Migração e presença Camba-Chiquitano em Mato Grosso do Sul: fronteira, práticas culturais e construções identitárias



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Migração e presença Camba-Chiquitano em Mato Grosso do Sul: fronteira, práticas culturais e construções identitárias

Adriano Lúcio Bezerra Farias (UFMS-CPNA)


Resumo:

Este resumo tem o propósito de discutir acerca da migração de indígenas Camba-Chiquitano para o antigo sul de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, no final da primeira metade do século XX, numa perspectiva interdisciplinar, uma vez que a Antropologia, com suas técnicas e métodos específicos, estará lado a lado com a História. Este trabalho é uma prévia do projeto de pesquisa História e Antropologia em fronteiras, a partir de um olhar antropológico para as fronteiras e para as populações indígenas que vivem entre dois limites físicos e simbólicos, num constante e dinâmico “jogo” entre identidades construídas, representadas e assumidas, num espaço marcado por interesses, por disputas de espaço e por representações socioculturais específicas. Atualmente, uma pequena parcela de indígenas de origem Kamba, vive na periferia do município sul-mato-grossense de Corumbá, no bairro Cristo Redentor, no reduto São Francisco de Assis, descendentes dos primeiros Kamba que migraram das tierras bajas (terras baixas) na parte oriental da Bolívia, no Departamento de Santa Cruz. Contudo, a migração de indígenas bolivianos somente se concretizou a partir da construção da ferrovia Santa Cruz de la Sierra-Corumbá, entre os anos de 1939 à 1950.

Palavras-chave: Migração; fronteira; Camba-Chiquitano.

Introdução

A pesquisa sobre a trajetória imigratória dos indígenas Camba-Chiquitano para o antigo sul de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul, a partir do final da primeira metade do século XX para o Brasil, é marcado por contextos diversos na Bolívia, sobretudo, na região conhecida como Chiquitania, no Departamento de Santa Cruz. Tais contextos, como a Revolução Boliviana de 1952, a expulsão de indígenas e campesinos de suas terras e a construção da Estrada de Ferra Santa Cruz-Corumbá, firmados em 1938 entre o Governo dos dois países, são, desse modo, imprescindíveis para a compreensão da sua imigração.

A presença de indígenas Chiquitano é notada na parte Oriental da Bolívia, fazendo fronteira com os Estados brasileiros de MT e MS, resultados do aldeamento com diversas e diferentes etnias indígenas pelos jesuítas espanhóis, entre os séculos XVII e XVIII. E uma pequena parcela de índios Chiquitano vive atualmente em Corumbá, denominados de Kamba, no qual migraram há meio século para o Brasil por meio da construção da estrada de ferro que liga a cidade de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, até Corumbá, no Brasil.

Porém, sobre os Camba-Chiquitano, existem apenas um trabalho no campo da História, tese de doutorado do historiador e antropólogo Giovani José da Silva, de 2009 sendo uma dissertação de Mestrado, em Antropologia de Yara Maria Brun Penteado, de 1980, sendo considerada a primeira sobre os Kamba de Mato Grosso do Sul; e outra na Antropologia, da pesquisadora Ruth Henrique da Silva, produzida em 2009, abrangendo um número significativo de pessoas que se identificavam como Kamba.

O trabalho de pesquisa sobre populações indígenas em regiões de fronteiras transnacionais demanda de pesquisas interdisciplinares, como a utilização de métodos e técnicas da Antropologia, Sociologia dentre outras. É preciso, portanto, dialogar com outras áreas do conhecimento e aproximar-se cada vez mais entre a História e a Antropologia, por exemplo.

Portanto, meu objetivo é compreender como que populações indígenas se relacionam entre si e com outros grupos étnicos nos espaços fronteiriços; em que pesem as inter-relações sociais e culturais com populações regionais e locais, no intuito de verificar ou não estigmas e preconceitos de ordens distintas. Nesses espaços transnacionais, que são as fronteiras, é crível ressaltar, sobretudo, entre Brasil e Bolívia, a imagem de uma região marcada por estereótipos como “fronteira”, “contrabando”, “tráfico de drogas”, etc. Fronteira pode ser um espaço (e este é um dos objetivos da pesquisa) marcado pela fluidez de identidades entre sociedades e grupos diferentes; espaços onde práticas culturais são elaboradas, reelaboradas e re(significadas) em contextos marcadamente distintos.

Dentre as etnias indígenas que serão pesquisadas, ressalta-se a presença dos índios Kamba ou Camba-Chiquitano (como o grupo se autodenomina), de origem boliviana, atualmente vivem na periferia do município sul-mato-grossense de Corumbá, na região oeste do Estado. Como objeto deste trabalho, ressalta-se a especificidade desse grupo étnico em território brasileiro em região de fronteira no passado e no presente: desterritorializados, migrantes e sofrendo dupla discriminação, por serem índios e por serem considerados estrangeiros no Brasil: eis a situação atual dos Kamba (JOSÉ DA SILVA, 2009, p.19).

Como objeto desse artigo, contudo, é importante afirmar que a migração desse grupo étnico para o Brasil na segunda metade do século XX, é marcada por contextos históricos e sociais distintos e específicos na Bolívia, a partir, sobretudo, após a construção da Ferrovia Santa Cruz de La Sierra - Corumbá, entre os anos de 1939 a 1954. Segundo Chiavenato (1980), em A guerra do Chaco (leia-se petróleo) a construção dessa ferrovia tornou-se possível a partir de acordos entre os dois países, pois:

O Brasil, em 25 de fevereiro de 1928, assinou um tratado com a Bolívia para a construção de uma ferrovia de Corumbá a Santa Cruz de la Sierra – ela seria paga pelo saldo credor que os bolivianos ainda tinham decorrentes do Tratado de Petrópolis (que cedeu o acre ao Brasil), de cerca de um milhao de libras esterlinas. A construção da ferrovia pelos brasileiros – que se efetivaria em 1954 – fez frente aos projetos argentinos e também abriu ao mercado do Brasil o petróleo dos Andes (CHIAVENATO, 1980, p. 208).

Pode-se afirmar, sem a pretensa de cometer nenhum erro de natureza histórica, que os Camba-Chiquitano é o resultado de quase cinco séculos de transformações culturais e étnicas presentes pelo contato e colonização espanhola na atual Bolívia.

Assim, o passado dos atuais Kamba no Brasil, é o resultado interétnico e cultural dos Chiquitano da Bolívia. Contudo, é preciso ressaltar que os índios desse presente, não são, todavia, os mesmos que viveram em território boliviano. A permanência desse grupo étnico em espaço de fronteira, alias, é marcada, como escrito em linhas anteriores, pelo estigma dado pela população regional, que os vêem como “índios sem aldeia”, “imigrantes”, “estrangeiros”, ”bugres” ou “bolivianos”. A presença desses indígenas na periferia de Corumbá foi, no passado, motivo de não reconhecimento pelo extinto Serviço de Proteção ao Índio (SPI) como etnia indígena, por terem traços fenótipos marcadamente boliviano e por não estarem aldeados.

A problemática da conjuntura pretérita e atual dos Kamba é motivo de atenção da pesquisa de populações indígenas em fronteiras. A vinda desse grupo para o Brasil, na segunda metade do século XX, caracterizou impactos culturais e sociais por inserirem-se num espaço heterogêneo; o que representou na reelaboração, re(surgimento) e re(significações) de práticas culturais e identitárias. Conforme explica José da Silva (2009), acerca da formação desse grupo indígena na Bolívia:

os Kamba possuem uma forte ligação com os Chiquitano na Bolívia. O termo Chiquitano ou Chiquito, criado provavelmente entre os séculos XVII e XVIII pelos colonizadores europeus, é a designação genérica atribuída a um conjunto de etnias diferentes que habitavam uma vasta região compreendida ao norte pelo paralelo 15, ao sul pelo Chaco, a leste pelo rio Paraguai e a oeste pelo rio Grande. Foi a partir do final do ano de 1691, no atual Oriente boliviano, que os padres da Companhia de Jesus fundaram várias missões em Chiquitos, na então província de Santa Cruz de La Sierra. As missões de Chiquitos reuniam distintas etnias, muitas sem afinidades culturais e de filiações lingüísticas diversas, deflagrando um processo de reorganização sociocultural, cujos elementos são constitutivos da identidade étnica pretérita e atual do grupo (JOSÉ DA SILVA, 2009, p.24).

A própria identificação de alguns membros do grupo às suas origens, segundo José da Silva (2009) é verificado quanto à “negativa” (no sentido de esconder para o Outro) da sua identidade étnica quando afirmam serem brasileiros, ou apenas bolivianos. Esse jogo de identidade é algo constante não apenas em grupos indígenas com caracteres históricos marcados por estigmas e preconceitos, mas de todo e qualquer grupo humano: as identidades são assumidas, construídas, ou seja, são representados em contextos, interesses coletivos ou individuais específicos; identidades são construídas culturalmente.

O objetivo desse artigo não é de elucidar e de criar uma identidade definitiva aos Camba-Chiquitano: “são indígenas bolivianos”, afinal. O interesse geral é mostrá-los enquanto grupo étnico e cultural; num contexto histórico de migração de múltiplos fatores; na construção e representação de identidades. A realização de trabalhos de campo (a presença da etnografia) e das entrevistas que serão realizadas durante esses trabalhos de campo, em Corumbá, possibilitará a produção de material escrito e gravado (fontes orais), analisado, interpretado e transcrito.

A partir das narrativas indígenas é possível (possibilidades) perceber os usos e transformações das tradições culturais que são passadas de gerações em gerações; perceber, assim, dinâmicas sociais que, talvez, com outro recurso metodológico e documental passariam despercebidas, uma vez que com a aplicação da história oral (entrevistas) é visível a carga de subjetividade nos sujeitos. A perspectiva maior, todavia, com essa abordagem, é fazer dos sujeitos pesquisados, autores e atores de suas próprias narrativas. É possibilitar que esses grupos indígenas contem suas histórias do seu modo. A utilização de fontes orais no estudo de populações indígenas, em especial os Kamba, demanda da compreensão de como esse grupo se relaciona com o Outro (nesse caso os munícipes de Corumbá) e de que maneira esse Outro os representa enquanto grupo étnico. A questão da identidade já discutida, sempre será, espera-se, fruto de futuras pesquisas no campo histórico e antropológico, uma vez que os usos da história oral para compreender os modos vivendi de vários grupos humanos e suas especificidades culturais não possuem fronteiras.

Nas palavras de José da Silva quanto à representatividade dos Kamba:

È possível pensar que a formação de representações sobre si mesmos, a partir dos atributos dirigidos aos Kamba, mostra que estes indígenas reconheceram sua própria alteridade e diferença, agregando valores positivos a classificações exteriores negativas que recaíram sobre o grupo (JOSE DA SILVA, 2009, p. 178).

Para Ruth (2009),

Porém, “ser” Camba não se restringe a “ser indígena”, à medida que em interação com outros atores sociais em Corumbá, também podem se identificar como bolivianos e em outros casos como brasileiros [...]. Por outro lado, na Bolívia, o termo Camba pode ser atribuído tanto ao blanco, cruceño, no âmbito urbano da cidade de Santa Cruz de la Sierra, quanto ao campesino e/ou indígena do interior do oriente boliviano à fronteira brasileira [...] (SILVA, 2009, p. 13).

Desse modo a prática identitário dos Kamba não obedece a padrões e regras definidas, mas segue contextos e relações sociais entre grupos étnicos diferentes e interações sociais nos espaço-nos quais os Kamba fazem parte. Do mesmo modo que a identificação étnica social pode ser atribuída por alguém em determinado contexto ou situação.

Compreender como grupos e indivíduos em regiões de fronteira manipulam identidades de acordo com interesses comuns ou coletivos em espaços compartilhados com outros grupos étnicos, sociais e culturais. E entender, a partir de um olhar etnográfico como que sujeitos indígenas e não indígenas em regiões de fronteira representam a si mesmo diante do Outro, e como o Outro os representam. Assim, ambos criam representações, assumem identidades (as representam), conservam suas práticas culturais e dão novos caracteres e sentidos para a cultura que assumem para si e para o grupo.

Deste modo, este artigo, vem contribuir para o entendimento dos processos de construções de etnicidades em regiões de fronteira entre os Camba-Chiquitano; seu processo migratório e os fluxos e contrafluxos em regiões de fronteiras transnacionais e etnicoculturais. De acordo com os dados levantados por SILVA (2009), vivem cerca de 40 famílias de origem Camba no Reduto de São Francisco, no qual apenas o sr. Nazário é o único fundador vivo dos primeiros que chegaram em Corumbá. Segundo a antropóloga, “no mês de junho de 2008, apontou a existência de 393 pessoas, distribuídas em 96 famílias nucleares (grupos domésticos) contabilizando, inclusive, as que já se mudaram do local (SILVA, 2009, p. 79)”.

Por fim, os Kamba em Corumbá possuem o anseio de serem reconhecidos como grupo étnico indígena pelo estado brasileiro e pela população regional que vive em volta do “Reduto São Francisco de Assis”, no Bairro “Cristo Redentor”, onde Kambas e munícipes compartilham do mesmo espaço, de algumas tradições religiosas católicas e, algumas vezes, da mesma identidade nacional, ou seja, de brasileiros. Assim, os Kamba do presente, do mesmo modo como os seus antepassados há mais de cinco décadas, reivindicam o direito à diferença. Porém, quanto ao processo de migração, como nos lembra José da Silva:

A migração implica sempre em mudanças socioculturais, tanto na origem quanto no destino. A recriação de práticas culturais em um contexto de contato interétnico coloca, portanto, a questão da re-significação de tais práticas, o que remete a um outro problema, o das permanências e das mudanças no processo de reprodução cultural (JOSÉ DA SILVA, 2009, p.25).

Desse modo, podemos refletir que as migrações internas e externas, envolvem vários fatores, como questão econômica, tendo em vista que as pessoas deixam seus lares e sua terra natal para buscarem novas oportunidades de vida e melhorar suas condições financeiras. Assim, ao estabelecer em outra região, trazem consigo suas práticas culturais, uma vez que ganham novos sentidos a partir do contato com outras culturas adaptando-as ao seu modo, atribuindo novos sentidos e significados.

Portanto, a utilização e adaptação da língua oficial no Brasil é uma das características de grupos étnicos – nesse caso os Kamba – que aspiram fazer parte da população local e que buscam o reconhecimento de sua identidade: independentes do espaço em que estarão e do contexto histórico que os cercam, nunca sua identidade e práticas culturais de origem deixarão de existir em sobreposição a outras. Suas práticas culturais, tradições e histórias, sejam coletivas ou individuais, são recriadas e ganham re(significados) distintos em situações específicas.
Referências Bibliográficas
CHIAVENATO, J.J: A Guerra do Chaco (leia-se petróleo). 3. Ed. São Paulo: Brasiliense, 1980, p. 208).

JOSÉ DA SILVA, Giovani: A presença Camba-Chiquitano na fronteira Brasil-Bolívia (1938-1987): identidades, migrações e práticas culturais. Goiás, Goiânia, UFG, 2009, p. 25-178-190-191.

PENTEADO, Yara Maria Brum: A condição urbana: estudo de dois casos de inserção do índio na vida citadina. Brasília, Unb, 1980. Dissertação (Mestrado em Antropologia)

SILVA, Ruth Henrique da: Brasileiros, bolivianos ou indígenas? construções identitárias dos Camba no Brasil. Rio de Janeiro, Niterói, UFF, 2009, p. 13-14-16. Tese (Doutorado em Antropologia)



SCHAWARZ, Lilia K Moritz; GOMES, Nilmo Lino: Antropologia e História: debate em região de fronteira. Belo Horizonte: Autêntica, 2000, p. 13-34.

VILLAR, Diego; Combês, Isabelle: Las tierras bajas de Bolívia: miradas históricas y antropológicas. /Colección Ciências Sociales. Santa Cruz de la Sierra, El País, 2012.
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