Missão Salesiana de Mato Grosso animaçÃo missionária inspetorial



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Missão Salesiana de Mato Grosso

ANIMAÇÃO MISSIONÁRIA INSPETORIAL

CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO INDÍGENA (CDI)

Av. Tamandaré, 6000 - Jd. Seminário

Caixa Postal 100 - UCDB

79.117-900 Campo Grande MS

Fone (067) 312-3600 / 3731 Fax (067) 312-3301

E-mail: lachnitt@ucdb.br


Coordenação: Delegado Inspetorial de Animação Missionária:

Pe. Georg Lachnitt SDB

Digitação e Diagramação: Georg Lachnitt

Impressão: Mariza Etelvina Rosa Irala

Centro de Documentação Indígena

UCDB - Campo Grande MS


Capa:

BAKARU, palavra Bororo, significa: o que se conta, notícia

ROWATSU'U, palavra Xavante, significa: o que se conta amplamente, notícia

Apresentação

Este número de Notícias Missionárias publica diversas novidades importantes. A beatificação da Madre Laura, juntamente com membros da Família Salesiana, no dia 25 de abril, mostra o vigor do ardor missionária de uma jovem professora e quanto a ela seguem hoje.

Os encontros de formação são momentos importantes para a atividade missionária e por isso devem ser divulgados. O Seminário de Liturgia entre os indígenas é outro elemento de elevado valor para a prática da evangelização e suas conseqüências.

Muito mais tem que ser feito para afirmar o inestimável valor dos povos indígenas presentes no Brasil e no Continente, para que sejam reconhecidos e valorizados, também como proposta para os excessos da vida moderna da sociedade atual.

A reflexão é um dos aspectos que deve acompanhar permanentemente a atividade missionária para fundamentá-la e declará-la justificável. A evangelização tem muito a receber também das pesquisas das ciências humanas, pois ela também é atividade humana, desenvolvida por razões de fé. Ciência e fé devem andar juntos.

Renovo o apelo a quantos possam contribuir com notícias e reflexões para a Notícias Missionárias, para que cumpra com a finalidade para que foi instituída, isto é, partilha de notícias missionárias.


Pe. Georg Lachnitt SDB

1. Beata Madre Laura

Irmãs Lauritas de São Pedro

No dia 25 de abril próximo, será declara Beata Laura Montoya Upegui, religiosa colombiana. Nasceu aos 16 de maio de 1874, na cidade de Jericó, Antioquia, Colômbia, filha de Juan da Cruz Montoya e de Dolores Upegui. Criada em um abiente cristão, mas em meio à pobreza e às provações.

Teve o título de professora e exerceu sua profissão no meio da juventude e das crianças de algumas cidades do Estado de Antioquia e finalmente de Medellin.

Viveu a perseguição, a injustiça, a calúnia e o desprezo da sociedade. Soube perdoar a todos, amar e rezar por aqueles que lhe faziam mal.

Guiada por Deus, dedicou toda a sua vida à evangelização entre os povos indígenas, marginalizados e excluídos da sociedade, os mais necessitados de fé e de amor.

Morreu em Medellin, aos 21 de outubro de 1949. Sua fama de santidade foi reconhecida por todos. Hoje a Igreja a apresenta como modelo, conferindo-lhe o título de BEATA LAURA MONTOYA.

Quando jovem professora, constatou a marginalização dos povos indígenas, onde ninguém lhes dedicava atenção e lhes oferecia uma educação escolar.

Com quatro companheiras solidárias resolveu sair para aldeias indígenas, para lhes dedicar atenção, oferecer educação escolar, e proporcionar-lhes catequese. Foi uma espanto para a sociedade e mesmo para a Igreja, vendo essas jovens se arriscar entre povos tão temidos e mal falados. A aproximação durou um ano, para merecer a confiança dos indígenas e assim iniciar sua missão. Vendo a Igreja naquele tempo tão corajosas missionárias, parecia mais prudente não autorizar tal empreendimento. Mas as jovens não desistiram. Vendo o empenho daquelas jovens missionárias leigas, as autoridades eclesiásticas julgaram necessário fazê-las religiosas. Mons. Crespo deu-lhes apoio e, conhecendo a espiritualidade das mesma, sugeriu o nome de Missionárias de Maria Imaculada de Santa Catarina de Sena.

A primeira aprovação de Roma veio aos 28 de junho de 1916.

Aos 24 de fevereiro de 1916 se instalaram, já antes da autorização canônica, na aldeia Rioverde, em plena Selva. A partir deste local começam organizar as itinerâncias pelas aldeias.

Lemos nas Constituições das Lauritas:



Nossa missão é anunciar e testemunhar a salvação oferecida pro Jesus, entre os indígena, destinatários preferenciais da nossa missão, entre os não-cristãos e marginalizados, contribuindo assim para o nascimento e a mturidade da Igreja, sinal escatológico da plenitude do Reino (Const. 55).

Desejamos ardentemente que Deus seja conhecido e amado por todos. Nossa compromisso missionário nso deve levar a procurar a maior glória de Deus e a salvação da humanidade. Nossa missão não deve conhecer limites, nem de lugar, nem de pessoas, nem de tempo (Const. 58).

A Congregação das Lauritas, como simplesmente é chamada de hoje, conta entre 900 a 1000 membros, presentes em 19 nações, com 180 presenças. No Brasil, elas estão presente em Arquidauana para os índios Terena, em Campo Grande para os índios urbanos e em São Pedro, mun. de Campinápolis MT para os índios Xavante.

Assim deu frutos, a deve dar muito mais ainda, a coragem empreendedora e evangélica da fundadora Beata Laura Montoya.
2. Encontro do CIMI-MS

Eliseu, secretário

Nos dias 20 e 30 de março reunira-se missionários e missionárias entre os povos indígenas de Mato Grosso do Sul. Esteve present também o secretário executivo nacional do CIMI, Eden Magalhães. Esse encontro com outros três planejados para o ano de 2004 tem caráter formativo para os membros do CIMI-MS. Desta vez o tema escolhido era: OS DIREITOS DO POVOS INDÍGENAS.

O advogado do CIMI-MS, Rogério, expos o que estabelece a Constituição Federal de 1988, nos art. 231 e 232 e fez valiosos comentários para sua melhor compreensão.

Para garantir sobretudo o direito sobre seu território, Rogério expôs o caminho processual para alcançar esse objetivo:

1. A identificação do território, em base a um laudo perificial de um antropólogo, ordenado pelo Governo Federal através da FUNAI.

2. A publicação do relatório, para o conhecimento público.

3. A contestação, aos cuidados do ministério da justiça, durante três meses, em que os prejudicados podem apresentar sua documentação para requerer a devida indenização.

4. A portaria declaratória, por parte da FUNAI, definindo o território de direito de um povo indígena.

5. A demarcação do território pelos topógrafos.

6. A homologação do território por ato declaratório do Presidente da República.

7. O registro do território em Cartório, por conta da FUNAI.

Esse procedimento processual, no entanto, está sofrendo no atual governo da interferência de pressões políticas em prejuízo dos direitos originários dos povos indígenas.

A formação dos missionários/as sobre esse tema tem por finalidade habilitá-los a informar as comunidades indígenas sobre seus direitos e o caminho para conseguí-los.

Num segundo momento, as equipes presentes apresentaram relatório sobre suas atividades e as problemáticas de suas respectivas comunidades. Eden comentou o relatório da última reunião da Diretoria do CIMI-Nacional. Entre os temas prioritários que hoje emergem a nível nacional e também regional, podem ser citados:

- a Cooperação Financeira;

- a Missionáriedade e Mística Missionária;

- a Política Indigenista e a Conjuntura.

Esses três temas postulam formação mais aprimorada de missionários e missionária.

Para o próximo Encontro do CIMI-MS, de 21-23 de junho, foi solicitada a reflexão sobre Mística Missionária.

A avaliação feita, em que todos se pronunciaram, mostrou a importância desse encontro e a necessidade de dar continuidade ao que foi planejado, também em vista da reconstrução e consolidação do CIMI-MS.

Um agradecimento especial ao Eden por sua presença valiosa e solidária.



3. Curso de Formação de Catequistas Terena

Pe. Georg Lachnitt SDB, assessor

Uma vez por ano, as Irmãs Lauritas da Dioceses de Jardim organizam um Curso de Formação de Catequistas Terena, realizado no Centro de Formação da Diocese de Jardim. Desta vez vieram 45 catequistas jovens das diversas aldeias das paróquias de Aquidauana e Miranda.

O tema de reflexão versou sobre a inculturação da catequese. Um subsídio para promover esta reflexão foi a "Mensagem do Santo Padre João Paulo II aos Indígenas da América", de 12 de outubro de 1992, em Santo Domingo. Os catequistas frisaram nesse discurso:

- a importância de suas culturas, seus valores e virtudes e a insistência do Papa para conservarem e transmitirem suas culturas;

- a humilhação sofrida através da história e o menosprezo de suas etnias; mas agora com maiores esperanças e a necessidade do perdão;

- o lugar próprio que lhes cabe na Igreja e o protagonismo de sua vida e evangelização;

- a presença das "sementes do Verbo", pela ação do Espírito Santo, mesmo antes da vinda dos primeiros missionários;

- a evangelização é um direito que, porém, não se opõe às suas culturas e religiões, antes as pressupõe, fortalece e lhes oferece o desenvolvimento para a plenitude de suas vidas;

- o papel dos missionários de defender os povos indígenas, de que a história apresenta exímios exemplos.

O significado da inculturação e de suas implicações foi um dos pontos de reflexão. O valor do Antigo Testamento bíblico, em confronto com a rica experiência religiosa de cada povo recordou e promoveu a reflexão sobre a própria identidade religiosa dos Terena. Esta, pelos anos do contato com o mundo mais amplo, ficou um tanto prejudicada, mas merece esforços para recordar e aprofundar.

Várias comunidades celebram o Dia do Senhor em sua própria língua e com seus próprios ministros. A ausência prolongada dos sacerdotes é um fato, embora alguns brilhem pela simpatia e o compromisso com os povos indígenas. Assim sendo, os catequistas são os próprios Terena que exercem sua missão com o dedicado apoio das Irmãs Lauritas e assim hoje trabalham com subsídos catequéticos próprios.



4. IIIº Seminário de Inculturação da Liturgia no Meio dos Povos Indígenas - Relatórios das experiências

DIA 05 DE MARÇO

No dia 05 de março às 14:00 iniciamos o 3º seminário nacional sobre inculturação da liturgia no meio dos povos indígenas com a presença de 33 participantes (ver lista dos participantes em anexo). Pe. Hernaldo, SAC, animou a celebração de abertura, rezando salmo 141 e cânticos.

Dando encaminhamento ao seminário, Pe. Marcelino acolheu os participantes e seguiu apresentando a proposta de cronograma do seminário e a distribuição de serviços tais como: coordenação, secretaria, liturgia e ambiente.

Pe. Marcelino propiciou um momento para a apresentação dos participantes num total de 36 presentes. Entre os participantes estavam os assessores deste seminário: Pe. Paulo Suess, Fr. José Ariovaldo da Silva –OFM, Pe. Georg Lachnitt - SDB e Pe. Gregório Lutz - CSSP e os bispos que acompanham a dimensão litúrgica e missionária pela CNBB, assim como: D. Franco Masserdotti (bispo da diocese de Balsas/MA), D. Manoel João Francisco (bispo da diocese de Chapecó/SC), D. Hélio Adelar Rubert, (bispo auxiliar de Vitória/ES) e D. Joviano de Lima Júnior, (bispo da diocese de São Carlos).

Em seguida houve um levantamento de quem iria relatar as experiências e organização do tempo de cada uma. Antes do relato, Irmã Rosirene do Nascimento fez uma breve reflexão dizendo que o relato das experiências deve nos ajudar abrir pistas para avançar nesse processo. E para isso precisa-se olhar por onde passa a vida e onde ela se manifesta nessas questões.

Contextualizou brevemente a história dos Kaingang, cujo contato com os primeiros missionários foi a partir de 1600 mais ou menos. Em 200 anos de contato (1840), os missionários, além da evangelização, se preocupavam e ajudavam muito na sobrevivência dos mesmos. O que caracteriza uma comunidade indígena, um povo é a ação e essa, normalmente gira em torno de efeitos ancestrais. Assim se uma determinada ação não se fizer poderão ocorrem grandes males para a pessoa e, por vezes, sobre a comunidade. Os batismos dos Kaingang se realizam: 1º na casa – quando a criança completa três dias. Neste dá-se o nome. É realizado pelos padrinhos (2) e por uma apresentadeira. Usa - se o sal, velas, três raminhos verdes e água. O 2º batismo (não são todos que fazem) é na água corrente – para livrar das doenças, sobretudo da garganta. O 3º é o batismo nas Águas do Monge São João Maria de Agostini. Esse Batismo é realizado, não somente porque os antigos faziam, mas porque, se não leva o filho na fonte, algum mal pode acontecer à criança, e essa terá dificuldade de integração na comunidade. E o 4º é realizado na Igreja, normalmente os padrinhos são da sociedade não índia, alguém influente.

Na sexta-feira (05) pela noite o grupo promoveu uma hora de trabalho para organizar a divisão dos relatos das experiências ficando distribuído da seguinte forma: Pe. Justino – 30’; Rosalino e Gilmar Terena – 30’; Pe. Nello – 30’; Pe. Georg – 30’ e Pe. Ochoa – 30’.

As reflexões passariam pela temática dos ritos de iniciação entre os povos indígenas e a parte dos ritos matrimoniais ficaria para um outro encontro.



DIA 06 DE MARÇO

No dia 06 de março (sábado) iniciamos com orações animados pelo oficio divino das Comunidades. Após a oração recebemos a visita de Omina Macuxi que fez um relato da luta de seu povo pela terra indígena Raposa Serra do Sol em RR.

Em seguida demos inicio as exposições e relatos das experiências. O primeiro relato foi feito por Pe. Justino, SDB, que nos indicou considerações sobre a cultura Tuyuka e o trabalho de inculturação que está sendo realizado desde o ano 2000.
Relato do Pe. Justino1

Antes de falar em celebração é necessário entender o que se passa nas comunidades do diversos povos. Por exemplo, levar em conta: Parentesco – Benzimentos – Nome.

A preparação para o Batismo, Crisma e Matrimônio é realizada com os casais. Estes são assuntos para serem tratados com adultos que já tem maturidade - a partir de 9 a 10 anos.

Alguns assuntos podem ser falados só com os homens ou só com as mulheres.

PARENTESCO: - a Kawererã = mesma etnia – família;

- a Kasaorã - diferentes etnia – nosso irmão ( não se pode casar)

- Peyarã – diferentes = primos podem casar

- Família = homem e mulher (útero materno – dessa união nasce o Filho. Tem uma linha de vivência religiosa.

BENZIMENTOS: Benze–se o útero materno, onde é o lugar que o filho está sendo formado e é bom que ele esteja num lugar bom. Quem benze é alguém da 1ª etnia, na ausência pode ser alguém da 2ª ou 3ª etnia. Quem procura para benzer deve ser a mulher ou algum parente dela.

O benzedor não pode se oferecer – pode ser interpretado como maldizer...

Quando a criança nasce – sai do mundo materno é um momento de (dores, parto), a parente chama o benzedor = benze o espaço e o torna bom. A vida nova precisa do espaço bom. Os males que estão presentes, a morte, vão respeitá-lo como irmão da natureza.

Elementos para benzer: Breu (queima) cigarro para espalhar a força.

O novo ser não é um estranho – é um ser importante, por isso ele tem um nome. Ele o recebe quando nasce. Quem o batiza é o benzedor.

O nome vem da etnia – por isso eles vão repetir sempre, por ex. Justino = Besû – dtppo = 1º filho homem. Tem um sentido = o 1º filho é o possuidor, tanto do mal como do bem.

Receber o nome – eherípor baserô = alma.

CONCEPÇÃO DE MUNDO: O mundo é divido em 4 partes: Força de cima = força da vida.

- Força de baixo. Nos dois lados, há duas portas abertas; o benzedor benze para fechar as portas contra o mal.

Banho: a água é boa, mas também há vida que prejudica, por isso o benzedor benze a água para não fazer nenhum mal a criança.

Alimento: Benze com o mesmo sentido o leite materno.

Perguntas do grupo: O benzedor é sempre homem? Normalmente é, mas se a mulher tem um marido ou pare que é o benzedor ela pode se tornar benzedeira.

O Batismo está ligado ao nome, em que sentido? – O nome (Vamê) tem o sentido de alma – ao nascer já recebe o nome indígena = nome sagrado do batismo. Não se fala o nome – só se diz: meu avô, meu tio...

Qual a relação com Deus – vida após a morte? - Os mortos não vão embora, eles ficam através do vento... se tornam vivos, estão aí.

Na pastoral, qual o maior desafio que você encontra, nesse aspecto da inculturação?

Há tensões entre: Eu com os índios – eu com a instituição. Os padres indígenas deveriam ser a parte.

A maioria de seu povo é batizado no católico? Sim. Como adotaram o nome cristão? O nome, como já falei é sagrado = sentido de vida – bem e mal. Quando se fica doente – o benzedor vai perguntar qual o nome: ex. esse nome é o mesmo que vem do – ttá - piro - pona (A cobra da origem). Pedra cobra filhos

O benzedor vai desde a origem, vai ver onde ele adquiriu essa doença - foi na cachoeira na (briga com a outra cobra).

Diante da variedade de culturas, como agir? O processo de inculturação é a morte da Igreja e o renascimento de outra cultura.

O Batismo em casa das crianças Terena. 2

O batismo em casa é um costume muito antigo entre os Terena. Até agora ninguém fala quando começou este ritual, só sabe-se que usa o batismo para as crianças não ficarem pagãs, pois se ela não for batizada, o saci pode brincar com ela e até levar para o mato, e quando fica doente fica impedida de receber a benção (a cura).

O batismo em casa se faz assim: Os pais da criança procuram os padrinhos para seu filho, reúnem-se na casa dos pais ou dos padrinhos para fazerem o batismo, vão até à frente do altar onde já está preparado uma vela acesa, um copo de água, um pouco de sal e três brotinhos de laranjeira. O batismo tem que se realizar na parte da manhã e nunca pela tarde.

O rito: A madrinha pega a criança em seus braços. Juntos pais e padrinhos fazem o sinal da cruz, rezam um Pai-Nosso e cinco Ave-Marias. O padrinho pega um brotinho molha na água e pergunta para a criança:......você quer ser batizada? A madrinha responde pela criança: eu quero! Então os padrinhos dizem: Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, fazendo com o broto de laranjeira um sinal da cruz na cabeça da criança, repetindo por três vezes, usando um broto de cada vez.

O padrinho coloca um pouquinho de sal na língua da criança. Os padrinhos acedem a vela e seguram na mão da criança e rezam um credo, um Pai-Nosso e cinco Ave-Marias.

Para finalizar o batismo a mãe pega a criança, junta as mãozinhas dela e faz pedir a benção para os padrinhos presentes. Os pais e padrinhos se cumprimentam com muito respeito como novos compadres.

O choro copioso de crianças de noite que foram batizadas deve ser motivo para procurar o benzedor. Que pode declarar ou não se o batismo foi válido ou se precisa ser refeito. Se o batismo não foi bem feito, a responsabilidade recai sobre os padrinhos por não terem rezado juntos.

O Povo Terena assumiu o catolicismo como religião própria. Por essa razão na Paróquia local se faz os ritos católicos para iniciação cristã. Esse mesmo ritual ainda é feito em algumas famílias Terena. Hoje esse ritual é complementado com a benção do óleo, que é feito pelo sacerdote católico quando vai para as aldeias. Necessariamente não precisa fazer um novo batismo na Igreja católica. O batismo em casa não é aceito por confissões evangélicas, que realizam novamente o batismo para substituir o batismo indígena.



Uma experiência missionária de diálogo inter-religioso e inculturação da liturgia a partir da Situação dos Povos Indígenas da região de Oiapoque-AP. 3

Os povos desta região, assim como grande parte dos índios no Brasil, já não praticam os ritos de iniciação originários.Não se pode falar do rito (celebração) sem contextualizá-lo dentro da conjuntura, história e cultura de um povo.

1. A parte inicial da exposição foi dedicada a apresentar a situação histórica e conjuntural dos povos da região em contato com a sociedade envolvente há séculos. Frisou-se a situação de desconhecimento dos direitos, do não assumir a própria identidade, do isolamento geográfico, fato que evitou os conflitos até então. Frisou-se também que além de duas línguas indígenas uma do tronco aruak e a outra do tronco karib, estes povos falam uma língua indígena geral que é o kheuol, um patoá de influência francesa falada pela grande maioria. Aliás, dois destes povos são povos mesclados que reconstruíram a sua cultura e esta é a língua deles.

2. Quanto à cultura explicou-se que tem um aspecto que perpassa o econômico, o social, o religioso que é o aspecto da retribuição. A dimensão sócio-econômico, manifesta-se no trabalho em mutirão, principalmente no mutirão do plantio que o pessoal chama de maiuhi ou convidado. O trabalho é feito por grupos de família que retribuem, ao longo do tempo, a ajuda que recebem dos outros. Também no âmbito sócio-religioso temos a cura pelo pajé e a religião herança do período colonial. Na festa do turé, traço cultural característico de todos eles, provavelmente de origem palikur, todas as pessoas curadas pelo pajé preparam a dança e oferecem bebidas (caxiri) para agradecer os espíritos que curaram as doenças. Também na festa do padroeiro os festeiros desempenham a mesma função e pela mesma razão, mas em agradecimento “ao santo” pela graça recebida. Neste catolicismo herança colonial além da festa do padroeiro/a, das festas de outros santos e de costumes transmitidos ao longo dos séculos, tem o batismo das crianças, pedido geral e constante de todos os índios católicos.

3. Na terceira parte abordou-se o diálogo. Este começou pela realidade em vista de sua transformação. Partimos do respeito e reconhecimento mútuos de nossas culturas e conscientes dos limites e em seguida, tendo como base comum os valores reconhecidos por ambos como a vida, dignidade, Deus Pai e Mãe. A partir da realidade sempre presente na reflexão e celebrações começamos a lutar pela demarcação da terra, saúde, educação própria bilíngüe e pluricultural, economia a serviço de todos, organização política.

O diálogo abrangeu o religioso como a pajelança e a religião católica tradicional e os seus agentes como o pajé e o cantor de ladainhas. Ao mesmo tempo em que nos despojávamos de esquemas teológicos, morais, litúrgicos e canônicos também abrimos o diálogo quanto ao feitiço, à motivação para o batismo das crianças; falamos de um Deus de bondade que gosta de crianças, que gosta de cada povo com sua cultura, da necessidade do trabalho de cada um para realizar o bem comum. O Evangelho encontrou um terreno propício nas comunidades indígenas pelo fato que a vida gira em torno da coletividade. O que regula o relacionamento é a retribuição. A boa nova do Evangelho acrescenta de forma mais visível a gratuidade. Deus nos amou primeiro e sem nós merecer. Partir para esta prática exige uma passagem, um pulo de qualidade, uma experiência de fé. A palavra de Deus encontrou terra fértil nestes povos. Eles se tornaram evangelizadores dos próprios missionários na experiência evangélica da gratuidade, na prática do perdão. O que é mais difícil é o assumir da cruz como vitória sobre a morte e portal para vida nova.

4. O diálogo não foi restrito a uma dimensão da vida, mas sempre a partir do conjunto como é característico das comunidades indígenas. Partimos da reflexão sobre o fazer, da análise e constatação dos frutos das iniciativas tomadas, para saber se era bom para a comunidade. Nós incentivamos e introduzimos o culto como momento novo de celebração e reflexão que tinha como balizas a realidade, a Bíblia, a cultura.

5. Como metodologia incentivamos sair da aldeia para conhecer diretamente outras realidades seja no âmbito da conjuntura seja no âmbito eclesial. Vários representantes participaram de inúmeras assembléias indígenas, encontros, visitaram outras aldeias e organizações. Participaram também das assembléias paroquiais, diocesanas, dos intereclesiais das CEBs e COMLA V. Foi importante a participação mas principalmente o envolvimento das comunidades na escolha e preparação dos representantes e na partilha no retorno destes.

6. O ponto norteador do trabalho da inculturação que se reflete sobre a inculturação litúrgica é o protagonismo indígena. Protagonismo indígena quer dizer que o povo indígena é quem decide, dirige e gerencia as mudanças. Para este fim na região as assembléias e encontros em todos os níveis foram o pressuposto de todas as iniciativas em qualquer campo: educação, saúde, religião, economia, política, organização... Dentro do protagonismo onde fica a tarefa do missionário? Além do pressuposto de convivência, apreciação, solidariedade achamos importante fornecer aos indígenas instrumental que favorece o seu protagonismo: o conhecimento e domínio dos mecanismos de nossa sociedade, capacidade de análise crítica, inclusive análise de sua própria sociedade tornando-se mais conscientes dos valores inerente nela; habilitação nos vários campos que precisam dominar para não depender de pessoas de fora. Daí a necessidade e a multiplicação de cursos visando os dois objetivos

7. Ao mesmo tempo o processo de inculturação litúrgica passa pelo protagonismo indígena a partir de sua cultura (como ela é hoje) e da nossa. Também da capacidade de distinguir os aspectos essenciais dos acidentais, os valores do que atrapalha o projeto do povo e de Deus. Confessamos, no entanto, que estes povos indígenas já estão num caminho bem avançado de autonomia em outros campos, no campo religioso-litúrgico a caminhada é mais devagar. É mais difícil neste campo ter o ministério do sacerdócio, por exemplo. Também os ministérios do batismo e casamento deveriam passar pelo diaconato o que não nos estimula, devido aos limites e contradições que a introdução na hierarquia eclesiástica traz.

8. Hoje o batismo é sim uma celebração de alegria e não de medo. Incentivamos o batismo em casa, que não todos praticam. A celebração do batismo é anual e é o momento do agradecimento pela vida da criança e a entrada oficial na comunidade, tanto indígena como povo de Deus. É um momento também de compromisso coletivo do povo para a educação das crianças em vista do bem comum. A escolha de padrinhos fora da vida da comunidade é uma exceção. No ritual podemos destacar três momentos além do momento do batismo na água em nome da Trindade e da tradição do povo: 1) a apresentação das crianças por parte do pai e da mãe 2) o compromisso de ensinar profissão, costumes, habilidades por parte de pessoas da comunidade na liturgia catecumenal 3) a invocação comunitária do Espírito Santo com a unção depois do batismo.

9. As celebrações da Eucaristia e Crisma marcam nas comunidades a entrada dos jovens na vida adulta (Eucaristia) e seu comprometimento na comunidade através dos ministérios (Crisma). (Os comentários sobre os ritos, não foram feitos por completo na exposição.)

10. O matrimônio é o momento de proclamar publicamente o compromisso já assumido pelos casais e suas famílias. A comunidade afirma este compromisso e promete a ajudar a nova família. Assim também nos outros sacramentos, a comunidade inteira participa, pois assume compromisso público com as pessoas recebendo o sacramento.

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