Miriam Waidenfeld Chaves – Universidade Federal do Rio de Janeiro



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A EDUCAÇÃO INTEGRAL E O SISTEMA PLATOON: A EXPERIMENTAÇÃO DE UMA NOVA PROPOSTA PEDAGÓGICA NO ANTIGO DISTRITO FEDERAL NOS ANOS 30

Miriam Waidenfeld Chaves – Universidade Federal do Rio de Janeiro


A história dos processos educativos nos últimos anos tem despertado uma imensa curiosidade nos pesquisadores da área de história da educação, uma vez que possibilita um outro olhar sobre as reformas educacionais de âmbito estadual dos anos 20 e 30 que, por meio de seus dispositivos normativos, procuraram modernizar o ensino da nação. Além disso, esse tipo de pesquisa, ao trazer à tona as propostas pedagógicas das referidas reformas, estará privilegiando um estudo sobre determinadas realidades escolares específicas, sua nova estrutura administrativa-pedagógica, seus procedimentos didáticos e, ainda, seus respectivos modos de ensinar e aprender.

Sob esse ponto de vista, este texto, fruto de minha tese de doutorado1, objetiva mostrar como a educação integral e o Sistema Platoon, dois itens bastante importantes da gestão de Anísio Teixeira no Departamento de Educação do antigo Distrito Federal na primeira metade dos anos 30, são implementados e como essa nova perspectiva administrativa amplia o raio de ação da própria escola, possibilitando a fabricação de um novo modelo escolar na capital do país.

Nesse sentido, a Escola Argentina, uma das cinco escolas experimentais2 da reforma anisiana, será o foco privilegiado desta análise, posto que se está partindo do princípio de que essa instituição se transforma em uma escola modelo da gestão de Anísio Teixeira: adota o Sistema Platoon e se torna experimental em 1932 e, além disso, em 1935, ainda se transfere de um prédio neocolonial na rua 24 de Maio, no Engenho Novo, para um outro, de linhas modernas e arrojadas, na av. 28 de Setembro, em Vila Isabel, que, justamente, se adapta às novas exigências implícitas nas inovações acima citadas, o que possibilita a implantação da própria educação integral prevista no cerne da reforma anisiana para o antigo Distrito Federal nos anos 30.

A fonte privilegiada desta análise será a revista pedagógica3 publicada pela Escola Argentina, que, através de seus artigos, deixa transparecer não apenas a maneira como essas inovações são implementadas pela escola, mas, também, o modo como seus agentes – alunos, professores, diretores e pais de alunos – reagem perante elas.

Feita essas considerações, cabe agora explicitar o modo como a Escola Argentina se estruturou a partir da implantação, tanto da educação integral como do Sistema Platoon; o que ainda implica considerar que tenha se tornado experimental.

Pode-se, então, afirmar que a maior especificidade da Escola Argentina durante a administração de Anísio Teixeira é o fato de ter adotado o Sistema Platoon e ter se tornado experimental, em 1932. Nesse caso, é a estrutura administrativa advinda desse sistema que garante a experimentação da própria educação integral implementada pela escola; o que permite que se conclua que as questões pedagógicas e administrativas devem ser compreendidas como duas faces de uma mesma moeda.

Mas, afinal o que é o Sistema Platoon e por que é através dele que a escola torna-se experimental? Onde Anísio foi buscar inspiração para essas propostas?

A resposta é óbvia: no sistema de ensino americano que o educador conhece e passa a admirar em função de suas viagens aos Estados Unidos na década de 20. E se ela se torna experimental no sentido de se transformar em um laboratório, como a Escola de Dewey4, inaugurada em 1896, em Chicago, para testar as próprias idéias educacionais do filósofo americano, a sua estruturação a partir do Sistema Platoon deve-se às experiências implementadas por William Wirt, no estado de Indiana, nos idos de 1912, que, desejando um melhor aproveitamento do tempo e do espaço escolar, cria uma estrutura onde os alunos não teriam salas fixas, mas circulariam entre elas a partir de um horário preestabelecido, com base em seus próprios interesses5; ou seja, esse espírito pedagógico, ao adequar a filosofia deweyana a uma certa maneira de organizar a escola, procurava desenvolver uma educação integral que estimulasse tanto o estudo quanto o trabalho e a recreação (Bourne: 1970; Silveira: 1937).

Além desses propósitos, essa estrutura também permite que a escola se torne uma verdadeira comunidade onde se pratica o próprio princípio deweyano de que não existe democracia, mas atitudes democráticas (Teixeira: s/data, p.16). Atitudes que se desdobravam em quantas eram as atividades desenvolvidas pela escola através da sala de aula, das salas ambientes e das suas instituições escolares – jornal, clube literário, cooperativa, oficina agrícola etc. - mola propulsora da educação integral.

Entretanto, como esse sistema era organizado na Escola Argentina no Engenho Novo e, mais tarde, em Vila Isabel? Por que ele possibilita que se concretize a educação integral na escola?

Tomando o significado das palavras platoon ou rotation-of-crops como base, pode-se afirmar que essa resposta encontra-se em sua proposta original que pregava o rodízio das turmas - organizadas em pelotões - pelas salas especiais a fim de que os alunos pudessem ao longo do dia escolar vivenciar diversas experiências educacionais, que se distribuiriam entre brincadeiras e exercícios, estudo intelectual, trabalho em oficinas e atividades sociais e de expressão no auditório ou mesmo fora da escola.

Submetida a esse novo sistema administrativo, a escola confirma a sua vocação pedagógica e cria condições mais concretas para ampliar a sua função educacional, uma vez que no seu plano – horário/espaço – escolar diário a educação física, a música, os trabalhos manuais, a biblioteca e o auditório passam a ter um horário fixo na grade curricular da escola, assim como a matemática, a linguagem e os estudos sociais.

Conseqüentemente, seu espaço e tempo são reorganizados para que a capacidade de sua matrícula seja aumentada em 40%, assim como o tempo diário de suas aulas possa ser estendido em 20%. Apesar de sua estrutura espacial ideal só se efetivar em 1935, quando a escola transfere-se para a av. 28 de Setembro, o seu horário escolar, pelo contrário, imediatamente adota o rodízio das turmas.

Portanto, é na rua 24 de Maio, no jornal de mar/abr. de 1932, com o artigo O sstema Platoon em nossa escola, que essa mudança é anunciada à comunidade escolar argentina. Nele é dito que o ensino a partir desse sistema seria mais agradável, que as turmas se movimentariam entre as salas especiais, demonstrando que as atividades pedagógicas nelas desenvolvidas deveriam ser incorporadas ao cotidiano escolar e, por último, que a escola necessitaria fazer algumas alterações no que diz respeito à questão do horário e da arrumação das salas.

Construída na gestão de Fernando de Azevedo, a Escola Argentina, no Engenho Novo, com uma arquitetura neocolonial, já é, desde o seu início, uma escola que possuía boa ventilação, claridade e amplos espaços para estudar, brincar e trabalhar manualmente, sendo possível a sua adaptação ao Sistema Platoon.

Nesse caso, apenas é refeita à distribuição das salas: a) no primeiro andar, as duas oficinas que já existiam passam a ser denominadas de salas especiais de desenho e trabalhos manuais; b) no segundo andar, as quatro salas de aula são designadas para serem as salas especiais de música, estudos sociais, ciências e geografia; o antigo laboratório de ciências transforma-se em auditório e a biblioteca permanece na mesmo espaço anterior com o nome de sala de literatura. Ou seja, enquanto o primeiro pavimento continua se dividindo entre as salas de aula (4) e as oficinas, agora chamadas de salas especiais (2), o segundo passa a ter apenas salas especiais (6) e o terceiro continua com as salas de aula de antes (4).

Conseqüentemente, essa modificação - diminuição do número de salas de aula6 e aumento das salas especiais -, além de criar a estrutura das salas fixas e das que exigiam o rodízio das turmas, faz com que a escola radicalize o seu processo pedagógico, que já havia sido deslanchado durante a gestão de Fernando de Azevedo, não só começando a dar mais ênfase às atividades especiais como também criando condições mais concretas para que o ensino pudesse ser mais dinâmico, ativo e participativo.

No que diz respeito ao Sistema Platoon implementado na escola na av. 28 de Setembro, em 1935, pode-se dizer que ele aqui passa a ser concretizado de modo integral, já que essa nova concepção arquitetônica da escola, sob a responsabilidade do arquiteto Enéas Silva, expressa os ideais desse mesmo sistema administrativo-pedagógico: o de uma escola cuja arquitetura possibilitaria, com economia de custo, não só abrigar um número razoável de crianças, como, também, se caracterizasse por possuir amplos espaços, cuidadosamente planejados, a fim de que assim se pudesse garantir a implementação das exigências pedagógicas do próprio Sistema Platoon.

Portanto, como é a escola na av. 28 de Setembro, em Vila Isabel?

Trata-se de uma construção que, em vez das 16 salas do prédio anterior, passa a ter 25. Doze salas comuns de classe, 11 especiais – duas bibliotecas; duas para ciências sociais; mais duas para desenho e artes industriais, com oficinas; uma outra para música, recreação e jogos; mais duas para ciências, com dependência para um viveiro e outras duas para dois auditórios –, um amplo ginásio para apresentações, festas e aulas práticas e uma sala de professores7. Além dessas instalações, a escola também possuía um refeitório com anexo para copa, cozinha e serviços e um almoxerifado para pequenos consertos do mobiliário escolar (Oliveira, 1991, p.156). Em suma, a nova Escola Argentina se transforma em uma das maiores escolas da cidade, com uma capacidade para atender por volta de duas mil crianças.

Portanto, a nova Escola Argentina, ao ser pensada para abrigar o Sistema Platoon, estabelece um tipo de educação integral que, somado a esse sistema administrativo e ao projeto arquitetônico, se torna a própria síntese da proposta anisiana para as escolas do antigo Distrito Federal: um projeto cujos aspectos administrativos, pedagógicos e arquitetônicos mesclam-se de tal modo entre si que só podem ser compreendidos como parte de uma mesma proposta educacional.

Entretanto, resta agora entender a programação do rodízio das turmas que, justamente, possibilita o aumento tanto do tempo escolar diário quanto do número dos alunos matriculados.

Assim, o Sistema Platoon, como já foi dito, implicava a divisão da escola em pelotões de alunos que teriam aulas nas salas fundamentais (português e matemática) e nas especiais (ciências, geografia, história, desenho, auditório, biblioteca, jogos e música), pressupondo que o ensino devesse ser vivo e dinâmico e não mais previsível e estático, onde cada turma tinha apenas um professor e uma sala de aula.



Nessa nova ordem, os alunos, desde a primeira série, além de não terem mais uma sala fixa, teriam oito ou nove professoras e seriam instigados a participar de forma mais ativa da feitura da própria aula; ou seja, esse novo sistema não apenas introduz a idéia do ensino especializado, com professores especializados, mas também estabelece que essa nova forma organizativa não precisaria ser privilégio do ensino secundário, mas, pelo contrário, deveria iniciar-se na escola elementar para conjuntamente despertar o mais cedo possível a iniciativa dos alunos e, ainda, propiciar a construção de um programa mais enriquecido e mais bem desenvolvido (Teixeira: 1997, p. 182)8.

Mas, como, de fato, isso ocorria na Escola Argentina? Havia diferença na forma organizativa do Sistema Platoon da escola na rua 24 de Maio e na av. 28 de Setembro?

A resposta é sim, uma vez que a escola na av. 28 de Setembro é especificamente construída para implementar o Sistema Platoon.

Então, que diferença é essa?

É uma diferença que se define pelo modo como os pelotões são estruturados nos dois endereços: enquanto na escola idealizada por Fernando de Azevedo são organizados dois pelotões em cada um de seus dois turnos - manhã e tarde -, na escola construída para abrigar o Sistema Platoon é adotado um pelotão em cada um de seus três turnos; ou melhor, se na “velha” Escola Argentina os pelotões não alteram o horário escolar regular que se divide entre a manhã e a tarde, na “nova” escola inaugura-se um terceiro turno – um semi-internato – que, com certeza, é o prenúncio do que mais tarde ficou conhecido como sendo a escola de tempo integral.

Assim, vejamos como esse sistema é primeiramente colocado em prática na escola do Engenho Novo.

Com seus dois turnos, o horário da manhã era de 7:30 às 12:00 e o da tarde de 12:20 às 16:50, perfazendo uma média de quatro horas e meia de tempo escolar. Desse período, dez minutos eram para entrada e saída – de 7:30 às 7:40 e 11:50 às 12:00, pela manhã, e de 12:20 às 13:00 e16:40 às 16:50, pela tarde -, vinte para o recreio, seguido de mais dez minutos para higiene dentária – de 9:40 às 10:10 no primeiro turno e de 14:30 às 15:00 no segundo - e três horas e quarenta minutos para aulas, que se estruturavam da seguinte maneira: enquanto um pelotão de cada turno deveria estar nas salas fundamentais até a hora do recreio aprendendo matemática e português, o outro estaria nas salas especiais, ocorrendo o inverso após o recreio; isso fazia com que a entrada e a saída das salas especiais se dessem com organização, silêncio, agilidade e rapidez.

E ainda, se nesse horário os alunos estariam diariamente nas salas fundamentais, haveria alternância entre os dias pares – segundas, quartas e sextas – e impares – terças. e sábados9 - para que pudessem cumprir as outras atividades de estudos sociais, geografia, literatura e biblioteca, música, auditório, ciências e educação física, uma vez que o tempo escolar diário não era longo o suficiente para que houvesse todas as matérias diariamente. (jornal de mar/abril de 1932)

De outro lado, em Vila Isabel, a implementação do Sistema Platoon faz com que a escola não só experimente um horário de sete horas e meia, como também possibilita que os seus três pelotões se encontrem ao longo do dia escolar, implicando ainda a modificação dos dois já existentes – manhã e tarde –, que passam a ter mais 60 minutos de tempo escolar diário; ou seja, de quatro horas e meia de permanência na escola as crianças passam para cinco horas e meia.

Mas, como os pelotões se organizavam nesse novo endereço?

Enquanto o primeiro pelotão entrava às 7:30 e saía às 13:00, o segundo começava o dia escolar às 11:00 e terminava às 16:30 e o terceiro, em regime de semi-internato, tinha um horário que ia de 7:30 às 16:30, sendo que de 11:00 às 12:30 algumas crianças iriam para casa almoçar, voltando depois para a escola10.

Desse modo, esse horário intrincado e sofisticado tinha o seguinte arranjo: a) o primeiro pelotão permanecia nas salas especiais de 7:30 até às 9:45, quando tinha início o seu recreio que ia até às 10:15, quando, a partir daí, se dirigiria para as salas fundamentais, lá permanecendo até o fim de seu dia escolar, às 13:00 (ou 12:30). b) o terceiro pelotão teria aulas nas salas fundamentais de 7:30 às 9:45 e nas salas especiais de 9:45 às 11:00, quando nesse horário iria para o almoço, devendo recomeçar as aulas às 12:30, quando se dirigiria novamente para as salas fundamentais, mas apenas para estudo. De 13:15 às 13:50 estaria outra vez nas salas especiais, quando a partir do término dessa aula até 14:20 teria um recreio, para, posteriormente, ir para outras salas especiais e lá permanecer até 16:30 (ou 16:05). c) o segundo pelotão entraria na escola às 11:00 (ou 11:30) e ficaria nas salas especiais até às 13:15, quando teria início o recreio. Às 13:45 teria aulas nas salas fundamentais até o horário de saída às 16:30.

Enfim, qual a proposta pedagógica que se encontra subjacente a essa idéia dos pelotões? Qual o significado de toda essa grade curricular?

A resposta envolve pelo menos um aspecto bastante importante. Refere-se ao aumento da produtividade da escola – alargamento do tempo escolar diário, incremento do número das matérias e aumento do espaço escolar -, que implicava não só a busca de uma melhoria da qualidade do ensino como também uma tentativa de resolver o problema da falta de vagas nas escolas da cidade; ou seja, percebe-se que naquele momento a Escola Argentina estava sendo palco de fermentação de uma nova escola, cuja proposta tanto administrativa quanto pedagógica se definia a partir de dois níveis: a) qualitativo: procurava-se melhorar a qualidade do ensino por meio do incremento da grade curricular – acrescentando matérias que antes não tinham um horário fixo - e do próprio tempo escolar diário – aumentando o horário das aulas nas salas fundamentais e especiais e criando o regime de semi-internato – b) quantitativo: abria-se uma média de duas mil vagas na escola, uma vez que, como uma escola Platoon de 25 classes, suas dimensões físicas e o rodízio das turmas a tornavam uma escola de grande porte, construída justamente para resolver o problema da falta de vagas nas grandes cidades.

Contribuindo ainda mais para a concretização dessa proposta de educação ainda há que se chamar atenção para a criação dos novos espaços pedagógicos na escola. O auditório, por exemplo, ao preencher uma lacuna da escola, deveria ser visto como um espaço que a unificaria. E por ele ser compreendido como uma espécie de matéria, já que existe tanto uma professora específica para coordená-lo quanto um horário semanal para cada turma freqüentá-lo, tornar-se-ia o ponto de reunião de todas as matérias.

A partir do artigo Auditorium se entende que, se o aluno aprende geografia, história e aritmética com professores especiais e fundamentais, no Auditório aprende a se utilizar desse conhecimento na vida prática (social) (edição de nov/dez de 1932). É nele que se encontraria a força educacional de toda a escola, que o define como um lugar que teria que ser agradável e sem qualquer tipo de ação tirânica sobre a criança.

Um outro ponto que deve ser salientado é o fato de a biblioteca também fazer parte da grade escolar semanal das crianças. Nela as crianças são introduzidas ao mundo da literatura que, além de ensinar, acaba por lhes incutir alguns padrões de gosto que deveriam ser estimulados pela escola, uma vez que ela teria a função de aproximar as crianças da arte e de tudo aquilo que elevasse o espírito humano.



Nesse caso, tanto o auditório quanto a biblioteca passam a ter uma importância vital para o Sistema Platoon e para a educação integral proposta pela escola. A partir desses espaços e das próprias salas especiais nasce uma nova concepção de aula: permite que o ensino seja enriquecido e que também seja introduzida uma forma diferente de ensinar e aprender, posto que nessas salas deveria prevalecer um clima de camaradagem e cooperação entre os alunos e entre eles e os próprios professores, onde o que deveria contar era a liberdade de expressão e não a palavra sempre irredutível do professor.

Pressupõe-se, então, que essas salas especiais teriam a função tanto de ensinar - quando reforçam a matéria das outras aulas – quanto de educar – quando as atividades enfatizam determinados valores e gostos. Ou ainda, fixam-se com o objetivo de tornar a ação pedagógica da escola mais eficiente a fim de que seus alunos não só sejam mais bem qualificados intelectualmente como também sejam formados a partir de determinados princípios almejados pela comunidade escolar.

Além dos aspectos acima expostos, a educação integral tão almejada só se concretizaria através da implementação de algumas instituições escolares que a própria escola trata de promover dentro de seu círculo educacional.

Essas organizações (C. Literário, C. da Saúde, C. Pan-Americano, Caixa Escolar, Revista Escola Argentina, Cooperativa Agrícola etc...), com uma papel educativo e social bastante grande, sob a responsabilidade dos alunos, procurariam não só complementar o trabalho de sala de aula, mostrando a importância da poesia, da cidadania, da higiene, do cálculo e da alimentação saudável, mas, também, desenvolver os bons hábitos de saúde, de estética e de solidariedade.

Sob esse ponto de vista, a educação integral implementada pela escola

implicava a integração das próprias atividades intelectuais, sociais, culturais e lúdicas a fim de que as salas de aula e especiais se inter-relacionassem e o ensino, portanto, pudesse ser algo mais orgânico e abrangente. Assim, a educação integral de que se fala agora não significa apenas a ampliação da função da escola, mas também re-significação do próprio sentido da aprendizagem: as atividades de cunho social e cultural passam a ser compreendidas como pedagógicas e a “velha” sala de aula deixa de ser considerada o único lugar adequado para a aprendizagem; ou melhor, os demais espaços escolares passam a ser vistos como aptos para desenvolver as habilidades intelectuais e a sala de aula começa a ser entendida como um lugar igualmente mais lúdico e descontraído.



Nessa perspectiva, se a idéia das instituições escolares é antiga11, com as novas concepções de ensino, sua reutilização contribui para a própria re-significação do sentido da escola que, ao não mais defender a idéia de que o ensino se concretiza apenas no momento da aula – professor explicando, aluno escutando e executando alguns exercícios sob a direção e fiscalização desse mesmo professor –, transforma-se em um local “de trabalho”, de atividades ou, ainda, de esforço para se alcançar um fim determinado (Campos, 1936 p. 37). De um local onde se ministrava instrução, a escola passa a ser uma instituição integrada à própria vida.

Pode-se, então, afirmar que essas especificidades – o rodízio das turmas, as salas especiais e as instituições escolares – são a mola mestra tanto do Sistema Platoon quanto da educação integral implantada pela escola. Nascem sob o signo da modernidade e impõem à escola uma função não apenas didática e intelectual, mas também social e cultural, onde os alunos, com certeza, se desenvolveriam integralmente melhor.
Consideração final

Após toda essa explanação, conclui-se que no cerne das propostas pedagógicas de Anísio Teixeira encontrava-se uma preocupação: re-significar o sentido da escola a partir do aumento de sua própria qualidade; ou seja, a concretização tanto do Sistema Platoon quanto da educação integral significava a estruturação de uma nova escola que se definiria a partir do incremento de suas atividades, da percepção de que todo o espaço escolar pode se tornar pedagógico, da aceitação de que o aluno para aprender não deveria ficar preso à sua carteira escolar e da compreensão de que a sala de aula poderia ser um espaço de trabalho e de brincadeiras. Enfim, é fato que, com essa experiência, fixa-se uma nova tradição pedagógica na história da educação da capital do país que, apesar de alguns mal-entendidos, ainda continua ressonando forte nos dias de hoje.


Referências bibliográficas

BOURNE, Randolph. (1970). The Gary schools. Massachusetts: The Mit Press.


CAMPOS, Maria dos R. (1936). Instituições escolares. Rio de Janeiro: Gaspar Silva e Cia.
OLIVEIRA, Beatriz S. de. (1991). A modernidade oficial: a arquitetura das escolas públicas do D. F. (1928-1940). São Paulo: USP-Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. (Dissertação de Mestrado.)
SILVEIRA, Juracy da. (1937). O Sistema Platoon e a experiência da Escola México. 1935-1937. Separata da revista Infância e Juventude.
TEIXEIRA, Anísio. (s/data). Em marcha para a democracia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara.
_____________. (1997). Educação para a democracia. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ.


1A escola anisiana dos anos 30: fragmentos de uma experiência – A trajetória pedagógica da Escola Argentina no antigo Distrito Federal (1931-1935). Rio de Janeiro, PUC - Dept. de Educação, 2001.

2As outras escolas que se tornaram experimentais são: Bárbara Otoni, Manuel Cícero, México e Estados Unidos.

3A Revista Escola Argentina foi editada irregularmente de 11/9 a 12/35, perfazendo um total de 27 exemplares. Entretanto este trabalho foi elaborado com base nas 15 publicações encontradas na escola.

4Mais tarde denominada de Laboratory School of the University of Chicago.

5Esse rodízio entre as salas fica conhecido como Platoon System ou rotation-of-crops (Bourne: 1970).

6A sua diminuição não implica uma diminuição de alunos na escola, mas seu aumento, já que passa a ter dois grupos de alunos por turno se revezando entre as salas especiais, como se verá a seguir.

7Além desse tipo de prédio – Sistema Platoon de 25 classes -, o Departamento de Educação ainda concebe mais quatro tipos de edificações escolares: a) tipo mínimo, com duas salas de aula e uma de oficina; b) o chamado “nuclear”, com 12 salas comuns que se completam com a construção de um parque escolar; c) um com 12 salas comuns e quatro salas especiais para auditório, música, ciências e ciências sociais, respectivamente; d) o Sistema Platoon: 12 salas, seis para salas comuns e seis para salas especiais (Teixeira: 1997, p.245).

8O rodízo, quando é adotado em outras escolas, inicia-se apenas na terceira série, o que faz com que a Escola Argentina se diferencie mais ainda das outras escolas.

9 Tudo indica que não havia aula às quintas-feiras.

10 Nos arquivos do CPDOC, na Série Temática – AT 36.00.00 – há controvérsias a respeito dos horários de entrada e saída dos pelotões em relação a trinta minutos.

11A Caixa Escolar, por exemplo é instituída no Distrito Federal em 1893, junto com a primeira lei de ensino do Distrito (Campos:1936).




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