Meu nome é Vermelho



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“E por quanto os vendem?”

“Dizem que o grande Sadiki Bei ilustrou, para um cavaleiro uzbeque qualquer, um exemplar das Criaturas maravilhosas, por apenas quarenta moedas de ouro. Vi com meus próprios olhos em Erzurum, na tenda de um desses paxás desprovidos de qualquer vestígio de coragem, que voltava de uma campanha no Oriente, uma antologia galante, ricamente pintada e ilu­minada, parece, em certas páginas, da própria mão do tenebroso grande mes­tre Siyavush. Certos grandes mestres que ainda não renunciaram ao ofício vendem desenhos à unidade, sem relação com uma história ou um livro. Vendo esses desenhos avulsos, é impossível dizer de que cena se trata, de que história. Aprecia-se e paga-se o pintor pela beleza do tema, como eles dizem, por exemplo, por um cavalo, só pelo prazer de contemplar e dizer: ‘Que lin­do, um cavalo perfeito!’. As imagens de guerra ou pornográficas são muito requisitadas. Com isso, uma grande cena de batalha não vale mais que tre­zentas moedas de prata, que, aliás, quase ninguém encomenda. Para baixar o preço e achar comprador, alguns chegam ao cúmulo de fazer num papel grosseiro, não preparado, desenhos sem cores, em preto-e-branco.”

“Tínhamos um dourador dotado de um grande, um enorme talento, que transpirava alegria de viver”, comentou Mestre Osman. “Seu trabalho era tão elegante que nós o chamávamos de Elegante Efêndi. Mas ele nos abandonou. Faz seis dias que não o vemos. Sumiu sem deixar rastro.”

“Mas quem iria querer sair deste ateliê, que é como um lar feliz em que o pai é o senhor?”, perguntei.

“Quatro dos meus jovens mestres — Borboleta, Oliva, Cegonha e Ele­gante —, que estavam aqui desde o fim do aprendizado, exercem agora sua arte em casa, por instrução do Nosso Sultão”, respondeu Mestre Osman.

Aparentemente, tratava-se de lhes dar condições para trabalhar com mais calma, enquanto todo o ateliê estava ocupado em preparar o célebre Livro das festividades. Mas desta vez o Sultão, em vez de reservar para uso deles um pavilhão no recinto do palácio, resolveu que trabalhariam em casa para a feitura de um livro muito especial. Pareceu-me imediatamente que devia se tratar da disposição tomada para o livro dirigido por meu Tio, mas eu não disse nada. E será que Mestre Osman não estava jogando verde para colher maduro?

“Claro Efêndi”, chamou em tom de caçoada, dirigindo-se a um pintor curvado e pálido, “leve o Negro Efêndi para fazer a ‘inspeção’ do ateliê.”

A Grande Inspeção era a visita em grande pompa às dependências do ateliê, que o Sultão fazia regularmente, a cada dois meses, na época saudosa em que acompanhava com atenção as atividades de seus miniaturistas. Acom­panhado pelo Tesoureiro-Mor Hazim, pelo Cronista-Mor Lokman e pelo Grande Mestre Iluminador Osman, Nosso Sultão era informado sobre que artista trabalhava em que página, de que livro, em que douradura, pintava que cor, e conferia cada um dos trabalhos executados por cada um desses pintores, douradores e até pelo mais humilde traçador de linhas, por todas aquelas mãos dotadas de tão grandes talentos.

Como o Venerável Cronista-Mor Lokman, que escrevera a maioria dos textos dos livros do ateliê, não saía mais de casa por causa da idade avança­da, como o Grande Mestre Osman parecia a maior parte do tempo desapa­recido numa nuvem de indignação e cólera, como Borboleta, Oliva, Cego­nha e Elegante, os quatro grandes nomes do ateliê, agora trabalhavam em casa, e como o Sultão já não mostrava a paixão de antes por seu capricho, essa paródia de uma cerimônia que não se realizava mais me entristeceu. Meu acompanhante, Nuri Efêndi — isto é, o Claro Efêndi — havia enve­lhecido inutilmente, pois não alcançara a mestria de sua arte e tampouco ti­vera a oportunidade de viver. Mas não foi em vão que ficou corcunda, tanto que passou em revista para mim toda a história do ateliê, sem se descuidar dos elogios a uma imagem sequer ou a seu autor.

Foi assim que pude por fim admirar as maravilhosas páginas do Livro das festividades, que reproduzem as festas da circuncisão dos príncipes im­periais. A algazarra das cerimônias, que haviam durado cinqüenta e dois dias e por cuja ocasião todos os ofícios e todas as corporações de Istambul tinham rivalizado em talento, havia chegado aos meus ouvidos até o Irã, e eu tivera notícia do livro em questão quando ele ainda estava sendo feito.

Na primeira imagem que Nuri Efêndi me mostrou, Nosso Sultão, Pro­tetor do Mundo, sentado no camarote real do palácio do falecido Ibrahim Paxá, acompanhava com um olhar satisfeito os festejos na praça de armas. Seu rosto, embora não pudesse ser distinguido dos outros por algum deta­lhe, era desenhado com o maior cuidado e a maior reverência. Do lado di­reito da imagem em página dupla que mostrava Nosso Sultão à esquerda, os vizires, os paxás, os embaixadores da Pérsia, da Tartária, da Europa e de Ve­neza apareciam nas janelas e galerias. Ao contrário do Nosso Sultão, os olhos dessas personagens tinham sido pintados apressadamente, sem maiores cui­dados, seus olhares não fixavam nada, salvo a agitação geral do espetáculo. Notei depois, nas outras pinturas que me apresentou, que se repetiam o mes­mo arranjo dos elementos e a mesma composição de página, mas as decora­ções murais, as árvores, os azulejos eram pintados com formas e cores dife­rentes. Assim, encadernadas em livro as folhas de texto e de imagens, à medida que o leitor desse Livro das festividades virava suas páginas, via cada vez um espetáculo variado, sempre diverso, da mesma praça de armas sob o olhar implacável do Sultão e da multidão de convidados.

Também vi a confusão em torno das centenas de tigelas de arroz; o sus­to provocado pelas lebres e pela passarada que emergia de um boi assado in­teiro; os representantes da corporação dos ferreiros passando diante do Sul­tão numa carroça de rodas enormes, batendo com precisão seus martelos numa bigorna posta em cima do peito de um deles, deitado, sem o machu­car. Vi os vidraceiros fabricarem vidros ornados de cravos e ciprestes na sua carroça; os confeiteiros recitarem melosos gazéis, puxando camelos carregados de sacos de açúcar e exibindo periquitos de açúcar em suas gaiolas, que também eram para comer; velhos serralheiros deplorando a insegurança de hoje, que requeria todas aquelas novas portas e os fazia lucrar com todos aqueles ferrolhos, cadeados e postigos. O desenho que representava os saltimbancos havia recebido a tríplice contribuição de Borboleta, Cegonha e Oliva: um malabarista fazia os ovos passarem da ponta de uma vareta à ou­tra só os deixando cair numa chapa de mármore, enquanto seu colega toca­va um tamborim. O almirante da armada, Kilitch Ali Paxá, mandara os cati­vos da sua derradeira campanha erguer uma montanha de lama representando a Terra Infiel, erguida no mesmo carro em que iam eles, prisioneiros, e quan­do passavam diante do Sultão uma carga de pólvora explodia o país desses incréus, em meio aos seus gemidos, para mostrar como ele havia arrasado seus Estados a canhonaços. Vi ainda, vestindo seu traje de listas rosas e ro­xas, brandindo seus facões, os jovens açougueiros, sorridentes como mocinhas com seus rostos sem barba nem bigode, içando no gancho de uma com­prida vara a carcaça rosada dos carneiros esfolados; e um leão que espicaçavam sem cessar era apresentado, devidamente acorrentado, ao Sultão, rugindo de furor, olhos injetados de sangue, e os espectadores aplaudiam quando a fera, simbolizando o islã, perseguia na outra página um porco de pele rosa e cinza, figurando os porcos cristãos. Depois de regalar meus olhos até a sacie­dade com a miniatura em que um barbeiro, pendurado no teto pelos pés, escanhoava um cliente, enquanto seu aprendiz, todo vestido de vermelho, traz numa mão a vasilha de prata cheia de sabão perfumado e oferece, com a ou­tra, um espelho ao cliente, esperando sua gorjeta, quis saber quem era o au­tor daquela obra magnífica.

“O que importa é que essa pintura, com sua beleza, presta homenagem a riqueza da vida dos homens, ao amor e às cores do mundo tal como Alá o criou, e exorta-nos à piedade e à reflexão. A identidade do miniaturista não importa.”

Será que Nuri, o Miniaturista, que era muito mais sutil do que eu ima­ginara, dava mostras de tamanha prudência por ter desconfiado de que eu ti­nha sido enviado ali por meu Tio para bisbilhotar, ou simplesmente repetia as palavras do Grande Mestre Osman?

“Essas douraduras todas são obra do Elegante Efêndi?”, perguntei. “Quem faz as douraduras em seu lugar agora?”

De repente, vindos do pátio, gritos de dor de crianças chegaram até nós pela porta que dava para a galeria. Lá embaixo, um dos bedéis começava a administrar a bastonada na planta dos pés dos dois que havia algum tempo aguardavam tremendo no frio, certamente culpados de terem escondido uma folha de ouro num papel ou uma porção de pigmento grená no fundo do bolso. Os aprendizes de pintor, aproveitando essa excelente oportunidade para se divertir, foram correndo assistir ao espetáculo.

“Quando os aprendizes acabarem de pintar a poeira do hipódromo com o rosa-carmim que nosso Mestre lhes prescreveu para esta imagem, nosso ir­mão Elegante, que Alá assim queira, já terá voltado para terminar de dourar estas páginas. Mestre Osman pediu ao Elegante Efêndi que a poeira fosse pintada cada vez de uma cor diferente: rosa-carmim, verde-indiano, amarelo-açafrão ou cocô de ganso. Porque o olho, ao ver a primeira imagem, com­preende que se trata de um lugar, que o chão deve ser de certa cor; mas pa­ra aceitar demorar-se na segunda ou na terceira, ele reclama outras cores. As imagens são feitas para alegrar as páginas.”

Num canto, estava abandonada uma página para um Livro de vitórias, em que se via a frota imperial aparelhando-se para a guerra. Seu autor, um dos aprendizes mais velhos, certamente havia saído correndo ao ouvir os gri­tos dos seus colegas para assistir às bastonadas. Aqueles navios, todos eles idên­ticos, copiados com ajuda de um molde de cartão, nem pareciam flutuar no mar, mas a feiúra dessa frota e das suas velas, em que não se sentia a força do vento, devia-se menos ao modelo do que à imperícia do jovem pintor. Pensei com tristeza que o modelo deve ter sido selvagemente rasgado, arrancado de um volume — sem dúvida uma seleta — cujo tema eu não conseguia identi­ficar. Mestre Osman, visivelmente, não supervisionava mais grande coisa.

Ao chegarmos à sua mesa de trabalho, Nuri Efêndi me disse com orgu­lho que ele acabava de terminar a douradura para uma assinatura do Nosso Sultão, na qual havia penado três semanas. Contemplei com respeito a dou­radura e a assinatura, feita numa folha em branco, para não desvendar o no­me do destinatário nem o conteúdo do firmã. Aliás, eu sei que, no Leste, muitos paxás turbulentos, à simples vista dessa magnífica assinatura que trans­pira força e nobreza, esquecem todo grão de revolta.

Admiramos as últimas obras-primas transcritas pelo calígrafo Djemal e, para não dar razão aos inimigos da pintura e da cor, que afirmam que a caligrafia é a arte fundamental e que a iluminura nada mais é que um pretexto para valorizá-la, passamos rapidamente por elas.

O traçador de linhas Nasir estava devastando uma página, que preten­dia restaurar, de uma seleta do Quinteto, de Nizami, datada da época timúrida, em que se via Khosrow surpreender Shirin banhando-se nua no braço de um rio.

Um velho mestre de noventa e dois anos, já meio cego, que não tinha outra história a contar além da de ter beijado, sessenta anos atrás, a mão de Bihzad, o lendário mestre de Tabriz, que, dizia ele, já estava então cego e gagá, mostrou-nos com uma mão trêmula o estojo de caligrafia que ele or­namentava a fim de oferecer, dali a três meses, para a festa do Nosso Sultão.

Um silêncio pesado se abateu sobre todo o ateliê onde trabalhavam, nas pequenas celas daquele andar, uns oitenta pintores, jovens aprendizes e alu­nos de todas as idades. Eu conhecia muito bem esse silêncio que se sucede às bastonadas, quebrado de longe em longe por uma risadinha ou um grace­jo, ou por alguns soluços que me recordavam outros, pelos choros contidos, os gemidos dos novatos, de que os mestres também se lembravam. E diante desse velho mestre de noventa e dois anos, tive a sensação, furtiva mas pro­funda, de que aqui, longe dos tumultos e das batalhas, cada coisa chegava a seu fim; e de que após o fim do mundo reinaria o mesmo silêncio.

A pintura é silêncio para o espírito e música para os olhos.

Beijando a mão de Mestre Osman para me despedir, sentia na minha alma, além de um grande respeito, uma perturbação de outra ordem, essa espécie de piedade e entusiasmo misturados que a gente experimenta diante da santidade: um estranho sentimento de culpa. Sem dúvida porque meu Tio, ao defender mais ou menos abertamente o estilo dos pintores da Europa, era seu rival e lhe fazia sombra.

Ao mesmo tempo, pensando que aquela talvez fosse a última vez que via o Grande Mestre Iluminador, mas também com a intenção de lhe ser agradável, decidi fazer uma derradeira pergunta a ele:

“Venerado Grande Mestre, o que distingue um verdadeiro grande pintor?”

Eu esperava que o mestre de pintura, acostumado com esse tipo de per­guntas complacentes, me respondesse de uma maneira evasiva, se já não houvesse pura e simplesmente esquecido minha presença.

“Não há um critério único capaz de distinguir o grande pintor de um pintor sem fé nem talento”, sentenciou com gravidade. “Isso muda com o tempo. Mas é importante conhecer a mestria e a moralidade com que ele faria oposição aos males que ameaçam nossa arte. Hoje, para saber se um jo­vem é um pintor de verdade, faço-lhe três perguntas.”

“Quais?”


“Primeiro, se ele acredita que deve ter um método próprio de pintura, um estilo pessoal, como é infelizmente a tendência atual, por influência dos chineses e dos europeus. Deseja ele ter, como ilustrador, uma maneira, uma característica que o diferencie dos outros e pretende prová-la apondo sua as­sinatura num canto, como os mestres ocidentais? Portanto, a primeira coisa que procuro esclarecer é essa questão de estilo e de assinatura.”

“E depois?”, perguntei, com todo o respeito.

“Depois, quero saber o que sente esse pintor em relação aos livros que mudam de mão e são desencadernados para nossas pinturas serem reutiliza­das em outros livros, em outras épocas, depois da morte dos xás e sultões que os encomendaram. É uma questão sensível, a meu ver, à qual não se pode responder simplesmente mostrando-se alarmado ou complacente. E por isso que interrogo o pintor sobre o Tempo — o Tempo dos pintores e o Tempo de Alá. Está me entendendo, meu filho?”

Não, eu não entendia, mas sem responder passei à terceira pergunta.

“A terceira pergunta se refere à cegueira”, disse o Grande Mestre Ilumi­nador Osman.

Como ele se calou após essas palavras, que lhe pareciam demasiado ób­vias para necessitar de um comentário, indaguei, embaraçado:

“À cegueira? Como assim?”

“À cegueira, isto é, ao silêncio. Se você juntar o que acabo de dizer, a primeira e a segunda perguntas, emergirá a cegueira. É o mais longe a que se pode chegar na pintura, é ver o que aparece na própria escuridão de Alá.”

Saí sem dizer mais nada. Desci lentamente a escada coberta de gelo. Eu sabia que ia fazer a Borboleta, Oliva e Cegonha as três grandes pergun­tas do Mestre, não só para puxar conversa, mas para compreender melhor essas lendas vivas, que eram esses meus contemporâneos.

Mas não tomei logo o caminho da casa dos três famosos artistas. Perto do bairro judeu, no novo bazar de onde se dominava a confluência do Chifre de Ouro e do Bósforo, dei com Ester, sempre em grandes conciliábulos, vestindo a indumentária cor-de-rosa que como judia era obrigada a usar, sua volumosa e ágil massa perdida no meio da multidão de criadas e mulheres dos bairros pobres, de cafetã gasto, com suas cestas de nabos e marmelos, ce­nouras e cebolas. Não sem antes me lançar, do seu jeito divertido, um sem-número de olhares furtivos sob o arco espesso das suas sobrancelhas, fez mi­nha carta desaparecer com um movimento lépido nas profundezas de suas calças largas de vastos foles, toda misteriosa, como se o mercado inteiro ti­vesse os olhos cravados em nós. Acrescenta que Shekure pensa muito em mim, pega minha moeda e, apontando para a sua tralha, se queixa de estar carregada demais, por isso não teria tempo de entregar a carta antes do meio-dia. Eu lhe pedi para dizer a Shekure que eu ia visitar os três jovens e renomados mestres miniaturistas.

12. Chamam-me Borboleta

Era antes do chamado para a prece do meio-dia. Alguém bate na porta. Vou ver quem é, abro: o Negro Efêndi! Na época em que eu ainda era apren­diz, ele passou um tempo conosco, no Grande Ateliê... Abraçamo-nos, beijamo-nos e eu me pergunto se ele não vinha da parte do seu Tio. Ele decla­ra que veio ver meus trabalhos, apreciar meus desenhos, uma visita de amizade, enfim, e principalmente que tem uma pergunta a me fazer, da par­te do Nosso Sultão, uma espécie de teste. Pois não, e qual é essa pergunta? Ele me disse. Muito bem, vamos lá!

ESTILO E ASSINATURA

Enquanto se multiplicarem todos esses artistas imprestáveis, movidos muito mais pela glória e pelo lucro do que pelo amor à arte e à contempla­ção visual, não pararemos de ver esses horrores e essas grosserias que essa no­va mania do “estilo” e da “assinatura” acarretam. Assim iniciei porque é com uma introdução desse tipo que se começa, e não por acreditar no que eu di­zia. A verdade é que nem a maldita sede de ouro, nem o apetite de glória se­riam capazes de corromper a arte autêntica e o talento real. A verdade, se fosse para dizê-la em voz alta, é que a fortuna e a fama são direitos inaliená­veis dos grandes artistas como eu, e são elas que nos motivam. Mas se eu dis­sesse tal coisa abertamente, os miniaturistas medíocres, que se corroem de raiva e inveja, se encarniçariam sobre mim; então, para mostrar que amo meu trabalho mais do que eles, eu teria de pintar uma árvore num grão de arroz. Estou persuadido de que essa paixão pelo “estilo”, pelas “assinaturas” e pelo “caráter” chegou até nós vinda do Oriente, por obra de certos infeli­zes mestres chineses corrompidos pela influência dos europeus e de suas imagens, que lhes foram levadas do Ocidente pelos padres jesuítas. Permi­tam-me, portanto, contar-lhes uma série de três histórias sobre esse tema:

TRÊS CONTOS EXEMPLARES SOBRE O ESTILO E A ASSINATURA

Alif

Era uma vez um jovem cã mongol apaixonado pela pintura e pelo de­senho, que vivia em sua fortaleza nas montanhas ao norte de Herat. Entre as mulheres do seu harém, amava uma só, mas loucamente, e esta, uma jo­vem tártara, correspondia ao seu louco amor. Noite adentro, até de manhã, eles se entregavam a não mais poder a tão ardentes amores, se deleitavam com tamanha felicidade, viviam em tal êxtase que gostariam que aquela vi­da inimitável fosse eterna. E então eles descobriram que a melhor maneira de tornar esse desejo realidade era contemplar horas a fio, o dia inteiro, sem parar, as maravilhosas e perfeitas imagens do amor que eles encontravam nos livros dos mestres antigos. E, efetivamente, de tanto contemplarem sempre as mesmas ilustrações sem defeito das mesmas histórias de amor, eles sen­tiam sua felicidade igualar pouco a pouco à dos relatos dos felizes tempos da Idade de Ouro. Ora, no ateliê de miniaturas do príncipe, um pintor, mestre entre os mestres, encarregado de produzir e reproduzir sempre a perfeição das mesmas imagens das mesmas obras, cultivava os usos consagrados para pintar os tormentos de Frahad e Shirin, os olhares cheios de paixão e desejo trocados por Majnun e Leila, e o langor profuso nas piscadas carregadas de subentendidos e segredos íntimos que, no meio de um jardim belo como o do Paraíso, Shirin e Khosrow enviam um ao outro, tomando sempre como modelo dos amantes, qualquer que fosse o livro e a página a ilustrar, seu so­berano e a bela tártara. O cã e sua companheira, persuadidos pela contem­plação dessas páginas de que sua felicidade não teria mais fim, cobriam o pintor de ouro e elogios. Mas o excesso de mimos e de ouro acabou prevale­cendo sobre a razão do artista. Esquecendo que a perfeição das suas obras era um atestado da sua dívida para com os modelos antigos, afastou-se des­tes, seduzido pelos prestígios do Diabo: teve a pretensão de crer que, se pu­sesse um pouco de si mesmo em suas miniaturas, elas agradariam mais. Es­sas inovações pessoais, as marcas que ele deixou do seu estilo só tiveram como efeito perturbar o cã e sua companheira, que as consideraram nada mais que imperfeições. Contemplando longamente as pinturas, o cã sentiu que sua antiga felicidade fora quebrada de muitas formas e passou a ter um ciúme cada vez maior de sua bela tártara, pintada agora com o toque pessoal do mi­niaturista. Para enciumá-la, ele se deitou com outra das suas concubinas. Sua amada ficou tão transtornada ao saber da traição, por meio dos cochi­chos que lhe chegaram ao ouvido, que foi silenciosamente se enforcar no ce­dro que havia no pátio do harém. Compreendendo seu erro e que ele se de­vera ao “estilo” do pintor, seduzido pelo Diabo, mandou imediatamente furar os olhos do miniaturista.



Ba

Era uma vez, num reino do Oriente, um velho padixá, amante das ilus­trações, das iluminuras e das miniaturas, que vivia feliz com sua nova esposa chinesa, de uma beleza insuperável. Mas um dos seus filhos de um casamen­to anterior, um rapaz muito formoso, e essa belíssima e jovem esposa se apai­xonaram. O filho, envergonhado da traição ao pai e temendo que ele desco­brisse esse idílio proibido, trancou-se num ateliê e entregou-se à pintura. Como pintava sob o império desse violento tormento amoroso, suas obras eram tão magníficas que aqueles cujos olhos elas deslumbravam não conse­guiam distingui-las das obras dos antigos mestres. O padixá estava orgulhoso do filho, mas sua jovem esposa chinesa, ao ver as imagens, dizia: “Sim, é lin­do, mas os anos vão passar e, se ele não assinar sua obra, ninguém vai saber que é ele o autor dessas belezas”. O padixá repreendeu-a uma vez: “Se meu filho acrescentar sua assinatura, não estará injustamente atribuindo a si as técnicas e o estilo dos mestres antigos que ele imitou? Além do mais, se assinar, não estará dizendo: ‘Minha pintura traz a marca das minhas imperfeições?’”. A jovem esposa compreendeu que não conseguiria persuadir seu ve­lho marido nessa questão da assinatura, mas convenceu o filho, recluso no ateliê Mortificado que estava por ser obrigado a ocultar seu amor, ele se ren­deu por fim às considerações da sua bela e jovem madrasta, e à voz do De­mônio. Escreveu seu nome num canto do quadro, entre o gramado e a pare­de onde, era o que imaginava, ninguém notaria. Essa primeira miniatura que ele assinou era uma cena de Khosrow e Shirin, vocês sabem qual: de­pois do casamento deles, Shiruye, filho de um casamento anterior de Khos­row, se apaixona pela bela Shirin e, certa noite, entrando no quarto do casal pela janela, crava seu punhal no fígado do pai, deitado ao lado de Shirin adormecida. Ao contemplar a obra do filho, o velho padixá se dá conta de que há alguma coisa estranha. E que ele viu a assinatura mas, como tantas vezes acontece, não registrou conscientemente esse detalhe; assim, limitou-se a pensar: “Há um defeito nesta miniatura”. E como aquela não era mais uma imagem que os mestres antigos poderiam ter pintado, o padixá viu-se presa de uma dúvida tremenda. O livro que ele contemplava não narrava mais uma história ou uma lenda, mas algo absolutamente inadmissível num livro: uma realidade. E, no momento em que compreende isso, o ancião tem uma visão horripilante: seu filho ilustrador acabava de entrar pela janela, co­mo na miniatura que ele pintara, e, sem enfrentar os olhos arregalados do pai, finca-lhe, como na pintura, um enorme punhal no coração.



Djim

Em sua volumosa História, Rashiduddin de Kazvin, dois séculos e meio atrás, se felicita por poder escrever que, em sua cidade e em sua época, a ilu­minura, a caligrafia e a miniatura eram as artes mais estimadas e amadas. Mas acontece que o xá do Irã, que na época estava instalado justamente em Kazvin, era suserano de quarenta reinos, de Bizâncio à China (o segredo desse seu poderio residia, sem dúvida nenhuma, precisamente em seu amor à pintura), não tinha filho homem. Para evitar que esses reinos que ele havia subjugado se dispersassem à sua morte, decidiu arranjar para sua linda filha um marido que fosse um excelente pintor. Abriu pois um concurso entre os três pintores do seu ateliê, que eram, ao mesmo tempo, talentosos, jovens e solteiros. De acordo com Rashiduddin, a prova era simplíssima: ganhava quem produzisse a mais bela miniatura! Tal como nosso historiador, os três jovens pintores sabiam muito bem o que significava “pintar como os mestres antigos”, e todos os três representaram a cena mais célebre e apreciada: num jardim paradisíaco, em meio aos cedros e aos ciprestes, entre as andorinhas febris e as lebres assustadiças, uma bela jovem, olhos voltados para o chão, padece martírios de amor. Sem saber, os três pintores haviam reproduzido a mesma cena exatamente como os velhos mestres a tinham pintado; no en­tanto, um deles, querendo se distinguir e com isso atribuir a si todo o mérito pela beleza da sua obra, dissimulou sua assinatura num maciço de narcisos e gladíolos que ocupava um canto recuado do jardim. Essa insolência, tão con­trária à tradição de humildade dos mestres antigos, valeu-lhe ser imediata­mente desterrado para os cafundós da China, e um segundo concurso foi or­ganizado para os dois pintores restantes. Dessa vez, os dois pintaram uma cena bela como um poema: uma linda jovem montada em seu corcel num jardim deslumbrante. Mas um dos dois pintores, não se sabe se foi um escor­regão do pincel ou se foi intencional, pintou com uma forma bizarra as ventas do cavalo branco da bela — esta, é claro, tinha os olhos puxados e os pômu­los salientes, como uma chinesa. Esse detalhe foi imediatamente percebido pelo xá e por sua filha como uma falta grave. Embora esse pintor não hou­vesse assinado seu nome, tinha aparentemente introduzido em sua esplêndida pintura uma sutil variação nas narinas do cavalo, que permitia distinguir sua obra. O xá declarou que o estilo é um rebento do erro e exilou esse pin­tor em Bizâncio. Segundo a prestigiosa História de Rashiduddin de Kazvin, há mais um detalhe interessante, que se deu durante os preparativos do ca­samento entre a princesa e o último pintor, aquele que havia pintado exata­mente como os velhos mestres, sem assinatura nem variação: a filha do xá passou a véspera inteira das bodas escrutando penalizada a imagem pintada pelo miniaturista, que era jovem e bonito, e com quem ela devia se casar no dia seguinte. Ao cair a noite, foi ver seu pai e lhe disse: “E verdade que os mestres antigos sempre representam as moças bonitas como chinesas e que essa é uma regra absoluta, que nos vem do Oriente. Mas quando amavam alguém, os pintores sempre punham em algum lugar, nos olhos, nas sobran­celhas, nos lábios, nos cabelos, no sorriso e até nos cílios da bela que desenhavam algum traço da sua amada. Esse defeito oculto, acrescentado ao quadro, era um sinal de reconhecimento, um segredo compartilhado unicamente pelos amantes. Papai, examinei o dia inteiro essa imagem da bela moça a cavalo e não há nela o mais ínfimo sinal de mim! Esse pintor é com certeza um grande mestre e, além disso, um belo rapaz, mas não está apaixonado por mim”. Então o xá cancelou as bodas, e pai e filha viveram juntos o resto da vida.

“Portanto, de acordo com esse terceiro conto, o que se chama ‘estilo’ é fruto de uma imperfeição”, comentou o Negro num tom polido e respeito­so. “E o fato de o pintor estar apaixonado é revelado por um ‘sinal’, dissimu­lado no rosto, nos olhos ou no sorriso da bela?”




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