Meu nome é Vermelho



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“Olhem aqui”, chamei-os bem mais tarde, de novo incapaz de guardar só para mim a contemplação de mais uma obra-prima. “E um exemplar dig­no de figurar nas melhores coletâneas de gazéis, que falem de amor, amiza­de, primavera e felicidade.” A floração multicor das árvores na primavera, os ciprestes de um jardim que se assemelha ao Paraíso e os arroubos dos felizes amantes que, deitados na relva, tomam vinho e recitam doces poemas — era como se nós, no ar pesado, glacial, úmido, que reinava no Tesouro, também pudéssemos sentir o aroma daqueles botões primaveris e da pele delicada­mente perfumada do alegre par. “Vejam como os braços dos amantes, seus lindos pés descalços, a elegância da sua pose e os passarinhos que se diver­tem indolentes esvoaçando ao seu redor, que o pintor representou com tan­to fervor, realçam o aspecto severo e rugoso do velho cipreste ao fundo! Ê a marca de Lutfi de Bukhara, cujo temperamento difícil e brigão fazia com que deixasse todas as suas ilustrações inacabadas. Ele brigava com todos os xás e cãs, clamando que eles não entendiam nada de pintura e nunca ficava muito tempo no mesmo lugar. Esse grande mestre ia de um palácio a outro, de cidade em cidade, desentendendo-se em todos, nunca conseguindo en­contrar um soberano cujo livro fosse digno do seu talento, até que foi bater no ateliê de um reles potentado local, que reinava apenas sobre morros descalvados. Proclamando que esse ‘cã podia ter domínios pequenos, mas en­tendia de pintura’, ali passou seus últimos vinte e cinco anos de vida. Ainda hoje se discute se ele sabia ou não que o seu amo era cego.”

“Estão vendo esta página?”, perguntei já tarde da noite, e dessa vez os dois acorreram cada qual com sua vela na mão. “Da época dos netos de Ta­merlão, há cento e cinqüenta anos, até hoje, de Herat a Istambul, este livro passou por dez donos.” Os três deciframos com minha lupa as assinaturas, dedicatórias, informações históricas e nomes de sultões estrangulados uns pelos outros, todas aquelas referências acavaladas, intercaladas, espremidas umas contra as outras, enchendo cada canto da página de cólofon: “Este vo­lume foi terminado em Herat, com a ajuda de Alá, pela mão do calígrafo sul­tão Veli, filho de Muzaffar, no ano da Hégira de oitocentos e quarenta e no­ve, por conta de Ismet-i-Dünya, esposa de Muhammad Djuki, irmão do Senhor do Mundo, Baysungur”. Pudemos ler que aquele volume havia sido possuído, depois disso, pelo sultão Khalil, da Horda do Carneiro Branco, por seu filho Ya’kub Bei, depois passara pelas mãos dos sultões uzbeques, cada um dos quais havia tirado ou acrescentado ao acaso uma ou duas miniatu­ras. Todos, desde o primeiro deles, haviam mandado pintar imagens das res­pectivas esposas e caligrafar seu nome na página de cólofon. Mais tarde o vo­lume voltou a Herat na época de Sem Mirza, após a conquista da cidade pelo xá Ismail, o Safávida, a quem seu irmão mais moço deu de presente, para o seu palácio de Tabriz. Aí, o xá Ismail mandou fazer nova dedicatória, pois pretendia oferecê-lo por sua vez. No entanto, com sua derrota em Tchaldiran para o Hóspede do Paraíso, sultão Selim I, o Cruel, e o saque do Palácio dos Sete Céus em Tabriz, o livro acabou vindo parar aqui neste Tesouro, em Istambul, depois de atravessar desertos, montanhas e rios com os vitoriosos soldados do Sultão.

Até que ponto o Negro e o anão compartilhavam o meu entusiasmo de velho artista? A medida que abria outros livros e virava outras páginas, eu compartilhava as profundas tribulações de todos aqueles milhares de pinto­res de centenas de cidades, grandes e pequenas, cada um deles com seu tem­peramento, cada um pintando sob o patrocínio de um xá, cã ou potentado cruel, cada um exibindo seu talento até ficar cego. Eu sentia a dor das sur­ras que todos nós recebemos durante nosso longo período de aprendizado, as reguadas na cara até o rosto ficar vermelho ou as pancadas com o alisador de mármore na cabeça tonsurada, enquanto folheava incomodado um livro de quinta categoria sobre os métodos e equipamentos de tortura. Gostaria de saber o que aquela coisa abjeta fazia ali, no Tesouro otomano: em vez de considerar a tortura uma prática necessária, administrada sob a supervisão de um juiz e destinada a assegurar a justiça de Alá neste mundo, os viajantes infiéis, para convencer seus correligionários de que somos gente desalmada e cruel, encomendavam estes álbuns hediondos a alguns miniaturistas, que se rebaixavam a tanto em troca de algumas moedas de ouro. Incomodava-me principalmente o prazer perverso que aquele miniaturista sentira nitida­mente ao pintar as bastonadas, espancamentos, crucifixões, enforcamentos, pelos pés ou pescoço, empalações, grelhas, arrancamentos de unhas, olhos e cabelos, estrangulamentos, degolas, devorações por cachorros famintos, açoi­tes, sacos de couro molhados, torniquetes, mergulhos na água gelada, dedos quebrados, esfolamentos pedaço por pedaço, mutilações de nariz. Só artistas de verdade, como nós, que sofreram na juventude as mais severas correções, cacetadas, cachações, cascudos a esmo, com que os mestres descarregavam sua irritação por causa de uma linha que eles próprios haviam traçado mal — sem falar nas sessões de varadas e reguadas destinadas a matar o diabo que ha­via dentro de nós, para que renascessem na forma do djim da inspiração —, só artistas como nós podiam se deleitar representando essas cenas de tortura e pintando com cores vivas, como uma criança colore sua pipa, todos aque­les horríveis instrumentos.

Daqui a várias centenas de anos, os homens que se debruçarem sobre o nosso mundo através das pinturas que fizemos não vão entender nada. Ten­tando compreender melhor, ainda que a paciência às vezes lhes falte, quem sabe sentirão o embaraço, a alegria, a dor, o prazer que agora sinto ao exami­nar estas miniaturas nesta sala gelada do Tesouro. Mas nunca compreende­rão de verdade. Continuei a virar as páginas, os dedos entorpecidos, insensí­veis, minha fiel lupa de cabo de madrepérola e meu olho esquerdo passando por elas como uma velha cegonha atravessando a terra, pouco surpresa com a vista lá embaixo, mas ainda espantada por ver coisas novas. E naquelas pá­ginas há décadas ocultas aos nossos olhos, muitas delas lendárias, descobri que artista aprendera o que com quem, em que ateliê sob o patrocínio de que xá aquilo a que hoje chamamos “estilo” tomou forma pela primeira vez, que mítico mestre trabalhara para quem, e como, por exemplo, as nuvens turbulentas, que eu sabia terem se difundido por toda a Pérsia a partir de He­rat sob a influência chinesa, chegaram até a capital, Kazvin. Às vezes eu me permitia um exausto “ah!”; mas bem no fundo de mim experimentava uma angústia, uma melancolia, uma sensação de vazio que dificilmente poderia compartilhar com vocês, ao pensar nas humilhações, nos maus-tratos infligi­dos pelos mestres àqueles pintorezinhos bonitos, com cara de lua, olhos de gazela, magricelos, que suportavam tudo aquilo por sua arte, mas que conti­nuavam cheios de ânimo e de esperança, regozijando-se com o afeto que se desenvolvia entre eles e seus mestres, com o amor que compartilhavam pela pintura, antes de sucumbir no anonimato e na cegueira após longos anos de árdua labuta.

Sim, vazio e melancolia, isso era o que inspirava à minha alma esse mun­do de sentimentos delicados que, durante todos esses anos consagrados à ilus­tração das guerras e festejos do Nosso Sultão, ela havia acabado por esque­cer. Assim, abrindo uma antologia de poemas, eu via um jovem rapaz persa de cintura fina, lábios vermelhos, tendo no colo uma antologia poética, co­mo eu; aquilo me lembrou esta verdade que os reis, ávidos de ouro e de po­der, costumam esquecer: a beleza do mundo pertence a Alá. Num outro ál­bum, ilustrado por um jovem pintor de Isfahan, admirei com lágrimas nos olhos dois namorados, extraordinariamente bonitos, que me fizeram pensar nos meus aprendizes, tão apaixonados por sua arte. Um rapaz, cujos pés miú­dos e a pele diáfana lhe davam um ar feminino, arregaçava a manga para mostrar, a uma linda mocinha de lábios de cereja, olhos amendoados e nari­nas finas como dois pontos de pena, três marcas em forma de flor — três quei­maduras que ele fizera a ferro em brasa, para lhe provar o ardor da sua pai­xão —, num braço tão adorável que dava vontade de beijá-lo e depois morrer.

Meu coração agitou-se estranhamente. Como sessenta anos antes, quan­do eu era aprendiz e via ilustrações indecentes desenhadas com tinta preta ao estilo de Tabriz, representando garotinhos de tez marmórea com garotinhas esbeltas de seios nascentes, o suor pôs-se a gotejar da minha testa. Lem­brei-me dos devaneios profundos e do entusiasmo que senti, poucos anos de­pois de me casar e quando estava a ponto de tornar-me mestre, ao ver um efebo com carinha de anjo, olhos amendoados, pele como a pétala de uma rosa, que me haviam trazido como candidato a aprendiz. Tive a sensação, breve mas intensa, de que a pintura não era uma questão de vazio ou de me­lancolia, mas desse desejo que eu revivia, e que o pintor devia transformar esse desejo num amor ao mundo tal como era visto por Alá. Tão forte era es­se desejo que ele me fazia reviver com um delicioso êxtase todos os anos que passei sobre a minha prancheta de desenho até minhas costas ficarem cur­vas, todas as surras que levei enquanto aprendia minha arte, toda aquela mi­nha dedicação que me condenava à cegueira, todas as angústias da pintura que sofri e fiz outros sofrerem. Como se corresse o olhar por uma coisa proi­bida, contemplei longa e silenciosamente, e com o mesmo deleite, aquela maravilhosa imagem. Muito depois eu ainda a contemplava. Uma lágrima correu pela minha face rugosa até a minha barba branca.

Percebendo que a claridade de um dos castiçais que se moviam lenta­mente na nossa sala se aproximava de onde eu estava, larguei o álbum e es­colhi outro ao acaso, dentre os que o anão havia empilhado ao alcance da minha mão. Era uma obra luxuosa, sem dúvida preparada para um xá: via-se um casal de gamos namorando na orla de um matagal, ante o olhar invejoso e hostil de dois chacais. Na página seguinte, uns cavalos baios e ruços que só podiam ser obra de um dos velhos mestres de Herat, tão magníficos eram! Virei a página: um alto funcionário do governo, sentado numa atitude arro­gante, olhava para mim de uma miniatura de uns setenta anos atrás; eu não podia dizer quem ele era por seu rosto, que se parecia com o de qualquer um, pelo menos era o que eu pensava, mas um não-sei-quê na pintura, as vá­rias nuances com que era pintada a barba do homem sentado recordavam-me alguma coisa. Meu coração disparou quando reconheci a execução da­quela mão sublime. Meu coração soube antes de mim: só ele poderia ter desenhado aquela mão! Era uma obra de Bihzad! Senti como se uma luz quente jorrasse da pintura no meu rosto.

Eu já tinha visto algumas criações do Grande Mestre Bihzad; mas, seja porque daquelas vezes eu estava com outros pintores, seja porque não pude­mos então ter certeza de que se tratava de fato de uma obra do grande Bih­zad, eu não havia ficado tão emocionado quanto agora.

As trevas nauseabundas, úmidas e pesadas do Tesouro pareciam ilumi­nadas. A imagem daquela mão confundia-se na minha mente com a do bra­ço delgado, marcado a fogo com os símbolos do amor, que eu acabara de ver. E mais uma vez agradeci a Alá por me mostrar aquelas maravilhas antes que eu ficasse cego. Como é que eu sabia que isso não ia tardar? Não sei. Disse comigo mesmo que podia confiar essa minha intuição ao Negro, que se esgueirara para junto de mim com uma vela na mão e também observava aquela página, mas foram outras as palavras que saíram da minha boca.

“Veja que beleza esta mão”, exclamei. “E Bihzad.”

Naquele instante minha mão, por si mesma, repetiu o gesto costumeiro de quando eu era moço e estava apaixonado por um dos meus bonitos apren­dizes de pele macia e aveludada, e pegou a do Negro. A mão dele era lisa e sólida, mais quente que a minha, o pulso palpitante era ao mesmo tempo fi­no e robusto, como eu gosto. Quando eu era moço, era assim que pegava a mão juvenil dos meus aprendizes e, antes de lhes mostrar como segurar o pincel, olhava-os com afeto em seus lindos e assustados olhos. Fiz a mesma coisa com o Negro. Vi em seus olhos o reflexo da chama da vela que ele em­punhava. “Nós, miniaturistas, somos todos irmãos”, falei, “mas tudo isso lo­go vai acabar.”

“O que quer dizer?”

Eu disse “tudo isso logo vai acabar” como um grande mestre que aguar­da a cegueira, tendo dedicado seus anos a um senhor ou a um príncipe, ten­do criado obras-primas em seu ateliê no estilo dos antigos, tendo até conse­guido fazer que seu ateliê criasse seu próprio estilo, um grande mestre que sabe que, se seu senhor e patrono perder sua derradeira batalha, novos se­nhores virão no rastro dos saqueadores inimigos, dispersarão o ateliê, rasga­rão as páginas e as encadernações, destruirão sem dó nem piedade tudo o que sobrar, todos os refinados detalhes em que por tanto tempo acreditara, todos os achados de que se orgulhava e que amava tanto quanto seus pró­prios filhos. Mas eu precisava explicar isso ao Negro de outro modo.

“Esta é uma imagem do grande poeta Abdullah Hatifi. Hatifi era um poeta tão grande que, quando o xá Ismail entrou na cidade de Herat, só ele ficou em casa, enquanto o resto da população saiu à rua para vê-lo. Em res­posta, o conquistador em pessoa foi à casa de Hatifi visitá-lo. E ele morava fora da cidade. Sabemos que é ele, não pelos traços que Bihzad lhe empres­ta, mas pela inscrição ao pé da ilustração, não é mesmo?”

O Negro olhou para mim, aquiescendo com seus lindos olhos.

“Quando observamos o rosto do poeta nesta imagem, vemos o de qual­quer poeta. Se Hatifi estivesse aqui não poderíamos reconhecê-lo pela ilustração; mas podemos identificá-lo se examinarmos com cuidado o conjunto do retrato: o estilo da composição, a postura do modelo, as cores, a douradu­ra e a maneira extraordinária com que o grande Bihzad pintou esta mão su­blime permitem-nos dizer sem hesitação que é o retrato de um poeta. Por­que na nossa pintura o sentido precede a forma. E se nos pusermos a pintar à européia ou à veneziana, como no livro que Nosso Sultão encomendou ao seu Tio, então o mundo dos sentidos cederá lugar ao mundo da forma. Mas, com os métodos venezianos...”

“Meu Tio, descanse em paz, foi assassinado”, replicou o Negro seca­mente.

Acariciei sua mão, que eu segurava com o mesmo respeito que a de um jovem aprendiz que esperamos faça maravilhas, um dia. Calados e reveren­tes, contemplamos a obra-prima de Bihzad por mais um bom momento. De­pois ele retirou a mão.

“Passamos depressa demais pelos alazões da página precedente, sem ve­rificar a forma das narinas.”

“Não têm nada de especial”, respondi. E para que ele próprio compro­vasse, voltei à página anterior: não havia de fato nada de extraordinário nas narinas dos cavalos.

“Quando vamos encontrar esses cavalos de narinas esquisitas?”, protes­tou como um garotinho.

No meio daquela noite, já chegando a madrugada, quando eu e o anão encontramos no fundo de um grande baú de ferro, sob várias camadas de brocado de seda, enrolado numa capa de cetim verde, o celebérrimo Livro dos reis de Tahmasp, o Negro dormia de punhos cerrados, encolhido num tapete vermelho de Ushak, a bonita cabeça apoiada num travesseiro enfeita­do com pérolas. Ao rever, pela primeira vez após tantos anos aquela obra que já se tornara lendária, soube que o dia ia ser maravilhosamente longo.

Era um objeto tão volumoso e pesado que Djazmi Agá e eu tivemos a maior dificuldade para tirá-lo dali e carregá-lo. Ao apalpar a encadernação, senti a madeira sob o forro de couro. Vinte e cinco anos antes, a morte do sultão Suleyman, o Magnífico, deixou o xá Tahmasp tão empolgado por se ver finalmente livre daquele sultão que havia ocupado Tabriz três vezes que, além de uma caravana carregada dos mais variados presentes, ele ofereceu ao sucessor de Suleyman, o sultão Selim II, um magnífico Corão e este volume, o mais bonito livro do seu Tesouro. Primeiro a embaixada do xá, com­posta por trezentas pessoas, levou o livro a Edirne, onde o novo sultão passa­va o inverno caçando; depois, quando chegou aqui em Istambul com os ou­tros presentes transportados no lombo de mulas e camelos, Memi, o Negro, que era o Grande Mestre Iluminador na época, e três de seus jovens pinto­res, eu entre eles, fomos ver o livro antes que o trancassem no Tesouro. Co­mo os moradores de Istambul iam correndo ver um elefante trazido do Hin­dustão ou uma girafa vinda da África, assim nós corremos ao palácio, onde o Grande Mestre nos informou que, embora naquela época vivesse em Tabriz, para onde se mudara ao deixar Herat, Bihzad, entrado em anos, não havia contribuído para aquele livro por já estar cego.

Para pintores otomanos como nós, que se impressionavam facilmente com um manuscrito que apresentasse sete ou oito miniaturas, como sucede geralmente, esse livro, que ostentava nada menos de duzentas e cinqüenta, era como um maravilhoso palácio que exploraríamos enquanto seus mora­dores dormiam um sono encantado. Admirávamos aquelas páginas suntuo­sas em pia e silenciosa reverência, como se contemplássemos os próprios Jar­dins do Paraíso que houvessem aparecido milagrosamente diante de nós por um breve instante. E nos vinte e cinco anos seguintes, esse livro que permane­cia trancado na Sala do Tesouro não cessou de alimentar nossas conversas.

Abri silenciosamente a grossa capa do Livro dos reis, como se estivesse abrindo a porta imensa de um palácio. A medida que virava suas páginas, ca­da uma das quais produzia um farfalhar gostoso, era muito mais a melanco­lia do que um reverencioso respeito que tomava conta de mim.

1. Eu tinha dificuldade para concentrar minha atenção naquelas ima­gens, pois não parava de pensar nas histórias que sugeriam que todos os mi­niaturistas de Istambul haviam roubado daquele livro a idéia para as suas imagens.

2. Eu estava por demais esperançoso de encontrar em algum canto o to­que pessoal de Bihzad para conceder toda atenção que mereciam certas pá­ginas, que eram verdadeiras obras-primas (por exemplo, com que elegância e determinação Tahmuras abatia sua maça sobre a cabeça de demônios e gi­gantes, os quais, mais tarde, firmada a paz, lhe ensinariam o alfabeto, o gre­go e várias outras línguas!).

3. A questão das narinas dos cavalos e a presença do Negro e do anão eram mais um obstáculo a impedir que eu me entregasse à contemplação do que via.

Apesar do privilégio de Alá ter me concedido, em sua infinita bondade, a sorte de me fartar com esse livro lendário antes que a cortina das trevas bai­xe sobre meus olhos, graça divina conferida a todos os grandes miniaturistas, eu estava consternado por constatar que o contemplava mais com a inteli­gência do que com o coração.

Na hora em que os primeiros alvores do dia penetravam em nossa sala, transformada numa espécie de túmulo gelado, eu já tinha examinado as du­zentas e cinqüenta e nove (e não duzentas e cinqüenta) ilustrações daquela obra excepcional. E, já que as vi com a mente, permitam-me mais uma vez ordenar minhas observações como se fosse um erudito árabe interessado ape­nas em raciocinar:

1. Não pude localizar em lugar nenhum os cavalos cujas narinas se pa­recessem com as que foram desenhadas pelo ignóbil assassino: nem nos ca­valos com pelagens de todas as cores que Rustam encontra em seu caminho, quando se aventura até o centro do Turã perseguindo os ladrões do seu pró­prio corcel; nem naquela extraordinária manada que atravessa o Tigre a na­do, pertencente a Feridun, xá do Irã, cuja passagem o sultão árabe queria proibir; nem entre os cavalos cinzentos que observam desolados a perfídia de Tur, que corta a cabeça do seu irmão mais moço, Iradj, para se vingar da partilha feita pelo pai ao legar seu reino, deixando a Tur apenas as terras oci­dentais de Rum, enquanto a Iradj coube o fértil Irã e ao terceiro a distante China; nem entre os cavalos dos heróicos exércitos de Alexandre, formados por khazares, egípcios, berberes e árabes, todos eles equipados com armadu­ras e escudos de ferro, indestrutíveis alfanjes e elmos cintilantes; nem na fa­mosa égua que massacrou, com seus cascos, Yazdagird, xá do Irã, às margens de um lago em cujas águas cor de esmeralda, dotadas de poder curativo, ele vinha buscar alívio para seu nariz que sangrava perpetuamente, castigo divi­no que ele merecera por ter se revoltado contra os desígnios de Alá; nem nas centenas de outros míticos cavalos, cada um mais maravilhoso que o outro, obra de seis ou sete miniaturistas no máximo. Restava-me entretanto mais de um dia inteiro para estudar os outros livros do Tesouro.

2. Corre nos últimos vinte e cinco anos um rumor persistente entre os mestres da nossa arte: um dos pintores teria recebido autorização excepcional do sultão para entrar aqui no Tesouro e, encontrando este Livro dos reis teria copiado num caderno uma série de desenhos — cavalos, nuvens, flo­res, aves, árvores, jardins, cenas de amor ou de batalha, para utilizá-las em seu trabalho. Cada vez que um artista produzia uma verdadeira obra-prima a inveja dos outros rebaixava seu trabalho qualificando-o de mera imitação da escola persa de Tabriz. Na época, Tabriz não fazia parte do nosso impé­rio e, quando tais calúnias eram dirigidas a mim, eu ficava furioso, com toda razão, mas secretamente orgulhoso; no entanto, quando ouvia a mesma acu­sação feita a outros pintores, eu acreditava... Ora, é verdade que nós, os qua­tro miniaturistas que, vinte e cinco anos atrás, tivemos a honra de contem­plar este livro, retivemos tão bem as imagens em nosso espírito que elas se encontram, transformadas, nas obras que pintamos para o Sultão. A cruel desconfiança dos sultões, que depois disso recusaram que consultássemos es­se livro e todos os outros guardados no Tesouro, me entristecia muito menos do que constatar como era limitado o mundo da nossa pintura: os artistas persas, tanto os grandes mestres de Herat como os novos mestres de Tabriz, produziram muito mais ilustrações extraordinárias, muito mais obras-primas do que nós, otomanos.

Por um instante pensei que seria melhor que todos os meus pintores, e eu próprio, fôssemos submetidos dois dias depois à tortura; e, com a ponta do estilete que usava para apontar penas, pus-me a furar impiedosamente os olhos da imagem que estava sob a minha mão, na página aberta do livro. A miniatura evocava a célebre partida de xadrez do sábio persa que aprendeu a jogar simplesmente olhando para um jogo trazido pelo embaixador do Hin­dustão e logo em seguida derrotou um mestre hindu. Uma mentira persa! Furei um a um os olhos dos dois jogadores e, depois, os do xá e de todos os personagens da sua corte que assistiam à partida. Passando às páginas seguin­tes, também furei os olhos daqueles xás que guerreavam sem dó, dos solda­dos de imponentes exércitos ataviados com magníficas armaduras e das vá­rias cabeças que jaziam no chão. Assim fiz em pelo menos três páginas, depois guardei meu estilete no bolso.

Minhas mãos tremiam, mas eu não me sentia nem um pouco mal. Es­taria experimentando agora aquilo que sentiam, depois de cometer esse mes­mo ato insano, aqueles tresloucados com cujo feito tantas vezes me deparei ao longo da minha cinqüentenária carreira de pintor? Em todo caso, é certo que eu desejaria ter visto escorrer nas páginas daquele livro o sangue jorran­do dos olhos que eu cegara.

3. Tudo isso me levava ao grande tormento que me esperava ao fim da minha vida e que era também meu grande consolo. Em nenhum lugar des­ta obra-prima, na qual Tahmasp fizera trabalhar durante dez anos os maio­res artistas do Irã, aparecia o menor vestígio do pincel de Bihzad, nem, em particular, das incomparáveis mãos que ele pintava. Isso confirmava a lenda de que ele tinha se cegado perto do fim da vida, quando teve de se mudar de Herat para Tabriz. Mais uma vez concluí feliz que, depois de ter igualado a perfeição dos velhos mestres ao cabo de toda uma vida de trabalho, o grande mestre preferiu cegar-se para não ter de submeter sua arte aos desejos de um novo xá vitorioso ou de algum outro ateliê.

O Negro reapareceu nesse momento com o anão, carregando um enor­me volume que pousaram aberto diante de mim.




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