Meu nome é Vermelho



Baixar 1.84 Mb.
Página4/45
Encontro29.07.2016
Tamanho1.84 Mb.
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   45

“Qual seria a história para a qual esse quadro tinha sido pintado? Ob­servando-o, compreendi que ele contava sua própria história. Não era uma ilustração, o prolongamento ou a ornamentação de um relato, mas algo que tinha vida própria.

“Eu não conseguia mais tirar da cabeça aquele quadro que me havia tão vivamente impressionado. Saí do palácio e, voltando à minha residência, passei toda aquela noite imerso nas reflexões que ele me inspirava. Primeiro quis eu próprio ser pintado daquele modo. Mas logo reconsiderei: aquilo tu­do ia muito além da minha humilde pessoa, era Nosso Sultão que tinha de ser representado daquela nova maneira! Nosso Sultão, com tudo o que ele possuía, com todas as coisas que representavam e constituíam seu reino. Foi então que concebi o projeto de ilustrar um manuscrito de acordo com essa idéia.

“O mestre italiano tinha pintado o nobre veneziano de tal maneira que dava para saber imediatamente de que grão-senhor se tratava. Se você nunca tinha visto o personagem e lhe pedissem para descobri-lo na multidão, você poderia identificá-lo, graças ao quadro, no meio de milhares de outros. Os pintores italianos descobriram métodos e técnicas para distinguir qualquer pessoa de outra, não graças às suas vestimentas e às suas medalhas, mas pela forma do seu rosto. Eles chamam a isso fazer um retrato.

“Se pintassem seu rosto daquela maneira, mesmo que uma só vez, nin­guém nunca mais iria esquecer você. Mesmo se você estivesse longe, iriam senti-lo perto, com um simples olhar para o quadro. E mesmo os que não o conheceram em vida teriam a sensação da sua presença e de estar diante de você, muitos anos depois da sua morte.”

Ficamos um longo momento em silêncio. Um raio de luz da cor do frio glacial lá de fora filtrava pela janelinha que dava para a rua, cuja parte de ci­ma eu havia tapado recentemente com um encerado e cuja parte de baixo não abria mais.

“Eu tinha um pintor”, prossegui, “que também trabalhava nesse manus­crito secreto para o Sultão e que vinha em casa à noite, como os outros, para trabalhar até o raiar do dia. Era o melhor nas iluminuras com folha de ouro. Esse pobre Elegante Efêndi saiu daqui uma noite e nunca chegou em casa. Temo que eles tenham matado esse meu pobre mestre iluminador.”

6. Eu me chamo Orhan

O Negro Efêndi perguntou: “Mataram mesmo?”.

Negro é alto e magro, e mete um pouco de medo. Bem no instante em que eu chegava, meu avô disse: “Eles mataram meu iluminador”. Foi então que me viu: “O que você está fazendo aqui?”.

Mas ele olhava para mim ternamente, por isso não hesitei e fui me sen­tar no seu colo, mas ele me pôs no chão e ordenou: “Beije a mão do Negro Efêndi”. Beijei-lhe a mão. Não tinha cheiro algum.

“Ele é um encanto”, disse o Negro, beijando-me no rosto. “Vai ser um verdadeiro leão.”

“Este é Orhan, está com seis anos. Tem um irmão mais velho, Shevket, que está com sete e é uma mula de teimosia!”

“Passei por sua rua, no Palácio Branco”, disse o Negro. “Fazia frio e tu­do estava gelado, coberto de neve, mas parece que nada mudou.”

“Tudo mudou, não sobra nada que preste”, replicou meu avô. “Nada de bom, garanto.” E, voltando-se para mim: “Onde está seu irmão?”.

“Na casa do encadernador.”

“E você, por que está aqui?”

“Ele me disse ‘muito bem’ e que eu podia ir embora.”

“Voltou sozinho?”, perguntou meu avô. “Seu irmão devia ter te trazi­do.” Depois disse para o Negro: “Duas vezes por semana, depois da escola, eles têm aula de encadernação com um amigo meu”.

“Você gosta de pintar, como seu avô?”, o Negro me perguntou.

Não respondi.

“Claro que sim”, respondeu meu avô. “Agora saia, por favor.”

Estava quentinho ao lado da estufa, era gostoso, por isso eu não queria sair. Fiquei mais um pouco sentindo o cheiro de tinta e de cola. Tinha tam­bém o cheiro do café.

“Será que, se pintamos de uma maneira diferente, é que vemos de uma maneira diferente?”, indagou meu avô. “Foi por isso que mataram o coitado do iluminador. Ele trabalhava à moda antiga. Aliás, não sei se o mataram mesmo, só sei que ele sumiu. Os pintores de Mestre Osman trabalham nes­te momento no Livro das festividades para a circuncisão dos príncipes. Cada um trabalha em sua casa. Quanto a Mestre Osman, fica no Grande Ateliê. Gostaria que você fosse visitá-lo lá, primeiro, e que abrisse bem os olhos pa­ra tudo o que vir. Temo que as desavenças entre eles os tenham levado a se matar uns aos outros. Eles ainda usam os apelidos que Mestre Osman lhes deu, já faz anos: Borboleta, Oliva, Cegonha... Depois vá visitá-los também, vá vê-los trabalhar em casa.”

Eu ia descer a escada, mas ouvi um barulho vindo do quarto ao lado, onde fica o armário embutido e onde Hayriye dorme. Fui ver o que era. Ao entrar, não foi Hayriye que encontrei, mas minha mãe. Ao me ver, ficou to­da atrapalhada: metade de seu corpo ainda estava dentro do armário.

“Onde você estava?”, perguntou-me.

Mas ela sabia perfeitamente onde eu estava. No armário tem um furo pelo qual dá para ver o ateliê do meu avô. Se a porta do ateliê não estiver fe­chada, dá para ver também o largo corredor e até o quarto em que ele dor­me, se sua porta também estiver aberta.

“Estava com meu avô. E você, mamãe, o que está fazendo aqui?”

“Eu não te disse que tínhamos visita e que não era para incomodá-los?” Ela brigava comigo, mas não muito alto, como se não quisesse que nosso vi­sitante a ouvisse. Depois, fazendo um ar de boazinha, perguntou: “O que eles estão fazendo?”.

“Estão sentados, mas não estão pintando. Vovô está contando e o outro, escutando.”

“Estão sentados como?”

Sentei-me no chão e imitei como o visitante estava sentado: “Olhe, mãe, agora sou um homem sério. Estou escutando meu avô com as sobrancelhas franzidas, como se estivesse ouvindo a Epopéia da Criação. Agora estou sa­cudindo a cabeça ritmado, muito sério, como a visita”.

“Desça”, mandou mamãe, “e diga a Hayriye que eu a estou chamando. Ande logo!”

Pegou material de escrita e sentou-se para escrever alguma coisa num pedaço de papel.

“O que você está escrevendo, mãe?”

“Desça logo, já disse, e chame Hayriye.”

Fui até a cozinha. Meu irmão tinha chegado. Hayriye tinha lhe servido um prato de arroz, que havia preparado para a visita.

“Traidor”, disse meu irmão. “Você foi embora e me deixou sozinho com o mestre. Tive de fazer todas as dobras da encadernação. Meus dedos fica­ram roxos.”

“Hayriye, mamãe está te chamando.”

“Quando eu acabar de comer, você vai ver! Vou te dar uma surra, para você aprender a não me trair mais, seu preguiçoso.”

Assim que Hayriye saiu, ele nem acabou o arroz, levantou-se da mesa e partiu para cima de mim. Não pude escapar. Agarrou meu pulso e começou a torcer meu braço.

“Pare, Shevket, está me machucando!”

“Você vai cair fora de novo deixando para mim todo o trabalho?”

“Nunca mais.”

“Então jure.”

“Juro.”

“Pelo Corão.”



“Pelo Corão.”

Mas não largou meu braço. Arrastou-me até junto da grande bandeja de cobre que usávamos como mesa de comer e me obrigou a ficar de joe­lhos ao lado dele. Ê tão mais forte que eu a ponto de, com uma mão, segurar a colher e acabar de comer o arroz, e com a outra continuar torcendo meu braço.

“Pare de torturar seu irmão, seu tirano!”, ralhou Hayriye voltando. Pôs o capote para sair. “Ande, largue-o já.”

“Não se meta, sua escrava”, respondeu meu irmão, continuando a tor­cer meu braço. “Aonde é que você vai?”

“Vou comprar limão”, respondeu Hayriye.

“Mentirosa!”, ralhou meu irmão. “Tem um monte de limões no apa­rador.”

Shevket soltou meu braço e eu escapei, acertando-lhe um pontapé. Agar­rei um castiçal, mas ele se atirou sobre mim e, ao me derrubar, fez o castiçal cair no chão, e a bandeja caiu junto.

“Seus flagelos de Alá!”, exclamou mamãe, abafando o grito, para que a visita não a ouvisse. Ué, como foi que ela fez para passar pelo corredor e des­cer a escada sem que o Negro a visse? Ela nos apartou. “Quando vocês vão parar de me dar dor de cabeça, seus moleques?”

“Hoje Orhan mentiu”, disse Shevket, “e ainda me deixou na casa do encadernador, fazendo o trabalho todo sozinho.”

“Cale a boca”, disse mamãe, dando-lhe um tabefe.

O tabefe não foi forte, meu irmão nem chorou. Só disse: “Quero meu pai. Quando meu pai voltar, ele vai pegar a espada vermelha do tio Hassan, vai vir nos buscar aqui e nos levar de volta para a casa do tio Hassan”.

“Cale a boca, já disse.” Ela estava tão brava que o arrastou pelo braço até o fundo da cozinha. Eu fui junto. Abriu a porta do quarto que dá para o lado escuro e calçado do pátio. Quando me viu atrás deles, disse:

“Andem, para dentro, os dois!”

“Mas, mamãe, eu não fiz nada!”, reclamei, entrando assim mesmo no quarto.

Ela nos fechou ali. Embora não estivesse totalmente escuro lá dentro — passava um pouco de luz pela fresta entre os dois batentes da janela que dava para o pé de romã —, ainda assim fiquei com medo.

“Mamãe, abra a porta! Estou com frio!”, gritei.

“Pare de chorar, seu medroso. Ela já vai abrir, você vai ver.”

Mamãe abriu a porta. “Vocês prometem se comportar direitinho até a visita ir embora? Bom, então até o Negro sair vocês vão ficar sentados na co­zinha, perto do fogão, sem subir para os quartos.”

“A gente vai se chatear”, reclamou Shevket. “Aonde é que a Hayriye foi?”

“Não se meta com o que não lhe diz respeito!”, respondeu mamãe.

Ouvimos um cavalo relinchar baixinho na estrebaria. Relinchou de no­vo. Não era o cavalo do vovô. Era o do Negro. Todo o mundo estava excita­do, como se fosse um dia de festa ou de parada. Mamãe sorriu, parecia que ela queria que a gente também sorrisse. Dando alguns passos, foi até a porta da estrebaria.

“Psiu”, fez ela para dentro da cocheira.

Ela veio nos buscar e nos levou para a cozinha da Hayriye, com aquele cheiro de fritura e cheia de camundongos. “Não saiam daqui enquanto a vi­sita não for embora. Não quero que ele veja vocês brigarem e ache que são uns meninos mal-educados.”

“Mamãe”, disse eu antes que ela fechasse a porta. “Sabe, mãe, eles ma­taram o iluminador do vovô.”

7. Meu nome é Negro

Assim que vi o filho dela, entendi o que estava errado na lembrança que eu tinha do rosto de Shekure. De fato, como o de Orhan, seu rosto era fino, mas o queixo era sem dúvida mais comprido do que na minha lembrança. Logo, sua boca devia ser menor e mais estreita do que a que eu vinha recor­dando. Durante aqueles doze anos passados de cidade em cidade, minha imaginação havia retocado sua boca a seu bel-prazer, fazendo-a mais larga, com lábios mais nitidamente desenhados, mais carnudos e irresistíveis, co­mo uma grande e deslumbrante cereja.

Se eu tivesse levado comigo um retrato à veneziana de Shekure, acho que não teria sentido tanto a sua falta durante o meu longo périplo, por não conseguir me lembrar direito da minha amada, cuja fisionomia eu havia es­quecido em algum lugar que ficara para trás. Porque se a imagem do ser ama­do fica viva no seu coração, o mundo inteiro é sua casa.

Ver seu filho, ter falado com ele, tê-lo beijado, despertou em mim um desejo impetuoso, comparável unicamente à paixão desesperada dos crimi­nosos e dos assassinos. Uma voz parecia me dizer: “Ande, vá ver Shekure!”.

As vezes eu me sentia a ponto de largar meu Tio ali, sair pelo corredor e abrir uma por uma as portas que havia nele — eu as contara com o canto os olhos, cinco portas escuras, uma das quais, é claro, dava para a escada — até encontrar Shekure.

Mas eu já havia ficado doze longos anos longe da minha amada, por ter ousado outrora lhe abrir meu coração imprudentemente e cedo demais. Resolvi portanto, prudentemente, continuar a ouvir meu Tio, observando entretanto os objetos que ela deve ter tocado, as grandes almofadas em que ela deve ter se recostado quem sabe quantas vezes.

Ele me contou que o Sultão, o Protetor do Mundo, queria que o livro ficasse pronto para o milenário da Hégira, a fim de demonstrar por ocasião do ano mil do calendário muçulmano que ele e seu império eram capazes de dominar as artes da Europa tão bem quanto os próprios europeus. Por outro lado, como os mestres pintores já estavam ocupadíssimos com o Livro das festividades, Nosso Sultão permitiu que eles trabalhassem em casa, onde es­tariam mais sossegados do que no vaivém constante do Grande Ateliê. É claro que ele também sabia das visitas noturnas secretas à casa do meu Tio.

“Vá ver o Grande Mestre Iluminador Osman”, disse-me. “Uns acham que ele está cego, outros afirmam que está gagá. Na minha opinião, está as duas coisas.”

O fato de meu Tio, que não tinha o título de Mestre de Pintura e que, para dizer a verdade, estava longe de conhecer a fundo os arcanos dessa ar­te, ter obtido a autorização e o incentivo do Nosso Sultão para supervisionar toda a feitura dessa obra não melhorava em nada suas relações com Mestre Osman.

Enquanto pensava na minha infância, deixei minha atenção se concen­trar nos móveis e objetos da casa. O kilim azul-escuro no chão, o jarro de co­bre com a bandeja e o balde de cobre, o serviço de café, aquele serviço de porcelana que minha tia não se cansava de repetir, orgulhosa, que havia sido trazido da China pelos barcos portugueses, eram os mesmos de doze anos antes. Esses objetos, como o leitoril marchetado de nácar, o porta-turbante na parede e a almofada de seda vermelha, cuja maciez meus dedos não ha­viam esquecido, também vinham da casa do bairro do Palácio Branco, onde eu tinha vivido a minha infância com Shekure, e ainda refletiam algo daque­les dias distantes, passados pintando e desenhando numa luminosa felicidade.

Pintura e felicidade. Eu gostaria que os amáveis leitores que se interes­sassem pela minha história e pela minha sina retivessem essas duas coisas como a gênese do meu mundo. Porque houve uma época na minha vida em que conheci a verdadeira felicidade naquela casa, no meio dos cálamos, dos livros e das miniaturas. Depois me apaixonei e fui expulso desse paraíso. Nos meus anos de exílio, pensei muitas vezes na dívida profunda que eu tinha para com Shekure e meu amor infeliz por ela, pois foi o que me deu forças para me adaptar com otimismo à vida e ao mundo. Com a minha ingenui­dade infantil, eu não tinha a menor dúvida de que minha paixão era corres­pondida e, cheio de segurança, via o mundo como um lugar invejável. Aliás, minha paixão pelos livros vem daí: eu me interessei por eles a fim de agra­dar ao meu Tio, que me estimulava à leitura, a que eu me dedicava paralela­mente às aulas que dava na escola corânica e à prática do desenho e da pin­tura. Mas assim como devo a esse amor por Shekure a parte ensolarada, prazerosa e mais fértil da minha formação, também devo a ele a parte som­bria que veio mais tarde, depois que fui rejeitado: meu desejo renascente, como as chamas dos braseiros no meio das noites glaciais passadas nos cara­vançarás; o sonho recorrente, após o amor, no qual eu rolava no abismo com a mulher que dormia ao meu lado; a sensação de total desamparo. Tudo isso eu devia a Shekure.

“Você sabia”, prosseguiu meu Tio após um longo silêncio, “que depois da morte nossas almas ainda podem vir encontrar os espíritos dos homens e mulheres deste mundo, enquanto eles dormem em paz em suas camas?”

“Não”, respondi.

“Depois da morte, vem uma longa viagem. E por isso que não tenho medo de morrer. Mas tenho medo de morrer sem terminar o livro para o Nosso Sultão.”

Uma parte de mim dizia que eu era mais forte, mais sensato e mais con­fiável que meu Tio, enquanto outra parte pensava em quanto me haviam custado o cafetã que eu acabava de comprar para fazer esta visita àquele que outrora tinha me recusado a mão da sua filha, o freio de prata e a sela adamascada do meu cavalo que, assim que descesse, eu iria pegar na estrebaria e montar para ir embora.

Prometi lhe contar tudo o que eu conseguisse saber dos pintores. Beijei-lhe a mão, levei-a à minha testa e desci a escada. Ao sair no pátio, o frio da neve me lembrou que eu não era nem uma criança nem um ancião, mas um homem que sente o peso do mundo em seus ombros. O vento se fez sentir mal bati a porta da estrebaria. Puxei o cavalo pelo caminho de pedra até a parte de terra do pátio, o animal refugou: suas pernas fortes, de veias salien­tes, sua impaciência, fizeram-me pensar que eu tinha um caráter idêntico ao dele, rebelde e obstinado. Assim que chegamos à rua, eu já estava a pon­to de pular na sela e sair levantando poeira, como um herói de romance, pa­ra nunca mais voltar, uma mulherona, surgida do nada, uma judia vestida de rosa da cabeça aos pés, veio ao meu encontro com sua trouxa debaixo do braço. Era tão grande e larga quanto um armário. E, além do mais, expansi­va, esperta e até mesmo um tanto ou quanto coquete.

“Meu leão, meu herói, você é mesmo tão bonito quanto me disseram!”, disparou. “Casado? Solteiro? Secretamente apaixonado? Não vai querer um lencinho de seda da maior ambulante de Istambul, Ester, para te servir?”

“Não.”


“Um cinto de cetim grená, então?”

“Não.”


“Como não, sempre não? Duvido que um leão lindo como você não te­nha uma namoradinha, um romance oculto. Deve haver por aí uma porção de moças chorosas, morrendo de amores por um rapagão tão vistoso!”

De repente, ágil como uma acrobata, ela chega ainda mais perto de mim e faz aparecer em sua mão, com a habilidade de um prestidigitador, uma carta tirada sei lá de onde. Peguei-a tão furtivamente quanto ela e, co­mo se eu viesse treinando havia anos para aquele momento, enfiei-a rapida­mente sob a faixa que envolvia minha cintura. Era uma carta de bom tama­nho e, apesar do frio glacial, eu sentia em toda a extensão da minha barriga, colada na pele, sua ardente doçura.

“Vamos, cavaleiro, monte na sela”, disse-me a alcoviteira. “Vire à direita no fim do quarteirão, faça seu cavalo ir a passo, como quem não quer nada; quando chegar na altura de um pé de romã, erga os olhos para a casa de que acaba de sair e olhe para a janela à sua direita.”

Ela seguiu seu caminho e desapareceu num instante. Pulei na sela, mas como um principiante que monta pela primeira vez. Meu coração dispara­va, a emoção fazia minha cabeça girar, minhas mãos não sabiam mais como segurar as rédeas, mas enquanto apertava as pernas contra os flancos da mi­nha montaria, esta pareceu, por assim dizer, herdar minha presença de espírito e saiu andando segura de si, conforme Ester havia indicado: em frente primeiro, depois à direita.

Nesse instante, senti que eu era realmente bonito. Sim, eu sentia que, como em todos os contos, todas as moças do bairro me espiavam atrás das gelosias e que eu estava prestes a me atirar de novo no braseiro do amor. Se­rá que era mesmo isso que eu desejava? Uma recaída, passados tantos anos? De repente o sol apareceu. Estremeci.

Onde estava o pé de romã? Seria aquela arvorezinha triste e mirrada? Sim! Virei-me ligeiramente na sela. Havia de fato uma janela atrás da árvo­re, mas vazia. Aquela sirigaita da Ester tinha zombado de mim!, eu já ia me dizendo.

Mas a janela se abriu, estourando ruidosamente os trincos de gelo que a mantinham fechada, e na sua moldura assimétrica que o sol iluminava, vi minha beldade adorada, doze anos depois, seu lindo rosto enfim visível atra­vés dos galhos pesados de neve. Seus belos olhos negros me olhavam ou olha­vam além de mim, para uma outra vida? Ela estava triste? Sorria? Sorria tris­temente? Não saberia dizer. Ah, cavalo, imbecil! Não ouça o galope do meu coração e diminua um pouco seu passo! Virei-me mais uma vez no meu arção, desavergonhado, para espiar langorosamente aquele rosto delicado e fi­no, carregado de mistério, até ele se perder atrás da teia de galhos nevosos.

Mais tarde, ao descobrir o desenho na carta que Shekure fizera chegar às minhas mãos, percebi quanto essa cena — eu no meu cavalo, ela à sua ja­nela, embora houvesse entre nós aquela árvore melancólica — era idêntica àquela, mil vezes pintada, em que Khosrow vem visitar Shirin sob a sua ja­nela, senti em mim a chama do amor, tão ardente quanto a que evocam aque­les livros adoráveis que tanto apreciamos.

8. Meu nome é Ester

Sei que vocês todos estão se perguntando o que estava escrito na carta que passei para o Negro. Como tive a mesma curiosidade, sei tudo o que ha­via a saber. Façam então, por favor, como se estivessem lendo as páginas des­ta história de trás para a frente, enquanto eu lhes conto o que aconteceu an­tes de eu ter entregado a tal carta.

É noite e nós, meu marido Nessim e eu, estamos em nossa casa no bair­ro judeu, na ladeira que desce para o Chifre de Ouro, dois velhinhos rabugentos botando lenha no fogo para nos aquecer. Não confiem muito na mi­nha maneira de me apresentar como uma simples velhinha, porque com minha tralha debaixo do braço, colares, anéis e brincos enfiados no meio de lenços de seda, echarpes, luvas e blusas coloridas que os navios portugueses trazem para mim, tudo por que as mulheres daqui são loucas, a todos os pre­ços e para todos os bolsos, não há uma ruela que eu não tenha percorrido; e, se Istambul é uma enorme panela, Ester é a colher! Não há uma carta, um mexerico de que eu não tenha me encarregado pessoalmente e, passando as­sim de porta em porta, fui eu, quem diria, que casou uma boa metade das mulheres da cidade. Mas minha intenção não é fazer propaganda. Como eu ia dizendo, então, estávamos calmamente sentados certa noite, quando — toc toc, toc — batem na porta e vou abrir: aquela palerma da Hayriye! (A criada de Shekure.) Ela me entrega uma carta e me explica, tremendo co­mo vara verde — não sei bem se por causa do frio ou da emoção —, o que Shekure espera de mim.

Fiquei espantada, pois achava que a carta era para Hassan. Vocês sabem que a bela Shekure tem um marido, que nunca voltou da guerra — na mi­nha opinião, já faz um tempão que lhe furaram o couro, coitado. Pois bem, o soldado-marido que nunca voltou tem um irmão estourado e perdido de amor que se chama Hassan. Como eu dizia, vocês podem imaginar minha surpresa quando vi que a carta de Shekure não era para Hassan, mas para um outro. A velha Ester estava louca de curiosidade para saber o que estava escrito. Finalmente, consegui lê-la.

Nós ainda não nos conhecemos direito, vocês e eu, e, para dizer a ver­dade, de repente eu me sinto um pouco incomodada e confusa. Vocês nun­ca vão adivinhar como li a tal carta. Pode ser que vocês achem vergonhosa e desprezem a minha bisbilhotice — como se vocês também não fossem tão abelhudos quanto um barbeiro! Vou lhes contar apenas o que fiquei saben­do da leitura da carta. Eis o que a doce Shekure escreveu:

Negro Efêndi,

o senhor aproveita da sua intimidade com o meu pai para vir à minha ca­sa. Mas não creia que vá receber um só sinal de mim. Muitas coisas acon­teceram desde que foi embora. Casei-me e tenho dois filhos, fortes como leões. Um se chama Orhan, parece que vocês dois se encontraram, há pou­co. Faz quatro anos que espero a volta do meu marido, e quase não penso em outra coisa. É possível que, vendo-me sozinha com dois filhos e um pai idoso, indefesa e desvalida, eu sinta a necessidade de um homem for­te para nos proteger, mas ninguém creia que possa tirar qualquer proveito dessa situação. Assim, por favor, nunca mais bata na nossa porta. O se­nhor já me envergonhou uma vez, e que dificuldade eu tive então para me justificar diante do meu pai! Envio-lhe com esta o desenho que o se­nhor me enviou outrora, num momento de desvario, porque é verdade que o senhor era muito jovem naquela época. Isso para que o senhor não nu­tra nenhuma esperança e não tire conclusões errôneas. Quem acha que uma pessoa pode se apaixonar olhando uma imagem muito se engana. Portanto é melhor que o senhor nunca mais volte a esta casa.

A Coitadinha da minha Shekure jamais teria posto ao pé da página, co­mo um bei, um paxá ou os homens em geral, uma assinatura pretensiosa! Apenas pousou ali, como a patinha assustada de um passarinho, a primeira letra do seu nome.




Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   ...   45


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal