Meu nome é Vermelho



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Enumeramos algumas das nossas obras preferidas, de que gostaríamos de possuir uma cópia para contemplá-las sempre que desejássemos, com or­gulho e prazer, como fazia Memi, o Negro. Alguém falou daquela página do Livro dos talentos em que os céus, iluminados com tinta dourada, prefigura­vam tão bem o fim do mundo, não por causa do próprio dourado, mas por sua maneira de se espalhar uniformemente nas torres, nos ciprestes, nas cúpulas da paisagem.

Outro falou daquela imagem em que nosso Louvado Profeta, atordoa­do ao ser erguido do topo de um minarete por dois anjos que o elevavam ao céu, sentia cócegas, porque eles o seguravam pelas axilas; uma imagem com cores tão graves, que até as crianças, ao verem essa cena sagrada, primeiro tremiam com piedosa devoção e só depois riam respeitosamente, como se elas próprias estivessem sentindo cócegas. Quanto a mim, evoquei uma pá­gina dedicada ao castigo de um bando de rebeldes escorraçados do seu antro nas montanhas pelo grão-vizir, à qual eu tinha sabido dar uma aura de pavor e mistério graças àquela ornamentação nas bordas da página, em que eu co­loquei, respeitosa e cuidadosamente, todas as cabeças cortadas, pintando uma a uma com seus detalhes precisos, à maneira dos retratistas europeus, mostrando os cenhos franzidos na hora da morte, as gargantas manchadas de vermelho, os lábios tristes perguntando pelo sentido da vida e os narizes, desesperadamente dilatados em sua derradeira respiração, quando os olhos já estão fechados para este mundo.

Falávamos sofregamente dessas nossas cenas favoritas de amor e de guer­ra, recordando os achados mais chamativos e as sutilezas mais comoventes, como se fossem nossas inesquecíveis e impalpáveis reminiscências pessoais. Revíamos os jardins isolados e misteriosos, onde os amantes se encontram na noite estrelada: árvores floridas, pássaros fantásticos, o tempo imóvel... As sangrentas batalhas, tão próximas e apavorantes como nossos pesadelos no­turnos, corpos retalhados em dois, cavalos com suas armaduras cobertas de sangue, belos cavaleiros trespassando-se com suas adagas, mulheres com suas bocas pequenas, suas mãos miúdas, seus olhos amendoados, espiando lango­rosamente da janela o desenrolar da batalha... E os bonitos efebos, tão alti­vos e vaidosos, os belos xás e cãs, seu poder e seus palácios para sempre desa­parecidos. Como as mulheres chorando juntas nos haréns desses xás, sabíamos agora que já fazíamos parte de uma história, mas a nossa viraria uma lenda, como a delas? Para que as sombras do medo de ser esquecido — muito mais aterrador que o medo da morte — não nos arrastasse para um reino de hor­ror, pedimos que cada um contasse sua cena de morte preferida.

Pensei logo no parricídio que Satanás induziu Dhahhak, o Risonho, a cometer. Como essa lenda dos primeiros cantos do Livro dos reis se passa pouco depois da criação do mundo, tudo era tão simples que nada precisava ser explicado. Se você quisesse leite, ordenhava uma cabra e tomava; era só dizer “cavalo”, montar e sair galopando; bastava pensar no “mal” para que Satanás aparecesse e convencesse você da beleza do parricídio. O assassina­to de Mardas, seu pai, de ascendência árabe, foi lindo não só por ter sido um ato gratuito, como por Dhahhak tê-lo perpetrado numa linda noite, no mag­nífico jardim de um palácio, à luz de estrelas douradas que iluminavam de­licadamente seus ciprestes e suas flores.

Citamos depois o caso do lendário Rustam, que matou sem querer seu filho Suhrab, comandante do exército inimigo que travara com o de Rustam uma batalha de três dias. A maneira como Rustam bate no peito ao ver, atra­vés das lágrimas de angústia, a pulseira que ele dera anos antes à mãe do rapaz, cujo peito ele acabava de trespassar com sua espada, nos comoveu sin­ceramente.

Por que isso?

A chuva continuava a tamborilar no teto do convento e eu andava de um lado para o outro, quando disse bruscamente:

“Ou deixamos Mestre Osman, nosso pai, nos trair e nos matar, ou nós é que o traímos e o matamos.”

Ficamos mudos de pavor, porque o que eu dissera soava absolutamente verdadeiro. Sem parar de andar, em pânico ao pensamento de que tudo vol­taria ao ponto de partida, disse comigo mesmo: “Conte a história do assassi­nato de Siyavush por Afrasyab. Mas essa é uma história de traição que nem de longe me assusta. A morte de Khosrow então”. Muito bem, mas qual? A que é contada no Livro dos reis por Firdawsi, ou a versão de Nizami, em Khos­row e Shirin? No Livro dos reis o que é terrível é que Khosrow, em prantos, adivinha que a pessoa que entrou em seu quarto veio assassiná-lo. Como úl­timo recurso, chama seu pajem e manda que traga água, sabão, roupa limpa e seu tapete de orações; não entendendo que é um chamado de socorro, o ingênuo rapaz vai buscar o que ele pedia. Uma vez a sós com sua vítima, a primeira coisa que o assassino faz é trancar a porta do quarto. Nessa cena dos últimos cantos do Livro dos reis, o assassino enviado pelos conspiradores pa­ra cometer o crime é descrito por Firdawsi de forma a dar náuseas: ele é bar­rigudo, cabeludo e fedorento.

Eu andava pela sala, minha cabeça transbordava de palavras, mas, co­mo num sonho, minha voz não saía.

Foi então que percebi que os outros estavam cochichando entre si, tra­mando alguma coisa contra mim.

Os três se atiraram tão rápidos sobre mim, agarrando-me pelas pernas, que caímos os quatro no chão, mas não pude resistir por muito tempo. Fi­quei estendido de costas no assoalho, os três em cima de mim: um sentado nos meus joelhos; o outro, no meu braço direito; e o Negro, a cavalo entre meu peito e minha barriga, os joelhos sobre os meus ombros. Eu não podia mais me mexer. Estávamos todos aturdidos, ofegantes. Lembrei-me de uma coisa:

Meu finado tio tinha um patife de um filho dois anos mais velho que eu — espero, aliás, que já tenha sido preso por assalto a uma caravana e decapitado. Esse canalha invejoso, percebendo que eu era mais instruído, mais inteligente e mais refinado que ele, vivia arranjando pretextos para brigar co­migo; quando não achava, me obrigava a lutar com ele, derrubava-me num instante e me imobilizava assim, com os joelhos nos meus ombros, tal como agora; olhava-me nos olhos, tal como o Negro fazia, deixava um filete de cuspe cair lentamente nos meus olhos e ria das minhas tentativas de evitá-lo sacudindo a cabeça de um lado para o outro.

O Negro disse-me para não esconder nada. Onde estava a última pintu­ra? Confesse!

Eu sufocava de arrependimento e de raiva, por duas razões: primeiro, por ter dito o que eu disse à toa, sem saber que eles já tinham chegado a um entendimento; depois, por não ter fugido, incapaz de imaginar que a inveja deles teria chegado a esse ponto.

O Negro ameaçou cortar a minha garganta se eu não lhes entregasse a miniatura imediatamente.

Engraçado. Eu apertava os lábios com toda a força, como se corresse o risco de a verdade escapar-me boca afora. Por outro lado, eu me dizia que não havia mais nada a fazer. Se eles estavam mancomunados para me entre­gar ao Tesoureiro-Mor como assassino, iam conseguir o que queriam. Mi­nha única esperança era que Mestre Osman apontasse outro culpado ou des­se outra pista; mas que confiança eu podia ter no que o Negro dizia dele? Eles podiam muito bem me matar ali mesmo, para depois descarregar toda a culpa em mim, não podiam?

Ele apertava a lâmina da adaga contra a minha garganta, e logo percebi que o Negro não podia ocultar o prazer que aquilo lhe proporcionava. Levei um tapa. A adaga estaria cortando minha pele? Levei outro tapa.

Eu só conseguia agir de acordo com a seguinte lógica: se ficar quieto, não vai me acontecer nada. Ela me dava mais força. Eles não eram mais ca­pazes de dissimular a inveja que sempre tiveram de mim, desde nossa infân­cia no ateliê, porque eu pintava melhor, porque minhas linhas eram mais retas, minhas cores mais bem distribuídas. Eu os amava por terem tanta in­veja de mim. Sorri para meus irmãos amados.

Um deles — prefiro esquecer quem me fez tal afronta — pôs-se a me beijar ardentemente na boca, como se eu fosse uma amada há muito deseja­da. Os outros observavam à luz do lampião, que aproximaram de nós. Não pude deixar de retribuir o beijo daquele irmão tão amoroso. Afinal, se já es­távamos perto do fim de tudo, é bom que todos saibam que sou eu quem me­lhor pinta. Vejam o que pintei e constatem vocês mesmos!

Ele começou a me bater com raiva, como se eu o tivesse irritado res­pondendo ao seu beijo com outro beijo. Mas os outros o contiveram. Houve um momento de indecisão. O Negro estava exasperado com o fato de se pro­duzirem desavenças entre eles. Era como se a raiva deles não se dirigisse con­tra mim, mas contra o rumo que a vida deles tomara, e em conseqüência eles queriam se desforrar do mundo inteiro.

O Negro tirou um objeto do seu embornal: era um alfinete pontudo. Num segundo, trouxe-o à altura dos meus olhos e fez o gesto de enfiá-lo.

“Oitenta anos atrás, o grande Bihzad, o mestre dos mestres, ao ver que com a queda da cidade de Herat tudo estaria acabado para ele, furou corajo­samente os próprios olhos, para que ninguém pudesse obrigá-lo a pintar de outro modo”, disse ele. “Pouco tempo depois de ele ter enfiado este alfinete de turbante nos olhos, Alá fez descer suavemente uma majestosa treva sobre seu servo, aquele artista de mão milagrosa. O alfinete veio de Herat a Tabriz, como o próprio Bihzad, agora cego e bêbado, enviado de presente pelo xá Tahmasp ao pai do Nosso Sultão, junto com o célebre Livro dos reis. De iní­cio, Mestre Osman não havia compreendido o sentido dessa oferenda. Mas agora foi capaz de enxergar a malévola intenção e a justa lógica que se es­conde atrás desse cruel presente. Quando Mestre Osman compreendeu que o Nosso Sultão queria ter seu retrato pintado no estilo dos mestres europeus e que todos vocês, que ele amava mais que a seus próprios filhos, o haviam traído, enfiou esse alfinete em seus dois olhos, ontem à noite, na Sala do Te­souro, numa homenagem a Bihzad. Pois bem, e se eu furasse agora seus olhos, seu maldito, que causou a ruína do ateliê que Mestre Osman criou e a que dedicou toda uma vida?”

“Quer você me cegue, quer não, em breve nenhum de nós terá mais lu­gar neste mundo”, retruquei. “Se Mestre Osman de fato perder a vista, ou a vida, e se nós resolvermos pintar da maneira que mais nos agradar, assumin­do nossos defeitos e nossa individualidade, como os europeus, de maneira a ter um estilo pessoal, seremos nós mesmos, mas trairemos o que somos. Se, ao contrário, pintarmos à maneira dos antigos, que é a única maneira que temos de ser nós mesmos, Nosso Sultão, que já deu as costas para Mestre Osman, arranjará outros pintores para nos substituir. Ninguém mais terá consi­deração por nós, só piedade. A incursão no café vai envenenar tudo ainda mais, porque parte da responsabilidade pelo incidente recairá sobre nós, mi­niaturistas, por termos caluniado o respeitável pregador.”

Tentei persuadi-los de que não era bom para nós brigarmos, mas foi em vão, não me davam ouvido. Estavam em pânico. Estavam convencidos de que, se pudessem decidir rapidamente, antes do amanhecer, com razão ou sem, quem era o culpado, se salvariam, escapariam da tortura e tudo no ate­liê continuaria a ser durante anos e anos como sempre foi.

No entanto, o que o Negro ameaçava fazer não agradava aos outros. E se fosse provado que o culpado era um outro e Nosso Sultão ficasse sabendo que tinham furado meus olhos à toa? Os outros dois estavam apavorados tan­to com a intimidade tão rápida do Negro com Mestre Osman, como com a insolência com que falava dele. Tentaram, assim, afastar o alfinete que o Ne­gro, cego de cólera, continuava a brandir sobre os meus olhos.

O Negro entrou em pânico acreditando que procuravam tomar o alfi­nete para se voltar contra ele. Houve novamente um breve corpo-a-corpo, mas o melhor que eu tinha a fazer era girar a testa para trás e erguer o quei­xo, para tentar evitar a ponta, cada vez mais próxima das minhas pupilas.

Tudo foi tão rápido que de início nem pude entender o que estava acon­tecendo. Senti uma dor aguda mas suportável no meu olho direito, e um tor­por na têmpora. Depois tudo voltou ao normal, mas o terror já tomava conta de mim. O lampião tinha se afastado, mas vi com nitidez o alfinete enfiar-se, dessa vez no meu olho esquerdo. Ele tinha tomado o alfinete da mão do Negro segundos antes, e era mais cuidadoso e meticuloso. Ao compreender que o alfinete tinha de fato penetrado em meus olhos, fiquei petrificado, ape­sar daquela sensação de ardor. O entorpecimento da minha têmpora parecia alastrar-se por toda a minha cabeça, mas cessou quando o alfinete foi remo­vido. Eles olhavam alternadamente para o alfinete e para os meus olhos. Pa­recia que não acreditavam no que havia acontecido. Mas quando todo o mun­do se deu conta da desgraça que me vitimara, cessou aquele estupor e a pressão nos meus braços se aliviou.

Pus-me a gritar, a chorar, não tanto de dor quanto de horror por com­preender plenamente o que tinham feito comigo. Senti que meu choro não só me aliviava, como os aproximava de mim e causava-lhes grande mal-estar: como ainda não estava cego, podia ver isso perfeitamente! As sombras deles se moviam no teto como se fossem almas penadas. Eu estava ao mes­mo tempo contente e mais apavorado. “Me larguem!”, berrei. “Me larguem para que eu possa ver tudo mais uma vez, eu lhes suplico.”

“Conte-nos rápido como você se encontrou naquela noite com o Ele­gante Efêndi”, disse o Negro. “Depois te soltamos.”

“Foi ele que me abordou à saída do café, quando eu voltava para casa. Estava muito preocupado, agitadíssimo. Num primeiro instante, ele me deu dó. Me larguem que eu conto o resto. Minha vista está enfraquecendo.”

“Não é verdade. Mestre Osman ainda conseguia enxergar as narinas dos cavalos depois de ter furado os olhos”, rebateu o Negro sem titubear. “Se vo­cê nos contar tudo agora, antes que o sangue coagule em seus olhos, de ma­nhã ainda estará enxergando e poderá contemplar o mundo pela última vez tanto quanto quiser. A chuva parou, logo vai clarear.”

“O pobre do Elegante Efêndi disse que queria falar comigo e que eu era a única pessoa em que ele confiava.” (Não era dele que eu tinha dó agora, e sim de mim.) “‘Vamos voltar para o café’, eu disse ao Elegante, mas percebi na hora que ele não gostava do lugar, que não se sentia seguro lá. Apesar de ter sido nosso colega de aprendizado e de pintura nos últimos vinte e cinco anos, o Elegante tinha seguido outro caminho e se distanciara completamen­te de nós. Nos últimos oito ou dez anos, depois do seu casamento, eu só o via no ateliê e nem sabia o que fazia. Disse-me que tinha visto a última mi­niatura e que ela continha um pecado tão grave que nenhum de nós pode­ria se redimir dele. Iríamos todos arder no Inferno. Estava arrasado, fora de si, como se houvesse cometido sem saber uma heresia. ‘Que heresia?’ Ele arregalou os olhos, parecendo não acreditar que eu não sabia. Pensei comi­go mesmo que nosso velho colega tinha mudado um bocado com a idade. Ele disse que, nessa última miniatura, o infortunado Tio havia utilizado sem escrúpulo o método da perspectiva; que as coisas não eram pintadas de acor­do com sua importância aos olhos de Alá, mas como nós as percebemos e como os europeus as pintam. Primeiro pecado. O segundo pecado era ter re­presentado Nosso Sultão, Califa do Islã, do tamanho de um cachorro. A ter­ceira transgressão era representar Satanás também desse tamanho e sob um aspecto favorável. Mas o pior de todos, resultado natural da introdução do estilo europeu em nossa pintura, era ter querido pintar o rosto do Nosso Sultão em tamanho real, com todos os detalhes. Exatamente como os infiéis! Ou como os retratos que são encomendados pelos cristãos, esses idólatras, que os penduram em suas paredes para cultuá-los. Graças ao Tio de vocês, o Elegante Efêndi parecia conhecer tudo desses retratos, sabia perfeitamente que eram o maior dos pecados e acreditava, com toda razão, que são a sen­tença de morte da pintura de acordo com a nossa fé. Disse isso tudo na rua, enquanto caminhávamos, porque não voltamos ao café, onde, dizia ele, se ultrajava o Pregador Efêndi e nossa religião. Às vezes, ele parava para me perguntar com um ar desamparado se estava certo, se havia uma solução ou se ele estava mesmo condenado ao Inferno. Parecia em plena crise, devorado pelo remorso, mas eu achei que ele não estava sendo sincero, que não acre­ditava no que dizia. Que ele era um impostor, simulando arrependimento.”

“Como você podia saber?”

“Conhecemos o Elegante Efêndi desde a infância. Ele é muito organi­zado, calmo, disciplinado e insípido, como suas douraduras. Mas o homem que eu tinha à minha frente era muito mais estúpido, ingênuo e crédulo do que o Elegante que conhecíamos.”

“Ouvi dizer que ele era bem próximo dos erzurumis”, disse o Negro.

“Nenhum muçulmano sentiria tanto tormento e tanto remorso por um pecado involuntário. Um bom muçulmano sabe que Alá é justo e razoável, e portanto leva em conta as intenções profundas dos seus servos. Só mesmo quem tem um cérebro de galinha é capaz de acreditar que vai para o Infer­no se comer por engano carne de porco. Um verdadeiro crente sabe que as imagens do Inferno servem para assustar muito mais os outros do que ele próprio. E é justamente o que o Elegante Efêndi tentava fazer: me assustar. O Tio Efêndi tinha lhe mostrado como fazer para consegui-lo. Mas digam-me honestamente, irmãos miniaturistas, o sangue já começa a coagular em meus olhos? Eles já perderam o brilho e a cor?”

Aproximaram o lampião do meu rosto e examinaram meus olhos com a atenção compadecida de um médico.

“Aparentemente, não houve alteração.”

Perguntei-me se aqueles três eram a última imagem que eu veria neste mundo. Eu sabia que nunca mais ia esquecer esse instante e, como apesar de tudo ainda conservava alguma esperança, contei o seguinte:

“Foi seu Tio mesmo que deu a entender ao Elegante Efêndi que fazíamos uma coisa proibida, ao ocultar o conjunto da última miniatura, revelar apenas uma parte específica dela a cada um de nós e mandar-nos pintar nes­se pedaço. Ao dar à sua pintura ares de mistério, ele instilava o temor de es­tarmos cometendo uma heresia. Foi ele, e não os erzurumis, que nunca vi­ram um manuscrito iluminado na vida, quem gerou e alimentou em nós essas fantasias que atormentavam nossa consciência. Ora, um artista com a consciência tranqüila não tem o que temer.”

“Há muita coisa que um artista de consciência tranqüila tem a temer hoje em dia”, observou o Negro cinicamente. “De fato, nada impede nossa arte de ser decorativa, mas nossa fé proíbe que ela reproduza a aparência das coisas. Porque as pinturas dos antigos mestres, inclusive as obras-primas dos maiores mestres de Herat, eram consideradas uma extensão da decoração das margens do texto, e ninguém via nada de errado nelas, considerando que elas realçavam a beleza do manuscrito e o esplendor da caligrafia. E, além do mais, quantas pessoas vêem nossas obras? Mas o caso é que com o recur­so aos métodos vindos do Ocidente, nossa pintura perde seu papel simples­mente ornamental e se torna francamente descritiva. E é precisamente isso que o Venerável Corão proíbe e que tanto desagradava ao Nosso Profeta. Nosso Sultão e meu Tio também sabiam disso muito bem. E foi por isso que ele morreu.”

“Seu Tio morreu porque não estava com medo!”, repliquei. “Como vo­cê, ele pretendia ultimamente que a pintura que ele estava fazendo nada ti­nha de contrário à nossa religião nem ao Livro Sagrado, porque era esse o pretexto de que necessitavam os erzurumis, que procuravam desesperada­mente um aspecto que contrariasse o texto do Corão. Seu Tio e o Elegante Efêndi eram mesmo feitos um para o outro.”

“Foi você que matou os dois?”, perguntou o Negro.

Por um instante, achei que ele ia me bater e disse comigo mesmo que, afinal de contas, o novo marido da bela Shekure não tinha muito que lamen­tar a morte do seu Tio. Portanto, ele não tinha motivo para me bater e, aliás, mesmo se batesse, isso já não fazia a menor diferença para mim. Prossegui portanto, insistente:

“Na verdade, tanto quanto Nosso Sultão desejava um livro feito à ma­neira dos artistas europeus, seu Tio desejava realizar um livro provocador, cujo vício de ilicitude só o envaideceria mais ainda. Suas viagens à Europa lhe haviam despertado uma admiração desmedida pela pintura dos mestres europeus que conheceu então e de que nos falava sem parar — você mesmo deve tê-lo ouvido divagar sobre a perspectiva, sobre os retratos. Se querem saber, para mim não havia nada de nocivo nem de sacrílego no livro que pre­parávamos. Como ele sabia perfeitamente disso, achou por bem, por uma questão de prestígio, envolver sua Grande Obra com uma aura de coisa proi­bida... Estar metido numa aventura tão perigosa com a permissão pessoal do Nosso Sultão era, para ele, ainda mais importante do que a própria pintura européia. E verdade que, caso seu livro fosse para ser exposto publicamente, teria sido sacrílego. Mas não sinto que há em nenhuma dessas miniaturas o que quer que seja de contrário à religião, nenhuma blasfêmia, nenhuma he­resia, nem a mais vaga das ilicitudes. Vocês também não sentem isso?”

Minha vista começava a perder quase imperceptivelmente sua acuida­de, mas, louvado seja Alá, mesmo assim pude ver que minha pergunta dei­xou-os sem resposta.



“Vocês não têm certeza, não é?”, exclamei triunfante. “Mesmo que es­tejam intimamente persuadidos de que a sombra da heresia paira, sim, sobre essas miniaturas, vocês são incapazes de reconhecer que assim é e, princi­palmente, de dizê-lo em público, porque seria dar razão aos fanáticos e aos erzurumis, que querem acusar vocês a qualquer preço. Além do mais, não poderiam proclamar, de boa-fé, que são inocentes e imaculados como a ne­ve recém-caída, mesmo porque seria renunciar ao privilégio inebriante e à duvidosa satisfação de estarem a par de um segredo de Estado, cheio de mis­térios e proibições. Sabem como me dei conta da minha vaidade ao agir as­sim? Quando trouxe o pobre Elegante Efêndi a este convento de dervixes, no meio da noite, pretextando que estávamos gelados depois daquela longa caminhada pelas ruelas da cidade. Na verdade, eu estava contente por poder mostrar a ele que eu descendia dos dervixes errantes e, pior ainda, que aspi­rava voltar a ser um! Quando o Elegante compreendeu que eu era um fer­voroso seguidor de uma seita baseada na pederastia, nas drogas, na vagabun­dagem e outras infâmias, achei que ele ia me temer e me respeitar mais ainda, que calaria a boca, intimidado. Mas foi o contrário que aconteceu. Aquele miolo de galinha que vocês conhecem não gostou daqui e logo fez suas as acusações de heresia que ele ouvira do Tio de vocês. E eis que nosso amado colega de aprendizado, que no começo havia implorado num tom lacrimejante ‘Ajude-me, convença-me que não iremos para o Inferno, para que eu possa dormir em paz esta noite’, pôs-se a dizer num tom novo e ameaçador que ‘isso vai acabar mal’; que ele não tem dúvida de que o pregador de Er­zurum acabará sabendo o que se diz da última miniatura, ‘que ela vai muito além das instruções do Nosso Sultão’ e que este último ‘nunca perdoará’ es­sa transgressão. Convencê-lo de que na verdade tudo estava claro como água era impossível. Ao contrário, eu já o imaginava contando para aqueles imbe­cis fanatizados pelo hodja todos os absurdos do Tio, exagerar os ‘ultrajes à re­ligião, as apologias do Diabo’ e outras calúnias patentes. Não é preciso lem­brar a vocês que todos os artesãos, além dos artistas, invejam as atenções e favores do Nosso Sultão para conosco. Sem dúvida ficarão encantados com poderem proclamar numa só voz: ‘Os pintores são uns heréticos’. E a cola­boração, de todos sabida, entre o Tio e o Elegante Efêndi provaria essa calú­nia. Se falo em calúnia, é porque não creio em nada do que nosso irmão Ele­gante contava sobre o livro e a última miniatura. Eu não queria ouvir nada que comprometesse o falecido Tio Efêndi. Achava até perfeitamente legíti­mo que Nosso Sultão o tenha preferido em vez de Mestre Osman e compar­tilhava, até certo ponto, é claro, suas idéias sobre a pintura européia. Eu acre­ditava sinceramente que nós, mestres otomanos, podíamos a nosso gosto e na medida em que nossas viagens permitissem, tirar proveito de uma ou ou­tra técnica européia, sem com isso ‘nos comprometermos com o Diabo’ ou ‘tramar nossa própria desgraça’. Tudo me parecia fácil. Para mim, o Tio, des­canse em paz, tinha substituído Mestre Osman nesta nova vida, inclusive como pai espiritual.”

“Devagar!”, fez o Negro. “Conte-nos antes como você matou o Elegan­te Efêndi.”




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