para a Sala do Trono, onde o Sultão realizava as audiências. Mas, por um momento, meu olhar fixou-se sem querer nas pa­redes do harém, junto de um plátano comum, que nada tinha de diferente das outras árvores, e num homem alto trajando um esplêndido cafetã de se­da azul. Atravessamos as colunas do pórtico. Paramos finalmente diante de um portão, muito maior e muito mais imponente do que todo o resto, carre­gado de ornamentos em forma de estalactite. No seu umbral estavam uns agás com seus cafetãs suntuosos, um deles curvados para abrir a fechadura.

Olhando-nos nos olhos, o Tesoureiro-Mor falou: “A sorte os contem­plou, pois Nosso Sultão permitiu que entrassem no Tesouro Proibido do En­derun. Vão poder admirar livros que ninguém jamais viu, ilustrações inima­gináveis, páginas todas de ouro e, como caçadores, seguir a pista da sua presa, o assassino. Nosso Sultão ordenou-me lembrar-lhes que o bom Mestre Os­man tem três dias, um dos quais já passou, até quinta-feira à tarde, para de­signar qual dos miniaturistas é o culpado. Se fracassar, o caso vai ser encami­nhado ao Jardineiro-Mor, que o resolverá com a tortura”.

Começaram por remover o invólucro de pano que selava o ferrolho, pro­tegendo a fechadura da porta contra a introdução de qualquer chave sem permissão. O Porteiro-Mor do Tesouro e dois guardas confirmaram com a cabeça que o lacre estava intacto. Quebraram-no, depois enfiaram a chave na fechadura, que ao girar rangeu no silêncio profundo. O rosto sombrio de Mestre Osman adquiriu de repente a cor das cinzas, mas, quando a pesada porta se abriu, seu rosto foi iluminado por uma luz negra que parecia ema­nar de tempos antiqüíssimos.

“Meu Sultão não quis que escribas e secretários, que cuidam dos regis­tros do acervo, entrassem desnecessariamente aqui”, explicou o Tesoureiro-Mor. “Desde a morte do bibliotecário, não há mais ninguém para zelar por esse lugar e por suas obras. Por isso, Meu Sultão houve por bem que vocês fossem acompanhados exclusivamente por Djazmi Agá.”

Djazmi Agá era um anão de olhinhos brilhantes, que parecia ter mais de setenta anos. Usava na cabeça um turbante que parecia uma vela de na­vio e era ainda mais disforme do que ele.

“Djazmi Agá conhece esse local como sua própria casa. Ninguém me­lhor que ele sabe onde estão os livros e tudo o que pode ser encontrado aqui.”

O velho anão não deu a menor mostra de orgulho e continuou a correr os olhos pelo braseiro de pés prateados, o penico de asa de madrepérola e os castiçais que os pajens do palácio traziam.

O Tesoureiro-Mor informou-nos que o ferrolho e o lacre, posto setenta anos antes, durante o reinado de Selim I, seria refeito quando entrássemos e quebrado de novo após a prece da noite, na presença de todo o corpo de guar­das do Tesouro, que também teriam a missão de certificar-se de que não “es­quecíamos” nenhum objeto nas dobras dos nossos turbantes, trajes, bolsos e cintos, e de revistar até mesmo nossa roupa de baixo.

Entramos, passando entre os guardas formados em duas fileiras. Fazia um frio glacial. Quando a porta se fechou atrás de nós, fomos envolvidos pe­la escuridão e senti um cheiro picante de mofo, umidade e poeira invadir minhas narinas. Por toda parte, uma montoeira de objetos, arcas e capacetes misturados numa enorme e caótica barafunda. Tive a impressão de que era testemunha de uma grande batalha.

Meus olhos se acostumaram à luz misteriosa que caía sobre todo o re­cinto, filtrando pelas grades grossas das altas janelas, pelas balaustradas das escadas dispostas ao longo das paredes, que levavam aos passadiços de ma­deira do segundo piso. A sala era tingida de vermelho pelo brocado das cor­tinas, dos tapetes e dos kilims pendurados nas paredes. Com a devida reverên­cia, considerei que a acumulação de toda aquela riqueza era a conseqüência de muitas guerras, do sangue derramado de inúmeros guerreiros, de tantas cidades e tesouros saqueados.

“Está com medo?”, perguntou o velho anão, que parecia ler meus pen­samentos. “Da primeira vez, todo o mundo tem medo. De noite, os espíritos dessas coisas todas põem-se a cochichar entre si.”

O que mais aterrorizava era o peso daquele silêncio que pairava acima de toda aquela abundância dos mais incríveis objetos. Às nossas costas, ouvi­mos o ruído da chave girando na fechadura e o do lacre sendo novamente posto. Olhávamos imóveis à nossa volta, abismados com o que víamos.

Vi espadas, presas de elefante, cafetãs, castiçais de prata, bandeiras de cetim. Vi caixinhas marchetadas de madrepérola, baús de ferro, vasos chine­ses, cintos, alaúdes de braços compridos, armaduras, almofadas de seda, glo­bos do inundo, botas, peles, chifres de rinoceronte, ovos de avestruz orna­mentados, carabinas, flechas, maças, estojos. Pilhas de tapetes, tecidos e cetins por toda parte pareciam cair em cascata sobre mim dos andares supe­riores revestidos de madeira, das balaustradas, dos compartimentos e dos pe­quenos armários construídos nas paredes. Uma luz estranha, como nunca vi igual, realçava os panos, as caixas, os cafetãs dos sultões, as espadas, os gran­des círios cor-de-rosa, turbantes enrolados, travesseiros bordados com péro­las, selas ornadas de filigranas de ouro, cimitarras com empunhaduras cravejadas de diamantes, maças com punhos incrustados de rubis, turbantes acolchoados, plumas de turbantes, relógios curiosos, jarros e adagas, cavalos e elefantes de marfim, narguilés com o topo carregado de diamantes, caixas com gavetas de madrepérola, penachos de cavalo, compridos rosários e ca­pacetes adornados com rubis e turquesas. Essa luz, que caía tênue das altas janelas, iluminava as partículas de poeira que flutuavam no ar da sala imersa na penumbra, como a luz do sol de verão que jorra pelo vitral do domo das mesquitas. Mas aquela não era a luz do sol. Nessa luz diferente, o ar tornara-se palpável e todos os objetos pareciam feitos do mesmo material. Experi­mentamos temerosos por mais algum tempo o silêncio difuso da sala, e per­cebi então que aquele vermelho reinante na sala gelada, que confundia todos os objetos numa uniformidade misteriosa, não se devia tanto à luz quanto à camada de poeira que tudo cobria. E, à medida que meus olhos corriam por aqueles itens indistintos e estranhos, incapaz de distinguir um do outro, in­clusive ao segundo ou terceiro olhar, aquela enorme profusão de objetos tor­nou-se ainda mais aterradora. O que eu pensava ser um baú, passei a achar que era uma pequena escrivaninha e, algum tempo depois, algum artefato esquisito de origem européia. Percebi que aquela caixinha marchetada de madrepérola que jazia entre cafetãs e plumas, tirados das suas caixas e espa­lhados de qualquer jeito aqui e ali, era na verdade uma exótica caixa manda­da da Moscóvia pelo czar.

Djazmi Agá havia posto o braseiro sob um nicho aberto na espessura da parede.

“Onde estão os livros?”, cochichou Mestre Osman.

“Quais deles?”, replicou o anão. “Os exemplares do Corão do Iêmen, em escrita cúfica, a biblioteca de Tabriz, trazida pelo Sultão Selim I, o Cruel, Hóspede do Paraíso, os livros dos paxás apreendidos ao serem condenados à morte, os volumes oferecidos pelos embaixadores de Veneza ao avô do Nos­so Sultão ou os livros que datam de Constantinopla, abandonados aqui de­pois da tomada da cidade por Mehmet, o Conquistador?”

“Os que foram oferecidos trinta anos atrás pelo xá Tahmasp ao Sultão Selim”, respondeu Mestre Osman.

O anão guiou-nos então até um grande armário de madeira. Escanca­rou as portas do móvel. Mestre Osman precipitou-se imediatamente para as fieiras de livros que ali estavam guardados. Abriu um, leu seu cólofon, fo­lheou-o. Juntos, observamos deslumbrados as ilustrações, cuidadosamente realizadas, de cãs de olhos levemente amendoados.

“Gêngis Cã, Tchagatai Cã, Tului Cã e Kublai Cã, Soberano da Chi­na”, recitou Mestre Osman, fechando o livro e escolhendo outro.

Demos com uma linda ilustração representando a cena em que Farhad, arrebatado pelo amor, carrega no ombro o cavalo em que sua amada Shirin ia montada. Para exprimir a paixão desesperada dos amantes, os rochedos da montanha, as nuvens e os três nobres ciprestes que testemunhavam o ato de amor de Farhad eram desenhados com uma mão trêmula de emoção, com tamanha angústia que Mestre Osman e eu sentimos na mesma hora o gosto das lágrimas e um abandono como o das folhas das árvores prestes a cair. Essa imagem comovente, como era próprio dos grandes mestres, não fora pin­tada para pôr em relevo a força muscular de Farhad, mas para expressar que o mundo inteiro sentia a dor daquela paixão.

“É uma cópia de uma obra de Bihzad feita em Tabriz oitenta anos atrás”, esclareceu Mestre Osman, pondo o livro no lugar e pegando outro.

Dessa vez, era uma imagem de Kalila e Dimna, que mostrava a amiza­de forçada entre o gato e o rato. Num campo, um pobre rato, para escapar do ataque de uma marta, no chão, e de um falcão, no ar, encontra sua salva­ção num infortunado gato pego na armadilha de um caçador. Os dois chegam a um acordo: o gato, fingindo ser amigo do rato, lambe-o carinhosamente, espantando assim a marta e o falcão. Em troca, o rato liberta cuidadosamen­te o gato do laço. Sem me dar tempo para apreciar toda a sensibilidade do miniaturista, Mestre Osman fechou o volume, arrumou-o ao lado dos de­mais e escolheu outro, ao acaso.

Era uma delicada pintura de uma mulher misteriosa e de um homem. A mulher, com uma mão elegantemente aberta e a outra pousada no joelho escondido pela túnica verde, faz uma pergunta; o homem, voltado para ela, ouve com atenção. Olhei para a cena avidamente, enciumado com a intimi­dade, o amor e a amizade que havia entre eles.

Mais uma vez Mestre Osman guardou o livro e abriu outro. As cavala­das dos exércitos do Irã e do Turã, eternos inimigos, vão se enfrentar em mais uma batalha mortal. Envergam toda a sua panóplia de armaduras, elmos, perneiras, arcos, aljavas, flechas, montando seus magníficos e lendários corcéis, protegidos por suas couraças de ferro. Estão dispostas em filas, frente a frente, na estepe amarelada e poeirenta, as pontas das lanças em riste, enfei­tadas por uma profusão de cores, observando pacientemente seus coman­dantes, que já haviam tomado a dianteira e iniciado a refrega. Eu me dizia que, fosse a ilustração feita hoje ou um século atrás, fosse ela uma represen­tação da guerra ou do amor, o que o artista fiel na verdade pinta e expressa é • sempre uma batalha travada com toda a sua garra e todo o seu amor à pintu­ra; e já ia declarar, completando esses pensamentos, que o que o miniaturis­ta na verdade pinta é sua própria paciência, quando Mestre Osman disse:

“Também não está aqui”, e fechou o pesado volume.

Percorremos uma paisagem que se estendia ao infinito, cujas monta­nhas, vertiginosas, desapareciam num turbilhão de brumas. Pensei então que pintar significa ver este mundo mas pintá-lo como se fosse o Além. Mestre Osman contou que aquela pintura chinesa devia ter viajado de Bukhara a Herat, de Herat a Tabriz e, por fim, de Tabriz ao palácio do Nosso Sultão, in­do de livro em livro, encadernada e desencadernada, até terminar aqui, mis­turada a outras pinturas, encerrando a longa viagem da China a Istambul.

Depois foram as cenas de guerra e massacre, cada qual mais bonita e mais terrível que a outra. Rustam contra o xá de Mazandaran, Rustam ata­cando sozinho todo o exército de Afrasyab, Rustam como o misterioso guer­reiro cuja armadura o torna irreconhecível... Num outro álbum, vimos ca­dáveres desmembrados, adagas saturadas de sangue vermelho, deploráveis soldados em cujos olhos brilhava a morte, guerreiros ceifando-se uns aos ou­tros como se fossem capim, membros de exércitos fabulosos, que não pude­mos identificar, impiedosamente esmagados. Mestre Osman, pela milésima ou sabe lá quantas vezes mais, viu Khosrow espiar Shirin banhando-se no la­go ao luar, os amantes Leila e Majnun desfalecerem de emoção ao se reve­rem após tantos anos de separação, e uma fogosa ilustração, carregada de passarinhos, árvores e flores, de Salaman e Absal quando fugiram do mundo para viver juntos numa ilha de felicidade. Como Grande Mestre que era, mesmo ao examinar a pintura mais medíocre ele não deixava de chamar a minha atenção para um detalhe estranho num canto, devido talvez a um descuido do iluminador ou quem sabe à má combinação das cores: quem seria o melancólico artista, atormentado por pensamentos sombrios, que ou­sou empoleirar aquela sinistra coruja no galho de uma árvore, na cena em que Shirin ouve com Khosrow a história contada pela criada com voz de mel? Quem teria incluído aquele lindo efebo vestido de mulher no meio das egípcias que, por estarem admirando a beleza de José, cortam os dedos ao descascar as suculentas laranjas? E o miniaturista que pintou Isfandyar cega­do por uma flecha estaria prevendo que mais tarde ele também ficaria cego?

Vimos os anjos acompanharem nosso Louvado Profeta na sua Ascen­são; o velho de pele escura, seis braços e longa barba branca que simboliza­va Saturno; Rustam bebê, dormindo em paz no seu berço marchetado de madrepérola, sob o olhar da mãe e das amas. Vimos Dario agonizar nos bra­ços de Alexandre; Bahram Gur encerrado no quarto vermelho em compa­nhia da princesa russa; Siyavush passar através do fogo montando um cavalo negro cujas narinas não tinham nada de peculiar; e a lúgubre procissão fú­nebre de Khosrow, assassinado pelo próprio filho.

Mestre Osman pegava os livros e descartava-os rapidamente, vez ou ou­tra reconhecia o autor ou me mostrava a assinatura do ilustrador, que desco­bria humildemente escondida entre as flores que cresciam numa construção em ruínas ou oculta num poço negro, junto de um djim. Estudando as assi­naturas e as dedicatórias, ele podia determinar quem tirara o que de quem. Ele folheava rapidamente certos volumes, certo de que só encontraria algu­mas miniaturas. Às vezes faziam-se longos silêncios, em que só se ouvia o sus­surro das páginas virando. De vez em quando ele exclamava “oh!”, mas eu continuava calado, sem compreender seu espanto. Às vezes ele me lembra­va que já tínhamos encontrado a mesma composição de página, ou o mes­mo arranjo de árvores e cavaleiros em outro livro, em diferentes cenas de his­tórias totalmente diferentes, e me mostrava de novo essas pinturas para avivar minha memória. Comparou uma miniatura de uma versão do Quinteto, de Nizami, da época de Riza Xá, filho de Tamerlão — isto é, de uns duzentos anos atrás — com outra miniatura que dizia ter sido feita em Tabriz, setenta ou oitenta anos antes, depois me perguntava o que podíamos deduzir do fa­to de que dois miniaturistas criaram a mesma imagem sem terem visto a obra um do outro. E ele próprio dava a resposta:

“Pintar é recordar.”

Enquanto abria e fechava os velhos manuscritos iluminados, o rosto de Mestre Osman ora se cobria de tristeza ante a maravilha daquela arte (por­que ninguém mais era capaz de pintar assim), ora ria animada e maldosa­mente ao ver as obras mal executadas (afinal, todos os miniaturistas somos irmãos!), e me mostrava o que significava a tal “recordação” do artista: a for­ma das velhas árvores, os anjos, pára-sóis, tigres, tendas, dragões, príncipes melancólicos. Com isso o artista queria sugerir o seguinte: um dia, Alá olhou para o mundo em sua perfeição e, confiando na beleza do que via, decidiu legá-lo, nessa forma, a seus servos; e o dever dos pintores e dos que, amantes da arte, contemplam o mundo é recordar a magnificência que Alá viu e nos deixou como herança. Os grandes mestres de cada geração de pintores, que passaram a vida trabalhando até ficar cegos, lutam com todas as suas forças e com toda a sua inspiração para apreender e registrar a maravilhosa visão que Alá quis que tivéssemos. A obra deles, portanto, era como que o trabalho pelo qual a própria humanidade trazia de volta à memória suas mais preciosas recordações, desde o início dos tempos. Mas infelizmente, como os velhos já cansados da vida ou os grandes miniaturistas, cegos de tanto trabalhar, até os maiores mestres só eram capazes de recordar uma parte ínfima e isolada dessa magnífica visão. Era essa misteriosa sabedoria que explicava por que os velhos mestres desenhavam milagrosamente uma árvore, um passarinho, a pose de um príncipe lavando-se num banho público ou uma triste jovem à janela, exatamente da mesma maneira, apesar de nunca terem visto a obra um do outro e apesar de às vezes séculos os separarem.




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