Meu nome é Vermelho



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Pedi desculpas aos meus irmãos pintores por toda aquela desordem, pre­textando que eles me pegavam de surpresa e que, se não podia lhes oferecer café nem cidra cristalizada era porque minha esposa já estava dormindo no quarto. Disse isso para que eles não invadissem o quarto e eu não precisasse fazer uma carnificina, depois que acabassem de procurar e não encontrar o que queriam no meio das telas, cordões e cintos de seda da Índia ou de mus­selina, dos algodões e dólmãs persas, nas cestas e baús que eles reviravam an­siosos, debaixo dos tapetes e das almofadas, entre as páginas iluminadas que eu preparara para vários livros e até dentro das páginas dos volumes já enca­dernados.

No entanto, devo dizer que até me diverti agindo como se estivesse mor­rendo de medo deles. A arte de um pintor depende da capacidade que este tem de considerar cuidadosamente cada aspecto da beleza do momento pre­sente, de observar os menores detalhes e, ao mesmo tempo, como quem re­cua para mirar-se num espelho, apartar-se deste mundo, que se leva tão a sé­rio, o suficiente para que possa haver entre si e ele o eloqüente distanciamento da ironia.

Continuei a responder às perguntas que me faziam. Sim, quando os acó­litos do hodja de Erzurum atacaram o café, ele estava cheio como quase to­das as noites; havia umas quarenta pessoas, entre as quais eu mesmo, Oliva, Nasir — o traçador de linhas —, o calígrafo Djamal, dois jovens aprendizes de pintor, uns aprendizes de copista mais moços ainda, que estão sempre com eles, e o mais lindo de todos, Rahmi; outros bonitos iniciantes do ate­liê, seis ou sete sujeitos pertencentes ao clã dos poetas, além de bêbados, viciados em haxixe, dervixes e outros espertinhos que, com alguma lábia, con­seguiram que o dono do café os deixasse juntar-se àquela freguesia alegre e espirituosa. Contei a confusão que se estabeleceu assim que a invasão come­çou: a assistência ali reunida para se divertir com aquelas obscenidades, co­meçou a sair em pânico, nem passou pela cabeça de ninguém montar uma defesa do estabelecimento e do coitado do contador de histórias, que estava disfarçado de mulher. Se eu lamentava aquela calamidade? Claro que sim! Eu, Mustafá, o Artista, também conhecido como Cegonha, que dediquei to­da a minha vida à pintura, sentia a necessidade de ir todas as noites me sen­tar com meus irmãos artistas para conversar, brincar, caçoar, elogiar, come­ter rimas e arriscar trocadilhos — foi o que eu confessei, olhando direto nos olhos desse idiota do Borboleta, com aquele seu ar de garoto gorducho, de olhos marejados, devorados pela inveja. Seus olhos, aliás, continuam boni­tos como borboletas e ele conserva aquele rostinho angelical, mas está ainda mais sensível do que na época em que éramos aprendizes.

Como eles continuavam a fazer perguntas, contei que dois dias depois de o contador de histórias, que sua alma encontre a paz no Paraíso, chegar à cidade e perambular por seus bairros até vir exibir sua arte no café dos pin­tores, um dos miniaturistas, talvez sob a influência do café, pregou na pare­de a imagem de um cachorro, para fazer graça. Ao vê-lo, o velho falastrão te­ve a brilhante idéia de fazer o cachorro falar. O sucesso foi enorme. Daí em diante, todas as noites ele pedia um desenho a um miniaturista e contava his­tórias picantes que lhe cochichavam no ouvido. Como as suas piadas sobre o pregador de Erzurum faziam rolar de rir os artistas, que viviam apavorados com as ameaças do hodja, e traziam um público cada vez maior ao café, seu dono, natural de Andrinopla, incentivava as apresentações.

Eles me perguntaram o que eu pensava daqueles desenhos que o con­tador de histórias pregava todas as noites na parede às suas costas, e que eles encontraram na sua incursão à casa vazia do nosso irmão Oliva. Respondi que não havia nada a explicar, que, assim como Oliva, o dono do café des­cendia de uma família de dervixes kalenderis, esses mendigos safados e la­drões. Contei que o simplório Elegante Efêndi, aterrorizado com as pregações do Hodja Efêndi, em particular com seus sermões incendiários das sex­tas-feiras, na certa os denunciou aos erzurumis. Ou, o que é ainda mais pro­vável, quando o Elegante exortou-os a parar com aquelas malfeitorias, o cafeteiro e Oliva, que têm idêntico temperamento, decidiram se livrar do desgraçado iluminador. Os erzurumis, já exaltados com a morte do Elegan­te e com o que ele deve ter lhes revelado sobre o livro do Tio, consideraram o Tio responsável pelo assassinato e mataram-no por sua vez. Depois ataca­ram o café para completar sua vingança.

Eu me perguntava a que ponto o rechonchudo Borboleta e o grave Ne­gro (que mais parecia um fantasma) ouviam o que eu lhes contava, ocupa­dos que estavam em revirar tudo, em levantar todas as tampas, em bisbilho­tar todas as minhas coisas. Quando deram com minhas botas, minha armadura e meu equipamento de guerra, dentro do baú de nogueira, vi os olhos de Borboleta brilharem de inveja em sua carinha de bebê, e declarei mais uma vez o que ninguém ignora: fui o primeiro ilustrador muçulmano a partir em campanha com o exército e a observar em pessoa os tiros de canhão, as tor­res das fortalezas inimigas, as cores das fardas dos soldados infiéis, os cadáve­res espalhados no campo de batalha, as cabeças cortadas empilhadas nas margens dos rios, as ordens de ataque e as cargas da cavalaria — e pintei tu­do o que vi em vários Livros das vitórias.

Quando Borboleta me pediu para lhe mostrar como se veste uma arma­dura, não me fiz de rogado: tirei meu colete, minha blusa preta forrada de pele de lebre, a camiseta, as calças e até a roupa de baixo. Satisfeito com o ar com que eles me observavam à luz da lareira, vesti a ceroula comprida, a grossa camiseta vermelha que se usa sob a armadura no frio, as meias de lã, as botas de couro amarelo e, por cima delas, as perneiras de pele de gamo. Tirei a couraça da sua capa, coloquei-a e me diverti um bocado ao virar as costas para Borboleta e pedir que ele amarrasse firme, como se fosse meu pa­jem, os laços da armadura e apertasse bem as ombreiras. Enfiei as cotoveleiras, as manoplas, o cinturão de pele de camelo e, por fim, o elmo todo lavra­do de ouro, que uso nas cerimônias. Disse-lhes então, com orgulho, que agora ninguém mais tinha o direito de pintar as armas tão mal quanto antigamen­te, e as cavalarias dos exércitos inimigos uma igualzinha à outra, usando o mesmo modelo, que era como que virado ao contrário na hora de represen­tar as forças do adversário. Doravante, falei, as cenas de batalha feitas nos ateliês otomanos têm de ser pintadas da maneira como eu vi e pintei: um tu­multo de exércitos, cavalos, guerreiros de armadura e corpos ensangüentados!

“Um pintor não pinta o que vê, mas o que Alá vê”, replicou Borboleta, morrendo de inveja.

“Sim, mas Alá, lá em cima, também vê as coisas que nós vemos”, objetei.

“Claro que Alá vê o que vemos, mas não vê do mesmo modo que nós”, insistiu Borboleta, como se me aplicasse um corretivo. “A batalha tumultuo­sa que nos dá uma impressão geral de confusão, ele a vê, em sua onisciên­cia, como dois exércitos em choque mas alinhados em ordem.”

Eu, é claro, tinha uma resposta prontinha, que teria soltado de muito bom grado: “Devemos confiar em Alá e pintar apenas o que ele nos revela, não o que ele nos oculta”, mas retive a minha língua. Não foi por causa das pancadas que ele não parava de dar com a folha da adaga na minha armadu­ra e no meu elmo, acusando-me de imitar os pintores do Ocidente, mas por­que calculei que era melhor eu conquistar o Negro e aquele bobalhão de lindos olhos, para enfrentar as maquinações de Oliva.

Quando finalmente compreenderam que não encontrariam aqui o que estavam procurando, contaram-me do que se tratava: de um desenho em que o inominável assassino dera sumiço. Disse-lhes que minha casa já tinha sido revistada com esse mesmo objetivo e que um assassino tão inteligente (eu pensava em Oliva) certamente teria posto essa prova num lugar seguro, mas será que eles me ouviam? O Negro falou no detalhe das narinas fendidas e afirmou que o prazo de três dias dado por Nosso Sultão a Mestre Osman es­tava se esgotando. Quando quis saber mais acerca do significado das narinas fendidas, o Negro me disse, olhos nos olhos, que, embora a conclusão de Mestre Osman fosse que os cavalos eram da autoria de Oliva, era de mim que ele desconfiava, sabedor que era das minhas ambições.

À primeira vista, eles vieram à minha casa pensando que era eu o assas­sino e na esperança de encontrar aqui a prova. Mas, na minha opinião, a ver­dadeira razão era outra. Eles bateram à minha porta para não ficarem sozi­nhos, sem saber o que fazer. Quando abri para Borboleta, a adaga tremia em sua mão. Não só eles estavam aterrorizados com a idéia de que o misterioso e ignóbil assassino podia ser um velho colega, capaz de lhes preparar uma armadilha e lhes cortar a goela sorrindo, em algum canto escuro, mas ha­viam perdido o sono por temerem que Mestre Osman conspirasse com o Jardineiro-Mor e o Tesoureiro-Mor para entregá-los aos torturadores — para não falar do bando do hodja de Erzurum, que ainda rondava as ruas, deixando-os ainda mais aflitos. Em outras palavras, ansiavam pela minha amizade. Mas Mestre Osman incutira neles a idéia oposta. Cabia a mim, agora, mostrar-lhes sinceramente quanto Mestre Osman estava equivocado, que, no fundo era o que eles mais desejavam.

Mas declarar pura e simplesmente que o Grande Mestre estava equivo­cado e já não batia bem, seria ganhar a inimizade de Borboleta. Dava para enxergar nos olhos úmidos do bonito iluminador, cujos cílios adejavam co­mo o inseto que lhe emprestava o apelido e que continuava batendo com sua adaga na minha couraça, a chama vacilante do seu amor ao Mestre, de quem ele foi o favorito. Quando éramos garotos, a proximidade dos dois, mes­tre e aprendiz, era invejosamente ridicularizada pelos demais; mas eles nem ligavam, eram capazes de ficar horas se olhando nos olhos e se afagando na frente de todo o mundo. Mais tarde, Mestre Osman declararia com grande falta de tato que Borboleta tinha a pena mais solta e a cor mais madura. Es­se juízo, que às vezes era bem verdadeiro, foi fonte de sarcasmos sem fim da parte de todos os outros miniaturistas, uns invejosos que gastaram suas pe­nas, pincéis, tinteiros e potes de tinta em alusões vulgares, comparações mal­vadas e metáforas indecentes. Por isso mesmo não sou o único, hoje, a pen­sar que Mestre Osman quer Borboleta como seu sucessor à frente do Grande Ateliê. Faz tempo que compreendi, pela maneira como ele fala com os ou­tros do meu caráter briguento, irascível e intransigente, o que o Grande Mes­tre tem na cabeça. Sem contar que ele também acredita, e não sem razão, que estou muito mais disposto a adotar os métodos europeus do que Oliva ou Borboleta e que eu não me oporia aos novos caprichos do Nosso Sultão a pretexto de que “os antigos mestres jamais pintariam assim”.

Quanto a este último ponto, sei que seria perfeitamente possível uma estreita colaboração com o Negro, porque nosso ansioso recém-casado faz questão de concluir o livro do seu Tio, não só para conquistar o coração da bela Shekure, mostrando-lhe que é capaz de tomar o lugar do seu falecido pai, mas principalmente para cair, o mais depressa possível, nas boas graças do Nosso Sultão.

Por isso abordei inesperadamente o assunto dizendo que o livro do seu Tio era um feliz milagre, sem igual no mundo. Quando essa obra-prima fosse completada, obedecendo às ordens do Nosso Sultão e ao desejo do faleci­do Tio Efêndi, o mundo inteiro se maravilharia com o poder e a riqueza do sultão otomano, e com o talento, a elegância e a habilidade de seus miniatu­ristas. Todos temeriam nossa força, nossa implacável severidade, mas tam­bém ficariam pasmos ao ver como soubemos nos apropriar das técnicas mi­nuciosas dos mestres europeus, das suas cores vivas, do seu detalhismo preciso, seja isso um motivo de regozijo ou de lágrimas. E acabariam se dando con­ta, aterrorizados, do que somente os soberanos mais inteligentes entende­ram: que nós estamos ao mesmo tempo no mundo que pintamos e bem lon­ge deste mundo, lá em cima, em companhia dos mestres de outrora.

Borboleta tinha ficado batendo em mim o tempo todo, primeiro como uma criança que quisesse descobrir se a armadura era de verdade ou não; depois como um amigo que quisesse testar a resistência dela; por fim como um adversário incorrigível e invejoso que quisesse me machucar. Na verda­de ele entendeu que sou mais talentoso do que ele; pior, ele provavelmente intuía que Mestre Osman também sabia disso. Aliás, essa sua inveja me dei­xava ainda mais orgulhoso, pois, com o talento que Alá lhe deu, Borboleta era um mestre sublime. Ao contrário dele, eu me tornei um mestre graças ao meu próprio pincel, e não afagando o de Mestre Osman, e sentia que is­so seria o bastante para fazê-lo aceitar minha superioridade.

Empolgando-me, deblaterei contra as pessoas que queriam sabotar a maravilhosa obra encomendada por Nosso Sultão ao falecido Tio. Mestre Osman era como um pai para nós; era superior a todos nós; aprendemos tu­do com ele. Mas depois de ter ele mesmo encontrado nos tesouros do Palá­cio a prova de que Oliva era o ignóbil assassino, agora ele tentava, por algum motivo obscuro, ocultar esse fato. Disse a eles que, se não estava em casa, Oliva certamente estava escondido no convento abandonado, perto da Porta do Farol. Esse convento de dervixes tinha sido fechado durante o reinado do avô do Nosso Sultão, não tanto por ser um antro de degradação e imoralida­de, mas por causa das intermináveis guerras com os safávidas; e acrescentei que houve uma época em que Oliva se gabava de ser o guardião desse con­vento proibido. Se eles não confiavam em mim e suspeitassem que minhas palavras ocultavam alguma tramóia, eles é que estavam com uma adaga e poderiam acertar as contas comigo lá, se quisessem.

Borboleta bateu-me mais duas vezes com sua adaga, com tanta força que a maioria das armaduras não teria agüentado. Depois virou-se para o Ne­gro, que acreditava no que eu contava, e pôs-se a vociferar. Aproximei-me por trás e, aplicando-lhe uma gravata com meu braço protegido pela arma­dura, puxei-o contra mim. Torcendo-lhe o braço direito com minha mão li­vre, desarmei-o. Na verdade, não estávamos nem propriamente brigando nem somente brincando. Contei-lhes uma cena muito parecida do Livro dos reis, mas que pouca gente conhece.

“Os exércitos do Irã e do Turã, com seus soldados couraçados e arma­dos até os dentes, se enfrentavam havia três dias ao pé do Monte Hamaran, quando os turanianos enviaram o astuto Shengil ao campo de batalha para que descobrisse quem era o misterioso iraniano que cada dia matava um dos seus melhores guerreiros”, comecei meu relato. “Shengil desafiou para um duelo o misterioso cavaleiro, que aceitou o desafio. Os exércitos do Irã e do Turã, com suas armaduras cintilando ao sol do meio-dia, alinhados face a fa­ce, observavam contendo a respiração. Viram os dois corcéis galoparem um em direção ao outro, a tal velocidade que o choque das couraças fez jorrar centelhas que chegaram a queimar o pêlo dos cavalos. A luta foi prolonga­da. O turaniano disparava flechas, o misterioso iraniano manejava a espada e conduzia sua montaria com destreza; por fim, este último, pegando Shengil por trás, derruba-o do cavalo, alcança-o quando ele tentava fugir e, caindo sobre ele com todo o peso da sua armadura, agarra-o pelo pescoço. Shengil dá-se por vencido, mas, curioso por saber quem era o desconhecido, faz sem muita esperança a pergunta que todos queriam formular havia dias: ‘Quem é você?’. Tara você’, responde o misterioso guerreiro, ‘meu nome é Morte.’ Digam-me, amigos, quem era ele?”

“O grande Rustam”, respondeu Borboleta, com um entusiasmo infantil.

Beijei-o no pescoço. “Todos nós traímos Mestre Osman. Agora, antes que ele nos castigue, temos de encontrar Oliva, livrar-nos desse veneno em nosso meio e nos unirmos para enfrentar os inimigos hereditários da pintura e os que gostariam de nos entregar aos torturadores. Quem sabe se, quando chegarmos ao convento abandonado onde Oliva se esconde, não descobrire­mos que o ignóbil assassino nem mesmo é um dos nossos.”

O pobre Borboleta nem piava. Com toda a sua arte, sua ambição e sua segurança, ele era, no fundo, como todos esses pintores que estão sempre buscando a companhia dos outros, a despeito dos seus ódios e ciúmes recíprocos, morrem de medo de duas coisas: ir para o Inferno e ficar sozinho neste mundo.

A caminho da Porta do Farol, víamos no céu uma estranha claridade amarelo-esverdeada que não vinha da Lua. Essa luz conferia aos grandes ci­prestes noturnos, às cúpulas, às muralhas, às casas de madeira e aos quartei­rões recentemente devastados pelo fogo, que formavam o formidável pano­rama de Istambul, o aspecto insólito de uma fortaleza inimiga. Chegando no alto da ladeira, avistamos um incêndio atrás da mesquita de Bajazet.

Topamos, naquela escuridão de breu, com um carro de boi transportan­do sacos de farinha que ia na direção das muralhas e que por duas moedas de prata nos levou. O Negro sentou-se, segurando cuidadosamente os dese­nhos. Eu me deitei para admirar os reflexos do incêndio nas nuvens baixas, e mal o fiz a primeira gota de chuva caiu no meu elmo.

Após um longo trajeto, nossa chegada nas proximidades do mosteiro foi anunciada pelos latidos frenéticos dos cachorros que devemos ter acordado — era meia-noite e o todo o bairro estava deserto. Alguns lampiões se acen­deram em umas poucas casas respondendo a nossas batidas, mas só a quarta porta em que batemos se abriu. Um homem de gorro de dormir na cabeça examinou-nos à luz do seu lampião como se fôssemos almas penadas e, sem se arriscar a sair no aguaceiro, indicou-nos o convento abandonado, acres­centando com um ar maroto que devíamos tomar cuidado com os djins, os fantasmas e os demônios.

Fomos recebidos pelos altos e impassíveis ciprestes, indiferentes à chu­va e ao forte cheiro de folhas podres que pairava no ar. Espiando pela fresta entre as tábuas da parede do mosteiro, depois pela fresta de uma espécie de janela, pude perceber a sombra assustadora de alguém rezando à luz de uma vela — ou que, sabendo-nos ali, fingia rezar.

57. Chamam-me Oliva

Era mais conveniente interromper minha prece noturna e levantar-me para abrir a porta ou deixá-los esperar na chuva até terminá-la? Quando me dei conta de que eles me observavam, completei minhas preces meio distraí­do. Depois fui abrir a porta e, ao vê-los — Borboleta, Cegonha e o Negro —, soltei um grito de alegria e abracei Borboleta efusivamente.

“Ah, quanta desgraça tivemos de suportar ultimamente!”, lamentei-me deitando minha cabeça no seu ombro. “O que eles querem de nós? Por que estão nos matando?”

Todos os três denotavam o pânico de se verem separados do seu reba­nho, que tantas vezes eu vira manifestar-se nos pintores, ao longo da minha vida. Mesmo aqui, no convento, eles continuavam grudados uns nos outros.

“Não tenham medo”, disse a eles. “Podemos nos esconder aqui por vá­rios dias.”

“Nosso medo é que a única pessoa que devemos temer possa estar jus­tamente entre nós”, respondeu o Negro.

“Eu também tenho medo disso”, repliquei. “Porque também chegaram aos meus ouvidos o que corre por aí...”

O que corria era o boato, proveniente da guarda do Jardineiro-Mor e que chegara ao meio dos pintores, de que já se sabia quem era o assassino do Ele­gante Efêndi e do Tio Efêndi: era um dos miniaturistas contratados por este último para ilustrar o tal livro.

O Negro quis saber quantas miniaturas eu tinha feito para o livro.

“A primeira que pintei foi o Diabo. Eu o fiz conforme a antiga tradição das criaturas subterrâneas de aparência diabólica, comuns na produção dos ateliês da grande época turcomana do Carneiro Branco. O satirista e eu éra­mos do mesmo caminho sufista, foi por isso que fiz para ele o desenho dos dois dervixes errantes. Depois convenci seu Tio a incluí-lo no livro, argumen­tando que eles têm uma posição especial na paisagem dos territórios otomanos.”

“Só isso?”, perguntou o Negro.

Quando respondi, “Sim, só isso”, ele se dirigiu para a porta com o olhar severo, mas contente de si, de um mestre que acaba de pegar um dos seus aprendizes com a mão na massa. Tirou fora ali mesmo, olhando para mim, um rolo de folhas de desenho, intacto apesar da chuva, e desenrolou-o dian­te de nós três, como uma gata ao trazer um passarinho ferido para seus três filhotes.

Reconheci-os imediatamente: os desenhos do café, que consegui salvar do ataque dos homens do hodja. Nem me dei ao trabalho de perguntar co­mo aqueles três tinham entrado na minha casa para pegá-los. No entanto, Borboleta, Cegonha e eu confessamos placidamente os desenhos que tínha­mos feito para o satirista, de sorte que, no fim, só restou o cavalo, o belo ca­valo solitário, de cabeça baixa em seu canto. Podem acreditar, eu nem tinha idéia de que alguém havia desenhado um cavalo.

“Não foi você que pintou este cavalo?”, indagou o Negro com o tom do professor que brande a sua vareta.

“Não fui eu”, confirmei.

“E o que está no livro do meu Tio?”

“Também não.”

“Mas, pelo estilo do cavalo, ficou provado que foi você que o desenhou. Quem afirma isso é Mestre Osman”, esclareceu o Negro.

“Mas eu não tenho nenhum estilo!”, protestei. “E não digo isso por des­prezo à moda atual, nem para provar minha inocência. Para mim, ter um es­tilo próprio é pior do que ser um assassino.”

“Você tem uma peculiaridade que o distingue tanto dos mestres de ou­trora como dos de hoje”, retrucou o Negro.

Sorri para ele. Ele começou a relatar os acontecimentos que, tenho cer­teza, vocês todos já conhecem a esta altura. Ouvi-o com toda a atenção con­tar que o Nosso Sultão, junto com o Tesoureiro-Mor, procurava ativamente um meio de pôr fim a todos esses crimes, falar dos três dias concedidos a Mes­tre Osman, do método da aia, da singularidade das narinas dos cavalos e, principalmente, do extraordinário privilégio que o Negro obteve de consul­tar os inacessíveis livros do Tesouro imperial, no coração do Enderun. Há momentos na vida de todos nós em que percebemos estar vivendo uma ex­periência que nunca mais poderemos esquecer. A chuva caía, melancolica­mente. Como se afetado por ela, Borboleta empunhava sua adaga com um ar lúgubre. Cegonha, que envergava uma armadura cujas costas estavam brancas de farinha, explorava corajosamente com seu lampião o interior do convento dos dervixes. Observando as sombras daqueles três artistas, meus ir­mãos, desfilarem lentamente pelas paredes como fantasmas, senti-me toma­do de afeto por eles. Que felicidade também ser pintor!

“Soube aproveitar sua sorte, de poder contemplar todos esses dias as ma­ravilhas dos antigos mestres, ao lado de Mestre Osman?”, perguntei ao Ne­gro. “Ele te beijou? Acariciou seu lindo rosto? Pegou na sua mão? Você fi­cou impressionado com o talento e o saber dele?”

“Mestre Osman me mostrou, a partir das maravilhosas imagens dos an­tigos mestres, que você possui um estilo”, ele me respondeu. “Explicou-me que esse defeito oculto, o estilo, não aparece num artista porque ele assim deseja, mas é determinado por seu passado e por suas lembranças mais re­cônditas. Também me ensinou que esses pequenos deslizes, fraquezas e de­feitos, que em seu tempo eram fonte de tanto vexame e desprezo, a ponto de seus autores os ocultarem para não serem rejeitados pelos antigos mestres, vão reaparecer doravante e ser elogiados como característica pessoal ou esti­lo, devido à influência maciça e universal dos pintores europeus. Doravante, por obra de todos os cretinos, preocupados em ostentar orgulhosamente suas inépcias e insuficiências, o mundo será mais colorido, idiota e, claro, muito mais imperfeito.”

O fato de que o Negro acreditava piamente no que dizia provava que ele próprio fazia parte desses cretinos.

“Mestre Osman foi capaz de explicar por que, todos esses anos, dese­nhei cavalos com narinas perfeitamente normais?”

“Por causa do amor que ele lhes dedicou e das sovas que deu em vocês todos na infância. É absurdo, mas é assim. Como, ao mesmo tempo, ele foi um pai e teve uma atração amorosa por vocês, para ele todos vocês estão li­gados a ele e são todos iguais. Ele não desejava que cada um desenvolvesse seu próprio estilo, mas contribuísse para criar o estilo do seu ateliê. E essa sua sombra, ao mesmo tempo tutelar e ameaçadora, fez vocês sufocarem o que traziam dentro de vocês, as imperfeições, os elementos e as diferenças que se afastam das formas-padrão. Só quando você pintou para outros livros, que os olhos de Mestre Osman jamais veriam, é que você desenhou o cava­lo que trazia esquecido no seu íntimo esses anos todos.”




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