Mistérios de Amor Ridge: the Avenger Leanne Banks



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CAPÍTULO TRÊS
— Hoje à noite vou tomar três margaritasmurmurou Dara, enquanto Ridge abria a porta da limusine para ela descer.

Um grupo de colaboradores de Montgomery a reconheceu e começou a saudá-la, efusivo. Com os patins na mão, Dara acenou, sorridente, corrigindo, entre os dentes:

— Quatro margaritas.

Acompanhando-a em direção ao palanque, Ridge sussurrou:

— Não quero que vá a qualquer bar.

Dara sorriu, alegre.

— Mandão...

Desde a noite em que repartira a pizza com Ridge, a distância entre os dois tornou-se a mesma da Terra à Lua. Gostaria de não pensar nele, mas, irritada, percebeu que isso se tornava mais difícil a cada momento. Estava cansada dos modos ultraprofissionais de Ridge.

— É meu trabalho mantê-la em segurança, e ir a um bar...

— ...daria a oportunidade de algo interessante acontecer, como eu levar um tiro. Não quero que você fique entediado.

Ridge olhou-a, aborrecido, dizendo:

— Eu escolho o lugar.

Dara deu de ombros.

— Contanto que preparem boas margaritas... — E, não admitindo que ele vencesse a discussão, acrescentou com uma voz rouca e sexy: — Você está lindo com esse jeans. As mulheres não vão tirar os olhos de você.

— Então você gostou...

Ela sentiu um arrepio, mas tentou pensar em outra coisa. Afinal, estava prestes a fazer papel de idiota diante das câmeras de televisão mais importantes do país.

— Mais um pouco e estarei aos seus pés. — Ela sorria, maliciosa.

Resistindo ao desejo de tomar Dara nos braços e carregá-la nos ombros, observou-a subir os degraus do palanque. As curvas do seu corpo dentro do short de ciclista e da camiseta justa faziam com que se distraísse em serviço.

Disciplinadamente, tirou os olhos de Dara e voltou a examinar a multidão. Aquele era seu trabalho: olhar para o público, não para Dara. O corpo dela o excitava, mas era sua atitude que o fazia ficar louco. Dara era sexy, impaciente e um pouco descuidada. Era uma bomba prestes a explodir. Ela o deixava em brasa. O que se passaria naquela cabecinha linda?

Ridge sabia que Dara estava exausta. Andava cansada da campanha, da imprensa, e odiava ter um guarda-costas. Esforçava-se demais.

Ridge lembrou-se de que em breve haveria a entrevista da MTV e se veria face a face com Harrison Montgomery. A perspectiva de encontrar seu pai o apavorava. Esperara que seu ódio se tornasse mais forte. Entretanto, era a curiosidade que aumentava a cada instante, e Ridge detestava se sentir assim. Num esforço supremo, desviou os pensamentos para Dara, nesse instante sendo saudada pelo prefeito, que a apresentou ao microfone.

— Estamos aqui reunidos hoje para celebrar a reabertura de nosso parque mais antigo, Grayford Commons. Sentimo-nos honrados com a presença da afilhada do candidato à Presidência, Harrison Montgomery: Dara Seabrook. Ela abrirá nosso desfile de patinadores e premiará os vencedores da corrida. Por favor, deem as boas-vindas a Dara.

Ridge lançou um rápido olhar para ela e notou um desespero muito bem disfarçado. Dara dirigiu-se ao microfone:

— Não sabia que iria abrir o desfile. Ainda mais com todos estes ótimos patinadores aqui presentes. Espero que vocês fiquem patinando ao meu redor de modo que alguém precise me segurar se eu cair.

A multidão riu. Dara lembrou a todos para votarem em Montgomery, e desceu do palanque.

— Não acredito que esperam que eu abra o desfile — disse a Ridge, que a tomava pelo braço. — Vou matar Drew Forrester! Lembre-me disso quando eu o encontrar e não me deixe mudar de idéia.

Ridge mordeu o lábio para não rir, mas continuou com os olhos postos na multidão. Dara sentou-se no meio-fio e começou a colocar os patins.

— Um colega meu, chamado Ray, está do outro lado da rua. Não corra muito para que ele não a perca de vista.

Dara olhou-o com raiva.

— Não tem graça nenhuma. Você sabe como eu patino. Já vai ser ótimo se conseguir ficar na vertical.

Ajudando-a a se levantar, Ridge pensou com ironia que a querida Dara ficava ranzinza quando estava nervosa. Passou uma mão por sua cintura, dizendo:

— Talvez você surpreenda a si mesma.

— Duvido.

E lá se foi para o meio da rua. Ainda sentia o calor da mão de Ridge, o toque firme que lhe dava segurança. Vencendo a tentação de chamá-lo e ir embora, acenou para a multidão, com um sorriso radiante. Tinha uma missão a cumprir, e não podia depender de Ridge, nem de ninguém.

Alguém colocou um estandarte em suas mãos, e Dara foi cercada por um grupo de crianças. A sua direita, uma banda começou a tocar, mas ela a ignorou. Tinha de manter toda a concentração, olhando sempre para a frente e conservando um sorriso estampado no rosto.

Conseguiu manter o equilíbrio por todo um quarteirão, relaxando e conversando com as crianças. Depois de certo tempo, já conseguia cantarolar o hino que a banda executava.

— Ei, moça! Sua joelheira está escorregando. Quer que eu a pegue? — falou um menino atrás dela.

— Onde?


Dara olhou para baixo. O garoto pegou a joelheira e acabou dando-lhe um empurrão, sem querer. Perdendo o equilíbrio, Dara lançou o corpo para a frente, vendo o concreto da rua se aproximar. Primeiro foi seu joelho direito que bateu no chão, depois as mãos, e nada conseguiu diminuir o impacto. Uma dor horrível percorreu suas pernas e mãos, e alguém caiu em cima dela.

— Cuidado! — gritaram as pessoas para os patinadores que circundavam Dara.

Em segundos, Ridge estava ao seu lado, ajudando-a a se levantar.

— Deixe-me tirá-la daqui...

— Desculpe, moça — lamentou o garotinho.

— Vamos andando — sussurrou Ridge, guiando-a para a calçada.

O menino segurou a mão de Dara.

— Só queria ajudar. Não quis empurrar a senhora.

Apesar do joelho machucado, o coração dela enterneceu-se. Com pouco mais de sete anos, o rostinho do menino estava cheio de tristeza. Dara sentiu um filete de sangue escorrer para o queixo e mordeu o lábio.

— Claro que foi sem querer. Olhe, preciso de um curativo. Será que você levaria o estandarte para mim?

Os olhos castanhos do menino brilharam de alegria.

— Uau! Posso?

Dara passou a mão nos seus cabelos.

— Claro que pode.

Ridge a puxou, dizendo:

— Hora de irmos. Vou levá-la até a limusine e...

— Não posso ir ainda. Tenho de entregar os prêmios aos patinadores. — Sorriu para o prefeito, que se aproximava com mais algumas pessoas. — Desculpem-me pelo escorregão. Alguém tem um curativo?

Cinco minutos depois, Dara trocava os patins por um par de tênis e tinha um curativo no joelho.

Permanecendo ao seu lado por mais duas horas, Ridge aprendeu a respeitá-la. Quando dissera a Dara que ninguém sentiria a sua falta se fosse embora, ela respondera: "Estão contando comigo".

Ele ficou vendo-a sorrir e dar risadas, enquanto tentava manter a perna direita em repouso, cheia de dor. Ridge chegou à conclusão de que talvez a sua fama de "garota de ouro" fosse verdadeira.


Kit Brubaker, uma velha amiga de faculdade de Dara, acenou para o garçom pedindo uma segunda rodada de margaritas, enquanto lhe perguntava:

— Quem é sua sombra sexy?

— Meu guarda-costas. Apenas até o final da campanha. — Dara lambeu o resto do sal na borda do copo e suspirou. Era muito bom falar com alguém que não tinha nada a ver com a campanha eleitoral... — Meu padrinho insistiu.

Olhou ao redor. Ridge tivera bom gosto. O hotel elegante que indicara tinha um bar com serviço e drinques impecáveis. E claro que ele sabia que havia seguranças no hotel e até mesmo no bar.

— Um guarda-costas! Posso até ouvir Whitney Houston cantando ao fundo.

Dara não achou graça.

— Então você está tendo alucinações, porque Ridge não é nenhum Kevin Costner.

— Tem razão. Ele é mais bonito que Kevin Costner.

Dara tentou permanecer séria, mas a combinação do dia estafante com os drinques foi demais. Ela riu.

— Certo. É mais bonito.

— Então, como se sente tendo um guarda-costas? Ele segurou você no meio da multidão e a levou para longe? Fica com você todas as horas do dia?

Dara brincou:

— Por acaso você está trabalhando para um daqueles jornais de escândalos?

— Pensa na imprensa o tempo todo, não é? Não a invejo. Mas não é sem motivo que a puseram em frente às câmeras. Você é especial.

Obrigada, você é muito gentil. Às vezes não sei muito bem o que pretendo conseguir com tudo isso. Não é sempre tão ruim, mas a campanha está chegando ao fim, e a pressão que estou sofrendo para não dar nenhum passo em falso é muito grande. Foi por causa disso que a chamei. Sabia que podia contar com minha velha colega de faculdade para espairecer.

— E levo esse trabalho a sério. — Kit pôs a mão sobre o coração, num gesto solene. — Mas, já que provavelmente nunca terei um guarda-costas, gostaria que você me contasse como é ter um.

Dara suspirou. Olhando para Ridge de relance, confidenciou a Kit:

— Ele fica me dizendo o que não devo fazer, aonde não devo ir, e isso inclui qualquer coisa e qualquer lugar fora dos planos estabelecidos. Discutimos porque ele quer que eu seja muito cautelosa. E você nem imagina como vasculha tudo antes de eu entrar em um hotel.

Kit pareceu desapontada.

— Não é excitante como eu imaginava. Já teve conversas particulares com ele?

— Não muitas. Ridge é muito profissional. — Sentindo uma pontada de remorso por estar falando dele, Dara baixou a voz, ainda que soubesse que Ridge não podia ouvi-la. — Ele fica me rondando...

— Se é tão ruim assim, por que não o manda embora?

— Meu padrinho não permitiria...

— Não foi isso o que eu quis dizer. Se ele está deixando você louca, sempre à sua volta, por que não foge?

Dara ficou surpresa com a sugestão. Uma excitação enorme, alarmante e travessa, a invadiu.

— Quer dizer, sair sem que ele perceba? Escapar para fazer compras, tomar sorvete ou...

— Qualquer coisa que quiser fazer. Você merece. Trabalhou como uma escrava para essa campanha.

Dara sentiu-se como se estivesse sendo tentada pelo próprio diabo.

— Harrison nunca aprovaria.

— É verdade — concordou Kit.

Dara sabia que a amiga não ligava a mínima para a aprovação dos outros e, na sua opinião, era uma das qualidades mais encantadoras de Kit.

Na certa, Clarence teria um ataque cardíaco.

— Certo — Kit concordou.

— E Ridge ia ficar furioso.

Dara tomou um gole do seu drinque, pensando em voz alta:

— A atitude madura e responsável seria deixar que Ridge continuasse a fazer seu trabalho. Então, depois das eleições, estarei livre para ir aonde quiser.

— Muito bem. Então, o que pretende fazer?

Vacilando ante a sua tendência a ser madura e responsável, Dara sorriu.

— Boa pergunta.
Ridge acabou de ler a última parte do jornal, olhou para o relógio e depois para a porta do quarto de Dara. Ela dissera que pretendia dormir bastante, mas nunca passava das oito horas. Ficou imaginando se todos aqueles drinques não a teriam deixado sonolenta demais.

O telefone tocou, e, já que ela insistia em atender, Ridge esperou. Depois do sexto toque, franziu a testa. Por que Dara não atendia? Estaria doente? Ridge pusera de lado a idéia de examinar pessoalmente o dormitório, porque a visão de Dara na cama abalaria muito suas intenções de manter uma distância profissional dela. Porém, dadas as circunstâncias, cruzou a sala de estar, quando ouviu uma batida à porta principal da suíte. Virando-se, foi atender.

Carregado de jornais, Clarence Merriman entrou, animado.

— Como está nossa menina hoje? Bem cansada, presumo, para ter cancelado nosso café da manhã. Já viu estes jornais? Drew Forrester está contentíssimo. Disse que tentou ligar para Dara faz alguns minutos, mas ela não atendeu. Quer falar com ela agora, para lhe dar os parabéns. — Piscou o olho com malícia, acrescentando: — Acho que ele está querendo se aproximar dela... Dara está no banho?

As rugas de preocupação se acentuaram no rosto de Ridge. Drew Forrester começava a irritá-lo, e ele nem mesmo o conhecia.

— Não está tomando banho. Eu ia verificar o quarto quando você chegou.

O rosto de Clarence mostrou surpresa.

— Ainda não se levantou? Não é o estilo de Dara. Espero que não esteja doente.

Ridge bateu à porta do quarto e esperou um momento. Bateu de novo, com mais força.

— Dara, abra. Clarence está aqui.

Entreabriu a porta e então a escancarou. Em um segundo, vasculhou todo o quarto com os olhos. Seu peito parecia estar sendo apertado por uma barra de ferro. Dara desaparecera.

Com mil possibilidades cruzando seu cérebro, correu até a cama e achou um bilhete. Ao lê-lo, seu medo transformou-se em raiva.

Clarence falava como um papagaio. A fim de parar com aquele ataque histérico, Ridge esfregou o bilhete diante do seu nariz, e pegou o telefone. Enquanto discava, a vontade de Ridge era torcer o lindo pescoço de Dara.
Dara fremia de antecipação. Cinco minutos. Ajeitou os óculos de sol e baixou a aba do boné sobre o rosto. Suas duas horas de liberdade tinham-na deixado mais eufórica do que os drinques da noite anterior.

Não se sentia culpada: não fizera sexo ilícito, não jogara, não cometera nenhum crime. Apenas passara a manhã sozinha, fazendo compras. A última parada fora na única sorveteria da cidade, que abria às nove horas da manhã. Queria um sorvete com duas bolas, longe dos olhos vigilantes de Ridge.

Aquele desejo estava se tornando uma obsessão. Dara sentia uma necessidade compulsiva... de sorvete.

A imagem de Ridge com a camisa entreaberta não saía de sua cabeça, mas ela acreditava que isso se devia ao fato de ele ser um belo espécime masculino. E o pensamento que tinha constantemente de qual seria a sensação de beijá-lo e sentir a paixão em seu corpo era apenas efeito do stress da campanha.

Ficou contente quando a sorveteria abriu as portas. Um senhor recebeu-a com um amplo sorriso.

— Aposto que a senhorita foi fazer compras na feirinha e resolveu tomar sorvete como café da manhã. Que sabor deseja?

— Tem razão. Quero duas bolas de chocolate. Obrigada.

Sentou-se em uma das cadeirinhas brancas de ferro.

Logo, o gentil sorveteiro trouxe seu pedido. Ela levou uma colherada à boca e suspirou. Um frêmito de triunfo percorreu seu corpo. Missão cumprida.

Ao tomar a segunda colherada, viu a porta da sorveteria se abrir. Uma figura muito familiar entrou. Um homem alto, moreno, usando jeans, casaco de couro preto e com um olhar de meter medo.

Dara sentiu um frio na espinha. A colher caiu de sua mão. Desviou os olhos. Não esperava por isso. Ela só queria alguns momentos...

Ridge parou bem na sua frente. Ela olhou para as botas dele: até as botas eram assustadoras. Vendo que ela tentava ignorá-lo, Ridge puxou uma cadeira e sentou-se bem perto. Dara sentiu que ele baixava a cabeça, e a mistura do aroma da loção almiscarada com o odor masculino fez seu coração gelar.

Numa voz baixa, que provocou ondas de calor e frio no corpo de Dara, Ridge perguntou:

— Divertiu-se?


CAPÍTULO QUATRO


— Sim, me diverti muito — respondeu Dara, mergulhando a colher no sorvete e, enfim, erguendo o rosto para encarar Ridge. — Como me encontrou?

Ele ergueu as sobrancelhas.

— Não foi difícil adivinhar. Localizei o táxi que você tomou com a ajuda do pessoal da recepção do hotel, interroguei alguns vendedores da feirinha e lembrei- me de que você tinha um fraco por sorvetes.

Ainda aborrecido pelo fato de ela ter conseguido escapar à sua vigilância, Ridge estreitou os olhos, com ar de censura.

— Clarence quase teve um colapso cardíaco.

— Sinto muito, mas ninguém precisava se preocupar. Deixei um bilhete. Tenho vinte e cinco anos e sou perfeitamente capaz de cuidar de mim mesma por algumas horas.

— Isso não vem ao caso. Até o fim da campanha eleitoral é meu dever cuidar de sua segurança. Você não facilita as coisas se...

— Não é meu dever facilitar o seu trabalho — interrompeu ela, erguendo o queixo. — Precisava de um descanso hoje de manhã. Sinto-me sufocar.

Ridge comparou-a a um puro-sangue irritado. Resolveu usar um tom de voz mais gentil.

— Então, deveria ter me contado. Teria dado um jeito para que saísse. Ray e eu poderíamos observá-la a distância.

— Não queria Ray me observando, nem mesmo a distância. Nem você. Fico cansada de ser observada o tempo todo. Porém você não entende isso. Não tem emoções. Tudo é apenas um negócio, não é? — Dara o encarou com olhos faiscantes. — Não sou como você, Ridge. Preciso de um tempo para mim mesma; para ir às compras e tomar sorvete, por exemplo.

Inclinando a cabeça, Dara olhou para Ridge com os olhos semicerrados, numa pose ao mesmo tempo defensiva e atraente.

— Pequenos prazeres. Não sei se conhece o significado disso, Sr. Jackson...

Ridge sentiu vontade de dar-lhe uma lição.

Dara voltou a erguer a colher.

— Vire-se para o outro lado, Ridge. Seu olhar está derretendo meu sorvete.

— Essa é a sua maneira de ter um acesso de mau humor?

Ela prendeu a respiração por um momento e olhou-o.

— Apenas precisava fugir da minha... segurança paga.

Aquilo atingiu Ridge em cheio. Ele se orgulhava por realizar um trabalho que sempre satisfazia aos clientes. A atitude de Dara tirou-o do sério.

— Isso não tem nada a ver conosco.

A voz dela soou provocante:

— Não tem. Eu estava falando sobre prazer. E acho que isso é algo de que você não entende.

Ridge perdeu a paciência. Fez com que Dara soltasse os dedos da colher e levou-a até os lábios dela, ordenando:

— Abra a boca.

Viu seu espanto e sentiu-se satisfeito por ter virado a situação.

— Sabe de uma coisa, Dara? Ouvindo você falar tanto sobre "pequenos prazeres", pergunto-me o quanto realmente conhece a respeito.

Ela abriu a boca para responder e Ridge encheu-a de sorvete, continuando:

— De acordo com sua ficha, você não tem muita experiência nessa área...

Observou as faces de Dara ficarem vermelhas de indignação. Ela odiava aquela famosa "ficha", e ele sabia disso.

Quando Dara virou a cabeça, recusando mais sorvete, Ridge serviu-se de uma colherada. Aquele gesto pareceu muito íntimo. A mesma colher estivera em sua boca alguns momentos atrás.

Dara não entendia por que Ridge a irritava tanto.

— Sei do que gosto e do que não gosto.

— Talvez. Algumas vezes o que gostamos e o que queremos não nos fazem bem. Um homem que se perde por causa do corpo e da vontade de uma mulher não vale nada.

Dara suspirou, impaciente.

— Não sei o que quer dizer, mas está tomando todo o meu sorvete.

— Acho que me entende, sim.

Mais uma vez, Ridge ofereceu a colher para Dara. Quando ela hesitou, ele soltou um sorriso de desafio, perguntando:

— Está com medo dos meus germes?

Dara estava com medo, mas não dos germes. Sustentando o olhar dele, entrou no jogo, aceitando uma colherada de sorvete. Estava muito ocupada observando Ridge, muito concentrada na reação dele quando passou a língua pela colher.

Ao terminar, ofereceu a colher para ele. Dara sentia um fogo queimando suas entranhas.

— Por que não me beija de uma vez e acaba logo com isso? — indagou à queima-roupa.

A pergunta teve o efeito de uma explosão. Ridge baixou a colher e olhou para Dara por um longo momento. Aproximando seu rosto do dela, respondeu:

— Porque não ia querer parar só no beijo e não posso me distrair em serviço.

A saída fora educada, mas continuava irritando-a. Ela ensaiou um sorriso frio.

— Sempre os negócios. Preciso de um homem que demonstre seu desejo por mim.

Os olhos de Ridge faiscaram.

— Você precisa de um homem com mão firme, por diversas razões.

— Não seja machista. Além do mais, sua opinião não me interessa porque, na verdade, não existe nenhum relacionamento entre nós dois.

Empertigou-se na cadeira, e Ridge respondeu, sem rodeios:

— Meu estilo de vida não permite envolvimentos. Mulher, para mim, tem de ser madura o suficiente para saber que irei deixá-la e prosseguir meu caminho.

Dara refletiu sobre aquelas palavras.

— Bem, isso me coloca de fora. Sou do tipo sentimental.

Seu peito doía com um estranho desapontamento.

Levantou-se, pretendendo ir embora. Procurou pelo sorveteiro, mas ele parecia ter ido para os fundos do estabelecimento.

Ridge também se levantou, aproximando-se muito dela. Sem conseguir se conter, Dara confessou:

— Acho que penso demais em você.

Com a ponta do dedo, Ridge percorreu sua boca e, instintivamente, Dara entreabriu os lábios, beijando-lhe a mão.

— O que vou fazer com você, moça?

Ele a puxou para si, muito devagar, até que Dara sentiu os hálitos se misturando, o gosto de sorvete, dos lábios de ambos se unindo.

Era um beijo sensual. Os movimentos acariciantes de seus dedos no queixo dela a deixavam louca. Um fogo percorreu seu peito, seu ventre, seus seios. Incapaz de se conter, passou uma das mãos pelos ombros fortes de Ridge e a outra por trás de seu pescoço, acariciando os cabelos macios.

— Deus, você é perigosa. Lembre-se do que lhe disse: um homem que perde a noção de tudo por causa de uma mulher não vale nada.

Relanceando os olhos pela sorveteria, afastou-se dela.

— Este maldito prédio poderia ter desabado dois minutos atrás que eu nem perceberia.

Dara sentira o mesmo, mas quando viu Ridge reassumir seu olhar distante e frio, entristeceu-se.

— Foi tão horrível assim desejar uma pessoa com intensidade? Demonstrar seu desejo?

— Não. Mas estou aqui para proteger você, não para namorar.

Os olhos dele brilhavam de paixão insatisfeita, porém seu rosto parecia uma máscara de aço.

"Sim, e apenas para me proteger, nada mais", concluiu Dara, finalizando o pensamento de Ridge e sentindo outra vez se erguer a barreira que os separava.
Todos esperavam por Montgomery.

Ridge tentou se convencer de que não estava ansioso, mas sabia que não era verdade:. Respirando devagar, forçou-se a controlar suas emoções, como se acostumara a fazer havia tanto tempo.

Dois agentes do Serviço Secreto, que acenaram para Ridge com aprovação, postaram-se cada qual de um lado do estúdio da MTV. Percorriam com o olhar a multidão de jovens. Ridge sabia que procuravam por protuberâncias sob as roupas, a indicação de alguma arma escondida. O anunciante já se dirigira ao público e havia um burburinho de excitação dentro do estúdio enquanto técnicos e câmeras checavam tudo, antes de o espetáculo começar.

Ridge avistara Clarence Merriman. O homem estava tão nervoso que ele ficou imaginando se não teria um ataque de nervos a qualquer instante.

Ouvindo a voz de Dara, olhou em sua direção, pensando no quanto estava preso à lembrança do beijo na sorveteria.

Dara conversava com um homem alto, elegante, com trinta e poucos anos, que lhe entregou algumas folhas de papel.

Ridge conhecia-o por fotos nos jornais: Drew Forrester, o assessor de imprensa de Harrison Montgomery, dava instruções em voz baixa para Dara, e ela acenava afirmativamente. Erguendo os olhos, ela avistou Ridge e chamou-o, fazendo as apresentações:

— Ridge, este é Drew Forrester. Já falei sobre ele, não foi?

— Sim, acho que o mencionou. Sou Ridge Jackson.

Estendeu a mão, sem saber se estava contente por conhecer Drew, portanto não acrescentou o tradicional "muito prazer". Drew lançou-lhe um olhar atento.

— Sua agência tem excelente reputação, e sua ficha pessoal é impressionante, Sr. Jackson.

Entre os dentes, Dara murmurou:

— Gostaria de ter visto essa ficha.

Drew deu uma palmadinha no ombro dela, mas continuou falando com Ridge:

— Aquele incidente com a garrafa nos assustou, por isso Harrison e eu estamos aliviados por um profissional com a sua tarimba estar tomando conta de Dara.

Ridge fez um gesto de agradecimento ao mesmo tempo que notava que Forrester não mencionara os pontos na testa de Dara. Chegou à conclusão de que não simpatizava com aquele homem.

Drew sorriu para Dara, com aprovação:

— Falando na imprensa, entregar o estandarte para aquele garotinho na parada dos patinadores foi genial. Esteve na primeira chamada do noticiário das seis horas e recebeu razoável cobertura na revista People e em vários jornais.

— Obrigada, Drew, mas não tive a intenção de...

— Bom trabalho.

Drew apertou o ombro de Dara e voltou a examinar sua agenda.

— Como vai o joelho? — Ridge perguntou a ela, com pena de seu olhar desolado.

— Não dói mais. — Sorriu para Ridge, agradecida.

Alheio à conversa, Drew bateu com a ponta da caneta na agenda e franziu a testa.

— Lembre-se: esses meninos estão todos um pouco apaixonados por você. Terá de se esforçar para manter a atenção deles em Harrison, em vez...

— Já se esqueceu do carisma de Montgomery, Drew? Assim que ele entrar nesta sala, serei esquecida, o que para mim é ótimo. Não se preocupe.

— Mas esse é um público de jovens.

— Seu carisma atinge todas as camadas econômicas e demográficas. Não foi isso que você publicou uma vez? Pare de se preocupar. Vai acabar tendo uma úlcera.

Ridge notou que Dara começava a se impacientar. Ela virou-se para ele, dizendo:

— Drew mencionou que iremos jantar com Harrison após a gravação e...

O assessor interrompeu-a, sorrindo, derramando charme.

— Falei algo sobre Harrison nos acompanhar? Você merece uma noite de diversão, portanto resolvi ser o único a fazer-lhe companhia.

Dara olhou embaraçada para Ridge, que de imediato sentiu que ela não desejava sair com Drew, fato que muito o agradou, tinha de admitir. Indo em seu socorro, disse com calma:

— É melhor termos um prazo de tempo maior para checar o restaurante antes de Dara entrar.

O olhar de Drew encontrou o de Ridge com um ligeiro clarão de desafio.

— Já que ela estará indo comigo, não pensei que precisasse de proteção.

Ridge sentiu o impulso primitivo de um leão demarcando seu território.

— Oh, não. Acompanho Dara a todos os lugares aonde Dara vai. Faz parte do meu trabalho.

— Todos os lugares?

— Todos. — Porém, para que Drew não tivesse seu ego ofendido, Ridge acrescentou: — Pense em mim como um acessório dela. Uma bolsa, por exemplo.

Dara riu, compartilhando a brincadeira.

— Uma bolsa! Sim, uma bolsa de crocodilo. — Relanceou o olhar para Ridge, e as lembranças dos momentos vividos na sorveteria passaram como um filme ante seus olhos. Estava séria quando acrescentou: — Um crocodilo sem coleira.

Drew franziu as sobrancelhas.

— Se você não gosta de ter esse tipo de... segurança, talvez eu possa arranjar outra coisa melhor.

Um silêncio pesado caiu sobre os três, em meio ao burburinho do estúdio de televisão. Mantendo uma expressão impassível, Ridge surpreendeu-se ao sentir que seus ombros se retesavam. Olhou para Dara, esperando a resposta, e aquela estranha ligação que havia entre os dois pareceu se intensificar.

Por fim, ela disse:

— Discuti o assunto com Harrison. Ele acha esta a melhor solução.

— E o que você acha, Dara? — perguntou Drew.

Ridge percebeu que ele não era assim tão insensível como julgara. Apenas estava concentrado em seu trabalho. Relutante, teve de admitir que Forrester não se distraíra com o fascínio de Dara a ponto de se esquecer das próprias obrigações, como ele fizera, beijando-a na sorveteria.

Dara salvou a situação, respondendo à pergunta de Drew:

— Faltam só três semanas para as eleições. Vamos deixar as coisas como estão. Já tenho problemas suficientes para resolver.

Era evidente o cansaço em sua voz. Ridge viu um olhar de compaixão em Drew.

— Desculpe. Você é tão profissional que às vezes esqueço o quanto está sendo pressionada. Mas tudo acabará em breve. Então, quem sabe...

Uma mulher com um celular na mão aproximou-se.

— Sr. Forrester, está sendo chamado ao telefone.

Drew apertou a mão de Dara, dizendo, ao afastar-se:

— Há sempre alguma coisa a fazer...

Ridge e Dara ficaram a sós, e a costumeira tensão entre os dois reapareceu. Ele comentou, tentando quebrar o gelo:

— Homem ocupado...

Ela concordou.

— Pensei ter ouvido você dizer que queria matá-lo — lembrou Ridge, brincando.

Dara voltou a olhar para ele. Um sorriso indolente e sensual apareceu em seus lábios; e o ar maroto voltou a brilhar em seus olhos. Como se compartilhasse um segredo, aproximou-se de Ridge e sussurrou:

— Ainda há tempo.

Ele teve vontade de beijá-la.

Poderia ter sucumbido à tentação, se não fosse por um aviso no alto-falante:

— Harrison Montgomery chegou!

Dara preparou-se e, em um minuto, apertando mãos enquanto abria caminho, Montgomery veio em sua direção. De imediato, o nível de energia elevou-se no ambiente. Ladeado por homens do Serviço Secreto, finalmente Montgomery alcançou Dara e a enlaçou em um forte abraço. Os flashes das câmeras espocaram.

— Como vai minha afilhada favorita?

Enquanto olhava para Dara retribuindo o abraço de Harrison, o poço de fel e cinismo dentro de Ridge começou a borbulhar.

Então, esse era seu pai.

Ele era mais alto um centímetro do que Montgomery, avaliou Ridge, e aquilo lhe deu uma satisfação idiota. Com cabelos prateados e rugas de expressão, o senador não disfarçava a idade, porém estava em muito boa forma. Exalava dignidade, energia e o carisma suficientes para chegar à Presidência, admitiu Ridge, de má vontade.

Ele desprezava Harrison Montgomery, porém.

Tentou absorver cada detalhe da figura de Harrison, naquele primeiro encontro cara a cara. Viu que não havia muita semelhança entre os dois, a não ser na altura. Ridge herdara de sua mãe os cabelos negros, a pele morena e os lábios carnudos. Portanto, não tinha quase nada daquele homem, pensou com azedume.

— Como vai o seu joelho? — Montgomery perguntou a Dara.

Afeição e preocupação estavam patentes na sua voz e, em outras circunstâncias, Ridge poderia até se convencer de sua sinceridade.

Ela riu e respondeu qualquer coisa em voz baixa. Era óbvio o forte carinho dela por Montgomery. Seu rosto se iluminava perto dele. Ao ver aquilo, a realidade alcançou Ridge como uma bofetada.

Nada iria acontecer entre ele e Dara. Nada podia acontecer. E ele desprezava Harrison Montgomery, que só lhe trouxera amargura. Foi quase um alívio constatar que não tinha nenhuma das qualidades físicas daquele homem.

Naquele exato momento, porém, o senador afastou o olhar de Dara. Ridge o encarou, e uma estranha sensação percorreu seu corpo.

Podia ser que não tivesse a mesma cor de cabelos de Montgomery ou sua estrutura óssea. Não possuía a sagacidade política nem o carisma daquele homem. Sem dúvida nenhuma, não tivera a sua educação. Mas os olhos de Ridge eram idênticos aos de seu pai.

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