Monteiro lobato e a arte de traduzir, recriando



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MONTEIRO LOBATO E A ARTE DE TRADUZIR, RECRIANDO

Maria Augusta H. W. Ribeiro 1

Augustinho Aparecido Martins2

A Literatura Infantil no Brasil, no final do século XIX, tem como precursor, Alberto Figueiredo Pimentel, autor de uma série de livros para crianças. Entre eles encontramos Contos da Carochinha e Histórias da Baratinha que trazem as primeiras adaptações dos Kinder-und Hausmärchen (Contos dos Irmãos Grimm). Mas essa literatura, vigente à época em nossa terra, era incipiente, pois tínhamos, ainda, muitas obras prensadas e traduzidas em Portugal, o que dificultava a leitura desses livros pelas crianças, como o comprova a citação abaixo:

De noite, na mesa de jantar, à luz do lampião belga que pendia do teto, eram freqüentes estas conversas:

-Papai, o que quer dizer “palmatória”?

-Palmatória é um instrumento de madeira com que, antigamente, os mestres-escola davam “bolos” nas mãos das crianças vadias...

-mas aqui não é isso.

O Pai botava os óculos, lia o trecho, depois explicava:

-Pelo assunto, neste caso, deve ser – castiçal. Parecido, não? Como o ovo com o espeto!

Minutos depois, a criança interrompia novamente a leitura.

-Papai, o que é “caçoula”?

-Caçoula, que eu saiba, é uma vasilha de cobre, de prata ou de ouro, onde se queima incenso.

-veja aqui na história. Não deve ser isso...

O pai botava os óculos de novo e lia em voz alta: O bicho de cozinha deitou água fervente na caçoula atestada de beldroegas, e, asinha partiu na treita dos três mariolas...

Depois de matutar sobre o caso, o pai tentava o esclarecimento:

-Caçoula deve ser panela... Parecido, não?

E a mãe, interrompia o crochê:

-Afinal por que não traduzem esses livros portugueses para as crianças brasileiras. (CAVALHEIRO, 1962, pg 145)

Essa produção literária, no entanto, começa a ser criticada no início do século XX. José Veríssimo, em 1906; publica, em A Educação Nacional, um artigo em que pede reformas: que o livro “seja mais brasileiro (...) pelos assuntos, pelo espírito, pelos autores transladados, pelos poetas reproduzidos e pelo sentimento nacional que os anime” (SCHWARTZMAN, 1984, p 33). Olavo Bilac vem ao encontro desse pensamento de inserir um forte sentimento nacionalista, começando a produzir os primeiros livros escolares nacionais: Contos Pátrios (1904), Teatro Infantil (1905) e a Pátria Brasileira (1910) com a colaboração de Coelho Neto, e Através do Brasil (1910) que descreve a viagem pelo país realizada por dois irmãos. Essas obras foram criticadas mais tarde pelo seu patriotismo exacerbado, mas não podemos negar que elas eram de melhor qualidade. Outros escritores seguem essa mesma postura: Conde de Afonso Celso (Por que me ufano de meu País, 1904) e Júlia Lopes de Almeida (Histórias de Nossa Terra, 1907). Além dessa literatura, damos destaque a O Tico-Tico, primeira revista brasileira com publicações de histórias em quadrinhos, lançada em 1905.

Como se constata, a Literatura Infantil Brasileira pré-lobatiana é considerada pelos críticos (entre eles, o próprio Lobato) muito pobre, quase inexistente.

Em sua correspondência, dirigida a Godofredo Rangel, Lobato indaga:

Que é que nossas crianças podem ler? Não vejo nada... É de tal pobreza e tão besta a nossa literatura infantil, que nada acho para a iniciação de meus filhos... (LOBATO,1946)

E se manifesta também quanto às traduções, ao examinar os contos dos Irmãos Grimm mandados pelo Garnier:

Estou a examinar os contos de Grimm dados pelo Garnier. Pobres crianças brasileiras! Que traduções galegais! Temos de refazer tudo isso – abrasileirar a linguagem. (LOBATO, 1946, p.275)

Com esse quadro podemos entender porque a criança brasileira do início do século não se interessava pelos livros. Para melhor ilustrar esse desinteresse podemos citar uma pesquisa de Cecília Meireles realizada em 1931, entre crianças de 11 a 14 anos, sobre as motivações que levavam essas crianças a lerem. Como respostas, encontramos, entre outras: “porque é instrutivo, útil, bonito, por razões morais, interesse por assuntos nacionais, histórias do Brasil” (PENTEADO, 1997, p.149).

Por essas razões podemos afirmar que a Literatura Infantil Brasileira tem início quando Monteiro Lobato, em um momento mágico, cria a saga do Picapau Amarelo lançando, em 1920, A Menina do Narizinho Arrebitado como álbum de figuras e, em 1921, Narizinho Arrebitado, como segundo livro de leitura para uso das escolas primárias.

O sucesso é absoluto entre as crianças da época. A primeira tiragem - 50.000 exemplares - um absurdo para hoje, imagine para a época!. Comprados, acidentalmente pelo Governo Estadual (30.000), este pequeno livro virou um dos mais lidos pelas crianças, nas escolas da época: “- Washington Luís-, ao visitar escolas em companhia de Alarico Silveira secretário da educação e amigo de Monteiro Lobato, sensibilizou-se ao ver aquele livrinho tão surrado” (LAJOLO, 2000, p. 61). A expressão surrado referia-se, com certeza, ao intenso uso do livro pelas crianças.

O que pode ter levado a criança brasileira a gostar de livros de uma hora para outra? Seria somente a propaganda difundida por Lobato –

temos de mudar, fazendo uma experiência em grande escala, tentando a venda do livro no país inteiro, em qualquer balcão e não apenas em livrarias. Mandamos uma circular a todos os agentes de correio, pedindo a indicação de uma casa, de uma papelaria, de um jornalzinho, de uma farmácia, de um bazar, de uma venda, de um açougue, de qualquer banca, em suma, em que também pudesse ser vendida uma mercadoria denominada livro. (LAJOLO,2000, p.30)

- ou o acesso facilitado de sua obra nas escolas? Não sabemos a verdadeira resposta, no entanto, constatamos que seus livros proporcionavam uma experiência a que as crianças anteriormente não estavam acostumadas. A vida e a leitura, o leitor e a escrita se misturavam indissoluvelmente. A leitura de seus livros constitui-se em uma atividade da qual se sai transformado, como se comprova em muitos depoimentos de seus leitores:

Minha imaginação trafegou muito por causa de Lobato. Corri muito no Sítio. Eu sempre fui uma criança imaginativa, pensando coisas, inventando histórias, roubar uma princesa do castelo – minha imaginação ia muito para lá. Adorava Emilia, Tia Nastácia... Até recentemente peguei Lobato e me diverti. Acho que seria capaz de reler com prazer a obra dele. (PENTEADO,1997, p.326)

O resgate realizado por Monteiro Lobato das histórias infantis européias, populares brasileiras, orientais e da mitologia grega é, no enfoque de Walter Benjamin, um despertar, atualizar e partilhar o presente, livrando os homens de uma experiência empobrecida. Benjamin também vincula em seu texto, experiência e pobreza, publicado em 1933, na Alemanha que se tornava nazista, a seguinte questão: “Qual o valor de nosso patrimônio cultural se a experiência não o vincula a nós?” (BENJAMIN, 1933)

O que Lobato fez em seu Reinações de Narizinho senão um resgate desse patrimônio cultural, enriquecendo a experiência de leitura de seus leitores mirins, como notamos no seguinte relato:

Aquelas leituras ratificaram certas atitudes e crenças minhas. Influenciaram o meu gosto pela Grécia. Li muitas vezes Os 12 Trabalhos de Hércules. Lobato foi meu precursor para Platão, Aristóteles, etc. Ele foi, sem dúvida, meu precursor no interesse pela filosofia. (PENTEADO, 1997, p. 236)

É Monteiro Lobato que no meio editorial vai resgatar profissionalmente o tradutor, elevando seu oficio a uma atividade intelectual no mesmo patamar da produção original, é ele que vai fazer a ponte, tão necessária, para que um povo se aposse do patrimônio cultural da humanidade. Em determinado momento Monteiro Lobato afirma que: “povo que não possui tradutores, torna-se povo fechado, pobre, indigente” (CAVALHEIRO, 1962, p.114), e que “os tradutores são os maiores beneméritos que existem” (CAVALHEIRO, 1962, p.114).

Lobato se dedica a esse trabalho profissional por anos de sua vida. Cavalheiro lista 82 obras traduzidas por Monteiro Lobato e dessas vamos listar algumas obras infantis: Contos de Andersen (dois volumes); Pinocchio, de Collodi; Robinson Crusoe, de Defoe; Alice no País das Maravilhas, de Carroll; Contos de Grimm e Novos Contos de Grimm; Contos de Fadas de Perrault entre outros.

O escritor tinha uma maneira especial de traduzir essas obras. Em Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato nos passa a formula da boa tradução:


  • Leia de sua moda, vovó! – pediu Narizinho.

A moda de dona Benta ler era boa. Lia “diferente” dos livros. Como quase todos os livros para crianças que há no Brasil são muito sem graça, cheios de termos do tempo do onça ou só usados em Portugal, a boa velha lia traduzindo aquele português de defunto em língua de Brasil de hoje (grifo nosso). Onde estava por exemplo, “lume”, lia “fogo”; onde estava “lareira”, lia “varanda”. E sempre que dava um “botou-o” ou “comeu-o” , lia “botou ele”, “comeu ele” – e ficava o dobro mais interessante. Como naquele dia os personagens eram da Itália, dona Benta começou a arremedar a voz de um italiano galinheiro que às vezes aparecia pelo sítio em procura de frangos; e para o Pinóquio inventou uma vozinha de taquara rachada que era direitinho como boneco devia falar. (Lobato, 1993 p.106)

E foi dessa maneira que ele foi traduzindo, recriando os principais contos da Literatura Infantil mundial.

Para demonstrarmos essa maneira de traduzir comparamos sua tradução do Conto Branca de Neve com a de Tatiana Belinky.

Monteiro Lobato introduz o primeiro personagem do conto – a rainha -, seu afazer e o cenário onde ela se encontra. Depois define o período em que se passa o começo da história, apenas dando os indícios da estação sem contudo nomeá-la, o que possibilita, à criança, um exercício mental de associação entre o texto lido e o seu conhecimento sobre o inverno.

Era uma vez uma rainha que pregava botões nas camisas do seu esposo, apoiada no parapeito de ébano da varanda do palácio. Estava nevando.Flocos de neve alvíssima iam caindo e formando camadas sobre as ruas e canteiros do jardim real. (LOBATO, 1962)

Na tradução de Tatiana Belinky, a estação vem nomeada logo no início – em pleno inverno – o que a princípio diminui o exercício associativo por parte das crianças; destacamos, também, que a autora traduz que os flocos de neve caíam como penas, para só depois introduzir a figura da rainha com seu afazer.

Era uma vez em pleno inverno, os flocos de neve caíam do céu como penas. Uma rainha estava sentada costurando, ao lado de uma janela que tinha esquadrilhas de negro ébano. (BELINKY, 1989)

Comparando os inícios dos textos, notamos a primeira diferença entre os estilos de traduções, que se acentuam no decorrer dos trabalhos. Quando a autora inicia sua tradução definindo explicitamente a estação do ano, ela está mantendo a estrutura do texto base, pois os Irmãos Grimm definem logo de início o período em que começa a história – mitten im winter (em pleno inverno) –. Monteiro Lobato se preocupa em exercitar a imaginação infantil e, com isso, provoca na criança a habilidade de interpretar o texto, estabelecendo associação entre as idéias. Lobato não se preocupa em manter a estrutura do texto base e sim em criar um movimento de interação do texto com o leitor.

Podemos perceber que a autora pertence aos tradutores tradicionais, pois o estilo do seu trabalho é parecido com o do texto base, como sugere um dos primeiros teóricos da tradução, Alexander Fraser Tytler, citado por Arrojo: “O estilo da tradução deve ser o mesmo do original” (ARROJO, 2002,pg.13). Já, Monteiro Lobato revela, nas primeiras linhas de seu texto uma preocupação com o público alvo , a criança brasileira, e modifica o estilo dos autores, traduzindo não as palavras, mas sim, as idéias contidas no texto base. Lobato acaba realizando uma tradução de significados e não apenas de significantes. A sua compreensão de língua já era à época muito avançada, não se limitando à estreita visão de palavras, mas ampliando-se na leitura de mundo.

Para ressaltar mais essa diferença entre os estilos dos autores neste início destacamos a descrição feita por Tatiana Belinky dos flocos de neve – “os flocos de neve caiam do céu como penas” -, provavelmente os Irmãos Grimm pensavam em penas caindo do céu porque a maioria das aves européias as tem brancas, como o cisne, o ganso, a cegonha entre outras. Mas nossas crianças quando pensam em penas não necessariamente as imaginam brancas, mas sim multicoloridas, pois esta profusão de cores é uma característica das aves tropicais como as nossas.

Observando os dois textos podemos notar no de Monteiro Lobato algo de muito diferente - o abrasileiramento do texto. Como exemplo, ele desconstrói a figura típica da rainha para construir uma figura meio abrasileirada, não de rainha, mas sim de dona-de-casa, quando a coloca a pregar botões nas camisas do esposo.

Em outro trecho do conto, notamos diferenças na questão dos vocábulos:

O caçador imediatamente saiu a cumprir as ordens da sua senhora ; levou Branca de Neve para bem longe na mata e tirou o punhal para matá-la. No momento, porém, em que lhe ia cravar o punhal no peito, a pobre menina implorou:

-Caçador, não me mates! Eu me embrenharei por estes bosques a dentro e a rainha nunca mais me verá. (Lobato,1962)

O caçador obedeceu e levou a menina embora. Mas quando ele puxou o arcabuz e quis varar o inocente coração da Branca de Neve, ela começou a chorar e falou:

- Meu caçador, poupa minha vida! Eu vou entrar na floresta selvagem e não voltarei nunca mais! (Belinky, 1989)

Notamos na tradução de Tatiana Belinky o vocábulo arcabuz, que em nossa pesquisa descobrimos ser uma arma de fogo utilizada no século XVI, de cano largo e curto, uma espécie de bacamarte. Apesar de não ser um erro de tradução, esse vocábulo não tem um significado para a criança brasileira do final do Século XX e começo do Século XIX. Lembramos que Monteiro Lobato em seu início de carreira comentava o problema da tradução literária infantil, quanto ao uso de vocábulos de difícil compreensão pelas crianças , como nos parece o caso de arcabuz.

BIBLIOGRAFIA

BENJAMIN, Walter. Experiência e pobreza; A obra de arte na época de sua       reprodutibilidade técnica. In: Obras escolhidas, volume I: Mágia e técnica, arte e política. 3 ed. São Paulo: Brasiliense, 1987.

CAVALHEIRO, Edgard. Monteiro Lobato: Vida e Obra. São Paulo: Brasiliense, 3 ed., 1962, I volume.

CAVALHEIRO, Edgard. Monteiro Lobato: Vida e Obra. São Paulo: Brasiliense, 3 ed., 1962, II volume.

LAJOLO, Marisa. Monteiro Lobato: Um Brasileiro sob medida. São Paulo: Moderna. 2000.

LOBATO,M. A barca de Gleyre. São Paulo: Brasiliense, 1946, 2º tomo.

______. Reinações de Narizinho. São Paulo:Brasiliense, 48ª ed. 1993.

______. Contos de Grimm. São Paulo: Brasiliense. 2 ed, 1962.



PENTEADO, J. R. W. Os filhos de Lobato. Rio de Janeiro: Qualitymark/Dunya Ed. 1997.

1 Professora Doutora do Departamento de Educação do IB, Campus de Rio Claro, SP.

2 Aluno do Curso de Pedagogia do Instituto de Biociências de Rio Claro-SP


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