Monte Alegre, Cidade Papel



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Análise do discurso fundador da história e da memória de “Monte Alegre, Cidade Papel”

Ana Flávia Braun Vieira (UEPG)1

Miguel Archanjo de Freitas Júnior (UEPG)2

Atualmente Telêmaco Borba é um município situado na região centro leste do Estado do Paraná. Localizado há aproximadamente 241Km da capital Curitiba, sua extensão territorial abrange 1.382.860Km² e faz divisa com os municípios de Curiúva, Ortigueira, Tibagi, Ventania e Imbaú. Até 1964, quando da emancipação do município da Comarca de Tibagi, a localidade era conhecida como Monte Alegre, fazenda de propriedade particular das Indústrias Klabin do Paraná de Celulose S/A.

Essas são algumas informações a respeito da localidade, mas o que se intenta neste artigo é o estudo da história oficial deste local a partir da sistematização das narrativas de constituíram seu discurso fundador.

Os discursos fundadores, em relação à história de dada localidade, funcionam como referência fundamental na constituição do imaginário local. Assim, ao compreender a dimensão do acontecimento do discurso, será possível perceber como o discurso sobre a origem de Telêmaco Borba se estabilizou como referência na construção da memória oficial telemacoborbense.

Sendo a história uma área do conhecimento composta por diferentes discursos, considera-se importante a análise de sua constituição, refletindo principalmente sobre as tensões presentes nas narrativas, as quais demonstram ideologias e conduzem o leitor a diferentes recepções do que está sendo relatado.

Pensando que a história é historiografia, “pois toda história deriva da ‘escrita’ do historiador” (KARVAT, 2005, p.48) e que este está inscrito num tempo histórico (o seu presente), faz-se necessário analisar a produção deste historiador (seja ele profissional ou diletante) e de suas obras históricas, uma vez que a historiografia é “nada mais que a história do discurso – um discurso escrito e que se afirma verdadeiro – que os homens tem sustentado sobre seu passado” (KARVAT, 200, p.48 apud CARBONELL, 1992, p.06).

Quando esse discurso organizado se propõe contar a história de determinada localidade pode, muitas vezes, carregar a conotação de um discurso fundador, aqui entendido a partir dos posicionamentos apresentados por Orlandi (2003).

Para a autora, o que caracteriza um discurso como fundador é a sua capacidade de criar uma nova tradição, (re)significando o passado, instituindo em seu lugar uma outra memória a partir do que já ocorreu e foi dito, sustentando assim uma nova “tradição” de sentidos.

Os discursos fundadores funcionam como enunciados, “que vão nos inventando um passado inequívoco e empurrando um futuro pela frente e que nos dão a sensação de estarmos dentro de uma história de um mundo conhecido...” (ORLANDI, 2003, p.12). Esses enunciados reverberam efeitos no dia-a-dia, mesmo que não sejam exatamente os mesmos encontrados dos documentos históricos, pois o que importa não é necessariamente o que foi dito, mas a versão que ficou do que fora dito (ORLANDI, 2003, p.12). Em geral, esses enunciados dos discursos fundadores repercutem e influenciam na história cotidiana, na organização de uma memória oficial e, consequentemente, na identidade histórica, especialmente pelo caráter de veracidade que apresentam.

Sobre esse processo de significação, Orlandi (2003) escreve:

nessa passagem do sem-sentido para o sentido... não estamos pensando a história dos fatos, e sim o processo simbólico, no qual, em grande medida, nem sempre é a razão que conta: inconsciente e ideologia aí significam. Não é a cultura ou a história factuais, mas a das lendas, dos mitos, da relação com a linguagem e com os sentidos. É a memória histórica que não se faz pelo recurso à reflexão e às interações, mas pela “filiação” (não aprendizagem). Aquela na qual, ao significar, nos significamos. Assim, nessa perspectiva, são outros os sentidos do histórico, do cultural, do social. Mas que assim mesmo nos constroem um imaginário social que nos permite fazer parte de um país, de um Estado, de uma história e de uma formação social determinada (p.13).

Esse discurso se instaura com facilidade porque se apoia em fragmentos de narrativas já instaladas, ressignificando-as e trazendo novo sentido ao já-dado e ao já-dito. Este, inclusive, é outro fator que caracteriza o discurso fundador: o sentimento de filiação. Ao criar uma nova tradição os sentidos se projetam para diferentes tempos históricos (no presente projetam-se para o futuro e para o passado), trazendo esse novo discurso para o efeito permanente. Ao adquirir esse caráter familiar, o discurso se torna a própria história, carregando a conotação de algo evidente, do que foi assim e só pode ser dessa maneira. (ORLANDI, 2003, p.13-14).

Os romances históricos e a literatura de forma geral – ao lado de lendas, mitos e diversos tipos de discursividades – organizam esses discursos, que constroem uma materialidade simbólica para a constituição de uma “outra” origem.

É na interação entre o “real”, que é construído a partir da ideologia, e o imaginário que são produzidas as realidades históricas de um discurso fundador. Na constituição deste, o sentido não está nele mesmo, “mas é determinado pelas posições ideológicas colocadas em jogo no processo sócio-histórico em que as palavras são produzidas. As palavras mudam de sentido segundo as posições daqueles que as empregam” (ORLANDI, 2012, p.42-43). É dessa forma que o processo de construção de sentidos se relaciona com a ideologia da classe dominante, que influencia no que deve e o que não deve ser dito sobre o passado de dado local na constituição de sua memória oficial.

Para a linguística, a ideologia é usada como um mecanismo de apagamento da interpretação: “nesse movimento da interpretação o sentido aparece-nos como evidência, como se ele estivesse já sempre lá. Interpreta-se e ao mesmo tempo nega-se a interpretação, colocando-a no grau zero. Naturaliza-se o que é produzido na relação do histórico e do simbólico” (ORLANDI, 2012, p.45-46). É dessa maneira que a ideologia influencia o que é dito e o que é não-dito em um discurso. O dizer tem relação direta com o não-dizer, que está implícito. São complementares, afinal, existe uma gama de não ditos que também significam. Existe um não-dizer necessário, sendo o silencio um “lugar de recuo necessário para que se possa significar, para que o sentido faça sentido” (ORLANDI, 2012, p.83). E são as relações de poder que produzem esses silêncios: o que não está sendo dito (inconsciente) e o que não pode ser dito (consciente).

Compreendendo a influência da ideologia dominante na constituição de um discurso e sendo a autoria “a função mais afetada pelo contato com o social e com as coerções, ela está mais submetida às regras das instituições e nela são mais visíveis os procedimentos disciplinares” (ORLANDI, 2012, p.75), entende-se que as diferentes discursividades, sejam quais forem, são organizadas em relação ao lugar social do autor destas está inserido. No caso de Telêmaco Borba isso não ocorre de maneira diferente! Durante a tentativa de historicização local, esta foi feita de uma maneira e não de outra, atendendo a determinados objetivos. Assim, ao refletir sobre a capacidade que as narrativas históricas tem em organizar o passado, construir origens e instituir discursos fundadores, torna-se importante analisar o romance histórico Monte Alegre, Cidade Papel, escrito por Hellê Vellozo Fernandes em 1974.

A escolha da análise dessa obra como uma narrativa que dá origem ao discurso fundador da cidade pauta-se na premissa deste romance histórico ter sido a primeira tentativa de sistematização da história da localidade em formato de livro (até o momento esta tentativa tinha sido feita apenas no jornal local) e ser usado até os dias de hoje, de maneira significativa, como fonte bibliográfica sobre o passado local.

Os principais textos que trabalham especificamente com a história de Telêmaco Borba, utilizados com frequência em artigos e produções relacionadas ao município, como supracitado, tem como referência bibliográfica o livro escrito por Hellê Vellozo Fernandes: duas dissertações defendidas no Mestrado em História da Universidade Federal do Paraná: uma em 1982, por Anacília Carneiro da Cunha, intitulada Homem de Papel: Análise Histórica do Trabalhador das Indústrias Klabin do Paraná de Celulose S/A (1942-1980) e a outra em 1997, por Marcelo Renaux Willer, chamada Harmonia: uma utopia para o trabalho; Capital do Papel, escrito por André Miguel Coraiola em 2003; e Telêmaco Borba: o município, por Dinizar Ribas de Carvalho, em 2006.

Para compreender a dimensão do acontecimento do discurso em relação à ideologia, faz-se necessária uma breve biografia da autora e sua relação com o grupo dominante local:

Hellê Vellozo Fernandes nasceu em Curitiba, em 13 de outubro de 1925 (faleceu no dia 27 de novembro de 2008, aos 83 anos de idade). Filha do professor e escritor Porthos Moraes de Castro Vellozo e de Prudência Araújo Moritz Vellozo, atuou como jornalista desde os 15 anos, escrevendo para jornais como Diário do Paraná, Gazeta do Povo e Diário da Tarde, entre outros. Durante a década de 60 estudou na Universidade Federal do Paraná os cursos de Letras e Jornalismo e ministrou aulas nessas áreas. Trabalhou como assessora de imprensa da reitoria da UFPR e também foi secretária-executiva da Comissão Paranaense de Folclore. Foi membro de várias instituições culturais, como a Academia de Letras do Paraná – na qual foi a 4ª ocupante da 37ª cadeira, a Ala Feminina da Casa Juvenal Galeno (Ceará) e a Academia Feminina de Letras do Rio Grande do Sul. Foi uma das sócio-fundadoras da Associación Mundial de Mujeres Periodistas e Escritoras, no México, em 1969. Também foi fundadora da Associação de Jornalistas e Escritoras Brasileiras, da qual foi presidente entre 1970 e 1974 e 1985 e 1989. Era membro do Instituto Histórico Geográfico e Etnográfico do Paraná e participou de diversos congressos dentro e fora do Brasil. (COELHO, 2002, p.251). Como escritora, dedicou-se às crônicas, ficções e à prosa. Participou de obras coletivas, como O livro de Ajebiana (1979) e Antologia didática de escritores paranaenses (1970), entre outras. Sua primeira obra individual foi Camafeus (1945). Após ele, seguiram-se outras publicações, sendo duas delas especificamente a respeito de Monte Alegre: Nos Campos e nos Pinais (1970) e Monte Alegre, Cidade Papel (1974), livro aqui analisado. Com seus escritos recebeu diversos prêmios, como o Prêmio Nestor Victor 1949: 1º lugar no gênero romance para o livro Incompreensão, o Prêmio Euclides Vergueiro 1959: 1º lugar no gênero romance para o livro Os Vergueiros e o Prêmio Maria Coleta Alves de Araújo 1963: 1º lugar no gênero romance histórico para o livro Pioneiros do Iguatemi.

Sua história em relação à Monte Alegre e às Indústrias Klabin tem início em 1945, quando se mudou para a localidade acompanhando o marido, que a havia sido contratado para trabalhar como médico da população monte-alegrense. Atuou como professora e coordenadora das 33 escolas florestais da indústria e participava nos trabalhos de assistência social às famílias dos trabalhadores da Klabin, além de ser membro do Lions Club local. Exerceu suas atividades como escritora também em Monte Alegre, sendo redatora social do jornal O Tibagi3, propriedade de Horácio Klabin, que era distribuído aos moradores locais e regionais.

O fato de Hellê ter escrito por diversos anos para o jornal local e outros tantos periódicos de contribui com o sentido de “verdade” de suas narrativas. Esta afirmação está pautada na ideia de que, a partir do século XX, a mídia, em geral, passou por transformações que alteraram drasticamente a visão da sociedade sobre os meios de comunicação. No jornalismo impresso a palavra de ordem tornou-se objetividade. Paulatinamente foram sendo deixadas de lado colunas que emitiam a opiniões e a “verdade” dos fatos transformou-se em uma obsessão, assim “a função do jornalista passou a ser não a de opinar, mas a de informar para formar” (ENNE, 2004, p.112).

Esse processo de credibilidade na exposição dos fatos que o jornal foi ganhando socialmente desde o início do século, teve sua consolidação por volta da década de 1950. Nesse momento “o jornalismo, sem dúvida, passou a ser encarado como uma apropriação exata do real, exatamente por seu compromisso com a “verdade”.” (ENNE, 2004, p.112). Logo, a ideia de que o jornal apresentava versões de um discurso previamente organizado sobre o real, foi deixada de lado, mas a intenção dos jornais era exatamente esta: disseminar “uma realidade construída, mas apresentada como verídica” (ENNE, 2004, p.112 apud BARBOSA, 1996, p.183).

Com a construção social de um jornalismo comprometido com a objetividade e com a verdade, o jornalista tornou-se o profissional que reportaria somente os fatos, deixando de lado as críticas e opiniões sobre eles. Foi no período em que estava ocorrendo este processo em que a mídia ganhava cada vez mais credibilidade, formando e cristalizando visões sobre o real, sendo utilizados para a organização de memórias oficiais (ENNE, 2004, p. 114), que Fernandes escreve sua narrativa.

Ao intitular seu livro sobre a história de Telêmaco Borba como Monte Alegre, Cidade Papel, Hellê Vellozo Fernandes expressa uma relação entre a existência da localidade e a indústria. Ademais, o livro trata, de maneira geral, do processo de construção da Indústria Klabin e da organização das unidades fabris em Monte Alegre do Tibagi, perpassando alguns acontecimentos cotidianos.

Ao escrever, que o faz, está permeado por um contexto de significâncias que o influencia a escrever de determinada maneira e com especificidade ao público destino de sua obra. Dessa maneira, levando em consideração as relações de poder e de sentido (ORLANDI, 2010), sendo a autora do romance história uma jornalista, que participa e tem destaque na sociabilidade local, ao organizar seu livro dedicando um capítulo para o passado anterior à chegada dos industriais e dez aos feitos industrializantes traz significações ao imaginário da população monte-alegrense. E é justamente a construção desse imaginário que é necessária para caracterizar o local, que ainda estava em formação, a partir das necessidades do poder simbólico dominante.

Para escrever Monte Alegre, Cidade Papel, Hellê, na apresentação do livro, relata ter usado como fontes sua própria vivência na localidade, a partir de 1945, pesquisa em arquivos, documentos e entrevistas. Entretanto é importante relativizar o próprio uso das fontes pela autora, uma vez que “todo ponto de vista sobre a realidade, além de ser intrinsecamente seletivo e parcial, depende das relações de força que o condicionam, por meio da possibilidade de acesso à documentação a imagem total que uma sociedade deixa de si" (GINZBURG, 2002, p.43).

Da organização desse material até sua publicação foram quatro anos. Segundo a autora “a parte histórica da Fazenda Monte Alegre foi fácil de escrever, pois tínhamos feito estudos sobre os Campos Gerais do Paraná, anteriormente, ao escrever “Pioneiros do Iguatemi”, na década de 1950” (FERNANDES, 1974, p.05)4.

Ainda sobre suas fontes, a autora faz a ressalva de que “é compreensível que tenhamos citados, quiçá, com mais pormenores a atuação daqueles sobre os quais encontramos mais copiosa documentação ou daqueles cujo trabalho assistíamos mais de perto, no complexo gigantesco de Indústrias Klabin do Paraná de Celulose” (FERNANDES, 1974, p.06). Sobre este aspecto, durante a narrativa existe a recorrente associação dos acontecimentos a grandes homens e personagens que não necessariamente fizeram parte do espaço-tempo de quem os rememora através da leitura, mas que, de qualquer maneira, cria um imaginário em torno dessas personalidades, as colocando como imprescindíveis na construção histórica do local5.

O livro, que está organizado em 11 capítulos, possui 236 páginas e trata, de maneira geral, do processo de construção da Indústria. Apenas onze páginas são dedicadas ao passado anterior à chegada dos industriais ao local: fazendo menções aos bandeirantes, à existência de indígenas “cerca de mais ou menos oitenta quilômetros de Monte Alegre” (FERNANDES, 1974, p.13) em reduções jesuíticas, aos tropeiros que contribuíram na organização de vilas pelos caminhos onde faziam suas invernadas e aos sesmeiros – com destaque especial para José Felix da Silva6, chega brevemente ao processo de compras e aquisições de terras pela família Klabin, com o intuito de construir e organizar uma fábrica e um núcleo fabril na região de Monte Alegre do Tibagi.

Escrever sobre o passado anterior à chegada dos industriais pode não ter sido o real objetivo da autora quando da escrita do romance histórico, mas isto também traz significâncias. Na análise de um discurso, dois são os tipos de esquecimento que podem ser observados: o ideológico e o enunciativo. O primeiro trata de uma forma de esquecimento, muitas vezes inconsciente, e passa a compor o sentido a partir do modo pelo qual o sujeito é afetado pela ideologia. O segundo tipo de esquecimento, o enunciativo, faz com que os sujeitos, ao falarem, o façam de determinada maneira e não de outra, ou seja, esta forma de esquecimento está significando no dizer, mesmo que o enunciador não tenha percepção disso. (ORLANDI, 2012)

Independentemente da autora do livro estar vinculada à Klabin – e mesmo o seu discurso não tendo necessariamente como função construir uma realidade – é importante refletir que seus esquecimentos, tanto o ideológico como o enunciativo, estão relacionados ao ambiente em que está inserida. Se, por ventura, “esqueceu-se” de discorrer qualitativamente sobre o que havia antes da chegada dos industriais, isso tem relação com as ideias e, mais, com a ideologia vigente. Uma vez que esses processos de esquecimento se dão, em geral, num plano inconsciente, suas palavras e a história que pretendia contar estavam em conformidade com a ideologia da classe dominante.

Por mais que o livro tenha sido escrito há, praticamente, quatro décadas, e, como supracitado, ele ainda é, com efeito, utilizado como referência para os escritos a respeito da cidade, o romance histórico de Hellê Vellozo colaboram para o que Pollak (1992) chamou de memória herdada.

Na organização da memória existem acontecimentos que a pessoa não experienciou por ela própria, mas que passa a fazer parte de sua memória a partir do momento que alguém do grupo com o qual ela se identifica viveu dada realidade. “São acontecimentos dos quais a pessoa nem sempre participou mas que, no imaginário, tomaram tamanho relevo que, no fim das contas, é quase impossível que ela consiga saber se participou ou não” (POLLAK, 1992, p.02). Essa herança contribui para a associação de elementos distantes espaço-temporalmente àquele que rememora e na cristalização de uma história e de uma memória, que dessa maneira passa de geração a geração com elevados graus de identificação.

Quando os elementos dessa memória herdada são organizados por determinado grupo ou instituição, estes constituem uma memória oficial, com caráter de verossimilhança, que, muitas vezes, opõem-se às demais formas de memória, individuais ou coletivas. Essa memória nacional “resume a imagem que uma sociedade majoritária ou o Estado desejam passar e impor”, que se “remete sempre ao presente, deformando e reinterpretando o passado” (POLLAK, 1989, p.08).

Dessa maneira entende-se que, ao escrever, Hellê Vellozo Fernandes, jornalista vinculada à ideologia da Indústria Klabin – grupo detentor do poder econômico e simbólico local – constrói uma narrativa que organiza discurso fundador da localidade e de sua memória oficial.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

COELHO, Nelly Novaes. Dicionário Crítica de Escritoras Brasileiras: 1711-2001. São Paulo: Escrituras Editora, 2002. Disponível em: http://books.google.com.br/books?id=hn8f_Vs-mZAC&pg=PA251&lpg=PA251&dq=Hell%C3%AA+Vellozo+Fernandes+faleceu+em&source=bl&ots=tQpqQnkWZ7&sig=Og0RmAMXkXjyiwYgRyvcJIU80NE&hl=pt-BR&ei=-Dl0TvOkEYWtgQfQw4wC&sa=X&oi=book_result&ct=result&resnum=8&ved=0CEkQ6AEwBw#v=onepage&q&f=false. Acesso em: 02/05/2013.

CORAIOLA, André Miguel Sidor. Capital do Papel: a história do município de Telêmaco Borba. Curitiba: A. M. S. Coraiola, 2003.

ENNE, Ana Lúsica. S. Memória, identidade e imprensa em uma perspectiva relacional. Revista Fronteiras – estudos midiáticos. VI(02): 101-116, julho/dezembro, 2004.

FERNANDES, Hellê Vellozo. Pioneiros do Iguatemi. Curitiba: Imprensa da Universidade Federal do Paraná, 1966.

GINZBURG, Carlo. Relações de força: História, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002

KARVAT, Erivan Cassiano. A historiografia como discurso fundador: reflexões em torno de um Programmahistórico. Revista de História Regional 10(2):47-70, Inverno, 2005.

KOLODY, Helena; SABÓIA, América. Prefácio. In: HÉL. Nos Campos e nos Pinhais. Curitiba: Gráfica Vicentina LTDA, 1970.

OBITUÁRIO HELLÊ VELLOZO FERNANDES. Jornal Gazeta do Povo. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/servicos/conteudo.phtml?tl=1&id=833722&tit=Falecimentos. Acesso em: 02/05/2013.

ORLANDI, Eni P. Análise de Discurso – Princípios & Procedimentos. 10ª ed. Campinas, SP – Pontes Editores, 2012.

ORLANDI, Eni Puccinelli (org.). Discurso Fundador – A formação do país e a construção da identidade nacional. Campinas, SP: Pontes, 3ª edição, 2003.

POLLAK, Michael. Memória e Identidade Social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol.5, n.10, 1992.

______. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol.2, n.3, 1989.



FONTE:

FERNANDES, Hellê Vellozo. Monte Alegre - Capital do Papel. Curitiba, 1974.



1 Mestranda em Ciências Sociais Aplicadas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa e graduada em Licenciatura em História pela mesma instituição. Bolsista CAPES sob a orientação do Prof. Dr. Miguel Archanjo de Freitas Júnior.

2 Doutor em História pela Universidade Federal do Paraná (2009) e mestre em Ciências Sociais Aplicadas pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (2000). Atualmente é Coordenador do Curso de Licenciatura em Educação Física, Coordenador do Programa de Bolsa de Iniciação a Docência (PIBID - Educação Física) e professor do Programa Stricto Sensu em Ciências Sociais Aplicadas na Universidade Estadual de Ponta Grossa.

3 O jornal O Tibagi teve sua primeira tiragem no dia 23 de novembro de 1948 e foi o primeiro veículo que comunicação de massa em Monte Alegre. Segundo CORAIOLA (2003), “nos seus quase 50 anos de existência, foi o registro escrito da história local e regional, tendo guardado em suas páginas toda a cronologia dos fatos que construíram o atual perfil da Capital do Papel” (p. 193). Teve como fundador e diretor Horácio Klabin (1912-1996), que chegou à região em meados de 1947, assumindo o cargo de Diretor Administrativo nos negócios de sua família. Trabalhou no referido jornal até 1996, quando do seu falecimento e do concomitante fechamento do periódico. No início das publicações o jornal possuía a tiragem de 1.200 exemplares. Mais tarde, este número aumentou para 5.000. Além de ser distribuído de graça a todos os funcionários da empresa, este também era lido pelas pessoas que moravam nos acampamentos mais distantes da sede da fábrica. Nas cidades onde havia escritórios ou representantes da Klabin estes também eram enviados. Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Castro e Tibagi era alguns dos destinos dos exemplares deste jornal. O Tibagi era produzido e impresso em prédio próprio, longe das edificações onde ocorria a fabricação de papel, no entanto, era totalmente vinculado à indústria: seus funcionários eram contratados pela Klabin, mesmo que não trabalhassem diretamente nas dependências desta.

4 Hellê Vellozo apresenta como bibliografia para Pioneiros do Iguatemi Documentos Interessantes à História de São Paulo; Memória Histórica de Paranaguá e Memória Histórica de Morretes - Vieira dos Santos; Chimarrão – Luiz Carlos Lessa; História Geral da Civilização – séc. XVIII; A marcha para o Oeste -Cassiano Ricardo; Relatos sertanistas e Relatos Monçoeiros – Afonso E. Taunay; Nos bastidores da história do Brasil – Gustavo Barroso; Revista do Círculo de Estudos Bandeirantes – Tomo nº04; História do Paraná – Romário Martins; Efemérides paranaenses – Francisco Negrão; Viagem ao interior do Brasil em 1820 – Saint Hilaire;Serie Botelhanae História da história do Paraná – David Carneiro; Aspectos Geo-econômicos do Estado do Paraná – Artur Barthesmes; O int. da investigação linguística nos domínios do mar – Loureiro Fernandes; História da história de S. Paulo - Raimundo de Menezes; Pequena história do Paraná - Cecília Maria Westphalen; História Geral da Civilização Brasileira – Época Colonial – Difusão Europeia do livro; Memória sôbre a viagem do Porto de Santos à cidade de Cuiabá – Luiz D’Alencourt; Medicina no Paraná – Júlio Moreira; História do Brasil - Rocha Pombo; História e Historiiógrafos - Valfrido Piloto; Construamos com verdade a história do Paraná - Valfrido Piloto; Pinheirais e Marinhas – Histórias e paisagens do Brasil; Aconteceu no velho S. Paulo – Raimundo de Menezes; História das bandeiras paulistas – Afonso de E. Taunay.

5 Processo de significação semelhante ocorre com nomes de ruas (Avenida Samuel Klabin e Horácio Lafer, só para citar alguns exemplos) ou bustos (de Horácio Klabin) expostos em praças públicas (Praça Horácio Klabin).

6A história do coronel José Félix da Silva foi escrita por August de Saint-Hilaire, no livro Viagem ao Interior do Brasil em 1820, e, mais tarde, romanceada por David Carneiro, em O Drama da Fazenda Fortaleza, escrito em 1941.


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