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CONSTRUÇÕES CONDICIONAIS: UMA ANÁLISE SEMÂNTICO-DISCURSIVA

Por


MICHELLI BASTOS FERREIRA

Aluna do Curso de Mestrado em Língua Portuguesa

DRE: 105.128.202
Trabalho apresentado à Professora Doutora Violeta Virginia Rodrigues, na disciplina A sintaxe do Português (LEV 701).


UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO-UFRJ

Rio de Janeiro, primeiro semestre de 2005

Dedico este trabalho aos meus pais e à minha irmã, por todo amor e carinho.

AGRADECIMENTOS
À Profª Drª Violeta Virginia Rodrigues, pela orientação e pelo estímulo, imprescindíveis no meu percurso acadêmico.
À Helene, Larissa e Lissandro, meus queridos amigos, por torcerem sempre pelo meu sucesso.

SINOPSE
Análise do papel discursivo das construções condicionais no processo argumentativo em três diferentes gêneros de textos jornalísticos escritos e textos orais, levando em consideração as variedades do português do Brasil e do português europeu.

SUMÁRIO
1. Introdução 6

2. Construções condicionais: apresentação 9

3. Revisão da literatura especializada 10

3.1. A abordagem tradicional 11

3.2. A abordagem gerativista 14

3.3. A abordagem funcionalista 14

3.4. A abordagem textual-discursiva 16

4. Fundamentação teórica 17

5. Características marcantes dos anúncios, editoriais, notícias e dos textos orais 24

5.1.. Modos específicos de organização do discurso 25

6. Uma proposta de análise semântico-discursiva das construções condicionais em textos orais e escritos 28

7. Metodologia da Pesquisa 30

7.1. Estudo sobre o emprego das construções condicionais em textos orais e escritos 30

7.2. A análise dos dados 32

7.3. Relações de condicionalidade com elipse de conector 43

8. Conclusão 47

9. Bibliografia 49

1. Introdução


A pesquisa que ora se realiza propõe-se a abordar o papel das proposições condicionais na construção do discurso em diferentes gêneros textuais e a sua relação com o processo argumentativo do texto, direcionando para uma abordagem textual dessas construções sintáticas. Haverá, portanto, a preocupação em compreender o valor semântico assumido pelos conectores condicionais em diferentes contextos nos quais se encontram e que contribuições oferece para o processo argumentativo do texto. As reflexões serão baseadas nos pressupostos da Análise do Discurso e na reunião de postulados gramaticais de Mateus (2003), Neves (2002) e Koch (2001), explicitados no item 4 do trabalho.

Tal investigação fundamenta-se na hipótese de que o emprego de construções condicionais é mais recorrente em seqüências argumentativas, se comparado a outros tipos de seqüências, o que já foi afirmado por Said Ali (1969). Dessa forma, deverá ser comprovado que o uso de construções condicionais relaciona-se ao caráter argumentativo de determinados gêneros textuais, contribuindo para o alcance da intencionalidade do texto, além de marcar a subjetividade na linguagem. Para a ratificação desta hipótese, serão analisados três diferentes gêneros de textos jornalísticos escritos (anúncios, notícias e editoriais) e uma coletânea de textos orais (diálogos entre informante e documentador nas variedades culta/informal e popular), abarcando as variedades do português do Brasil e do português europeu.

No corpus analisado, será observado o papel da escolha de uso das construções condicionais em determinadas situações comunicativas, visto que o enunciador não faz escolhas lexicais e sintáticas aleatoriamente. Estas escolhas, aliadas a outros fatores lingüísticos e extralingüísticos, são fundamentais para a construção do discurso, já que também contribuem para a realização da intencionalidade do texto. Assim sendo, percebe-se que a seleção lexical e sintática está sempre vinculada ao contrato comunicativo estabelecido entre os sujeitos da enunciação, com vistas à concretização da intencionalidade do discurso.

As construções condicionais, numa perspectiva semântico-discursiva, representam um objeto de estudo de amplas possibilidades de investigação, tendo em vista a sua recorrência e produtividade no processo argumentativo dos gêneros textuais considerados na pesquisa. Nesse sentido, oferecem uma contribuição significativa para o contexto situacional de uma determinada circunstância comunicativa, que é o momento em que o texto se realiza, constituindo a enunciação. Será possível, com base nisso, verificar se o emprego desse recurso lingüístico favorece á aquisição da legitimidade e à conquista da credibilidade do discurso

Os dados a serem analisados compõem o corpus compartilhado do Projeto VARPORT, que está disponível no site referente à linha de Pesquisa: “Língua e sociedade: variação e mudança”, do Departamento de Letras Vernáculas da UFRJ, abarcando as modalidades escrita (do século XIX e XX) e falada (standard e substandard) de ambas as variedades do português. A metodologia da pesquisa inclui um estudo quantitativo e qualitativo, com ênfase neste último, das ocorrências das construções condicionais nos textos analisados, em suas diferentes formas de materialização, sejam elas condizentes à forma desenvolvida ou reduzida, como se postula a Gramática Tradicional (GT), ou a formas distintas de uso, como as introduzidas por conectivos como quando, como e porque, empregados com valor condicional, embora sejam classificados de outras formas, na sintaxe tradicional. Ainda serão analisadas os tipos de construção sintática que expressam condicionalidade, mesmo com elipse de conectivo, conforme afirmam Mateus (2003) e Neves (2002). Nestes casos, a noção de condicionalidade expressa-se não pela presença de um conector, e sim, pelo conteúdo semântico do enunciado, refletido pela estrutura sintática ou apenas pelo contexto.

Com base nos objetivos e no tema da pesquisa, serão consultados diversos teóricos ligados aos estudos de gramática da língua portuguesa a respeito do assunto, bem como de gêneros textuais e análise do discurso. Dessa forma, a pesquisa terá como ponto de partida, uma revisão bibliográfica a respeito das construções condicionais. Serão reunidas as abordagens tradicional , com a revisão bibliográfica de autores, como SAID ALI (1969), ROCHA LIMA (1972), LUFT (1978), CUNHA & CINTRA (1985), BECHARA (1987), KURY (1987); gerativista, com base em MATEUS (2003); funcionalista, baseada em GAYA (2000) e NEVES (2000); e textual-discursiva, de acordo com KOCH & VILELA (2001). Em seguida, a pesquisa focalizará a compreensão da estrutura de diferentes gêneros que compõem o corpus e a reflexão sobre a função dos componentes lingüísticos do texto no processo argumentativo. Logo após, será apresentada uma proposta semântico-discursiva de análise das construções condicionais.

Após a apresentação da metodologia da pesquisa e a análise dos dados, será possível visualizar que o potencial discursivo dos conectores condicionais só pode ser apreendido no momento de realização do texto, ou seja, quando ele se faz significar.

2. Construções condicionais: apresentação


A análise que se apresenta neste trabalho resulta de estudos sobre os modos como as sentenças se articulam no português em uso. Focaliza-se, aqui, um dos aspectos que contribuem para a organização do discurso, a que se pode designar hipotaxe adverbial. De acordo com Mateus et alii (2003), a subordinação é um dos mecanismos sintáticos que possibilita a formação de frases complexas ou plurioracionais, abrangendo as orações articuladas a outras por hipotaxe, reunidas nos grupos das completivas, relativas e adverbiais. As últimas, relevantes no presente trabalho, consistem no conjunto de sentenças cujo comportamento sintático é semelhante ao dos advérbios, funcionando, dessa forma, como adjuntos adverbiais das orações a que se subordinam.

No quadro da subordinação adverbial se inserem as orações condicionais, que serão aqui estudadas, especialmente, levando em consideração diversos postulados gramaticais. Definem-se as construções condicionais canônicas como uma estrutura complexa, constituída por duas orações: a prótase, que a gramática tradicional denomina subordinada adverbial condicional, e a apódose, rotulada como principal.


Se você tem acesso à Internet, vá ao nosso site e compre seu celular digital."

Prótase Apódose (E-B-94-Ja-019)


As orações subordinadas adverbiais condicionais podem apresentar-se sob a forma desenvolvida, introduzidas, portanto, por um conectivo, prototipicamente SE:
Simples e rápido como um passe de mágica. Estamos falando do Crediário Automático Banerj (...) Se você não tem um limite de crédito pré-aprovado, seu Gerente Banerj indicará outras excelentes linhas de crédito do Banerj. Todo dia um banco melhor para você.”

(E-B-94-Ja-022)
Por outro lado, podem também se apresentar sob a forma reduzida, com uma das formas nominais do verbo:

Dispendendo menor esforço, obtém-se muito maior eficiência.”

(L.E./P.E./ANU./ E-P-95-Ja-002)
Fazendo a sua inscrição no programa você já ganha 20 pontos.”

(L.E./P.B./ANU./E-B-94-Ja-003)


Como exercem função sintática de adjunto adverbial, essas sentenças condicionais também têm mobilidade na construção, que é uma característica dos advérbios. Portanto, podem se apresentar:

  • Antepostas;

Se pouca coisa vem sendo conseguida de concreto, cria-se pelo menos a consciência do caos a que essa situação pode levar.”

(L.E./P.B./EDIT/E-B-94-Je-005)




  • Intercaladas;

A concepção é um momento único, sublime, magnífico, em que a vida humana começa, pela simples razão de que aí se inicia um processo que, se não for interrompido, dará inexoravelmente origem a um ser humano.”



(L.E/P.E/EDIT/E-P-95-Je-004)


  • Pospostas à principal.

O Camerlengo, Cardeal Paolo Bertoli, assumirá o Governo da Igreja, com poderes limitados, se João Paulo II ficar impedido de exercer suas funções.”



(L.E./P.B./NOT/E-B-94-Jn-012)
Diz-se que a construção se apóia sempre numa hipótese, daí a denominação período hipotético ser empregada, nos estudos clássicos, para fazer referência genérica a esse tipo de construção.

É necessário entender que a conexão das orações hipotáticas se dá sob três aspectos: sintático, semântico e pragmático - entende-se os dois últimos como propriedades manifestadas na interação lingüística e / ou situação comunicativa. Por esse motivo, esta pesquisa procurou reunir os pressupostos teóricos dos autores que, seja através de uma base tradicional, gerativista, funcionalista ou textual, abordam significativas questões que envolvem as orações condicionais.

3. Revisão da literatura especializada
3.1. A abordagem tradicional
SAID ALI (1969) afirma que a proposição hipotética caracteriza-se pela conjunção se ou caso, caso que, dado caso que. Segundo o gramático, completa-se o sentido da construção condicional com uma sentença principal, que, por sua vez, expressa o fato decorrente ou dependente do fato suposto, dada a realização deste.

Do ponto de vista discursivo, afirma que a proposição condicional é usada sobretudo nas argumentações – dado relevante que constitui a hipótese que será averiguada na presente pesquisa.

Do ponto de vista estrutural, o período condicional é constituído por uma oração condicionante, que pode denotar a condição de que depende outro acontecimento, iniciada por SE, conectivo prototípico, e por uma oração condicionada à sentença principal.

Nesse sentido, a oração condicionante, segundo o autor, pode referir-se:



  • a fato inexistente ou improvável;

Se eu tivesse dinheiro, compraria uma casa.”


  • a fato realizável ;

Se eu tiver dinheiro, comprarei uma casa.”


  • e/ou exprimir eventualidade.

Se queres paz, prepara-te para a guerra.”
As orações condicionais podem ser expressas sob as formas nominais do verbo, por exemplo:

  • gerúndio;

Ficarás curado seguindo os conselhos do médico.”


  • infinitivo precedido de a, quando o verbo na forma desenvolvida apresentar-se no imperfeito ou futuro do conjuntivo.

Houvera sido feliz, a não ocorrer a desgraça de seu neto.”.

Outra nota relevante é o fato de que, quando a oração condicionante estiver sob a forma de conselho, o ato condicionado será enunciado em segundo lugar e denotará efeito ou conseqüência. “Converte-se nesta linguagem a oração subordinativa iniciada por se em oração principal, com o verbo no imperativo; a oração seguinte terá o valor de coordenada e começará por e ou por que


Toma este remédio e ficarás curado = Se tomares este remédio ficarás curado”(Cf.: Said Ali, 1969:136).
ROCHA LIMA (1972) afirma que as orações condicionais, assim como as demais orações subordinadas adverbiais, comportam-se como adjuntos adverbiais da oração a que se subordinam. Expressam “a circunstância de que depende a realização do fato contido na principal”. Podem apresentar um fato de realização possível, provável ou desejável e, ainda, podem indicar “desejo, esperança, pesar”.

Segundo o autor, a conjunção característica é se, como já admitiu Said Ali (1969), “que requer o verbo no subjuntivo (pretérito imperfeito, pretérito mais-que-perfeito, futuro); mas é lícito trazê-lo no indicativo, quando denota fato real, ou admitido como real, em contradição com outro acontecimento.


Como queres progredir, se não te esforças nos estudos?
Como prescreve Said Ali (1969), outros conectivos podem introduzir esse tipo de sentença. Para isso, pode-se utilizar conjunções como caso, contanto que, dado que, desde que, sem que, uma vez que, a menos que.

Rocha Lima (1972) declara que a oração condicional se converte ao gerúndio, ao infinitivo e ao particípio. Portanto, mais uma possibilidade de redução não prevista por Said Ali (1969).

Desaparecida a causa, / cessará o efeito.”
Para atribuir à sentença maior leveza, pode-se, segundo ele, “prescindir de conjunção – caso em que a oração condicional costuma anteceder à condicionante e ter o verbo antes do sujeito.

Não estivesse eu ausente no Rio, teria comparecido ao seu casamento.”” (Cf.: Rocha Lima, 1972: 279).

LUFT (1978), assim como já mencionou Rocha Lima (1972), diz que as orações adverbiais têm valor de advérbios ou adjuntos adverbiais da sua oração principal. Nesse contexto, inserem-se as orações condicionais, que exprimem condição e podem apresentar-se como desenvolvidas ( introduzidas pelas conjunções e locuções conjuncionais se, caso, contanto que, com tal que, a não ser (a menos) que, sem que) ou reduzidas (de infinitivo, gerúndio ou correlata

Conforme é o pássaro, assim também é o ninho”.


CUNHA & CINTRA (1985), como também o fazem Rocha Lima (1972) e Luft (1978), afirmam que as orações subordinadas adverbiais são assim classificadas porque desempenham funções equivalentes às exercidas pelos advérbios. Nessa perspectiva, “as orações condicionais indicam uma hipótese ou uma condição necessária para que seja realizado ou não o fato principal” e são assim classificadas se a conjunção ou locução conjuntiva que as encabece for subordinativa condicional. Assim, podem ser iniciadas pelas conjunções subordinativas se, caso, contanto que, salvo se, sem que [ = se não], dado que, desde que, a menos que, a não ser que, etc. Os autores também descrevem as locuções conjuntivas como “conjunções formadas da partícula que antecedida de advérbios, de preposições ou de particípios”, como é o caso de desde que, dado que, a não ser que, por exemplo.

BECHARA (1987), conforme fazem Rocha Lima (1972), Luft (1978) e Cunha & Cintra (1985), afirma que as orações subordinadas adverbiais são aquelas que exercem a função sintática de adjunto adverbial. Quanto ao aspecto sintático, segundo ele, podem ligar-se por conectivos (conjunções subordinativas adverbiais) ou se apresentarem justapostas. Iniciadas por se denotam enfaticamente a hipótese de caráter dubitativo; quando justapostas, têm o verbo no tempo passado mais-que-perfeito do indicativo ou imperfeito do subjuntivo, geralmente com sujeito posposto.


Tivesse eu dinheiro, conheceria o mundo.”
Segundo ele, as orações subordinadas adverbiais condicionais, além de exprimirem condição, podem encerrar as idéias de hipótese, eventualidade, concessão, sem que muitas vezes se tracem demarcações rigorosas entre esses vários campos do pensamento.

KURY (1987) também declara que as orações subordinadas adverbiais funcionam sempre como adjunto ou complemento adverbial da oração principal de que dependem. Portanto, as orações condicionais, que se enquadram no grupo das subordinadas adverbiais, equivalem a um adjunto adverbial de condição e exprimem condição ou hipótese.

Do ponto de vista estrutural ou sintático, para o autor, podem ser apresentadas sob a forma reduzida (de infinitivo, de gerúndio e/ou de particípio) ou desenvolvida.
Quando desenvolvidas conexas, as orações condicionais são introduzidas por uma conjunção ou locução conjuntiva condicional, cujo tipo é se ( caso, sem que [ equivalente a se não ] , contanto que, salvo se, exceto que, desde que, a menos que, a não ser que, etc. )”.

Cf. Kury, 1987: 103)

Kury (1987) ressalta que algumas orações subordinadas adverbiais condicionais de predicado nominal,


despojadas do conectivo e do verbo de ligação, enunciam-se como simples predicativos, mantendo, contudo, seu valor adverbial. Ex.: Vencidos, nunca se lhes ouvia pedir compaixão; porque, vencedores, não havia a esperar deles misericórdia.”

Cf. Kury, 1987: 108)
3.2. A abordagem gerativista
MATEUS et alii (2003), cujos pressupostos serão considerados no presente trabalho e posteriormente detalhados (cf. item 4), afirmam que “chama-se oração condicional (...) a oração de cujo conteúdo proposicional depende semanticamente o conteúdo proposicional da outra oração, a condicionada”. Também ressaltam que se manifestam, prototipicamente, pela realização “SE p ENTÃO q”.

As orações condicionais, segundo a proposta das autoras, podem ser factuais ou reais, hipotéticas ou potenciais, contrafactuais ou irreais. Também atentam para outras formas de exprimir nexos semânticos condicionais, que são os casos que envolvem construções de justaposição, construções de coordenação e construções reduzidas.


3.3. A abordagem funcionalista
GAYA (2000) propõe uma abordagem que considera o valor semântico-pragmático das orações condicionais. Isso se verifica quando as subdividem dois grupos distintos: as proposições que expressam uma condição real, cuja marca formal é o verbo no indicativo, e as orações que expressam uma condição irreal, cuja marca formal é o verbo no subjuntivo.

O autor introduz o estudo sobre as condicionais enfatizando a sua função sintático-semântica de estabelecer uma relação entre dois enunciados, fazendo com que o cumprimento do enunciado da oração principal dependa da realização da oração subordinada. Aponta uma outra denominação para o período condicional: período hipotético. Além disso, como já o fizeram Mateus et alii (2003), menciona as duas partes componentes do período: uma oração subordinada, chamada de hipótese, condição ou prótase, e uma oração principal, chamada de apódose.

O autor concentra seu estudo em uma minuciosa compreensão das limitações de uso dos tempos verbais na estruturação da condicionalidade e a sua ligação com a intenção dos falantes em demonstrar que a condição irá ou deve cumprir-se num momento anterior ao condicionado ou de simultaneidade a ele, o que definirá o uso do futuro ou do presente na apódose em relação à prótase. Acrescenta-se a isso a menção de que só há um articulador sintático (o autor utiliza o termo “conjunção”) que indica condição, que é o SE, mas aponta para a possibilidade de se encontrar conectores de outra origem assumindo o valor de condicionais (como, quando, sempre que, já que, entre outros). Gaya (2000) afirma também que as orações condicionais podem estar dispostas e relacionadas por justaposição ou através das construções com as formas nominais do verbo, isto é, com as orações reduzidas.

NEVES (2000) declara que as construções condicionais são, a princípio, enunciados da forma SE + oração condicionada + oração principal ou oração principal + SE + oração subordinada. A autora também lembra que numa construção condicional “ a oração que exprime uma condição (...) é chamada prótase, e a que exprime o que é condicionado (...) é chamada apódose”.

No que se refere à ordem, ela defende a idéia de que a anteposição da subordinada em relação à principal pode ser favorecida pelo princípio de iconicidade. Assim como Mateus et alii (2003), Neves (2000) também classifica as orações em factuais/ reais, contrafactuais/ irreais, eventuais/ potenciais. Também destaca algumas peculiaridades, como os casos de elipse. Além disso, postula que a linguagem coloquial acolhe tipos de construção que expressam condicionalidade, sem que, formalmente, manifestem-se como uma oração condicional.
3.4. A abordagem textual-discursiva
KOCH (2001), cujos postulados serão detalhados na fundamentação teórica desta pesquisa, enquadra as orações condicionais no grupo das determinações adverbiais ou circunstantes, que se inclui no grupo mais amplo das determinações causais. Segundo a autora, por meio da relação condicionante/ condicionado, pode haver um condicionamento real ou hipotético.

Acrescenta, em sua abordagem, que as relações adverbiais podem ocorrer com ausência de conector, ainda que estabelecendo as mesmas relações de significado. Nesse contexto, a autora utiliza a expressão “se p então q” para reafirmar a relação de que “sendo o antecedente verdadeiro, o conseqüente também o será”.

4. Fundamentação teórica
O estudo das construções condicionais será realizado principalmente sob a luz da perspectiva funcional-discursiva, a partir dos pressupostos teóricos de Mateus et alii (2003), Neves (2000), Koch & Vilela (2001), já levados em consideração na revisão bibliográfica apresentada anteriormente, além de Decat (1999) , analisando-se não somente a estrutura lingüística, mas também o evento e a situação do discurso, que certamente influenciam as escolhas do falante, suas formas de uso da língua como recurso valioso da interação lingüística.

Teóricos como Decat (1999) e Neves (2000), principalmente, serão levados em consideração neste trabalho, com o propósito de fazer com que os dados quantitativos funcionem como suporte para a análise qualitativa, que corresponde à investigação dos aspectos semântico- pragmáticos envolvidos nas escolhas de uso do emissor.

Segundo DECAT (1999), nem sempre uma cláusula adverbial pode ser vista como ‘encaixada’, pelo fato de constituir um sintagma e funcionar como adjunto adverbial e, nesse caso, ser parte de outra cláusula. De fato, freqüentemente, a cláusula adverbial, e, especificamente, a cláusula adverbial que expressa condição terá mais que uma função gramatical, uma função discursiva, “no sentido de orientar o ouvinte para a mensagem que se quer transmitir, organizando, assim, a forma do discurso”. É seguindo esse pensamento que o presente trabalho será elaborado; portanto, as diversas formas de organização do discurso serão analisadas bem como a maneira como as cláusulas se combinam no discurso, em situações reais de comunicação.

Seguindo o modelo proposto por Decat (1999), o estudo das construções condicionais procurará evidenciar: “a) as relações (ou “inferências”, ou “proposições relacionais” ) adverbiais que emergem da articulação das cláusulas no discurso; b) a função discursiva a que se prestam as cláusulas hipotáticas adverbiais, quer dentro de um enunciado, quer relacionando enunciados entre si.” Nesse contexto, as diferentes seqüências textuais analisadas e os diferentes gêneros textuais que constituem o corpus da pesquisa representam a porção maior de discurso em que a cláusula adverbial condicional, servindo a funções discursivas, está inserida.

Ainda sobre as funções discursivas, Decat (1999) afirma que a ordem dos elementos em relação de “núcleo-satélite”, isto é, principal e subordinado determina a função discursiva da cláusula adverbial. Assim, certos tipos de proposições relacionais vão determinar o uso de cláusula adverbial anteposta ou posposta, e alguns discursos vão privilegiar uma determinada posição.

Enfim, a reunião desses pressupostos irá auxiliar a etapa empírica da pesquisa, não só no sentido de possibilitar um olhar mais amplo sobre as ocorrências das construções condicionais nos textos que serão analisados, mas também, e principalmente, na compreensão do papel discursivo das construções condicionais, observando a dimensão semântica e pragmática de seu emprego em cada gênero textual considerado no corpus. Em vista disso, é importante a afirmação de Neves (apud Marcuschi, 2000: 3) acerca do estudo da língua no contexto do discurso quando a autora afirma que


as expressões lingüísticas devem ser descritas e explicadas dentro de um quadro geral fornecido pelo sistema pragmático de interação verbal, já que há dois sistemas de regras envolvidos na organização gramatical das línguas naturais: as regras que governam a constituição das expressões lingüísticas (regras semânticas, sintáticas, morfológicas e fonológicas) e as regras que governam os padrões de interação verbal nos quais essas expressões lingüísticas são usadas (regras pragmáticas), sendo o primeiro desses sistemas instrumental em relação ao segundo.”
MATEUS et alii (2003), no início de sua abordagem sobre as construções condicionais, ressaltam a dependência semântica que se estabelece entre as duas orações que constituem esse tipo de sentença. Para as autoras, “chama-se oração condicional, condicionante, antecedente ou prótase à oração de cujo conteúdo proposicional depende semanticamente o conteúdo proposicional da outra oração, a condicionada, a conseqüente ou a apódose, também designada, na tradição gramatical, por ‘principal’.

Embora as orações condicionais apresentem grande diversidade de estruturas sintáticas, manifesta-se, prototipicamente, pela realização SE p ENTÃO q. Também outros conectivos podem introduzir a construção condicional, a saber: “caso, se porventura, salvo se, sem que, uma vez que, a não ser que, desde que, conquanto que, com a condição que – iniciam uma oração com conjuntivo, no caso que – inicia uma oração infinitiva.”

A tipologia proposta por Mateus et alii (2003) para as proposições condicionais preocupa-se com o nexo semântico e pragmático destas orações, enfatizando, inclusive, a diferença entre grau de probabilidade entre proposições hipotéticas ou potenciais conforme varia a situação enunciativa. As orações condicionais, segundo a classificação proposta pelas autoras, podem ser:


  • Factuais (ou reais);

Se há bom tempo, ficamos bem dispostos.”



  • Hipotéticas (ou potenciais);

Se tu vieres cedo, vamos/iremos jantar fora.”


  • Contrafactuais ( ou irreais).

Se tivesse chovido em Portugal em 1981, não tinha/teria havido seca”


No primeiro caso, o conteúdo das duas proposições é verificado no mundo real, no intervalo de tempo relevante. No segundo caso, a proposição condicional
remete para um mundo possível, criado lingüisticamente pelo enunciado, epistemicamente não acessível no intervalo de tempo da enunciação, e no qual, dado o antecedente, se verifica o conteúdo proposicional do conseqüente”

(Cf. Mateus et alii, 2003: 707).
No último caso, a condicional “estabelece relação entre proposições que se verificam em mundos alternativos ao mundo real.”

Outra contribuição importante diz respeito ao trabalho desenvolvido pelas autoras no que se refere a outras formas de exprimir nexos semânticos condicionais. São casos que envolvem construções de justaposição: “uma das orações é uma completiva regida por um verbo “modal” ou “criador de mundos” – Ex.: “Imagina que falta outra vez a água / queixo-me/vou queixar-me à EPAL”, “uma das orações é uma imperativa seguida de declarativa” – Ex.: “Deitem um balão com ar aquecido, (que) ele consegue/conseguirá voar durante algum tempo.”, “uma construção constituída por uma interrogativa retórica seguida de uma oração declarativa no futuro ou no presente do indicativo – Ex.: Há perigos no Rali? Eles ultrapassam-nos.”; construções de coordenação, que se ligam através da relação de condição e conseqüência – Ex.: “Trabalha pouco na faculdade e terás logo problemas.”; as construções reduzidas, “como adjuntos à esquerda à outra oração, e que podem assumir a forma de orações infinitivas iniciadas por a, no caso de, na condição de, de oração participial ou de oração gerundiva. Ex.: Concretizando-se essa hipótese, prefiro a reunião na próxima semana.” (cf. Mateus et alii, 2003:709-710)

NEVES (2000), sobre o modo de construção das orações condicionais, afirma que são, em princípio, enunciados da forma SE + oração condicionada + oração principal ou oração principal + SE + oração subordinada. Assim como diz Mateus et alii (2003), Gaya (2000) e gramáticos tradicionais, Neves (2000) afirma também que outras conjunções podem expressar a relação de condicionalidade, tais como caso, desde que, contanto que, uma vez que, a menos que, sem que, a não ser que, salvo se, exceto se. Além disso, atenta para o fato de algumas conjunções temporais, em determinados tempos verbais, apresentarem matiz condicional.

Consoante ao que diz Gaya (2000), já citado, Neves denomina a construção condicional período hipotético, uma vez que a construção se apóia basicamente numa hipótese. Ainda em consonância com os pressupostos dos autores já citados, lembra que numa construção condicional, “a oração que exprime condição (tradicionalmente, a subordinada) é chamada prótase, e a que exprime o que é condicionado (a nuclear ou principal) é chamada apódose”.

Considerando o aspecto semântico, a autora prevê três grandes grupos de construções ligadas a uma oração condicionante:


  • “dada a realização/ a factualidade da oração condicionante, segue-se, necessariamente, a realização/ a factualidade da oração condicionada”;

  • “dada a não realização/ a não factualidade da oração condicionante, segue-se, necessariamente, a não realização/ a não factualidade da oração condicionada”;

  • “dada a potencialidade da oração condicionante, segue-se a eventualidade da oração condicionada”. (Cf. Neves, 2000:832)

Além disso, procura mostrar que, do ponto de vista da organização da informação no texto, as orações condicionais constituem
um ponto de apoio para referência, um tópico discursivo”, ou seja “ formam uma espécie de moldura de referência em relação à qual a oração principal é factual ou apropriada”.

(Cf. Neves, 2000:833)
Outra contribuição importante é a afirmação de que a oração condicional não traz uma informação nova, mas apresenta
uma parte do conhecimento partilhado entre o falante e o ouvinte, e, como tal, constitui uma base selecionada pelo falante para assentar a porção seguinte do seu discurso.”

(Cf. Neves, 2000:834)

No que tange à ordem das construções condicionais, a autora assinala que a anteposição da subordinada em relação à principal pode ser favorecida pelo princípio de iconicidade, visto que “enuncia-se primeiro a ocorrência de um estado de coisas como assentamento de uma condição (prótase), que pode ou não ser satisfeita” e “a partir daí (e, portanto, em subseqüência), enuncia-se um estado de coisas como factual / contrafactual / eventual, em dependência do preenchimento daquela condição”. Isso se confirma com a noção da natureza discursiva de tópico descrita pela autora, segundo a qual a oração que exprime a condição possui e ratifica essa tendência de anteposição da condição no enunciado.

Além de atentar para a ordem dessas construções, há em Neves (2000) a preocupação com a classificação delas em subtipos, que correspondem à tipologia atribuída por Mateus et alii (2003) e comentada anteriormente (condicionais factuais/ reais, contrafactuais/ irreais e eventuais/ potenciais), procurando mostrar o esquema modo-temporal de cada um desses subtipos. Neves (2000) ainda aborda algumas particularidades das construções condicionais que constituem casos de elipse: elipse total da oração condicional, elipse do verbo auxiliar de uma forma passiva, na oração condicional e elipse de conectivo. Nesse momento destaca que “o segmento condicionante também pode construir-se com núcleos que representam atos de fala”, como ocorre em “Se eu sair daqui vou trabalhar onde?”. É sabido que os atos de fala são estudados sob a luz da Pragmática, sendo necessário, por conseguinte, compreender seu evento lingüístico através dessa perspectiva.

É também relevante mencionar o fato de Neves (2000) afirmar que a linguagem coloquial acolhe “certas construções com duas orações que entre si estabelecem relação de condicionante – condicionado, sem que exista formalmente uma oração condicional.” Desse tipo apresentam-se construções com “imperativo + oração iniciada por que (Ex.: “Corre que tu ainda pega o pirão no barraco da Marlene”); com “as formas verbais vai ou vai + oração iniciada por que, com verbo no indicativo ou no subjuntivo” (Ex.: “Vai que eles tivessem recebido o resgate e, com o dinheiro, financiado uma revolução vitoriosa em El Salvador”); com “um sintagma nominal ou adverbial anteposto a um sintagma nominal; geralmente, trata-se de expressões, fixas ou semifixas” (Ex.: “De graça até injeção na veia. = Se é / for de graça, tomo até injeção na veia.”).

KOCH (2001) enquadra as construções condicionais no grupo das determinações adverbiais ou circunstantes. Nessa perspectiva, “a determinação condicional exprime a condição ou o condicionamento de um acontecer. Isto é, há estados de coisas que dependem de outros estados de coisas, ou afirmações cuja verdade depende da verdade de outras afirmações, etc.” Esse tipo de determinação é incluído num grupo mais amplo das determinações causais já que é baseado numa relação de causalidade. Segundo a autora, por meio da relação condicionante / condicionado, pode haver um condicionamento real ou hipotético.

Embora não abandone a natureza sintática do processo, Koch (2001) enfatiza os aspectos semânticos e pragmáticos, o que se comprova pela forma com que conduz sua abordagem. Nesse sentido, posteriormente (id.: 390-399), no domínio de seus estudos sobre frases compostas, mais especificamente, subordinação, aponta como uma das frases de relação ou frases oracionais o que as gramáticas tradicionalmente chamam de orações subordinadas adverbiais condicionais, pois “relacionam dois estados de coisas, mas em que um deles está subordinado a outro, explicitando-o, condicionando-o, restringindo-o.”

Conforme a autora afirma, existem traços que justificam a sua classificação “frases de relação” para referir-se às noções adverbiais expressas por meio de frases compostas. São eles: as frases de relação “estão subordinadas sintaticamente a frases completas (...)”; “são frases conjuncionais ou equivalentes”; suas combinações “servem para a representação de uma relação de conteúdo comunicativo importante entre dois estados de coisas, exprimindo determinações adverbiais (com exclusão da determinação local).”

Como já o fizeram Mateus et alii (2003), Koch (2001) acrescenta que as relações adverbiais podem ocorrer com ausência de conector, ainda que estabelecendo as mesmas relações de significado. Considerando os exemplos apontados em sua gramática, pode-se inferir que a autora se refere às construções tradicionalmente chamadas justapostas. Cabe-nos mencionar também que a autora se refere à relação de condicionalidade como uma das relações lógico-semânticas da língua, tendo em vista que os conectores condicionais possuem semelhanças com os operadores lógicos propriamente ditos, embora não se confundam com eles. Junto a isso, a autora utiliza a expressão “se p então q” para reafirmar a relação de que “sendo o antecedente verdadeiro, o conseqüente também o será”.

5. Características fundamentais dos anúncios, editoriais, notícias e textos orais

Bakthin (apud Marcuschi, 2002:29) afirma que os diferentes gêneros textuais representam formas estruturais e lingüísticas relativamente estáveis com uma função sócio-discursiva definida. Assim, os gêneros textuais podem ser entendidos como formas originárias de esferas da vida social, distribuídos pela fala e pela escrita. São entidades dinâmicas, históricas, orientadas para fins específicos, ligadas a determinadas comunidades discursivas.

A abordagem desse estudo dos gêneros textuais será baseada na definição desenvolvida por Marcuschi (id.) que destaca a distinção entre as denominações “tipologia textual” e “gênero textual”. Segundo o autor, a terminologia “tipo textual” consiste no conjunto de “constructos teóricos definidos por propriedades lingüísticas intrínsecas e constituem seqüências lingüísticas ou seqüências de enunciados e não são textos empíricos”. Por outro lado, a designação “gênero textual” diz respeito às “realizações lingüísticas concretas definidas por propriedades sócio-comunicativas e constituem textos empiricamente realizados cumprindo funções em situações comunicativas”.

Dessa maneira, compreende-se que a tipologia textual trata do modo de organização do discurso, incluindo cinco categorias distintas: narração, argumentação, exposição, descrição e injunção. Por outro lado, o gênero textual diz respeito à materialização em textos das inúmeras formas de interação comunicativa, cada qual com sua função social, conteúdo, estilo e composição característicos. É neste segundo grupo que se inserem as classificações dos textos que compõem o “corpus” da pesquisa que ora se realiza: anúncios, editoriais, notícias e diálogos entre informante e documentador. É preciso esclarecer que, em cada um desses gêneros, haverá o predomínio de uma das tipologias textuais apontadas anteriormente, de acordo com a intencionalidade do texto e a sua função sócio-comunicativa.

5.1. Modos específicos de organização do discurso
Serão analisados na presente pesquisa os gêneros textuais do português escrito que expressam o discurso jornalístico e circulam na mídia impressa; no entanto, cada um contém traços específicos de seu gênero. No que tange ao português oral, o gênero a ser considerado reúne uma heterogeneidade tipológica. Nesse caso, em certos fragmentos, encontramos narração, em outros, descrição ou exposição; porém, predominantemente, argumentação. Cada um desses gêneros só alcançará a sua intencionalidade à medida que exercer efetivamente a sua função discursiva e social.

O aspecto central da intencionalidade dos gêneros apontados é um traço essencial para distingui-los. Nos anúncios, tal aspecto é a persuasão; nas notícias, o caráter informativo, de exposição dos fatos; nos editoriais, a exposição de um ponto de vista, a argumentação; nos diálogos, o estabelecimento e a manutenção de uma interação por meio de relato (narração), descrição e/ou argumentação. Todos os traços referidos manifestam-se através dos componentes lingüísticos do texto e representam propriedades identificadoras da noção de gênero.

Segundo LAGE (2004: 16), do ponto de vista da estrutura, a notícia se define, na linguagem jornalística, como o “relato de uma série de fatos a partir do fato mais importante ou interessante; e de cada fato, a partir do aspecto mais importante ou interessante.” Essa definição permite a conclusão de que não se trata, simplesmente, de narrar os fatos, mas de expô-los. Nessa acepção, a notícia é o relato de fatos e de acontecimentos atuais, geralmente de importância e interesse para a comunidade, sem comentários pessoais, opiniões ou interpretações por parte de quem a escreve. Os títulos são chamativos (manchetes) para atrair a atenção do leitor. No início do texto, costuma aparecer um pequeno resumo com as informações essenciais do fato enunciado (lide).

A retórica da notícia é referencial. Nisto ela se diferencia da publicidade, que tem retórica conativa. O modo verbal da notícia é, portanto, o indicativo, enquanto nos anúncios, predomina o imperativo, ainda que por variantes estratégicas.

Os anúncios possuem uma estrutura voltada para a apresentação de um produto a um público aparentemente indeterminado, mas não se restringe a isso, pois possui, na verdade, um destinatário ideal e reúne uma série de recursos lingüísticos que convergem para a construção de um universo que ultrapassa o caráter informativo da linguagem e alcança o nível descritivo / argumentativo com o intuito de seduzir (conduzir o outro ao prazer); persuadir (levar o outro a crer-convencer) e incitar (conduzir à ação) o receptor (consumidor potencial) a tornar-se um consumidor efetivo do produto anunciado.

O editorial, por sua vez, é um tipo de texto jornalístico de caráter interpretativo-opinativo, escrito de forma impessoal e publicado sem assinatura, como se representasse uma autoria coletiva. É um espaço reservado para que os editores do veículo expressem formalmente sua interpretação e sua opinião acerca dos mais diversos assuntos, geralmente polêmicos, da atualidade. Possui estrutura semelhante à de um texto dissertativo, agregando intenção persuasiva.

Por fim, nos diálogos entre informantes, todas as características anteriores podem entrecruzar-se, pois, conforme já abordado, ocorre uma mesclagem dos modos de organização do discurso determinada pelo caráter temático e pela condução dada ao assunto pelos interlocutores na realização do ato comunicativo; enfim, por influência das escolhas individuais dos sujeitos envolvidos no processo.

É sabido que todos os textos utilizam, com maior ou menor ênfase, argumentos para produzir efeitos de verdade e de realidade ao seu conteúdo, buscando conquistar e influenciar o destinatário, e concretizar os aspectos e objetivos centrais de cada gênero em particular. Na verdade, o que ocorre é que a variedade de seqüências tipológicas representa diferentes modos de argumentar (num sentido mais amplo do termo argumentação). A própria origem etimológica da palavra argumento confirma essa abrangência do termo argumento, que vem de argumentum, em que o elemento argu significa iluminar. Diante disso, o argumento é um procedimento lingüístico que representa o lançamento de luz em uma dada direção, com vistas à realização dos objetivos e da intenção comunicativa do texto.

Na visão de Maigueneau (apud Neves, 2000:58), a língua apresenta em sua essência um valor argumentativo, através, principalmente, da busca da adesão do destinatário ao discurso. Conclui-se, portanto, que todo texto orienta argumentativamente um enunciado para conduzir o destinatário em determinada direção, já que qualquer discurso possui uma intencionalidade.

Da mesma forma, quando Charaudeau (apud Neves, 2000:59) afirma que a argumentação representa a maneira de organização do discurso e que ela é uma atividade de natureza demonstrativa e persuasiva, pode-se perceber que o texto se funda na argumentação para sustentar a convicção de um dado assunto e alcançar o fim persuasivo do texto. Os textos procuram reunir argumentos bem fundamentados para conseguir influenciar e convencer o interlocutor.

Vale ressaltar, ainda, com base nos pressupostos de Charaudeau (1994), que o ato comunicativo pressupõe três condições básicas: a legitimidade, a credibilidade e a captação. A primeira condição diz respeito à necessidade que o sujeito possui de ser reconhecido socialmente como alguém com fundamento para falar, para adquirir “o direito à palavra”, enquanto que a segunda aponta para a condição de reconhecimento da capacidade de falar algo acreditado como verdadeiro, factual e significativo. Acrescentando-se a isso, a última condição direciona-se à conquista do outro, de sua adesão para que se alcance o ápice do processo: a persuasão, influenciando o outro com a força retórica argumentativa. Os conectores condicionais representam um dos elementos lingüístico-discursivos que participam produtivamente do estabelecimento dessas três condições básicas do ato comunicativo.

Como a língua possui a função básica de traduzir e informar sobre o mundo, como afirma Charaudeau (1994), tornando-o significado, surge a necessidade humana de utilizar gêneros textuais distintos e específicos a cada situação social e comunicativa para concretizar essa busca de significar o mundo. Nesse sentido, a associação dos vários elementos envolvidos no processo de produção de um texto, convergindo para uma intencionalidade bem definida explícita ou implicitamente, constituem o conteúdo de um discurso, cujo enfoque está no receptor, como ocorre nos anúncios, nos editoriais e nos diálogos, exceto nas notícias, cujo enfoque está na própria mensagem, na informação veiculada. Apesar da diferença de enfoque apontada, tanto na notícia como nos demais gêneros, o interlocutor não busca o sentido das palavras ou as combinações estabelecidas entre elas, e sim, o seu significado social. Isso justifica a função social dos gêneros textuais e indica o quanto é preciso considerar semântica e pragmaticamente um estudo das ligações estabelecidas pelos conectores condicionais ou de quaisquer outras relações lógicas presentes num texto.

6. Uma proposta de análise funcional-discursiva das construções condicionais
Como já se pôde observar, é necessário considerar o estudo das relações entre enunciados no seu contexto de produção e de realização enquanto discurso. É somente na enunciação que as construções condicionais assumem uma função que ultrapassa a de meros adjuntos adverbiais das orações às quais se subordinam. Também os conectores condicionais, particularmente, assumem uma função que ultrapassa a de conectores lógicos, por veicularem significados que contribuem para a construção do discurso. Conforme já havia afirmado Koch (2002: 109), “forma e conteúdo (...) são conceitos solidários, que não podem e não devem ser desvinculados no estudo da linguagem”.

Para isso, os acontecimentos textuais e sociais devem ser articulados, na visão de Charaudeau (1999). Assim, a articulação focaliza a relação entre os elementos lingüísticos do texto e os atos de interação social, além de relacioná-los com o contrato comunicativo regulador de toda a situação de comunicação. Somente desse modo será possível conceber o significado do texto.

Diante dessa visão, deve-se analisar o aspecto lógico das relações condicionais, por um lado, e o aspecto semântico e pragmático, por outro, como estudos que se completam e, em momento algum, excluem-se. É preciso esclarecer que a abordagem lógica da questão não foi abandonada em nenhum instante, mas acrescentada a outras questões semântico-pragmáticas, que serão tratadas a seguir.

Koch (2002: 123-129) designa, em sua abordagem, as condicionais como “proposições formadas de duas partes ligadas pela conjunção se, em que a primeira, que encerra a condição, constitui o antecedente e a segunda, o conseqüente.” Nesse contexto, a autora afirma que a verdade de tais proposições é determinada pela verdade do conseqüente. Também a lógica contemporânea, baseada na lógica clássica, considera o enunciado composto condicional como duas proposições que se combinam numa relação de implicação em que a primeira proposição é “introduzida por se e a segunda por então, que pode vir implícito, sabendo-se que “não se dá o caso de o antecedente ser verdadeiro, sendo, pois, o conseqüente falso”, ou seja, o antecedente implica seu conseqüente. Acrescenta-se a isso, a “bicondicionalidade”, em que “p = q”, ou seja, ocorre “quando cada uma das proposições é condição suficiente e necessária da outra. Ex.: Aprecio carne assada se e somente se ela está bem tostada.”

Sob a ótica semântica, Koch (id.: 114-115) trata a relação condicional, considerando-a na enunciação, como “frases ligadas (soldadura)”, para os modos de combinação entre enunciados “quando duas orações estão ligadas num único ato de enunciação, correspondente a uma única intenção, de tal modo que a primeira não constitui objeto de um ato de linguagem acabado, independentemente da segunda.” A classificação apontada inclui não só as relações condicionais, como também as demais relações de subordinação tratadas na perspectiva da gramática tradicional. Ainda sob esse prisma, a autora (ibid.: 130-135) discute as relações discursivas, também denominadas por ela como pragmáticas, argumentativas, retóricas ou ideológicas, já que envolvem cada ato de linguagem particular, interferindo no encadeamento e estruturação dos enunciados do texto.

Em uma perspectiva discursiva, os conectores condicionais passam a ser considerados como “operadores argumentativos ( ou operadores do discurso)”, pois, segundo a autora, eles “encadeiam enunciados, estruturando-os em texto, isto é, constituindo um discurso.” Koch (2002) também faz referência à relação subjetiva estabelecida pela conexão condicional, o que reafirma a hipótese de que os conectores condicionais representam uma marca de subjetividade na linguagem, o que, por sua vez, só pode ser depreendido na instância da enunciação.

A língua é apropriada pelo ser humano com o intuito de interagir socialmente, segundo Maingueneau (2002), e, nesse processo interativo, constantemente expõe o seu ponto de vista, numa tomada de posição diante de fatos, emite juízos de valor e procura atingir a razão e / ou a emoção de seu interlocutor. Isso só ocorre nas diferentes atividades comunicativas devido ao caráter intersubjetivo de cada uma delas, pois os sujeitos envolvidos no processo comunicacional da enunciação estão inscritos lingüisticamente nos textos. No decorrer da análise do corpus, será demonstrado o quanto os conectores condicionais participam dessa instância subjetiva dos textos e, conseqüentemente, o quanto as construções condicionais são presentes e, portanto, imprescindíveis para a boa argumentação.

7. Metodologia da Pesquisa


7.1. Estudo sobre o emprego das construções condicionais em textos orais e escritos
Propõe-se, nesta pesquisa, investigar as ocorrências das construções condicionais em textos de diferentes características e funções sociais e, nestes, estudar o valor semântico-discursivo dos conectores condicionais, com o objetivo de verificar em que sentido essas construções contribuem para a enunciação e se o seu uso está relacionado ao tipo de gênero textual, conforme a sua intencionalidade e o nível de argumentatividade.

Para isso, foram reunidos 227 textos, distribuídos entre escritos e orais das variedades brasileira e européia do Português, observando-se neles as ocorrências das construções condicionais. Não houve a preocupação de apresentar dados estatísticos neste trabalho, uma vez que só se apresentou dados quantitativos como suporte para uma análise de cunho fundamentalmente qualitativo.

O corpus de análise da pesquisa corresponde a textos que integram o corpus do Projeto VARPORT. Tais textos já foram analisados por Santos (2003) em seu trabalho sobre o valor semântico-pragmático dos conectores condicionais.

O corpus do Projeto VARPORT é constituído de textos escritos e orais do português brasileiro e europeu, e está disponível na Internet através do site www.letras.br/varport/corpora.html . O material coletado para esse trabalho abrange textos do português escrito brasileiro e europeu, de 1975 a 2000, e do português oral europeu e brasileiro, englobando as décadas de 70 e 90 do século XX.

Os textos escritos corresponderam a 63 anúncios, 43 notícias e 17 editoriais, enquanto a modalidade oral da língua foi representada por 104 diálogos entre informante e documentador, sendo 57 na variedade culta/informal e 47 na variedade popular. Considerando a heterogeneidade do corpus, adotaremos as abreviações propostas por Santos (2003) para a realização das referências a exemplos dos textos analisados: L.E.- língua escrita; L.F.- língua falada; P.B.- português do Brasil; P.E.- português europeu; ANU- anúncios; NOT- notícias; EDIT- editoriais; DIAL- diálogos entre informante e documentador. Depois de se usar tais abreviações, será sempre indicado o código d texto no VARPORT, para que o leitor possa acessar o texto, em sua íntegra, no site do projeto Análise Contrastiva de Variedades do Português, disponível no endereço eletrônico citado anteriormente.

Vale mencionar que, neste trabalho, serão estudadas construções condicionais de naturezas diferentes. Optou-se, portanto, por subdividi-las em dois subgrupos:



  1. o subgrupo das construções condicionais prototípicas ou canônicas – introduzidas pelo conectivo SE;

Se existem ambições de mando-objeto substantivo no jogo do Poder, elas estariam ocultadas por uma espécie de pudor apolítico.”



(L.E./P.B./EDIT./E-B-94-Je-001)



  1. o subgrupo das construções condicionais introduzidas por




    • outros conectivos classificados pela GT como condicionais;

isso é possível levar no carro DESDE QUE não tenha mais bagagem para transportar não é ? mas também é proibido”



(L.F./P.E./DIAL/Op-B-90-3m-002)



  • conectivos que tradicionalmente não seriam classificados como como condicionais, mas que, no contexto considerado, assumem tal valor;

O ex-ministro foi apenas leviano: os deputados foram mais do que isso – PORQUE divulgaram o documento com o intuito deliberado de comprometer o ministro, não hesitando para isso em prejudicar o Estado.”



(L.E./ P.E./EDIT/ E-P-95-Je-007)



  • orações subordinadas condicionais reduzidas;

Quer dizer, eu acho que eu vendo assim uma, uma mulher bem vestida na rua, uma mulher que eu não conheço, eu posso, a impressão que ela pode me dar é a impressão de estar, de asseio ou não, né?



(L.F./P.B./DIAL./ Oc-B-70-1m-001)

É fundamental acrescentar que a análise de outras construções capazes de expressar condicionalidade, segundo Mateus (2003) e Neves (2000), será realizada num capítulo à parte, pois não se inserem no quadro de construções em que são empregados os conectores condicionais nem no quadro das construções consideradas reduzidas pela GT. Apesar disso, tais registros tornam-se significativos quando se procura perceber a incidência da condicionalidade, numa abordagem mais ampla dessa noção, em gêneros textuais distintos.

Serão utilizados, nos dois casos, tabelas e gráficos com a exposição de dados que serão cuidadosamente analisados e conduzirão às conclusões e à possível confirmação das hipóteses iniciais.

Reconhece-se que, embora, a pesquisa trabalhe com um universo de textos de caráter amostral, é suficiente para suscitar evidências de que os conectores condicionais são bastante produtivos em certos textos e representam uma das significativas escolhas de caráter sintático, semântico e discursivo na sua construção, em função do propósito de cada texto.


7.2. A análise dos dados
Após a coleta dos dados, comprovou-se uma incidência significativa das construções condicionais em relação ao total de textos analisados. Entretanto, percebe-se que a freqüência dessas construções não é equivalente em todos os gêneros textuais, o que já conduz à seguinte conclusão: há maior tendência de o emprego dessas construções privilegiarem alguns textos especificamente, o que se pode observar a partir da tabela a seguir.




GÊNEROS TEXTUAIS

CONSTRUÇÕES CONDICIONAIS

(STRICTO SENSU + LATO SENSU)


TOTAL DE TEXTOS

Anúncios

19

63

Notícias

8

43

Editoriais


27

17


Diálogo entre informante e documentador na variedade culta/informal

177

57


Diálogo entre informante e documentador na variedade popular

181

47

Total Geral


412

227

  1   2   3


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