Meu nome é Vermelho



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“Não, não é este”, disse a eles mas sem qualquer indelicadeza. “Este é um Livro dos reis feito pelos mongóis: os cavaleiros de Alexandre cobertos de ferro carregam sobre o inimigo; seus cavalos, também armados de ferro, fo­ram enchidos de nafta e atacam cuspindo fogo pelas ventas.”

Detivemo-nos um pouco sobre aquele flamejante exército de metal, co­piado das pinturas chinesas.

“Djazmi Agá”, pedi, “vinte e cinco anos atrás nós pintamos a cena da entrega dos presentes que os embaixadores de Tahmasp haviam trazido do Irã, entre os quais este livro. Creio que ela se encontra no Livro das vitórias do sultão Selim...”

O anão localizou a obra sem a menor dificuldade e a dispôs à minha frente. Na página em face da ilustração vibrantemente colorida representan­do a cerimônia em que os embaixadores entregavam os presentes oficiais, entre eles o Livro dos reis, meus olhos deram, em meio à lista dos presentes descritos um a um, com uma legenda que eu lera ao consultar pela primei­ra vez o prestigioso volume, mas de que me esquecera, sem dúvida por ela parecer tão incrível:

Alfinete de ouro para turbante, com cabo de turquesa e madrepérola, com o qual o Venerado Talento de Herat, o Mestre dos Mestres Iluminadores, Bihzad, furou os olhos.

Perguntei ao anão onde ele pegara o Livro das vitórias do sultão Selim. Segui-o pela poeirenta escuridão do Tesouro, serpeando sob as escadas e en­tre arcas, tecidos, pilhas de tapetes, armários. Notei como nossas sombras, ora se estreitando, ora se alargando, deslizavam por escudos, defesas de ele­fante, peles de tigre. Numa das salas contíguas, também tingida pelo mesmo vermelho estranho dos Veludos e brocados, ao lado do baú de ferro de onde o anão havia exumado o Livro dos reis, vi entre outros livros, tecidos borda­dos de prata e ouro, gemas brutas do Ceilão e adagas com cabos cravejados de rubis, alguns dos outros presentes enviados pelo xá Tahmasp — tapetes de seda de Isfahan, um jogo de xadrez de marfim e um objeto que logo cha­mou a minha atenção: um estojo da época de Tamerlão, decorado com dra­gões e folhagens chineses e com uma rosácea de madrepérola marchetada. Abri-o, escapou um cheiro sutil de papel queimado e água-de-rosas; ali esta­va, dentro dele, o tal alfinete com cabo de turquesa e madrepérola usado pa­ra prender plumas nos turbantes. Peguei-o e voltei para o meu lugar, como uma sombra.

De novo a sós, pousei sobre uma página aberta do Livro dos reis o alfi­nete com que Bihzad se cegara. O que me arrepiava não era ver o alfinete com que ele se cegara, mas um objeto em que sua mão milagrosa havia pe­gado.

Por que será que o xá Tahmasp havia enviado ao sultão Selim, junto com a obra, aquele alfinete aterrador? Terá sido porque esse xá, que na in­fância teve Bihzad como mestre de pintura e na juventude foi um protetor dos artistas, havia mudado ao envelhecer, afastando-se dos artistas, pintores e poetas do seu círculo, para se consagrar inteiramente à fé e à devoção? Te­rá sido por isso que ele quis se desfazer do maravilhoso manuscrito em que todos os seus maiores pintores haviam trabalhado dez anos a fio? Terá incluí­do aquele alfinete para que todos soubessem que a cegueira do Grande Mes­tre tinha sido voluntariamente causada ou, conforme o rumor que correu por algum tempo, para significar que a simples contemplação das maravi­lhosas páginas da obra que o alfinete acompanhava devia extinguir o desejo de ver qualquer outra coisa deste mundo? De fato, como acontece com mui­tos soberanos em idade avançada, que se arrependem de terem amado a pin­tura em seus verdes anos por temerem ter cometido um sacrilégio, esse livro sem dúvida não exercia mais nenhum fascínio sobre o xá, naquele momento.

Lembrei-me das histórias de velhos pintores cheios de mágoas, que vi­ram seus sonhos se frustrarem: estando os exércitos de Djahan Xá, chefe da Horda do Carneiro Negro, a ponto de entrar em Shiraz, o lendário Ibn Hussam, Grande Mestre da cidade, declarou: “Recuso-me a pintar de outra ma­neira”, e mandou um aprendiz queimar-lhe as pupilas com um ferro em bra­sa; entre os miniaturistas que os exércitos do ilustre sultão Selim, o Cruel, trouxeram para Istambul depois de derrotarem o xá Ismail, tomarem Tabriz e saquearem o seu Palácio dos Sete Céus, havia um velho mestre persa que diziam ter-se cegado com remédios porque acreditava que nunca mais pode­ria pintar em estilo otomano, e não por causa de uma doença que contraíra na estrada, como outros sustentavam. A história de Bihzad sempre me pare­ceu um bom exemplo, e eu costumava contá-la aos meus pintores em seus momentos de desalento.

Será que não existiria outro recurso? Não poderia um mestre pintor, fa­zendo algumas concessões ao novo estilo ocidental, salvar o ateliê e, se não todo, ao menos parte do estilo dos antigos mestres?

Na ponta delicadamente fina do alfinete de turbante, via-se uma peque­nina mancha negra, mas meu olho cansado não conseguia determinar se era sangue. Aproximei minha lupa e examinei demoradamente o alfinete, como se contemplasse uma melancólica pintura de amor com igual carga de me­lancolia. Não estava porventura contemplando uma obra de Bihzad? Tenta­va compreender como ele tinha feito. Ninguém fica cego de uma vez, pare­ce; a escuridão aveludada desce lentamente, às vezes leva dias, meses até, como acontece com os velhos que ficam cegos.

Eu o percebera ao passar à sala ao lado, levantei-me para ir buscá-lo: um espelho de cabo de ébano grosso e espiralado, cuja moldura de marfim era adornada com uns escritos. Voltei ao meu lugar e mirei meus olhos. Em minhas pupilas cansadas por sessenta anos de miniaturas, a chama das velas ondulava suavemente.

Como Bihzad terá feito? perguntei-me com uma espécie de cobiça.

Enquanto eu mantinha os olhos bem próximos do espelho, minha mão encontrava sozinha o alfinete, com os mesmos movimentos instintivos de uma mulher pintando os olhos. Como se fura um ovo de avestruz, para es­vaziá-lo antes de pintá-lo, enfiei sem titubear a ponta do alfinete na minha pupila direita. O mal-estar que senti não provinha da sensação, mas do que vi que tinha feito. Depois de enfiá-lo um quarto do dedo, retirei o alfinete.

Na moldura do espelho estava gravado um dístico, no qual o poeta de­seja, a quem nele se mira, eternas beleza e sabedoria — e vida eterna ao pró­prio espelho.

Fiz, sorrindo, a mesma coisa no outro olho.

Fiquei um longo momento ali, sem me mexer, espiando o mundo todo e cada coisa.

As cores, para minha grande surpresa, não haviam escurecido, mas co­mo que se fundiam umas nas outras. Eu ainda podia enxergar mais ou me­nos bem.

Pouco mais tarde, quando os raios pálidos do sol nascente penetravam na penumbra avermelhada do Tesouro, introduziam-se nas dobras cor de sangue das tapeçarias, o Tesoureiro-Mor e seus homens procederam à mes­ma cerimônia de quebra do lacre, de abertura do ferrolho e das portas. Djazmi Agá trocou os penicos, as lamparinas e os braseiros, mandou trazer pão fresco e amoras secas, e transmitiu a mensagem de que devíamos permane­cer entre os livros do Nosso Sultão, para prosseguir a busca do cavalo de ven­tas bizarras. Há coisa mais maravilhosa do que contemplar as mais belas mi­niaturas que já foram pintadas, enquanto tentamos recordar o mundo tal como é visto por Alá?

52. Meu nome é Negro

Quando, de manhã, o Tesoureiro-Mor acompanhado da sua escolta mandou abrir as portas, meus olhos estavam tão acostumados à claridade avermelhada das salas do Tesouro que a luz do dia de inverno filtrando do pátio do Enderun causou-me um efeito sinistro e ameaçador. Como Mestre Osman, fiquei imóvel, como se o menor movimento pudesse fazer as pistas que buscávamos escapar voando pelo ar bolorento, empoeirado, quase pal­pável do Tesouro.

Mestre Osman olhava para aquele raio de luz, que passava entre a ca­beça dos guardas do Tesouro enfileirados de ambos os lados da porta aberta, com uma curiosidade estranha, como quem vê uma coisa magnífica pela pri­meira vez.

Na noite precedente, eu o observara de longe e vira seus traços adquiri­rem a mesma expressão quando ele via as miniaturas do Livro dos reis de Tah­masp Xá. Sua sombra na parede de vez em quando tremia um pouco. Via-o inclinar a cabeça, a lupa na mão, seus lábios ora esboçando uma expressão complacente, como se fossem revelar algum segredo agradável, ora mexendo-se sozinhos enquanto ele admirava as imagens.

Depois que as portas foram fechadas, pus-me a andar de um lado para o outro, cada vez mais excitado. Eu me perguntava com angústia se tería­mos tempo suficiente para que os livros do Tesouro nos dessem a chave do mistério. Eu sentia que Mestre Osman não se concentrava direito em nossa tarefa precisa e acabei por fazer-lhe parte das minhas inquietações.

É um costume de todos os mestres acariciar amavelmente os jovens aprendizes, e ele também, nessa ocasião, pegou minha mão com ternura.

“As pessoas do nosso ofício não têm escolha, têm de se esforçar para en­xergar o mundo da maneira que Alá o vê e, quanto ao mais, confiar-se à Sua justiça. Eu tenho a sensação de que, pelo menos aqui, os objetos e suas ima­gens se aproximam e chegam quase a se juntar, e à medida que nos aproxi­mamos do ponto de vista de Alá, também nos aproximamos da Sua justiça. Olhe, é o alfinete com que Bihzad furou os olhos.”

Enquanto ele me contava nua e cruamente a história do alfinete, vi, com a lente de aumento que me permitia examiná-la melhor, que a aguda ponta do funesto objeto trazia o vestígio de um líquido rosado.

“Para os velhos mestres”, ele prosseguiu, “era um ponto de honra res­peitar a arte, o estilo, as cores a que haviam dedicado toda a sua vida. Era uma infâmia, para eles, ver o mundo um dia como um xá oriental ordenava, outro como mandava um soberano ocidental, que é o que fazem os artistas de hoje.”

Seus olhos não olhavam para os meus, nem para a página diante dele. Ele parecia olhar além, perder-se na brancura de inacessíveis distâncias. Na página do Livro dos reis, os exércitos do Irã e do Turã se enfrentavam com todo o seu vigor. Os cavalos encouraçados chocavam-se, ombro contra om­bro, os heróicos guerreiros em fúria brandiam suas espadas e se trucidavam numa orgia de cores, suas armaduras trespassadas pelas lanças da cavalaria, suas cabeças e seus braços cortados, seus corpos mutilados ou talhados em dois cobriam todo o campo de batalha.

“Quando os grandes mestres de outrora eram forçados a adotar o estilo dos vencedores e imitar seus miniaturistas, eles preservavam sua honra usan­do um alfinete para antecipar heroicamente a inexorável cegueira que os misteres da pintura lhes trariam com o tempo. E consagravam as últimas ho­ras — às vezes alguns dias —, antes que as trevas imaculadas de Alá desces­sem sobre os seus olhos como uma recompensa suprema, a contemplar sem cessar uma obra-prima da pintura. Por ficarem assim horas inteiras, de cabeça inclinada, sem tirar os olhos da página, o mundo daquelas imagens e seu sentido, turvados com o sangue que escorria dos seus olhos, substituíam to­dos os martírios que eles haviam sofrido e, enquanto a vista se anuviava len­tamente, eles se aproximavam em paz da cegueira. Sabe que imagem eu gos­taria de contemplar até alcançar a divina escuridão dos cegos?”

Suas pupilas se estreitavam no meio do branco dos olhos, cada vez maio­res, fixados num ponto fora da sala, além dos tesouros, como alguém que ten­ta reavivar uma remota lembrança da sua infância.

“A cena, pintada no estilo clássico dos velhos mestres de Herat, em que Khosrow, louco de amor, cavalga até o pé do castelo de verão de Shirin e es­pera que ela se mostre!”

Ele ia me contar a cena em todos os seus detalhes, na forma de um elo­gio fúnebre à glória dos mestres cegos de outrora, mas eu, num estranho im­pulso, interrompi-o: “Grande Mestre Venerado, o que aspiro contemplar é o doce rosto da minha amada. Estamos casados há três dias, por doze anos es­perei esse casamento. E quando vejo a cena em que Shirin se apaixona pelo retrato de Khosrow, é só nela que eu penso!”.

A face de Mestre Osman irradiou uma viva expressão, de surpresa tal­vez, mas que não tinha nada a ver com a minha história nem tampouco com as sangrentas imagens de batalha à sua frente. Ele parecia esperar uma boa e reconfortante nova, que pouco a pouco se revelaria. Certo de que não olha­va para mim, aproveitei para surrupiar o alfinete de turbante e me afastei.

Num canto escuro da terceira sala do Tesouro, aquela que é contígua ao grande hamam, estavam amontoados centenas de estranhos relógios pre­senteados por soberanos da Europa; quando paravam de funcionar, como não demorava a acontecer, eram jogados ali. Foi para lá que me retirei de modo a examinar com maior atenção aquele alfinete de turbante que, se­gundo Mestre Osman, o grande Bihzad utilizara para furar os olhos.

À luz avermelhada do dia que filtrava na sala, refletindo-se nas caixas, no cristal e nos diamantes dos relógios quebrados e empoeirados, a ponta do alfinete de ouro, revestida por aquele líquido rosado, de quando em quando cintilava. Será que o lendário miniaturista se havia mesmo cegado com aque­le adereço? Será que Mestre Osman também teria cometido esse mesmo ato terrível? Preso ao mecanismo de um daqueles imponentes relógios, um mar­roquino do tamanho de um dedo e exuberantemente colorido, parecia responder que sim com uma expressão maliciosa. Quando o relógio funciona­va, aquele homenzinho de turbante otomano inclinava alegremente a cabe­ça ao dar a hora — uma pequena brincadeira do habilidoso relojoeiro do rei Habsburgo, que o enviara para divertir Nosso Sultão e as mulheres do harém

Depois, corri os olhos por uma série de livros medíocres. Como o anão me confirmava, eles provinham do espólio dos paxás cujas propriedades e pertences foram confiscados depois que eles tiveram a cabeça cortada. Tan­tos paxás foram executados, que a quantidade daqueles livros era incalculá­vel. Com impiedosa satisfação, o anão comentou que certo paxá, a quem a embriaguez da riqueza e do poder fizera esquecer sua condição de súdito do Sultão, a ponto de mandar fazer um livro em sua homenagem iluminado com folha de ouro, como se ele fosse um monarca ou um xá, bem que me­receu ser executado e ter seus bens tomados. Mesmo nesses volumes, alguns dos quais eram álbuns, manuscritos iluminados ou antologias poéticas ilus­tradas, sempre que eu me deparava com uma versão de Shirin se apaixonando pelo retrato de Khosrow, eu me detinha para contemplá-la demoradamente.

A pintura dentro da pintura, isto é, o retrato de Khosrow que Shirin des­cobre num passeio pelo campo, nunca era visível em detalhe, mas não por­que os miniaturistas não fossem capazes de pintar algo tão pequeno — mui­tos deles tinham destreza e fineza bastantes para pintar em unhas, grãos de arroz e até fios de cabelo. Por que então eles não desenhavam o rosto e as fei­ções de Khosrow — o objeto do amor de Shirin — suficientemente detalha­dos para que ele pudesse ser reconhecido? A certa altura da tarde, entregue a esses pensamentos talvez para esquecer minha situação desesperada, eu já ia interrogar Mestre Osman sobre esse ponto preciso quando, num álbum feito de páginas disparatadas que me caíra nas mãos, minha atenção foi atraí­da por um cavalo numa imagem representando um cortejo nupcial, pintada em seda. Meu coração disparou.

Ali estava, bem diante de mim, um cavalo com estranhas narinas. Mon­tava-o um jovem e tímido noivo, que me olhava bem nos olhos, como se fos­se me contar um segredo. E, como nos sonhos, eu quis gritar mas não pude emitir nenhum som.

Fechei o livro e fui correndo por entre os objetos e baús até Mestre Os­man, pondo o livro aberto à sua frente naquela página.

Ele olhou para a imagem.

Como eu não via nenhum sinal de reconhecimento no seu rosto, im­pacientei-me. “As narinas do cavalo são exatamente como as que foram fei­tas para o livro do meu Tio”, exclamei.

Ele baixou a lupa sobre o animal e se debruçou tanto para aproximar os olhos da lente e da pintura que seu nariz tocava claramente a página.

Seu silêncio se prolongava, não pude me conter. “Como o senhor pode ver, este cavalo não é pintado no mesmo estilo que o do livro do meu Tio, mas as narinas são iguais. O artista tentava ver o mundo à maneira chinesa.” Calei-me por um instante. “É um cortejo nupcial”, prossegui. “Parece uma pintura chinesa, mas os personagens não são chineses, são nossa gente.”

Mestre Osman estava agora com o nariz grudado na lupa, e esta tocava o papel. Para enxergar melhor, ele fazia uso não só dos olhos, mas também da cabeça, forçando o mais que podia os músculos do pescoço, suas costas idosas, seus ombros. Silêncio.

“Este cavalo tem as narinas fendidas”, disse por fim, num sussurro.

Nossas cabeças se tocavam. Os rostos colados, observamos demorada­mente as ventas do cavalo. Não só confirmei que as narinas do cavalo eram fendidas, mas notei também, penalizado, que Mestre Osman tinha dificul­dade para enxergá-las.

“O senhor está vendo, não está?”, perguntei.

“Muito mal. Conte-me o desenho.”

“Se quiser saber a minha opinião, a noiva não está feliz”, expliquei com tristeza. “Ela vai montada num cavalo cinzento, de narinas fendidas, segui­da por suas amigas e por uma escolta de guardas que ela não conhece. A du­ra fisionomia desses homens que a protegem, sua assustadora barba negra, suas espessas sobrancelhas, seus bigodes compridos e bastos, seu corpanzil sob os cafetãs de pano leve, as polainas finas, os chapéus de pele de urso, seus machados de combate e suas cimitarras mostram que se trata de cava­leiros turcomanos da Horda do Carneiro Negro, vindos da Transoxânia. Quan­to à noiva, tão bonita quanto melancólica, a julgar pelas tochas e as lanter­nas que a iluminam na noite e pelo fato de estar acompanhada por suas damas de honra, como se fizesse uma longa viagem, deve ser uma princesa chinesa.”

“Ou talvez achemos que ela é chinesa porque o artista, querendo realçar a perfeição da sua beleza, branqueou seu rosto como fazem os chineses e pintou-a com olhos puxados”, observou Mestre Osman.

“Seja ela o que for, tenho dó dessa triste bela, que atravessa a estepe no meio da noite acompanhada por uns guardas estrangeiros de cara feroz, diri­gindo-se a uma terra estranha e a um marido que ela nunca viu”, repliquei acrescentando imediatamente: “Como poderemos determinar, pelas narinas cortadas do cavalo que ela monta, quem é este miniaturista?”.

“Vire as outras páginas e me conte o que vê”, respondeu Mestre Osman.

No momento em que eu voltei correndo com o livro que queria mos­trar a Mestre Osman, percebi que o anão estava sentado no penico. Agora nós três examinávamos juntos as páginas que eu virava.

No mesmo estilo oriental da nossa viajante noturna, vimos outras jovens e belas chinesas reunidas, tocando um alaúde de forma bizarra no meio de um jardim. Vimos pagodes, morosas caravanas partindo para longas viagens, vistas das estepes lindas como antigas lembranças. Vimos árvores nodosas pintadas no estilo chinês, com sua florada primaveril em pleno apogeu e rou­xinóis inebriados de amor pousados em seus galhos. Vimos príncipes pinta­dos ao estilo de Khurasan sentados em suas tendas conversando sobre poe­sia, vinho e amor; jardins espetaculares c formosos senhores, com magníficos falcões empoleirados em seus braços, partindo para a caçada em seus corcéis. De repente, foi como se o Demônio houvesse penetrado naquelas pági­nas, e podíamos sentir que, na pintura, o mal muitas vezes era a própria ra­zão. Terá o miniaturista acrescentado um toque irônico na ação do heróico príncipe que liquida o dragão com sua gigantesca lança? Terá ele tripudiado com a miséria daqueles infelizes camponeses que esperam de um sheik alí­vio para seus males? O que mais lhe agrada, pintar os olhos tristes e vazios dos cachorros engatados no coito, ou aplicar um vermelho diabólico nas bo­cas abertas das mulheres que riem maldosamente dos pobres animais? Vi­mos então os próprios demônios do miniaturista: aquelas criaturas bizarras se pareciam com os djins e os gigantes que os velhos mestres de Herat e os artistas do Livro dos reis costumavam desenhar; mas o talento sardônico do miniaturista os fez mais sinistros, mais agressivos e de forma mais humana. Rimos muito olhando para aqueles demônios terríveis, do tamanho de um homem mas com corpos disformes, galhadas na testa e rabos de felino. Ao longo das páginas que eu virava, aqueles demônios nus, de sobrancelhas den­sas, caras redondas, olhos saltando das órbitas, dentes pontiagudos, unhas afiadas e a pele escura e enrugada dos velhos, se esmurravam e se empurravam, roubavam um cavalo e o sacrificavam aos seus deuses, pulavam e dan­çavam, derrubavam árvores, raptavam lindas princesas em seus palanquins, capturavam dragões, saqueavam tesouros. Quando eu disse que naquele vo­lume, ao qual grande número de artistas havia emprestado seus pincéis, o miniaturista conhecido como Pena Negra, que fizera os demônios, também pintara dervixes errantes de cabeça rapada, roupas esfarrapadas, cheios de correntes no corpo e cajado na mão, Mestre Osman ouviu-me com atenção e pediu-me para repetir detalhadamente como era cada um deles.

“É uma prática ancestral dos mongóis fazer um corte nas narinas dos seus cavalos para que respirem melhor e corram por mais tempo”, explicou em seguida. “Foi com cavalos assim que as hordas de Hulagu conquistaram todo o Irã, a China e a Arábia. Quando entraram em Bagdá e o cã mandou saquear a cidade inteira, passar a população a fio de espada e jogar todos os livros no Tigre, o célebre calígrafo e futuro miniaturista Ibn Shakir, em vez de fazer como todo o mundo e fugir do massacre indo para o sul, tomou de­liberadamente a direção do norte, de onde tinham vindo os cavaleiros mon­góis. Naquela época, não se ilustravam os manuscritos, porque o Corão proi­bia, e os pintores não gozavam da menor estima. É ao Venerável Ibn Shakir, patrono e mestre de todos nós, miniaturistas, que devemos os maiores segre­dos da nossa arte: a visão do mundo como que do alto de um minarete, com um horizonte sempre presente, visível ou não, e o uso de cores turbilhonantes, vivas e otimistas para pintar todas as coisas, das nuvens aos menores inse­tos, da maneira que os chineses fazem. Ouvi contar que era observando as narinas dos cavalos ao longo do caminho que ele se orientava rumo ao nor­te, quando do seu lendário périplo até a terra das hordas mongóis. Mas, pelo que vi e ouvi, nenhum dos cavalos que ele desenhou em Samarcanda, aon­de chegou após um ano de viagem a pé, enfrentando a neve e o mau tem­po, tinha narinas fendidas. Porque, para ele, os cavalos perfeitos, os cavalos de sonho não eram os robustos, potentes e vitoriosos corcéis dos mongóis, que ele veio a conhecer já adulto, mas os elegantes cavalos árabes da sua fe­liz juventude. E por isso que as narinas estranhas do cavalo pintado para o livro do seu Tio não me fizeram pensar nem nos cavalos mongóis, nem nes­se costume que os mongóis difundiram no Khurasan e em Samarcanda.”

Enquanto falava, Mestre Osman ora olhava para o livro, ora para nós, como se só pudesse ver as coisas que evocava com os olhos da mente.

“Além das narinas fendidas dos cavalos e da pintura chinesa, as hordas mongóis trouxeram outra coisa para a Pérsia, e de lá até aqui, a Istambul: os demônios que vêem neste livro. Vocês certamente já ouviram falar que eles são os emissários do Mal, enviados pelas forças obscuras das profundezas da Terra para se apoderar das vidas humanas e de tudo o que nos é caro, e nos levar para seu mundo subterrâneo de escuridão e morte. Nesse mundo das profundezas, tudo, nuvens, árvores, objetos, cachorros ou livros, tudo tem al­ma e fala.”

“É verdade”, aquiesceu o velho anão. “Alá é testemunha de que, nas noites que passo aqui, trancado no Tesouro, não só o espírito dos relógios, da louça chinesa e dos serviços de cristal se põem a soar o tempo todo, mas tam­bém o espírito de todas as carabinas, espadas, escudos e elmos ensangüenta­dos despertam e põem-se a conversar, em tamanha algazarra que o Tesouro se transforma no campo de uma disputada batalha apocalíptica.”




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