Meu nome é Vermelho



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“Qual é a moral das três histórias?”, perguntou o Negro para concluir, como se eu tivesse de lhe prestar contas.

Alif”, respondi, “a primeira história, a do minarete, demonstra que por mais talentoso que seja o artista, somente o tempo pode gerar uma imagem ‘perfeita’. Ba, a segunda, a do harém e da biblioteca, mostra que o único meio de se libertar do tempo é exercer seu talento pela pintura. Quanto à terceira história, explique você.”

Djim!”, disse o Negro. “A terceira história, sobre o pintor de cento e dezenove anos, une as precedentes, Alif e Ba, e revela como o tempo cessa para quem renuncia à vida e à pintura perfeitas, não deixando nada além da morte. Sim, é o que ela demonstra.”

14. Chamam-me Oliva

Foi depois da prece do meio-dia. Eu estava prazerosamente rabiscando bonitos rostos de rapazes quando bateram na porta. Minha mão tremeu de surpresa. Larguei o cálamo. Pus de lado também a prancheta de desenho que estava no meu colo e, rápido como o vento, disse uma prece antes de abrir a porta: louvado seja Alá... O que vou lhes confiar, confio-lhes unica­mente porque sei que vocês, que me ouvem falar dentro deste livro, estão mais próximos de Alá do que nós, imersos neste mundo infame e repugnan­te que nos rodeia, miseráveis escravos do Nosso Sultão. Nada poderíamos lhes ocultar. Akbar Cã, grão-mogol das Índias, o soberano mais opulento da terra, está confeccionando um livro fabuloso. Espalhou-se pelos quatro can­tos do islã a notícia de que ele convocou todos os mais brilhantes pintores para trabalhar nele. Seus emissários em Istambul vieram ontem à minha ca­sa, a fim de me convidar a partir para as Índias. Mas dessa vez não foram eles que encontrei diante da minha porta, e sim o Negro, meu colega de infân­cia, de quem eu tinha me esquecido completamente. Na época, ele não era muito boa companhia, porque invejava nosso grupo. “Sim?”

Ele vinha “conversar”, “como colega”, e ver minhas pinturas. Eu lhe disse que se sentisse em casa, que eu lhe mostraria tudo o que ele quisesse. Acrescentou que chegava de uma visita a Mestre Osman, cujas mãos foi bei­jar. O Grande Mestre lhe deu um bom tema para meditar: a qualidade de um pintor se revela em sua discussão sobre a cegueira e a memória. Portan­to cabe-me falar disso.

CEGUEIRA E MEMÓRIA

Antes da arte da iluminura, havia as trevas, e depois dela também have­rá trevas. Com nossas cores, nosso talento, nossa paixão, celebramos o que Alá nos ordena ver. Conhecer é lembrar-se do que se viu. Ver é reconhecer o que se esqueceu. Pintar, portanto, é lembrar-se dessas trevas. Os grandes mestres, que compartilham a paixão pela pintura, compreenderam que a vis­ta e as cores nascem das trevas, e aspiravam voltar às trevas de Alá através das cores. Os artistas sem memória não se lembram nem de Alá, nem das suas trevas. Já todos os grandes mestres buscam em sua obra, para além das cores, a escuridão profunda que fica fora do tempo. Se me permitem, vou explici­tar o que quer dizer essa “memória das trevas” que encontramos nos ilustres pintores da escola de Herat.

TRÊS HISTÓRIAS SOBRE A MEMÓRIA E A CEGUEIRA



Alif

Na elegante tradução turca, devida ao brilhante Lami, dos Doze perfu­mes da amizade, de Djami — obra na qual o grande poeta persa expõe a his­tória dos santos —, está escrito que no ateliê de Djahan Xá, soberano da Hor­da do Carneiro Negro, o famoso Sheik Ali, de Tabriz, havia ilustrado um magnífico exemplar de Khosrow e Shirin. Pelo que me disseram, nesse len­dário manuscrito, ao qual o grande mestre dedicou onze anos da sua existên­cia, Sheik Ali dava mostra de tanto engenho e arte, pintara tão esplêndidas imagens que, entre os grandes nomes da pintura antiga, somente Bihzad te­ria podido igualá-lo. Djahan Xá compreendeu, antes mesmo de a maravilho­sa obra ser concluída, que logo iria possuir um livro sublime, único no mundo. Mas Djahan Xá vivia num temor e numa inveja perene do jovem sobe­rano da Horda do Carneiro Branco, Hassan, o Alto, a quem tinha como seu arquiinimigo. E logo pressentiu que, se seu prestígio aumentaria imensa­mente depois que esse livro fosse terminado, sempre poderia ser realizada uma versão superior para Hassan do Carneiro Branco. Sendo um desses ho­mens invejosos que estragam a sua felicidade martirizando-se com a idéia de que outro também pode vir a ser feliz, o Carneiro Negro Djahan Xá deu de cismar que, se o seu prodigioso miniaturista fizesse uma cópia do livro, ou até uma versão melhor, esta seria necessariamente para seu arquiinimigo, o Carneiro Branco Hassan, o Alto. Assim, para evitar que qualquer outro, além dele, possuísse aquela obra magnífica, Djahan Xá mataria o mestre miniatu­rista Sheik Ali, assim que ele concluísse a obra. Mas uma bela circassiana pertencente a seu harém, ouvindo seu bom coração, observou que bastava sacrificar a visão do mestre. Djahan Xá acatou essa boa idéia, que revelou a seus acólitos, e o boato logo chegou aos ouvidos de Sheik Ali. Mas este nem sequer cogitou de fugir para Tabriz, deixando o livro incompleto, como teria feito qualquer pintor medíocre. Tampouco recorreu ao subterfúgio de traba­lhar mais lentamente em sua obra ou de enfear sua pintura, para evitar que ficasse perfeita e, com isso, escapar de ter os olhos furados. Ao contrário, pas­sou a trabalhar com maior ardor, fé e concentração. Agora, na casa em que vivia recluso, começava a trabalhar bem cedinho, logo depois da prece mati­nal, e continuava a pintar noite adentro, à luz de vela, os mesmos cavalos, os mesmos ciprestes, os mesmos amantes, dragões e belos príncipes, até jorra­rem lágrimas amargas dos seus olhos avermelhados. A maior parte do tem­po, ele ficava dias a fio olhando para a mesma imagem pintada por um dos antigos grandes mestres de Herat e fazendo numa folha posta ao lado uma cópia exata dela, sem olhar para o papel. Quando por fim terminou a obra destinada a Djahan Xá, o Carneiro Negro, o velho pintor, como previsto, de­pois de ter sido coberto de elogios e de moedas de ouro, teve os dois olhos furados com uma comprida agulha usada para prender as plumas no turban­te. Sheik Ali ainda sofria enormemente, quando partiu de Herat para se pôr a serviço do Carneiro Branco, Hassan, o Alto. “Estou cego, é verdade”, disse a este, “mas guardo na memória todas as maravilhas daquele manuscrito que iluminei nestes últimos onze anos, lembro-me de cada traço de cálamo, de cada pincelada que dei, e minha mão é capaz de reproduzi-los todos de cor. Grande Xá, posso ilustrar para o senhor o mais belo livro de todos os tem­pos. Meus olhos não se distrairão mais com as imundícies deste mundo e po­derei pintar de memória todas as glórias de Alá em sua mais pura forma.” Hassan, o Alto, acreditou no grande mestre miniaturista, que realizou de me­mória para o Carneiro Branco, conforme se comprometera, o mais belo li­vro já feito. Todos sabem que foi a força espiritual proporcionada por este no­vo livro que permitiu a Hassan, o Alto, vencer o Carneiro Negro e matar seu rival, Djahan Xá, após a grande derrota que lhe infligiu na localidade de Mil Lagos. Essa obra-prima, entre tantas outras que Sheik Ali havia produzido para a biblioteca de Djahan Xá, passou a fazer parte das coleções do tesouro otomano quando o sempre triunfador Hassan, o Alto, foi derrotado na Bata­lha dos Pastos, pelo sultão Mehmet Cã, o Conquistador, descanse em paz. Os que sabem ver, verão e saberão.

Ba

O Hóspede do Paraíso, sultão Suleyman Cã, o Magnífico, preferia os calígrafos aos pintores, e os infortunados pintores da sua época recorriam à história que vou contar para reafirmar a superioridade da sua arte sobre a da caligrafia. Mas, como quem nela prestar atenção perceberá, essa anedota na verdade diz respeito à memória e à cegueira. Depois da morte de Tamerlão, Senhor do Mundo, seus filhos e netos se desentenderam e passaram a se guer­rear sem dó nem piedade. Quando um deles conseguia tomar de outro al­guma cidade importante, seu primeiro cuidado era cunhar moeda com sua efígie e mandar dizer um sermão em seu nome na mesquita principal. A se­gunda medida do vencedor era desmantelar os livros que lhes haviam caído nas mãos e inscrever novas dedicatórias, que os proclamavam por sua vez “senhores do mundo”, depois novos cólofons, enquanto uma nova encaderna­ção não vinha atestar ou, em todo caso, dar a crer a quem pudesse vê-los que o dono desses livros também possuía o mundo. Um deles, Abdullatif, filho de Ulug Bei, o timúrida, um dos netos de Tamerlão, apoderou-se de Herat e teve tanta urgência em mobilizar os batalhões de miniaturistas, encaderna­dores e calígrafos, tanto os apressou a produzir uma obra em homenagem a seu pai, grande conhecedor do assunto, que, ao arrancarem de cada volume as páginas escritas a fim de queimá-las, as miniaturas acabaram se embaralhando. Como era inconcebível que os livros oferecidos em homenagem a um amador tão apaixonado e versado como Ulug Bei reunissem ilustrações sem indicar a que relatos se referiam, seu filho convocou de novo todos os miniaturistas e mandou que contassem as histórias relativas àquelas miniatu­ras, para que se pudesse pô-las em ordem. Ora, da boca de cada um saiu uma história diferente, de modo que a desordem das ilustrações só aumentou. Fo­ram então em busca do mais velho de todos os miniaturistas, de quem não se tinha mais notícia desde o dia em que, ao cabo de cinqüenta e quatro anos de bons e leais serviços prestados aos sucessivos xás e príncipes de Herat, ele perdera a vista. Grande foi a preocupação quando se soube que o velho pin­tor, o mestre que conferia todas aquelas pinturas, estava de fato completa­mente cego. Alguns ironizavam. O velho pintor pediu que trouxessem um garoto, de apenas sete anos, que fosse inteligente mas que não soubesse ler nem escrever. Encontraram um menino assim e levaram-no a ele. O ancião colocou-o diante de uma série de miniaturas e lhe pediu para descrever o que via. À medida que o menino descrevia as miniaturas, o velho pintor, er­guendo para o céu os olhos cegos, pronunciava ouvindo-o: “Livro dos reis, de Firdusi: Alexandre embalando no colo o corpo de Dario; O roseiral, de Saadi: o mestre-escola apaixonado por seu belo aluno; Nizami, Tesouro dos segredos: o concurso dos médicos...”, e os outros miniaturistas, amargurados e despeitados por seu colega cego e mais velho, comentavam: “Isso nós tam­bém podíamos dizer: são as mais famosas cenas das mais conhecidas histó­rias”. Então o velho cego, sempre muito atento, submeteu ao garoto as ilus­trações mais difíceis: “Firdusi, Livro dos reis: Hurmuz envenena um a um todos os calígrafos...”, diz, sempre como os olhos voltados para o céu, “... An­tologia de contos de Rumi: história — não muito brilhante — do corno que encontra sua mulher em cima de uma pereira com seu rival. O desenho tam­bém não vale grande coisa”. E assim por diante, de sorte que, fiando-se nas descrições do garoto e reconhecendo cada desenho sem o ver, tornou possí­vel a correta encadernação dos livros.

Quando Ulug Bei entrou em Herat à frente do seu exército, perguntou ao velho miniaturista qual era o segredo que lhe permitia identificar as ce­nas sem ver, quando todos os outros pintores eram incapazes de fazê-lo ven­do-as. Ao contrário do que se poderia crer, a resposta não decorre de minha cegueira ser acompanhada de uma memória mais apurada”, respondeu o velho pintor. “É que não esqueci que essas lendas são transmitidas não apenas por imagens mas também por palavras.” Ulug Bei respondeu que seus mi­niaturistas também conheciam aquelas palavras e aquelas histórias, mas nem assim puderam classificar as miniaturas. “E que”, disse o velho pintor, “ape­sar de entenderem tudo o que se pode entender de arte e pintura, eles não compreendem que os velhos mestres pintavam essas miniaturas a partir da memória do próprio Alá!” Ulug Bei perguntou então como uma criança po­dia saber disso. “A criança não sabe”, explicou o velho pintor. “Só um velho pintor cego como eu sabe que Alá criou o reino da Terra da maneira como um menino inteligente de sete anos gostaria de vê-lo. Não só isso, Alá criou este mundo de tal maneira que, principalmente, ele possa ser visto; depois, deu-nos a palavra, para que pudéssemos compartilhar e debater com os ou­tros o que vemos. E nós fizemos as histórias acreditando, equivocadamente, que elas nasciam dessas palavras e que a pintura servia para ilustrá-las, quan­do, na verdade, pintar é buscar as lembranças de Alá com o fim de ver o mun­do tal como Ele o vê.”



Djim

Mais de dois séculos atrás, os miniaturistas árabes tinham o temor an­cestral e mais que legítimo, compartilhado por gerações e gerações de pinto­res, de não ficar cegos. Para tanto, olhavam para o horizonte ao raiar do dia, na direção do Ocidente. Ê sabido também que, um século mais tarde, os pintores de Shiraz comiam em jejum todas as manhãs, com esse mesmo fim, uma mistura de nozes moídas e pétalas de rosa. Na mesma época, os velhos miniaturistas de Isfahan, que imputavam à luz do sol a cegueira que os viti­mava um depois do outro como se fosse a peste, trabalhavam quase sempre à luz de vela num canto escuro da sua cela, para que o sol não incidisse so­bre a mesa de trabalho. Já na escola uzbeque, os artistas do grande ateliê de Bukhara lavavam os olhos com água benta. Mas de todas as interpretações da cegueira, a que se deve a Sayyid Mirak, o célebre mestre de Herat, que formou o grande Bihzad, distingue-se evidentemente como a mais pura. Pa­ra ele, a cegueira não era um mal, mas a graça suprema concedida por Alá ao pintor que dedicara a vida inteira a celebrá-Lo; porque pintar era a ma­neira de o miniaturista buscar como Alá vê este mundo, e essa visão sem igual só pode ser alcançada por meio da memória, depois que o véu da cegueira cair sobre os olhos, ao fim de uma vida inteira de trabalho duro. Assim, a ma­neira como Alá vê o seu mundo só se manifesta por meio da memória dos velhos pintores cegos. Quando por fim alcançar essa imagem, quando, com a sua memória, enxergar através das trevas da cegueira o mundo tal como Alá o vê, então o velho pintor, que passou a vida toda exercitando a mão, se­rá capaz de passar essa maravilhosa revelação para a folha de papel. De acor­do com o historiador Mirza Muhammed Haydar Dughlat, que compilou as biografias dos principais pintores de Herat, o Grande Mestre Sayyid Mirak tomava como exemplo, para ilustrar sua teoria, um pintor que queria pintar um cavalo. Mesmo o mais medíocre dos pintores, argumentava Sayyid Mi­rak, aquele com a cabeça tão vazia quanto esses pintores europeus de hoje em dia, que pintam cavalos olhando para cavalos verdadeiros, mesmo este é obrigado a pintar de memória. Prova disso é que é impossível olhar ao mes­mo tempo para o cavalo e para a página em que o cavalo é desenhado. Pri­meiro o pintor olha para o cavalo e depois transfere para o papel os traços que guardou na memória. Ainda que entre uma coisa e outra tenha ocorrido apenas um breve piscar de olhos, o que ele representa no papel nunca é o cavalo tal como ele vê, mas a lembrança do cavalo que ele viu, de sorte que a pintura, mesmo no caso do pior artista, é sempre uma obra de memória. A conseqüência lógica dessa concepção, que considera a atividade dos pinto­res ao longo de toda a sua vida como uma preparação para a dupla felicida­de que irá coroá-la, a felicidade da cegueira e a da memória cega, é que os mestres de Herat consideravam as miniaturas que produziam para os xás e os príncipes como exercícios destinados a “treinar a mão”, e se submetiam a esse interminável afã de pintar debruçados sobre o papel, dias a fio sem parar, à luz pálida de um candeeiro, como o bem-aventurado trabalho que le­varia o miniaturista a alcançar a cegueira.

Ao longo de toda a sua vida, o grande pintor Mirak buscou constante­mente o momento mais propício para esse que era o mais glorioso dos desenlaces, e ora tentava apressar a cegueira, pintando minuciosamente numa unha, num grão de arroz ou até num fio de cabelo uma árvore inteira, com todas as suas folhas, ora procurava adiar prudentemente a chegada das trevas, pintan­do sorridentes jardins inundados de sol. Ele tinha setenta anos quando Hussein Bayqara, para recompensar esse grande artista, lhe deu acesso a seu tesouro, onde guardava ciosamente, trancada a sete chaves, uma coleção de mi­lhares de miniaturas. Aí, no meio desse tesouro, que também continha armas, ourivesaria, sedas e veludos, mestre Mirak pôde admirar, à luz dos candela­bros de ouro, as maravilhosas páginas daqueles livros lendários, devidas aos maiores nomes da Escola de Herat. Ao fim de três dias e três noites, ele havia perdido a visão. O Grande Mestre aceitou sua nova condição com sabedoria e resignação, como se tivesse recebido os anjos de Alá, e nunca mais pintou nem pronunciou uma só palavra. Mirza Muhammed Haydar Dughlat, em sua História segundo o Reto Caminho, explica o fato da seguinte maneira: o pintor que alcança o espaço e o tempo infinito de Alá não pode nunca mais voltar às paisagens pintadas nos livros para os simples mortais; e acrescenta que, onde o pintor cego alcança Alá com sua memória, reina um silêncio ab­soluto, uma feliz escuridão e o infinito de uma página vazia.

Embora eu soubesse que essa questão de Mestre Osman sobre a ceguei­ra e a memória era, antes de mais nada, um pretexto fácil para o Negro vir espionar meus aposentos, minha mobília e meus trabalhos, fiquei feliz por constatar que minhas histórias não o deixaram indiferente. “A cegueira é um mundo à parte”, concluí, “em que o Diabo e o Pecado não podem penetrar.”

Mas o Negro me fez uma observação: “Em Tabriz, ainda hoje, certos pintores da escola antiga, influenciados pela anedota relatada por Mirak, con­sideram a cegueira o apogeu das virtudes que Alá nos concede em sua graça e acham vergonhoso envelhecer sem ficar cego. Por isso, temendo que os ou­tros considerem sua visão uma prova de falta de talento e de arte, fingem ser cegos. Essa convicção leva alguns deles a seguir o exemplo de Djamaluddin de Kazvin e passar semanas no escuro, em meio a espelhos, contemplando as páginas dos mestres antigos à luz tênue de uma lamparina, sem comer nem beber, a fim de aprender a olhar como cegos, apesar de não o serem”.

Bateram na porta. Fui abrir e vi um belo aprendiz, com lindos olhos ar­regalados, que vinha do Grande Ateliê. Disse apenas que acabavam de encon­trar no fundo de um poço escuro o cadáver de nosso irmão, Elegante Efêndi, e que a procissão fúnebre sairia naquela tarde da grande mesquita de Mihrimah. E saiu correndo para levar a notícia aos outros. Que Alá nos proteja!

15. Meu nome é Ester

É o amor que torna a gente idiota ou só os cretinos se apaixonam? Eis aí um problema que minha longa prática de alcoviteira ainda não me per­mitiu resolver. Em todo caso, bem que gostaria de conhecer um casal — ou até uma pessoa apaixonada — que tenha se tornado mais inteligente, sensa­to e esperto do que era antes de se enfeitiçar. O que, em compensação, dou por certo é que não está verdadeiramente apaixonado quem não recorre às pequenas artimanhas, aos artifícios e ao embuste. No que concerne ao nosso querido Negro Efêndi, ele parece ter perdido inteiramente a compostura, em todo caso ele se abre sem a menor reserva, quando falamos de Shekure.

No mercado, não me furtei a lhe dizer que ela só pensa nele, que me pergunta sobre o que ele disse das suas cartas, que nunca a vi assim, e tal, e tal. E ele então me pediu, dirigindo-me olhares de cortar o coração, para le­var a carta que acabava de me entregar “o mais rápido possível”! Todos esses imbecis imaginam que o amor deles é uma urgência, que exige decisões rápidas; põem sua paixão em cima da mesa, de estalo, dando armas à cruelda­de do outro, o qual, se for esperto, saberá fazê-los mofar direitinho à espera da resposta. Moral: a pressa, num romance, retarda os frutos do amor.

Se o apaixonado Negro Efêndi soubesse que não fui imediatamente levar sua carta “urgente”, deveria me agradecer. Como eu tinha quase morri­do de frio esperando por ele na praça do mercado, depois que ele se foi re­solvi fazer uma visitinha a uma das minhas filhas, que mora no caminho. Costumo chamar de “minhas filhas” aquelas para quem arranjei pessoalmen­te um marido, encarregando-me dos seus bilhetinhos. Essa é uma gorducha feiosa que se mostra tão agradecida a cada visita minha que, além de ficar se agitando em volta de mim como uma mariposa em volta da vela, nunca dei­xa de insinuar algumas moedinhas de prata na minha mão. Encontrei-a grá­vida e feliz da vida. O que me valeu um chazinho de tília, que estava uma delícia. Enquanto ela estava de costas, contei as moedas que o Negro me de­ra. Vinte moedas de prata.

Continuando meu caminho, quis tomar um outro, mais curto, e segui por umas ruelas e travessas, mas ali o gelo é pior que a lama, mal dá para an­dar, o que me atrasou, juro. Ao chegar diante da porta, a minha habitual jovialidade veio à tona e entoei o meu pregão:

“Roupeira, olhe a roupeira! Venham ver minha caxemira, meus xales de musselina, minhas echarpes dignas de um sultão! Cintos de cetim de Bursa, algodão do Egito com orla de seda para fazer lindas blusas! Lindas toa­lhas de tule bordadas à mão! Edredons, lenços de todas as cores!”

A porta se abriu, entrei. A casa tinha como sempre um cheiro de cama, de sono, de gordura queimada, de umidade, um horrível miasma de soltei­rão passando da idade!

“Por que você grita tanto, sua bruxa velha?”

Estendi-lhe a carta sem dizer nada. Ele se aproximou como um fantas­ma, na penumbra, e arrancou-a da minha mão. Depois foi ao quarto ao lado buscar um lampião que está sempre aceso. Quanto a mim, fiquei plantada no vestíbulo.

“O senhor seu pai não está?”

Ele não respondeu. Estava demasiado entretido na leitura da carta. Dei-lhe tempo. Como ele estava de costas para o lampião, não dava para ler na­da em seu rosto. Depois de lê-la uma vez, leu-a de novo do começo ao fim, e só então lhe perguntei:

“E então, o que ele diz?”

Hassan começou a ler.



Cara Shekure Hanim,

Depois de passar tantos anos da minha vida pensando apenas em você, compreendo perfeitamente e respeito o fato de que você está à espera do seu marido e só tem pensamentos para ele. Como esperar aliás, de uma mulher da sua posição, outra coisa que decoro e honestidade? (Aqui, Has­san arrebenta de rir.) Mas, se visito seu pai, é por causa das miniaturas dele, e não para perturbá-la. Tal coisa nem me passaria pela cabeça. Lon­ge de mim a intenção de tirar qualquer vantagem dos sinais que você não temeu dirigir-me. Quando a luz do seu rosto apareceu para mim à jane­la, considerei essa aparição uma graça concedida por Alá. Porque o pra­zer de ver seu rosto é tudo de que preciso. (“Esta foi roubada de Nizami!”, indignou-se Hassan em voz alta.) Mas você me pede para não me apro­ximar; diga-me então, acaso você é um anjo, para que seja tão terrível me aproximar de você? Ouça o que tenho a lhe contar: era num caravançará, ou melhor, num covil infame e lúgubre, que eu compartilhava com uns homens errantes como eu e até com uns bandidos cujas cabeças estavam postas a prêmio; eu tentava dormir contemplando a lua, cuja luz desmaia­da filtrava através dos galhos das árvores desfolhadas, e ali, ao ouvir os lobos uivando — sem dúvida, as únicas criaturas mais solitárias e infeli­zes que eu —, tive o pressentimento de que um dia eu veria você aparecer subitamente para mim, como hoje à sua janela. Agora, quando meus pas­sos me levam novamente, por causa daquele livro, à casa do seu pai, você me devolve a miniatura que fiz para você quando ainda era criança. Isso não poderia ser um sinal de que o nosso amor morreu. Ao contrário, isso significa, para mim, que voltei a encontrar você. Vi um dos seus filhos, Orhan. Pobre órfão! Serei um pai para ele!

“Que Alá o proteja!”, exclamei. “Que bem escrito, um verdadeiro poeta!”

“Acaso você é um anjo, para que seja tão terrível me aproximar de vo­cê?’ Mais um verso que ele foi surrupiar de alguém: Ibn Zirhani”, disse Hassan. “Quanto ao resto, sou capaz de escrever melhor.” Tirou do bolso a carta que tinha escrito, dizendo-me: “Leve para Shekure”.

Pela primeira vez, senti certo mal-estar quando ele me deu o dinheiro junto com a carta. Senti uma espécie de repugnância em relação àquele homem e àquela sua louca obsessão por um amor não correspondido. Dessa vez, como para restabelecer o equilíbrio entre nós, Hassan me poupou seus sala­maleques e dirigiu-se a mim com uma grosseria que fazia tempo não exibia.




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