Meu nome é Vermelho



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“Cometi esse ato”, não conseguia pronunciar a palavra ‘assassinato’, “por todos nós, para a salvação de todo o nosso ateliê. O Elegante Efêndi sabia que dispunha de uma arma temível. Roguei a Alá que me enviasse um sinal de que ele era um canalha. Alá me ouviu. Quando ofereci ouro ao Elegante Efêndi, pude ver a magnitude da sua depravação. Aquelas moedas de ouro, que vocês viram, vieram-me à mente por inspiração divina. Menti. Disse que elas não estavam aqui, no convento, que eu as havia escondido em outro lu­gar. Saímos. Vagamos pelos bairros mal-afamados, eu nem sabia aonde ía­mos, não sabia o que fazer. Na verdade, estava morrendo de medo. Por fim, passamos uma segunda vez pela mesma rua, e o Elegante Efêndi, nosso ir­mão, que, como bom dourador, dedicara toda a sua vida à forma e à repeti­ção, ficou desconfiado. Mas Alá pôs diante de nós um terreno baldio que o fogo devastara e, junto dele, um poço.”

Chegando aqui, disse a eles que não me sentia capaz de continuar a nar­rativa. “Em meu lugar, vocês fariam a mesma coisa, porque teriam pensado antes de tudo em salvar seus irmãos artistas”, afirmei com segurança.

Ouvindo-os aquiescer comigo, tive vontade de chorar. Eu podia dizer que era por ver que ainda merecia a compaixão deles que senti essa vontade, mas não seria verdade; podia dizer que era por ter ouvido de novo o barulho surdo do corpo dele batendo no fundo do poço, mas não seria verdade; po­dia dizer que era porque eu me lembrava de como eu era feliz antes de virar um assassino, como eu era igual a todo mundo, mas não seria verdade. Não, foi que revi o cego que costumava passar por nosso bairro quando eu era criança: ele tirava fora de seus andrajos uma concha de pau ainda mais suja que ele, parava perto da fonte e perguntava à garotada que o espiava de lon­ge: “Meus filhos, qual de vocês vai encher a concha deste velho cego com água da fonte?”. E ninguém enchia para ele. “Seria uma boa ação, meus fi­lhos, uma caridade”, dizia ele. A cor das suas íris tinha desbotado tanto que já era quase igual à do branco dos seus olhos.

Perturbado com a idéia de me parecer com aquele velho cego, confes­sei sem mais nem menos, sem me dar ao prazer de saborear o relato, ter me livrado também do Tio Efêndi. Não fui nem muito sincero nem muito hi­pócrita: encontrei a consistência adequada, de modo que a história não per­turbasse demasiado meu coração e que eles acreditassem que não fui à casa do Tio com a intenção de matá-lo. Queria deixar bem claro que não tinha sido um crime premeditado, e eles entenderam que eu também fazia isso para me absolver da imputação de crime premeditado, pois, como eu disse, quem não tem más intenções não vai para o Inferno.

“Depois de despachar o Elegante Efêndi para junto dos anjos de Alá”, prossegui num tom sonhador, “senti que as últimas palavras da minha víti­ma começavam a me devorar por dentro, como vermes. O sangue com que aquela última miniatura me levara a sujar as mãos fazia que ela se agigantas­se na minha mente. Fui então à casa do Tio, que já não queria receber mi­nha visita, para que ele me deixasse ver a imagem. Ele não só se recusou a mostrá-la, como fingiu não entender. Para ele, tudo era cristalino, não havia mistério algum, em todo caso nada que justificasse um assassinato. Para aca­bar com aquela humilhação e ganhar um pouco de consideração, confessei ter matado e jogado num poço o pobre Elegante Efêndi. Aí sim ele come­çou a me levar a sério, mas continuou a me humilhar. Como um pai era ca­paz de humilhar assim seu filho? O Grande Mestre Osman tinha acessos de raiva, batia na gente, mas nunca nos humilhou. Ah, meus irmãos, ao traí-lo cometemos um grave erro.”

Eu sorria aos meus queridos irmãos inclinados sobre mim, atentos aos meus olhos como se atenta para as palavras de um moribundo. Eu os via fi­car cada vez mais borrados e distantes, como no olhar de um agonizante.

“Matei o Tio de vocês por duas razões”, continuei. “Primeiro porque, tempos atrás, ele obrigou Mestre Osman a imitar aquele pintor, Sebastiano. Depois porque eu tive a fraqueza de lhe perguntar, a certa altura, se eu ti­nha um estilo próprio.”

“E o que ele respondeu?”

“Que tinha. E, vindo dele, não era uma crítica, mas um elogio. Lem­bro-me aliás de ter perguntado a mim mesmo, incomodado, se era de fato um elogio. Para mim, o estilo era uma tara, uma desonra e, na dúvida, eu me inclinava para o pior. Eu não queria ter nada a ver com o estilo, mas o Diabo me tentava e, além do mais, eu era muito curioso.”

“Todo o mundo aspira a ter um estilo”, sentenciou o Negro. “E todo o mundo gostaria que lhe pintassem um retrato, como Nosso Sultão.”

“Será uma doença incontrolável?”, perguntei. “Se esse flagelo continuar a se propagar, não haverá mais ninguém para enfrentar o modo de pintar dos europeus.”

Mas ninguém mais me ouvia. O Negro contava a história de um infor­tunado bei dos turcomanos, exilado durante doze anos nos cafundós da Chi­na por ter revelado prematuramente seu ardor à filha do xá; não tendo um re­trato da amada com que sonhara todos aqueles anos, havia terminado por esquecer seu rosto em meio ao de tantas beldades chinesas e os tormentos da sua paixão adquiriram o sentido de uma provação extrema, imposta por Alá.

“Graças ao seu Tio”, prossegui, “não ignoramos a importância dos re­tratos. Queira Alá que um dia saibamos e ousemos contar a história da nossa vida tal como realmente a vivemos.”

“As histórias são sempre a história de todo o mundo, nunca de um só”, disse o Negro.

“E toda imagem é imagem de Alá”, respondi completando o verso do poeta Hatifi, de Herat. “Mas, com a difusão do estilo europeu, todo o mun­do vai acabar por considerá-lo um talento especial para contar a história de outros como se fosse de nós mesmos.”

“É esse o desejo de Satanás.”

“Larguem-me agora”, gritei com toda a minha força. “Deixem-me ver o mundo pela última vez.”

Vendo-os tão assustados, uma nova confiança cresceu em mim.

“Vai nos mostrar ou não a última miniatura?”, voltou a perguntar o Negro.

Fiz que sim e ele me soltou. Meu coração batia.

Vocês devem ter descoberto faz tempo minha identidade, que por mera formalidade continuo a ocultar. Com isso, apenas imito os mestres de Herat, que escondiam a assinatura, não tanto para esconderem a si mesmos, mas antes por obedecerem a uma regra e por respeito a seus mestres. Com o lam­pião na mão, abri caminho para a minha pálida sombra através das salas es­curas e desertas. Teria a cortina das trevas começado a cair sobre os meus olhos ou aquelas salas e corredores sempre foram assim escuras? Quantos dias e semanas, quanto tempo eu tinha pela frente, antes de ficar cego? Mi­nha sombra e eu paramos entre os fantasmas que povoam a cozinha e fui pe­gar, no canto menos sujo de um armário empoeirado, a folha dupla, antes de voltar rapidamente por onde viera. O Negro, por precaução, tinha me se­guido de longe, mas não se dera ao trabalho de trazer a adaga. Iria eu consi­derar a possibilidade de pegá-la e furar os olhos dele por sua vez, antes de eu mesmo ficar cego?

“Fico feliz em poder admirar essa imagem mais uma vez”, murmurei com orgulho. “E quero que vocês todos também a vejam.”

Sob o halo do lampião, mostrei-lhes a última imagem, aquela folha du­pla que eu pegara na casa do Tio antes de matá-lo. Percebi, de início, no olhar deles um medo misto de curiosidade. Dei a volta e pus-me ao lado de­les para também contemplá-la. Não parava de tremer. Sentia-me febril, tal­vez por causa dos meus olhos furados ou, quem sabe, daquela excitação toda.

Os elementos que havíamos pintado em várias partes das duas páginas ao longo do ano — a árvore, o cavalo, o Diabo, a Morte e a mulher — esta­vam dispostos em diversos tamanhos, de acordo com o novo e totalmente inadequado método de composição do Tio, de tal modo que as douraduras que as emolduravam, obra do nosso querido Elegante Efêndi, nos davam a impressão de estarmos olhando o mundo por uma janela, e não vendo a ilus­tração de um livro. No centro do mundo, no lugar em que devia estar Nosso Sultão, estava o meu retrato. Eu me orgulhava dele e, ao mesmo tempo, sen­tia-me um tanto aborrecido, porque, apesar de ter trabalhado nele dias e dias, mirando-me num espelho, apagando e refazendo, não consegui obter uma boa semelhança. Mesmo assim, ele me enchia de satisfação, não só porque a imagem me situava no centro do mundo mas também pela estranha e sem dúvida diabólica razão de que, nela, eu parecia mais profundo, complexo e misterioso do que na verdade sou. Eu gostaria que meus irmãos artistas per­cebessem esse contentamento, compreendessem-no e compartilhassem meu entusiasmo: eu era o centro de tudo, como um sultão ou um rei, e ao mes­mo tempo era eu mesmo. Esse fato inflava meu orgulho ao mesmo tempo que aumentava meu embaraço. Mas como esses dois sentimentos se com­pensavam, eu podia relaxar e deleitar-me com a pintura. Para que esse pra­zer fosse completo, só faltava que todas as marcas do meu rosto, todas as ru­gas, as sombras, as pintas e espinhas, cada detalhe, do meu bigode à textura da minha roupa, suas cores nas menores nuances, aparecessem com a per­feição que somente a arte dos pintores europeus possibilita.

Notei no rosto dos meus velhos colegas o medo, o assombro e o inevitá­vel sentimento que devorava todos nós: a inveja. Sim, não obstante o ódio e a repulsa que sentiam pelo abominável pecado, eles invejavam o que os ater­rorizava.

“Nas noites que passei aqui, contemplando essa imagem à luz do lam­pião, senti pela primeira vez que Alá me abandonara e que somente Satanás podia me amparar no meu isolamento”, expliquei. “Sei que, mesmo se eu estivesse de fato no centro do mundo — e, cada vez que eu admirava esta imagem, era esse meu mais ardente desejo —, ainda assim eu me sentiria só, apesar de todos essas coisas familiares que me rodeiam, apesar dos meus companheiros dervixes, desta mulher tão parecida com a bela Shekure e ape­sar deste vermelho que domina todo o conjunto. Não temo possuir uma característica própria, uma individualidade, nem que os outros se prosternem diante de mim e me adorem; ao contrário, é isso que eu desejo.”

“Quer dizer que você não se arrepende de nada?”, perguntou Cegonha, como alguém que acabasse de sair do sermão de sexta-feira.

“Eu não me sinto próximo do Diabo por ter matado dois homens, mas porque meu retrato foi feito dessa maneira. Acho que, se os matei, foi para poder pintar este retrato. E, no entanto, agora a solidão que sinto me apavo­ra. Porque imitar os europeus sem possuir sua mestria é ainda mais humi­lhante para um pintor. Quero sair dessa situação. De qualquer maneira, vo­cês sabem muito bem que eu os matei para que tudo continuasse como antes no nosso ateliê, e Alá com toda certeza também sabe.”

“Mas isso causa problemas muito maiores para nós!”, exclamou meu querido Borboleta.

De repente, aproveitando a desatenção daquele idiota do Negro, que ainda observava a pintura, agarrei-o com raiva pelo punho, enfiando minhas unhas na sua carne, e torci-o com toda a força. A adaga, que ele segurava frouxamente, caiu-lhe da mão. Peguei-a no chão.

“Mas agora vocês não vão mais poder resolver seus problemas entregando-me ao torturador”, falei. Como se fosse cravá-la nos seus olhos, aproximei a ponta da adaga do rosto do Negro. “Passe para cá o alfinete de turbante.”

Ele o entregou com a mão livre e eu o guardei no bolso. Fixei meu olhar em seus olhos de cordeiro.

“Tenho dó da bela Shekure, que não teve alternativa senão se casar com você. Se eu não tivesse sido obrigado a matar o Elegante Efêndi para salvar nós todos, eu é que teria me casado com ela, e ela teria sido feliz. Eu é que melhor compreendia as histórias sobre os pintores e a pintura da Europa que o pai dela contava. Agora ouçam com atenção a última coisa que vou lhes dizer: não há mais lugar, aqui em Istambul, para mestres miniaturistas como nós, que desejam viver respeitando sua arte e sua honra. Sim, foi o que com­preendi. Porque mesmo se resolvêssemos imitar os mestres europeus, como o falecido Tio e Nosso Sultão desejavam, seríamos impedidos, seja pela sú­cia de Erzurum e por gente como o Elegante Efêndi, seja pela própria e jus­tificada covardia que carregamos dentro de nós. Se persistíssemos em nos curvar ao Diabo e traíssemos as características e o estilo da nossa pintura nu­ma fútil tentativa de adotar as características e o estilo dos europeus, fracassaríamos, assim como eu fracassei ao fazer este meu retrato, apesar de toda a minha perícia e o meu conhecimento. Esta imagem primitiva que pintei, sem conseguir uma razoável semelhança com minha pessoa, revelou-me aquilo que nós todos sempre soubemos, mas não admitíamos: levaremos sé­culos para alcançar a mestria dos europeus. Se este livro tivesse sido termi­nado e enviado à corte do doge, ele e os pintores de Veneza teriam rido de nós, não há dúvida. Teriam até concluído: ‘Esses otomanos deixaram de ser o que eram, logo não há mais por que temê-los’. Que maravilha seria se pu­déssemos continuar seguindo os passos dos velhos mestres! Mas ninguém quer saber disso, nem Sua Excelência Nosso Sultão, nem o gentil Negro Efêndi, que se queixa de não ter um retrato da sua preciosa Shekure. Assim sendo, tratem de trabalhar e passem alguns séculos imitando os europeus. Ponham orgulhosamente suas assinaturas em seus pobres plágios. Os velhos mestres de Herat procuravam pintar o mundo tal como ele é visto por Alá e, para ocultar sua identidade, nunca assinavam seus nomes. Vocês, ao contrá­rio, estarão condenados a assinar seus nomes, mas para ocultar sua falta de identidade. Mas há uma alternativa. Todos vocês devem ter recebido o mes­mo convite, mas guardam segredo: Akbar, sultão do Hindustão, está procu­rando reunir em sua corte, em troca de ouro e obséquios, os mais talentosos artistas do mundo. É bem provável que o livro que será feito para comemo­rar o milenário do islã não vai ser preparado aqui em Istambul, mas em seu ateliê de Agra.”

“Um pintor tem de se tornar um assassino, como você, para ser famoso e prestigiado?”, perguntou Cegonha.

“Não, basta ser o melhor”, respondi, sem pensar.

Um galo cantou ao longe. Peguei minha trouxa e minhas moedas de ou­ro, meu caderno de modelos, e pus minhas miniaturas na pasta. Pensei que poderia matá-los um a um com a adaga, cuja ponta estava na garganta do Negro, mas tudo o que sentia por meus amigos de infância era simpatia — até por Cegonha, que no entanto acabara de furar meus olhos.

Borboleta levantou-se, mas obriguei-o a sentar-se novamente com um grito. Depois, julgando que poderia escapar dali sem problemas, corri para a porta; chegando à soleira, lancei-lhes impaciente estas palavras solenes que eu vinha planejando pronunciar:

“Minha fuga de Istambul se parecerá com a do grande Ibn Shakir, ao escapar de Bagdá tomada pelos mongóis.”

“Nesse caso, é melhor você ir para o Ocidente do que para o Oriente”, disse Cegonha.

“O Oriente e o Ocidente a Alá pertencem”, repliquei em árabe, como teria feito o falecido Tio.

“Mas o Oriente é o Oriente e o Ocidente é o Ocidente”, insistiu o Negro.

“O artista nunca deveria mostrar orgulho”, disse Borboleta. “Ele deve se contentar com pintar tal como sente e não misturar nisso o Oriente e o Ocidente.”

“Falou bem”, respondi ao meu querido Borboleta, indo lhe dar um der­radeiro beijo.

Porém, mal dei dois passos, o Negro atirou-se em cima de mim. Eu le­vava numa mão o saco com meu ouro e minhas roupas e, debaixo do outro braço, minhas obras numa pasta. Preocupado em proteger minhas coisas, não me protegi direito, e não pude evitar que ele agarrasse o braço cuja mão empunhava a adaga. Mas ele não teve tanta sorte assim, porque tropeçou nu­ma mesinha de trabalho e, em vez de me dominar, acabou se agarrando a mim. Soltei-me, cobrindo-o de pontapés e mordendo-lhe os dedos. Ele pôs-se a berrar, achando que sua hora tinha chegado. Ele sofreu ainda mais quan­do pisei e prendi sob meu pé a mão que havia mordido; brandindo a adaga na direção dos outros dois ordenei:

“Não se mexam!”

Eles ficaram onde estavam. Voltando ao Negro, enfiei-lhe a ponta da adaga numa narina, assim como Keykavus fizera na lenda. O sangue jorrou ao mesmo tempo que as lágrimas dos seus olhos.

“Diga-me uma coisa agora, vou mesmo ficar cego?”

“A lenda diz que há casos em que o sangue não coagula. Se Alá estiver satisfeito com a sua pintura, vai desejar ter você ao lado dele e fará a noite cair sobre os seus olhos. Assim, você não terá mais de assistir ao hediondo es­petáculo deste mundo, mas desfrutará as maravilhosas visões que se ofere­cem aos olhos Dele. Se ele não gosta da sua pintura, você continuará a ver este mundo como antes.”

“Vou praticar a verdadeira arte no Hindustão”, rebati. “Ainda devo a Alá a obra pela qual ele poderá me julgar.”

“Não alimente muito a vã esperança de escapar da influência da arte européia”, disse o Negro. “Você sabe que Akbar Cã incentiva todos os seus artistas a assinar suas obras? Quanto às técnicas de pintura européias, os je­suítas portugueses já as introduziram lá há muito tempo, como aliás no mun­do todo.”

“Sempre haverá trabalho e asilo para quem desejar permanecer puro”, respondi-lhe.

“Claro! Ficando cego e fugindo para países que não existem”, fulminou Cegonha.

“Por que você quer tanto permanecer puro? Fique aqui como a gente, junte-se aos outros. E o melhor que você tem a fazer”, ousou dizer o Negro.

“O resto da vida vocês não vão fazer mais nada, além de imitar os euro­peus para ter um estilo pessoal”, retruquei. “Mas precisamente por imitarem os francos, vocês nunca terão um estilo pessoal.”

“Não há outra coisa a fazer”, rebateu o Negro, vergonhosamente.

Era evidente que não era a pintura, mas a bela Shekure sua única fonte de felicidade. Tirei do seu nariz a ponta ensangüentada da adaga e erguia-a como um carrasco que vai descer seu sabre sobre a cabeça de um condenado.

“Eu poderia cortar sua cabeça neste instante, se quisesse”, falei, anun­ciando o que já era patente. “Mas para a felicidade da sua mulher e dos seus filhos, vou te poupar. Jure ser sempre bom, humano e respeitoso para com ela.”

“Eu juro.”

“Eu os faço marido e mulher”, concluí.

Mas meu braço agiu por conta própria, indiferente às minhas palavras. Baixei a adaga sobre o Negro com todas as minhas forças.

No derradeiro instante, ele se mexeu e eu também desviei a arma, de modo que a punhalada acertou-o no ombro, e não no pescoço. Contemplei com terror o ato cometido por meu braço. Retirando a lâmina da carne, vi a ferida inundar-se de um lindo vermelho e senti uma vergonha mista de pa­vor. Mas eu sabia que, se eu fosse mesmo ficar cego em breve, quem sabe já no navio costeando o litoral da Arábia, pelo menos não teria como me vin­gar dos meus irmãos miniaturistas.

Temendo com razão ter chegado a sua vez, Cegonha fugiu para a escu­ridão dos quartos. Fui atrás dele carregando o lampião, mas logo fiquei com medo e voltei. Meu último gesto foi me despedir de Borboleta, beijando-o com tanto calor quanto o cheiro do sangue derramado, que se interpunha entre nós, ainda permitia. Mas ele pôde ver as lágrimas correndo dos meus olhos.

Saí do convento em meio a um profundo silêncio, interrompido ape­nas pelos gemidos do Negro. E me afastei, correndo o mais que podia, pelo jardim encharcado e pelas ruelas escuras. O navio que me levaria ao ateliê de Akbar Cã só zarparia depois do primeiro chamado do muezim; nesta ho­ra, a última falua partiria do embarcadouro em direção a ele, levando-me a bordo. Eu corria, e as lágrimas fluíam dos meus olhos.

Ao passar, furtivo como um ladrão, pelo bairro do Palácio Branco, mal distinguia no horizonte a primeira luz do dia. Do outro lado da primeira fon­te do bairro, na praça em que me encontrei ao sair do labirinto de ruelas des­sa velha cidade, se erguia a casa de pedra onde eu havia passado minha pri­meira noite quando cheguei a Istambul, vinte e cinco anos antes. Pelo portão entreaberta do pátio interno, dei uma olhada naquele poço em que, aos do­ze anos de idade, vinte e cinco anos atrás, eu tinha desejado morrer de ver­gonha, por ter cometido em meu sono o crime de mijar na cama que aquele meu parente distante preparara para mim, numa demonstração de generosa hospitalidade. Ao chegar nos arredores da mesquita de Bajazet, a relojoaria, a que tantas vezes tinha levado meu relógio para consertar; a vidraria, onde eu comprava castiçais de cristal e frascos de todo tipo, que depois pintava e vendia discretamente, como vasos de flores ou garrafas de licor para clientes ricos; e aquele hamam que freqüentei certa época, por estar sempre vazio e ser barato; todos esses lugares me arrancaram lágrimas de adeus.

No lugar onde ficava o café, cujos escombros ainda fumegavam, não havia ninguém, como tampouco na casa onde eu desejara, do fundo do co­ração, que minha bela Shekure encontrasse a felicidade com seu novo mari­do, que talvez estivesse agonizando nesse instante. Nos dias em que eu vaga­va pelas ruas de Istambul depois de ter manchado as minhas mãos de sangue, todos os cachorros da cidade, suas árvores sombrias, suas janelas fechadas, suas chaminés negras, seus fantasmas, seus laboriosos e infelizes devotos que corriam de madrugada à mesquita para suas preces matinais, todo esse mun­do olhava para mim com um ar hostil; mas, agora que confessei meus cri­mes e resolvi abandonar a única cidade que conhecia, ela me olhava amisto­samente.

Passada a mesquita, contemplei de um promontório o Chifre de Ouro. O horizonte brilhava, mas as águas continuavam escuras. Dois barcos de pes­cador, navios mercantes com as velas recolhidas e um galeão abandonado, lentamente balançados por ondas invisíveis, pareciam repetir com insistência que eu não fosse embora. As lágrimas que corriam dos meus olhos seriam causadas pelo alfinete? Eu disse a mim mesmo que tratasse de pensar na vi­da maravilhosa que viveria no Hindustão, graças às obras-primas que meu talento criaria.

Saí da estrada, atravessei correndo dois jardins enlameados e, embrenhando-me entre o capim alto, entrei na velha casa de pedra. Era lá que, quando aprendiz, todas as terças-feiras eu ia buscar Mestre Osman, a quem acompanhava, dois passos atrás dele, até o Grande Ateliê, carregando seu embornal, sua pasta de desenhos, seu estojo e sua prancheta. Nada estava mudado ali, salvo os plátanos: eles tinham crescido tanto, no jardim e na rua, que conferiam à casa e à rua uma aura de grandeza, poder e riqueza que ecoavam os tempos de Suleyman, o Magnífico.

Chegando à rua que desce até o porto, cedi à tentação do Diabo e dese­jei rever pela última vez os arcos do Grande Ateliê, onde havia passado um quarto de século. E assim concluí o trajeto que, jovem aprendiz, percorria seguindo Mestre Osman: desci a rua dos Arqueiros, que na primavera ine­briava os passantes com o aroma das suas tílias; passei pela padaria em que meu mestre comprava seu pastel de carne; subi a ladeira em que se enfilei­ram mendigos, marmeleiros e castanheiras; passei pelas portas fechadas do mercado novo e pelo barbeiro que meu mestre cumprimentava todas as ma­nhãs; pelo grande jardim vazio, em que acrobatas e saltimbancos armam suas tendas no verão e se apresentam; em frente às malcheirosas pensões para sol­teiros; sob os arcos bizantinos recendendo a mofo; pelo palácio de Ibrahim Paxá, com suas colunas em forma de três cobras enroscadas que desenhei centenas de vezes e seus plátanos que desenhávamos cada vez de uma ma­neira diferente; e, chegando ao Hipódromo, passei sob as castanheiras e as amoreiras, onde os pardais e as pegas gorjeiam todas as manhãs.

A pesada porta estava fechada. Não havia ninguém na entrada nem sob os arcos da galeria do primeiro andar. Só deu tempo de olhar rapidamente para as janelinhas fechadas pelas quais, quando o tédio pesava demais para os pequenos aprendizes que éramos, costumávamos espiar as árvores, antes de ser interpelado.

Ele tinha uma voz estridente, que doía no ouvido. Dizia que a adaga na minha mão, com aqueles rubis no cabo, era dele, que seu sobrinho Shevket a surrupiara com a cumplicidade de Shekure. Aquilo lhe parecia uma prova suficiente de que eu era um dos homens que, com o Negro, haviam invadi­do sua casa para raptar Shekure. Aquele homem arrogante, esganiçado e fu­rioso vociferava que conhecia os artistas amigos do Negro e sabia que iam voltar ao ateliê. Ele brandia uma espada comprida, de um vermelho estra­nho e luminoso, e afirmava que tinha um certo número de contas que, por sei lá que razão, queria acertar comigo. Ia lhe explicar que se tratava de um mal-entendido, quando notei a cólera incomensurável estampada em seu rosto, em que podia ler que ele estava a ponto de me atacar mortalmente. Eu gostaria de ter podido dizer: “Pare, por favor!”.




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