Meu nome é Vermelho



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Mas ele já vibrava sua espada.

Sem tempo de usar a minha adaga, simplesmente ergui a mão que car­regava o embornal.

O embornal caiu. Num só movimento suave, sem perder a velocidade, a espada vermelha primeiro decepou minha mão, depois cruzou lado a lado meu pescoço, cortando fora minha cabeça.

Compreendi que eu tinha sido decapitado ao ver meu pobre corpo, es­quecendo-me na sua confusão, dar dois passos estranhos, agitar a adaga de uma maneira sem sentido e cair solitário, o sangue jorrando do pescoço co­mo de uma fonte. Meus pobres pés, que continuavam a se mexer como se ainda caminhassem no vazio, davam chutes inúteis como as patas de um ca­valo moribundo.

Da lama em que minha cabeça caíra, eu não podia enxergar nem meu assassino nem o embornal cheio de ouro e de miniaturas que eu ainda dese­java apertar contra mim mesmo. Tudo isso estava atrás de mim, na ladeira que descia até o mar e a Enseada do Galeão, aonde eu nunca chegaria. Mi­nha cabeça nunca mais viraria para eles, nem para o resto do mundo. Esque­ci-me deles e deixei meus pensamentos me levarem dali.

Eis o que pensei no instante que precedeu a minha decapitação: o na­vio vai zarpar da enseada; a essa idéia veio se somar, na minha mente, a ordem de me apressar, como quando minha mãe dizia “vamos, rápido!” quan­do eu era criança. Mas, mamãe, meu pescoço dói, não consigo me mexer!

É isso que eles chamam de morte.

Mas eu sabia que ainda não era a morte. Minhas pupilas furadas esta­vam sem dúvida imóveis, mas eu ainda enxergava perfeitamente pelos meus olhos arregalados.

O que eu via no nível do chão preenchia todos os meus pensamentos. A rua inclinando-se suavemente para cima, o muro, o arco, o teto do ateliê, o céu. A imagem que eu via se afastava assim. Sem parar.

Era como se essa imagem se prolongasse indefinidamente. Compreen­di então que a visão tinha se transformado numa espécie de memória. Lem­brei-me do que eu pensava quando ficava horas a fio contemplando uma be­la pintura: se você olhar bastante tempo para ela, seu espírito entrará no tempo da pintura.

Todos os tempos tinham se tornado agora esse tempo.

Era como se ninguém fosse me ver, enquanto meus pensamentos desa­pareciam pouco a pouco, como se minha cabeça coberta de lama fosse con­tinuar olhando sem parar para aquela melancólica ladeira, para o muro de pedra, para as amoreiras e as castanheiras tão próximas mas inalcançáveis.

A espera sem fim tornou-se repentinamente tão amarga e tediosa, que desejei que tudo acabasse e eu saísse desse tempo.

59. Eu, Shekure

O Negro nos escondeu na casa de um parente distante, onde passei a noite em claro. Na cama em que me aninhava com Hayriye e as crianças, eu às vezes conseguia cochilar entre os roncos e as tosses, mas nos meus so­nhos agitados via estranhas criaturas, mulheres cujos braços e pernas tinham sido amputados e grudados de volta no corpo de qualquer maneira, elas não paravam de me perseguir e me acordavam o tempo todo. De manhãzinha, o frio me despertou; cobri direito Shevket e Orhan, abracei-os com força, bei­jei seus cabelos e, como na época em que dormíamos calmamente na casa do meu pobre pai, pedi que Alá lhes desse sonhos felizes.

Mas não consegui dormir de novo. Pouco depois do chamado para a prece matinal, espiando a rua através das gelosias que mantinham nosso quar­tinho na penumbra, vi aquela imagem que sempre aparecia em meus sonhos felizes: um homem com aparência de fantasma, desfigurado e esgotado pe­los combates e ferimentos, trazendo na mão um cajado em vez de uma es­pada, aproximava-se ansiosamente de mim com um passo que me era fami­liar. Nos meus sonhos, sempre que ia beijá-lo, eu acordava em lágrimas. Mas ao compreender que aquele homem ensangüentado que eu avistava na rua era o Negro, o grito que eu calava na garganta soou.

Fui abrir a porta correndo.

Seu rosto estava todo machucado, inchado, roxo. O sangue escorria do seu nariz estropiado. Um talho enorme se estendia do pescoço ao ombro. O alto da sua camisa estava rasgado e ela estava vermelha de sangue. Como o homem dos meus sonhos, ele parecia sorrir, certamente por ter conseguido finalmente chegar em casa.

“Entre”, falei.

“Acorde as crianças, vamos para casa.”

“Você não está em condições de voltar para casa.”

“Não temos mais por que temê-lo”, disse ele. “O assassino é Velidjan Efêndi, o Persa.”

“Oliva!”, exclamei. “Você matou esse canalha?”

“Ele fugiu no navio que zarpou para a Índia”, e dizendo isso desviou o olhar, como se tivesse vergonha de não ter levado a cabo sua missão.

“Você acha que vai poder andar até em casa? Não é melhor arranjar um cavalo?”

Eu sentia que ele ia morrer no caminho, tive muita pena dele. Não só por causa da sua morte, mas pelo fato de ele não ter conhecido nenhuma fe­licidade verdadeira. Eu podia ver em seus olhos tristes e sombrios que ele não queria, em hipótese alguma, morrer nesta casa estranha, nem ser visto por quem quer que fosse morrendo naquele estado horrível. Não sem certa dificuldade, nós o montamos num cavalo.

Voltamos pelas ruelas menos movimentadas carregando nossas trouxas. No começo, meus meninos estavam tão assustados que nem conseguiam olhar para o rosto dele. Mas o Negro, do alto da sua montaria que avançava a passo, ainda encontrava forças para contar como tinha desmascarado o mal­vado assassino do avô deles e como o tinha enfrentado num duelo de espa­das. Dava para perceber que aquilo tornava mais caloroso o sentimento das crianças em relação a ele, e eu rogava a Alá que não o deixasse morrer.

Ao chegarmos, Orhan gritou “estamos em casa!”, e sua vozinha adorá­vel me deu a esperança de que Azrail, o anjo da Morte, teria piedade de nós e que Alá o pouparia desta vez. Mas, sabendo que a causa e a hora da nossa morte permanecem sempre ocultas no segredo de Alá, evitei esperançar-me demais.

Ajudamos o Negro a apear do cavalo e o levamos para o quarto de ci­ma, o da porta azul. Hayriye ferveu água e subiu-a. Tiramos seus sapatos, seu cinto, rasgamos toda a sua roupa, de cima e de baixo, inclusive a cueca, cor­tamos com uma tesoura a camiseta colada na carne. Abri a janela. Os sua­ves raios do sol de inverno, que brincavam com os galhos das árvores do jar­dim, encheram o quarto, refletindo-se nos jarros d’água, nos potes de tinta e de cola, tinteiros, vidros de polir e pranchas de apontar os cálamos, e ilumi­naram o rosto do Negro, pálido como a morte, e seu ferimento cor de carne crua e de cereja.

Preparei umas compressas, que embebi de água quente e sabão, e lim­pei com desvelo seu corpo, como se lava um tapete antigo e precioso, tão cheia de atenção, de amor e de ternura quanto por um dos meus filhos. Sem pressionar as contusões do rosto e tomando cuidado para não machucar o nariz na altura do corte, limpei, como um médico teria feito, aquele horrí­vel ferimento no ombro. Como costumava fazer ao dar banho nos meninos quando eram bebês, falava o tempo todo com ele com uma voz meiga e can­tada. Ele também estava ferido no peito e no braço. Os dedos da mão esquer­da exibiam a marca roxa de uma mordida. As compressas que eu passava em seu corpo logo ficavam empapadas de sangue. Apalpei seu peito, senti sua barriga ceder suavemente sob os meus dedos, olhei demoradamente para o seu pinto. Ouvia os gritos das crianças lá embaixo, no pátio. Por que alguns poetas comparam esta coisa com um cálamo?

Ao ouvir na cozinha aquela voz zombeteira e conspiratória que Ester usa quando chega com novidades, desci e encontrei-a, de fato, excitadíssi­ma. Sem nem mesmo me dar um beijo, levou-me a um canto para me con­tar: a cabeça de Oliva tinha sido encontrada dentro de um saco, com todos os desenhos que provam a sua culpa, na porta do Grande Ateliê. Ele na cer­ta quis passar por lá uma derradeira vez, antes de fugir para o Hindustão.

Segundo as testemunhas, Hassan reconheceu Oliva e, com um só gol­pe da sua espada vermelha, cortou-lhe a cabeça.

Enquanto ela contava, eu me perguntava onde estaria agora meu infor­tunado pai. Saber que seu assassino tinha recebido o castigo que merecia sos­segou meus temores, e a vingança trouxe-me uma sensação de reconforto e justiça. Mas no mesmo instante, perguntei-me se meu falecido pai sentia a mesma coisa lá onde estava. De repente, o mundo se apresentava a mim co­mo um imenso palácio cujos aposentos se comunicam por mil e uma portas escancaradas, e podíamos passar de um aposento ao outro valendo-nos das nossas lembranças e da nossa imaginação. Mas a maioria das pessoas é pre­guiçosa demais para fazer uso desse dom e prefere ficar encerrada sempre no mesmo aposento.

“Não chore, querida”, disse Ester. “Viu? Acabou tudo bem.”

Eu lhe dei quatro moedas de ouro. Com sua grosseria habitual, e com uma excitação à altura da sua avidez, ela as verificou uma a uma, enfiando-as na boca e mordendo-as.

“Os infiéis venezianos espalharam por toda parte suas moedas falsas”, explicou-se sorrindo.

Quando ela se foi, eu disse a Hayriye que não deixasse os meninos irem lá em cima. Subi para o quarto onde estava o Negro, tranquei a porta, acon­cheguei-me avidamente ao seu corpo nu e fiz, menos por desejo do que por curiosidade, e com mais cuidado do que com medo, o que o Negro quis que eu fizesse na casa do judeu enforcado, naquela noite em que meu pobre pai foi assassinado.

Não sei dizer se entendi direito por que os poetas persas comparam há séculos a ferramenta masculina com um cálamo e a boca das mulheres com um tinteiro, ou qual é a base dessas comparações, cujas origens se esquece­ram de tanto serem mecanicamente repetidas — seria a pequenez da boca? O silêncio misterioso do tinteiro? Pretender que o próprio Alá é um pintor? Talvez o amor não possa ser entendido por meio da lógica de uma mulher como eu, que o tempo todo espreme os miolos em busca de uma maneira de se proteger, mas somente por uma total falta de lógica.

Aliás, vou lhes confessar um segredo: naquele momento, naquele quar­to em que reinava o cheiro da morte, a coisa na minha boca não me dava ne­nhum prazer. O que me dava, deitada ali com o mundo inteiro latejando en­tre os meus lábios, era ouvir a algazarra feliz dos meus filhos, xingando-se e se engalfinhando no pátio.

Enquanto minha boca estava assim ocupada, meus olhos podiam ver que o Negro olhava para mim de uma forma completamente diferente. Ele disse que nunca mais esqueceria, nem meu rosto nem minha boca. Sua pele tinha o cheiro de papel mofado de alguns velhos livros do meu pai, seus cabelos estavam impregnados do bolor da poeira e dos cortinados do Tesou­ro. Não me contive mais e acariciei suas feridas, seus cortes, suas tumefações, ele gemia como uma criança, e quanto mais eu sentia a morte se afas­tar, mais me apegava a ele. Como um navio cujo velame se enfuna pouco a pouco sob o efeito do vento, nosso amor ganhava aos poucos velocidade, e o navio tomava audaciosamente o rumo de mares desconhecidos.

Pela maneira como navegava nessas águas, inclusive em seu leito de morte, eu podia dizer que o Negro já singrara esses mares muitas vezes an­tes, sabe lá com que tipo de mulheres indecentes. E enquanto eu nem sabia se beijava meu braço ou o dele, se chupava meu dedo ou uma vida inteira, ele, na embriaguez mista do prazer e da dor, tentava ver com um olho semi-cerrado aonde era levado no oceano do mundo, e de vez em quando pegava minha cabeça delicadamente nas mãos, fitava assombrado o meu rosto, ora como se ele fosse uma sublime miniatura, ora como se fosse o de uma puta da Mingrélia.

No auge do prazer, ele deu um grito como o dos heróis lendários corta­dos ao meio com um só golpe de espada nas cenas em que se enfrentam os fabulosos exércitos do Irã e do Turã. Temi que o bairro inteiro tivesse ouvido o grito. Mas assim como um genuíno mestre miniaturista, mesmo nos mo­mentos de maior inspiração, quando seu cálamo parece diretamente guiado pelo próprio Alá, ainda é capaz de levar em consideração a forma e a com­posição de toda a página, o Negro também continuava a dominar nosso lu­gar no mundo a partir de um canto da sua mente, mesmo nesse momento de mais alta excitação.

“Diga a eles que você estava passando bálsamo nas minhas feridas”, fa­lou já sem fôlego.

Essas palavras não só se tornaram a cor do nosso amor — retido entre a vida e a morte, o proibido e o êxtase, o desespero e o pudor —, mas também a senha para fazê-lo. Nos vinte e seis anos seguintes, até aquela manhã em que meu amado marido Negro sucumbiu a seu coração frágil na beira do po­ço, fizemos amor todo meio-dia, quando o sol filtrava pelas janelas fechadas do quarto que dava para o pátio, de onde vinham nos primeiros anos os gritos alegres dos meus filhos, e chamávamos isso de “passar bálsamo nas feridas”. Foi assim que meus meninos, cujo ciúme eu não desejava aguçar com a riva­lidade de um pai melancólico e mal-humorado, também exigente e ciumen­to, puderam continuar por muitos anos ainda dormindo à noite comigo. To­da mulher inteligente sabe, aliás, que é muito mais agradável dormir abraçada com seus filhos do que com um marido taciturno, maltratado pela vida.

Mas se eu e meus filhos éramos felizes, o Negro nunca conseguiu ser. Sem dúvida porque, como os ferimentos no ombro e no pescoço nunca ci­catrizaram completamente, meu querido esposo ficou sendo para sempre, como às vezes ouvia-o dizer, um “aleijado”. Esse aleijão, no entanto, embo­ra bem visível, não lhe atrapalhava a vida. Mais de uma vez ouvi as mulhe­res dizerem, vendo-o de longe, que era um belo homem. Mas seu ombro di­reito permaneceu ligeiramente caído e o pescoço, torcido de uma maneira estranha. Também chegaram ao meu conhecimento certos mexericos segun­do os quais uma mulher como eu só podia se casar com um homem que ela dominasse e que, se o aleijão do Negro era sem dúvida a causa da sua me­lancolia, também era a razão secreta da nossa felicidade.

Como todo boato, este também tinha seu fundo de verdade. E assim co­mo era uma decepção para mim não poder percorrer as ruas de Istambul montada no mais belo dos cavalos e rodeada de escravos, aias e guardas, co­mo Ester achava que eu merecia, às vezes também sonhava com um marido bem-apessoado e cheio de vida, que contemplasse o mundo do alto, como um vencedor.

Qualquer que fosse o motivo, o caso é que o Negro ficou um homem triste. Como eu sabia que essa sua melancolia não tinha muita coisa a ver com seu ombro caído, eu me dizia que devia haver, instalado num canto da sua alma, um djim que lhe impunha esse humor sombrio, inclusive nos mo­mentos mais exultantes do nosso amor. Às vezes, para aplacar esse djim ele bebia vinho ou contemplava miniaturas nos livros e se interessava pela arte, às vezes chegava até a passar dias e noites com os miniaturistas, no encalço de bonitos efebos. Ele tinha fases, ora buscava a companhia de pintores, ca­lígrafos e poetas, e se divertia ao lado deles com as piadas, os trocadilhos, as insinuações, metáforas e jogos de sedução, ora preferia se absorver em suas tarefas de secretário do governo de Suleyman Paxá, o Corcunda. Quatro anos depois, quando Nosso Sultão faleceu e o sultão Mehmet, que o sucedeu, deu deliberadamente as costas para todas as artes, o entusiasmo do Negro pela iluminação e a pintura tornou-se, de prazer aberto, num segredo privado a que ele se dedicava atrás de portas bem trancadas. Vez ou outra ele abria uma das obras deixadas por meu falecido pai e admirava, com um ar triste e cul­pado, certa miniatura da época dos timúridas, pintada em Herat: Shirin apai­xonando-se pelo retrato de Khosrow. Mas não a via mais como parte de um jogo de talentos, que os círculos palacianos cultivavam felizes, e sim como se se tratasse de um doce segredo relegado há muito à memória.

No terceiro ano do reinado do sultão Mehmet, a rainha da Inglaterra mandou-lhe um relógio milagroso que continha um instrumento musical a fole. Uma delegação inglesa levou semanas trabalhando arduamente para montar o enorme relógio que trouxe da Inglaterra, com suas incontáveis pe­ças, engrenagens, quadros e estátuas, e instalá-lo na encosta do Jardim Priva­tivo Imperial, que domina o Chifre de Ouro. Multidões se aglomeravam nas encostas do Chifre de Ouro ou vinham em caíques para ver com êxtase e es­panto as estátuas de tamanho natural girarem em torno umas das outras, quando o imenso relógio tocava sua barulhenta e assustadora música, e dan­çarem com graça ao som da melodia, como se fossem muito mais criações de Alá que dos seus servos, e para ouvir o relógio anunciar a hora a toda Is­tambul com um toque que parecia os dos sinos de uma igreja.

O Negro e Ester contaram-me em diversas ocasiões que esse relógio, as­sim como era objeto do espanto sem fim dos ociosos e do populacho tolo, também era uma compreensível fonte de inquietação para Nosso Sultão e para os fiéis, porque simbolizava o poder dos infiéis. Nessa época em que as intrigas difundidas por essa gente logo corria a cidade, o sultão Ahmet, seu sucessor, acordou no meio da noite, conforme se conta, e sem dúvida movi­do pela mão de Alá, pegou sua maça e desceu do harém ao Jardim Privativo, para fazer em pedacinhos o relógio e seus ídolos. Os que assim contam acres­centam que, em seu sono, Nosso Sultão teve a visão do rosto iluminado do Nosso Louvado Profeta e que este o teria avisado: se Nosso Sultão permitisse que seus súditos venerassem imagens, quando não descaradas imitações do homem que rivalizam com o que Alá criou, estaria se distanciando clara­mente das ordens do Todo-Poderoso.

Foi mais ou menos isso que Nosso Sultão mandou seu devotado historiógrafo escrever. Intitulou esse livro de A flor das crônicas, obra de calígra­fos sobre os quais despejou bolsas e bolsas de ouro, mas proibiu que fosse ilustrado pelos miniaturistas.

Foi assim que a rosa vermelha da inspiração, nascida no Oriente e trans­plantada em Istambul, murchou no fim desse século que viu florescer tan­tos pintores de miniaturas. As querelas entre os pintores e os intermináveis debates suscitados pelo conflito entre o estilo de Herat e o dos mestres euro­peus nunca foram resolvidos. Porque a pintura foi abandonada: não se pin­tou mais, nem à moda ocidental nem à maneira do Oriente. Os pintores não se indignaram nem se revoltaram com isso. Como os velhinhos que sucum­bem calados a seus achaques, aceitaram pouco a pouco a situação, com tris­teza e resignação. Desinteressaram-se, simplesmente não pensaram mais nos antigos mestres de Tabriz, que outrora veneravam, nem nos pintores da Eu­ropa, cujas invenções e cujos novos modelos tinham copiado com um misto de inveja e ódio. Assim como as portas das casas são fechadas e a cidade é entregue às trevas quando a noite cai, assim também a pintura foi abandona­da. Esqueceu-se, sem a menor consideração, que um dia enxergávamos nos­so mundo de uma maneira bem diferente.

O livro do meu pai, infelizmente, ficou inacabado. As páginas que Has­san havia espalhado foram recolhidas e depositadas no Tesouro. Lá, um con­servador minucioso e eficiente mandou encaderná-las com outras iluminu­ras, sem nenhuma relação com elas, produzidas pelo ateliê, mas depois disso elas foram redistribuídas em várias obras. Hassan fugiu de Istambul, e nunca mais ouvimos falar dele. Mas Shevket e Orhan nunca esqueceram que foi seu tio, e não o Negro, que matou o assassino do meu pai.

Dois anos depois de ter perdido a vista, Mestre Osman morreu, deixan­do seu lugar de Grande Mestre Iluminador para Cegonha. Borboleta, que tinha uma admiração pessoal pelo talento do meu falecido pai, passou o res­to da vida pintando motivos de tapetes, telas de tenda e cortinados, como a maioria dos jovens pintores que os sucederam. Nenhum deles pareceu con­siderar o abandono da pintura de livros uma grande perda. Talvez porque nenhum deles nunca viu seu rosto exposto numa página.

A vida toda alimentei no fundo de mim o desejo secreto, que nunca re­velei a ninguém, de ver duas coisas pintadas:

1. Meu retrato; mas sei que, por mais que tenham tentado, os miniatu­ristas do Sultão fracassaram, porque, ainda que pudessem me ver em todo o esplendor da minha beleza, eles jamais admitiram que um rosto de mulher pode ser belo, se seus olhos e sua boca não forem pintados como os de uma beldade chinesa. E, se eles pintassem uma chinesa, à maneira dos mestres da antiga escola, talvez os que a vissem sabendo tratar-se de mim fossem ca­pazes de discernir meu rosto em filigrana sob os traços da bela chinesa. Mas as gerações posteriores, mesmo que saibam que meus olhos não eram puxa­dos, não terão meio de saber como eu era. Como eu seria feliz se hoje, em minha velhice, além do consolo de ter meus filhos sempre ao meu lado, eu tivesse um retrato da minha juventude!

2. Uma imagem da felicidade perfeita, coisa que o poeta Nazim, o Lou­ro, de Ran, tinha tentado fazer em seus versos. Até sei como devia ser essa pintura. Imagine o retrato de uma mãe com seus dois filhos; o mais moço, que ela acalentaria sorrindo em seus braços, mamaria feliz em seu peito ge­neroso, sorrindo também. O olhar, levemente enciumado, do irmão mais velho cruzaria com o da mãe. A mãe neste quadro seria eu, e o passarinho no céu estaria ao mesmo tempo voando e imobilizado numa eterna felicida­de, no estilo dos velhos mestres de Herat, que sabiam como fazer o tempo parar. Sei que não é fácil.

Meu filho Orhan, que é tolo o bastante para ser sempre racional, me faz ver que, de um lado, os mestres de Herat, que sabiam como deter o tem­po, nunca teriam sido capazes de me pintar como eu sou; de outro, os mes­tres europeus, que estão sempre pintando retratos de mães e filhos, nunca seriam capazes de deter o tempo; logo minha pintura da felicidade nunca poderia ser executada.

Talvez ele tenha razão. Na verdade, não procuramos por sorrisos em pinturas da felicidade, mas sim pela própria felicidade na vida. Os pintores sabem disso, mas é precisamente o que eles não podem pintar. E por isso que, em vez da felicidade de viver, eles nos oferecem a felicidade de ver.

Na esperança de que ele talvez possa narrar por escrito essa história que não pode ser narrada em imagens, contei-a a Orhan. Confiei-lhe sem hesitar as cartas que recebi de Hassan e do Negro, e também a folha encontrada no corpo do pobre Elegante Efêndi, com os desenhos de cavalos e sua tinta borrada. Mas não acreditem muito se ele pintar o Negro mais distraído do que era, nossa vida mais difícil do que é, Shevket mais malvado e eu mais bonita e mais severa do que sou. Porque não há mentira que Orhan não he­site em contar, para tornar suas histórias mais cativantes e convincentes.

1990-92, 1994-98

Cronologia

336-330 a. C: Dario, rei dos persas. Último rei aquemênida, derrotado por Alexandre Magno.

336-323 a. C: Alexandre Magno conquista a Pérsia e chega ao Indo.

622: Hégira. Fuga do profeta Maomé, de Meca para Medina, ponto de partida do calendário muçulmano.

1010: Livro dos reis. O poeta persa Firdusi (935-1020) oferece sua epopéia mitológica e histó­rica ao sultão Mahmud, de Ghazni (Afeganistão). Seu mais célebre herói é Rustam, equi­valente de Aquiles, no Irã. O contexto geral é o da luta secular do Irã contra os demônios, depois contra os invasores do Norte, chamados “turanianos”. Os episódios protagonizados por ele nas histórias e mitos persas inspiraram os miniaturistas a partir do século XIV em diante.

1141-1209: O poeta persa Nizami, de Ganja (Azerbaijão), escreve suas cinco epopéias roma­nescas, o Quinteto: O tesouro dos mistérios, Khosrow e Shirin, Leila e Majnun, As sete prin­cesas e O livro de Alexandre.

1206-1227: Reinado do soberano mongol Gêngis Cã, que estende seu império até a Europa, depois de invadir a Pérsia e a Ásia.

1258: Tomada de Bagdá por Hulagu, neto de Gêngis Cã.

1300-1922: Império otomano. Poder muçulmano sunita, dominou o Sudeste da Europa, o Oriente Médio e o Norte da África. Em seu auge, o império otomano estendia-se às por­tas de Viena e à Pérsia.

1370-1405: Reinado de Tamerlão, que derrotou, entre outros, os turcomanos e os otomanos (derrota do sultão otomano Bajazet I em Ancara, 1402). Conquistou territórios que iam da Mongólia ao Mediterrâneo, inclusive terras da Rússia, Índia, Afeganistão, Irã, Iraque e Anatólia.




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