Meus dados autor



Baixar 94.4 Kb.
Encontro06.08.2016
Tamanho94.4 Kb.


MEUS DADOS

Autor: José Wagner de Almeida. Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará – UFC – Faculdade de Educação – FACED. Integra o grupo de pesquisa ligado à linha Filosofia e Sociologia da Educação, (FILOS), no eixo temático: Filosofias da Diferença, Antropologia e Educação, coordenado pelo Prof. Dr. Sylvio de Sousa Gadelha, desenvolvendo pesquisa voltada para as práticas docentes e as subjetividades do sujeito da educação, num contexto neoliberal e globalizado.

Título do artigo: Governamentalidade Neoliberal, Empreendedorismo e Educação: Elementos discursivos para uma análise da relação Políticas Públicas Educacionais e o Mercado de Trabalho.

Parte do livro: parte 2 – Biopolítica e Educação: temas e questões transversais.

RESUMO: Com este artigo, pretendemos evidenciar as relações que se estabelecem entre a “Governamentalidade neoliberal”, a “educação empreendedorismo” e as subjetividades docentes, no exercício da prática pedagógica. Tendo as políticas educacionais postas em prática nas ultimas décadas, como ponto para onde convergem os discursos que se configuram em conformidade com o pensamento neoliberal, tipicamente capitalista; advindo das orientações do ‘Consenso de Washington’, e acatadas pelos organismos internacionais e agencias de financiamento da educação. Daí, as questões que tratam da “qualidade total”, da sempre aludida “necessidade de mais investimento” em educação, com relação à gestão de pessoas (capital humano), da chamada “formação continuada”; se configuram como discursos que visam uma prática direcionada, sujeitada, afetando de forma direta, os processos de subjetivação dos professores (subjetividade docente); buscando atrair e mobilizar em seu favor, “a potencia de individuação de cada um”. Tal potencia, é compreendida por Foucault, “como uma das expressões do exercício desta governamentalidade”. (GADELHA; 2009, p.180). Usaremos o conceito Foucaultiano de governamentalidade, como ferramenta conceitual, para analisarmos como e o quanto as “categorias identitárias que a instituição escolar pôs a circular, desde finais do século XIX, são produtos e instrumentos de um estilo liberal de governo (Biopolitica) das populações.
Palavras chaves: Governamentalidade neoliberal. Política Educacional. Teoria do Capital Humano. Empreendedorismo – subjetividade Educação, ensino e aprendizagem.

Artigo


Governamentalidade Neoliberal, Empreendedorismo e Educação, uma questão Biopolítica: Elementos discursivos para uma análise da relação Políticas Públicas Educacionais e o Mercado de Trabalho.
Inicio este texto colocando as razões que mim levaram a pesquisar a governamentalidade neoliberal, o empreendedorismo e suas repercussões nas políticas públicas em educação. Com o exercício da docência despertou em mim o desejo de conhecer como a governamentalidade neoliberal, de ancoragem norte-americana, entendida como uma “arte de governo” era capaz de intervir nos processos de subjetivação dos indivíduos. Ao cursar uma Especialização em Psicopedagogia Clinica e Institucional, na Universidade Estadual do Ceará – UECE escolhe o tema da subjetividade como objeto de estudo, o contato com o tema da subjetividade mostrou-me o quanto eram complexos e múltiplos os aspectos que interferem nos processos de subjetivação. Isso mim instigou; então resolvi continuar os estudos sobre as subjetividades, especificamente a docente, buscando identificar que relações se constroem entre os sujeitos que aprende e as políticas educacionais que norteiam essas aprendizagens. Um olhar sobre as políticas em educação não poderiam deixar de ser encarado por mim. É nesse momento que a ‘governamentalidade neoliberal’ de ancoragem americana, desperta meu interesse, haja vista que os discursos produzidos nas searas educativas estavam a cada dia vinculando a educação a sucesso, a empreendedorismo, a capital humano, a trabalho, enfim, apresentavam a educação como um meio capaz de propiciar as pessoas, acessibilidade no mundo global. Inevitavelmente, Foucault entra em minha pesquisa, pois falar de governamentalidade, empreendedorismo e educação, exigiam um olhar foucaultiano.

Aqui surge o interesse em conhecer, no campo da educação, a relação política/vida (Biopolítica), partindo da necessidade de se compreender, dentro dos dispositivos do poder, as relações intrínsecas à questão da Biopolítica, que é tomada como algo pensado a partir das relações de poder. Daí o olhar sobre a governamentalidade, tendo na educação o campo em que ocorrem as tramas – configurando-se como um locus privilegiado– quando se pensa o homem enquanto possibilidade de existência; convidado a dar visibilidade a suas práticas, tendo como finalidade a conservação e o uso da sua existência.

.
O que é a Governamentalidade?
Na analítica conceitual da governamentalidade, me reportarei a Foucault (Foucault, 2008a, p. 4), que define a “arte de governar como a maneira pensada de governar o melhor possível e também, ao mesmo tempo, a reflexão sobre a melhor maneira possível de governar”. No sentido geral, a governamentalidade identifica uma abordagem, na qual se pretendem pensar e conhecer o Estado e as diferentes maneiras pelas quais se dá o governamento. Foucault (2008b) estabelece e redelineia a mudança no olhar governamental, quando parte no início da Modernidade, nos Estados da Europa ocidental: desviando sua atenção dos problemas do território, da administração dos recursos, das ameaças exteriores ao Estado para os problemas da população, para a administração do poder sobre a vida (o biopoder), para os riscos internos que emergem em relação à população.

No curso ministrado no Collège de France (1977-1978), Foucault passa a analisar como ocorreu a mudança de uma concepção centrada no biopoder (poder sobre a vida) - em que havia uma centralização do poder, caracterizado por suas formas repressivas, presentes no Estado e exercidas pelo soberano – para formas mais descentralizadas e difusas de poder, exercidas por instituições e pelos próprios sujeitos. Essa nova forma descentralizada e difusa Foucault (2003a, p. 291-292), denominou governamentalidade, entendida como:


[...] 1 - o conjunto constituído pelas instituições, procedimentos, análises e reflexões, os cálculos e as táticas que permitem exercer esta forma bastante específica e complexa de poder, que tem por alvo principal a população, por principal forma de saber a economia política e por instrumento técnico essencial os dispositivos de segurança. 2 - a tendência em que todo o ocidente conduziu incessantemente durante muito tempo, à preeminência deste tipo de poder, que se pode chamar de governos chamar de governo, sobre todos os outros – soberania, disciplina, etc. - e levou ao desenvolvimento de toda uma série de aparelhos específicos de governo e de um conjunto de saberes. 3 – o resultado do processo através do qual o Estado de justiça da Idade Média, que se tornou nos séculos XV e XVI Estado administrativo, pouco a pouco governamentalizado.
A governamentalidade passa a existir como atividade distinta da arte de governo do Estado. Nas palavras de Foucault (2008b, p. 364):
[...] Passamos de uma arte de governar cujos princípios advinham de virtudes tradicionais (sabedoria, justiça, liberdade, respeito às leis divinas e aos costumes humanos) ou de habilidades comuns (prudência, decisões ponderadas, cuidado de acercar-se dos melhores conselheiros) a uma arte de governar que encontra no Estado os princípios de sua racionalidade e o âmbito específico de suas aplicações.

Foucault considera que, entre o exercício do governamento (práticas) e as mentalidades que sustentam tais práticas, existe uma interdependência, ou seja, pode-se considerar que a governamentalidade, pensada como esforço visando à criação e a condução de sujeitos, molda, guia, afeta a conduta das pessoas, de maneira que elas se tornem pessoas de certo tipo, que assumam determinadas identidades.

A genealogia da governamentalidade, como arte de governo, segundo (FOUCAULT, 2003a, pp. 291-292), deriva da constituição triangular soberania-disciplina-governo. O governamento é aqui conceituado em seu significado geral, de “conduta da conduta”. Uma atividade voltada às relações privadas entre o eu e o eu, às relações interpessoais com mentores profissionais, às relações com instituições e comunidade e ao exercício da soberania política. A arte de governo seria uma forma de individualizar e normalizar.
A Governamentalidade Liberal
Outro sentido que dá significado ao termo governamentalidade está relacionado às formas e modos de pensar sobre o exercício do poder em algumas sociedades. As sociedades aqui consideradas são as da Europa Ocidental, do século XVIII em diante, cujos governos adquirem características pré-liberais mais pronunciadas. Ao longo da história, o problema de governamento surgiu junto com os mecanismos de soberania, que significavam o processo em andamento da governamentalização do Estado, ou seja, é um período em que se somam as tecnologias que dariam sustentação a essa nova ordem, tais como as que compreendem os cálculos e estratégias dos poderes constitucionais, jurídicos, fiscais e organizacionais do Estado, numa tentativa de gerir a vida econômica, os hábitos sociais e a saúde da população.

Ao se governamentalizar o Estado, criou-se a nova matriz de racionalidade, combinando a tecnologia diplomático-militar à polícia e, concomitantemente, a redefinição da população – como objeto de técnicas governamentais. Na nova forma de Estado o governo não se aplica ao território per se, mas, em vez disso, à complexa unidade dos homens em todas as suas relações e em seus vínculos com a propriedade e à cultura, em seus amplos sentidos, incluindo acidentes e desastres, tais como a fome e a guerra.

O surgimento da população como “datum”, como campo de intervenção e como objetivo das técnicas governamentais ou, noutras palavras, como uma entidade (distinta da família) a ser governada, numa realidade específica fez da economia política, disciplina e técnica de intervenção nessa realidade (FOUCAULT, 1991, p. 100). A descoberta da população levou à descoberta de um membro individual da população como ser vivo, trabalhador e social. Ao se estabelecer um elo entre população-indivíduo, introduziu-se um sentido um tanto paradoxal da vida como âmbito autônomo e como objeto de administração sistemática. Essa forma de pensar deu origem ao biopoder (poder sobre a vida) e ao exercício desse poder como parte do governamento – à Biopolítica. A população aparece como destinatária das ações administrativas designadas a aperfeiçoar a saúde, a vida e a produtividade da população (FOUCAULT, 1994). Esse deslocamento torna-a simultaneamente finalidade e instrumento de uma nova forma de governamentalidade (GADELHA, 2009a). Noutras palavras, a biopolítica é uma extensão da ação política, acarretando a administração dos processos de vida da população.

Nessa perspectiva, a biopolítica refere-se à família, às questões habitacionais, às condições de vida e de trabalho, ao que se chama de ‘estilo de vida’, a questões de saúde pública, a padrões de migração, a níveis de crescimento econômico e aos padrões de vida. No modo liberal de governamento, a operação ilimitada das normas de otimização da vida, isto é, os imperativos biopolíticos podem ser reprimidos por, pelo menos, duas outras dimensões da regra: economia e soberania, que possibilitam ao liberalismo o exercício da crítica (FOUCAULT, 2007). O liberalismo clássico cria técnicas governamentais únicas, que são tanto individualizadoras quanto totalizadoras. Noutras palavras, o liberalismo torna-se o governamento de tudo e de todos, mostrando preocupação com cada indivíduo e com a população como um todo. Deve-se reiterar que a nova governamentalidade (liberal) compreende o surgimento de novas formas de racionalidade sobre o exercício de governamento (no nível do Estado e no nível do eu) nas sociedades ocidentais, organizadas em torno de outras modalidades de exercício de poder: o poder pastoral, a soberania, o poder disciplinar e o poder sobre a vida (biopoder). O jogo dessas modalidades de poder, por sua vez, é internalizado pelos sujeitos na forma do governamento do eu.


Governamentalidade neoliberal – continuidades e descontinuidades
O século XX tem mostrado profundas mudanças em âmbito mundial, no que tange aos aspectos sociais, econômicas, culturais. Trata-se de mudanças operadas no campo da ordem da cultura, economia, política, ética, estética, educação, e que se dão de forma rápida e profunda, alterando percepções e saberes no amplo conjunto de práticas sociais. Para Sylvio Gadelha (2010, texto mimeo), à compreensão das mudanças ou mutações do liberalismo para o neoliberalismo, ajudam a compreender melhor esse processo de mutação e como isso tem chegado aos dias atuais, com reverberações no mundo da educação, alterando as concepções e os saberes.

Em meados do século XVIII, diz-nos Foucault (2008a), vamos observar um movimento de deslocamento da razão governamental no liberalismo que passa de uma razão assentada num “Estado de polícia” para uma “Razão econômica” como forma de autogoverno. Um “Estado de polícia” que segundo Foucault (2008a, p. 9), “assemelhava-se a uma espécie de policial que viria reprimir as diferentes personagens da historia” vamos observar que, uma governamentalidade assentada numa “razão de Estado” ou “Estado de policia”, a arte de governar seria diferente da arte de governar dos soberanos da idade média. Na idade média, o poder real era exercido por meio do exército e das instituições judiciárias e se fazia limitar pouco a pouco, em função deste Estado de justiça e de um sistema de justiça acompanhado de um sistema armado. Nos meados do século XVIII isso muda em direção a uma nova razão do Estado com efeito limitador que entra no calculo do poder: a economia política. Teremos com a da entrada da economia política no cálculo do poder, uma nova razão governamental que passa a operar como “autolimitação da razão governamental”. Não seria mais o direito, mas a própria “economia política” que iria operar como “razão governamental crítica” ou “critica interna da razão governamental”, examinando se não está havendo “governo demais”.
Para Foucault (2008a, p. 20-23),
[…] a economia política reflete sobre as próprias práticas governamentais, e ela não interroga essas práticas governamentais, ela não encara sob o prisma da sua origem, mas sob o dos seus efeitos. [...] o que a economia política descobre não são direitos naturais anteriores ao exercício da governamentalidade, o que ela descobre é certa naturalidade própria da prática mesma do governo. [...] a natureza não é, para a economia política, uma região reservada e originária sobre a qual o exercício do poder não deveria ter influencia, a não ser ilegítima. A natureza é algo que ocorre sob, através, no próprio exercício da governamentalidade.
Se essa natureza é própria da razão governamental, então a prática governamental não pode deixar de fazer o que tem a fazer, desrespeitando essa natureza, pois o sucesso ou fracasso dependera da observância a esse principio de naturalização da razão governamental a parti da economia política. Sucesso e fracasso passam a ser os critérios da ação governamental e não mais, o que é legitimo ou ilegítimo num ato de governo; a questão agora é outra: saber se esta sendo violada pelos governos essa “lei da natureza” comprometendo assim, pela não observância desses princípios, o sucesso que busca. Com a economia política, dois fatores passam a ser considerados: o principio de autolimitação, “a possibilidade de que ação governamental se limite em função da natureza do que ela faz e daquilo sobre o qual ela age” e por fim a questão do “princípio da verdade”.

Foucault (2008a, p. 24), “o governo nunca sabe se corre o risco de sempre governar demais, ou também: um governo nunca sabe direito como governar apenas o bastante”. Aqui entra a questão do mínimo. Se o “principio da verdade” ou “regimes de verdades”, indicam o que é verdadeiro ou falso numa prática, ou num discurso, podemos dizer que, com a introdução da economia política, toda a prática governamental passa por um regime de verdade, causando deslocamentos sobre as questões que a “arte de governar” pode suscitar. O “regime de verdade” é um principio de autolimitação do governo. Será o “principio de verdade” que ira organizar toda a sociedade acompanhada, por um Estado e governos mínimos que buscam a partir do principio de “regime de verdade”, não ser demais nem de menos, mas apenas o suficiente na articulação da governamentalidade que tem como principio regulador a economia política.

No livro, Nascimento da biopolitíca, Foucault (2008a) dedicou quatro aulas (31 de janeiro de 1979, 7 de fevereiro de 1979, 14 de fevereiro de 1979 e 21 de fevereiro de 1979), para explicar como o neoliberalismo de vertente alemã (ordoliberalismo), identificada com os problemas da república de Weimar1, à crise de 1929, ao desenvolvimento do nazismo e à crítica ao mesmo, bem como à reconstrução da Alemanha no pós-guerra, Tinham na “fobia ao Estado” a base para sua crítica, e consequentemente inspiração para produção de uma soberania política como uma segunda condição de possibilidade, encontrar uma nova maneira de legitimar esse Estado e essa soberania (GADELHA, 2010). Em relação ao neoliberalismo de vertente americana o “neoliberalismo americano”, passou a operar “contra o intervencionismo federal, depois contra os programas de assistência e outros programas que foram implantados pelos administradores democratas principalmente Truman, Kennedy, Johnson, etc.” (GADELHA, 2010). Essas duas formas de Governamentalidade neoliberal se distinguem em alguns pontos e comungam em outros, ambas, se veem diante da necessidade de responder a uma questão que se mostrava desafiadora, saber até que ponto uma política de mercado poderia servir de principio, de forma e de modelo para um Estado, cujos problemas atualmente, são questionados tanto pela a direita como pela a esquerda.
O neoliberalismo norte-americano: Escola de Chicago, teoria do capital Humano e Empreendedorismo.
Foucault, nos anos setenta (século XX), dá interessantes pistas, para se pensar como se deu a transição do liberalismo para o neoliberalismo. Tomando as reflexões de Foucault, inicia-se uma introdução ao estudo das articulações2 que ajudará a identificar conceitos que o filósofo elaborou – principalmente em seus estudos genealógicos – para descrever e problematizar as práticas sociais da Modernidade, tais como poder disciplinar, vigilância, espacialização e temporalização microfísicas, biopoder, governamento (dos outros e de si mesmo), dispositivo etc. (SARAIVA; VEIGA-NETO, 2009).

O liberalismo, a partir da década de 1980, vem sendo ressignificado na forma de neoliberalismo. Como mostrou Foucault (2008a), o neoliberalismo apresenta deslocamentos importantes em relação ao liberalismo inventado no século XVIII. Ele Toma a questão da liberdade, em função do que representaria para a sociedade e critica o modo como essa liberdade vinha sendo afetada em virtude do aumento do custo econômico para sua efetivação nos estados socialistas, nacional-socialista e fascista (GADELHA, 2009a).



A diferença mais marcante é a existente entre a compreensão de liberdade no liberalismo, em que a liberdade do mercado era entendida como algo natural, espontâneo - e a do sistema neoliberal, que pensa a liberdade como um contínuo produzido e exercitado a partir do espírito de competição. Em outras palavras, no liberalismo tinha-se a ênfase na troca de mercadorias, entendida como uma ação espontânea entre as pessoas; já para o neoliberalismo, é a competição – e não a troca espontânea – que irá marcar as relações entre as pessoas: a governamentalidade neoliberal intervirá para maximizar a competição, introduzindo a concorrência como elemento que ira produzir as regras do jogo econômico.
A teoria do capital humano como doutrina
Antes de iniciarmos nossa abordagem conceitual sobre o termo “capital humano” farei um breve comentário sobre o contexto e as circunstancia que levou a formulação da “Teoria do Capital humano”. GADELHA (2009b, p. 174), nos coloca em contato com as origens da teoria do capital humano enfatizando o duplo movimento entre a Escola de Chicago e a Teoria do Capital Humano, quando demonstra “as diferencias entre as análises típicas do liberalismo clássicas e aquelas provenientes da escola de Chicago”.
Conforme Sylvio Gadelha (2009c, p. 174);
[…] O termo Escola de Chicago surgiu na década de 1950, aludindo às idéias de alguns professores que, sob influência do paradigma econômico neoclássico e sob a liderança de Theodore Schultz, atuavam junto ao Departamento de Economia da Universidade de Chicago, mas também junto à Escola Superior de Administração e à Faculdade de Direito dessa mesma universidade. Por outro lado, o termo remete também a um grupo de economistas que, a partir do início dos anos 1960, influenciados por Milton Friedman (Nobel de 1976), George Stigler (Nobel de 1982) e seus discípulos, além de servir de arauto à defesa do livre mercado, refutava e rejeitava os princípios da doutrina keynesiana3. Um dos principais desenvolvimentos teóricos da Escola de Chicago, particularmente pela influência dos trabalhos de Schultz e de Stigler, consiste na teoria do Capital Humano. (COSTA, 2009c, p. 174).
Recorrerei ao sociólogo Osvaldo López-Ruiz (2007, p.15) que define capital humano como:
[...] um conjunto de capacidades, destrezas e talentos que, em função do avanço do capitalismo, deve se tornar valor de troca. Para isso acontecer, esses atributos humanos precisa, de certa maneira, ser abstraídos das pessoas concretas que os detêm, das pessoas concretas nas quais existem e precisam articular (alinhar) em função de um fim extremo a elas. Argumentaremos, portanto, que o “humano”, um conjunto de habilidades, destrezas e aptidões próprias dos homens, adquire valor de mercado e se apresenta como forma de “capital” – entendido este como uma soma de valores de troca que serve de base a uma empresa capitalista. Assim, a partir de um determinado momento que escolhemos chamar de “invenção do capital humano”, o capital, conceito necessariamente abstrato, passa a se apresentar coberto com roupas humanas, “vestindo” características e atributos até então vistos no homem. O capital é investido de formas humanas. (LÓPEZ-RUIZ, 2007, p. 15).
Tomando essa citação, vemos que autor nos mostra como o capital humano “sendo introduzindo no campo da analise econômica; como conduta econômica assumida por quem trabalha”, há uma passagem da sociedade de consumo para a sociedade de empresa e de um trabalhador-consumidor para um trabalhador-empresa, significando que a teoria do capital humano, segundo um de seus fundadores, Theodore W. Schultz, professor da Universidade de Chicago, Prêmio Nobel de Economia em 1979 ampliou as margens conceituais do que devia ser entendido como investimento. Para Theodore W. Schultz, o entendimento de que a educação seria comparável a um investimento produtivo, tomou corpo na área econômica, a ponto de estimular um campo específico de pesquisa e de reflexão – a Economia da Educação.

Transformando o que antes era consumo (educação, saúde, moradia, lazer etc.) em investimento, que, após algum tempo, retornaria em recompensas para o seu investidor, os economistas trazem para as discussões sobre o trabalho, o humano enquanto capital. Ou seja, o humano se transforma em capital, com todas as especificidades do capital monetário e enquanto tal carece de cuidados para que seja rentável.

Entre os cuidados, está prioritariamente o investimento na educação dos indivíduos, pois será através da educação que eles irão adquirir capacidades úteis e conhecimentos que servirão para a ampliação da qualidade de seu capital. Mas esse empenho se destina a que ações e a quais finalidades? Aqui entra uma questão de extrema importância que não se pode deixar de analisar. Como a educação se transforma em agente capaz de auferir efeitos sobre os futuros rendimentos dos indivíduos? Theodore W. Schultz considerava que a educação pode fazer com que as pessoas progridam em suas capacidades e, em consequência, incrementem seus futuros rendimentos. Investimento que, segundo Schultz, é composto de duas partes: “de um consumo futuro e de um componente de futuros rendimentos”, ou seja, o que se investe em educação, hoje, se destina a rendimentos futuros, pensados como recompensa pelo investimento realizado. Dessa forma, sempre está no futuro a satisfação pela ação hoje desenvolvida. Isso remete o indivíduo a um estado de instabilidade e, ao mesmo tempo, de insegurança, já que sua ação presente não é garantia futura da recompensa pela ação desempenhada.

A educação, para Schultz (1969, p. 62), tornou-se uma fonte de maior importância para o crescimento econômico: “A educação, por conseguinte, além do acréscimo em apresentar altos valores culturais, é efetivamente também um investimento nas pessoas, à medida que aperfeiçoa as suas capacitações e, portanto, os futuros rendimentos a serem auferidos pelos indivíduos”.

A Teoria do Capital Humano vai influenciar as políticas educacionais instalando uma nova cultura a “cultura empreendedora” e uma “educação empreendedora”, observa-se uma nova forma de pensamento que circula no e em torno do ambiente educativo. Diz o professor Sylvio Gadelha, em um artigo publicado na revista Educação e Realidade, intitulado Governamentalidade neoliberal, teoria do capital humano e empreendedorismo:
[...] tem disseminado de forma surpreendente, por sua abrangência e poder de persuasão, uma nova discursividade nas searas educativas, que busca fazer dos indivíduos-microempresas verdadeiros empreendedores. Esses são caracterizados pelos seguintes traços: são proativos, inovadores, inventivos, flexíveis, com senso de oportunidade, com notável capacidade de provocar mudanças, etc. (GADELHA, 2009b, p. 181).
Essas exigências partem de uma necessidade do capital, que, configurado em termos como globalização, reestruturação produtiva, flexibilização das relações de trabalho, disciplina fiscal, redefinição dos gastos públicos, liberalização do setor financeiro, liberalização comercial, atração das aplicações de capital estrangeiro, privatização de empresas estatais, desregulação da economia, etc. busca atrair e mobilizar em seu favor “a potência de individuação de cada um”. Ao buscar essa individuação, o neoliberalismo se apresenta com uma “maneira de ser e de pensar”, portanto uma relação e não uma alternativa a ser aplicada e testada.

Para Foucault, todos os elementos citados acima evocados pelos defensores da Teoria do Capital Humano concebem o individuo como uma empresa, funcionando nas mesmas bases em que funciona uma empresa, uma empresa que se confunde com o próprio individuo, um individuo microempresa.


GADELHA (2009b, p. 180-181) define indivíduo-microempresa como sendo:
[…] Um indivíduo estranho, ainda mal elaborado, cujo corpo, por exemplo, já não seria mais mecânico-orgânico, mas cibernético, pós-orgânico, pós-humano; e que por outro lado, um indivíduo cuja identidade, cujo Eu, cujas maneiras de pensar, de agir e de sentir, já não são, apenas e tão somente, constituídas por uma normatividade médico-psi, mas cada vez mais produzidos por uma normatividade econômico-empresarial. […] caracterizados pelos seguintes traços; são proativos, inovadores, inventivos, flexíveis, com senso de oportunidades, com notável capacidade de provocar mudanças, etc.

Dessa forma, passou-se a exigir desse novo indivíduo, ações que possibilitem ao sistema econômico capitalista continuar seu desenvolvimento. Portanto, seres humanos transformados em capital, com determinadas capacidades, habilidades e destrezas (criatividade, flexibilidade, inovação), com valorização social. Ao transformar o fazer humano (trabalho) em uma forma de capital (capital humano), a educação é tomada como locus privilegiado, pois “o conhecimento é o motor mais poderoso de produção” (MARSHAL, 1925), sendo assim capaz de incrementar novas formas de valorização do indivíduo em função de investimentos feitos por ele em educação, com promessas de que esse “capital humano” poderá ter rendimentos futuros. Daí a investida do capital no campo educacional, segundo Oliveira (2001, p. 2)


[…] Usam-se “argumentos de que as mudanças na conjuntura política internacional marcada, principalmente, pelo fim do socialismo real e, ao mesmo tempo, por novas teorias que apontam para o fim da história, bem como para o desaparecimento da classe trabalhadora – compõem um conjunto de elementos que favorecem o surgimento de teorizações no campo educacional, definindo as políticas educacionais de forma que elas atendam aos interesses dos setores capitalistas”.
Para os teóricos da escola de Chicago (Theodore Schultz, Milton Friedman, George Stigler, Harry Gordon, etc.) é o interesse pela composição, acumulação e uso desse capital humano, que ira fazê-los questionar, se é hereditário ou se são adquiridos (principalmente pela educação). É a preocupação em entender como se dão os investimentos em capital humano pelos patrões, pelo Estado e pelo o próprio indivíduo que passa a ser considerado como elemento gerador desta ordem neoliberal norte-americana, daí investimento/educação ocupar um lugar impar nessa composição de forças de reestruturação do capital. Foucault (2008a, p. 315) afirma que:
[…] claro, é muito mais do lado adquirido, ou seja, da constituição mais ou menos voluntária de capital humano no curso da vida dos indivíduos, que se colocam todos os problemas e que novos tipos de análises são apresentados pelos neoliberais. Formar capital humano, formar, portanto essas espécies de competência-máquina que vão produzir renda, ou melhor, que vão ser remuneradas por renda, quer dizer o que? Quer dizer, é claro, fazer o que se chama de investimentos educacionais.
Vamos observar que uma articulação passa a ser estabelecida entre governamentalidade neoliberal e educação, e envolve uma série de elementos importantes, característicos da governamentalidade neoliberal norte-americana presentes exemplarmente no fenômeno do empreendedorismo. Segundo Sylvio Gadelha (2010):
[…] o culto ao empreendedorismo está por toda parte, propagando-se de forma surpreendente! Ele está em livros, capas de revistas, artigos de jornal, reportagens de TV, sítios da Web, cartazes de eventos; na programação de cursos, seminários e congressos, mas também em escolas públicas e privadas; em organizações empresarias e comerciais voltadas à qualificação e preparação para o mundo do trabalho; nas ONGs que assistem aos jovens da periferia das grandes cidades, em programas e/ou projetos governamentais sociais ou voltados para a área cultural; nas universidades, nos programas de partidos políticos, na agenda de entidades multilaterais e de entidades comprometidas com o desenvolvimento sustentável.
Constitui-se um dos principais fatores enaltecidos pelos teóricos da gestão empresarial, e por uma entidade particular: o mercado. Inovação, eficiência, competitividade, qualidade, habilidades, parece constituir-se em unanimidade, transformando-se no remédio para todos os males enfrentados pelos indivíduos, instalando desta forma, uma cultura do empreendedorismo, uma cultura que, vem sendo cada vez mais disseminada, e que tem a peculiaridade de associar-se facilmente a todas as esferas e níveis de ação de nossa vida cotidiana.
Empreendedorismo e políticas educacionais
A teoria do empreendedorismo, nos últimos anos tem chegado à escola com avassaladora investida na tentativa de transforma os indivíduos em empreendedores, portanto, capitalistas representantes de si mesmo. A ideia de tornar-se um empreendedor é propagada como algo novo e resultante de uma concepção moderna, que responderia aos atuais desafios da modernidade no campo do trabalho e do desenvolvimento, apresentado sob o discurso técnico de “ser um empreendedor”, em que a mudança de comportamento, e aprendizado, de estudos de mercado e de cálculos, seria suficiente para mudar a condição dos indivíduos. O empreendedorismo passa a ser considerado um canal pelo qual se passa todas as possibilidades de crescimento econômico dos indivíduos. Segundo Timmons (1994) citado por Dolabela (1999, p. 29) no seu livro o “Segredo de Luiza”, “o empreendedorismo é uma revolução silenciosa, que será para o século XXI, mas do que a revolução industrial foi para o século XX”.

Para que essa “Boa Nova” chegue ao conhecimento de todos, seus ideólogos buscam demonstrar como o empreendedorismo configura-se em alternativa positiva para o enfrentamento das crises de desemprego estrutural, avaliando-o como fundamental para o despertar do “espírito empreendedor” nos indivíduos, haja vista que, o comportamento empreendedor é citado como necessário diante da complexidade do mundo moderno. Cabendo a educação empreendedora promover o desenvolvimento do potencial empreendedor nas pessoas.


Segundo López-Ruiz (2007, p. 30):
[…] o empreendedorismo passou a ser atitude de um povo, a atitude que se espera de um povo, como anuncia hoje uma vasta literatura de gestão de negócios. O que isto quer dizer? Em primeiro lugar, que o sistema econômico já não precisa de alguns poucos homens de negócios empreendedores que tomem em suas mãos as rédeas do desenvolvimento econômico. O que o sistema econômico precisa é de uma ética empresarial do trabalho. Isto é, precisa de um conjunto de valores e normas que seja partilhado dentro da sociedade, a partir do qual quem trabalha seja levado a pensar e a sentir a sua atividade como uma empresa particular e como o motivo principal da sua vida.
A busca de mudança de valores e comportamento frente às novas exigências é o primeiro passo a ser tomado pelos futuros empreendedores. Aqui, entra como já mencionei nas linhas anteriores, a investida sobre as políticas educacionais, consideradas como meio mais amplo para disseminação dos objetivos, metodologias e práticas de um processo de “educação empreendedora”. Através de leis, pactos, parcerias, convênios, toda uma discursividade é gerada tornando possível uma disseminação das ideais do que seja empreender.

As políticas educacionais serão nessa nova ordem do capitalismo mundial, utilizadas como instrumento de disseminação do empreendedorismo, daí seu avanço sobre as políticas educacionais num processo contínuo e crescente, que se inicia na educação informal, chegando ao ambiente escolar como potencializador do discurso sobre a educação empreendedora, tida como nova, moderna, humana, democrática e participativa, ampliando desta forma o discurso de valorização do individuo empreendedor na sociedade, contribuindo para a manutenção da hegemonia do pensamento neoliberal.

Na multiplicidade de abordagens que nos podem surgir sobre a educação para o empreendedorismo e o desenvolvimento comunitário, destacamos neste artigo a importância que se vêm dando a Educação Empreendedora em razão da possibilidade de uma educação para a Sustentabilidade, sendo o empreendedorismo considerado um agente que engloba a motivação e a capacidade de um indivíduo, isolado ou integrado numa organização, capaz de concretizar os objetivos de produzir um determinado valor ou resultado econômico. Por conseguinte, surge como um processo dinâmico que tem inerente a concepção, percepção, planificação e a realização de uma oportunidade de negócio, que pressupõe o envolvimento de pessoas e processos onde, em conjunto, levam à transformação de ideias em oportunidades, articulando desta forma o saber, a criatividade, a inovação e a sustentabilidade.

A aposta na construção de uma cultura empreendedora se apóia num conjunto de saberes, em particular, do saber fazer e de saber ser (com…) susceptível de incutir em cada profissional, atitudes proativas que gerem comportamentos baseados em: confiança em si, determinação, desembaraço, esforço, espírito de equipa, iniciativa, motivação, perseverança, sentido da responsabilidade, solidariedade, resiliência, resolução de problemas, identificação de oportunidades, inovação e criatividade. Daí caberia à educação o papel de articulação entre o saber e o empreender.

Educar o cidadão para o empreendedorismo associado ao desenvolvimento é uma tarefa que deve começar o mais cedo possível, o que quer dizer, que a escola é chamada a mais uma nova missão, a de preparar as novas gerações para o empreendedorismo, a sustentabilidade e a participação ativa na comunidade. Nesta perspectiva, os professores deverão estar preparados para saber orientar os seus alunos para a sustentabilidade, proporcionando-lhes situações de desenvolvimento de competências pessoais e sociais, em particular para a tomada de decisão, e de aprendizagens ativas, experienciais, colaborativas, direcionadas para a resolução de problemas (devidamente identificados), para a concretização de uma mudança positiva e para a construção do bem-estar para todos, seja em nível individual, local ou comunitário, regional e social.

A partir da compreensão acima citada, podemos observar que a gestão de políticas públicas em educação configura-se a parti das diretrizes que definem os pilares que sustenta a política educacional nacional e que estão dando sustentabilidade ao discurso do empreendedorismo. A LBD 9394/96 nos diz que a escola deve ser: Democrática e participativa, autônoma e responsável, flexível e comprometida, atualizada e inovadora, humana e holística. Atento a estas exigências, vamos perceber que sob o enfoque do empreendedorismo, a LBB quer uma escola empreendedora, onde seus educadores devam adotar posturas e práticas empreendedoras, formando alunos capazes de agir empreendedoramente. Ou seja, as ações descritas seriam as necessárias para a instalação de uma sociedade empreendedora assentada também nos pilares dos quais se refere à LBD.

Para Vilela (2005), nos quatro pilares que orientam a educação do presente - conhecer, fazer, ser e conviver - é necessário acrescentar “aprender a empreender” como quinto pilar. Essa necessidade de trazer a educação empreendedora para a escola através da uma “educação empreendedora” nos dá indícios do quanto o empreendedorismo vem tornando-se nos últimos anos uma exigência para a educação formal e informal.
Considerações finais.

Em razão do estudo empreendido, sinto-me encorajado a dizer que a promoção de uma cultura empreendedora só é possível quando se encontra um ambiente receptivo para a valorização do conhecimento e da inovação, já que as orientações a serem dadas para que se possa manter a rota que leva ao empreendedorismo implica o desenvolvimento de um conjunto multidisciplinar e transversal de competências (conhecimentos, capacidades e atitudes) dos foros pessoal, acadêmico, profissional e social.

Ao longo deste artigo, procurei mostrar como se articulam as relações entre empreendedorismo e educação, na busca da criação de um ambiente receptivo a idéias que sustentam o discurso do empreendedorismo e sua apresentação como meio para a solução dos males que assolam a humanidade, tendo a educação como seu locus privilegiado. Educação não apenas formal, bancária, escolar, mas educação operando através de vários dispositivos, como igreja, escolas, ONGs, associações comunitárias, empresas. Enfim, uma rede que faz uso do recurso ensino, para difundir o empreendedorismo e seu dinamismo como parte da estratégia de globalização neoliberal, apontando-o como única alternativa para o desemprego e a informalidade no mercado de trabalho; convocando todos a converterem-se em indivíduos “empreendedores”. Segundo o empreendedorismo, os efeitos da globalização neoliberal poderiam ser minimizados pelos indivíduos, com uma nova mentalidade e um novo comportamento.

O empreendedorismo apresenta o modelo econômico capitalista como um único e inevitável caminho e omite as suas principais características negativas. O empreendedorismo, ao abordar os sistemas de valores, enaltecendo o indivíduo empreendedor, reforça a lógica do beneficio pessoal em detrimento da solidariedade, contribuindo para o estabelecimento de relações sociais empobrecidas, baseadas estritamente na competição, que aprofunda as diferenças e as desigualdades. As oportunidades apresentadas pelo empreendedorismo sustentam apenas o discurso da mudança de mentalidade e comportamento.

Através das políticas educacionais, o empreendedorismo encontrou as condições para ampliar as suas possibilidades de enraizamento social. Responsabiliza os indivíduos pela sua inserção econômica, pelos resultados do “padrão sucesso” e da qualidade na educação, e depois é a escola e os educadores. Para Arelaro (2007, p. 916),
De agora em diante, adotado este processo de “transferência do saber” igual para todos independente de suas condições de vida e desigualdade sociais, se o aluno não conseguir êxito escolar, o problema e a responsabilidade poderão ser transferidos a ele e sua família: “culpa” do aluno, porque não se dedica o suficiente ás atividades e deveres escolares, e de família, porque não o estimula ou o acompanha na frequência e ritmos necessários.
O empreendedorismo vem ampliando seu discurso de valorização do individuo empreendedor na sociedade, vem contribuindo para a manutenção da hegemonia do pensamento neoliberal. Ao tratar com muita insistência a capacidade de correr riscos como condição para se ter sucesso, está também transferindo para os indivíduos riscos financeiros, psicológicos e sociais. No entanto, apontar os riscos do empreendedorismo e desvelar que a formatação dos processos educacionais e de formação empreendedora não é suficiente; é necessário encontrar caminhos para além do que vem sendo pensado em relação ao empreendedorismo.

A ênfase dada por mim à questão da “governamentalidade neoliberal”, com foco no “empreendedorismo”, além de buscar demonstrar que a propagação da mentalidade e do comportamento empreendedor representa uma ameaça, disfarçada de oportunidade, pretendi contribuir com o debate sobre os caminhos que a educação vem tomando nos dias atuais, caminhos de sujeição e de ajustamento às normas e ditames do mercado global.

Neste artigo, não foquei as resistências que advém em decorrência da aplicação destas políticas de sujeição; não era minha intenção pontuá-las neste momento, mas creio que um olhar para as linhas de fugas e para as rupturas deva nos ajudar a compreender melhor essa situação, haja vista que, segundo Foucault, onde há poder, há também resistência.

Minha intenção foi identificar as maneiras mediante as quais, a “cultura empreendedora”, se servia de expedientes para pôr em circulação suas “verdades”. Nesta perspectiva, o projeto neoliberal, apresenta-se como um meio para criar valor; assim, passa não só pela procura de novas oportunidades de negócios, mas também, pelo incentivo ao empreendedorismo, compreendido nos âmbitos individual, no grupo e no social, e pelo enaltecimento do bem-estar e da formação de profissionais inovadores, cidadãos responsáveis e empreendedores.

Nos últimos anos as políticas de educação em vigência no Brasil têm se configurado a partir das exigências do capital. Daí perguntar: O que isso vem a significar? Significa que a educação vem sendo concebida como bem de mercado. Presenciamos a um intenso processo de ressignificação das palavras e das coisas, buscando dar validade ao que se convencionou chamar “processo de reestruturação da educação”, pelo esforço global de desenvolvimento. Termos como globalização, flexibilização, reestruturação produtiva, responsabilização das pessoas e liberdade de mercado, marcam o que vem a ser a posição de defesa explícita da vinculação entre educação e produtividade, numa visão claramente economicista.

A governamentalidade ajuda-nos a fazer perguntas sobre como o “ser” foi “transformado em formas ponderáveis e maleáveis”, quais técnicas discursivas estão envolvidas com a criação da realidade e como são estabelecidas às operações modernas de poder-saber. Ela constitui uma poderosa ferramenta, capaz de nos mostrar que elos existem entre a racionalidade neoliberal, o exercício da autoridade e os tipos de conduta evidenciada pelos cidadãos.

Como conceber a educação? Ao perguntar sobre isso, somos remetidos a dois outros questionamentos: “que educação”? “para quais sujeitos?” Em ambos, coloca-se uma questão central na analítica da governamentalidade neoliberal: evidenciar até que ponto se pode relacionar educação e subjetividade e que elementos podem nos guiar em busca de uma compreensão da educação na contemporaneidade.

Após estas considerações em torno conceito da governamentalidade e de suas repercussões no mundo da educação, sentimo-nos impulsionado a pôr em evidência as transformações pelas quais passa a educação, e como isso tem se configurando como um agenciamento capaz de interferir no “governo das pessoas”, numa relação de troca entre indivíduos consigo mesmo. Para Gadelha (2009, p. 156):


[...] os indivíduos e coletividades vem sendo cada vez mais investidos por novas tecnologias e mecanismos de governo que fazem da formação e de sua educação, num amplo sentido, uma espécie de composição desenfreada, cujo progresso se mede pelo acumulo de pontos, como num esquema de milhagem, traduzidos em índice de produtividade.
Diz o empreendedorismo que pensar em educação significa pensar em investimento nas pessoas afim de que possam desenvolver as habilidades e competências tão necessárias a uma inserção no mundo globalizado. Hoje, como nunca, é dada uma valorização à questão das competências – na pedagogia (formação do professor), no processo de escolarização (programas curriculares) e na educação, tomado no sentido amplo. (GADELHA, 2009). É nesse ponto que consideramos importante buscar compreender as relações que estão se dando quando se pensa à questão do papel da escola. Pensar o papel da escola é concebê-la em sua constituição.

BIBLIOGRAFIA


ARELARO L. R. G. Formulação e implementação das políticas públicas em educação e as parcerias público-privadas: impasse democrático ou mistificação da política? Educação & Sociedade: Revista de Ciências da Educação, Campinas, v. 28, n. 100, p. 899-919, out. 2007. Numero especial.

DELEUZE, Gilles. Foucault. São Paulo: Brasiliense, 1991, p. 46.


DOLABELA, F. O segredo de Luiza. São Paulo: Cultura, 1999. p. 29.

FOUCAULT, M. Michel. Vigiar e punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1987. p. 36.

______. A arqueologia do saber. 3. ed. Rio de janeiro: Forense-Universitária, 1987.

______. A governamentalidade. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 2003b. p.291-292.

______. A ordem do discurso. Trad. Laura F. A. Sampaio. Campinas: Loyola, 1998a. Aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970.

______. Ditos e Escritos. Paris: Gallimard, 1994. v. 4.



______. História da sexualidade I: a vontade de saber. Tradução de M. Albuquerque e Albuquerque, Trads.). Rio de Janeiro: Graal. 1997.

______. La gouvernementalité. In: FOUCAULT, Michel. Dits et écrits (1976-1979). Paris: Gallimard, 1978. v. 3, p. 635-657.

______. Microfísica do poder. 5.ed. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985.

______. Microfísica do poder: sobre a história da sexualidade. In Rio de Janeiro, (pp. 243-276). Rio de Janeiro: Graal, 2003 a.

______. Nascimento da Biopolitica. São Paulo: Martins Fonte, 2008a.

______. Segurança, território e população. Curso dado no Collége de France (1977-1978). São Paulo: Martins Fontes, 2008b.

______. Security, Territory, Population: Lectures at the Collège de France, 1977- 1978. New York: Palgrave Macmillan, 2007.

____________. Verdade e poder. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1992. p. 7.

______. Verdade e poder. In: FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 13. ed. Trad. Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 1998b. p. 1-14.

GADELHA, Sylvio. Biopolitica, governamentalidade e educação. introdução e conexões, a parti de Michel Foucault. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.

______. Subjetividade e menor idade: acompanhando o devir dos profissionais do social. São Paulo: Annablume; Fortaleza: Secretaria da Cultura e Desporto, 1998.

______. Biopolítica e educação. Fortaleza: [s. n.], 2007.

______. Educação e subjetividade: elementos para uma escuta extemporânea. 2003. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2003.

______. Biopolitica, governamentalidade e educação: introdução e conexões, a parti de Michel Foucault. Revista Educação e Realidade, v. 34 n. 2, p. 97-117, 2009.



______. Governamentalidade (neo) liberal, concorrência, empreendedorismo e educação: um abordagem foucaultiana. Fortaleza, 2010. (Mimeografado).

GUIAR, Ubiratan, LDB comentada. Fortaleza: Ed. Premius: Livro Técnico, 2000.

LOPES-RUIZ, Osvaldo Javier. Os executivos das transnacionais e o espírito do capitalismo. Capital humano e empreendedorismo como valores sociais. Rio de janeiro: Azougue Editorial, 2007.

MARSHAL, Alfredo. Principles of economics. 8. ed. Londres: Macmlliam, 1925.

OLIVEIRA, Ramon de. A teoria do capital humano e a educação profissional brasileira. Boletim Técnico do SENAC, Rio de Janeiro, v. 27, n. 1, p. 26-37, jan./abr. 2001.



SCHULTZ. T. O capital humano. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.

VEIGA-NETO, A. Coisas do governo... In: RAGO, M.; ORLANDI, L.; VEIGA-NETO, A. (Org.). Imagens de Foucault e Deleuze: ressonâncias nietzschianas. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. p. 19.

______. Governabilidade ou governamentalidade? 1997. Disponível em: . Acesso em: 30 set. 2010.

VILLELA, C. Empreendedorismo na escola. In: ACUCIO, M. R B. O empreendedorismo na escola. Porto alegre: ARMED; Belo Horizonte: Rede Pitágoras, 2005. p. 25-58.





1A República de Weimar foi instaurada na Alemanha logo após a Primeira Guerra mundial, tendo como sistema de governo o modelo democrático. O Presidente da nomeava um chanceler que seria responsável pelo poder Executivo. Quanto ao poder Legislativo, era constituído por um parlamento (Reichstag). Sucedeu ao Império Alemão. As circunstâncias em que foi criada a República de Weimarforam muito especiais. Prestes a perder a Primeira Guerra Mundial, a liderança militar alemã, altamente autocrática e conservadora, atirou o poder para as mãos dos democratas, em particular o SPD, que acabou por ter de negociar a paz (ou seja, a derrota na Guerra). Com isso, ficava no ar o saudosismo de uma nação outrora poderosa, nos tempos do imperador, em comparação com a nova realidade democrática, cheia de derrotas e humilhações. Sebastian Haffner chamou-lhe uma "república sem republicanos". Kurt Tucholwski chamou-lhe: "o negativo de uma monarquia, que só não o é porque o monarca fugiu" (o imperador Wilhem II viu-se obrigado a abdicar). Em face de essa situação política, que alguns compararam a um presente envenenado à democracia, acabou por lançar os fundamentos que permitiram mais tarde a Adolf Hitler posicionar-se como o arauto de um regresso ao passado imperial e antidemocrático da Alemanha e implantar o nazismo. Disponível em: (http://pt.wikipedia.org/wiki/. Acessado em 02 de agosto de 2010.

2Tais articulações não devem ser pensadas como simples conexões mecânicas de causa e efeito, mas sim, como complexas e inextricáveis relações de causalidade imanente, nos termos propostos por Deleuze. É bem conhecida a formulação deleuziana: causa imanente é aquela “que se atualiza em seu efeito, ou melhor, a causa imanente é aquela cujo efeito a atualiza, integra e diferencia [havendo uma] correlação, pressuposição recíproca entre a causa e o efeito, entre a máquina abstrata e os agenciamentos concretos” (DELEUZE, 1991, p. 46).

3Dentre os economistas desse grupo destacam-se: David Galé Johnson, Gary Stanley Becker (Nobel de 1992), George Stigler, Merton Miller (Nobel de 1990), Ronald Coase (Nobel de 1991), Robert Fogel (Nobel de 1993) e Robert Lucas (Nobel de 1995). Desenvolveram análises econômicas ligadas a temas, tais como a teoria do capital humano (Schultz, Becker), desregulamentação da economia, abordagem monetarista (Friedman), a teoria dos custos de transação (Coates), racionalidade econômica do comportamento humano (Becker), dentre outros. Além disso, vale assinalar que os princípios econômicos dessa escola foram aplicados no Chile, em plena ditadura de Pinochet (de 1973 a 1989) sob orientação dos Chicago Boys – economistas chilenos que, por efeito de acordos de cooperação entre a Escola de Chicago e a Universidade Católica do Chile, foram treinados para assumir a direção daquele governo. (GADELHA, 2009c, p. 184).


Catálogo: novo -> ivsief -> trabalhos
trabalhos -> HistóRIA E CULTURA AFRO-BRASILEIRA NA PROPOSTA CURRICULAR DE história de 5ª a 8ª SÉrie da rede oficial do estado de são paulo
trabalhos -> EducaçÃo dos sentidos: estética e biopolítica na experiência surrealista
trabalhos -> Perspectivas da teoria da açÃo comunicativa: possibilidades na formaçÃo docente
trabalhos -> Quando a educação não escolar pode ser semiformativa? Ferreira, Isabella Fernanda. Resumo
trabalhos -> Epistemologia da complexidade e cultura da pobreza na escola dantas, L. G
trabalhos -> Estética da existência: estilo e problematizaçÃO
trabalhos -> Experiência e formaçÃo humana: reflexão a partir dos pensamentos de benjamin e gadamer
trabalhos -> Ética e educaçÃO – À procura de caminhos
trabalhos -> Guarienti, L. B. O
trabalhos -> Ethics and education


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal