Meu nome é Vermelho



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Muito mais tarde, quando a luz avermelhada do Tesouro decaiu e ficou claro que aquele armário não continha nenhum dos livros com que o xá Tah­masp presenteara o avô do Nosso Sultão, Mestre Osman voltou à sua lógica:

“Às vezes a asa de um passarinho, o modo como uma folha é presa na árvore, as curvas dos beirais de telhado, a maneira como uma nuvem flutua, o riso de uma mulher são preservados ao longo dos séculos, passando de mes­tre a discípulo e mostrado, ensinado e memorizado por gerações e gerações. Tendo aprendido esse detalhe com seu mestre, o miniaturista acredita que ele é uma forma perfeita, crê que ela é imutável, assim como o é o Venerável Corão, memoriza essa forma exatamente como memoriza o Corão e nunca mais esquece esse detalhe indelevelmente pintado na sua memória. Mas não o esquecer jamais não significa que o artista vá sempre usá-lo. Os costumes do ateliê onde ele extingue pouco a pouco a luz dos próprios olhos, os hábi­tos e as cores que o Grande Mestre mais aprecia ou os caprichos do seu sul­tão às vezes não o deixam pintar assim aquele detalhe, e ele desenhará a asa do passarinho ou a maneira como uma mulher ri...”

“... ou as narinas do cavalo...”

“... ou as narinas do cavalo”, prosseguiu imperturbável Mestre Osman, “não da maneira como está gravado no fundo da sua alma, mas de acordo com o costume do ateliê em que ele agora trabalha, exatamente como seus colegas. Entendeu?”

Já tínhamos folheado várias versões do Khosrow e Shirin, de Nizami, quando Mestre Osman leu em voz alta, numa imagem representando Shi­rin sentada em seu trono, uma inscrição gravada em duas pedras no alto da parede do Palácio: “Que o grande Alá preserve o poder do vitorioso filho de Tamerlão Cã, Nosso Nobre Sultão, e proteja seu reinado e seu reino, para que ele seja sempre feliz” (na pedra da esquerda) “e rico” (na pedra da direita).

“Onde poderemos encontrar as ilustrações em que o miniaturista pin­tou as narinas do cavalo da mesma maneira que as tinha gravadas na memória?”

“Precisamos encontrar o lendário volume do Livro dos reis que o xá Tah­masp mandou de presente”, respondeu Mestre Osman. “Temos de remon­tar àquela época distante, gloriosa e lendária, em que a mão de Alá partici­pava da arte da pintura. Ainda faltam muitos livros a examinar.”

De repente a idéia de que a intenção de Mestre Osman talvez não fos­se tanto encontrar aqueles cavalos de estranhas ventas, quanto poder consul­tar e admirar aquelas miniaturas que há anos dormiam nas câmaras do Gran­de Tesouro perpassou pela minha mente. Mas eu estava tão impaciente para relatar a Shekure, que me aguardava em casa, o resultado das nossas buscas, que não quis acreditar que, na verdade, o Grande Mestre desejava apenas fi­car o maior tempo possível naquele lugar gelado.

Continuamos, pois, abrindo outros armários e outras arcas que o velho anão nos mostrava, para examinar as miniaturas ali contidas. Às vezes aque­las imagens, todas parecidas, acabavam me enfastiando e eu não suportava mais ver Khosrow sob a janela de Shirin; então, sem nem sequer olhar para as narinas do seu cavalo, eu me afastava de Mestre Osman para tentar me aquecer junto do braseiro ou andando, cheio de respeito e admiração, entre os montes de tecidos, ouro, armas, armaduras e dos mais diversos butins, que entulhavam as salas contíguas. Às vezes, atendendo a um grito ou a um ges­to da sua mão, voltava correndo para junto do Mestre, perguntando-me que nova obra-prima ele havia encontrado ou se, finalmente!, não teria achado um cavalo com narinas estranhas, e olhava a pintura que ele, encolhido num tapete de seda da época do sultão Mehmet, o Conquistador, me estendia com sua mão levemente trêmula e que eu nunca vira igual, representando, por exemplo, Satanás entrando sorrateiro na Arca de Noé.

Admiramos centenas de xás, reis, sultões e cãs, que tinham se sucedido no trono de vários reinos e impérios, da época de Tamerlão à do sultão Su­leyman, o Magnífico, caçando felizes e excitados coelhos, gazelas e leões. Vimos até o Diabo morder o dedo e horrorizar-se com um sem-vergonha que, trepado numas toras de madeira em que amarrara as patas traseiras de uma camela, violentava o pobre animal. Depois, num manuscrito árabe proveniente de Bagdá, vimos um mercador voar sobre o mar, pendurado aos pés de uma ave mítica.

No volume seguinte, que se abriu sozinho na primeira página, vimos a cena de que Shekure e eu mais gostávamos: Shirin contemplava o retrato de Khosrow pendurado num galho de árvore e se apaixonava por ele. Depois, ao apreciarmos uma pintura que dava vida aos mecanismos de um complicadíssimo relógio, feito de bobinas e bolinhas de metal, ornado com passari­nhos e pequenos beduínos e montado no lombo de um elefante, lembramo-nos do tempo.

Não sei quanto mais ficamos ali, folheando um livro atrás do outro, ad­mirando ilustrações e mais ilustrações. Era como se a Idade de Ouro, imutá­vel e congelada, revelada nas imagens e histórias que percorríamos, tivesse se misturado ao tempo úmido e bolorento da Sala do Tesouro. Era como se aquelas páginas iluminadas, criadas ao longo dos séculos à custa do desgaste da vista de ateliês inteiros pertencentes a um sem-número de xás, cãs e sul­tões, ganhassem vida, assim como os objetos que pareciam nos sitiar: elmos, cimitarras, adagas com seus cabos cravejados de diamantes, armaduras, va­sos de porcelana chinesa, empoeirados e delicados alaúdes, almofadas e kilims bordados com pérolas — iguais aos que tínhamos visto nas incontáveis ilustrações.

“Começo a me dizer que esses milhares de pintores, que reproduzem há séculos os mesmos temas, pintaram, imperceptivelmente, gradativamen­te, a lenta transformação do mundo deles num novo mundo.”

Devo confessar que não compreendi plenamente o que o Grande Mes­tre queria dizer. Mas a atenção que eu o via dedicar a cada uma daquelas cen­tenas de imagens, feitas durante mais de dois séculos e trazidas para Istam­bul de Bukhara e de Herat, de Bagdá e de Tabriz, certamente não se restringia mais às narinas dos cavalos, único indício que buscávamos. O que fazíamos de fato era prestar uma espécie de melancólica homenagem à inspiração, ao talento e à paciência de todos os mestres que tinham se consagrado naquelas terras, em todos aqueles anos, à arte da pintura e da iluminura.

Foi por isso que, quando romperam o lacre da porta do Tesouro depois da prece da noite e Mestre Osman me declarou que não tinha a intenção de sair, que preferia passar a noite ali mesmo, examinando as miniaturas à luz das velas e candeeiros a óleo, a fim de poder levar corretamente a cabo a tarefa confiada por Nosso Sultão, eu respondi sem titubear que também fica­ria, com ele e o anão.

Porém, mal a porta se abriu e o Mestre foi anunciar nosso desejo aos guardas, que nos esperavam do lado de fora, e pedir licença ao Tesoureiro-Mor, eu lamentei imediatamente minha decisão. Estava com saudade de Shekure e da nossa casa. Ao pensar em como ela passaria a noite sozinha com as crianças e como conseguiria trancar a janela, cujos contraventos ain­da não estavam consertados direito, fui ficando cada vez mais inquieto.

Pela porta entreaberta, os plátanos altos e sombrios do pátio do Enderun, agora envolto numa vaga bruma, e os gestos de dois pajens que conver­savam por meio de sinais para não perturbar o descanso do Nosso Sultão, pa­reciam me chamar para a exuberante vida lá fora; mas fiquei ali, paralisado pelo embaraço e pela culpa.

50. Nós, os dois Errantes

O boato de que nosso retrato estava entre as páginas provenientes da Chi­na, de Samarcanda e de Herat, que faziam parte de um álbum escondido no mais remoto recanto das dependências do Tesouro, onde se acumula o butim de centenas de países saqueados há centenas de anos pelos ancestrais do Nos­so Venerado Sultão, foi sem dúvida difundido no meio dos miniaturistas pelo anão Djazmi Agá. Já que devemos contar agora nossa história a nosso modo — que a vontade de Alá esteja conosco —, esperamos que nenhum dos inú­meros presentes a este elegante café se escandalize com o que vai ouvir.

Passaram-se nada menos de cento e dez anos desde a nossa morte e qua­renta anos desde que nosso convento — declarado um foco de heresia, um irreformável ninho de rebelião satânica e, ainda por cima, um antro dos par­tidários da Pérsia — foi fechado. No entanto, ainda estamos aqui, diante de vocês. Por quê? Porque fomos desenhados à européia! Como vocês vêem no desenho, éramos dois dervixes que um belo dia errávamos de uma cidade a outra do território do Nosso Sultão.

Pés descalços, cabeças descobertas, nus até a cintura, ou melhor, cada um vestindo à guisa de capote uma pele de veado, brandindo um cajado, nossa tigela de coco pendurada no pescoço por uma correntinha, uma machadinha para cortar a lenha para nós dois e uma só colher para comer tudo o que Alá houver por bem derramar em nossas cuias.

Estávamos ao lado da fonte, bem em frente de um caravançará, eu e meu bom amigo, meu companheiro, meu doce irmão, envolvidos em nossa costu­meira discussão, cada um querendo ceder ruidosamente ao outro a vez de usar a única colher com que comíamos — “Você primeiro!” “Não, você!” —, quando um viajante europeu, um homem muito estranho, nos interrompeu, deu uma moeda veneziana de prata a cada um de nós e pôs-se a nos desenhar.

Era europeu, como disse, e portanto esquisito, tanto que nos colocou bem no meio da folha, como se fôssemos a tenda do Sultão! Visto que nos desenhava seminus, tive a idéia, que logo comuniquei ao meu companhei­ro, de envesgar mostrando bem o branco dos olhos, o negro virado para den­tro, como se fôssemos cegos, de maneira a parecermos dervixes errantes ain­da mais verdadeiros e miseráveis. Foi o que fizemos. Quando um dervixe envesga assim, ele contempla o mundo que traz na cabeça, e não o mundo exterior; e, como nossa cabeça estava cheia de haxixe, a paisagem das nossas mentes era muito mais agradável que aquela que o pintor europeu via.

Enquanto isso, a paisagem exterior se deteriorou mais um pouco: ouvi­mos de repente as vociferações de um Hodja Efêndi.

Não nos entendam mal, por favor. Foi “Hodja Efêndi” que falamos, mas na semana passada produziu-se um tremendo mal-entendido neste elegante café: quando dissemos “Hodja Efêndi”, não estávamos aludindo em absolu­to à Sua Excelência Nusret Hodja, o hodja de Erzurum, nem ao hodja que não tem pai, o bastardo Husret Hodja, nem ao hodja de Sivas, que ficamos sabendo copulava nas árvores com Satanás. Aqueles que interpretam tudo de maneira negativa disseram que, se Sua Excelência Hodja Efêndi se tor­nasse mais uma vez aqui alvo de maledicências, eles cortariam a língua do satirista e poriam abaixo este café.

Cento e vinte anos atrás (não havia cafés então), o respeitado Hodja, cuja história começamos a contar, estava espumando de raiva.

“Ei, infiel, por que está desenhando esses dois?”, ele se aproximava ber­rando. “Esses desgraçados desses dervixes errantes andam por aí roubando e mendigando, fumam haxixe, bebem vinho, enrabam um ao outro e, como dá para ver pela aparência deles, nem sabem o que é uma prece, um lar, a pá­tria, a família. Eles são a ralé deste bom mundo que é o nosso. Por que você está pintando esta imagem da abjeção, quando há tanta beleza neste grande país? Será que é para fazer os outros acreditarem que somos todos abjetos?”

“Não, é só porque os desenhos dos aspectos abjetos de vocês vendem mais”, respondeu o infiel. Nós dois ficamos impressionados com a sensatez do raciocínio do pintor.

“E se o Diabo rendesse mais, você o pintaria bonito?”, rebateu Hodja Efêndi, tentando atrair o outro para uma discussão. Mas, como vocês podem ver por este desenho, o europeu era um artista de verdade, que só se preocu­pava com seu trabalho e com o dinheiro que este ia lhe render, e não com a tagarelice vazia do hodja.

De fato, ele nos pintou, guardou-nos na pasta de couro que levava atrás da sela da sua cavalgadura e voltou para a sua cidade infiel. Pouco tempo de­pois disso, os exércitos vitoriosos dos otomanos conquistaram e saquearam a sua cidade nas margens do Danúbio, e nós dois acabamos voltando para Is­tambul e para o Tesouro do Sultão. Ali, copiados às escondidas um sem-nú­mero de vezes, passamos de um livro a outro, até finalmente chegarmos a este alegre café, onde essa bebida é tomada como um elixir rejuvenescedor e revigorante. E agora:

UM BREVE TRATADO SOBRE A PINTURA,

A MORTE E NOSSO LUGAR NO MUNDO

O Hodja Efêndi de Konya, de que acabamos de falar, parece que pro­clamou em algum lugar, num dos seus sermões, que foram escritos e coligidos num grosso volume, que nós, dervixes errantes, somos o rebotalho do mundo, porque não pertencemos a nenhuma das quatro categorias em que os homens são divididos: 1. homens ilustres; 2. mercadores; 3. agricultores; 4. artistas. Logo, somos supérfluos.

Além disso, afirmou o seguinte: “Aqueles dois sempre vagabundeiam em par e estão sempre discutindo para saber qual dos dois vai ser o primeiro a co­mer com a única colher que têm; quem não sabe que se trata apenas de uma maneira velada de determinar qual dos dois vai enrabar o outro primeiro acha a discussão engraçada e cai na risada”. Sua Excelência o Hodja Não-o-Confundam-com-Outro descobriu nosso segredo porque ele, como nós, os bonitos efebos, os aprendizes e os miniaturistas, rezamos todos pela mesma cartilha.

O VERDADEIRO SEGREDO

É o seguinte: enquanto nos pintava, aquele infiel olhava para nós com tamanha candura, com tanta atenção, que estávamos encantados por ter si­do tomados como modelos. Ele cometia, porém, o erro de ver o mundo ape­nas com seus olhos e de representar o que via. Por isso, ele nos pintava co­mo cegos, quando enxergávamos, e muito bem até! Mas nem ligamos. Agora estamos contentes. Segundo o Hodja, estamos no Inferno; de acordo com alguns incréus, não passamos de cadáveres decompostos; mas, para vocês que estão reunidos aqui, seleto e inteligente público de pintores, somos este desenho e, por sermos um desenho, estamos aqui diante de vocês como se estivéssemos vivos e bem de saúde. Depois do nosso encontro com o respei­tado Hodja Efêndi e depois de ir de Konya a Sivas a pé em três noites, pas­sando por oito aldeias, mendigando o caminho todo, uma noite fomos sur­preendidos pelo frio e pela neve. Encolhidos um contra o outro, adormecemos e morremos gelados. Antes de morrer, sonhei que me desenhavam e que meu desenho, depois de viver milhares de anos, entrava no Paraíso.

51. Eu, Mestre Osman

Contam em Bukhara uma história da época de Abdullah Cã. Esse cã uzbeque era um soberano muito desconfiado e, embora não fizesse objeção a que mais de um pintor trabalhasse para a mesma obra, detestava que seus artistas se imitassem mutuamente, cada um copiando o trabalho do vizinho. Porque, se todos se copiassem descaradamente, caso um deles iniciasse uma imagem repreensível, seria impossível determinar quem era o autor da blas­fêmia. Mais grave ainda, em vez de todos se emularem procurando nas tre­vas o tesouro perdido das lembranças de Alá, os plagiadores acabariam pou­co a pouco se contentando com pintar o que viam por cima dos ombros do artista ao lado. Por isso, esse cã recebeu cheio de alegria dois grandes mes­tres, um de Shiraz, no Sul, o outro de Samarcanda, no Leste, que fugiam da guerra e dos xás cruéis para buscar refúgio em sua corte, mas proibiu que um visse o trabalho do outro. Deu-lhes, portanto, dois pequenos ateliês privados, nos dois extremos do seu imenso palácio. Assim, durante exatos trinta e sete anos e quatro meses, como se ouvissem uma fábula, os dois grandes mestres ouviram, cada qual por sua vez, Abdullah Cã exaltar a beleza do trabalho nunca visto do outro, como eram diferentes ou incrivelmente parecidos en­tre si. E os dois morriam de curiosidade pela pintura do outro. Quando esse cã uzbeque cruzou a linha de chegada da sua longa prova da vida, que ele correu como uma tartaruga, os dois velhos pintores precipitaram-se um para o ateliê do outro, a fim de verem as respectivas miniaturas. Mais tarde, senta­dos cada um numa ponta de uma grande almofada, um com o livro do outro no colo, examinando as ilustrações das mesmas fábulas apreciadas por Ab­dullah Cã, ambos os miniaturistas tiveram a decepção de constatar que as imagens não eram nem de longe tão maravilhosas quanto esperavam, pelo que tinham ouvido delas, mas, como todas as pinturas que haviam visto nos últimos anos, pareciam ordinárias, pálidas, um pouco apagadas até. Os dois velhos mestres não se deram conta de que esse apagado era o primeiro sinto­ma da cegueira iminente e, mesmo depois de ficarem cegos, teimavam que tinham sido enganados a vida toda pelo cã, e morreram persuadidos de que os sonhos eram mais bonitos do que as imagens dos livros.

Na Sala do Tesouro, onde eu virava as páginas no meio da noite com meus dedos gelados, eu sabia que tinha muito mais sorte do que os artistas da cruel história de Bukhara, pois podia contemplar as maravilhas com que sonhara nos últimos quarenta anos. Eu me sentia tão emocionado com a idéia de ter em mãos — antes de ficar cego e ir para o Além — alguns dos lendários manuscritos de que ouvira falar a vida inteira, que às vezes deixava escapar uma exclamação de reconhecimento a Alá, quando a imagem que eu via superava em beleza tudo o que me haviam contado.

Por exemplo, oitenta anos atrás o xá Ismail atravessou o rio e, com sua espada, retomou dos uzbeques Herat e todo o Khurasan, nomeando então seu irmão Mirza governador de Herat. Para celebrar o feliz acontecimento, Mirza encomendou uma versão iluminada de um livro intitulado A conver­gência dos astros, em que é contada uma história tal como foi testemunhada por Emir Khosrow no palácio de Délhi. Dizia-se que uma das ilustrações do livro mostrava o encontro de dois soberanos — Keykubad, sultão de Délhi, e Bugra Cã, seu pai, soberano de Bengala — à margem de um rio, para cele­brar uma vitória conjunta. Mas os dois personagens também lembram a fi­sionomia do xá Ismail e do seu irmão, o príncipe Mirza, que encomendara o livro. Meu espírito se perdia entre as duas leituras daquela cena grandiosa e, sonhando que tinha diante dos meus olhos os heróis daquelas duas histó­rias em sua tenda, agradeci a Alá por ter me dado a oportunidade de ver aque­la página mágica.

Numa miniatura do sheik Muhammad, um dos maiores mestres daque­la mesma época lendária, um pobre coitado, cujo afeto e cuja adoração por seu sultão atingiram o nível do mais puro amor, assistia o sultão jogar uma partida de pólo, esperando ansiosamente que a bola rolasse em sua direção para que ele pudesse pegá-la e entregá-la ao seu venerado soberano. Ele es­pera longamente, pacientemente, e a bola, por fim, vem rolando até ele. Ve­mos o homem no momento em que a pega e entrega ao seu amado sultão. Como tinham me afirmado milhares de vezes, o amor, a devoção, a submis­são absoluta que um pobre coitado experimenta por um grande cã ou um eminente monarca, ou que um bonito e jovem aprendiz sente por seu mes­tre, eram expressos aqui com uma delicadeza e uma compaixão perfeitas, nos dedos estendidos do súdito oferecendo a bola, na sua impossibilidade de juntar coragem e olhar para o seu venerado soberano. Olhando para aquela página, confirmou-se minha certeza de que não havia maior alegria no mun­do do que ser o mestre de um bonito, inteligente e jovem aprendiz, e de que esse prazer só tinha igual naquela submissão total, quase servil, que o apren­diz devota ao seu mestre — c tive sincera pena dos que não podem com­preender tal coisa.

Enquanto eu virava as páginas e admirava, apressadamente mas com embevecida atenção, os milhares de passarinhos, cavalos, soldados, amantes, camelos, árvores e nuvens, o feliz anão, igual um xá dos velhos tempos de­leitando-se com a rara oportunidade de exibir seus tesouros, tirava das arcas um volume depois do outro e colocava-os à minha frente. De dois cantos de um baú de ferro, lotado de volumes divertidos, de livros comuns e álbuns heterogêneos, emergiram dois exemplares extraordinários — um encaderna­do no estilo de Shiraz, com capa cor de vinho, o outro encadernado em He­rat e acabado com uma laca escura, à chinesa —, contendo páginas tão pa­recidas, que de início pensei que um era cópia do outro. Para determinar qual era o original e qual a cópia, pus-me a procurar, nos respectivos cólo­fons, o nome dos calígrafos, a buscar nos detalhes alguma assinatura oculta. Acabei me dando conta de que aqueles dois volumes de Nizami eram os len­dários livros que Mestre Sheik Ali, de Tabriz, havia feito, um para o cã dos Carneiros Negros, Djahan Xá, o outro para o cã do Carneiro Branco, Has­san, o Alto. Para evitar que o grande artista fizesse para outro uma versão me­lhor desse trabalho, o cã do Carneiro Negro mandou furar os olhos dele; o Mestre refugiou-se então junto ao cã do Carneiro Branco e criou de memó­ria para ele um exemplar superior. Ver que as imagens do segundo daqueles livros lendários, feitas pelo pintor já cego, eram mais sutis e mais puras, em­bora as do primeiro tivessem cores mais vivas e vigorosas, recordou-me que a memória do cego revela a implacável simplicidade da vida, mas também ate­nua seu vigor.

Sei que sou um grande pintor, e não duvido que o Poderoso Alá, que tu­do sabe e tudo vê, é da mesma opinião; por isso também sei que um dia fi­carei cego. Mas era porventura o que eu desejava naquele momento? Como o condenado que deseja contemplar o mundo pela última vez antes de ter a cabeça cortada, supliquei a Ele, cuja presença eu podia sentir perto de mim, na esplêndida e assustadora escuridão daqueles tesouros amontoados: “Per­mita-me ver todas estas miniaturas até meus olhos se fartarem!”.

Por obra da inescrutável sabedoria de Alá, ao fio das páginas que eu vi­rava eu descobria o tempo todo lendas e histórias de cegueira. Na célebre ce­na que mostra como Shirin, ao passear pelo campo, se apaixona loucamente pelo retrato de Khosrow pendurado no galho de um plátano, Sheik Ali Reza, de Shiraz, representara uma a uma todas as folhas da árvore, de modo que o céu estava coberto delas. Em resposta a um idiota que viu a obra e comen­tou que o verdadeiro tema da ilustração não era o plátano, Sheik Ali replicou que o verdadeiro tema também não era a paixão da bela moça, mas a paixão do artista; e provou orgulhosamente sua afirmação pintando o mesmo pláta­no com todas as suas folhas num grão de arroz. Se não me enganava quanto à assinatura escondida detrás dos lindos pés da dama de companhia favorita de Shirin, eu contemplava agora a magnífica árvore pintada em papel pelo grande mestre — ele deixou incompleta a que fez no grão de arroz, pois fi­cou cego após trabalhar nela por sete anos e três meses. Numa outra página, Rustam furando os olhos de Alexandre com sua flecha de ponta em forquilha era manifestamente pintado de acordo com o estilo indiano e com tanta vivacidade, e um colorido tão exuberante, que passava ao observador a sensa­ção de que a cegueira, tristeza imemorial e desejo secreto de todo miniaturis­ta digno desse nome, era o prólogo de uma feliz comemoração.

Meus olhos porém percorriam essas imagens e esses livros com a excita­ção de alguém ávido por contemplar pessoalmente aquelas obras lendárias de que ouvira falar a vida toda, mas também com a tristeza de um velho que sabe que em breve nunca mais verá nada. Naquela Sala do Tesouro banhada por um vermelho profundo que eu nunca tinha visto antes — gerado pela luz das velas atravessando a poeira e se refletindo nos tecidos coloridos —, eu deixava escapar às vezes um grito de embevecimento que fazia o anão Djazmi e o Negro correrem na minha direção para espiar por cima do meu ombro. Incapaz de me conter, eu lhes explicava as maravilhas daquela página:

“Esta cor pertence ao Grande Mestre de Tabriz, Mirza Baba Imami, que aliás levou para o túmulo seu segredo. Ele a utiliza nas beiradas dos ta­petes, no turbante turcomano usado pelos xás da Pérsia e, como vocês estão vendo, também no ventre deste leão e no cafetã deste belo rapaz. Alá nunca dá a ver diretamente este vermelho admirável, salvo quando permite que cor­ra o sangue dos seus súditos. No entanto, Alá houve por bem confiar o segre­do dessa variedade de vermelho a uns raríssimos insetos que vivem debaixo das pedras, para que pudéssemos obter, esmagando-os, essa cor excepcional que só encontramos nos melhores tecidos e nas pinturas dos maiores mes­tres”, expliquei, acrescentando: “Agradeçamos mais uma vez a Ele, que es­conde e que revela!”.




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