Meu nome é Vermelho



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“Minha falecida mãe, descanse em paz, era muito mais esperta do que meu falecido pai, que Alá o tenha”, comecei a responder. “Um dia, voltei pa­ra casa em prantos, firmemente decidido a nunca mais pôr os pés no ateliê, não só por causa da severidade de Mestre Osman, mas principalmente dos outros mestres, irritadiços, duros, e do chefe de seção que tomava conta da nossa turma e vivia nos batendo com a régua. Para me consolar, minha fale­cida mãe explicou-me que há no mundo duas categorias de pessoas: aquelas a que as correções recebidas na infância oprimem e impedem que desabrochem, porque as sovas conseguiram matar o Demônio que levavam dentro de si; e as outras, mais felizardas, cujo Demônio permanece vivo, apesar das surras. Embora nunca esqueçam as más lembranças associadas a essa educa­ção, estes últimos acabam — minha mãe me disse para não contar este se­gredo a ninguém — aprendendo com esse Demônio a manejar a astúcia, a descobrir as coisas ocultas, a fazer amigos, identificar os inimigos, prever as maquinações urdidas em segredo contra eles e, permitam-me acrescentar, a pintar melhor do que ninguém. Quando eu não conseguia desenhar harmo­niosamente os galhos de uma árvore, Mestre Osman me esbofeteava com tanta força que eu via surgir diante de mim, através das minhas lágrimas, to­da uma floresta. E quando eu não conseguia notar logo, ao pé de uma pági­na, um defeito minúsculo, ele me dava um cascudo furioso, depois pegava amorosamente um espelho e colocava-o acima da página para que eu enxer­gasse o trabalho como se pela primeira vez. Então, colando seu rosto frio ao meu, mostrava com todo carinho os erros que apareciam magicamente na imagem invertida da ilustração, para que eu nunca mais esquecesse nem es­se seu amor, nem a exigência de perfeição. Lembro-me que uma manhã, bem cedinho, em que eu chorava de raiva na cama porque, na véspera, ele tinha me humilhado diante de todo o mundo com uma forte reguada no bra­ço, ele veio me dar um beijo tão terno, tão apaixonado, que tive o pressenti­mento exaltante de que um dia eu também seria um pintor lendário. Mas não fui eu quem pintou aquele cavalo.”

“Nós”, disse o Negro, referindo-se a Cegonha e a ele próprio, “vamos revistar a casa dos dervixes em busca da última miniatura, que foi roubada pelo maldito homem que assassinou meu Tio. Você por acaso a viu?”

“Sim. E uma coisa... uma coisa inaceitável, seja para Nosso Sultão, seja para os pintores que, como nós, são apegados à velha tradição, seja para quem quer que professe a nossa religião”, respondi e me calei.

Minhas últimas palavras aguçaram a impaciência deles. O Negro e Ce­gonha puseram-se a vasculhar os menores recantos do convento. Várias ve­zes juntei-me aos dois, apenas para facilitar o trabalho. Numa das celas dos dervixes, apontei-lhes um buraco no chão apodrecido pelas goteiras do teto, para que não caíssem dentro. Dei-lhes também a chave da minúscula cela em que o superior do convento vivera trinta anos, antes da dispersão dos der­vixes, que cometeram o erro de aderir à revolta dos bektashis. Entraram no quartinho ansiosamente, mas, ao verem que toda uma parede tinha ruído, expondo o lugar à chuva inclemente, desistiram de revistá-lo.

Eu estava contente por Borboleta não acompanhá-los em suas buscas mas, ao mesmo tempo, convicto de que ele ficaria do lado deles caso fizes­sem alguma descoberta que me comprometesse. O que na verdade aproxi­mava Cegonha do Negro era apenas o medo comum que tinham de sermos abandonados por Mestre Osman e entregues aos torturadores, assim como a necessidade, sustentada pelo Negro, de nos mantermos unidos para poder­mos enfrentar o Tesoureiro-Mor. Aliás, eu estava convencido de que o Ne­gro não estava somente movido pela idéia de dar um belo presente de casa­mento a Shekure, descobrindo o assassino do seu pai, mas também pela pretensão de influenciar na evolução da pintura otomana, aproximando-a da européia — e até de empregar as somas concedidas por Nosso Sultão pa­ra terminar a obra iniciada por seu Tio em imitações puras e simples da pin­tura italiana (coisa que, além de sacrílega, é do maior ridículo). Quanto a Cegonha, eu também entendia muito bem seu fogo, pois todas as suas ma­nobras na verdade tinham unicamente em vista realizar seu sonho de ser o Grande Iluminador, para o que estava disposto a livrar-se de nós e até mes­mo de Mestre Osman — que, como todos sabiam, tencionava fazer de Bor­boleta seu sucessor à frente do ateliê.

Isso tudo me deixava momentaneamente confuso. Meditei demorada­mente, ouvindo a chuva cair. Depois, como um homem que abre caminho na multidão para entregar um pedido em mãos próprias a seu soberano ou ao grão-vizir, que vê passar a cavalo, tive a brusca inspiração de conquistar a confiança do Negro e de Cegonha. Conduzi-os por um corredor escuro até uma larga porta, a entrada da antiga cozinha. Perguntei-lhes se conseguiam encontrar alguma coisa no meio daquelas ruínas sinistras. Claro que não. Não havia nem vestígio dos foles, caldeirões e panelas usadas outrora para preparar a comida gratuita para os indigentes. Nunca me dera ao trabalho de arrumar aquele medonho Cafarnaum, coberto de teias de aranha, poeira, lama, detritos e excrementos de gatos e cachorros. Um vento vindo sabe lá de onde turbilhonava em rajadas, fazendo tremer a chama do lampião, que projetava na parede nossas sombras, ora claras, ora escurecidas.

“Vocês procuram, procuram, mas não encontram, meu tesouro”, disse a eles.

Como de costume, varri com o dorso da mão as cinzas acumuladas so­bre uma estufa apagada havia trinta anos e abri sua tampa de ferro, provo­cando um rangido sinistro. Aproximei o lampião da boca do forno. Tão ce­do não vou esquecer a maneira como Cegonha, antes que o Negro pudesse sequer dar um passo, agarrou avidamente os sacos de couro. Ia abri-los ali mesmo, ao lado da estufa, mas ao ver que o Negro, que parecia ter medo de ficar naquela cozinha, e eu mesmo voltávamos para o salão, tratou de nos al­cançar, correndo com suas pernas compridas e magras.

Mostrou-se desapontado ao encontrar, no fundo do saco, apenas um par de meias limpas, minha calça, minha cueca vermelha, minha melhor cami­seta, uma camisa de seda, uma navalha, um pente e outras bobagens. Do ou­tro saco, mais pesado, o Negro pôde tirar, uma a uma, cinqüenta e três moe­das venezianas de ouro, amostras de folhas de ouro que, ao longo dos anos, eu surrupiara do ateliê, meu caderno de modelos, que eu não mostrava a ninguém e entre cujas páginas tinha escondido mais algumas folhas de ouro, algumas miniaturas obscenas, umas de minha autoria, outras recolhidas aqui e ali, um anel de granada, lembrança da minha querida mãe, com uma mecha dos seus cabelos brancos, e meus melhores cálamos e pincéis.

“Fosse eu o assassino, como vocês desconfiam”, falei com um orgulho idiota, “é a miniatura que procuram que você teria encontrado aí, em vez de todas essas coisas.”

“E por que essas coisas estão aqui?”, perguntou Cegonha.

“Quando os homens do Jardineiro-Mor revistaram a minha casa, como vocês também fizeram, embolsaram duas dessas moedas de ouro que levei a vida ganhando uma a uma. Imaginei que eles na certa voltariam, por causa desse maldito assassino, e tinha razão. Quanto à última miniatura, se eu a ti­vesse, ela estaria aqui.”

Foi um erro pronunciar esta última frase, mas senti que, apesar disso, eles se mostravam aliviados, que já não morriam de medo de que eu os de­golasse num canto escuro do convento. E quanto a vocês, também ganhei a sua confiança?

No entanto, senti-me invadido naquele instante por uma severa inquie­tação. Não, não era porque meus colegas miniaturistas, com quem convivia desde a infância, tinham descoberto que eu passara a vida acumulando di­nheiro, juntando ouro, nem porque ficaram sabendo dos meus cadernos de esboços e da minha coleção de desenhos obscenos. Aliás, eu já lamentava ter lhes mostrado todas essas coisas, cedendo ao pânico. Mas sim porque só alguém que já não espera mais nada da vida podia expor assim tão facilmen­te, diante de todo o mundo, seus mais íntimos segredos.

“Em todo caso”, ponderou o Negro bem mais tarde, “temos de chegar a um consenso sobre o que vamos dizer sob tortura, caso Mestre Osman de­cida nos entregar, sem nos prevenir, ao Jardineiro-Mor.”

Houve um momento de indecisão e desânimo. A luz pálida do lampião, Cegonha e Borboleta espiavam meu caderno de desenhos eróticos. Pareciam totalmente indiferentes; na verdade, é horrível dizer, até pareciam conten­tes. Tomado por um desejo irresistível de ver que imagem eles olhavam (eu imaginava muito bem qual era), levantei-me e, postando-me atrás deles, sen­ti um arrepio ao contemplar a imagem obscena que eu pintara, como se me voltasse à memória uma lembrança feliz e remota. O Negro juntou-se a nós. Não sei por que, mas o fato de estarmos os quatro olhando para aquela ilus­tração me proporcionou uma grande paz interior.

“Podem o cego e o que vê serem iguais?”, recitou Cegonha após um lon­go silêncio. Será que ele aludia, a despeito do caráter obsceno da imagem, à nobreza do deleite visual que Alá nos concedeu? O que Cegonha podia en­tender dessas coisas, se nunca lia o Corão? Eu sabia que esse era um dos ver­sículos que os antigos mestres de Herat mais citavam, em particular para res­ponder às imprecações dos detratores da pintura, que pretendem que ela seja contrária à nossa fé e que os pintores irão todos para o Inferno no Dia do Juí­zo Final. No entanto, antes desse dia mágico eu nunca tinha ouvido Borbo­leta falar da maneira como fez então, como se as palavras saíssem por si sós da sua boca:

“Eu gostaria de fazer uma pintura que mostrasse que o cego e o que vê não são iguais.”

“Quem é o cego e quem é o vidente?”, indagou o Negro ingenuamente.

“O cego e o que vê não são iguais, é isso o que quer dizer wa ma yasta-wi-l’ama wa-l basirun”, disse Borboleta e continuou:

... nem a escuridão e a luz.

A sombra e o calor não são iguais,



nem os vivos e os mortos.

Senti um calafrio, ao pensar no fim do Elegante Efêndi, do Tio e do contador de histórias assassinado naquela mesma noite. Os outros teriam tan­to medo quanto eu? Em todo caso, todos permaneceram imóveis por um bom momento. Cegonha ainda tinha aberto nas mãos o meu caderno de de­senhos, mas não parecia ver a imagem obscena que eu pintara e para a qual continuávamos olhando.

“Pensei um dia pintar o Juízo Final”, disse ele por fim, “com a ressur­reição dos mortos e a separação dos culpados e dos inocentes. Por que não podemos pintar nosso Sagrado Corão?”

Na nossa juventude, quando trabalhávamos na sala comum do Grande Ateliê, de vez em quando levantávamos a cabeça debruçada em nossas me­sas e escrivaninhas, como faziam os mestres idosos para descansar a vista, e começávamos a conversar sobre o que nos passasse pela mente. Então, como fazíamos agora, enquanto continuávamos a folhear meu caderno, não olhávamos um para o outro ao conversar, nossos olhos se voltavam para um ponto distante além da janela aberta. Não sei se era por causa da emoção provocada pela lembrança dos dias felizes do meu aprendizado, ou do since­ro arrependimento por ter ficado tantos anos sem ler o Corão, ou do horrí­vel assassinato do satirista cometido esta noite no café dos artistas, mas o fato é que, quando chegou minha vez de falar, perturbei-me, meu coração dispa­rou como se tomado pelo medo e, como nada mais me passasse pela cabeça naquele instante, disse simplesmente o seguinte:

“Vocês se lembram dos últimos versículos da surata A vaca? São os que eu mais ansiei pintar: ‘Senhor, não nos julgueis pelo que esquecemos e por nossos erros. Senhor, não nos carregueis com um fardo que não possamos suportar, como fizestes com aqueles que se foram antes de nós. Perdoai e ab­solvei nossas transgressões e pecados! Tratai-nos misericordiosamente, Se­nhor amado’. Minha voz se quebrou e minhas lágrimas, que jorraram ines­peradas, deixaram-me embaraçado, talvez porque eu temesse as zombarias a que, jovens aprendizes, sempre recorríamos para nos proteger e dissimular nossa sensibilidade.”

Eu acreditava que minhas lágrimas iam cessar, mas não pude me con­ter e comecei a soluçar convulsivamente. Sentia ao mesmo tempo que um sentimento de fraternidade, de tristeza e de desespero também se apoderava deles. Doravante, no ateliê do Nosso Sultão, os artistas pintariam ao estilo dos pintores europeus, enquanto o estilo antigo e aqueles livros a que havía­mos dedicado nossas vidas inteiras cairiam pouco a pouco no esquecimento. Sim, todo aquele mundo acabaria, e se os erzurumis não nos esganassem e não dessem cabo de nós, os torturadores do Sultão cuidariam disso. Eu cho­rava, soluçava, suspirava — sem no entanto parar de prestar atenção no me­lancólico tamborilar da chuva lá fora —, mas uma parte da minha consciên­cia sentia que na verdade não era esse o verdadeiro motivo das minhas lágrimas. Até que ponto os outros se davam conta disso? Senti-me vagamen­te culpado por elas, que eram ao mesmo tempo sinceras e falsas.

Borboleta veio para junto de mim e, pondo a mão no meu ombro, co­meçou a acariciar meus cabelos, a me beijar no rosto, a me dizer coisas deli­cadas. Essas demonstrações de ternura só aumentaram minhas lágrimas e meu sentimento de culpa. Não conseguia ver o rosto dele, mas pensei, equi­vocadamente, que também chorava. Sentamo-nos.

Evocamos o ano da nossa entrada no ateliê — tínhamos a mesma idade — e a dor que sentimos então por termos sido separados de nossas mães pa­ra começar de repente uma vida nova. As sovas que levamos logo no primei­ro dia, a alegria dos primeiros presentes oferecidos pelo Tesoureiro-Mor e os dias de folga, quando voltávamos correndo para casa. No início, ele é que fa­lava, eu ouvia entristecido, mas depois, quando Cegonha e o Negro — que havia freqüentado brevemente o ateliê na mesma época, como aprendiz — se juntaram a nós, também pus-me a falar e a rir com eles despreocupada­mente, esquecendo-me das minhas lágrimas recentes.

Lembramos as manhãs de inverno, quando levantávamos antes de o dia nascer, acendíamos a estufa da sala principal e lavávamos o chão com água quente. Lembramos o velho “mestre”, descanse em paz, tão cuidadoso e sem inspiração que só conseguia desenhar uma só folha de uma só árvore duran­te todo um dia de trabalho e que, quando nos pegava admirando pela janela aberta as tenras folhas verdes trazidas pela primavera, em vez de concentra­dos na folha que ele tinha desenhado, ralhava conosco pela enésima vez, mas sem nunca nos bater: “Não, lá fora não, aqui dentro, nesta página!”. Lembramos o berreiro, que podia ser ouvido em todo o ateliê, daquele apren­diz magricela que mandavam de volta para sua família com todas as suas coi­sas, porque de tanto trabalhar envesgara de um olho. Rememoramos depois com que prazer (afinal, não foi por culpa nossa) vimos aquela tinta verme­lha derramar-se de um tinteiro quebrado sobre uma página na qual três pin­tores haviam trabalhado seis meses seguidos (o tema era a travessia do rio Kinik por nosso exército a caminho de Shirvan, depois de ter superado o risco iminente da fome ocupando a cidade de Eresh, para se aprovisionar). Com todo o pudor e o respeito devidos, evocamos também nossos amores com a mesma circassiana, pela qual nós três nos apaixonamos e com a qual nós três fizemos amor — ela era a mais bonita das esposas de um paxá septuagenário que havia requisitado nossos préstimos para ornamentar os tetos da sua casa, com imagens da sua opulência, das suas conquistas e das suas façanhas, imi­tando as pinturas do pavilhão de caça do Nosso Sultão. Recordamos por fim, com saudade, a gostosa sopa de lentilha que tomávamos nas manhãs de in­verno na soleira da porta, para evitar que seu vapor amolecesse os papéis. E a tristeza que sentíamos ao ter de nos separar dos nossos colegas e dos nossos mestres, quando o Grande Mestre nos obrigava a viajar para completar nos­sa formação. Por um breve instante, a deliciosa imagem do meu querido Bor­boleta aos dezesseis anos de idade apareceu diante dos meus olhos: ele alisa­va uma folha com um gesto vivo, com uma concha macia, enquanto o sol — era um dia de verão — caía através de uma janela em seu braço nu, cor de mel; de repente, ele suspende seu gesto mecânico para examinar, aproxi­mando os olhos da folha, um defeito na granulação do papel; passa a concha algumas vezes no defeito em diferentes sentidos, depois volta ao sentido an­terior, a mão num vaivém, olhando além da janela, ao longe, entregue a seus devaneios. Nunca vou esquecer aquele olhar, tão breve, que ele pousou en­tão em mim, mergulhando em meus olhos antes de sair novamente voando pela janela, como eu próprio, depois, pousei o meu em tantos outros. Aque­le olhar doloroso queria dizer uma só coisa, que todos os aprendizes sabem: o tempo não passa, se você não sonha.

58. Serei chamado Assassino

Vocês já tinham se esquecido de mim, não é? Mas não posso mais es­conder de vocês a minha presença. Porque falar com esta voz, que foi grada­tivamente adquirindo uma força cada vez maior, tornou-se algo irresistível para mim. Às vezes consigo me refrear, à custa de um enorme esforço, e te­mo que essa tensão na minha voz acabe me denunciando. Às vezes, desembesto completamente, e é aí que aquelas palavras que são indícios do meu segundo caráter, e que vocês hão de reconhecer, escapam da minha boca. Minhas mãos se põem a tremer, bagas de suor escorrem pela minha testa e eu percebo no mesmo instante que esses pequenos sussurros do meu corpo irão, por sua vez, fornecer novas pistas.

E no entanto estou tão satisfeito aqui! Enquanto nos consolamos uns aos outros com vinte e cinco anos de recordações, esquecemos as inimiza­des e lembramos apenas as belezas e os prazeres da pintura. Mas estarmos sentados aqui, com essa sensação de que é iminente o fim do mundo, acariciando-nos com os olhos rasos d’água enquanto rememoramos o encanto dos tempos que se foram, tem algo que faz lembrar as mulheres de um harém.

Tomo essa última comparação emprestada de Abu Said, de Kirman, que incluiu as histórias dos antigos mestres de Shiraz e Herat na sua História dos filhos de Tamerlão. Um século e meio atrás, depois de desbaratar os peque­nos exércitos e devastar as terras dos cãs e xás timúridas que disputavam o le­gado de Tamerlão, Djahan Xá, soberano dos Carneiros Negros, marchou pa­ra o leste, sobre Khurasan, com suas vitoriosas hordas turcomanas; em seguida, derrotou Ibrahim, neto do xá Ruh, filho de Tamerlão, na batalha de Astarabad e tomou a cidade de Gurgan, rumando então para Herat e sua cidadela. Segundo a crônica de Abu Said, esse golpe desferido no até então invencí­vel poder da dinastia que reinara sobre metade do mundo, do Hindustão a Bizâncio, durante meio século, desencadeou tal tempestade de pânico e des­truição que se instalou o caos entre os homens e mulheres da cidadela sitia­da de Herat. O historiador de Kirman lembra ao leitor, com um prazer per­verso, como Djahan Xá liquidou implacavelmente todos os descendentes de Tamerlão que encontrou na fortaleza conquistada; como escolheu nos ha­réns, entre as esposas desses xás e príncipes, aquelas que iriam para o seu pró­prio serralho; e como sem dó nem piedade separou os pintores uns dos ou­tros, infligindo à maioria deles a cruel humilhação de servir de aprendizes aos mestres iluminadores do seu ateliê. Nessa altura da sua História, Abu Said desvia bruscamente sua atenção do xá e de seus guerreiros, que retira­dos nas torres ameadas da fortaleza tentavam rechaçar o inimigo, para des­crever a angústia dos miniaturistas que, em meio aos seus cálamos e às suas tintas, aguardavam no Grande Ateliê o terrível desfecho do cerco de Herat, que se adivinhava havia muito tempo qual seria. O historiador cita, um a um, o nome de todos aqueles artistas, que ele dizia conhecidos do mundo inteiro e que jamais seriam esquecidos, e daqueles pintores, todos eles esquecidos desde então, dos quais escreve que eram como as mulheres do harém do xá: beijavam-se aos prantos, incapazes de fazer qualquer outra coisa além de re­cordar os dias felizes de outrora.

Nós também, como melancólicas mulheres de harém, evocávamos os cafetãs forrados de pele e as bolsas cheias de ouro com que o Sultão, que des­de havia muito estava mais sinceramente apaixonado por nós do que por suas concubinas, nos presenteava em recompensa pelos mimos que lhe oferecía­mos por ocasião das festas — caixas, espelhos e pratos decorados com cores vivas, ovos de avestruz ornamentados, colagens, estampas únicas, álbuns di­vertidos, cartas de jogar e, principalmente, livros. Mas onde estavam os ve­lhos pintores daqueles tempos, acostumados ao trabalho duro e penoso, que se contentavam com tão pouco? Os que iam todo o dia sem falta ao ateliê, em vez de se trancar em casa para esconder mesquinhamente seus métodos dos outros ou com medo de que descobrissem que faziam trabalhos extras. Onde estavam os velhos pintores, que passavam humildemente a vida toda pintando os complicados ornatos das muralhas dos palácios, as folhas de ci­prestes cuja singularidade só se descobria depois de um cuidadoso exame, o capim de sete folhas das estepes, usado para preencher os espaços vazios? Onde os pintores desprovidos de inspiração que reconheciam sem inveja a sabedoria e a justiça do propósito de Alá ao conferir a uns talento e destreza, enquanto reservava a eles paciência e piedosa resignação? Recordamos esses mestres paternos, muitos deles Corcundas e sempre sorridentes, outros so­nhadores e bêbados, outros ainda sempre prontos a engabelar uma solteiro­na. E, à medida que recordávamos, tentávamos reviver os detalhes esqueci­dos do ateliê, tal como ele era nos tempos do nosso aprendizado e em nossos primeiros anos como mestres pintores.

Lembram-se do traçador de linhas zarolho que punha a língua na bo­checha esquerda quando traçava para a direita, e na direita quando traçava para a esquerda; daquele artista miúdo e magro, que ria sozinho, cantarolan­do e murmurando “paciência, paciência, paciência” quando pingava a tinta; do dourador septuagenário que passava horas e horas conversando no andar de baixo com os aprendizes de encadernador e garantia que um pouco de tinta vermelha na testa detinha o envelhecimento; do mestre de iluminura que abordava todo o mundo, especialmente os novatos, para experimentar nas unhas deles a consistência das suas cores, já que todas as suas estavam cobertas de tinta; e daquele gordo que nos fazia gargalhar acariciando sua barba com os pêlos do pé de coelho usado para juntar os restos de pó de ou­ro usados na douradura? Onde estavam todos eles?

Onde estavam as tábuas de alisar papel, que acabavam fazendo parte do corpo dos aprendizes tanto eles as usavam mas que, quando ficavam gastas, eram descartadas, e a comprida tesoura de cortar papel que os aprendizes es­tragavam brincando de lutar espada? Onde as pranchetas identificadas com o nome dos mestres antigos, para que não fossem confundidas, o aroma do nanquim e o discreto matraquear das cafeteiras fervendo no silêncio? Onde os diversos pincéis que fazíamos com os pêlos da nuca ou a penugem inter­na das orelhas dos gatinhos que todo verão nossa gata malhada paria, e os grandes maços de papel indiano que nos davam quando estávamos desocu­pados para praticarmos nossa arte, tal como os calígrafos que treinam a mão nos rascunhos? Onde o horrível raspador de cabo de ferro, terror de todo o ateliê, cujo uso requeria a permissão expressa do Grande Mestre e era reser­vado para raspar os erros mais grosseiros? E o que era dos rituais de expiação desses erros?

Também concordamos em que Nosso Sultão não deveria permitir que os pintores trabalhassem em casa. Lembramo-nos da deliciosa halvah que nos chegava quentinha da cozinha do palácio ao cair das noites de inverno, para nos recompensar por termos trabalhado duro à luz das velas e dos lam­piões. Rindo, com lágrimas nos olhos, lembramo-nos do mestre de douradu­ra, um velho caquético que não podia mais segurar pincel nem papel por causa da sua tremedeira crônica, mas que nas suas visitas mensais ao ateliê sempre levava uns bolinhos fritos banhando em calda grossa de açúcar, que sua filha preparava para nós, seus aprendizes. Falamos das maravilhosas pá­ginas pintadas por Memi, o Negro, o Grande Mestre que antecedeu Mestre Osman, encontradas em seu quarto, dias depois do seu enterro, num álbum sob o edredom que ele estendia para a sua sesta da tarde.




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