Movimento Ambientalista e Desenvolvimento Sustentável, um breve histórico



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"Movimento Ambientalista e Desenvolvimento Sustentável,

um breve histórico"



As primeiras manifestações organizadas em defesa do meio ambiente remontam a meados do século XX no pós-II Grande Guerra, quando o homem comum tomou consciência de que poderia acabar definitivamente com o planeta e com todas as espécies, inclusive a própia. Após a explosão das bombas de Hiroshima e Nagasaki, iniciaram-se na Europa manifestações pacifistas contra o uso da energia nuclear em função das consequências desastrosas para a humanidade e o meio ambiente. Antes destas os registros ficam por conta de filósofos e pensadores, geralmente com variações sobre o mesmo tema: Deus e a Natureza, ou com os naturalistas e os cientistas ligados às chamadas ciências naturais, buscando uma melhor descrição e compreensão dos fenômenos da vida.

Entretanto para que possamos compreender a multiplicidade de ações geridas e perpetradas pelos ambientalistas defensores da utopia de uma relação respeitosa entre a espécie humana e a diversidade planetária, faz-se necessário a identificação das principais correntes do pensamento existentes no seio ambiental.

O Movimento Ambientalista

O pensamento ambiental vem sendo expresso ao longo da história do homem principalmente pelos filósofos e teólogos, a exemplo de Francisco de Assis o santo ecológico. Segundo Herculano (1992), remontam ao século XVI os primeiros questionamentos do homem sobre o meio ambiente, com as grandes navegações e a ampliação das fronteiras mundiais para novos continentes, contrapondo a cultura e a civilização européia aos costumes e a relação com o meio ambiente dos habitantes do novo mundo. A carta de Pero Vaz Caminha ao rei de Portugal no ano de 1500 é um dos marcos dessa dicotomia ambiental. Com a revolução industrial e científica no século XVIII, estabeleceu-se definitivamente um divisor de águas entre a sociedade do homem "desenvolvido" e sua cultura peculiar em contraponto dissonante à Natureza. O surgimento de uma ideologia consumista nas linhas de produção capitalistas, deu origem às primeiras reflexões quanto a atuação danosa do homem sobre a Natureza.

A partir do início dos testes nucleares e as explosões das bombas atômicas sobre o povo japonês, próximo a metade do século atual, é que surge e se organizam os primeiros ambientalistas, chamados alternativos, procurando mostrar ao mundo a possibilidade de estar sob o comando de malucos poderosos, que poderiam explodir o planeta por conta de suas veleidades. Somado a essas, o quase extermínio da águia americana pelos pesticidas agrícolas, a crítica às desigualdades oriundas da sociedade de consumo, além do grande desenvolvimento da indústria bélica e dos estados autoritários, levaram ao crescimento dos movimentos pacifistas que compuseram o surgimento dos hippies, vertente mais doce até hoje surgida no movimento ambientalista.

Outra corrente deste surgiu com os neo-malthusianos embasados na teoria do economista Thomas Robert Malthus, que em 1798 publicou um ensaio pioneiro sobre o estudo do crescimento das populações e como isso afeta o desenvolvimento futuro da sociedade humana. Propunham a necessidade do controle populacional como forma de conter a degradação do meio ambiente e da qualidade de vida. Imputa-se a esse mesmo pensamento a


implementação em países subdesenvolvidos nos idos dos anos 70, inclusive o Brasil, de políticas de esterilização de mulheres em comunidades carentes.

Cabe a ressalva que a esterilização não era o pensamento dos ambientalistas, mas o controle racional movido pela consciência de limite dos recursos naturais, como no

exemplo clássico dos pastores medievais que levam seus rebanhos a um pasto comunal e a restrição natural ao aumento desses rebanhos, sob pena do esgotamento do pasto e o fim de todas as ovelhas.

Com a pressão do governo da Suécia sobre a ONU, por motivo do desastre ecológico da Baía de Minamata, no Japão, realizou-se em 1972 a Conferência de Estocolmo, uma reunião internacional sobre o meio ambiente. A partir desta surgiram mais duas correntes do pensamento ambientalista: os zeristas e os marxistas. Os zeristas, servindo-se da trincheira do Clube de Roma e com as armas fornecidas pelo relatório de Meadows et alii sobre os Limites do Crescimento, propunham o crescimento zero para a economia mundial respaldados em projeções computacionais sobre o crescimento exponencial da população e do capital industrial como ciclos positivos, resultando em ciclos negativos representados pelo esgotamento dos recursos naturais, poluição ambiental e a fome. Assim previam o caos mundial em menos de quatro gerações. Já os marxistas embasados na contribuição no mesmo ano de Goldsmith et alii e o Manifesto pela Sobrevivência, atribuíam a culpa ao sistema capitalista e ao consumismo da ideologia do supérfluo, provocando a banalisação das necessidades e a pressão irresponsável sobre o meio ambiente, obtendo como subproduto do crescimento industrial a degradação ambiental. Os marxistas franceses a mesma época propõe a mudança do modo de produção e consumo, fundamentados em uma ecologia com ótica socialista, que abandone a produção de gadgets pela produção de bens necessários transformando o trabalho árduo em trabalho criador, reduzindo este para aumentar o lazer cultural e a relação ecológica do homem com o meio ambiente.

Com uma visão universal e baseados em uma compreensão ecológica do planeta, os fundamentalistas deixam de lado o antropocentrismo em nome de uma interpretação ecocêntrica, onde a Terra é um enorme organismo vivo, parte de outro universal e maior, onde o homem é uma das formas de vida existente, não possuindo assim qualquer direito de ameaçar a sobrevivência de outras criaturas ou o equilíbrio ecológico do organismo. Para James Lovelock a Terra é Gaia, nome que dá ao planeta, capaz de reações contrárias às agressões humanas. Segundo nosso entendimento essas reações podem estar sendo refletidas na redução da camada de ozônio em nossa atmosfera, o efeito estufa e o fenômeno "el niño".

Os verdes, surgiram nas eleições de 1983 da Alemanha, com uma proposta de ecologia social contra o consumismo provocado pela alienação das linhas de produção. Suas propostas visam a descentralização para o ativismo ambiental, a reação pacífica, a melhora na distribuição social da renda e uma conduta ética em relação ao meio ambiente(need not greed, ou seja, uma economia verde voltada para as necessidades e não para o lucro).

Complementando a amostragem surge na atualidade os eco-tecnicistas, os chamados "eco-chatos", cuja visão reducionista, otimista e imobilista, acredita na solução dos problemas ambientais através do desenvolvimento

científico e da introdução de novas técnicas. Com uma retórica positivista, incorrem numa visão fragmentada e tecnicista, desconhecendo o sentido holístico e ecológico da Natureza.



O Desenvolvimento Sustentável

O conceito de desenvolvimento sustentável (DS) cada vez mais torna-se fluído, acomodando-se de acordo com o formato do recipiente cerebral que o contém. De uma forma ou de outra, todos possuem a noção do que é DS e quando perguntado, via de regra, o cidadão enrola a língua e as idéias ou desfia um colar de pérolas quase sempre

misturando crescimento econômico com preservação ambiental e ausência de poluição. Em busca da compreensão do que é DS, longe de procurar alcançar um único conceito, faz-se necessário o entendimento de que a temática do desenvolvimento ganhou força no contexto da "Guerra Fria" do início dos anos 60, quando ficou nítida para o mundo a emergência de duas potências dos escombros da II Grande Guerra Mundial: os Estados Unidos-EUA e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas-URSS. Foi neste contexto que começou uma guerra psicológica detonada pelos EUA no ocidente, que buscava identificar o americam way of life com o que é desenvolvido e moderno, restando à outra potência a pecha de retrógrada e atrasada. Assim o termo era colocado sob uma ótica reducionista, identificando-o com a importação pelos países dos valores culturais da sociedade norte-americana, assim como seu modelo de industrialização, acompanhados de projetos de "cooperação internacional" como a Aliança para o Progresso, implementado no Brasil durante o governo do presidente americano J.F. Kenedy, no período inicial de governo dos militares pós-64, corroborado pelas altas taxas de crescimento econômico expressas pelo aumento do PIB - Produto Interno Bruto dos países, agora chamados, em desenvolvimento. A reação abaixo do equador veio pela Comissão Econômica para a América Latina - CEPAL, quando tinha a frente economistas do porte de Celso Furtado, propondo o rompimento das relações de trocas desiguais, ainda com matiz do antigo pacto colonial do remoto século XVIII, em prol do desenvolvimento de uma industrialização endógena. Os economistas cepalinos não identificam no crescimento econômico capitalista, necessáriamente, o desenvolvimento das sociedades, demonstrando que o aumento da renda per capita não é um indicador confiável de bem estar. A título de ilustração, recentemente a ONU divulgou, através do PNUD - Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, uma revisão no seu índice de desenvolvimento humano - IDH - que busca avaliar os diferentes estágios de desenvolvimento das nações, relacionando o poder aquisitivo, com a expectativa de vida e o nível de escolaridade nos países membros. Neste ranking o Brasil, entre as dez maiores economias mundiais, aparece em modesto 79° lugar. Esta situação nos leva a refletir se o crescimento industrial sem limites está levando à eliminação da miséria, ou apenas possibilitando que esta se veja e seja vista ao vivo e a cores por uma "aldeia global".

Foi a partir do relatório divulgado pela Sra. Brundtland, ex-primeira ministra da Noruega, sob o nome de Nosso Futuro Comum, que a expressão DS ganhou notoriedade. Este documento foi a base das discussões da ECO 92 ou RIO 92, uma conferência internacional sobre meio ambiente promovida pela ONU no Rio de Janeiro, em prosseguimento àquela realizada em 1972 na cidade de Estocolmo. O relatório propõe o conceito de que DS seria a capacidade das atuais gerações de atender às suas necessidades sem comprometer o atendimento das necessidades


das gerações futuras (CMMAD, 1988). Enaltecido por uns e criticado por outros, tem a seu favor o fato de trazer definitivamente para o cenário mundial a problemática ambiental, propondo uma mudança no teor do crescimento econômico, mas pecando na identificação da pobreza dos países subdesenvolvidos como uma das causas da degradação ambiental. Entre os própios economistas há o entendimento de que a pobreza é um dos rejeitos da acumulação capitalista.

Assim vista como um efluente poluidor , ao contrário, identificam nos países "desenvolvidos" o foco gerador desta poluição humana. Com isso amplia-se o conceito de DS, além da política do bom comportamento, internalizando a este a questão das externalidades, ou seja, a incorporação dos danos ambientais provocados pela atividade econômica, aos custos das indústrias, o que coloca os países desenvolvidos em débito com a recuperação dos ecossistemas do planeta. Desta forma conclui-se que DS seja um mosaico de entendimentos, cabendo desde a leitura de uma forma neocolonialista ou da continuidade do domínio imperialista sobre os países subdesenvolvidos, assim como paradigma para uma compreensão ambiental holística, nova forma de relacionamento do homem com a Natureza, um resgate da natureza humana como mais uma das espécies que compõe a biodiversidade, incorporando-se de forma ecológica a viagem que é a nossa breve existência no planeta Terra.

* Economista e Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade Federal Fluminense PPGCA / UFF

Diretor da APREC Associação de Proteção a Ecossistemas Costeiros ONG


Bibliografia
CMMAD - Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento: Nosso Futuro Comum, Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 1988.
HERCULANO, Selene Carvalho: Do desenvolvimento (in)suportável à sociedade feliz, in coletânea Ecologia, Ciência e Política, coordenação de Mírian Goldenberg, pág. 9, 1992.
MEADOWS, D.H. et alii: Limites do Crescimento, Ed. Perspectiva, São Paulo, 1973.


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