Meu nome é Vermelho



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Uma noite, quando ele tentava arrombar a porta do quarto em que eu dormia com meus meninos, levantei-me imediatamente e, sem nem sequer me perguntar se não ia assustá-los, pus-me a berrar o mais alto que pude, di­zendo que os djins tinham entrado em casa. Os gritos acordaram meu sogro e eu lhe apontei Hassan, cujo estado de excitação ainda era visível, enquan­to eu continuava a gritar sob o efeito do pânico. Por entre as minhas vociferações histéricas e os meus gritos de possessa, o ancião conseguiu discernir a banal e terrível verdade: seu filho estava enrabichado e acabava de fazer uma investida desrespeitosa à sua própria nora, mãe de seus dois netos. Ele não disse nada quando afirmei que não ia conseguir dormir de novo e que tinha a intenção de ficar de vigília até o amanhecer, para proteger meus filhos dos djins. Mal raiou o dia, anunciei que voltava por algum tempo com eles, meus filhos, para a casa do meu pai, que necessitava dos meus préstimos. Hassan teve de aceitar sem reclamar. E eu tornei à minha casa de solteira, levando como única lembrança da minha vida de casada o relógio de carrilhão, par­te do butim da Hungria (que meu marido nunca cedeu à tentação de ven­der), o chicote feito com tendões dos mais impetuosos garanhões árabes (ines­timável), o tabuleiro de marfim de Tabriz, cujas peças as crianças usavam para brincar de soldadinho, e os castiçais de prata pilhados na batalha de Nahjivan, que defendi com unhas e dentes quando quiseram vendê-los.

Depois que abandonei o domicílio do meu marido, as investidas despudoradas e vulgares com que Hassan me oprimira transformaram-se, como eu imaginara, numa espécie de labareda tão nobre quanto desesperada. Como ele sabia não poder contar com o apoio do pai, em vez de ameaças pôs-se a me enviar cartas de amor, com passarinhos tagarelas, gazelas melancólicas, leões em lágrimas ornando as margens. Não dissimularei a vocês que reli, e reli, e reli essas cartas que, admitindo que ele não tenha mandado algum pintor e algum poeta amigos seus escrevê-las e desenhá-las, atestam uma ri­queza interior que eu não imaginava nele, na época em que vivíamos sob o mesmo teto. Nas últimas, ele me conta que, como ganha muito dinheiro, contratará um criado para os serviços domésticos. Essas palavras amáveis, respeitosas e bem-humoradas, somadas aos gritos incessantes dos meus fi­lhos, que viviam brigando, e aos gemidos constantes do meu pai, ressoavam na minha cabeça como o rufar de um tambor. Foi para aliviá-la que abri aquela janela, a fim de respirar um pouco de ar fresco.

Antes que Hayriye trouxesse a bandeja com a refeição da noite, prepa­rei para meu pai um fortificante à base das melhores flores de tamareira da Arábia, juntando uma colher de mel e um pouco de suco de limão. Quan­do entrei, ele estava lendo o Livro da alma. Como se eu mesma fosse uma, postei-me em silêncio diante dele sem deixar que ele notasse a minha pre­sença. Ele preferia assim.

“Está nevando?”, ele me perguntou como uma voz tão triste, tão frágil, que compreendi que era a última neve que meu pobre pai veria.

10. Eu sou a Árvore

Eu sou a Árvore, e sou muito solitária. Sempre que chove, eu choro. Ouçam, por Alá, a história que vou lhes contar. Tomem seu café, para que ele afugente o sono e seus olhos fiquem bem abertos. Olhem para mim co­mo se olhassem para um djim e eu lhes contarei por que sou tão sozinha.

1. Se fui desenhada às pressas numa feia folha de papel ordinário, foi só para que houvesse um desenho de árvore atrás do mestre contador de histó­rias. Verdade. Agora não tenho, ao meu lado, nem árvores delicadas, nem o mato das estepes, nem rochas tão cheias de deformações que parecem com o Diabo ou com o homem, nem nuvens chinesas se contorcendo no céu. Apenas a terra, o céu, o horizonte e eu. Mas minha história é muito mais complicada.

2. Como árvore, não preciso fazer parte de nenhum livro. Mas como desenho de árvore, não ser uma página de livro me deixa tremendamente perturbada. Eu me digo que, se não sirvo para ilustrar um relato, os idólatras e os infiéis vão pendurar meu desenho numa parede e se prosternar diante de mim para me adorar. Que os seguidores do hodja de Erzurum não me ouçam, mas pensar que isso pode acontecer até me dá certo orgulho secreto — logo em seguida, porém, tremo de medo e de embaraço.

3. O motivo principal da minha solidão é que eu mesma não sei a que história pertenço: estava destinada a ser parte de uma história, mas caí dela como uma folha morta. Deixem-me lhes contar tudo direitinho:

DE QUE MODO CAI DA MINHA HISTORIA

COMO UMA FOLHA CAI DA ÁRVORE

Quarenta anos atrás, o xá Tahmasp do Irã, que era o maior inimigo do nosso império e também o maior rei-patrono da arte da pintura, começou a ficar senil, e sua paixão pelos prazeres, o vinho, a música, a poesia e a pintu­ra arrefeceu. Pior ainda, parou de tomar café e, naturalmente, sua cabeça parou de funcionar. Assaltado por sombrias suspeitas, o velhote, de cara aus­tera e comprida, mudou sua capital de Tabriz, que ainda era persa na época, para Kazvin, a fim de ficar mais longe do exército Otomano, dizia ele. Fican­do ainda mais velho, certo dia foi possuído por um djim, teve uma crise de nervos e, pedindo perdão a Alá, abandonou completamente o vinho, os efe­bos e a pintura, o que é prova de que esse grande rei, ao perder o gosto pelo café, também havia perdido o espírito.

Foi por isso que os divinamente inspirados encadernadores, calígrafos, douradores e pintores, que criaram durante vinte anos, em Tabriz, as maio­res obras-primas do mundo, se dispersaram por outras cidades, como um ban­do de perdizes. O sultão Ibrahim Mirza, que era sobrinho e genro do xá Tah­masp e governador de Mechhed, chamou os mais brilhantes, instalou ateliês para eles numa vasta morada e resolveu mandá-los pintar e copiar os sete ci­clos de fábulas dos Sete tronos da Ursa Maior, obra de Djami, o maior poeta da corte dos timúridas em Herat. Dividido entre o afeto e o ciúme por esse sobrinho bom e esclarecido, a quem lamentava ter dado sua filha, xá Tah­masp, ao saber do projeto, foi tomado por um violento despeito e exilou em Kain o governador de Mechhed. Depois, num novo acesso de raiva, baniu-o para o povoado de Sabzivar. Então os calígrafos e os pintores de Mechhed se dispersaram novamente por outras cidades, outros reinos, a serviço de ou­tros príncipes e outros sultões.

Mas, por milagre, a história do livro do sultão Ibrahim Mirza não termi­na aí, porque seu bibliotecário, um verdadeiro esteta, montou no cavalo e partiu para Shiraz, onde morava o melhor mestre dourador; depois levou a Isfahan duas páginas para um copista cuja caligrafia Nestalik era tida como a mais delicada; em seguida, atravessando as montanhas até chegar a Bukhara, pediu ao grande mestre pintor, que aí trabalhava para o cã dos uzbeques, que fizesse a composição e pintasse os personagens. De volta para Herat, pe­diu, dessa vez a um mestre da antiga escola, já meio cego, para pintar as si­nuosas curvas das folhas e das plantas; e, sempre em Herat, mandou traçar com ouro, em escrita Rika, a inscrição da janela acima do desenho. De vol­ta a Kain, apresentou as poucas páginas que tinha realizado parcialmente durante essa viagem de seis meses e recebeu os cumprimentos do sultão des­tronado, Ibrahim Mirza.

Compreenderam porém que, naquele ritmo, o livro nunca seria con­cluído, e contrataram mensageiros tártaros. Confiava-se a cada um deles, com as páginas a completar, uma carta para ser entregue ao artista, descre­vendo o trabalho pedido. Assim, os mensageiros, levando as páginas do livro, percorreram todo o Irã, o Khurasan, o reino dos uzbeques, chegando até às rotas de caravana da distante Transoxânia. Agora, o livro progredia à veloci­dade dos cavalos. Às vezes, numa noite de inverno, num caravançará em que se ouviam os lobos uivar, a qüinquagésima nona página encontrava a centé­sima sexagésima segunda e, ao travarem conhecimento, davam-se conta de que trabalhavam para a mesma obra e iam buscar no quarto as páginas, para tentar compreender, comparando-as, de que história faziam parte, a que epo­péia se referiam.

Era para eu também ser uma página desse livro que, ouvi dizer com tris­teza, foi terminado hoje. Que pena que, num dia de inverno, uns salteado­res de tocaia num desfiladeiro rochoso tenham cortado o caminho do meu mensageiro tártaro. Começaram lhe dando uma sova, em seguida, confor­me o costume dos salteadores, deixaram-no inteiramente pelado e, depois de roubá-lo, mataram sem dó nem piedade o pobre estafeta. E por isso que não sei de que página caí. Pergunto então para vocês que estão me olhando: vocês acham que eu estava destinada a dar sombra a Majnun no deserto, quando, disfarçado de pastor, ele visita Leila em sua tenda? Estaria eu desti­nada a me desvanecer na noite, a fim de exprimir a escuridão da dúvida e do desespero na alma do rapaz? Eu teria gostado tanto de assistir à felicidade de dois amantes que, fugindo do mundo, depois de atravessarem as montanhas, encontram por fim a paz numa ilha cheia de pássaros e de frutas! Teria gos­tado tanto de emprestar minha sombra aos derradeiros momentos de Ale­xandre, quando morre sangrando do nariz, vítima de insolação, durante a conquista do país do Indo! A não ser que eu tenha sido concebida para re­presentar a idade e a força do pai transmitindo ao filho preceitos sobre o amor e sobre a vida... Digam, a que história eu estava destinada a dar maior pro­fundidade e delicadeza?

Um dos bandidos que, depois de terem matado meu tártaro, se apode­raram de mim e me levaram de montanha em montanha e de cidade em ci­dade, era sutil o bastante para reconhecer meu valor e compreender que olhar o desenho de uma árvore é melhor que olhar uma árvore, mas como ele ignorava a que relato eu me referia logo se cansou de mim. Ao contrário do que eu temia, esse fora-da-lei, em vez de me rasgar e me jogar fora, me vendeu num caravançará, por uma jarra de vinho, a um homem magérrimo. Às vezes, de noite, à luz de uma vela, esse homem me contemplava, cho­rando. Quando morreu de tristeza, puseram seus bens à venda e, graças ao mestre satirista que me comprou, cheguei a Istambul. Agora estou feliz! De fato, que honra estar aqui esta noite, entre vocês, pintores e calígrafos mira­culosamente inspirados do Sultão otomano, de mãos peritas, olhos de águia, vontade de ferro, punhos tão sensíveis, alma tão delicada! E, por Alá, eu lhes rogo, não creiam nos que dizem que fui desenhada às pressas num papel or­dinário, por um dos pintores aqui presentes, para ser grudada numa parede.

Vejam só que calúnias, a que mentiras descaradas alguns se permitem. Vocês se lembram que, ontem à noite, aqui neste mesmo lugar, meu autor colou nesta parede o desenho de um cachorro e narrou as aventuras desse bicho sem-vergonha, e depois também as de um tal de Husret Hodja, de Er­zurum. Pois bem, os admiradores de Sua Excelência Nusret Hodja interpre­taram tudo errado: acharam que ele, Sua Venerada Excelência, é que teria sido visada! Mas como poderíamos dizer que nosso grande pregador é filho de pai desconhecido? Arre! Imaginem se uma coisa dessas ia me passar pela cabeça! Que detração, que mentira deslavada! Se confundem tão descarada­mente assim os hodjas Husret e Nusret, de Erzurum ambos, então vou lhes contar a História da árvore e de Nedret Hodja, o Zarolho de Sivas.

Além de anatematizar a pintura e o amor aos efebos, esse hodja zarolho dizia que o café é coisa do Diabo e aquele que o beber vai direto para o Inferno. Escute aqui, seu mequetrefe de Sivas, já se esqueceu como este meu galho grosso ficou torcido? Vou lhes contar como foi, mas jurem que não vão repetir a ninguém, que Alá nos guarde de caluniar quem quer que seja. Acor­do uma bela manhã e descubro que um homem gigantesco — que Alá o pro­teja, ele era alto como um minarete e tinha braços fortes como os de um leão! — tinha trepado neste meu galho e se escondido entre a minha luxu­riante folhagem em companhia do supracitado hodja para, se me permitem a expressão, ali fazerem troca-troca. Enquanto fazia o que tinha de fazer com o nosso hodja, o gigante, que mais tarde compreendi tratar-se do Diabo, bei­java a formosa orelha deste e sussurrava dentro dela: “O café é um pecado, o café é um vício...”.

É claro que quem crê nessas balelas sobre os malefícios do café não acre­dita nos mandamentos da nossa bela religião, mas sim no Diabo em pessoa.

Para terminar, quero dizer uma palavra sobre os pintores do Ocidente, para que, se houver entre vocês quem tenha a pretensão de imitá-los, fique avisado e trate de mudar de idéia. Ao que parece, esses pintores deram de pintar os rostos dos reis, dos sacerdotes, dos senhores e até das mulheres des­tes, de tal maneira que quem vê o retrato possa reconhecê-los na rua. Aliás, as esposas deles andam na rua como bem entendem, e o resto vocês podem imaginar. Como se não fosse o bastante, usa-se e abusa-se da tal pintura co­mo se fosse uma alcoviteira...

Certo dia, um grande pintor europeu passeava com um colega numa campina, conversando sobre sua arte, quando avistaram uma floresta. O que tinha maior mestria teria dito ao outro: “Para pintar no novo estilo, tem-se de pintar cada árvore desta floresta de tal modo que uma pessoa que visse a pintura pudesse vir aqui e reconhecer cada uma delas”.

Eu que, como vocês vêem, não passo de uma pobre árvore, agradeço a Alá não ter sido pintada de tão douta maneira. Mas não é por temer que, se fosse desenhada à francesa, todos os cachorros de Istambul, tornando-me por uma árvore de verdade, viessem mijar em mim. É que não aspiro ser uma árvore, e sim seu símbolo.

11. Meu nome é Negro

A neve começou a cair no fim do dia e continuou até de manhã. Eu ti­nha passado a noite toda relendo a carta de Shekure. Extremamente excita­do, andava de um lado para o outro no quarto vazio da casa vazia, voltando o tempo todo para junto da luz trêmula e amarela da vela, a fim de observar o tremor nervoso dos caracteres traçados com cólera por minha amada, a pro­gressão das curvas que, da direita para a esquerda, se contorcem e se ligam para melhor urdir seus enganos. De repente, a sua janela se abria ali, diante de mim, e o rosto da minha amada, com aquele seu sorriso triste, aparecia. E quando vi seu verdadeiro rosto, esqueci todos aqueles outros que eu trazia na minha imaginação nos últimos seis ou sete anos, com aquela boca de ce­reja que ia ficando cada vez mais madura, mais vermelha, e acabava toman­do toda a fisionomia.

No meio da noite, perdi-me em sonhos de casamento. Não tinha a me­nor dúvida do meu amor por ela, nem de que ele era correspondido. Nós nos casávamos num estado de grande felicidade, mas essa minha felicidade imaginária, instalada numa casa cheia de escadas, logo se esvaiu porque eu não conseguia arranjar um trabalho adequado, e dei de discutir com a minha mulher, mas ela nem ligava para o que eu dizia. Em torno da meia-noite, compreendendo que essas sombrias quimeras provinham, em parte, da Res­surreição das ciências, de Al-Gazali, que eu havia lido na Arábia durante mi­nhas longas noites de solteiro, lembrei-me também que as mesmas páginas consagradas ao casamento se estendiam muito mais sobre as vantagens des­te. Mas, a despeito de todos os meus esforços, não consigo me lembrar de nenhuma outra, além destas duas: primeiro, o casamento introduz ordem num casal, e na casa cheia de escadas do meu sonho não havia ordem algu­ma; o segundo argumento era que eu escapava assim do vício do prazer soli­tário e do vício, bem pior, de me deixar conduzir por uma cafetina, no escu­ro das ruas transversais, até os antros de prostitutas.

Esses pensamentos, já era quase uma da madrugada, me trouxeram à mente a masturbação. Desejando manter as idéias claras e tirar essas obses­sões da cabeça o mais depressa possível, fui para um canto do quarto, como de costume, mas logo compreendi que não conseguiria me acalmar daquele jeito: doze anos depois, eu estava novamente apaixonado.

Essa constatação — inabalável, se ouso dizer — me causou tamanha emoção e tanto medo, que agora eu andava pelo cômodo tremendo como a luz da vela. Se, de fato, com aquela carta Shekure me abria uma espécie de janela, por que as palavras que ela empregava parecem me dizer o contrá­rio? Por que seu pai, se a filha não queria saber de mim, me convidava? Por que eles brincavam assim comigo, os dois, pai e filha? Caminhando pelo quarto, parecia que a porta, a parede, o assoalho estridente, com seus rangi­dos que faziam eco ao balbucio dos meus pensamentos, procuravam respon­der a essas minhas perguntas.

Olhei demoradamente para o desenho que eu fizera anos atrás, de Shi­rin que se apaixona por Khosrow ao ver o retrato deste pendurado no galho de uma árvore. Eu tinha me baseado, então, na ilustração de um livro de qualidade medíocre, trazido recentemente de Tabriz, que havia na casa do meu Tio. Esse desenho já não me envergonhava, como cada vez que me lembrava dele ao longo de todos aqueles anos, e era natural que assim fosse, dada a ingenuidade do traço e da declaração de amor que ele continha; mas tampouco reavivava lembranças felizes da minha juventude. Raiava o dia quando consegui pôr as idéias em ordem, e interpretei seu gesto — mandar-me de volta o desenho — como uma espécie de ofensiva no tabuleiro do amor. Por fim, levantei-me e escrevi uma resposta.

Naquela mesma manhã, depois de dormir mais um pouco, saí à rua, le­vando a carta junto ao peito e o estojo com a pena e o tinteiro na cinta, co­mo de costume. Caminhei um bom momento. A neve parecia ter alargado as estreitas ruas de Istambul e tinha feito a multidão habitual desaparecer de­las Tudo estava mais silencioso e mais calmo, como na minha infância; e, como na minha infância, um exército de corvos parecia ter tomado de assal­to os telhados, as cúpulas e os jardins cobertos de neve. Ia depressa, ouvindo o ruído dos meus passos abafado pela neve, vendo o hálito vaporoso que saía da minha boca, feliz por saber que aquele edifício aonde meu Tio me pedira que eu fosse e em que se encontrava o Grande Ateliê do Nosso Sultão estaria tão silencioso quanto as ruas. Sem entrar no bairro judeu, marquei por inter­médio de um garoto um encontro com Ester, a quem pediria que entregasse minha carta a Shekure, para antes da prece do meio-dia.

Cheguei adiantado ao ateliê dos artistas do sultão, que ficava atrás da mesquita de Hágia Sofia. A parte o gelo que pendia das cornijas, nada pare­cia mudado ali, onde, graças a meu Tio, eu havia sido admitido por um tem­po para fazer meu aprendizado e, terminado este, guardara alguns contatos.

Um belo e jovem aprendiz veio me abrir o caminho. Passamos pelos ve­lhos mestres encadernadores, com o cérebro inebriado pelos eflúvios da go­ma de adraganto, por jovens mestres pintores de dorso prematuramente ar­queado e pelos garotos que preparavam os pigmentos, sem nem sequer relancear para as tigelas presas entre as pernas, os olhos tristes fixados nas chamas da estufa. Vi num canto um velhote colorindo meticulosamente o ovo de avestruz que tinha no colo e, ao seu lado, outro, um pouco mais mo­ço, pintando com bom humor a gaveta de uma cômoda — um jovem apren­diz observava respeitosamente os gestos dos dois. Por uma porta aberta, vi uns alunos que, por suas faces rubras, sem dúvida acabavam de receber um carão e que, com o nariz enterrado em sua folha de papel, procuravam com­preender onde estava o erro que tinham cometido. Numa outra sala, um aprendiz melancólico, esquecendo-se momentaneamente das suas tintas, das suas folhas e da sua pintura, olhava distraído para a rua coberta de neve da qual eu acabava de chegar, cheio de ansiedade. Os outros, sentados diante da porta aberta, um copiando uma cena, outro preparando moldes de cartão e tintas, ou apontando lápis, olharam para aquele estranho — eu — com hostilidade.

Subimos a escada gelada e seguimos pela galeria coberta que ladeava as quatro faces internas do prédio e para a qual davam as salas do segundo andar. Embaixo, no pátio nevado, dois jovens alunos, tiritando de frio apesar do espesso capote de lã rústica, aguardavam alguma coisa, sem dúvida que lhes aplicassem um corretivo. Lembro-me das varadas e das bastonadas na planta dos pés, até a pele romper, que os alunos negligentes ou os que des­perdiçavam pigmentos caros levavam.

Entramos numa sala aquecida, onde os pintores estavam tranqüilamen­te ajoelhados: eram jovens que acabavam de terminar o aprendizado. Agora que os grandes artistas — aqueles a quem Mestre Osman havia dado apeli­dos de ateliê — trabalhavam em casa, essa sala, que suscitara em mim arrou­bos de apaixonada veneração, já nem parecia ser o Grande Ateliê do nosso rico e poderoso soberano, mas uma espécie de refeitório de caravançará, per­dido no silêncio das montanhas do Leste.

Num canto, diante de um estrado, o Grande Mestre Osman, que eu não via fazia quinze anos, causou-me o efeito de um espectro surgido das trevas. Durante minhas viagens, sempre que eu pensava em pintura, o Grande Mes­tre Iluminador me vinha à mente, aureolado de prestígio, como se encarnas­se o próprio Bihzad. E, naquele instante, à luz branca que, proveniente da janela que dava para Hágia Sofia, caía verticalmente sobre seus compridos trajes brancos, parecia de fato chegar diretamente do Outro Mundo. Beijei, prosternando-me, sua velha mão salpicada de manchas e me apresentei. Lem­brei-lhe que meu Tio tinha me feito entrar aqui menino, mas que, como eu preferisse o cálamo aos pincéis, a vida tinha me levado a ser secretário de vá­rios paxás nas cidades do Leste, cuidando dos seus registros e das suas con­tas; que, com uns calígrafos e pintores que encontrara em Tabriz, havia ter­minado por produzir livros, onde quer que eu me encontrasse, em Bagdá, Alepo, Van ou Tiflis — para Serhat Paxá, entre outros —, e que vira muitas batalhas.

“Ah, Tiflis!”, exclamou então o Grande Mestre, observando a luz bran­ca através do encerado que resguardava a janela do jardim coberto de neve. “Eu me pergunto se estará nevando por lá.”

Ele se comportava como aqueles velhos mestres persas que abundam nas lendas e que, ao chegarem a certa idade, já cegos devido ao seu traba­lho, passam o resto da vida meio santos, meio loucos. Mas eu podia discernir em seus olhos, vivos como djins, algo do ódio feroz que ele tinha por meu Tio e certa desconfiança em relação a mim. Comentei que, enquanto nos desertos da Arábia a neve também cobre as velhas lembranças, aqui ela só parece cair sobre a grande mesquita de Hágia Sofia. Contei também que, quando neva sobre a fortaleza de Tiflis, as lavadeiras cantam canções cheias de coloridos floreios e as crianças guardam o gelo debaixo dos cobertores pa­ra fazer sorvete no verão.

“Conte o que desenham e o que pintam nos lugares onde você esteve”, pediu.

Um jovem pintor sonhador, que traçava melancolicamente linhas à ré­gua em seu canto, ergueu a cabeça da sua mesa e olhou para mim, com ar de quem espera ouvir o mais verdadeiro, o mais autêntico dos relatos mara­vilhosos. Muitos daqueles artesãos, eu estava convencido, ignoravam o no­me do merceeiro do seu bairro, não sabiam que ele não se dava com seu vi­zinho, o verdureiro, não tinham a menor idéia do preço do pão, mas estavam perfeitamente a par das obras encomendadas em Tabriz, Kazvin, Shiraz ou Bagdá, do dinheiro gasto em determinado livro por determinado cã, xá, sul­tão ou príncipe; e, principalmente, dos mexericos da profissão, que se difun­dem com a velocidade da peste. Mesmo assim relatei o que ele me pedia, pois eu voltava justamente desse Oriente, daqueles confins do Irã em que há séculos se produzem esses desenhos e essas pinturas, em que se escrevem os melhores poemas e do qual cada dia que nasce traz a notícia dos novos exér­citos em guerra, dos príncipes que se degolam uns aos outros, das cidades sa­queadas e incendiadas, de novas batalhas e novos tratados.

“Como o senhor sabe, o xá Tahmasp, após cinqüenta anos de reinado, esqueceu em seus derradeiros anos seu amor pelos livros e pela pintura, vi­rou decididamente as costas para os poetas, pintores e calígrafos, e entregou-se inteiramente à devoção até morrer, o que levou ao trono seu filho, Ismail. O jovem xá, que o pai mantivera trancado por vinte anos por causa do seu temperamento instável e briguento, descontou sua raiva nos irmãos mais moços, mandando estrangular todos eles, não sem, às vezes, furar-lhes os olhos antes. Mas seus pérfidos inimigos conseguiram livrar-se dele, envenenando-o pouco a pouco com ópio, e instalaram no trono o irmão mais velho, Muhammad Khudabandah, que era débil mental. Sob o reinado deste último, todos os príncipes, seus meios-irmãos, os governadores das províncias e até os uzbeques se revoltaram e, voltando-se contra o nosso Serhat Paxá, move­ram uma guerra impiedosa ao império, puseram o Irã a ferro e fogo, deixan­do atrás de si apenas ruínas fumegantes. O xá atual, sem dinheiro nem fortu­na, fraco de espírito e quase cego, não tem a menor condição de mandar copiar ou pintar novos livros. Assim, os famosos pintores de Herat e Kazvin, os velhos mestres e os aprendizes que haviam produzido as obras-primas da biblioteca de Tahmasp e cujos pincéis punham nas páginas cavalos a todo galope e faziam as borboletas voarem para fora dos livros, os melhores dese­nhistas, coloristas, encadernadores e calígrafos se viram todos sem trabalho e sem apoio, sem recursos e sem dinheiro, sem teto e sem pátria. Exilaram-se todos, uns no Norte, na terra dos seibânidas, outros no Hindustão, outros aqui mesmo, em Istambul. Houve os que mudaram de profissão, sacrifican­do sua honra e sua razão de ser; houve os que aceitaram cometer, por conta de pequenos governadores e príncipes em perpétua guerra, volumes que ca­bem na palma da mão, com quatro ou cinco páginas de miniaturas no máxi­mo. Esses livros baratos, copiados às pressas, mal ilustrados, correspondem ao gosto dos soldados rasos, dos paxás grosseiros e dos príncipes degenerados. Difundiram-se por toda a parte.”




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