Meu nome é Vermelho



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Encontro29.07.2016
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Quem fala em assinar fala em selar. E, evidentemente, vocês devem es­tar se perguntando como é que faço para abrir essas cartas lacradas com ce­ra. É que, simplesmente, elas não são lacradas! Porque, na verdade, a queri­da Shekure imagina que Ester, a judia, é ignorante demais para entender o que quer que seja dos caracteres do Corão. E verdade, não sou capaz de lê-las, mas sempre posso mandar alguém ler para mim. E quanto ao que não está escrito, eu posso “ler” com a maior facilidade. Não estão conseguindo me entender, não é? Pois vou deixar tudo muito bem claro, até para os me­nos sutis de vocês.

Uma carta não se exprime apenas pelas palavras escritas. Como um li­vro, uma carta também pode ser lida cheirando-a, tocando-a, afagando-a. É por isso que as pessoas inteligentes dirão: “Vejamos o que esta carta diz”; en­quanto os imbecis se contentam com dizer: “Vejamos o que está escrito”. To­da a arte está em saber ler não apenas a escrita, mas o que vai junto com ela. Bem, agora ouçam o que também diz a carta de Shekure:

1. Mesmo se eu mandar esta carta em segredo, o fato de escolher como portadora a Ester, cujo ofício e cujo fraco é esse leva-e-traz, significa que mi­nha intenção não é verdadeiramente que a carta permaneça secreta.

2. A maneira como a carta é dobrada várias vezes, como um desses papeizinhos em que nós, judeus, escrevemos nossas preces, sugere o segredo e o mistério, sim... Mas ela nem vai fechada! Sem contar que está acompanha­da de um desenho de bom tamanho. Isso tudo parece dizer: “É nosso segre­do, vamos escondê-lo dos outros”, e combina mais com uma carta de incen­tivo do que com uma carta de rejeição.

3. O cheiro da carta confirma isso. Um cheiro fraco demais para que o destinatário possa se perguntar se foi ou não deliberadamente posto ali, mas suficientemente sensível para não passar despercebido (como dizia Attar, o poeta-perfumista: “É um perfume ou o aroma da sua mão?”.) e que bastou para deixar tonto o pobre homem que leu a carta para mim. Imagino que ela deixará o Negro igualmente tonto.

4. É verdade que eu, Ester, não tenho a sorte de saber ler ou escrever, mas uma coisa eu sei: o capricho daquela escrita, o tremor que parece ani­mar cada letra em sua linha, como sob o efeito de uma brisa delicada, con­tradizem formalmente a desenvoltura, a indiferença afetada daquela pena que finge se apressar. E apesar da expressão “há pouco”, a propósito do en­contro com Orhan, sugerindo que a carta foi escrita logo em seguida, por impulso, está claro que ela fez um rascunho, dá para sentir a cada linha.

5. Quanto ao desenho enviado com a carta, até eu, Ester, a judia, co­nheço a história que ele conta: como a bela princesa Shirin, contemplando um retrato do rei da Pérsia, Khosrow, se apaixonou por ele; todas as damas sonhadoras de Istambul adoram essa história, mas é a primeira vez que vejo uma delas juntar uma ilustração do célebre episódio à sua carta.

É comum acontecer o seguinte com vocês, que têm a sorte de saber ler e escrever: uma pessoa que não sabe ler chega suplicando para que você leia uma carta que ela acaba de receber, e você lê. O que está escrito se revela tão lindo e comovente, tão pungente, que o destinatário da carta, apesar do seu pudor, da sua vergonha por introduzir você em seu jardim secreto, pede que você leia a carta mais uma vez. E você relê. No fim das contas, a carta foi lida tantas vezes que vocês dois a conhecem de cor e salteado. Depois ela pega a carta de volta, mas pede para você mostrar onde está certa palavra, certa expressão, e contempla na ponta do seu dedo, sem compreender, as letras que você lhe designa. E enquanto observam o desenho complicado des­sas palavras que, apesar de não serem capazes de lê-las, elas conhecem de cor, eu às vezes me sinto tão próxima delas, dessas mocinhas iletradas que se põem a chorar ternamente sobre a carta, esquecendo-se que não sabem ler nem escrever, que tenho vontade de beijá-las.

Também há aqueles malditos leitores de cartas, com quem lhes rogo que não me confundam, os quais, quando essas moças pegam a carta de vol­ta para tocá-la mais uma vez, ansiosas por correr de novo os olhos por ela, apesar de não saberem que palavras estão escritas, dão como única resposta, esses animais: “Para que olhar outra vez, se você não sabe ler?”. Há até os que se recusam a devolver a carta, como se ela fosse deles, e é a mim, Ester, que vocês, meninas, vêm procurar para conseguir a carta de volta. E como Ester, no fim das contas, é uma boa pessoa, se eu gostar de você, farei o pos­sível para lhe ajudar.
9. Eu, Shekure

For que eu estava à minha janela quando o Negro passou bem em fren­te, montando seu cavalo branco? Por que abri a janela nesse momento pre­ciso e por que fiquei tanto tempo olhando para ele, através dos galhos cober­tos de neve do pé de romã? Não saberia lhes dizer. Ester tinha me informado, por intermédio de Hayriye, que o Negro ia passar por ali. É o que eu sabia, portanto. Eu tinha subido ao quarto em que se guarda a roupa para procurar uns lençóis no cesto. Esse quarto tem uma janela que dá para o pé de romã. Num repentino impulso, e no momento exato, empurrei os batentes da ja­nela com toda a minha força, abrindo-a, e o sol invadiu bruscamente o apo­sento; então, eu ali na moldura da janela, nossos olhos se encontraram, e o Negro me ofuscou tanto quanto o sol. Ele estava tão bonito!

Tinha crescido e amadurecido, tinha perdido a horrível magreza da ju­ventude para se tornar um belo homem. Olhe, Shekure, disse-me o meu cora­ção, o Negro não é apenas bonito; se olhar nos seus olhos, verá que seu coração é puro como o de uma criança e transbordante de solidão. Case-se com ele. E no entanto eu lhe enviei uma carta para lhe dizer exatamente o contrário!

Embora ele fosse doze anos mais velho que eu, quando eu tinha doze anos eu era nitidamente mais madura que ele; e, em vez de se comportar comigo como um homem, em vez de anunciar que ia fazer isso ou aquilo, que ia pular daqui ou trepar ali, ele parecia o tempo todo incomodado e preferia enfiar o nariz em seus livros e em suas miniaturas, como se quisesse se es­conder neles. Com o passar do tempo, ele também acabou se apaixonando por mim. Declarou-me seu amor com um desenho. Nessa época, nós dois já éramos crescidos. Apesar de eu já ter doze anos, eu sentia que ele tinha ver­gonha de me olhar nos olhos, por temer que eu compreendesse como ele so­fria. Se me dizia uma coisa banal, por exemplo, “pode me passar aquela lin­da faca com cabo de marfim?”, em vez de olhar para mim — porque ele era evidentemente incapaz de me fitar —, ele olhava para a faca. Ou então, se eu lhe perguntava “o sorvete de cereja está gostoso?”, ele era incapaz de — com um sorriso amável, como a gente faz quando está de boca cheia, ou sim­plesmente com um gesto — me responder que, sim, estava uma delícia. Ti­nha de gritar a plenos pulmões “sim!”, como se eu fosse surda! O medo o impedia de erguer os olhos para mim. E que eu era mesmo lindíssima, na­quela época. Quaisquer que sejam a distância, a espessura e a quantidade de cortinas, portas e biombos, todos os homens que me viam, ainda que uma só vez, ficavam apaixonados. Não digo isso para me gabar, mas para lhes con­tar melhor minha história e para que vocês possam compartilhar melhor co­migo as minhas agruras.

Na lenda de Khosrow e Shirin, que todo o mundo conhece, há um mo­mento de que o Negro e eu falávamos com freqüência. E quando o fiel Shapur dá um jeito de fazer que um se apaixone pelo outro. Um dia, quando a princesa passeava no campo em companhia das suas aias, ele prendeu às es­condidas, no galho de uma das árvores debaixo das quais elas descansavam, um retrato do rei Khosrow. Ao ver o retrato do belo Khosrow, a princesa Shi­rin se apaixona por ele. Esse momento ou, como dizem os pintores, essa ce­na, que mostra o deslumbramento de Shirin ao admirar o retrato de Khos­row, foi muitas vezes representada em pintura. Quando trabalhava com meu pai, o Negro viu várias ilustrações dessa cena, e até as copiou uma ou duas vezes, sem alterar em nada o original. Depois, quando se apaixonou por mim, em vez de Khosrow e Shirin ele representava a si mesmo e a mim: Negro e Shekure. Aliás, se ele não tivesse sentido a necessidade de escrever sob o de­senho, à guisa de legenda, que o rapaz e a moça do desenho éramos nós, eu teria sido a única a saber (ele tinha uma maneira de nos desenhar sempre com os mesmos traços e as mesmas cores: ele em vermelho, eu em azul). Mas, daquela vez, ao escrever nossos nomes ele se traiu. E fugiu como um ladrão, largando o desenho num lugar em que eu poderia vê-lo. Lembro-me que ele ficou me espiando, para descobrir qual seria a minha reação ao ver nossa imagem.

Como eu tinha certeza de que não podia me apaixonar por ele, como uma Shirin do seu Khosrow, banquei a indiferente. Mas ao anoitecer de um daqueles dias de verão que passamos tentando nos refrescar com uns sorve­tes de cereja feitos com o gelo que diziam vir de longe, do monte Ulu, no li­toral asiático, eu contei a meu pai que o Negro, que já tinha ido embora pa­ra casa, havia me feito uma declaração de amor. Naquela época, o Negro tinha acabado de se formar no colégio de teologia. Ele era mestre-escola num bairro próximo e tentava, menos por vontade própria do que para obedecer a meu pai, obter a proteção do poderosíssimo e estimado Naim Paxá. Mas meu pai sempre havia sido da opinião de que o Negro não tinha o menor fu­turo e que mesmo se conseguisse, graças aos seus esforços, dele, meu pai, um cargo no círculo de Naim Paxá, mesmo que de secretário para começar, tinha poucas probabilidades, na sua opinião, de tirar bom proveito dessa po­sição, dando inclusive a entender que era um desperdício ajudá-lo. Naquela noite, meu pai tinha declarado, designando-nos com o olhar: “Eu me per­gunto se esse pobretão do meu sobrinho não mira alto demais para ele”. E sem a menor consideração para com minha mãe, que estava presente, acres­centou: “Mas pode ser que ele seja menos bobo do que eu imaginava”.

Como meu pai agiu nos dias seguintes, como eu mesma evitei o Negro e como ele, de início, se absteve de nos visitar e, depois, até deixou de passar por nosso bairro, são recordações que me enchem de tristeza e não desejo lhes contar: vocês poderiam vir a nos detestar, a meu pai e a mim. Creiam-me, era o único remédio. Vocês sabem que, numa situação assim, as pessoas sensatas logo sentem que um amor sem esperança é simplesmente sem es­perança e, compreendendo os limites do reino ilógico do coração, põem ele­gantemente um ponto final no caso, declarando que “não nos acham feitos um para o outro” e que “assim tem de ser” no próprio interesse delas. Não devo me esquecer de lhes dizer que minha mãe várias vezes suspirou: “Pelo menos não deixem o pobre menino com o coração partido”. O menino de que minha mãe falava, o Negro, tinha nada menos do que vinte e quatro anos, e eu, a metade. Mas como meu pai achara uma insolência aquela de­claração intempestiva de amor, não iria satisfazer o desejo que minha mãe acalentava secretamente.

Quando soubemos da sua ida para Istambul, embora não o tivéssemos inteiramente esquecido, ele já havia, em todo caso, saído totalmente dos nos­sos corações. Como durante anos não recebemos nenhuma notícia dele vin­da de nenhuma cidade, achei que não havia nada de mais em conservar aque­le desenho que ele tinha feito e me mostrado, como uma lembrança de menina, o testemunho de uma amizade de crianças. Para não inquietar meu pai e, principalmente, meu marido militar, se ele desse um dia com o dese­nho, o que poderia deflagrar uma crise de ciúmes, eu apenas cobri a legen­da — Negro e Shekure —, pingando em cima dela umas gotinhas de nan­quim, surrupiado do meu pai, como se fosse um acidente posteriormente disfarçado com uma preciosa moldura de flores. Agora, depois que devolvi o desenho a ele, aqueles dentre vocês que se inclinavam a ver com maus olhos minha súbita aparição à janela diante do Negro talvez se sintam envergo­nhados e reconsiderem um pouco suas idéias precipitadas,

Quando reapareci de repente diante dele, esta tarde, à minha janela, depois desses doze anos, demorei-me bastante contemplando, encantada, em meio aos flamejantes raios de sol, o jardim imerso naquela cor alaranja­da, quase vermelha, até sentir frio. Não soprava a mais leve brisa. Se um pas­sante ou se meu pai tivessem me visto à janela, ou se o Negro, fazendo seu cavalo dar meia-volta, houvesse passado de novo por ali, pouco me importa o que poderiam ter dito. Mesrure, uma das filhas de Ziver Paxá, com quem eu me divertia todas as semanas, ao irmos juntas ao hamam (ela era tão ale­gre e tinha sempre uma tirada engraçada para me fazer rir no momento mais inesperado!), disse-me certa vez que a gente nunca pode saber com certeza o que alguém pensa, nem sequer o que a gente mesma pensa... Também acho: às vezes digo uma coisa e, ao dizê-la, percebo que é isso mesmo que penso; no entanto, mal acabo de pensar assim, chego à opinião oposta.

De todos os pintores que meu pai recebe em casa, e não vou lhes ocul­tar que observei cada um deles, lamento que tenha sido o coitado do Ele­gante Efêndi o que desapareceu, tal qual meu infortunado marido. E, no en­tanto, ele era o mais feio e o mais pobre de espírito de todos.

Fechei a janela e saí do quarto para descer à cozinha.

“Mamãe, Shevket não te obedeceu”, disse Orhan. “Quando o Negro Efêndi foi pegar o cavalo na estrebaria, ele saiu no pátio para espiá-lo pelo buraco!”

“E daí?”, retrucou Shevket, erguendo o punho. “Mamãe também es­piou o Negro pelo buraco do armário!”

“Hayriye, para o jantar, pode fazer para eles pão de amêndoas tostado na manteiga.”

Orhan pulou de alegria e Shevket não disse mais nada. Mas quando su­bi de volta para o quarto, os dois correram atrás de mim na escada, gritando, me puxando e me empurrando. “Calma, calma”, eu lhes dizia às gargalha­das. “Parem, seus diabinhos.” E lhes dava umas palmadinhas delicadas.

Que bom é, quando cai a noite, estar em casa com os filhos! Meu pai não fazia barulho, absorto que estava diante de um livro.

“A visita já foi. Espero que não o tenha aborrecido.”

“Ao contrário. Ele me divertiu. Contínua respeitoso como sempre com seu Tio.”

“Que bom.”

“Mas tornou-se prudente, e ponderado.”

Isso foi dito num tom um tanto desdenhoso, e menos para avaliar mi­nha reação, sem dúvida, do que para encerrar o assunto.

Numa outra ocasião eu certamente teria lhe replicado à altura, como costumo fazer. Mas, naquele momento, a imagem do cavaleiro montado em seu cavalo branco voltou-me ao espírito e me produziu um arrepio.

Mais tarde, já não me lembro como, eu estava no quarto do armário em­butido abraçada com Orhan. Shevket veio se pôr entre nós dois, disputaram um pouco o lugar — pronto, vão brigar de novo, disse comigo mesma —, mas logo estávamos os três rolando juntos no tapete. Eu os acariciei, como uma cadela seus cachorrinhos, beijava-lhes os cabelos, atrás do pescoço, aper­tava-os contra o meu peito, para sentir o peso deles contra meus seios.

“Ahhh!”, fiz. “Como seus cabelos estão fedorentos! Amanhã vão ao ba­nho público com Hayriye.”

“Eu não quero ir mais ao banho com Hayriye!”, disse Shevket.

“Por quê? Está crescido demais?”

“Mamãe, por que você pôs essa blusa lilás tão linda?”, perguntou Shev­ket em vez de responder.

Fui ao outro quarto tirar a blusa. Pus de novo a verde, já um pouco des­botada, porque estou sempre com ela. Senti frio ao me trocar, mas, ao mes­mo tempo que fiquei arrepiada, sentia meu rosto arder e tinha a impressão de que meu corpo despertava, espreguiçava. Notei uma mancha de batom no canto do rosto — deve ter escorrido quando eu brincava com meus filhos —, lambi a palma da mão e limpei aquela marca vermelha, esfregando-a. Sa­bem, as minhas parentas, as mulheres que encontro no banho público e to­das as que me vêem, sempre dizem que não pareço uma mulher de vinte e quatro anos, mãe de dois filhos, mas uma mocinha de dezesseis. Acreditem nelas, ouviram, acreditem de verdade, senão eu não lhes conto mais nada.

E, principalmente, não achem estranho eu me dirigir assim a vocês; faz tantos anos que vejo as imagens dos livros do meu pai, que procuro as mu­lheres e as grandes beldades — são raras, mas existem... Elas são invariavel­mente tímidas e reservadas, olham umas para as outras ou ao longe, pare­cem estar o tempo todo pedindo desculpas. Claro, elas não seriam capazes, como os homens, como os guerreiros ou os sultões, de manter a cabeça er­guida e encarar o mundo que as rodeia. Mas é possível encontrar também, em certas produções baratas, por inadvertência do artista, que deve ter pin­tado a cena depressa demais, mulheres que, em vez de olhar para o chão ou para um objeto contido no quadro — digamos, um vaso ou o amante —, pa­recem olhar diretamente para o leitor. E eu me pergunto então: quem pode ser esse leitor?

Quando penso naqueles livros do tempo de Tamerlão, duas vezes cen­tenários, que os colecionadores cristãos compram aqui a peso de ouro a fim de levá-los para seu país, sinto um arrepio de emoção: um dia, certamente, alguém num reino também distante ouvirá essa minha história. Não é esse arrepio, aliás, que explica o desejo de se ver inscrito nas páginas de um li­vro? Não é por almejarem essa emoção que sultões e vizires prodigalizam seu ouro aos escribas que contam sua história em livros ou que dêem a estes o seu nome como título? Se sinto em mim esse arrepio, como aquelas belas que olham ao mesmo tempo para o livro da sua vida e para fora do livro, é que também desejo conversar com vocês que estão me observando desde sa­be lá que distância no espaço e no tempo. Sou bonita, tenho a cabeça no lu­gar, o olhar que vocês me dedicam não me desagrada. E se, de quando em quando, de longe em longe, eu lhes contar uma pequena mentira, é só para que vocês não façam idéia errada de mim.

Como vocês certamente adivinharam, meu pai tem por mim um imen­so afeto. Nasci depois de ele já ter tido três filhos, mas Alá tomou-os um a um e só eu fui poupada, sua única filha. Meu pai me adora, e no entanto não foi ele que escolheu meu marido: eu me casei com um tenente da cava­laria, que me agradou ao primeiro olhar. Se houvesse dependido do meu pai, meu marido teria de ser não apenas o mais sábio dos homens, mas também entender de pintura e de artes; ser poderoso e respeitado; e, por fim, rico co­mo Karun, o homem mais rico do Corão. Em poucas palavras, alguém que não se encontra em lugar nenhum, nem mesmo nos livros de imagens e pe­lo qual eu seria obrigada a esperar sentada em casa o resto dos meus anos.

A beleza legendária do meu marido era tema obrigatório dos cochichos femininos. Graças a certas intermediações, dei um jeito de cruzar com ele ao voltar do banho público. Foi então que o vi: seus olhos lançavam faíscas, e eu me apaixonei imediatamente por ele. Tinha cabelos castanhos, pele cla­ra, olhos verdes; além disso, era forte e bem-feito de corpo, mas no fundo era sossegado e silencioso como uma criança dormindo. Como despendia toda a sua energia na guerra, matando e saqueando sem parar — e devo dizer que ele às vezes tinha como que um vago cheiro de sangue —, em casa ficava calmo e meigo como um cordeiro. Meu pai, a princípio, não queria nem ou­vir falar desse soldado sem dinheiro, mas como eu ameaçava me suicidar, ele teve de consentir no meu casamento com aquele homem, o qual, à for­ça de façanhas heróicas e gloriosas vitórias, acabou recebendo um feudo mi­litar que vale dez mil moedas de prata e todo o mundo nos inveja.

Quando, quatro anos atrás, no fim da guerra contra os safávidas, ele não regressou com o resto do exército, num primeiro momento não me inquie­tei. Na certa havia ficado como perito militar, tinha assuntos a resolver, butins mais ricos a pilhar, soldados a recrutar... Havia também algumas teste­munhas que nos diziam que ele, com seus homens, tinha se separado da coluna em marcha e ido para as montanhas. No começo, eu sempre me di­zia que ele ia voltar de uma hora para a outra; depois, passados dois anos, fui me acostumando pouco a pouco com a sua ausência. Sabendo quantas mu­lheres de militares em Istambul tinham perdido o marido como eu, termi­nei aceitando minha situação.

Á noite, em nossa cama, eu apertava as crianças contra mim e choráva­mos todos, um mais que o outro. Para consolá-los um pouco, eu inventava histórias, mentiras: que fulano tinha me dito que o pai deles ia voltar na pri­mavera, com a mais absoluta certeza. O boato corria e, de boca em boca, acabava voltando aos meus ouvidos, e eu era a primeira a querer acreditar.

Com a ausência do meu marido, arrimo da casa, começaram as dificul­dades. Mudamos para uma casa de aluguel, para os lados da Porta do Mer­cado. Foram conosco o pai do meu marido, um nobre caucasiano a quem a fortuna reservou, a vida toda, uma sucessão de reveses, mas que era um ho­mem muito respeitado, e seu segundo filho, também de olhos verdes. Meu sogro, na idade em que estava, teve de voltar ao seu ofício de espelheiro, que ele havia abandonado quando o filho mais velho ficou rico na guerra. Meu cunhado Hassan, solteiro, trabalhava na alfândega, mas quando começou a trazer mais dinheiro para casa, começou a se considerar o dono de tudo. Cer­to inverno, ficamos com medo de não conseguir pagar o aluguel, e eles fo­ram correndo ao Mercado de Escravos para vender a criada que cuidava da casa; pediram-me então que cozinhasse e lavasse no lugar dela, até mesmo que fizesse as compras no bazar. Não lhes contestei que eu não era mulher a quem se podia impor tal tipo de trabalho, mas fiquei com o coração partido. E quando Hassan, que não tinha mais uma criada com quem se deitar em seu quarto, pôs-se a forçar a porta do meu, não soube mais o que fazer.

Evidentemente, eu teria podido voltar logo para cá, para a casa do meu pai, mas visto que, para o juiz, meu marido continuava legalmente vivo, se eu passasse a provocá-los, eles seriam capazes não só de me levar de volta à força, com as crianças, para a casa do meu sogro, quer dizer, do meu mari­do, mas teriam inclusive o topete de conseguir a condenação de nós dois, minha e de meu pai. Aliás, analisando melhor a situação, eu teria perfeita­mente podido fazer amor com Hassan, que achava mais humano e mais in­teligente que meu marido e que, na verdade, morria de paixão por mim. Mas se eu me deixasse dominar sem nenhuma prudência, em vez de me tornar sua esposa, eu passaria a ser sua simples serva — que Alá me preserve! Por­que, como eles temiam mais que tudo que eu voltasse para a casa do meu pai com meu dote, meus filhos e reclamando minha parte da herança do meu marido, eles não estavam nem um pouco dispostos a admitir uma deci­são do juiz que declarasse meu marido morto. Sem essa sentença, não podia me casar nem com Hassan nem com nenhum outro, mas ficava presa a eles por meio de um marido “desaparecido”, o que explica por que eles prefe­riam essa situação indefinida. Porque, repito, eu era pau para toda obra, da cozinha às roupas, sem falar na paixão furiosa que um deles me dedicava.

A melhor solução para meu sogro e para Hassan era que eu me casasse com este, mas para isso acontecer era preciso, antes de mais nada, arranjar umas testemunhas que convencessem o juiz da morte do meu marido. As­sim, se eles, pai e irmão, parentes mais próximos do meu marido desapareci­do, aceitassem a idéia de que ele estava morto, se mais ninguém opusesse obstáculos ao reconhecimento desse fato e se, a troco de algumas moedas de prata, umas falsas testemunhas declarassem ter visto seu cadáver num cam­po de batalha, seria fácil persuadir o juiz a dar esse veredicto. O mais difícil para mim era convencer Hassan de que, uma vez declarada viúva, eu não ia abandonar a casa, reclamar a herança — ou mais dinheiro para aceitar me casar com ele — e, sobretudo, de que eu me casaria com ele em virtude de um sentimento sincero. Claro, eu sabia que só ganharia sua confiança nesse sentido se fosse para a cama com ele de uma maneira tão convincente que ele se sentisse plenamente seguro de que eu não me entregava a ele a fim de obter seu consentimento para me divorciar do meu marido, mas sim por es­tar sinceramente apaixonada por ele.

Fazendo um esforço, eu bem poderia me apaixonar por Hassan. Ele é oito anos mais moço que meu marido e, quando este ainda estava conosco, Hassan era como um irmão para mim, o que nos aproxima naturalmente. Além disso, eu gostava dos seus modos despretensiosos e apaixonados, do seu prazer em brincar com meus filhos e daquele seu ar melancólico quando olhava para mim: é como se ele morresse de sede e eu fosse um sorvete de cereja. Mas como eu teria muita dificuldade de me apaixonar por alguém que não tinha vergonha de me obrigar a lavar a roupa e me mandar fazer as compras, como se eu fosse uma criada, uma escrava, eu disse a mim mesma que essa hipótese corria o risco de ser, no fim das contas, um tanto ou quan­to impossível. Naquela época, eu ia com freqüência durante o dia à casa do meu pai, onde chorava sem parar, olhando para os potinhos de tinta alinha­dos em seu ateliê, e de noite dormia com meus dois filhos agarrados a mim. Hassan nunca me deu o menor motivo para eu me apaixonar por ele. Como ele não era nada seguro de si, como não acreditava que aquela condição indispensável — eu me apaixonar por ele — pudesse se realizar, acabou se comportando mal. Tentou me agarrar, me beijar, suas mãos perderam o ru­mo, tudo isso me dizendo que meu marido não voltaria nunca, ameaçando me matar, chorando como um bebê. Nessa precipitação, ele não se dava tempo de cultivar um amor puro e nobre — como aquele que os livros ex­plicam tão bem —, e compreendi que nunca poderia me casar com ele.




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