Meu nome é Vermelho



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Quando vi a cara do Negro à porta, cheguei a ficar com dó do rapaz, mas sua expressão era tão estranha que nem tive coragem de perguntar o que havia acontecido.

“Não entre”, falei, “vou mudar de roupa e já venho.”

Enfiei o vestido amarelo e rosa que uso quando sou convidada para os festejos do Ramadã, um rico banquete ou um casamento de vários dias, e pe­guei minha trouxa. “Tomo minha sopa quando voltar”, gritei para o coitado do Nessim.

Mal saímos à rua naquele meu bairrozinho judeu, cujas chaminés cospem a duras penas sua fumaça, como nossas panelas forçando a saída do va­por sob a tampa, exclamei:

“O ex-marido de Shekure voltou!”.

Ele não disse nada até sairmos do bairro. Seu rosto estava cinzento, da cor da noite que começava a cair.

“Onde estão eles?”, perguntou por fim.

Compreendi que Shekure e as crianças não deviam estar mais em casa. “Na casa deles, ora”, respondi. Vendo que eu lhe causava uma dor cruel ao falar assim do antigo endereço, acrescentei, como para deixar uma porta aberta à sua esperança: “Quer dizer, imagino que estejam”.

“Você viu o marido dela voltar?”, perguntou olhando-me no fundo dos olhos.

“Não, como também não vi Shekure sair de casa.”

“Como soube que ela saiu?”

“Pela sua cara.”

“Você vai me contar tudo”, ele afirmou com um ar decidido.

O Negro estava mesmo perturbado para imaginar que eu, Ester — cujos olhos estão eternamente espreitando à janela, cujos ouvidos estão eterna­mente à escuta das paredes —, iria “contar tudo” para quem quer que fosse, pois se assim fizesse não poderia continuar a ser a Ester que arranjava mari­do para tantas mocinhas sonhadoras e que acudia a tantos lares infelizes.

“Tudo o que ouvi dizer é que o irmão do ex-marido da sua esposa pas­sou por sua casa” — vi que ele apreciou aquele “sua casa” — “e disse a Shev­ket que o pai dele estava de volta, que ia chegar à tarde e que, se não o en­contrasse na casa dele, seu pai, com o irmão e a mãe, a coisa ia ficar feia. E que então Shevket foi dizer isso à mãe, mas ela, cautelosa, não chegava a uma decisão. Resultado: por volta das duas da tarde, Shevket fugiu de casa e foi para a do tio Hassan e do avô.”

“Como é que você ficou sabendo disso tudo?”

“Shekure não te contou que nos últimos dois anos Hassan vem fazendo o diabo para levá-la de volta para a casa dele? Houve até uma época em que mandava cartas para ela por meu intermédio.”

“E ela respondia?”

“Escute, eu conheço todo tipo de mulheres em Istambul”, respondi or­gulhosa, “e não há nenhuma mais fiel ao seu marido, ao seu lar e à sua hon­ra do que Shekure.”

“Mas agora o marido dela sou eu.”

Sua voz tinha aquela insegurança típica dos homens, que sempre me decepcionava. Decididamente, o que quer que Shekure fizesse, alguém sem­pre se dava mal.

“Hassan me deu um bilhete para entregar a Shekure. Dizia que Shev­ket estava com ele, esperando o pai, que Shekure tinha se casado numa ceri­mônia ilegítima, que Shevket estava muito infeliz por causa desse falso ma­rido que ele tinha de aceitar como novo pai e que nunca mais voltaria para casa.”

“Como Shekure respondeu?”

“Ela te esperou a noite inteira sozinha, com o coitadinho do Orhan.”

“E Hayriye?”

“Há muito tempo que Hayriye não faz mais que esperar a oportunidade para afogar sua linda esposa numa colher de água! Foi até por isso que ela acabou indo para a cama com o seu Tio — descanse em paz! Quando Has­san viu que sua bela Shekure passava a noite inteira sozinha à espera dos fan­tasmas e dos assassinos, mandou outro bilhete para ela.”

“E o que dizia?”

Graças a Alá, esta vossa infortunada Ester não sabe ler nem escrever, porque quando algum efêndi furioso ou algum pai irritado faz essa pergunta, ela pode responder: “Não pude ler a carta, só a expressão da linda moça ao lê-la”.

“E o que você leu no rosto de Shekure?”

“Que ela não sabia mais o que fazer.”

Ficamos um bom tempo sem dizer nada. Uma coruja esperava pacien­temente a noite cair, empoleirada no teto de uma igreja grega. Os garotos do bairro, de nariz escorrendo, riam da minha roupa e da minha trouxa, en­quanto um cachorro sarnento, que volta e meia se punha a se coçar, descia a ladeira saindo de entre os ciprestes do cemitério, visivelmente contente com a chegada da noite.

“Devagar!”, gritei para o Negro. “Não posso subir estas ruas tão depres­sa assim! Minha sacola está pesada, aonde está me levando?”

“Antes de você me levar à casa de Hassan, eu vou te levar até a casa de uns rapazes generosos e muito bem-educados, você vai poder abrir sua trou­xa e vender seus lencinhos floridos, seus cintos e bolsas de seda, seus borda­dos com fio de prata, para eles oferecerem aos amores secretos que culti­vam.”

Era um bom sinal o Negro ainda conseguir fazer piadas naquele estado lamentável em que se achava, mas eu podia perceber a seriedade que havia por trás da sua caçoada. “Se você pretende juntar um bando para atacar a casa de Hassan, não conte com Ester para te levar. Tenho horror a brigas e pancadarias.”

“Se você continuar sendo a Ester esperta que sempre foi, não vai haver briga nem pancadaria”, ele replicou.

Passamos pelo bairro do Palácio Branco e tomamos o caminho que des­ce em linha reta para os jardins de Langa. A ladeira é íngreme — para com­pletar estava um bocado enlameada — e atravessa um bairro que deve ter conhecido dias melhores. O Negro entrou numa barbearia ainda aberta. Vi-o conversar com o dono, que um aprendiz, de ótima cara e lindas mãos, barbeava à luz de uma lamparina a óleo. Os dois não demoraram a nos acom­panhar, depois dois outros sujeitos se juntaram a nós no Palácio Branco, armados de machados e espadas. Numa escola corânica situada atrás da rua dos Príncipes, um jovem estudante de teologia, que eu não conseguia ima­ginar metido numa briga, também nos seguiu na escuridão, espada em punho.

“Você pretende atacar uma casa no meio da cidade, em plena luz do dia?”, exclamei.

“A luz do dia já se apagou faz tempo”, respondeu o Negro num tom sar­cástico.

“Não seja tão confiante assim, só por serem numerosos”, insisti. “Toma­ra que os janízaros não vejam vocês passarem, armados como um batalhão...”

“Ninguém vai nos ver.”

“Ontem, a gente de Erzurum atacou uma taverna, depois a casa dos der­vixes na Porta do Surdo, espancando todo o mundo que encontraram nesses dois lugares. Um velhote levou uma porretada na cabeça e morreu. Neste negrume, podem confundir vocês com eles.”

“A propósito, ouvi dizer que você foi à casa do falecido Elegante Efên­di, falou com a mulher dele, que Alá a proteja, e viu os tais desenhos borra­dos dos cavalos, que depois entregou a Shekure. Sabe por acaso se o querido Elegante Efêndi convivia muito com os seguidores do hodja de Erzurum?”

“Eu só fui falar com a esposa do Elegante Efêndi porque achava que ela podia acabar se entendendo com a minha pobre Shekure”, respondi. “Além do mais, fui lá para mostrar a ela os últimos tecidos que tinham chegado no navio flamengo, e não para me envolver nos assuntos políticos e religiosos de vocês, que meu pobre cérebro é incapaz de compreender.”

“Ester Hanim, de burra você não tem nada.”

“Já que você pensa assim, ouça bem o que digo: essa gente de Erzurum ainda vai criar muito caso!”

Enfiando pela viela que corre paralela à rua dos Mercadores, senti meu coração disparar de pavor. Os galhos úmidos e nus dos castanheiros e das amoreiras brilhavam à luz pálida da meia-lua. Uma brisa levantada pelos djins e pelas almas penadas agitava as fitas da minha trouxa, e soprava por entre as árvores, levando o cheiro do nosso grupo até os cachorros de atalaia na vizinhança. Eles começaram a latir, assim que mostrei a casa ao Negro. Observamos em silêncio o telhado e as janelas às escuras. O Negro mandou seus homens tomarem posição em torno da casa: no jardim vazio, de ambos os lados do portão e atrás das figueiras, nos fundos.

“Naquela passagem ali, tem um horrível mendigo tártaro”, contei. “E cego, mas está a par de todas as idas e vindas na vizinhança, mais que o pró­prio chefe de bairro. Ele passa o tempo brincando com o seu coiso, como os macacos do sultão. Dê-lhe oito ou dez moedas de prata, sem tocar na mão dele, que ele conta tudo.”

De longe, vi o Negro dar as moedas ao mendigo tártaro, depois encos­tar-lhe a espada na garganta para fazê-lo desembuchar. De repente, não sei por quê, o aprendiz do barbeiro, que devia ficar apenas vigiando, pôs-se a ba­ter nele com o cabo do machado. Fiquei olhando um instante, achando que aquilo não ia demorar, mas o tártaro chorava muito. Corri então até eles, pa­ra tirar o tártaro dali antes que o matassem.

“Ele insultou minha mãe”, explicou o rapazola.

“Ele falou que Hassan não está em casa”, disse o Negro. “Mas dá para confiar num cego?” Entregou-me uma carta que acabava de escrever às car­reiras. “Tome, leve isso para ele, e se ele não estiver, dê a carta ao pai dele.”

“Não escreveu nada para Shekure?”, perguntei.

“Se escrever, vão tomar por provocação”, respondeu o Negro. “Diga-lhe apenas que desmascarei o vil assassino do pai dela.”

“É verdade?”

“Diga isso, e pronto.”

Fiz o tártaro, que ainda choramingava, calar a boca, chamando-lhe du­ramente a atenção: “Não se esqueça tudo o que fiz por você!”. Na verdade, eu só tentava ganhar tempo para não entrar na casa.

Por que, aliás, fui meter o meu bedelho nesse assunto? Não faz dois anos, lá para as bandas da Porta de Edirne, mataram e cortaram as orelhas de uma ambulante porque ela casou uma moça, que prometera a um homem, com outro. Minha avó sempre dizia que os turcos fazem pouco-caso da vida hu­mana. Como gostaria de estar em casa agora, tomando a sopa de lentilha com meu Nessim! Muito embora meus pés resistissem, rumei para a casa, dizendo-me que pelo menos Shekure devia estar lá. Além do mais, morria de curiosidade para saber como tudo aquilo ia acabar.

“Olha a roupeira! Olha a seda da China para as roupas de festa!”

Percebi que um fio de luz alaranjada se movia por trás das janelas fecha­das. A porta se abriu e o educado pai de Hassan convidou-me a entrar. A casa estava bem aquecida, como as casas dos ricos. Ao me ver, Shekure, que esta­va sentada com os dois filhos em torno de uma mesinha baixa, levantou-se.

“Shekure”, falei. “Seu marido está aí fora.”

“Qual deles?”

“O novo. Ele cercou a casa com um bando de homens armados, prepa­rados para enfrentar Hassan.”

“Hassan não está”, disse o educado sogro.

“Que sorte!”, comentei, entregando-lhe a carta com a altivez de um em­baixador do Sultão executando Sua implacável vontade.

Enquanto o educado sogro lia, Shekure me chamou: “Venha, Ester, dei­xe-me lhe oferecer um prato de sopa de lentilha para te aquecer”.

“Não gosto de sopa de lentilha”, respondi de início, porque não me agra­dou nem um pouco a sua maneira de falar, como se fosse a dona da casa. Mas, quando entendi que ela queria estar a sós comigo, peguei uma colher e fui atrás dela.

“Diga ao Negro que tudo isso aconteceu por causa de Shevket”, cochi­chou-me. “Esperei ontem a noite inteira, sozinha com Orhan, que morria de medo de que o assassino aparecesse. Meus filhos foram separados! Que mãe poderia suportar ficar longe do seu filho? Ao ver que o Negro não volta­va, imaginei que os torturadores do Nosso Sultão o tinham feito falar e que ele estava envolvido na morte do meu pai.”

“Ele não estava com você quando assassinaram seu pai?”

“Ester, por favor, me ajude”, pediu, arregalando seus lindos olhos negros.

“Para que eu possa te ajudar, você tem de me explicar por que voltou para cá.”

“E eu sei?” Ela parecia a ponto de chorar. “O Negro tinha brigado com meu Shevket e, quando Hassan veio nos dizer que o pai de verdade deles ti­nha voltado, acreditei.”

Mas eu podia ler nos seus olhos que ela mentia, e ela sabia disso. “Has­san me enganou!”, ela murmurou, e eu senti que ela queria me dar a enten­der que amava Hassan. Mas será que Shekure percebia que só pensava em Hassan porque agora era a esposa do Negro?

A porta se abriu para dar passagem a Hayriye, que trazia um pão quen­tinho e cheiroso. Vi em seu olhar contrariado que, com a morte do Tio Efên­di, aquela pobre coitada se tornara uma pesada herança para Shekure — que não podia vendê-la, nem dispensá-la. O cheiro do pão quente enchia a cozi­nha, e entendi então que o fundo do problema de Shekure eram seus filhos: não se tratava para ela de encontrar um marido que ela amasse, fosse ele o pai verdadeiro das crianças, Hassan ou o Negro; seu desafio era encontrar um pai que amasse os meninos, que estavam ambos de olhos arregalados de medo. Shekure estava disposta a amar, com a melhor das intenções, qual­quer bom marido.

“Shekure, você só escuta seu grande coração”, falei sem pensar, “me­lhor seria se ouvisse o que diz sua razão.”

“Estou pronta para voltar imediatamente para o Negro, com meus fi­lhos”, ela respondeu. “Mas tenho algumas condições.” Calou-se. “Ele tem de tratar bem Orhan e Shevket. Não deve procurar saber por que vim para cá. Acima de tudo, tem de respeitar as condições originais do nosso casamen­to: ele sabe do que estou falando. Ontem à noite, ele me deixou sozinha en­frentando assassinos, ladrões e todas as outras ameaças, além de Hassan.”

“Ele ainda não encontrou o assassino do seu pai, mas pediu-me para te dizer que encontrou.”

“Devo voltar para ele?”

Antes que eu pudesse responder, seu ex-sogro, que já tinha terminado de ler o bilhete havia muito tempo, declarou: “Diga ao Negro Efêndi que não posso assumir a responsabilidade de lhe entregar minha nora na ausên­cia do meu filho”.

“Qual deles?”, perguntei como boa linguaruda, mas delicadamente.

“Hassan. Meu filho mais velho está voltando da Pérsia, testemunhas o viram.” Como era mentira e ele é um homem de bem, corou de vergonha.

“Onde está Hassan?”, perguntei, tomando duas colheradas da tal sopa de lentilha.

“Foi juntar uns amigos escreventes, carregadores e outros funcionários da Alfândega”, explicou no tom pueril e ingênuo das pessoas decentes que não sabem mentir. “Depois do que o bando de Erzurum fez ontem, com cer­teza os janízaros estarão patrulhando as ruas esta noite.”

“Não vimos nem sombra deles”, repliquei dirigindo-me para a porta. “É tudo o que tem a dizer?”

Fiz essa pergunta ao sogro para intimidá-lo, mas Shekure sabia muito bem que na verdade era a ela que eu me dirigia. Será que ela estava mesmo tão aturdida quanto pretendia ou estaria me ocultando alguma coisa, por exemplo, a volta de Hassan com seus homens? E estranho, mas percebi que aquela indecisão dela me agradava.

“Não queremos saber do Negro”, disse Shevket atrevidamente. “E não apareça mais por aqui, sua gorda.”

“E quem vai trazer para a sua linda mamãe as toalhas de mesa, os len­ços bordados de flores e passarinhos, e o pano para as camisas vermelhas de que você gosta?”, retruquei, largando no chão minha trouxa pesada. “Olhem, podem olhar à vontade até eu voltar, podem experimentar tudo o que quise­rem, podem até começar a cortar, medir e costurar.”

Eu estava triste ao sair: nunca tinha visto Shekure com olhos tão melan­cólicos. Ainda nem me acostumara novamente ao frio que fazia lá fora, quan­do o Negro, espada em punho, deteve-me no meio da rua lamacenta.

“Hassan não está”, contei-lhe. “Vai ver que foi comprar vinho para fes­tejar a volta da cunhada. A não ser que tenha ido buscar reforços, pelo me­nos é o que dizem. Se for verdade, vai sair briga, porque ele, quando se irri­ta, fica como um louco. E se pegar a espada vermelha que tem, prefiro nem imaginar o que pode acontecer.”

“E Shekure, o que disse?”

“O sogro disse que de jeito nenhum vai entregar a nora, mas se eu fosse você não me preocuparia com ele, e sim com Shekure. Se quiser saber a mi­nha opinião, ela está meio perdida. Veio se refugiar aqui dois dias depois de o pai ter morrido, porque tem medo do assassino, porque Hassan forçou-a e porque, para completar, você sumiu sem dizer nada. Ela não se sentia capaz de passar mais uma noite sozinha naquela casa, aflita com os mesmos temores. Além do mais parece que lhe disseram que você estava envolvido no assassi­nato do pai dela. Em todo caso, não é verdade que seu marido tenha regres­sado. Só que Shevket, e talvez também o sogro, acreditaram nessa história in­ventada por Hassan. Ela quer voltar para casa, mas impõe certas condições.”

Enumerei as condições de Shekure, olhando o Negro nos olhos. Ele concordou na mesma hora, num tom todo oficial, como se estivesse falando com um embaixador de verdade.

“Eu também tenho uma condição”, acrescentei. “Vou voltar lá dentro. Daqui a pouco, comecem a atacar a porta da frente e aquela janela ali”, dis­se apontando para a janela fechada detrás da qual eu sabia que o sogro esta­va. “Só parem quando me ouvirem gritar. Se Hassan aparecer, não hesitem em atacá-lo também.”

Não era um palavreado condizente com um embaixador, é claro, mas, como eu também não gozava de imunidade diplomática, falei do jeito que me veio à cabeça. Dessa vez, mal gritei “Olha a roupeira!” a porta se abriu. Fui direto ao sogro.

“Todos os vizinhos, o próprio juiz do bairro, todo o mundo sabe perfei­tamente que Shekure esteve separada muito tempo e se casou de novo, de acordo com o Corão. Seu primeiro filho morreu faz tempo e, mesmo se vol­tasse agora do Paraíso em companhia do profeta Moisés, de nada adiantaria, porque ele não é mais o marido de Shekure. O senhor raptou uma mulher casada e a retém contra a sua vontade. O Negro pediu-me para lhe dizer que ele e seus homens se encarregarão da sua punição por esse crime, antes que o juiz o faça.”

“Seria um grave erro”, replicou o sogro medindo bem suas palavras. “Não raptamos Shekure, em absoluto! Eu sou avô destes dois meninos, por graça de Alá, e Hassan é tio deles. Quando ela se viu abandonada, não teve outra escolha, senão vir para cá. Se ela quiser, pode ir embora com os filhos. Mas não se esqueça de que aqui ela está em casa, na casa em que ela deu à luz e viu, feliz, seus filhos crescerem.”

“Shekure”, perguntei sem pensar, “quer voltar para a casa do seu pai?”

Ao ouvir a expressão “casa do seu pai”, pôs-se a chorar. “Não tenho mais pai”, disse ela, ou será que eu é que entendi assim? Seus filhos primeiro se agarraram à sua saia, depois treparam no seu colo e abraçaram-se com força a ela. Os três se apertaram em prantos, formando como que uma bola. Só que Ester não é boba: eu sabia muito bem que as lágrimas de Shekure se des­tinavam a apaziguar os dois lados, sem que ela precisasse tomar uma deci­são. Mas eu sabia que ela também estava sendo sincera, tanto que desatei a chorar por minha vez, e logo vi que Hayriye, aquela víbora, se juntara ao nos­so choro.

Como para dar o troco ao sogro, cujos olhos verdes eram os únicos se­cos naquela sala, o Negro e seus homens começaram a atacar a casa neste exato momento, batendo nas janelas e forçando a porta. Dois dos homens utilizavam uma espécie de aríete, cujos golpes ressoavam na porta como um tiro de canhão.

“O senhor é um homem experiente e digno”, disse ao velho, encoraja­da por minhas próprias lágrimas, “abra logo esta porta e diga a esses selva­gens que Shekure já vai sair.”

“Você poria na rua, no meio desses cães raivosos, uma mulher desprote­gida, sua nora ainda por cima, que tivesse vindo refugiar-se na sua casa?”

“Ela mesma deseja ir embora”, respondi, assoando o nariz com meu lenço roxo.

“Nesse caso, é só ela abrir a porta e sair”, ele afirmou.

Sentei-me ao lado de Shekure e das crianças. O barulhão terrível dos homens arrombando a porta nos fez redobrar nossas lágrimas, os meninos puseram-se a gritar alto, o que por sua vez aumentou a choradeira de She­kure e a minha também. Mas, apesar dos gritos ameaçadores lá fora e dos golpes de aríete, que pareciam prestes a derrubar a casa, nós duas sabíamos que estávamos chorando para ganhar tempo.

“Minha linda Shekure”, falei, “como seu sogro lhe deu sua permissão e como seu marido, o Negro, aceitou seus termos e está amorosamente à sua espera, você não tem mais nada a fazer nesta casa. Ponha seu capote, seu véu, pegue suas coisas e seus filhos, abra a porta e volte para casa.”

Minhas palavras só fizeram aumentar o choro dos garotos e Shekure ar­regalar os olhos para mim, aterrorizada.

“Tenho medo de Hassan!”, dizia ela agora. “A vingança dele vai ser ter­rível. É uma fera. E, não se esqueça, eu é que quis vir para cá.”

“Isso não anula seu novo casamento”, falei. “Você ficou desamparada, é claro que tinha de buscar refúgio em algum lugar. Seu marido te perdoou, está disposto a receber você de volta. Quanto a Hassan, vamos lidar com ele da maneira como lidamos todos esses anos.”

“Mas não vou abrir a porta, porque isso significaria que voltei para ele por minha livre e espontânea vontade.”

“Minha querida Shekure, não conte comigo para abri-la. Você sabe que isso significaria que eu me intrometi nos assuntos de vocês. Hassan se vinga­ria ainda mais cruelmente de mim.”

Vi em seus olhos que ela havia entendido. “Ninguém vai abrir a porta, nesse caso”, ela replicou. “Vamos deixar que eles a derrubem e nos levem à força.”

Embora eu reconhecesse que era sem dúvida a melhor solução para ela e seus filhos, eu tinha medo, disse a ela, de que houvesse sangue derramado. Ora, se o juiz não resolvesse o caso, haveria sangue, e sangue chama sangue, a coisa dura anos a fio. Nenhum homem honrado ficaria parado vendo sua casa ser arrombada e invadida para raptarem uma mulher que nela se en­contrava.

Tive então mais uma oportunidade de constatar, desgostosa, como She­kure era astuta e calculista, ao ver que, em vez de me dar uma resposta sen­sata, ela se punha de novo a chorar com mais intensidade ainda, agarrada aos seus filhos. Uma voz me dizia para deixar aquilo tudo para lá e cair fora, mas eu não podia mais passar pela porta, que estava a ponto de ser arromba­da. Tinha medo que ela cedesse aos homens do Negro e, ao mesmo tempo, que não cedesse. Eu me dizia que os homens do Negro, que confiavam em mim, podiam temer ir longe demais e bater em retirada de uma hora para a outra, o que, por sua vez, daria novo alento ao sogro. Vendo-o se aproximar da nora, soube que ele ia se pôr a derramar lágrimas de crocodilo, mas que a tremedeira dele não podia ser fingida.

Fui então até a porta e gritei com toda a minha força: “Parem, já chega!”.

Os movimentos do lado de fora e os gemidos do lado de dentro pararam.

“Deixe Orhan abrir a porta, mamãe”, sugeri num lampejo de inspira­ção, com uma voz meiga, como se estivesse falando com o menino. “Ele quer voltar para casa, ninguém vai ficar bravo com ele por causa disso.”

Mal eu havia terminado de falar, o pequeno Orhan, pulando do colo da mãe, correu para a porta e, como alguém que vivera na casa vários anos tirou o pino que prendia a tranca, levantou-a, correu o ferrolho e recuou dois passos. O frio da rua entrou pela porta escancarada. Tão profundo era o si­lêncio que dava para ouvir, ao longe, o latido da cachorrada. Enquanto She­kure dava um beijo em Orhan, que voltara para o seu colo, Shevket anun­ciou: “Vou contar para o tio Hassan”.

Ao ver Shekure levantar-se, pegar o capote e preparar suas coisas para ir embora, senti tamanho alívio que tive medo de desatar a rir. Sentei-me por minha vez e tomei mais duas colheradas de sopa de lentilha.

O Negro teve a boa idéia de não se aproximar da porta da casa. Shevket correu para o quarto do seu falecido pai e lá se trancou. Chamamos o Negro para que ele nos ajudasse a abri-la, mas nem ele nem seus homens acudiram. Só quando Shekure concordou em deixar Shevket levar a adaga de ca­bo de rubis do tio é que o menino aceitou ir embora conosco.

“Tomem cuidado com Hassan e sua espada vermelha!”, preveniu o so­gro, num tom ao mesmo tempo despeitado e vingativo, como se reconheces­se sua derrota. Beijou os netos, dando-lhes um cheiro nos cabelos. Cochi­chou também algumas palavras no ouvido de Shekure.




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