Meu nome é Vermelho



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Ao ver Shekure olhar pela última vez para a porta, as paredes e o fogão da casa, lembrei-me mais uma vez que ela tinha passado ali, com seu primei­ro marido, os mais belos anos da sua vida. Mas será que ela não percebia tam­bém que aquela casa era um antro de dois homens miseráveis e solitários e recendia ao mau cheiro da morte? Deixei-a sair sozinha, ela tinha me decep­cionado profundamente voltando para aquele lugar.

Não era o frio nem a escuridão da noite que fazia aquelas três mulheres — a criada, a judia e a viúva, com os dois orfãozinhos — andarem apertadas umas contra as outras, mas aquele bairro estranho, com ruelas quase impra­ticáveis e o medo de Hassan. Escoltadas pelo Negro e seu pequeno grupo, avançávamos como uma caravana transportando um tesouro por caminhos desertos, vielas sinistras nos fundos das casas, bairros pouco ou mal freqüen­tados, para não toparmos com guardas, janízaros, facínoras ou ladrões de bairro — nem com Hassan. Às vezes, naquela escuridão em que mal dava para enxergar um palmo diante do nariz, tínhamos dificuldade de encontrar o caminho, esbarrávamos o tempo todo nos muros e uns nos outros. íamos agarrados uns aos outros, presas da sensação de que os mortos-vivos, os djins e os demônios iam sair de uma hora para a outra do fundo da terra para nos raptar. Ouvíamos detrás das paredes e das janelas fechadas, que tocávamos às cegas para nos guiar, gente a roncar e tossir no frio da noite, o ruído dos animais nos estábulos.

Até eu, Ester, que estava acostumada com os mais pobres e mal-afamados bairros, que conhecia todas as ruas de Istambul — quer dizer, fora os su­búrbios em que se amontoam os imigrantes e os membros das mais desgra­çadas comunidades —, até eu volta e meia achava que íamos sumir naquelas ruas, que viravam e serpenteavam num labirinto sem fim no meio do breu. Apesar de tudo, eu era capaz de reconhecer certos trechos por onde já passa­ra de dia, carregando minha trouxa. Reconheci, por exemplo, as paredes da rua dos Alfaiates, o forte cheiro de bosta — que, não sei por que, me lembra­va o aroma da canela — vindo do estábulo de Nurullah Hodja, os lotes de­vastados pelo fogo na rua dos Acrobatas e a arcada da Grande Falcoaria, que desemboca no largo da Fonte de Hajji, o Cego, e com isso compreendi que não estávamos indo para a casa do falecido pai de Shekure, mas para outro destino misterioso.

Não dava para saber o que Hassan enfurecido seria capaz de aprontar, mas entendi que o Negro tinha encontrado um lugar para esconder a famí­lia — de Hassan e daquele assassino diabólico que ainda estava à solta.

Se eu pudesse imaginar onde era, eu diria a vocês agora mesmo, e a Has­san na manhã seguinte — não por maldade, mas porque estava convencida de que Shekure iria desejar novamente ser objeto das atenções dele. O Ne­gro mostrou ser inteligente, não confiando em mim.

Estávamos em algum ponto atrás do Mercado dos Escravos quando ou­vimos chamados e gritos vindos do fim da rua, em meio a um tumulto que deixava pressentir uma briga, um confronto armado mesmo, pois ouvi o ba­rulho das espadas, dos machados e dos porretes, e os uivos assustadores dos feridos.

O Negro entregou sua espada a um dos seus homens de maior confian­ça, tirou à força a adaga de Shevket, que se pôs outra vez a chorar, e man­dou o aprendiz de barbeiro e mais outros dois levarem Shekure, Hayriye e os meninos a uma distância segura. O aluno da escola corânica me disse que ia me levar para casa por um caminho que ele conhecia. Ou seja, o Negro não ia me deixar ficar com elas. Seria uma simples coincidência ou uma ma­nobra esperta para manter em segredo onde ficava o esconderijo?

No fim da ruela pela qual fui obrigada a segui-lo, havia uma loja, que entendi ser um café. A briga parece ter acabado mal se iniciou. Uma porção de homens berrava, comprimindo-se para entrar ou sair do estabelecimento. De início, pensei se tratar de um saque, mas, na verdade, estavam tentando destruir o café. Traziam para fora a louça e as mesas, quebrando tudo à luz das tochas que os curiosos empunhavam. Deram uma surra num sujeito que tinha tentado impedi-los, mas ele conseguiu escapar. No começo, achei que o alvo deles era apenas a bebida, porque vociferavam que o café fazia mal para a vista e para o estômago, que acabava prejudicando o cérebro e levan­do à perda da fé; que era o veneno dos infiéis e que o Louvado Maomé ti­nha derramado o café que lhe fora oferecido por uma linda mulher — na verdade o Diabo disfarçado. No pé em que a coisa estava, aquela lição de moral ia durar a noite inteira! Se eu conseguisse chegar em casa, quem sabe não deveria chamar também a atenção de Nessim, dizendo-lhe para não abu­sar daquele veneno.

Como havia algumas casas de cômodos e hospedarias baratas por ali, logo se formou uma aglomeração de vagabundos, moradores de rua, toda uma ralé nada recomendável que tinha se introduzido ilegalmente na cida­de e que incentivava aqueles inimigos do café. Foi só então que entendi que se tratava dos seguidores de Nusret Hodja, o pregador de Erzurum. Dizem que eles pretendiam acabar com todas as tavernas, cafés e bordéis de Istam­bul e castigar severamente os que desviavam do caminho do Louvado Mao­mé, como, por exemplo, os que se valem das cerimônias de dervixes para pra­ticar a dança do ventre ao som da música. Eles desancam os inimigos da religião, os que colaboram com o Diabo, os pagãos, os infiéis e, evidente­mente, os pintores. Lembrei-me então de que era justamente naquele café que os pintores penduravam seus desenhos na parede do fundo e que se fa­lava mal do hodja de Erzurum e da religião.

Um dos jovens garçons saiu do café com a cara toda ensangüentada, cheguei a pensar que ele ia perder os sentidos, mas ele enxugou o sangue da testa e do rosto com a manga da camisa e juntou-se a nós, para também as­sistir ao ataque. A multidão recuou um pouco, assustada. Percebi que o Ne­gro tinha reconhecido alguém e parecia hesitar. O bando de Erzurum co­meçou de repente a se reunir e, pela maneira que o faziam, compreendi que os janízaros ou algum outro bando armado estava a caminho. As tochas fo­ram apagadas, transformando aquela multidão numa massa indistinta.

O Negro agarrou-me pelo braço e empurrou o estudante para que ele me levasse para casa, “passando pelas ruas sem movimento”. O estudante queria cair fora o mais rápido possível, de modo que escapulimos dali quase correndo. Meus pensamentos ficaram com o Negro, mas, como Ester foi le­vada para fora de cena, não pôde mais continuar contando a história.

54. Eu, a Mulher

Já posso até ouvir vocês objetarem: “Caro Satirista Efêndi, você pode imitar qualquer um ou qualquer coisa, mas nunca a mulher!”. Pois vou lhes provar o contrário. É verdade, de tanto ir de uma cidade a outra para ganhar a vida com minhas imitações, de tanto me esgoelar nos casamentos, festas e cafés contando histórias, nunca tive a felicidade de me casar, o que não quer dizer que não saiba nada da grei feminina.

Conheço muitíssimo bem as mulheres, na verdade conheci quatro pes­soalmente, de todas vi o rosto, só com uma não conversei:

1. minha falecida mãe; 2. minha tia querida; 3. minha cunhada, que ba­tia em mim e me dizia: “fora daqui!”, sempre que eu aparecia onde ela estava — foi a primeira mulher por quem me apaixonei; 4. a mulher que avistei cer­ta vez por uma janela aberta, na cidade de Konya; embora nunca tenhamos trocado uma só palavra, acalentei durante anos pensamentos luxuriosos para com ela, e continuo acalentando. Mas a esta altura ela talvez já tenha morrido.

Ver o rosto descoberto de uma mulher, falar com ela, ter um contato fa­miliar com ela é, para nós, homens, uma fonte de tormentos espirituais e carnais, de modo que o melhor é nem olhar para as mulheres, especialmen­te para as mais bonitas, fora dos laços do matrimônio, tal como nossa nobre fé prescreve. O único remédio para os desejos da carne é buscar a amizade dos belos efebos, substitutos satisfatórios para as fêmeas, e isso acaba se tor­nando um hábito agradável. Nas cidades da Europa, as mulheres saem às ruas não apenas expondo seu rosto, mas também seus cabelos reluzentes (que, depois do pescoço, são seu maior atrativo), seus braços, seu bonito co­lo e até mesmo, se é verdade o que ouvi, uma porção das suas formosas per­nas; em conseqüência disso, os homens dessas cidades circulam por elas com enorme dificuldade, pois suas partes dianteiras estão o tempo todo eretas, o que, além da dor tremenda, atrapalha seus movimentos e acarreta a paralisia de toda a sociedade. E sem dúvida nenhuma por causa disso que não passa um dia sem que uma fortaleza dos infiéis caia nas mãos dos otomanos.

Assim que entendi, ainda garoto, que o melhor meio de assegurar mi­nha felicidade e minha tranqüilidade espiritual era viver longe das mulheres bonitas, minha curiosidade por essas criaturas não parou mais de crescer, a ponto de adquirir um caráter místico. Aquela curiosidade não parava de gi­rar na minha cabeça e acabei compreendendo que, como não tinha outros modelos além da minha mãe e da minha tia, a única maneira de saber o que as mulheres sentem era fazer os mesmos trabalhos domésticos, falar como elas, comer como elas, imitar suas manias e, sim, senhores, vestir suas rou­pas. Assim, uma sexta-feira em que minha mãe, meu pai, meu irmão mais velho e minha tia foram ver as roseiras do meu avô, na praia de Fahreng, eu disse que estava me sentindo mal, só para ficar em casa.

“Venha com a gente, para nos divertir imitando os cachorros, as árvores e os cavalos do campo”, insistiu minha mãe, que descanse em paz. “Vai fi­car fazendo o quê, sozinho em casa?”

Como eu não podia responder: “Vou vestir sua roupa, mãezinha, e me transformar em mulher”, menti que estava com dor de barriga.

“Deixe de moleza”, disse meu pai. “Venha, vamos brincar de lutar!”

Agora, irmãos pintores e calígrafos, vou lhes contar o que senti depois que eles saíram e que experimentei todas as roupas de baixo e de cima da minha mãe e da minha tia queridas, que já nos deixaram, e os segredos que descobri naquele dia sobre o que é ser mulher. Mas deixem-me lhes dizer lo­go de uma vez que, ao contrário do que vocês tantas vezes leram nos livros e ouviram os pregadores dizerem, quando você vira mulher não se sente de jeito nenhum transformado em Diabo.

Muito pelo contrário, quando vesti a calçola de algodão de minha mãe toda bordada de rosas, uma deliciosa sensação de bem-estar me invadiu e eu me senti tão sensível quanto ela. O contato na minha pele nua da camisa de seda verde-pistache da minha tia, que ela nunca se decidia a usar, despertou em mim uma imediata ternura por todas as crianças, inclusive por mim mes­mo. Fiquei com vontade de dar de mamar a todos e cozinhar para o mundo inteiro. Depois que entendi o que era ter seios, tratei de descobrir o que me deixava mais curioso: como é ser uma mulher de peitos fartos. Tratei então de encher o peito com tudo o que podia encontrar — meias, panos de prato — e, quando vi aquelas enormes saliências, aí sim, tenho de admitir, senti-me or­gulhoso como Satanás. Ao adivinhar que os homens, só de perceber a sombra dos meus vultosos seios, correriam como loucos atrás deles e fariam de tudo para chupá-los, senti-me tremendamente poderoso. Mas era isso mesmo o que eu queria? Eu estava tonta, dividida entre meu desejo de ser forte e de ser mi­mada; eu queria para mim um homem rico, bem-feito de corpo e inteligente, mas tinha medo de um homem assim. Pus as pulseiras de ouro torcido que minha mãe escondia no fundo de uma caixa sob as echarpes bordadas com motivos florais, no meio das meias de lã recendendo à lavanda; apliquei o ru­ge com que ela enfeitava as maçãs do rosto ao voltar do banho público; vesti o casaco verde da titia e pus o fino véu da mesma cor na cabeça, depois de prender os cabelos atrás. Mirei-me então no espelho de madrepérola e estreme­ci. Embora eu não tivesse tocado neles, meus olhos e meus cílios tinham se tornado olhos e cílios de mulher. Somente minha maçã do rosto e meus olhos estavam visíveis, mas eu era agora uma mulher extraordinariamente atraente, e isso me enchia de felicidade. Minha masculinidade, que percebera esse fato antes de mim mesmo, estava ereta, e isso, naturalmente, me perturbava.

Ao ver no espelho de mão uma lágrima escorrer do meu lindo olho, veio-me dolorosamente à memória um poema que nela ficara gravado. E no mesmo instante, inspirado pelo Todo-Poderoso, cantei-o ritmadamente co­mo se ele fosse uma canção, para esquecer as minhas mágoas.

Meu coração caprichoso sente falta do Ocidente quando estou no

[Oriente e sente falta do Oriente quando estou no Ocidente.

A outra parte de mim insiste em ser mulher quando sou homem e

[insiste em ser homem quando sou mulher.

Como é difícil ser homem e mais difícil ainda viver como homem.

Só quero me divertir na frente e atrás, ser os dois ao mesmo tempo: [oriental e ocidental.

Eu já ia dizendo: “Tomara que nossos irmãos de Erzurum não ouçam esta cantiga que vem do fundo do meu coração”, porque iam ficar uma fera. Mas por que me apavorar? Afinal, é bem possível que eles não se zanguem. Escutem, não é para falar mal de ninguém, mas ouvi dizer que o célebre pre­gador, o Louvado Nada-a-ver-com-Husret Efêndi, apesar de ser casado, pre­fere uns garotos bonitos a nós, mulheres, exatamente como vocês, pintores sensíveis. Só estou contando o que ouvi. Mas eu estou pouco ligando para tudo isso, porque eu o acho repulsivo, e além do mais ele é muito velho. Seus dentes já caíram e, pelo que dizem os garotos que se aproximam dele, sua boca, desculpem a expressão, fede mais que cu de urso.

Bem, deixemos para lá o diz-que-diz e voltemos ao nosso assunto. Assim que entendi como eu era linda, não quis mais saber de lavar a roupa e a lou­ça, nem de desfilar nas ruas como uma escrava. A pobreza, o pranto, a triste­za, olhar-se desconsolada no espelho implacável e desfazer-se em lágrimas com o que vê, é a sina das mulheres feias. Preciso arranjar um marido que me ponha num pedestal, mas quem poderia ser?

Foi então que comecei a espiar por um buraco na parede os filhos dos paxás e dos figurões, que, com os mais variados pretextos, meu falecido pai convidava à nossa casa. Tudo o que eu queria era uma situação, como a da­quela beldade de boquinha pequena, que tem dois filhos e que todos vocês, miniaturistas, adoram. Bem, talvez seja melhor eu lhes contar a história da pobre Shekure. Ah, esperem, era esta a história que eu tinha prometido lhes contar esta noite:

A HISTÓRIA DE AMOR CONTADA PELA

MULHER INSTIGADA PELO DIABO

Ê uma história muito simples. Ela se passa no bairro do Aqueduto, um dos mais pobres de Istambul. Um de seus mais eminentes moradores, Che­lebi Ahmet, secretário de Vasif Paxá, era um cavalheiro casado, pai de dois filhos, homem sério e reservado. Um belo dia, vê por uma janela aberta uma linda bósnia, alta e magra, olhos negros, pele alva como alabastro, cabelos de azeviche, pela qual se apaixona num piscar de olhos. Mas a mulher é ca­sada, ama seu belo marido e não tem o menor interesse por Chelebi Ahmet. O coitado se recusa a confiar seu tormento a quem quer que seja e, reduzi­do a pele e osso pelo amor, dá de beber o vinho que compra de um grego, e seu amor acaba não sendo mais segredo para ninguém no bairro. Como seus moradores adoram histórias de amor como a dele, mas admiram e respeitam muito Chelebi Ahmet, mostram consideração por esse seu amor, permitin­do-se apenas uma ou outra piada e fazendo-se como se nada estivesse acon­tecendo. Não conseguindo encontrar um remédio para o seu mal, Chelebi Ahmet embriagava-se todas as noites, depois ia sentar-se na entrada da casa em que a beldade de pele de alabastro morava feliz com o marido e chorava horas e horas a fio, como uma criança. Os vizinhos acabaram se alarmando, mas não conseguiam fazer nada, nem lhe dar uma surra, nem tirá-lo à força dali, nem confortá-lo, enquanto viam o apaixonado chorar de agonia todas as noites. Além do mais, cavalheiro que era, ele sabia chorar para dentro sem fazer escarcéu nem incomodar ninguém. Mas, pouco a pouco, sua dor de­sesperançada acaba contagiando o bairro inteiro, torna-se a dor e a tristeza de todos. Os moradores perdem sua alegria e, como a fonte que corre me­lancólica na praça, o próprio Chelebi se torna uma fonte de sofrimento. No início eram alusões preocupadas, depois passou-se a falar em azar, por fim espalhou-se pelo bairro a certeza da catástrofe. Os artesãos começaram a se mudar, as falências multiplicaram-se, porque a gente perdia a vontade e a coragem de trabalhar. O bairro já tinha se esvaziado quando Chelebi Ahmet também resolveu viver em outro lugar, com a sua família. Só ficou lá a bela de tez de alabastro, sozinha com o marido. A calamidade que ela provocara arrefeceu o amor dos dois, afastou-os um do outro e, embora tenham conti­nuado a viver juntos, nunca mais foram felizes.

Eu já ia dizer o quanto gostava dessa história, por mostrar os perigos do amor e das mulheres, quando, com mil demônios, me lembrei que tinha per­dido minha capacidade de raciocinar, porque agora sou uma mulher! De modo que vou encerrar dizendo outra coisa, totalmente diferente, algo assim:

“O, como é lindo o amor!”

Mas quem é essa gente que está invadindo o café?

55. Chamam-me Borboleta

Ao ver aquele tumulto, entendi que o bando do hodja de Erzurum vie­ra acertar as contas conosco, os engraçadinhos do ateliê de pintura.

Dentre a multidão que assistia ao ataque, entrevi o Negro, com uma adaga na mão. A seu lado, a célebre Ester, com sua trouxa debaixo do braço, e várias outras mulheres com seus sacos de roupa. Quando vi que os fregue­ses que em vão tentavam fugir eram severamente espancados e que o bando começava a destruir o próprio café, disse-me que era bom cair fora dali rapi­damente. Mas nesse exato momento chegou outro bando, os janízaros, creio, e a turba de Erzurum apagou as tochas e bateu em retirada.

Não havia mais ninguém na entrada do café, mais nenhum curioso. En­trei. Estava totalmente devastado, eu pisava em cacos de vidro, potes, pratos, tigelas. A luz de um lampião a óleo, pendurado num prego alto na parede, não morrera na confusão, mas só iluminava as marcas de fuligem do teto, deixando no escuro o chão juncado de destroços, pedaços de bancos e mesi­nhas quebradas.

Empilhando as compridas almofadas, alcancei o lampião e tirei-o do prego. Dentro do círculo da sua luz, enxerguei vários corpos estirados no chão. O primeiro estava com o rosto todo ensangüentado, mas não o reconheci. Aproximei-me do segundo, que gemia, e, ao ver a lâmpada, soltou uns gritinhos de criança.

Entrou alguém. De início fiquei alarmado, mas depois adivinhei que era o Negro. Os dois nos debruçamos sobre o terceiro corpo que jazia no chão. Quando aproximamos o lampião do seu rosto, vimos o que temíamos: tinham matado o contador de histórias.

Seu rosto, disfarçado de mulher, não trazia vestígios de sangue, mas seu queixo, sua testa e sua boca com os lábios pintados de vermelho estavam es­magados e, a julgar pelo pescoço, coberto de contusões, ele havia sido es­trangulado. Seus braços estavam nas costas, as palmas das mãos viradas para cima. Não era difícil imaginar que um deles tinha segurado os braços do ve­lho por trás, enquanto os outros quebravam sua bonita cara de mulher e, de­pois, estrangulavam-no. Será que não teriam dito “Cortem a língua dele pa­ra que nunca mais fale mal de sua Excelência, o Pregador Hodja Efêndi”, antes de liquidá-lo?

“Traga o lampião aqui”, disse o Negro. A luz clareou, perto do fogão, moedores de café destroçados, coadores, balanças e xícaras estilhaçadas caí­dos nas poças de café. No canto em que o satirista pendurava todas as noites o desenho a que daria voz, o Negro procurava os acessórios do artista — o cinto, o lenço de mágico, a vareta. Tornando-me o lampião das mãos e segu­rando-o na altura do meu rosto, ele me disse que estava procurando os dese­nhos: sim, claro, fiz dois desenhos para ele, por camaradagem. Mas só pude­mos encontrar o barrete persa que o falecido costumava usar na sua cabeça cuidadosamente rapada.

Não encontrando mais ninguém no estreito corredor que levava à porta dos fundos, saímos na noite escura. Durante o ataque, muitos dos fregueses e dos pintores que estavam lá dentro devem ter escapado por aquela porta, mas os vasos de flores quebrados e os sacos de café espalhados por toda parte indicavam que também tinha havido briga ali.

Essas represálias e o horrível assassinato do mestre satirista nos aproxi­mavam, a mim e ao Negro, na escuridão assustadora da noite. Era essa tam­bém, creio eu, a causa do silêncio que se instalara entre nós. Mas, duas ruas adiante, o Negro passou-me o lampião, puxou a adaga e encostou-a na mi­nha garganta.

“Vamos para a sua casa”, disse ele. “Preciso revistá-la, para que meu es­pírito encontre a paz.”

“Já foi revistada.”

Eu não me senti ofendido, sentia apenas necessidade de provocá-lo. Ao acreditar nos boatos abjetos a meu respeito, o Negro não provava que tam­bém tinha inveja de mim? Ele empunhava sua adaga com um ar pouco se­guro de si.

Minha casa fica na direção oposta à que havíamos tomado ao sair do ca­fé. Assim, para evitar a multidão que ainda se aglomerava, fizemos um largo desvio, virando à direita e à esquerda nas ruas das vizinhanças, passando por jardins vazios tomados pelo cheiro triste de umidade e árvores solitárias. Quando tornamos a passar por perto do café, a turba ainda não se havia dis­persado. Ouvia-se na rua o ruído dos janízaros, dos guardas de quarteirão e dos jovens do bairro perseguindo o bando do hodja. Tínhamos percorrido mais da metade do caminho para a minha casa, quando o Negro parou para me dizer:

“Nestes dois últimos dias, Mestre Osman e eu examinamos as obras-pri­mas dos antigos mestres que se encontram no Tesouro do Sultão.”

Após um longo silêncio, respondi, elevando a voz: “Após uma certa ida­de, mesmo se espiasse o próprio Bihzad pintando, o que o pintor vê pode agradar aos seus olhos e levar serenidade ou excitação à sua alma, mas não aumenta seu talento, porque a gente pinta com a mão, e não com os olhos, e a mão, já na minha idade, que dirá na de Mestre Osman, não aprende fa­cilmente coisas novas”.

Eu falava quase gritando para que minha linda esposa, que certamente me esperava, compreendesse que eu não chegava sozinho e pudesse, assim, evitar o Negro — não que eu levasse a sério este idiota todo cheio de si, com sua adaga na mão.

Ao passar pelo portão, pareceu-me perceber a claridade de uma lâmpa­da movendo-se dentro de casa, mas, louvado seja Alá, ela estava imersa na mais completa escuridão. Jurei me vingar do Negro por uma tão brutal e grosseira intrusão à mão armada na minha intimidade, no paraíso que para mim era o meu lar, onde passo o dia, todo o meu tempo na verdade, até meus olhos se cansarem, na busca de uma pintura que seja fiel às recordações de Alá e onde faço amor com minha amada esposa, a mais linda mulher do mundo.

Abaixando a lâmpada, examinou meus papéis, a cena que eu estava ter­minando — uns condenados por dívida que imploravam ao sultão para que os livrasse da prisão e eram agraciados —, minhas tintas, minhas mesas de trabalho, minhas facas, as pedras em que eu cortava os papéis, meus pincéis, tudo o que se encontrava entre meu cálamo e a caixa de papéis; vasculhou os armários, as caixas, debaixo das almofadas, espiou uma das minhas tesou­ras, olhou debaixo de uma macia almofada vermelha e de um tapete, antes de voltar, aproximando bem a lâmpada de cada objeto e esquadrinhando ou­tra vez os mesmos lugares. Como ele disse da primeira vez que sacou sua ar­ma, não ia revistar toda a minha casa, só meu ateliê. Será que eu ia conse­guir manter escondida minha mulher — a única coisa que eu desejava ocultar — no quarto do qual estava nos espiando?

“Falta a última miniatura para o livro que meu Tio organizava”, ele dis­se. “Quem o matou também a roubou.”

“Ela era diferente das outras”, respondi imediatamente. “Seu Tio, des­canse em paz, mandou-me desenhar uma árvore num canto da página, ao fundo... O meio da página e o primeiro plano seriam ocupados por um per­sonagem, provavelmente um retrato do Nosso Sultão. Ele tinha reservado um amplo espaço, mas nada ainda havia sido desenhado. Ele me pediu que pintasse a árvore bem pequenina, à maneira européia, que representa cada vez menores os corpos mais distantes. A medida que progredia, meu dese­nho dava a impressão de ser muito mais uma vista deste mundo a partir de uma janela do que uma miniatura. Compreendi que a miniatura obedecia a todas as regras da perspectiva dos europeus e que a moldura traçada pelo dourador tornava-se a moldura de uma janela.”




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