Meu nome é Vermelho



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“A moldura e a douradura foram obra do Elegante Efêndi, não é?”

“Se é o que você quer saber, não fui eu quem o matou.”

“Um assassino nunca reconhece seu crime”, ele rebateu no ato, antes de me perguntar o que eu fazia no café, na hora do ataque.

Ele tinha posto o lampião um pouco atrás da almofada em que eu esta­va sentado, de modo que meu rosto ficasse iluminado, assim como meus de­senhos e meus outros papéis. Quanto a ele, ia de um lado para o outro da sa­la, como uma sombra nas trevas.

Além de contar para ele o que já lhes contei — que na verdade eu qua­se não freqüentava o café e estava lá por acaso —, também repeti que havia feito dois dos desenhos que estavam pendurados na parede, mas que não aprovava nem um pouco o que acontecia por lá. “Porque”, acrescentei, “a arte da pintura só é criticável e condenável quando o pintor extrai sua força do desejo de criticar e de condenar as coisas ruins desta vida, em vez de bus­cá-la no talento, no amor à arte e no desejo de se unir a Alá, pouco impor­tando se o alvo da denúncia seja o pregador de Erzurum ou o próprio Sata­nás. De resto, se a gente daquele café não houvesse bulido com os fanáticos de Erzurum, talvez o café não tivesse sido atacado esta noite.”

“Mesmo assim, você ia lá”, replicou o patife.

“Ia porque me divertia” — será que ele entendia que eu falava com to­da franqueza? — “e porque nós, filhos de Adão, muitas vezes nos deliciamos com as coisas que, em nossa alma e em nossa consciência, sabemos erradas e impuras. Sim, tenho vergonha de confessar que eu também me divertia com aquelas ilustrações baratas, com as imitações e as histórias sobre o Dia­bo, a moeda de ouro, o cachorro, que o narrador contava cruamente, sem métrica nem rima.”

“Então como é que você insistia em pisar naquele antro de incréus?”

“Bem”, falei, como se me rendesse a uma voz interior, “às vezes o ver­me da dúvida também me corrói. Desde que fui abertamente reconhecido como o mais talentoso e o de maior mestria entre todos os mestres pintores do Grande Ateliê, e não só por Mestre Osman mas também por Nosso Sul­tão, comecei a temer a tal ponto a inveja dos meus colegas que procurei, ain­da que só de vez em quando, ir aonde eles iam, ser companheiro deles e pa­recer-me em tudo com eles, de modo que não se unissem contra mim para se vingarem. Entende? E desde que começaram a dizer que eu era um ‘erzurumi’, passei a freqüentar aquele antro de ignóbeis incréus para desmentir esse boato.”

“Mestre Osman me disse que você muitas vezes agia como se quisesse se desculpar pelo seu talento e pela sua mestria.”

“Que mais ele disse de mim?”

“Que para fazer crer que você renuncia a esta vida por amor à arte, vo­cê produz uns desenhos ridículos em lascas de unha ou grãos de arroz; que sua mania de sempre agradar se deve ao mal-estar que você sente por causa dos enormes dons que Alá lhe deu.”

“Mestre Osman é da estatura de um Bihzad”, comentei com toda a sin­ceridade. “Que mais?”

“Ele enumerou suas fraquezas sem sombra de hesitação”, respondeu o canalha.

“E quais são essas fraquezas?”

“Ele disse que, a despeito do seu imenso talento, não é por amor à pin­tura que você pinta, mas para adquirir prestígio. Que, na pintura, o que mais agrada a você é imaginar o prazer dos que vêem as suas imagens, quando, em vez disso, você só deveria pintar pelo prazer de pintar.”

Machucava meu coração saber que Mestre Osman pôde confiar o juí­zo que fazia de mim a um sujeito de espírito tão reles, que nem sequer é pin­tor, mas ganha a vida como escriba ou secretário de um potentado qualquer, escrevendo para ele cartas e bajulações rasteiras. O Negro prosseguiu:

“Os grandes mestres de antigamente, sustenta Mestre Osman, jamais renunciariam aos estilos e aos métodos que cultivaram ao longo de toda uma vida sacrificada à arte, cedendo à autoridade de um xá, aos caprichos de um novo príncipe ou aos gostos de uma nova época. Então, para que não pudes­sem ser forçados a alterar seus estilos e seus métodos, esses heróis tinham a coragem de furar os próprios olhos. Enquanto vocês, com a desculpa de que se trata da vontade do Nosso Sultão, imitaram entusiástica e vergonhosamen­te os mestres europeus na pintura das páginas do livro do meu Tio.”

“Nosso Grande Mestre Osman não deve ter dito isso por mal”, retorqui. “Aceita um chá de tília, caro visitante? Vou pôr a água para ferver.”

Fui até o aposento ao lado. Minha querida esposa pôs-me nos ombros seu robe de seda chinesa, que tinha comprado de Ester, a ambulante. “Nos­sa visita aceita um chá de tília?”, ela me imitou com um ar debochado, agar­rando meu pau. Peguei no fundo da cômoda ao lado da cama, atrás das echar­pes perfumadas com água-de-rosa, meu espadim com o punho ornado de granadas e tirei-o da bainha. A lâmina é tão afiada que se um lenço de seda caísse nela se cortaria em dois, e daria para cortar com ela uma folha de ou­ro em tiras tão precisas quanto se tivessem sido cortadas com uma régua.

Ocultando a arma o melhor que pude, voltei ao ateliê. O Negro estava tão contente com seu interrogatório que largara sua adaga negligentemente na almofada vermelha ao seu lado. Cobri-a com uma folha por terminar. “Dê uma olhada”, disse-lhe. Ele se debruçou com curiosidade, procurando en­tender.

Pus-me atrás dele, saquei o espadim e, lançando-me sobre ele num só movimento, joguei-o de cara no chão. Sua adaga caiu. Agarrei-o pelos cabe­los e, comprimindo sua cabeça contra o assoalho, enfiei a lâmina do espa­dim sob a sua garganta. Meu corpo pesado achatava o corpo magro do Ne­gro e imobilizava-o de barriga para baixo, enquanto eu me valia do queixo e da mão livre para manter sua cabeça bem pertinho da ponta do meu espa­dim. Uma mão agarrava um denso tufo dos seus cabelos imundos, a outra segurava o espadim contra a fina pele da sua garganta. Ele foi inteligente o bastante para não se debater, porque eu podia ter acabado com ele naquela hora. A proximidade dos seus cabelos encaracolados, da sua nuca insolente que dava uma vontade danada de lhe dar um bom tapa e das suas orelhas nojentas me deixava ainda mais irritado. “Não sei como consigo refrear mi­nha gana de dar cabo de você neste instante”, cochichei-lhe no ouvido, co­mo se contasse um segredo.

Agradou-me que ele tenha ouvido sem dizer nada, como uma criança bem-comportada. “Você deve conhecer esta lenda do Livro dos reis”, sussur­rei. “Feridun Xá, injustamente, lega suas piores terras aos dois filhos mais ve­lhos e a melhor, o Irã, ao mais moço, Iradj. Tur, roído pela inveja, resolve se vingar, captura Iradj com uma artimanha e, pouco antes de cortar-lhe a gar­ganta, agarra-o pelos cabelos e deita-se em cima dele com todo o seu peso, exatamente como estou fazendo agora com você. Sente o peso do meu corpo?”

Ele não respondeu, mas vi em seus olhos, que fixavam o vazio como os de um carneiro sacrificai, que ele me ouvia. Continuei então, inspirado: “Eu não sou fiel apenas aos estilos e métodos persas de pintura, mas também de degola. Aliás, vi uma versão diferente daquela apreciadíssima cena da morte do sombrio xá Siyavush”.

Contei ao Negro, que me ouvia calado, como Siyavush preparou sua vingança contra os irmãos; como incendiou seu próprio palácio, abandonou sua fortuna e seus bens, despediu-se da mulher, montou em seu cavalo e foi guerrear contra eles; como perdeu a batalha e foi arrastado pelos cabelos na planície coalhada de cadáveres, em meio ao sangue e à poeira; como o pu­seram de barriga para baixo — “tal e qual você agora” — e apertaram uma faca contra a sua garganta; e como esse xá derrotado, de cara no chão, teve de ouvir nessa posição humilhante seus inimigos discutirem para decidir se o matariam ou se o soltariam. Contei toda essa história à minha vítima, sem nada omitir, depois perguntei: “Você gosta dessa ilustração? Geruy lança-se sobre Siyavush pelas costas, como fiz com você, monta em cima dele, en­costa a espada no pescoço, agarra-o por trás pelos cabelos e corta-lhe a gar­ganta. Pouco depois, da terra árida em que o sangue vermelho se derramou sobe primeiro uma fumaça escura e, mais tarde, as flores desabrocham na­quele lugar”.

Calei-me. Das ruas distantes podíamos ouvir os gritos do bando de Er­zurum e de seus perseguidores. O terror que reinava lá fora de repente nos aproximou mais, deitados naquele chão, um em cima do outro.

“Mas em todas essas miniaturas”, prossegui puxando mais forte seus ca­belos negros, “sente-se que os pintores têm dificuldade para representar, com a devida elegância, dois homens cheios de desprezo um pelo outro mas cujos corpos, como os nossos, parecem se fundir um no outro. É como se as trai­ções, as invejas e as brigas que antecedem o momento mágico e sublime da decapitação interferissem demasiadamente nessas pinturas. Mesmo os maio­res artistas da escola de Kazvin teriam dificuldade para pintar dois homens deitados um em cima do outro, para distingui-los direito. Enquanto você e eu, olhe só, estamos unidos de forma muito mais bem disposta e elegante.”

“Você está me cortando com sua espada!”, ele choramingou.

“Muito obrigado por me avisar, meu caro, mas não acredito em você. Estou tomando cuidado. Não gostaria de estragar nossa bela pose. Nas cenas de amor, de morte e de guerra, os grandes mestres de antigamente só eram capazes de nos arrancar lágrimas de decepção, quando representavam cor­pos enlaçados como se fossem um só. Julgue você mesmo: minha cabeça es­tá grudada na sua nuca como se ela fizesse parte do seu corpo. Posso sentir o cheiro dos seus cabelos e do seu pescoço. Minhas pernas estão coladas tão harmoniosamente às suas que um observador poderia nos tomar por um ele­gante quadrúpede. Está sentindo todo o meu peso sobre as suas costas e a sua bunda?” Calei-me outra vez, mas agora sem apertar mais meu espadim, porque senão cortaria mesmo a garganta dele. “Se você não disser nada, vou me sentir tentado a morder sua orelha”, sussurrei-lhe no ouvido.

Vendo em seus olhos que ele ia me responder, fiz a pergunta de novo: “Sente o meu peso sobre o seu corpo?”.

“Sim.”


“Está gostando? É bonito?”, indaguei. “Acha que assim somos tão boni­tos quanto os heróis lendários que se trucidam com tanta elegância nas obras-primas dos antigos mestres?”

“Não sei”, respondeu o Negro. “Não dá para nos ver no espelho.”

O pensamento de que minha mulher nos observava do aposento contí­guo, à luz projetada pelo lampião do café pousado no chão a pouca distân­cia de nós dois, reteve minha vontade de morder de fato a orelha do Negro.

“Negro Efêndi, o senhor, que entrou à força na minha casa, invadindo a minha intimidade, adaga na mão, para me interrogar”, principiei, “o se­nhor sente agora a minha força?”

“Sim, e sinto também que errei.”

“Então, pergunte de novo o que você queria saber.”

“Como Mestre Osman o acariciava?”

“Quando eu era aprendiz, era muito mais magro, delicado e bonito do que hoje, e ele montava em mim, do jeito que estou montado em você. Ele acariciava meus braços, às vezes até me machucava, mas tudo o que ele fa­zia me agradava, porque eu admirava seu saber, seu talento e sua força, e nunca tive nenhum mau pensamento sobre ele, porque eu o amava. Amar Mestre Osman me capacitava a amar a arte, as cores, o papel, a beleza da pintura e da iluminura, de tudo o que era pintado, e portanto amar o pró­prio mundo e Alá. Mestre Osman é mais do que um pai para mim.”

“Ele batia muito em você?”

“Em seu papel de pai, ele me batia com um senso apropriado de justi­ça. Como mestre, ele me batia dolorosamente para que eu pudesse apren­der com o castigo. Graças à dor e ao medo da régua nas unhas das minhas mãos, aprendi muita coisa melhor e mais depressa do que teria aprendido por mim mesmo. Para que ele não me agarrasse pelos cabelos e batesse mi­nha cabeça na parede, nunca derramei seus pigmentos quando era seu apren­diz, nunca desperdicei suas folhas de ouro, memorizava rapidamente, por exemplo, a curva de uma perna do cavalo, corrigia os erros do traçador de li­nhas, lavava meus pincéis regularmente e concentrava minha atenção e mi­nha mente na página diante de mim. Sabendo que devo minha arte e minha mestria aos castigos que recebi, hoje bato por minha vez nos meus aprendi­zes sem peso na consciência. Mais ainda, sei que mesmo uma sova dada sem justa causa, se não humilhar o aprendiz, no fim das contas será proveitosa para ele.”

“Mas se você bate num aprendiz que é um anjo, lindo de rosto, de olhos meigos, e se deixa embalar pelo prazer que sente nisso, não lhe passa pela cabeça que Mestre Osman provavelmente experimentava a mesma sensação quando te batia?”

“Às vezes ele pegava o alisador de mármore e me batia com tanta força atrás da orelha, que meu ouvido zumbia dias a fio e eu ficava completamen­te atordoado. As vezes ele me dava uma bofetada tão violenta que meu rosto ardia em fogo, a ponto de meus olhos ficarem um tempão cheios de lágri­mas. Nunca vou me esquecer, nem deixar de amar meu mentor por causa disso.”

“Não!”, fez o Negro. “Você tinha raiva dele. E todos vocês se vingaram dessa cólera acumulada no fundo do coração pintando para o meu Tio aque­las imitações da pintura ocidental.”

“Você não conhece os pintores. O contrário é que é verdade. As surras recebidas em nossa infância nos ligam até a morte com um amor profundo ao nosso mestre.”

“A degola cruel e traiçoeira de Iradj e Siyavush, que tiveram a garganta cortada de baixo para cima, como você está fazendo comigo, é causada pela rivalidade entre irmãos, e a rivalidade entre irmãos, como no Livro dos reis, é sempre provocada por um pai injusto.”

“É verdade.”

“Esse pai injusto dos miniaturistas, que instiga vocês uns contra os ou­tros, está agora a ponto de traí-los”, ele ousou dizer. “Ai, por favor, está me cortando!”, queixou-se. Gritou agoniado mais um pouco, depois continuou. “Sim, cortar a minha garganta e derramar meu sangue como um carneiro de ramadã seria coisa à toa, mas se você fizer isso sem me ouvir até o fim — e não acredito que você seja capaz, ai, por favor, pare! — você vai se pergun­tar pelo resto dos seus dias o que eu ia dizer. Por favor, afaste um pouco a lâ­mina.” Fiz o que ele pediu. “Mestre Osman, que acompanhou cada passo, cada respiração de vocês desde a infância, que viu cheio de felicidade o ta­lento que Alá lhes deu desabrochar em arte, como uma flor que se abre na primavera, agora, para salvar o ateliê e o estilo a que ele consagrou sua vida, abandonou vocês.”

“No dia em que enterramos o Elegante Efêndi eu te contei três parábo­las, para que você entendesse que asco é isso que eles chamam de estilo.”

“Tratava-se do estilo de um pintor”, reparou o Negro cuidadosamente, “enquanto Mestre Osman estava preocupado com a preservação do estilo do seu ateliê.”

Ele me explicou demoradamente a importância que Nosso Sultão dava à descoberta do celerado que tinha assassinado seu Tio e o Elegante Efêndi, e que para isso tinha até permitido o acesso deles ao Grande Tesouro; mas que Mestre Osman aproveitava dessa oportunidade para sabotar o livro do seu Tio e punir os pintores que o haviam traído, aceitando pintar à ociden­tal. O Negro acrescentou que, baseando-se no estilo, Mestre Osman descon­fiava que o autor do cavalo de narinas fendidas fosse Oliva, mas que, na qua­lidade de Grande Mestre do ateliê do Sultão, estava convencido da culpa de Cegonha e disposto a entregá-lo aos carrascos. Eu sentia, sob a lâmina da mi­nha adaga, que ele dizia a verdade e tive até vontade de lhe dar um beijo, a tal ponto ele parecia uma criança que conta tudo para a gente com a maior ingenuidade. Suas palavras não me davam motivos de preocupação, muito pelo contrário: Cegonha fora do páreo significava que, após a morte de Mes­tre Osman, que Alá lhe conceda uma longa vida, eu é que seria o Grande Mestre do ateliê do Sultão.

Não, o que me preocupava não era que acontecesse o que ele tinha di­to, mas sim a possibilidade de que não acontecesse. Lendo nas entrelinhas do relato do Negro, compreendia que Mestre Osman também poderia estar pretendendo sacrificar não apenas Cegonha, mas a mim também. A simples idéia de tal ignomínia bastava para fazer meu coração disparar e para que eu experimentasse o horror do total abandono que deve sentir uma criança que perde de repente o pai. Sempre que essa idéia me vinha à mente, eu tinha de me conter para não cortar a goela do Negro. Não quis discutir com o Ne­gro, nem comigo mesmo, por que diabos o fato de termos feito umas poucas ilustrações idiotas à maneira européia para o Tio podia nos fazer passar por traidores. Pensei além disso que por trás da morte do Tio também podia es­tar dissimulada alguma manobra dirigida contra mim por Oliva e Cegonha. Tirei minha espada de sob a garganta do Negro.

“Vamos revistar a casa do Oliva!”, sugeri. “Se a última miniatura estiver lá, pelo menos saberemos quem devemos temer. Senão, o levaremos como reforço conosco à casa do Cegonha.”

Disse-lhe que podia confiar em mim e que sua adaga era arma bastante para nós dois. Até pedi desculpa por não lhe ter oferecido o tal chá de tília. Ao pegar no chão a lamparina trazida do café, nossos olhares se fixaram, cheios de subentendidos, na almofada em que eu o imobilizara. Aproximei o lampião do seu pescoço e disse a ele que aquele corte imperceptível na sua garganta seria doravante o sinal da nossa amizade. Até sangrara um pouco.

Nas ruas, o tumulto causado pelo bando de Erzurum e seus persegui­dores continuava, mas ninguém prestou atenção em nós. Não demoramos a chegar à casa de Oliva. Batemos no portão do quintal, na porta da casa e, com impaciência, na janela. Não havia ninguém em casa, nem mesmo dor­mindo, dada a barulheira que fazíamos. Tivemos a mesma idéia no mesmo instante, mas foi o Negro que sugeriu: “Vamos entrar?”.

Com o dorso da lâmina, fiz o trinco de metal girar, depois enfiei a ada­ga entre a porta e o batente e, forçando com todo o nosso peso, estouramos a fechadura. Esperava-nos lá dentro o relento de umidade, sujeira e solidão acumulado ao longo dos anos. A luz do lampião vimos uma cama desarru­mada, almofadas jogadas no chão com cintos, túnicas, dois turbantes, cami­sas, o dicionário persa-turco de Nimatullah Naqshbandi, um porta-turbante de madeira, cortes de tecido, agulhas e linhas de costura, um prato de cobre repleto de casca de maçã, lenços amontoados, uma colcha de seda, tintas, pincéis e tudo o que é necessário para pintar; páginas iluminadas numa pran­cheta, folhas de papel indiano cuidadosamente cortadas e trabalhos em pa­pel, que eu já ia pegando para bisbilhotar, mas me contive seja porque o Ne­gro, entusiasmado, já tinha se antecipado a mim, seja porque eu sabia muito bem que dava azar a um mestre miniaturista remexer nos pertences de um miniaturista menos talentoso. Oliva não tem todo o talento que imagina, ele é apenas ambicioso. Disfarça suas falhas pondo os antigos mestres nas nu­vens, quando, na realidade, quem pinta é a mão do pintor — as velhas len­das apenas deflagram a imaginação do artista.

Enquanto o Negro vasculhava tudo de cabo a rabo, todas as arcas, cai­xas, até o cesto de roupa suja, eu não tocava em nada, contentava-me com es­piar as toalhas, os pentes de ébano, um nojento tapa-sexo para usar no hamam, um frasco de água-de-rosa, uma espécie de saia indiana com motivos ridículos, casacos acolchoados e uma blusa grossa de mulher, imunda e toda remendada, uma bandeja de cobre toda amassada, os tapetes sebentos e o mo­biliário barato e desmazelado, nada condizente com o dinheiro que ele ga­nhava. Ou Oliva era sovina demais, ou tinha algum vício que lhe custava caro.

“Ê bem a casa de um assassino”, observei passado um momento. “Nem mesmo um tapete de oração.” Na verdade não era isso que eu tinha na ca­beça. Pensei um pouco e disse: “São as coisas de alguém que não sabe ser fe­liz”. Mas eu pensava também, com uma ponta de tristeza, que essa infelici­dade, essa intimidade com o Diabo eram um alimento da pintura.

“Talvez a casa de um homem que poderia ser feliz, mas não consegue”, respondeu-me o Negro.

Dispôs então diante de mim uma série de imagens desenhadas no pa­pel grosso de Samarcanda, montadas em cartão duro, que acabava de tirar do fundo de um grande baú. Examinamos as pinturas: um delicioso Diabo saído de uma caverna dos confins do Khurasan, uma árvore, uma linda mu­lher, um cachorro e aquela imagem, que eu mesmo desenhei, representan­do a Morte. Eram os desenhos pendurados todas as noites atrás do satirista, no fundo do café, enquanto ele contava suas histórias grosseiras. Para respon­der à pergunta do Negro, apontei para o desenho da Morte, indicando que aquele era meu.

“No livro do meu Tio há miniaturas iguais a estas”, observou.

“Tanto o satirista como o dono do café tiveram a sabedoria de pedir, pa­ra cada noite, que um pintor desenhasse uma imagem a ser exposta na pare­de”, expliquei. “Nós improvisávamos rapidamente uma ilustração numa fo­lha de papel qualquer, o contador nos pedia duas ou três sugestões para enfeitar sua história ou umas piadas de pintores, e iniciava sua apresentação.”

“Por que você deu este desenho da Morte, o mesmo que fez para o li­vro do meu Tio?”

“O contador de histórias nos pedia para desenhar o que nos passasse pe­la cabeça. Mas não fiz esta imagem como a que pintei para o seu Tio, que me exigiu horas de trabalho. Fiz como ele me disse, rapidamente, deixando a mão desenhar por conta própria. Os outros também fizeram assim. Dese­nhar dessa maneira popular e grosseira a mesma imagem para o contador de histórias era até uma forma de debochar daquele livro misterioso que fazía­mos para o seu Tio.”

“E quem fez o cavalo, com estas narinas fendidas?”, ele perguntou.

Aproximamos o lampião para melhor examinar o curioso cavalo. Pare­cia bastante com o que fora feito para o livro do Tio dele, porém mais apres­sadamente, mais descuidado e com um gosto vulgar. Como se o artista, sa­bendo que não o venderia caro, tivesse não só desenhado mais depressa, mas evitado caprichar. Justamente por isso era, na minha opinião, um cavalo mui­to mais vivo.

“Cegonha deve saber quem foi”, declarei. “Esse imbecil pretensioso ia todas as noites ao café, porque não pode viver um só dia sem ouvir as fofocas dos colegas. Sim, com certeza, foi ele que desenhou este cavalo.”

56. Chamam-me Cegonha

Negro e Borboleta chegaram no meio da noite, espalharam os desenhos no chão e me pediram para dizer quem tinha desenhado o quê. Aquilo me lembrou da brincadeira “de quem é o turbante?”, de quando éramos crian­ças: a gente desenhava em diferentes papeizinhos vários turbantes, do hodja, do cavaleiro, do juiz, do carrasco, do tesoureiro e do escriba, e tinha de casá-los com os nomes correspondentes, escritos em outros pedaços de papel vi­rados de cabeça para baixo.

Disse-lhes que eu é que tinha desenhado o Cachorro, mas todos nós contribuímos para a história que o satirista, tão odiosamente assassinado, con­tou. Disse que o amável Borboleta, que agora apertava uma adaga contra a minha garganta, deve ter desenhado a Morte, acima da qual a luz do lam­pião parecia se arrepiar, enquanto o Diabo, se bem me lembrava, tinha sido pintado por Oliva, que o representara com todo o seu entusiasmo; mas a his­tória correspondente tinha sido concebida inteiramente pelo falecido conta­dor. A Arvore eu comecei, mas suas folhas foram acrescentadas uma a uma por todos os pintores, à medida que entravam no café. Nós também fornece­mos a história. Mesma coisa no caso do Vermelho: uma gota de tinta dessa cor havia pingado numa página e o pão-duro do contador perguntou se não podíamos fazer uma pintura aproveitando-a. Pingamos mais umas gotas no papel, depois cada um de nós desenhou num canto alguma coisa vermelha e inventamos também toda a história da imagem; o contador só teve de di­zê-la em nosso lugar. Quem fez este lindo Cavalo aqui foi Oliva — louvado seja o seu talento — e esta mulher melancólica, tão inspiradamente dese­nhada, é de Borboleta, recordei sem sombra de hesitação. Nesse momento, Borboleta afastou a adaga da minha garganta e disse ao Negro que, de fato, ele se lembrava de ter pintado aquela bonita Mulher. Todos colaboramos pa­ra a Moeda de ouro encontrada no bazar, enquanto os dois dervixes errantes, claro, foram obra de Oliva, descendente de kalenderis. A seita dos kalenderis prega não só a mendicância como a sodomia com rapazolas, e o sheik de­les, Awhad-ud-Din, de Kirman, redigiu dois séculos e meio atrás o livro sa­grado da seita, revelando em versos que ele viu a perfeição de Alá manifestar-se nos rostos bonitos.




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