Mobilidade social e fluxos intra-urbanos: o deslocamento espacial como valor



Baixar 13.97 Kb.
Encontro01.08.2016
Tamanho13.97 Kb.
Mobilidade social e fluxos intra-urbanos: o deslocamento espacial como valor

Este trabalho tem como objetivo a investigação da questão da mobilidade espacial na cidade do Rio de Janeiro a partir da trajetória de duas famílias representantes das camadas médias,cujo itinerário urbano vem refletir a dinâmica do processo de segregação espacial que vem ocorrendo nesta cidade. Atualmente morando em pontos diferenciados da cidade, a primeira residente na Zona Norte e a segunda na Zona Sul, ambas trazem como marco em sua história a situação de migrantes que vieram para a cidade do Rio de Janeiro, e posteriormente a situação de deslocamento residencial intra-urbano. A mobilidade espacial nestes casos encontra-se intimamente relacionada à mobilidade social, bem como às mudanças de fase do ciclo de vida familiar. Procura-se analisar de forma etnográfica o processo de construção deste itinerário como fruto de uma visão de mundo e estilo de vida específicos, capaz de traduzir a divisão simbólica do espaço urbano.

O fenômeno da mobilidade espacial, entendida aqui no sentido tanto dos deslocamentos de longa distância, entre cidades ou regiões, quanto os de curta distância, dentro da própria cidade, se revela como importante componente do processo de organização social e da dinâmica urbana, o qual podemos analisar em diferentes escalas. Sob a ótica de fenômenos macroestruturais tais como a reestruturação econômica do país ou a dinâmica dos empreendimentos imobiliários na cidade, e por outro lado, pela perspectiva da trajetória de seus habitantes, que se apresentam como depoimentos vivos e vivenciados deste processo. Ao lado do mercado imobiliário enquanto instrumento eficaz de distribuição do acesso, temos como contrapartida a operação de valores culturais de determinados setores sociais que se deslocam, que orientam suas condutas. Em face ao contexto urbano de fragmentação de papéis e descontinuidades simbólicas, a noção de projeto (Velho, 1981) vem conferir sentido à trajetória biográfica, que neste contexto analisado, se produz (e simultaneamente se faz resultado da) na trajetória espacial destes grupos.

Os fluxos intra-urbanos fazem parte de um processo de estruturação interna da cidade, que sinalizam padrões de mobilidade espacial, no qual podemos identificar a hierarquização dos espaços. Não há como se estabelecer uma precedência rígida na ordem cronológica de fatores que promovem esta reestruturação; o que se observa são fatores que se inter relacionam tais como a intervenção de políticas públicas de urbanização e habitação, e o provimento de equipamentos comerciais e de serviços. Contudo, os investimentos imobiliários são capazes de se sintonizar com uma diferenciação mais sutil, operada na forma como as regiões são classificadas moralmente, utilizando-se de diversas estratégias de diferenciação das moradias para atrair a demanda. Nos termos de Bourdieu (1989), o espaço social pode ser compreendido como espaço de posições sociais organizado sob a lógica da distinção, tendo assim sua ocupação tanto um conteúdo material quanto de representação social.

Este processo atinge de forma peculiar as camadas médias, caracterizadas por sua natureza de instabilidade potencial, tanto social quanto espacial, em função de uma posição “intermediária” na estrutura social. No caso particular de um país de Terceiro Mundo como o Brasil, sua emergência é relativamente recente. Antes que posições fortemente demarcadas pelas gerações anteriores, são setores que trazem consigo a marca da instabilidade, no sentido do imperativo do “vir a ser”, fato este traduzido pelo empenho no projeto de ascensão social. Desta forma, os deslocamentos espaciais atuam como marcos de referência à conquista de mais elevado padrão de acesso e consumo, instituintes de novos modos de vida.

A investigação antropológica nas cidades, antes que se ater a um determinismo simplificado onde o ambiente assumiria fator preponderante no comportamento de grupos humanos, enfatiza a necessidade de se debruçar sobre processos sociais que ocorrem nos espaços urbanos. A proposta de Robert Park e outros representantes da Escola de Chicago na investigação social da cidade traz como grande contribuição o entendimento de uma perspectiva de ecologia distante das representações do senso comum, associadas a ambientes “naturais”, mas que enfatiza a dinâmica dos processos de relações dos homens entre si em contextos até então pouco experimentados. Neste sentido, um outro aspecto que se destaca em relação aos fluxos intra-urbanos refere-se a sua relação com os vínculos sociais. As trajetórias residenciais associam-se também a transformações ocorridas no âmbito familiar e na organização dos grupos de parentesco, seja através de mudanças de fase do ciclo de vida deste grupo – estilizados na seqüência independência financeira da prole, casamento, filhos – ,seja pela ruptura dos laços matrimoniais, onde a separação instaura a necessidade de mudança “para frente”, ou seja,mais frequentemente a constituição de uma nova residência do que um retorno ao ambiente familiar/residencial de origem. O espaço construído atua tanto como suporte dos vínculos sociais como também interfere nas modalidades de vínculos e práticas sociais. Os substratos físicos da vida social, no caso a residência, a rua, o bairro refletem níveis diferenciados de cristalização da vida social, onde maneiras de ser nada mais são do que maneiras de fazer consolidadas.

O processo histórico da estruturação intra-urbana da cidade do Rio de Janeiro se define nas três primeiras décadas do século XX pela constituição de um núcleo valorizado em termos de equipamentos e serviços urbanos em contraponto a uma periferia caracterizada pela ausência destes recursos. Nas décadas seguintes o binômio núcleo-periferia se redefine a partir de investimentos imobiliários na Zona Sul, a principio no bairro de Copacabana e posteriormente observando-se a expansão da fronteira imobiliária para os bairros de Ipanema e Leblon. A situação da Zona Sul como “paisagem emergente” é reflexo, dentre outros fatores, de um processo de reavaliação dos atributos ambientais, no caso, a praia, que passa assumir novos sentidos em função de uma sociedade onde o lazer e o consumo passam gradativamente a assumir proporções antes desconhecidas. Corbin (1989) chama a atenção de como a praia foi, até meados do séc.XIX, relegada a um plano secundário pelos habitantes das cidades, ou em seus termos, um “território do vazio”. Copacabana assiste a verticalização de seu espaço através do lançamento no mercado de uma grande quantidade de apartamentos pequenos atraindo famílias “trade off”, que trocam a perspectiva do consumo do solo por acessibilidade e uma ascensão na hierarquia sócio-espacial (Velho, 1973; Lago, 2000). Esta forma de ocupação de Copacabana provoca o deslocamento dos grupos de maior renda para áreas como Ipanema e posteriormente Leblon e Lagoa. Com a estabilização do ciclo de vida da Zona Sul, ocorre a partir da década de 80 a redefinição de estratégias dos capitais imobiliários que passam a atuar em direção a novos territórios, como a Zona Norte e Barra da Tijuca, operando desta forma a re-signifcação dos espaços. A Barra da Tijuca, por exemplo, como fronteira relativamente recente de expansão imobiliária da cidade epitomiza a mobilidade ascendente.

A trajetória destes dois grupos familiares tem em comum a vinda para a cidade do Rio de Janeiro. O primeiro grupo tem antecedentes de deslocamentos no próprio estado de origem, Minas Gerais, quando ainda jovens, os cônjuges deixam suas cidades natais para estudar na capital, Belo Horizonte. Advogados, nesta cidade se casam e poucos anos depois decidem vir para o Rio de Janeiro em busca de novas oportunidades. O período de chegada na capital carioca no princípio da década de 70 do século passado é testemunho do ritmo crescente dos deslocamentos populacionais verificado nos anos 60 e 70 no Brasil, motivado pela expansão industrial nas grandes áreas urbanas.



A diminuição dos deslocamentos interregionais na década de 80 passa a ser compensada pelo aumento significativo dos migrantes vindos do interior do próprio estado, momento este em que a diminuição do fluxo migratório do Nordeste, por exemplo, é compensada pela chegada de mais de 70 mil interioranos do próprio estado do Rio de Janeiro. É neste contexto que se localiza a chegada do segundo grupo familiar, vindo de uma pequena cidade do interior deste estado.

A partir de então estes dois grupos passam a atuar como atores neste cenário dinâmico de estruturação e reestruturação do espaço na cidade do Rio de Janeiro, onde assistem o processo de ascensão social bem como do alargamento de seu campo de possibilidades.


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal