Micareta de Feira de Santana: Uma Festa Popular Sob o Olhar das Relações Culturais e Socioeconômicas



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Micareta de Feira de Santana: Uma Festa Popular Sob o Olhar das Relações Culturais e Socioeconômicas
Micareta of Feira of Santana: A Popular Party under the look of Cultural and Socioeconomic Relations

Florentino Carvalho Pinto

Prof. do Depto. Ciências Sociais Aplicadas da UEFS

Coord. do Núcleo de Pesquisa e Extensão da FAT

Mestre em Administração




Luziane Amaral de Jesus

Licenciada em Letras com Inglês (UEFS)

Graduanda em Licenciatura em Letras com Língua Espanhola (UEFS)





Resumo

Este artigo tem como alvo estudar a Micareta de Feira de Santana, verificando a sua essencialidade como festa popular e as contribuições propiciadas à comunidade local. O trabalho abrange um ambiente de estudo, através de uma pesquisa de campo, aplicada no próprio território; estuda as relações culturais, sociais e econômicas travadas nele; e, discute o valor e a complexidade desta festa popular fora de época, mas que tem seu brilho, e, é muito conhecida nas regiões do Brasil. Este trabalho dá uma idéia das relações intersetoriais, que não podem deixar de serem feitas para que o evento aconteça; e, demonstra que a Micareta, destaque no gênero de festas populares na Bahia e no Nordeste, se expandiu e carece de maior flexibilidade, cuidado e um volume de investimentos, que leve em conta suas várias facetas e sua ampla diversidade.


Palavras-chave: Micareta de Feira de Santana. Festa popular. Relações culturais, sociais e econômicas.

Abstract

This article has like aim, study to Micareta of Feira of Santana, verifying his essence as party of the people and its contributions for the community. The article includes an environment of study, through a field work, applied in the own territory; studies the economic, social, and cultural relations stopped in him; and, discusses the value and the complexity of this popular party, outside of epoch, but that has I shine its, and, is very known in the regions of Brazil. This paper gives an idea of the relations between different sectors, which can only be made for it to happen, and shows that the Micareta, especially in the genre of popular festivities in Bahia and the Northeast, has expanded and needs more flexibility, care, and a volume of investments that takes into account its various facets and their wide diversity.
Keywords: Micareta of Feira of Santana. Popular party. Economic, social, and cultural relations.
1. INTRODUÇÃO
Esse artigo aborda, especificamente, a Micareta de Feira de Santana no período de 24 a 27 de abril de 2004. É fruto de uma plataforma de pesquisa implementada pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico com a participação executiva do Núcleo de Informações e Pesquisas Econômicas e Sociais (NIPES). Este trabalho tem como alvo estudar a Micareta feirense, verificando a sua essencialidade como festa popular, considerando as contribuições que ela propicia à comunidade. Baseando-se no pressuposto de que a Micareta feirense, nos últimos 20 anos, tem marcado frutos positivos no ranking do calendário festivo do Estado da Bahia; a nível nacional exporta seu know-how para muitas partes do Brasil; e, possui uma característica distinta quanto à sazonalidade considerando ao calendário festivo baiano, que contribui para o crescimento e sucesso do evento.

A Micareta de Feira de Santana há muito tempo deixou de ser local e os seus efeitos contribuem para animar as plagas mais longínquas do Brasil, é caracterizada como um fenômeno importante: segundo maior destaque no gênero de festas populares na Bahia e no Nordeste. A expansão desse evento tomou tal dimensão, nos últimos 20 anos, que chama a atenção de entidades públicas e privadas, exigindo maior atenção, flexibilidade e um razoável volume de investimentos.

Ampliando o olhar para a lógica da festa, esta transcende a uma visão puramente simplista e encontra no âmago da organização uma grande e complexa rede de entidades, que reinventam esse evento todo ano, ampliando sua dimensão e expandindo suas potencialidades. Entender a Micareta de Feira de Santana é procurar a lógica antropológica de uma festa popular, que mistura várias facetas das atividades sociais, econômicas e culturais do município de Feira de Santana e caracteriza-se pela sua ampla diversidade.

Estudar a Micareta (festa típica e diversificada) é um importante desafio, devido aos atores e agentes, que fazem o sucesso acontecer. Apesar da importância da Micareta, ainda não existe um perfil da sua concepção envolvendo a organização e funcionalidade, mas não faltam palpites e informações empíricas a respeito do seu ineditismo social e econômico. Afinal, analisar atentamente esse fenômeno é buscar explicações que justifiquem sua existência, focando o que se incorpora a sua realização e que tipo de contribuição é capaz de suscitar para Feira de Santana destaque e visibilidade no cenário de festas populares do Estado da Bahia e do Brasil que tem um dos maiores calendários de festas populares do mundo.



2. BREVE HISTÓRIA DA MICARETA DE FEIRA DE SANTANA
No ano de 1936, um grupo de foliões, liderados por Manoel da Costa Ferreira (Maneca Coletor) e pelo professor Antônio Garcia, revolucionou a cidade com a criação da Micareme, em substituição ao Carnaval.

Houve debates pelos jornais com o grande mestre Antônio Garcia defendendo o nome de Micareta e não Mi-carême (nome derivado de uma festa francesa). Vencedor, o nome de Micareta, como sendo o carnaval temporão (fora de época), o Sr. Manoel da Costa Ferreira, com a assessoria de João Bojo e outros convocaram todos os artistas feirenses que entendiam de alegorias e trouxeram operários de Salvador que tinham experiência nos clubes Fantoche e Cruz Vermelha. No antigo armazém de fumo, que também serviu de quartel do Exército na Segunda Guerra Mundial, localizado no Fiado, atualmente Praça Presidente Médici (Feiraguai), foi montada a grande oficina em que se construíram os carros alegóricos e organizou-se, logo, o Clube Flor do Carnaval, ao qual pertenciam os carros alegóricos.

O festejo teve início no sábado, dia 27 de março de 1937, com bailes à fantasia nas Filarmônicas Vitória e 25 de Março e nas ruas com a presença de grupos famosos como o “Zé Pereira”, “Filhos do Sol”, “Cadetes do Amor”, “As Melindrosas”, “Amantes do Sol”, “Cruz Vermelha” “Flor do Carnaval” e mascarados animando os foliões. Era Feira de Santana fazendo sua primeira Micareta, tendo a Rua Direita (compreende as ruas Conselheiro Franco e Monsenhor Tertuliano Carneiro) como “quartel general” da folia.


2.1. O SURGIMENTO DA RAINHA E PRINCESAS DA MICARETA

Segundo os historiadores, o surgimento da primeira rainha da Micareta feirense ocorreu em 1937, sendo coroada Eunira Boaventura. Desfilando em carro alegórico, admirada e aplaudida pelos foliões durante o préstito micaretesco. Nessa ocasião, as músicas eram da “marcha rancho” como a interpretada pela inesquecível Chiquinha Gonzaga, logo transformada num clássico do cancioneiro do Brasil.

Nesse período, a acirrada disputa pelos títulos de rainha e princesas era justificada pela importância que exerciam no período micaretesco. Coroadas no palanque oficial do sítio da folia, as autoridades e foliões as saudavam, rainha e princesas iniciando o cumprimento de uma longa maratona, começando pelos clubes que as queriam como atrações em seus bailes. Inúmeros “brotos” da sociedade reinaram nas festas seguintes, exaltadas pelos foliões que interrompiam o embalo para reverenciá-las durante o desfile aos domingos e terças-feiras. Entre outras rainhas da Micareta que transmitiram beleza e elegância podemos citar: Maria Zilda Carvalho, Bernadeth Silva, Célia Carvalho, Dolarise Bastos, Alzira Chaves Carneiro, Helenita Tavares, Déa Nogueira, Maria Vanilda Moraes, Sônia Cerqueira, Marita Magalhães, Alda Lima Coelho, Adla Smera, Belsahy Mascarenhas, Alba Freitas, Maria Angélica Caribé, Ana Maria Nascimento e Sônia Menezes. Em 1957, a cidade assistiu um dos mais emocionantes duelos pela conquista do título. Nesse ano, a grande vencedora foi Osvaldite Boaventura, sendo coroada as princesas Marquise Fróes da Motta e Mirian Marques. Foi realizada, naquele ano uma das melhores Micaretas de rua como também nos clubes sociais. O concurso pelo título de rainha da Micareta era de grande expectativa e tornava-se ano a ano mais importante. Nos anos 70, clubes, blocos, entidades de classe e outras instituições entraram na luta pelo auspicioso título. No Feira Tênis Clube, dentro do ginásio ou em volta de suas piscinas, aconteceram muitas escolhas, sendo que em 1977 o concurso foi presidido por Emilinha Borba. Nesse período, reinaram Suely Pinheiro, Sônia da Mata, Ozana Barreto (rainha do centenário), Fátima Fernandes, Silene Machado e Jaciara Sena, etc.

Com o passar dos anos o entusiasmo inicial na coroação da rainha e princesas foi apagando-se e nos dias atuais o folião desconhece as atribuições de rainha e princesas da Micareta de Feira de Santana.

2.3. O APARECIMENTO DO TRIO ELÉTRICO
Em l954, Feira de Santana conheceu o seu primeiro trio-elétrico, o “Patury”, de propriedade do transportador de carga para o recôncavo, Péricles Soledade. Este equipou o seu caminhão com instrumentos musicais, fabricados por José Urbano Cerqueira, “um artesão de instrumentos que trieletrizavam multidões”, era o que se dizia sobre “seo” Maninho. A Princesa do Sertão vivia a Micareta de 1954, quando no “quartel general” da festa surgiu o caminhão de “seo” Péricles com nove figurantes devidamente uniformizados e exibindo uma guitarra, um cavaquinho, um baixo, duas caixas, dois tambores e dois bombos. Cercados pela multidão os músicos executavam músicas carnavalescas. Nos anos seguintes, além do “Trio Patury”, o sítio da folia passou a contar com outros oriundos da Capital como Ypiranga, Tapajós, Jacaré e mais outro da cidade, o “Trio Guarany” do artesão Maninho. Assim, além dos blocos, cordões, escolas de samba, batucadas e mascarados, a Micareta passou a contar com o eletrizante trio-elétrico.

2.3. MUDANÇAS DO SÍTIO DA FOLIA


Nos anos 60, a Micareta se estendia pelas duas principais praças do centro (Bandeira e João Pedreira), onde além do palanque oficial, se armava também barracas de bebidas e tira-gosto. O préstito micaretesco continuava na “Rua Direita”, mas as batucadas em linha reta e principalmente os trios elétricos, já estavam circulando os abrigos “Santana” e “Predileto” arrastando os foliões que pulavam e cantavam.

Na década de 70, sem prejuízos para a movimentação nas duas praças centrais, a folia começou a ocupar a Avenida Senhor dos Passos, logo incluída no roteiro dos desfiles de domingo e terça-feira. Não demorou muito para a Micareta avançar pela Avenida Getúlio Vargas, que no final da década de 80, viu surgir o espaço conhecido como “camarote”.

No segundo governo de Colbert Martins acontece a primeira tentativa de levar a Micareta para Avenida Presidente Dutra, através de sucessivas reuniões da comissão do festejo popular e o Secretário de Turismo Armando Sampaio (na época). No entanto, somente no último ano do século passado, final da gestão de Clailton Mascarenhas, houve a mudança. Antes da folia, a opinião pública se dividiu, mas ao final da festa, todos foram unânimes em aprovar a idéia.

Em 1971, a Prefeitura Municipal resolveu assumir os custos com a festa, fazendo desaparecer os famosos “Livros de Ouro”. A partir dessa nova estratégia, grandes trios, inclusive “Dodô e Osmar”, começaram a participar da Micareta, contratados pelo poder público. Trios como: Disco Voador, Espaçonave, Marajós, Tabajara, Maravilhão, Alvorada, tocavam não apenas sucessos dos carnavais, mas da própria Bahia, já exportando suas canções momescas para outros estados da federação.




2.4. OS COMPOSITORES DA MICARETA

Ao contrário dos dias atuais, nas primeiras Micaretas, nas ruas e nos bailes as músicas dos compositores feirenses chegavam a ser mais tocadas e cantadas do que aquelas que fizeram sucesso no carnaval pelo país afora. No começo dos anos 70, tentando revelar novos valores, a sucursal local do “Jornal da Bahia” promoveu concurso de marchas momescas, o vencedor foi colunista Oydema Ferreira, que teve sua composição “É Madrugada” tocada nas ruas e nos clubes. Como o jornal não prosseguiu com a promoção, nem houve incentivo dos organizadores, nossos compositores passaram a ser apenas antigas lembranças.

As vésperas das Micaretas de 1972 e 1975, o jornalista Hélder Alencar escreveu artigos no jornal “Feira Hoje” lembrando “Os compositores de Micareta", entre eles Adalardo Barreto e o contador Anacleto Carvalho que deram aos “Batutas Feirenses” grandes sucessos.

Um dos maiores poetas feirense foi Aloísio Resende, conhecido pela alcunha de Zinho Faúla, estando entre os grandes compositores de músicas para a Micareta. Em parceria com Tertuliano Santos, professor de música e regente das filarmônicas “25 de Março” e “Victória”, compôs a música mais cantada pelos “Filhos do Sol”.

Da relação dos grandes compositores que marcaram épocas, faz parte o Bel. Juca Sampaio de Oliveira, o fundador da Rádio Sociedade, Pedro Matos, músico e funcionário dos Correios e Telégrafos, Romário Braga e o poeta Homero Figueiredo. São também compositores de marchas micaretescas: Estevão Moura, Gastão Guimarães, Honorato Bonfim, Alpiniano Reis, Dival Pitombo, Eliziário Santana, Arlindo Pitombo e Carlos Marques, etc.

2.5. O REI MOMO NA MICARETA


Até a Micareta de 1974, a Prefeitura fazia festa apenas para escolha da rainha e princesa. O rei Momo há muitos anos, era o saudoso Ferreirinha, o mesmo que reinava no carnaval de Salvador, chegava de véspera, com direito a transporte e hospedagem, mesmo antes de receber as “chaves” da cidade, gozava de outras regalias, sem falar no cachê ao final do reinado. Quando foram conhecidas as primeiras medidas para a Micareta de 1975, realizada de 19 a 22 de abril, o prefeito José Falcão da Silva anunciou a novidade: “Este ano vamos fazer a festa também para escolher o rei momo”. No dia 12, sábado, uma comissão julgadora elegeu Hilkias Carvalho para reinar na Micareta em disputa com Constantino Garcia. Em seguida houve um grande grito micaretesco em volta do parque aquático do Feira Tênis Clube (FTC), com animação por conta da bandinha do maestro Miro. Da primeira escolha doméstica, em 1975, foram muitos os que também eleitos, reinaram na Micareta da Princesa do Sertão, como o saudoso Galdino Neto. Contudo, ninguém desempenhou o papel de rei momo como o artista Hilkias Carvalho, um artista com vínculos na cidade, sócio da pioneira Galeria de Artes de Feira-Gaffes e do barzinho “O Portão”, daí ser conhecido como o “Gordo do Portão”.

3. PESQUISA DE CAMPO

Este trabalho tem como propósito desenvolver um modelo de referência, cujo objetivo é buscar a identidade de uma festa popular com as suas relações antropológicas, econômicas e sociais. Para viabilizar o objeto de estudo, estruturou-se uma pesquisa de campo envolvendo os agentes públicos e privados, limitando cada um em seus interesses e particularidades.

A pesquisa foi feita durante o período em que ocorreu o evento, a fim de catalogar as informações primárias, sendo posteriormente transformadas em instrumento de análise. Os dados coletados têm importância significativa e estratégica, permitindo a posteriori se ter uma visão mais pertinente das atividades micaretescas e ainda avaliar suas relações com a sociedade local. Esse foco permite, também, identificar os primeiros parâmetros de uma atividade que há 68 anos tem pertinência com a cultura feirense. É possível que os resultados apresentados pela pesquisa sirvam para marcar um referencial e ofereça aos segmentos interessados, informações mais precisas, desse evento de significativa importância para o Município.

Para atender às múltiplas finalidades da organização da festa foi preciso verificar, quais os tipos de relações existentes entre as diversas esferas do poder público e associá-las ao objetivo e especificidade de cada agente envolvido com a festa. Salienta-se a importância do referido estudo, isso foi muito bom do ponto de vista estratégico e metodológico, porque forneceu material e subsídio para se estruturar a pesquisa e fortalecer o compromisso com o trabalho em foco.

A discussão estabelecida nesse cenário retrata a importância e o grau de complexidade ao se propor organizar uma festa como a Micareta, como também, dá uma idéia das relações intersetoriais necessárias para fazer com que o evento possa ocorrer dentro das suas limitações estruturais.

Nessa demonstração de funcionalidade expõe-se um fluxo elementar de envolvimento dos diversos setores públicos e privados, que resultam na complexa articulação da Micareta de Feira de Santana, com seus promotores, articuladores e outras competências da organização de suporte infra-estrutural. Os elementos constitutivos, dessa festa, se caracterizam pela sua tradição, mas outros participantes vêem nela uma oportunidade de ganhar algum dinheiro.

3.1. PESQUISA DE CAMPO REALIZADA DURANTE A MICARETA
Os dados expostos, nessa parte do trabalho, são originários da pesquisa de campo, envolvendo as atividades mais importantes da Micareta. Essa base de dados que se transformou nessa análise, foi resultado da aplicação direta de questionários diversificados, a partir de um universo previamente definido, estabelecendo-se para cada caso um teste de relevância e uma margem de erro estimada em ±5. Os cálculos foram feitos utilizando-se uma ferramenta estatística integrada a um programa desenvolvido pelo CPD-DMI da Prefeitura Municipal, usando uma plataforma Delphi para processamento e arranjo do banco de dados.

A análise dos dados está dividida em elementos estruturantes e ocupantes dos espaços micaretescos, como segue:


a) Camarotes

A empresa M-4 foi responsável pela montagem dos camarotes para a Micareta que aconteceu no período de 24 a 27 de abril de 2003. Os camarotes oficiais ocuparam 280 metros de corredor fixados na Avenida Presidente Dutra, trecho entre a Avenida Maria Quitéria e o Terminal Rodoviário. Os camarotes possuíam duas dimensões. Parte deles com 6m2 e os demais com 9,92m2. A empresa responsável pela comercialização desses espaços foi a “Elite Produções”, em parceria com as firmas M4 Stand; HG3; e, MCA Engenharia.

Esses espaços construídos para as pessoas brincarem a Micareta, oferecem as melhores condições possíveis aos seus usuários, como: decorações, local para dança, boate com DJs, praça de alimentação, bares e sanitários exclusivos. Segundo informações da Fiscalização Preventiva Integrada (FPI) foi instalado na via Dutra 375 camarotes (210 para 12 pessoas, 115 para 20 pessoas, 01 para 800 pessoas e 01 para 500 pessoas). Segundo pesquisas realizadas com usuários dos camarotes (média de 7.120 pessoas) e os jornais locais, o preço comercializado pela empresa que ganhou a licitação para instalação dos espaços foi de R$ 2 mil para os camarotes de 20 lugares, R$ 1,2 mil para os de 12 lugares e os outros espaços maiores para 800 e 500 lugares foram comercializados a uma média de R$ 30,00 por pessoa1. Nas dependências dos camarotes foram instalados 9 bares e restaurantes. Estima-se que a receita bruta gerada pelos camarotes, em suas diversas modalidades, foi aproximadamente de R$ 600 mil.

Conforme análise dos dados pesquisados, se verificou que a receita total gerada pelos camarotes, 88% tem origem na comercialização de espaços, 6% em permuta com a Prefeitura (fator compensador), 5% de patrocinadores e 1% relativo à venda de comidas e bebidas. Durante a Micareta trabalharam nos camarotes 369 pessoas: envolvendo as atividades de segurança interna (105 pessoas); limpeza e fiscalização dos sanitários (50 pessoas); garçons e cozinheiros (90 pessoas); montagem (112 pessoas); e, pintores (12 pessoas).




b) Trios Elétricos e Bandas2

Os trios elétricos são uma peça importante para o evento micaretesco, com seus sons eletrizantes, eles animam a multidão e envolve-a de forma contagiante. Nessa Micareta, segundo a pesquisa de campo e constatado pelo relatório da FPI, foram disponibilizados para a festa 22 trios elétricos, 09 carros de apoio e 03 carros de som. A quantidade de pessoas que trabalharam nos trios elétricos variou em torno de 430, desempenhando atividades de motoristas, cordeiros, serventes e músicos. Considerando que nos 21 trios que foram pesquisados, constatou-se que 48% tiveram precedência de Salvador, 24% de outros Estados, 25% do interior do Estado e apenas 4% local.


c) Blocos e Afoxés

Os blocos são uma peça fundamental para animar a folia micaretesca, eles estão envolvidos com várias atividades e alegorias. Normalmente, os blocos são geradores de diversas atividades intensivas e, portanto, são organizados e administrados como um empreendimento. Os blocos, dependendo de sua organização, abrigam em média de 1000 a 3000 associados. Nessa razão, nos 19 blocos pesquisados detectou-se a participação de 10.540 associados3.

Carentes de recursos para desfilar durante a Micareta, as entidades micaretescas feirense, obtiveram recursos financeiros da Prefeitura. O prefeito José Ronaldo de Carvalho assinou um convênio com cada representante das 12 entidades, destinando verba de R$ 3 mil. Em 2003, a verba passou a ser de R$ 4 mil para cada entidade que desfilou no Circuito Quilombola. Os representantes lembraram que antes do convênio com a Prefeitura, viviam de doações, recebendo valores irrisórios, pediam R$ 10 a um, R$ 20 a outro, sem ter certeza de que participariam ou não da festa. Foram contempladas com os recursos as entidades: Nativo Santana, Marquês de Sapucaí, Escravo do Oriente, Unidos de Padre Ovídio, Mocidade Feirense, Afoxé Filhos de Nanã, Afoxé Filhos de Ogum, Bloco Afro Senegâmbia, Moçambique, Mozambela, Filhos do Congo e Afro Mandela.
d) Comerciantes.

Segundo os dados disponibilizados pelas Secretarias Municipais, especificamente a de saúde, esporte e lazer, estimou-se que o universo dos comerciantes entre formais e informais durante a Micareta atingiu por volta de 2.700, sendo que destes, 615 obtiveram licença junto a Prefeitura Municipal, o restante 2.085 são pessoas que praticam atividades comerciais menores e sem ponto fixo e mais de 75% desse quantitativo chega à localidade da festa no momento da movimentação dos trios ou pico dos eventos. Mas, a pesquisa alcançou nesse universo 680 comerciantes, representando 25% desse universo, o que garante tecnicamente uma margem de erro de ±5%, considerando o espaço amostral tomando como referência o seu desvio-padrão e média.

Os resultados obtidos apontaram que do total de respondentes 86% residem em Feira de Santana, destes 10% em Salvador e 4% em outras localidades do Estado da Bahia. A pesquisa confirmou o que se tenta explicar a respeito da participação acentuada da população economicamente ativa e em idade de trabalhar, em atividades informais. As respostas mostram, claramente, qual o perfil dos participantes, que devido ao seu nível cultural formal, basicamente, estão fora do mercado de trabalho. Isso significa que, esses indivíduos buscam encontrar subsistência em feiras livres e eventos como a Micareta. Os respondentes informaram sobre suas faixas de renda, explicitando que 8% têm renda mensal menor que R$ 100,00; 20% entre R$ 101,00 e R$ 150,00; 36% entre R$ 151,00 e R$ 250,00; 25% entre R$ 251,00 e R$ 400,00 e 11% apenas acima de R$ 400,00. Portanto, se conclui que as pessoas que estão exercendo atividades comerciais, no período da Micareta, são de baixa renda, em sua maioria, e que essa opção é mais uma das formas de “ganhar a vida” para essa parcela da população.
e) Avaliação da Micareta

A pesquisa efetuada a respeito do desempenho da Micareta de Feira de Santana, considerando ainda a realizada pela imprensa local envolvida com a festa, verificou-se que as opiniões manifestadas por 220 entrevistados pertencentes a uma amostra exploratória, 27,5% disseram que em alguns momentos a violência se caracterizou como a pior parte da festa e 72,5% afirmaram que a violência caiu sensivelmente em relação aos anos anteriores. Isso se deveu ao sistema de organização da festa e a estratégia usada pela Polícia Militar, Corpo de Bombeiros, Polícia Civil, etc.

Outro item considerado vital para os foliões foi a organização da festa, a maioria aprovou a maneira como todo o sistema de apoio e logística montado e estruturado serviu para evitar transtornos e improvisos que criasse situações calamitosas. Nesse aspecto, os entrevistados em média 68,3% aprovaram a coordenação do processo de organização do sítio da festa, enquanto, 31,7% manifestaram opinião contrária. Por outro lado, o item pertinente ao horário de saída das atrações 63% dos respondentes se mostraram insatisfeitos com os horários e 37% satisfeitos. Esse item provocou muitos comentários junto às pessoas e tinham muitas críticas sobre a questão dos deslocamentos das atrações.

Os entrevistados, 84,5% aprovaram as atrações e elogiaram as escolhas feitas pelos patrocinadores do evento. E, 15,5% não gostaram das atrações apresentadas. Outra novidade foram os palcos fixos, sendo aprovado por 57,8% dos entrevistados, e 42,2% disseram que não vêem sentido nos palcos, sendo melhores as atrações de rua.

Os respondentes, ao manifestarem suas opiniões sobre higiene e limpeza no local da festa, 54,7% disseram que estava muito boa, existindo o cuidado por parte dos organizadores em manter as áreas relativamente limpas. Outros 45,3% consideraram a limpeza como um item de pouca importância para os patrocinadores por não ser tão eficiente. Os entrevistados observaram um destaque importante, sobre a higiene das barracas, por causa da atuação da Vigilância Sanitária do Município que se manteve em um bom padrão de qualidade; 72% disseram satisfeitos com a limpeza e higiene dos sanitários públicos e 28% acharam razoáveis e disseram que o serviço de limpeza era lento. Outro destaque observado pelos entrevistados, diz respeito aos sanitários disponíveis, eles acharam que a quantidade deveria ser muito maior do que os existentes.

Os respondentes manifestaram suas opiniões quanto ao atendimento médico, 48,7% disseram que o serviço foi de ótima qualidade e 41,3% disseram que não gostou, pois, um dos motivos era a demora no atendimento e às vezes poucos profissionais.

Essa pesquisa revelou o grau de motivação e receptividade dos foliões, já que 73% responderam, em linhas gerais, que a festa da Micareta estava atendendo suas expectativas e que estava muito animada, pretendendo retornar no próximo ano. Ao contrário de 17,5% não estavam muito satisfeitos, mas pretendiam retornar e 9,5% disseram que não estavam satisfeitos e que não voltariam.

Ao estudar a Micareta de Feira de Santana, não se deve perder de vista a sua importância no contexto das relações intersetoriais de consumo e produção, de enxergar que o impacto da dinâmica econômica influencia no social e na própria festividade. Daí a preocupação em explicitar, que essa pesquisa não atingiu o total do universo das atividades, por ter carecido durante o período de execução, de uma quantidade maior de recursos e melhor envolvimento do pessoal que foi designado para executar o trabalho de campo. Essa ressalva serve para mostrar as limitações, mais não invalida a experiência adquirida, e, ao mesmo tempo, anseia no futuro melhores oportunidades para desenvolver esse tipo de trabalho.

Considerando todo o trabalho de pesquisa e suas revelações, observa-se que a Micareta de Feira de Santana, em 2003, cumpriu suas finalidades e agregou muito mais condições favoráveis para sua melhoria contínua, visto que, seguindo a sua trajetória, deixe de ser apenas uma festa popular para se transforme em um grande evento social, econômico e cultural.


4. ORGANIZAÇÃO E FUNCIONAMENTO DA MICARETA EM 2003

O poder público municipal tem o encargo de prestar todo o apoio para montar a infra-estrutura do evento e acima de tudo manter sua funcionalidade e organização, para isso tem contado também com apoio dos órgãos do Governo do Estado, destacando-se o item segurança de responsabilidade da Polícia Militar do Estado da Bahia e das diversas Secretarias Municipais que têm o papel fundamental de coordenar as atividades para que esse evento atinja as expectativas dos foliões e obtenha o sucesso social necessário para manter o evento na agenda das grandes festas populares do Brasil.

O suporte logístico que apóia a realização da festa é organizado, controlado e fiscalizado pela PMFS. São os agentes operadores dessa área de atividade responsáveis pelo abastecimento e conforto dos foliões nos dias em que se realiza o evento.

A festa olhada por dentro, distingue-se pelo seu caráter comercial, importante para economia do município de Feira de Santana, oportunizando a inclusão de centenas de comerciantes nas atividades momescas, originários dos mais variados setores da economia regional. Esses comerciantes esporádicos, em sua maioria, isto é, mais de 85%, atuam na economia subterrânea. São pequenos comerciantes e prestadores de serviços eventuais, sendo esse um traço peculiar dos negócios do Município, que tem como vetor importante, o comércio não contabilizado.

Mas, em sentido lato senso, a Micareta e a cidade de Feira de Santana, incorpora a imagem de uma cidade aberta e receptiva, com sua dinâmica urbana que atrai pessoas das mais distantes localidades do país. Esse evento temporão chama a atenção pela sua lógica social, despertando interesses múltiplos das mais diferentes classes sociais.

Para atender as diversas pretensões e interesses, a Prefeitura Municipal esquematizou uma importante estratégia de aglutinação e coordenação das diversas Secretarias do Município, cada uma cumprindo suas funções especiais voltadas para o evento.



Os suportes de apoio institucional, legal, logístico e infra-estrutural para o funcionamento da festa são determinados e distribuídos, conforme o esquema:

a) Secretaria de Esporte, Cultura e Lazer: tem um papel importante na articulação da festa, responsabilizando-se para viabilizar a divulgação através de variados veículos de comunicação; elabora o circuito da festa, aproveitando as melhores oportunidades locacionais, contratando os trios e outras atrações, programando o desfile; contrata o pessoal de apoio e o planejamento das atividades de suporte; prepara o layout do circuito do evento, especificando as áreas e as suas mais diversas ocupações. Através desta Secretaria, que são definidas as quantidades de camarotes, blocos, barracas, ambulantes e outros elementos4 integrantes da festa.

b) Secretaria de Administração: dentre outras atribuições para com a Micareta, prepara a infra-estrutura licitatória, em que tramitam os processos e propostas administrativas e fornece apoio de transporte para o evento.
c) Secretaria da Fazenda Municipal: estuda a viabilidade da festa, faz uma análise comparativa entre a receita e a despesa, sendo a responsável pela arrecadação das taxas incidentes sobre os equipamentos comerciais instalados no local da festa e adjacências. Efetua os pagamentos decorrentes das obrigações contratuais veiculadas à Micareta.
d) Secretaria de Saúde: desempenha um papel relevante durante a Micareta, sua responsabilidade está focada para a organização e controle do fluxo de pessoas, envolvendo-se diretamente com a inspeção epidemiológica, fiscalizando as condições higiênicas dos funcionários e sanitários dos pontos comerciais instalados no circuito da festa, dos equipamentos de desfiles, como carro de som, de apoio, etc, e também dos pontos de recepção de dejetos. Uma ação importante exercida, pela Secretaria de Saúde do Município, se constitui na distribuição de panfletos educativos a respeito de doenças sexualmente transmissíveis.
e) Secretaria de Planejamento: responsável pela elaboração dos cálculos estruturais dos equipamentos urbanos e define as artérias que serão interditadas durante a realização do evento.
f) Secretaria de Serviços Públicos: suas atividades são direcionadas para as áreas de limpeza pública e iluminação.
g) Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente: atua na Micareta como agente fiscalizador e regulamentador do uso e ocupação do solo, código de obras, combate a incêndio, pânico e agressão ao meio ambiente.
h) Outros órgãos envolvidos com a Micareta de Feira de Santana

  • Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura: tem como atribuição fiscalizar o exercício profissional e responsabilidade técnica dos elementos envolvidos na festa, como: trios elétricos, carros de apoio, carros de transporte de equipamentos, bebidas, produtos, equipamentos sonoros, camarotes, etc.

  • Coordenadoria Municipal de Defesa do Consumidor: trabalha durante a Micareta, como elemento principal no controle e combate à exploração econômica do consumidor-folião, autuando os comerciantes que abusam do poder econômico ou de atos ilícitos.

  • Polícias Civil e Militar; Corpo de Bombeiros; Polícia Rodoviária Federal; Superintendência Municipal de Trânsito e outros órgãos: DRT; Embasa; Coelba; Ciretram; Comdic; Secretaria Estadual da Fazenda; de Segurança Pública e Ministério Público etc.

4.1. ATIVIDADES PRÉ-MICARETESCAS


A grade de shows com 123 atrações animou a Micareta, com apresentações no Circuito Maneca Ferreira, na Avenida Presidente Dutra, palco do Circuito Quilombola, na Avenida João Durval Carneiro, no Circuito Charles Albert, na Praça da Kalilândia e no palco fixo Jota Morbeck, na rua Castro Alves, a programação da folia foi apresentada e divulgada nos principais jornais e revistas da cidade e da capital.

Aconteceram, também, diversas atividades prévias da Micareta, como:



a) Levada elétrica: a quinta edição da Levada Elétrica, primeira grande prévia da Micareta de Feira de Santana, teve como principal novidade a mudança do roteiro. O desfile começou a partir do meio dia, na Avenida Maria Quitéria, saindo do campo do São Paulo em direção à casa de espetáculo Mega Fest, na mesma avenida. A festa foi resultado da parceria entre a TV Subaé, a Central da Micareta e os blocos “A Tribo” e “Da Praça”, com apoio da Prefeitura Municipal por meio da Secretaria de Cultura, Esporte e Lazer. A animação da Levada Elétrica ficou por conta da banda Patchanka e do grupo de pagode Oz Bambaz, com percurso de 2,2 km para os foliões extravasarem suas alegrias.
b) Rei momo: o concurso para Rei Momo, Rainha e Princesas da Micareta, foi o segundo evento pré-micaretesco promovido pela Prefeitura, teve um recorde de candidatas inscritas, mais de 60 jovens, que participaram da primeira eliminatória. Depois, 15 candidatas, participaram da final.

c) 2ª Lavagem do senadinho: agitou o centro da cidade. Além de vários shows com diversas bandas e participação especial do cantor Djalma Ferreira. Um animado cortejo com baianas e carroças saíram da praça da Matriz com destino ao Senadinho, no estacionamento da Prefeitura Municipal. Uma mega estrutura foi montada no local para atender os convidados e, concomitantemente, foi colocada em votação a “Presidência do Senadinho”, com disputa acirrada pelo cargo honorífico.

d) Caju de ouro: completou 28 anos de edição, em 2003, confirmando sua tradição de maior e mais importante baile pré-micaretesco da cidade, serviu de termômetro para anunciar o sucesso da Micareta de todos os tempos.

Neste ano, a direção do Clube de Campo Cajueiro (CCC), tentando reviver as glórias do passado, contratou atrações importantes no cenário da música nacional, tais como: Timbalada, Harmonia do Samba, Babado Novo. O evento foi idealizado por José Olímpio Mascarenhas, assim como o Baile de Iemanjá realizado pelo Clube Português, em Salvador, que reunia artistas famosos e gente importante da sociedade. O modelo trazido, para Feira de Santana, deu certo e se tornou a festa mais badalada da cidade. O projeto original sofreu alterações, ao longo dos anos, se adequando a realidade das festas e dentro do próprio contexto da Micareta, mas jamais perdeu o brilho e sucesso, arrastando multidões e servindo de palco para vários artistas famosos e personalidades mostrarem suas caras.



e) Houve outros espaços alternativos, com ritmos diferentes:

  • Feijoadas: “Feijão Chic”, “Feijoada do Laranjeira”, Feijoada da Revista Foco.

  • 26º Baile das atrizes

  • Palco fixo Jota Morbeck, que teve 19 atrações: Cavaco e Cia, Di Corpo e Alma, Big Bem, K pra Nós, Samba Raízes, Via Brasil, Pra Te Conquistar, Kairy, Nu Avesso, Nosso Desejo, Remelexo, Swtak Fogoso, Carol, Sambalanço, Tia Olga, Né Brinquedo Não, Doce Querer, Clã e Ziguerê.

  • Palco fixo Quilombola, passaram 11 estrelas do reggae: Mariane Gypsy, Nando Levy, Jorge de Angélica, Jah People, Neto de Gandhi, João Ghetto, Libú do Reggae, Osvaldo Silva, Furacão do Reggae, Samora Machel, Monte Zion.

4.2. SEGURANÇA PÚBLICA NAS ATIVIDADES DA MICARETA


Nesse período, há uma mobilização muito comprometedora da Prefeitura e grupos empresariais, população em geral, todos buscando fazer o melhor para que a festa seja harmônica e grandiosa. Todo investimento programado pelo poder público local, têm múltiplas finalidades, sendo que a mais importante se encerra na promoção do bem-estar e satisfação dos foliões. A Micareta feirense, como qualquer outro evento popular de elevada magnitude, requer dentre outros itens, uma importante atenção para com a segurança pública. E, isso, se pôde observar, foi focado com muita responsabilidade e profissionalismo.

4.2.1. Polícia Militar
Considerando as perspectivas e as condições do evento micaretesco, segundo os dados da polícia militar 1º BPM, estiveram presentes nos quatro dias de folia, aproximadamente 1,4 milhões de pessoas. Para manter a segurança e a ordem pública, a Polícia Militar do Estado da Bahia, disponibilizou 2.827 homens e utilizando métodos e recursos especiais para o policiamento ostensivo e defensivo, tudo com o suporte de equipamentos como filmadoras e detectores de metais, cuja finalidade é combater e prevenir a violência durante os festejos micaretescos.

4.2.2. Corpo de Bombeiros
O 2º Grupamento de Bombeiros Militar de Feira de Santana disponibilizou, em regime de rodízio, 315 policiais, que prestaram serviço no circuito da Micareta Maneca Ferreira. As equipes compostas por cinco policiais denominados de “Patrulhas de Socorrismo”, circulavam no meio dos foliões. Outros policiais e os veículos ficaram posicionados, em pontos estratégicos, prontos para intervir em caso de acidentes. O 2º GBM contou com o apoio de bombeiros do 1º e 3º grupamentos de Salvador e do 10º localizado em Simões Filho, mais a equipe “Salvar” que faz o trabalho de assistência médica nas estradas, mas atuou no epicentro da folia.
4.2.3. Polícia Civil
Complementando o esquema da estrutura da segurança da Micareta, a Polícia Civil do Estado da Bahia, colocou 1.500 policiais no circuito da Micareta. Essa força tarefa policial prestou valioso serviço no combate aos excessos e promoveu um excelente trabalho preventivo. No policiamento ostensivo de reação foram colocados 300 policiais, divididos em subgrupos por delegados.

4.2.4. 3º Ciretran

Organismo Estadual que deu importante colaboração durante o período micaretesco. Essa instituição manteve 63 funcionários, atuando na fiscalização de circulação de veículos, envolvendo condições de tráfego, estrutura física e legal dos veículos. Manteve plantão de 24 horas, enfatizando nas suas atividades o combate ao alcoolismo e direção perigosa dos motoristas.



4.2.5. Superintendência Municipal de Trânsito (SMT)

A SMT trabalhando, em parceria com outros órgãos municipais e estaduais, alocou 76 pessoas para operar, em sistema de rodízio, na organização e controle do tráfego no período da Micareta, com maior intensidade no sítio da festa e nas suas imediações.



4.2.6. Polícia Rodoviária Federal

Os policiais federais montaram “barreiras” ao longo das estradas próximas a Feira de Santana, especificamente nos acessos através das BR’s 116 - Norte/Sul e 324 - Feira de Santana/Salvador. A Operação Micareta, denominada pela Polícia Rodoviária Federal, colocou em ação 80 patrulheiros em escala de revezamento. Esse efetivo de policiais contou com o apoio logístico de 15 viaturas, 08 motociclistas, um veículo especial de resgate de vítimas de acidentes, 02 caminhões-gaiolas (apreensão de animais) e um helicóptero para auxiliar nas operações terrestres. Foram instalados radares, um centro de operações para denúncias e bafômetros.



5. ELEMENTOS SÓCIO-ECONÔMICOS CARACTERÍSTICOS DA MICARETA

5.1. FLUXO DE PESSOAS


A quantidade de pessoas que passaram pelo sítio da festa, segundo as estatísticas da pesquisa e as informações da Polícia Militar, se aproxima de 1,4 milhão, um dado significativo para se avaliar o impacto causado na comunidade de Feira de Santana nos seus quatro dias de Micareta, isto é, verifica-se o crescimento esporádico da população, aproximadamente, em 125%. Outra informação importante, durante o evento, ocorreu um fluxo de pessoas na Estação Rodoviária entre 24 e 27 de abril de 2003, o volume médio de passageiros embarcados ficou em torno de 3.186 passageiros/dia5, evidente que não são considerados os que escapam do controle da AGERBA, por exemplo: passageiros em trânsito, que descem momentaneamente na Estação Rodoviária. Por outro lado, a AGERBA informou que o fluxo de passageiros que desembarcou na Estação Rodoviária foi de 5.175 pessoas/dia.

Associado ao movimento de passageiros verificou-se no período micaretesco, um baixo fluxo de demandadores por viagens de pacotes-excursões, sendo as agências mais procuradas: Rota Turismo, Agência Sem Fronteiras e a Agência Gold Tour. Com relação ao fluxo de pessoas que circularam em Feira de Santana oriundas dos distritos e da microrregião, segundo estimativa do Sindicato dos Condutores Autônomos, dentre as modalidades de transportes envolvidas com a massa de usuários, no período da Micareta, pode ter ultrapassado a casa das 150 mil pessoas transportadas em diversos sentidos e distâncias.

5.2. O COMÉRCIO FORMAL E INFORMAL NA MICARETA DE FEIRA DE SANTANA
A organização da territorialidade do evento é importante para que as diversas atividades, que se incorporam à Micareta obedeçam ao mínimo de organização social. Nesse campo, a Prefeitura Municipal, com suas secretarias, têm um papel de destaque e louvável no que pese não haver um manual de procedimentos para organizar uma festa com a envergadura da Micareta. Mas todas as secretarias municipais entenderam a importância do papel de cada uma para evitar desequilíbrio organizacional.

A sistematização e cooperação dos participantes que operam como agentes sociais e econômicos têm um papel de destaque, no que consiste a ocupação dos espaços, mais a sua utilização. E assim, nesse ambiente provocante e alegre se desenvolve as perspectivas para a geração de atividades econômicas as mais diversas possíveis

. Portanto, os elementos que caracterizam e estruturam a Micareta serão mostrados numa perspectiva mista de festa popular, com todos os sentidos voltados para o deleite da alegria, e também, encarada como fato econômico, que é capaz de oportunizar uma massa enorme de empregos temporários e renda, sendo possível gerar uma significativa receita tributária e um custo benefício elevado. Assim, no sentido de ter uma visão razoável, foram expostos os elementos que deram suporte ao evento micaretesco, descritos a seguir:

a) Prefeitura Municipal de Feira de Santana, compelida para apoiar efetivamente a festa, através de suas diversas secretarias, foi capaz de realizar com eficiência e organização a dinâmica do objeto festivo – a Micareta de Feira de Santana. E numa tentativa de união de objetividade, qualidade e custos mínimos, a Prefeitura investiu em torno de R$ 883 mil para a realização do evento. Esse dispêndio envolve, desde a contratação de eventos, apoio às atividades, iluminação, sonorização, gráfica, concursos, publicidade, entre outros.

O retorno do evento se dá pela satisfação gerada, a manutenção da tradição da festa e os benefícios econômicos provocados, em um breve espaço de tempo. A Prefeitura Municipal organizou e administrou os espaços ocupados pelas diversas atividades comerciais que estavam no local da festa e esses espaços foram divididos em várias dimensões, tais como6: 2,25m2; 4,00m2; 8,00 m2; 12,00m2; 25,00m2. Foi cobrado de cada espaço, um preço unitário que variou de R$25,00 à R$750,00, dependendo dos tamanhos agregados. A comercialização dos espaços pela Prefeitura gerou uma receita em torno de R$ 102 mil, sendo ocupados por 625 usuários.

As informações apresentadas anteriormente, ou seja, computadas pelo Sistema Tributário Municipal pertinente ao pagamento do uso do solo, não alcançam ainda centenas de vendedores ambulantes e outros que exercem suas atividades comerciais em momentos de pico da festa, quando se torna impossível exercer o poder fiscalizador da Secretaria Municipal da Fazenda. As estimativas apontam que durante o período da Micareta, trafegaram no local da festa cerca de 2.200 ambulantes, destacando-se os vendedores em caixa de isopor, carro de mão, pequenas barracas, tabuleiros de comidas típicas, panelas de lanches, mingaus, vendedores de adereços, fantasias e dezenas e centenas de produtos típicos de festa popular.

Associado a esse universo diversificado e extremamente dinâmico se expande ao lado dessa multidão de pequenos comerciantes, outro exército de vendedores volantes ou subcontratados por comerciantes que têm ponto fixo na Micareta, contando com mais de 500 pessoas nessa atividade. Juntam-se outros serviços como lavadores e guardadores de carros estimados em mais de 300 pessoas.

A Micareta de Feira não representa apenas uma festa popular, neste local se estabelece uma infinidade de relações, que além da sustentabilidade ao evento, são capazes de gerar centenas de oportunidades de empregos esporádicos, mas também uma parcela significativa de renda.

O que se estabelece nesta festa é a demonstração de um confronto entre a economia formal e a informal (subterrânea), esta sendo capaz de temporariamente alavancar e sustentar rapidamente uma grande movimentação de recursos, que ultrapassa a casa dos R$ 7 milhões, envolvendo os operadores das atividades em torno de 2 mil pessoas (considerar todo o tipo de relação econômica que se estabelece na localidade da festa e fora dela). Então, a dinâmica da Micareta se correlaciona com toda a atividade comercial, beneficiando esse setor com grande número de transações, principalmente incrementando as vendas no mercado varejista, em média 25%, especialmente em setores de vestuário, calçados, alimentação bijouteria, farmácia, bebidas, transporte, hospedagem, etc.

6. CONCLUSÃO
Este trabalho, que abordou a Micareta de Feira de Santana, buscou informações para interpretar o maior evento festivo do interior do estado da Bahia e o maior do gênero em território nacional. Este é um assunto muito delicado de se tratar, primeiro por sua diversidade, segundo por suas características e terceiro por encerrar, em sua essência, as peculiaridades sociais, econômicas, culturais e antropológicas.

Apresentando um pouco da história da Micareta feirense, se percebe que através de eventos sociais como: concursos de rainha e princesas da Micareta, rei momo, bailes, etc foi se construindo uma das maiores festas populares do Nordeste. Torna-se perceptível que o intuito, do artigo, foi demonstrar a importância desta festa popular-tradicional na Bahia e suas influências antropológica, cultural, social e econômica arraigadas nos solos de Feira de Santana, pois, se trata de um evento que já faz parte da identidade do povo desta cidade.

O princípio da investigação procurou entender como se comportam alguns agentes pesquisados e estudados no período micaretesco, levando em consideração que a Micareta faz parte da identidade e imaginário de Feira de Santana. Daí, a realidade deste evento ser peculiar e difícil de tratar prontamente, requer uma boa análise e confronto de informações, que possam sustentar em uma argumentação de maior profundidade. Por isso, que esse trabalho, não se encerra por aqui, é uma forma de criar condições para novas e oportunas investigações no âmbito da Micareta de Feira de Santana.

Observa-se que nessa situação, particular e especial, aparecem os pontos que convergem para as atividades de negócios, envolvendo uma dinâmica de produção, distribuição e comercialização de centenas e centenas de produtos micaretescos e gêneros alimentícios, em que estão envolvidos e que buscam (os donos de negócios) conseguir algum tipo de benefício econômico.

O artigo procurou mostrar as relações que co-habitam no interior da festa e quais os tipos de transações que se relacionam no epicentro dela. Apesar de a Micareta ser uma festa fora de época, tem o seu brilho expandido e por isso, envolve uma proliferação de pessoas e interesses na organização e manutenção do evento.

Portanto, a Micareta é uma mistura de interesses e realidades que precisam ser estudadas, dissecadas, dando ao evento um maior grau de importância pública, alavancando com mais vigor as suas oportunidades. Então, este artigo, serviu para aguçar mais olhares sob uma festa, que já possui um caráter próprio e que tem o seu prestígio social firmado.



REFERÊNCIAS
Central da Micareta de Feira de Santana. Informações prestadas. Maio/2003.
PM-BA. Policia Militar do Estado da Bahia. Informações levantadas junto ao Comando do Batalhão de Feira de Santana.
Corpo de Bombeiros Informações levantadas junto ao comando do Grupo do Corpo de Bombeiros de Feira de Santana, Maio/2003.
Policia Rodoviária Federal. Informações sobre fluxo de veículos ocorrido entre o período de 24 a 27 de abril de 2003, informe do comando da Polícia Rodoviária Federal, Salvado, 2003.
Prefeitura Municipal de Feira de Santana. Diversas Secretarias. Informações levantadas, abrill e maio/2003.
COELBA. Cia de Eletricidade do Estado da Bahia. Informações prestadas pelo escritório regional de Feira de Santana. Maio/2003.
Estação Rodoviária de Feira de Santana. Informações prestadas pela AGERBA, Abril/Maio/2003.
Sindicato dos Condutores Autônomos. Informações prestadas pelo presidente Maio/2003.
A TARDE. A micareta de Feira de Santana. março/2003.
TRIBUNA DA BAHIA. Os foliões da micareta de Feira. Abril/2003.


1 Levar em consideração que entre 24/04/03 a 27/04/03, os preços individuais dos ingressos para acesso aos camarotes foram vendidos entre R$ 20,00 e R$ 40,00.

2 Não houve condições de aprofundar na análise com mais informações porque os proprietários dos trios e a Central da Micareta não quiseram oferecer as informações solicitadas.

3 Informações prestadas pela Central da Micareta.

4 Ocupam espaços do sitio da festa com o fim comercial.


5 Informações prestadas pela Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia (AGERBA) de Feira de Santana.

6 Informações da Secretaria Municipal da Fazenda (2003).

ReAC – Revista de Administração e Contabilidade. Faculdade Anísio Teixeira (FAT), Feira de Santana-Ba, v. 2, n. 2, p. 35-50, julho/dezembro, 2010


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