Movimento social de luta contra a aids



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HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO POLÍTICA DO

MOVIMENTO SOCIAL DE LUTA CONTRA A AIDS


  1. Roberto Kennedy Gomes Franco

  2. Universidade Estadual do Piauí

  3. Universidade Federal do Ceará

E-mail: kennedyfranco@hotmail.com
[...] efetivamente, dada a historicidade do fenômeno educativo cujas origens coincidem com a origem do próprio homem, o debate historiográfico tem profundas implicações para a pesquisa educacional, vez que o significado da educação está intimamente entrelaçado ao significado da História. E no âmbito da investigação histórico-educativa essa implicação é duplamente reforçada: do ponto de vista do objeto, em razão da determinação histórica que se exerce sobre o fenômeno educativo: e do ponto de vista do enfoque, dado que pesquisar em história da educação é investigar o objeto educação sobre a perspectiva histórica.
(SAVIANI; LOMBARDI; SANFELICE, 1998, p.11, 12)
Desejamos socializar algumas reflexões desenvolvidas, na perspectiva do materialismo histórico-dialético, acerca do caráter político-educativo do Movimento Social de Luta Contra a AIDS, especificamente a memória-histórica de politização de ativistas da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS – RNP+ Brasil.

Germina no cenário histórico de transição do século XX para o XXI uma politização da experiência de adoecimento decorrente do fato de se viver sorologicamente positivo para o HIV. Nestes termos, o caráter político-educativo do Movimento Social de Luta Contra a AIDS, particularmente a experiência associativista da RNP+Brasil, mesmo limitada em suas reivindicações e ações, é importante por constituir oposição aos interesses da lógica capitalista de mercantilização da saúde, estrutura esta que, pela retirada da responsabilidade social do Estado na oferta de direitos humanos fundamentais como educação e saúde, vem de maneira dramática produzindo ainda mais precarização no sistema de saúde público brasileiro e multiplicando a vulnerabilidade social dos segmentos menos instruídos e com baixa renda, gerando ainda mais pobreza e desemprego.

Os ativistas da RNP+, mediante sua práxis de educação política em saúde, ao mostrarem-se conscientes da necessidade de luta social contra os antagonismos em tempo de AIDS, ou seja, exploração, miséria, fome, analfabetismo, exclusão, desemprego estrutural, opressão de todas as formas alternativas de viver, entre outras mazelas sociais, afirmativamente tornam possível a gradativa retomada da dignidade humana.

Na qualidade de território pedagógico para o aprendizado político de luta e resistência, este novo movimento social (GOHN, 2007) apresenta também uma reflexão histórica sobre a possibilidade de grupos marginalizados pela experiência de adoecimento, uma vez organizados, forjaram uma consciência contestadora, onde se aprende

a não ter medo de tudo aquilo que foi inculcado como proibido e inacessível. Aprende-se a decodificar o porquê das restrições e proibições. Aprende-se a acreditar no poder da fala e das idéias, quando expressas em lugares e ocasiões adequadas. Aprende-se a calar e a se resignar quando a situação é adversa. Aprende-se a criar códigos específicos para solidificar as mensagens e bandeiras de luta, tais como as músicas e folhetins. Aprende-se a elaborar discursos e práticas segundo os cenários vivenciados. E aprende-se, sobretudo, a não abrir mão de princípios que balizam determinados interesses como seus. Ou seja, elabora-se estratégias de conformismo e resistência, passividade e rebelião, segundo os agentes com os quais se defronta. (GOHN, 2009, p. 18-19).

Materializa bem este aprende-se a fala da ativista da RNP+ Piauí, Socorro Freitas:


A RNP+ tem o diferencial de dar a possibilidade das pessoas aprenderem a falar por elas mesmas, aprenderem a ir atrás, aprenderem a pensar, a melhorar o seu pensamento, a melhorar o seu entendimento e a partir dai essas pessoas começam a caminhar sozinhas, melhora o nível de consciência. A gente dialoga não se coloca como vitima, pelo contrario. Fazemos reuniões, encontros, trabalhos nas escolas, universidades, enfim, para estudantes de todos os níveis a gente vai dar palestras. Nós estudamos, pois todos têm que aprender, pois quando necessário sair daqui da Rede tem de se virar, então cada um começa a fazer a sua parte. Fazemos palestras com relação ao HIV, são depoimentos, são entrevistas, enfim, tudo que tiver haver com a história do HIV, com o movimento. São encontros que acontecem de outros movimentos, movimento de mulheres, aí vai uma pessoa lá e representa, é movimento negro vai um lá e representa é conferencia de G.L.B.T. vão lá os meninos e representam. Enfim, sempre tem alguém para ouvir e nesses momentos há sempre aprendizado, então nesses momentos as pessoas vão se empoderando, vão enriquecendo o seu saber sobre as condições de viver com HIV/AIDS. Isso é bom porque desconstrói um monte de coisa, eles já vão poder ter condições aprender a viver e conviver com pessoas de nosso cotidiano que possam passar nas nossas vidas e que tenham HIV, daí podemos ver o HIV de outra forma, veremos que apesar do HIV continuamos sendo pessoas capazes de fazer tudo sem nenhum problema.
Como se pode ver, o campo de atuação é o mais variado. A capilaridade político-educativa do HIV em todas as instâncias da vida em sociedade em nosso tempo é um fato incontestável. Segundo os ativistas, é uma pena que o Poder Público, além das campanhas midiáticas que apenas fortalecem as estatísticas e servem de plataforma política na época das eleições, não invista financeiramente em processos formais e/ou não formais de educação preventiva.

Neste caminho apontado pela ativista, tendo por norte os estudos dos movimentos sociais e sua educação política em saúde, a prática da pesquisa em História desvela procedimentos interpretativos que possibilitam estudar as formas pelas quais sujeitos historicamente situados, materialmente, constituem seus modos de viver com base no engajamento político e coletivo. Importa enfatizar que os movimentos sociais, entre eles o de luta contra a AIDS, podem desencadear uma práxis pedagógica de conscientização e (re)invenção de si.

Podemos perceber isso nos relatos sobre os mais diversos processos não formais de educação desenvolvidos pelo ativistas,
Nas palestras, eu faço assim, depois de tudo eu procuro perguntar, coloco as questões das DST´s como se pega e depois como se previne. Dai depois passo a focar na questão do HIV e da AIDS, ai faço a diferença, porque as pessoas acham que é a mesma coisa. Aí dou lá um exemplo de que não necessariamente quem está com o HIV esta com AIDS. Porque eu percebi que sempre surgia essa pergunta, ai, hoje eu já procuro sempre dentro da minha dinâmica coloco a diferença, o HIV é o vírus que você pode passar muito tempo infectado e só vai saber se fizer o exame, já a AIDS é uma doença que é desenvolvida no corpo e que não necessariamente a pessoa que ta infectada com o HIV ela vai desenvolver a AIDS, pois tem vários critérios clínicos pra isso. Aí eu pergunto pra pessoas como é que as elas acham que é uma pessoa que tem, uns dizem que cai o cabelo, outros dizem muitas coisas que não tem nada haver, ai, depois que falam o exemplo eu digo assim: “e vocês, será que vocês acham que eu tenho?” Aí um diz, não! Não pode você é corado, aí eu vou contar a minha história de como é viver com o HIV, vou falando, depois as pessoas ficam surpresa, não acreditam e tudo, às vezes tem casos de pessoas que até choram. (CRISTIANO, RNP+PI).

Partindo destas questões em análise, os elementos da educação não formal contribuem de forma relevante para a formação preventiva para a saúde em tempos de AIDS. Vale destacar o fato de que para nós a historicidade dos processos educativos formais, não formais e informais rememorada propicia também a redescoberta de costumes e hábitos e a recriação de ambientes familiares e coletivos.

Estes fatos foram amplamente averiguados entre os mais diversos lugares andados por nós durante a pesquisa de campo. Os ativistas da RNP+ são testemunhas, produtores e produtos da experiência do viver com HIV, e, assim o sendo, seus testemunhos situam-se como reveladores imprescindíveis, pois narram uma experiência histórica acerca do tempo vivido, das impressões de quem experimentou viver ou morrer, o objeto de estudo abordado por nossa pesquisa de Tese.

Como se pode ver, metodologicamente a pesquisa social sobre a história da educação política do corpo em experiência de adoecimento decorrente da sorologia positiva para o HIV, especificamente a memória histórico-educativa de um engajamento político caracterizado como ativismo1 de luta contra a AIDS, se efetiva com base na interlocução de fontes diversas (orais e escritas) a respeito das contradições sociais do HIV/AIDS no cenário histórico em curso na transição do século XX para o XXI..

Temos, entretanto, um interesse especial pela fonte oral, pois
As trajetórias à mercê de uma grave ameaça de saúde não são aquelas de objetos inertes, mas de indivíduos ativos, que se esforçam para adquirir o domínio do curso de sua existência. As entrevistas colocam em evidência, através das diferentes reações, a AIDS, e ainda, a possibilidade de reavaliar a própria vida, de provocar exame de consciência, um movimento de introspecção que deve servir para reforçar seus próprios desejos e posição social. A princípio a crise de identidade desencadeada pela AIDS conduz a soluções individuais de auto-isolamento, indo até novas formas de engajamento e de militância.

(MICHAEL POLLAK, 1990)

Em nossa prática de pesquisa em história da educação2, o interesse especial pela memória oral se justifica na medida em que as entrevistas permitem obter e desenvolver conhecimentos novos e fundamentar análises com base no trabalho de criação de fontes inéditas sobre a experiência social do aprender a viver e conviver em tempos de HIV/AIDS. Ao tempo em que investigamos a memória oral do adoecimento sob a perspectiva histórica da educação, objetivamos registrar analiticamente as trajetórias de formação da consciência política de ativistas em luta contra o HIV/AIDS. O intuito, portanto, é que, por intermédio dessa memória histórico-educativa, possamos testemunhar a emergência da educação política vivenciada pelos ativistas do Movimento Social de Luta Contra a AIDS, especificamente a “memória socialmente compartilhada”3 de formação da consciência política de ativistas da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS (RNP+BRASIL).

Esta “memória socialmente compartilhada” do HIV em corpos humanos possibilita desenvolver procedimentos interpretativos que possibilitem estudar as formas pelas quais sujeitos historicamente situados educam dialeticamente seus modos políticos de viver o corpo em adoecimento. Então, quer dizer que, partimos do entendimento de que a emergência deste Movimento Social de Luta Contra a AIDS se faz na dialética das trajetórias dos enfrentamentos cotidianos, nas tensões e nos conflitos, nos consensos/dissensos socialmente engendrados, nas criações e apropriações desenvolvidas como uma ideologia de poder político hegemônico versus poder político contra-hegemônico.

Para Gramsci (1979), falar em hegemonia comporta referir-se à educação política da sociedade civil em sua relação com o Estado. Para esse autor, a relação hegemônica tem pressupostos educativos. Vale ressaltar que a educação, nesse sentido, é entendida como um processo para a constituição de uma ideia de mundo, cuja importância fundamental ocorre tanto para a manutenção como para a transformação social. Gramsci (1979) concebe a hegemonia como o conjunto das funções de domínio, educação e direção exercidas por uma classe social dominante, no decurso de um dado período histórico, sobre outra classe social – e, até, sobre o conjunto das classes da sociedade – por intermédio da sociedade civil.

Importa ainda mencionar a noção de que, por trás deste “novo movimento social” (GOHN, 2007), há um inegável processo educativo de conscientização política, vital ao fortalecimento dos movimentos de resistência social no Brasil. Mesmo reconhecendo que, como argumentam Marx e Engels (1968), as associações são impotentes para fazerem frente às causas principais que modificam o mercado de trabalho (p. 08), é relevante enfatizar a necessidade de manifestação dos grupos contra-hegemônicos, no sentido de que se ergam para combater a segregação sofrida diariamente, não se deixando convencer de que a eles cabem apenas as migalhas do sistema. A insurgência histórica de engajamento político em um movimento social é um fenômeno diretamente atrelado à formação histórica da consciência humana em relação às múltiplas formas de hegemonia (GRAMSCI, 1979), fato este averiguável ao longo da praxis político-educativo da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS.

Este processo político tem relação direta com o desdobramento da conjuntura política de “Estado Mínimo”, engendrada pela voraz necessidade do sistema capitalista de mercantilizar todas as possíveis e imagináveis esferas do viver/morrer na virada do século XX para o século XXI. É relevante ainda, na análise da emergência dos novos movimentos sociais, o contexto histórico de redemocratização do chamado Estado Democrático de Direito no Brasil, décadas de 1980/90.

Neste contexto histórico, analisamos, in loco, a tomada de consciência decorrente da sorologia positiva para o HIV, uma vez que o associativismo da RNP+ busca fortalecer a luta política por melhores condições de saúde e de vida. A práxis política dos ativistas da RNP+ Brasil segue a linha daquilo que é caracterizado como a emergência associativista de “novos movimentos sociais”.

A este respeito, Gohn (2007, p. 07, 08 e 18) diz que

O tempo passou, surgiram novos campos temáticos de luta que geraram novas identidades aos próprios movimentos sociais, tais como na área do meio ambiente, direitos humanos, gênero, questões étnico-raciais, religiosas, movimentos culturais etc. Alguns movimentos transformaram-se em redes de atores sociais organizados, ou fundiram-se com ONGs, ou rearticularam-se com as novas formas de associativismo que surgiram nos anos 90; outros entraram em crise e desapareceram; outros, ainda, foram criados com novas agendas e pautas, como as recentes manifestações antiglobalização. Em suma, o novo associativismo é mais propositivo, operativo e menos reivindicatório – produz menos mobilização ou grandes mobilizações, é mais estratégico. O conceito básico que dá fundamento às ações desse novo associativismo é o de Participação Cidadã. O perfil do militante dos movimentos sociais se alterou e as teorias estão a exigir de nós explicações mais consistentes.

De forma complementar Ilse Scherer-Warren (1996, p.49, 50) analisa a possibilidade de que emergência de “outros” movimentos sociais

que almejam atuar no sentido de estabelecer um novo equilíbrio de forças entre Estado (aqui entendido como o campo da política institucional: o governo, dos partidos e dos aparelhos burocráticos de dominação) e sociedade civil (campo da organização social que se realiza a partir das classes sociais ou de todas as outras espécies de agrupamentos sociais fora do Estado enquanto aparelho), bem como no interior da própria sociedade civil nas relações de força entre dominantes e dominados, entre subordinantes e subordinados.


Este pensamento também é presente em Antunes (1997, p. 86), ao acentuar que
Outras modalidades de luta social (como a ecológica, a feminista, a dos negros, dos homossexuais, dos jovens etc.) são, como o mundo contemporâneo tem mostrado em abundância, de grande significado, na busca de uma individualidade e de uma sociabilidade dotada de sentido.
Em nossas hipóteses de pesquisa, a experiência da RNP+Brasil deve ser diluída no processo histórico-político de insurgência destes novos campos temáticos de luta, ao tempo em que reúne setores segregados da sociedade e confere notoriedade pública ao problema da AIDS na região Nordeste. Ao se assumirem como pessoas sorologicamente positivas para o vírus HIV, deflagram também uma educação política em saúde preventiva e combativa à disseminação do HIV/AIDS na região. Este novo movimento social, organizado na década de 1990, com seus limites e possibilidades se propõe ao confronto com a lógica brutal de concentração de direitos sociais.

De acordo com Parker (2000, p. 105),


Nos últimos anos presenciamos um deslocamento inédito de atenção de programas educativos de AIDS baseados em informação para um novo conjunto de modelos, enfocando a capacitação coletiva e a mobilização comunitária, cruciais para os esforços mais dinâmicos e inovadores para responder à epidemia. Aproveitando as formulações pedagógicas já clássicas, como as de Paulo Freire, mais intimamente associadas com a tradição da educação popular na América Latina, temos mudado cada vez mais daquilo que poderia ser descrito como modelo “bancário” da prática educacional – no qual a educação é pouco mais do que um ato de depositar informações, e os conhecimentos são tratados como uma dádiva concedida por sábios as supostos ignorantes – para o que seria mais adequadamente descrito como a educação libertaria ou dialógica, a qual pretende construir uma percepção crítica das forças socioculturais e político-econômicas que estruturam a realidade, e agir contra as forças opressoras.

Estas reflexões são presentes na CARTA DE PRINCÍPIOS DA RNP+ BRASIL. Ao definir como área de abrangência todo o Território nacional, os ativistas buscam a mobilização e a integração de todas as pessoas vivendo com HIV/AIDS. Em seus objetivos, estabelece a não-vinculação político-partidária e religiosa e, ainda, a promoção do fortalecimento das pessoas sorologicamente positivas para o vírus HIV, independentemente de gênero, orientação sexual, credo, raça/cor ou etnia e nacionalidade.

Os princípios filosóficos da RNP+ pretendem proporcionar às pessoas vivendo com HIV/AIDS a chance de se encontrar, tomar atitudes ante sua condição sorológica, preparar táticas mediante as quais se desenvolva o indivíduo, combatendo o isolamento e a inércia, promovendo a troca de informações/experiências, criando oportunidades para que as vozes das pessoas vivendo com HIV/AIDS possam ser ouvidas no plano municipal, estadual, nacional e internacional, sendo prioridade básica a defesa dos direitos humanos das pessoas vivendo com HIV/AIDS.

Outro exemplo destacado deste processo não formal de educação preventiva é a parceira com a Companhia Ferroviária do Nordeste (C.F.N). Todos os anos na semana da CIPA que é a semana de prevenção de acidentes, existe a educação preventiva das DST/AIDS. O observado pelas entrevistas com os ativistas da RNP+ é que a experiência com os ferroviários é mais difícil, pois, em virtude da formação cultural tradicional, muitos vão com a esposa e alguns já são de idade acima de 40 anos, elementos que apontam para uma resistência cultural. Isso justifica o fato de que a última campanha do governo tenha sido em torno do chamado “Clube Do Enta”, segundo a campanha: “SEXO NÃO TEM IDADE. PROTEÇÃO TAMBÉM NÃO”. O intuito é prevenir e combater o aumento de casos de pessoas de mais de 50 anos com HIV em decorrência da grande resistência em aderir à camisinha. Em especial na região Nordeste, onde o machismo é forte, também é forte a resistência em entender que é necessário o uso do preservativo, de que hoje qualquer pessoa pode ser infectada com o HIV, como também ainda é intensiva a concepção de que ainda existe grupo de risco.

Cristiano RNP+ Piauí diz o seguinte:
O que precisa mesmo é de um trabalho de educação! Que se eduquem as pessoas, que informe. Os ferroviários têm o preconceito de achar que o HIV não vai acontecer com eles. Porque eu sempre coloco que pode acontecer com qualquer pessoa, porque o HIV esta ai e hoje a única forma de se está evitando é a prevenção, então a prevenção é o uso do preservativo! Dentro dessa perspectiva duas coisas eu sempre procuro colocar nas minhas palestras, a primeira é que fidelidade não é garantia de tá imune ao HIV, só que eu deixo bem claro, isso é uma coisa muito intima, é muito pactuado, essa concepção eu já uso mais no caso dos ferroviários, porque eu sei que tem pessoas casadas. Porque, por exemplo, existem casais que querem ter uma relação sexual sem camisinha, então fazem periodicamente o exame. Se o casal faz um pacto! Isso pode ser um comportamento preventivo, né! Desde que um confie no outro e acham que isso vai funcionar ótimo! Os dois são adultos e fazem do seu corpo o que quer! Outra coisa que faço quando a gente trabalha em empresas é focar também muito a questão dos direitos da não demissão, da não exclusão, que nenhuma empresa pode obrigar o testo sorológico para nenhum funcionário, pois em casos extremos, tem aqueles que já não estão mais trabalhando porque o mercado de trabalho fecha as portas pra ele, ele procura o INSS ou o Auxilio Doença ou uma aposentadoria por invalidez e na tem mais direito a nada.
Tais aspectos exprimem uma das principais indagações desta pesquisa: Como tem sido entendida a experiência de adoecimento em tempos de AIDS e qual sua relação com o processo político-educativo formal, não-formal e informal?

No que concerne à educação não formal, apropriamo-nos da ideia de Gohn (1999:98 e 99), ao dizer que:

A educação não-formal designa um processo com quatro campos ou dimensões, que correspondem a suas áreas de abrangência. O primeiro envolve a aprendizagem política dos direitos dos indivíduos enquanto cidadãos, isto é, o processo que gera a conscientização dos indivíduos para a compreensão de seus interesses e do meio social e da natureza que o cerca, por meio da participação em atividades grupais. (...). O segundo, a capacitação dos indivíduos para o trabalho, por meio da aprendizagem de habilidades e/ou desenvolvimento de potencialidades. O terceiro, a aprendizagem e exercício de práticas que capacitam os indivíduos a se organizarem com objetivos comunitários, voltadas para a solução de problemas coletivos cotidianos. (...). O quarto, e não menos importante, é a aprendizagem dos conteúdos da escolarização formal, escolar, em formas e espaços diferenciados.

Os espaços onde se desenvolvem ou se exercitam as atividades da educação não-formal são múltiplos, a saber: no bairro-associação, nas organizações que estruturam e coordenam os movimentos sociais, nas igrejas, nos sindicatos e nos partidos políticos, nas organizações Não-Governamentais, nos espaços culturais, nas próprias escolas, nos espaços interativos dessas com a comunidade educativa etc

Ainda de acordo com Gohn (1999),

Um dos supostos básicos da educação não-formal é o de que a aprendizagem se dá por meio da prática social. É a experiência das pessoas em trabalhos coletivos que gera um aprendizado. A produção de conhecimentos ocorre não pela absorção de conteúdos previamente sistematizados, objetivando ser apreendidos, mas o conhecimento é gerado por meio da vivência de certas situações-problema. As ações interativas entre os indivíduos são fundamentais para a aquisição de novos saberes, e essas ações ocorrem fundamentalmente no plano da comunicação verbal, oral, carregadas de todo o conjunto de representações e tradições culturais que as expressões orais contém. Cabe destacar (...) que a educação não-formal tem sempre um caráter coletivo, passa por um processo de ação grupal, é vivida como práxis concreta de um grupo, ainda que o resultado do que se aprende seja absorvido individualmente. (...)

A maior importância da educação não-formal está na possibilidade de criação de novos conhecimentos, ou seja, a criatividade humana passa pela educação não-formal. O agir comunicativo dos indivíduos, voltado para o entendimento dos fatos e fenômenos sociais cotidianos, baseia-se em convicções práticas, muitas delas advindas da moral, elaboradas a partir das experiências anteriores, segundo as tradições culturais e as condições histórico-sociais de determinado tempo e lugar. O conjunto desses elementos fornece o amálgama para a geração de soluções novas, construídas em face dos problemas que o dia-a-dia coloca nas ações dos homens e das mulheres.

É importante ainda salientar a diferença entre educação não formal e educação informal. Os escritos de Gohn ensinam que a diferença da educação não-formal da informal é que na primeira existe a intencionalidade enquanto que a educação informal decorre de processos espontâneos. Outra diferença é que a educação não-formal diz respeito ao processo educativo apreendido coletivamente e organizado no âmbito dos movimentos sociais. Já a educação formal é concebida aqui como processo institucionalizado, detentora de cientificidade e ministrada de forma continuada, sejam públicas e/ou privadas.

Neste âmbito, merece destaque especial a oficina ativismo e liderança, ministrada por Jair Brandão, como ato político-educativo não formal de ativistas para o movimento social de luta contra AIDS. Em síntese, sobre a oficina, ele diz que:
Ontem na oficina tentei fazer com que as pessoas refletissem sobre que tipo de ativistas, de lideranças se precisa hoje na RNP+? Para fortalecer a luta, para ter mais conquistas é preciso investir na formação do sujeito político. Eu Jair sou sujeito político das minhas ações. Acho que nascemos sujeitos de direito, só que alguns conseguem ser sujeito político de suas ações, os outros continuam até morrer sendo somente sujeito de direito. Então é isso que precisamos entender e fazer essa mudança, a partir do momento em que me vejo enquanto cidadão e reconheço meus direitos, também ajudo e contribuo nessa luta. Temos essa carência muito grande na Rede e precisamos está acordando, mostrando para esses novos ativistas que tão surgindo que aqui tem muita gente nova nesse encontro, essa galera nova carece dessa formação.
De forma complementar a linha de raciocínio destacada na fala de Jair, refletindo sobre a dimensão formativa e politizadora do associativismo, as reflexões de Marx e Engels (1968), no texto Sobre o Sindicalismo, assinalam que, como escolas de guerra, as associações têm uma ação incomparável, (p. 12). Esta ação politizadora de novos ativistas, conforme se refere Jair, tem relação conjunturalmente com a própria guerra política contra a AIDS e pela vida, e deve estar articulada com o entendimento social das próprias condições de vida de cada pessoa.

Assim, o ativista da RNP+ torna-se um intelectual orgânico (GRAMSCI, 1979), pois atua como um organizador de ações sociais coletivas em benefício do bem comum. Esta ação politizadora não formal objetiva conseguir legitimar algumas petições em favor dos pouco favorecidos. No desenho dessa resposta comunitária, no entendimento político de alguns ativistas, é preciso uma revolta popular, porém o povo tem dificuldade de entender a importância de articular políticas de enfrentamento, isto porque, segundo Wendel,


É preciso compreender o modelo de desenvolvimento, quero dizer que a gente pode está seguindo várias, nessa resposta que eu vou te dar agora nessa questão da linha do modelo do desenvolvimento, mas aí vamos frisar a questão da Educação. Dentro dessa questão do HIV/AIDS é um desafio pensar em ações de prevenção para quem não sabe ler nem escrever, a maioria dessa população se encontra no interior, temos essa população na capital, nos centros urbanos, mas a maioria é no interior. Quando você desce pro interior, você percebe no cotidiano das pessoas o quanto elas são escravas desse modelo de desenvolvimento capitalista de exploração do homem pelo homem. Por conta de tudo isso as vezes a gente ate consegue juntar o povo pra esta no Movimento, mas fica sempre aquela mesma deficiência porque? Porque precisamos ler, o povo não tem o exercício de ficar sentado em uma sala de aula. Ta ali com o professor e tal, tal, tal e se você não vem desse exercício você não vai agüentar ficar meia hora em um local assistindo reunião, por isso que as plenárias esvaziam tanto nos movimentos sociais.Nossa prática educativa foi pensada dentro dessa demanda que já foi mapeado. Então, a idéia para os próximos dois anos saindo da proposta do III Encontro Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS é justamente, priorizar, articulada aos problemas sociais a formação política. Essa formação política se dar com uma série de oficinas subseqüências em cada Estado, onde a gente já acertou com os coordenadores de todos os núcleos da RNP+, de forma que a gente tenha menos custo possível para realizar essas oficinas. Com relação ao Movimento AIDS a realidade do Nordeste/Brasil é muito semelhante tem questões culturais com relação ao preconceito, ao machismo, a homofobia, a tudo isso, ao racismo. E aí o analfabetismo ou semi-analfabetismo, também que é fruto disso tudo também contribui para o fortalecimento ou pra o não-fortalecimento dessa resposta.
Em nossa análise, do ponto de vista político mais amplo, não só o movimento social em torno do HIV/AIDS, mas também os movimentos sociais em geral, passam por um refluxo muito grande, não fazem mais manifestações de rua, não são politizados, como, por exemplo, na época da ditadura em plena ilegalidade, momento em que se viam as pessoas pondo a própria vida em risco indo para a rua; movimentos que chegaram à clandestinidade para a luta armada, exigindo a redemocratização e uma sociedade mais justa. Vivemos em um tempo, que é o tempo da AIDS também, no qual as liberdades democráticas estão postas, mas o exercício dessa liberdade tem que ser escrito entre “aspas”.

As reflexões de Wendel, nesse sentido, são uma voz dissonante, pois, para ele, tem-se de articular a AIDS com a questão do desemprego estrutural, trabalho escravo, fato não observado por nós em muitos ativistas. Isto porque as pessoas, politicamente, estão apáticas e presas à chamada participação cidadã, com um esvaziamento da consciência política e das lutas sociais. A parada da diversidade é um bom exemplo, suas ações infelizmente circulam mais em torno de uma grande festa, não que as pessoas não devam se divertir, mas a mensagem política fica em segundo plano, e é uma pena, pois o aprendizado histórico-político das ruas é fundamental para a erradicação das mazelas sociais vigentes; ou seja, de uma militância, de um ativismo que se proponha a ser engajado na luta pela emancipação humana, pelo fim da miséria, pelo fim da exploração do homem pelo homem, por uma sociedade justa, livre, por uma sociedade anticapitalista, radicalmente anticapitalista.

Em seus limites políticos, percebemos ainda que há certa confusão entre ativismo/militância e cidadania, ou crítica social por direitos humanos. Isto pode ser confirmado quando observamos no VI Encontro de Pessoas Vivendo com HIV E AIDS do nordeste e da Rede nacional de pessoas vivendo com HIV E AIDS do Nordeste, cujo tema era Olhando o\a ativista, fortaleceremos o movimento. Ao conversar com alguns jovens da oficina, os relatos dizem assim

As oficinas de formação da consciência política dos jovens seguem mais ou menos nessa metodologia dessa oficina de ativismo que a gente pensa, não é forçar, não é chamar para o ativismo, mas sim para a cidadania e ai a pessoa é claro que as dinâmicas vão promover essas reflexões para que as pessoas possam esta despertando para o movimento. Porque o ativismo ele pode ser de diversas formas, eu posso ser ativista estando em um movimento, ou eu posso participar de um momento da vida cotidiana, o importante é que onde eu estiver, devo esta repassar a mensagem de que o povo tem que entender o seu direito e tem que ir buscar então isso também é ativismo, é você esta em um banco na espera por sua consulta médica e nos bate papo você esta repassando o que aprendeu esta repassando da sua forma, isso também é ativismo, é cidadania resgatada. Isso é um desafio que a gente vem tentando fazer.


É preciso entender que a chamada participação cidadã se processa dentro dos limites do Estado Democrático Burguês de Direito, tendo como compreensão clara que os interesses de tais movimentos configuram uma tentativa de assegurar conquistas sociais, em meio ao hegemônico aparato legal do capitalismo. Apesar de limitadas, tais ações representam uma forte resistência à segregação social, pois buscam ao menos modificar algumas leis que favorecem com exclusividade a classe detentora do poder. Isso porque se evidencia um caráter dual no atendimento das pessoas com HIV/AIDS, pois, enquanto as mais abastadas tem tratamento “5 estrelas”, com seus planos de saúde privados, aos pobres restam as filas dos precarizados hospitais públicos.

De forma complementar a tais reflexões, Parker (2000, p. 75) diz que



Essa análise do ativismo de base comunitário e de mobilização das comunidades começou a documentar as possibilidades de respostas culturais e políticas míopes e medidas administrativas às vezes contraprodutivas apresentam pouca esperança de resolver as questões mais amplas levantadas pela epidemia. Talvez mais importante, eles consistentemente têm chamado atenção não só para a base comunitária necessária aos programas de intervenção, mas, também, para a importância de entender a prevenção ao HIV/AIDS em termos políticos além de técnicos.
Um interessante exemplo de análise do ativismo de base comunitária e de mobilização das comunidades vem da práxis de educação política desenvolvida pelos ativistas da RNP+NE, especificamente da experiência em Maraquicimé, interior do Maranhão, próximo à fronteira com o Pará. A narrativa de Wendel Alencar diz que,
Quando a gente desce pro interior temos um plano de ação de 4 visitas, cada visita são 2 dias, quando chega sempre na segunda ou terceira geralmente temos problemas nas vilas rurais, muito mais do que nos assentamentos que geralmente são ligados ao MST. As vilas rurais são normalmente ditadas pelo Chefe da Terra, que tem sua própria lei. Lá os pobres são tradicionalmente conhecidos como moradores da terra do patrão. Daí, na segunda visita que a gente foi a Maraquicimé durante a atividade com as lideranças comunitárias, que eram sempre trabalhos de fortalecimento de cidadania e de resposta comunitária, pois nosso trabalho não é só especificamente de educação preventiva de DST/AIDS, mas nessa conjuntura, que contribui na redução da infecção, de combate ao trabalho escravo, de igualdade de gênero, entre outras coisas por isso que são quatro visitas. Então estávamos dentro de uma escola municipal, quando chegaram quatro capangas do Prefeito e nos convidaram pra ir com eles, a gente saiu e deixou tudo lá. E aí algumas lideranças falaram: "olha! Cuidado com esses caras". O fato é que eles só não nos mataram porque tinha muita testemunha, eles vacilaram nesse sentido nos levaram na frente de todo mundo, fomos escoltaram até uma distância longe, a gente no nosso carro, um carro na frente e outro atrás, estavam todos armados! Só que eles não apontavam as armas pra gente, eles se coçavam e levantavam as camisas aí víamos as armas na cintura deles. Quando chegou num determinado local saímos da BR e entramos numa estrada de barro. Aí pensei "eles vão matar a gente!". Só que eles pararam o carro e disseram: "olha! Vocês não vão voltar mais lá na escola, o material de vocês vai ser queimado, e não pisem mais aqui!”, depois foram embora e mandaram que a gente ficasse naquele local por mais ou menos quarenta minutos, e depois a gente fosse embora, e que no mato tinha gente olhando, que ia cronometrar se fossemos embora antes! Só que na realidade talvez nem tivesse ninguém, porém devido à pressão psicológica aqueles quarenta minutos foram terríveis, ali, naquele mato. Eramos eu, Valéria, Adalberto e tinha Júnior, todos ativistas da RNP+ Maranhão, só que depois, no mesmo ano a gente voltou ao município e fizemos o trabalho de Redução de Danos pra quem já é usuário e de prevenção pra os outros. Só que o trabalho de prevenção naquela região era nesse sentido de libertar, de fortalecer a cidadania daqueles trabalhadores rurais que também são escravizados na plantação de maconha. Então, eles voltaram a chamar a gente e foram mais diretos. “Olha, vocês fazendo esse trabalho de prevenção às drogas, contra o uso de drogas, podem morrer!”. O fato é que todo mundo que tem esse trabalho rural se você for estudar são trabalhadores escravos, e aí era nesse sentido nosso trabalho é pegar carona no debate sobre a AIDS e falar da escravidão, aí isso incomodou a eles, mas a gente concluiu o trabalho. Essas fazendas são grandes mesmo na região de Maraquicimé, são de plantação de maconha no meio da floresta amazônica e aí o povo não pode ter outro emprego. Os plantadores ne? Eles não podem ter outro emprego e não podem sair de lá! Até pra visitar as famílias eles vão acompanhados e voltam pra lá, pra o local de plantios, que tem as vilas. Porque assim, as fazendas nunca plantam apenas maconha, elas plantam outras coisas também. Tem aquela área desmatada para pasto de gado, e outro lado pra questão da roça. Só que tem sempre aquela parte de mata dentro da fazenda que o IBAMA não permite desmatar, é naquela região que é plantada a maconha, muita maconha. E aí a gente trabalhava mais nesse sentido de libertação do trabalho escravo. Tudo isso com o objetivo geral de redução na infecção do HIV e das DST´s, entendendo que vários fatores contribuem com o aumento da epidemia.
Esta narração manifesta-se em repostas comunitárias pautadas não apenas nas populações dos centros urbanos, mas também na luta política pelo fortalecimento de novos núcleos no interior do Nordeste, e ainda reforça a importância de entender a prevenção ao HIV/AIDS em termos políticos além de técnicos.

Constata-se, portanto, que o movimento político gerador de associações como a RNP+ busca sobreviver diante do constante ataque da lógica do capital, valendo ressaltar que, histórica e gradativamente, a classe dominante se organiza para conter toda e qualquer forma de movimento social que incida em conquistas para os setores menos favorecidos da população, reprimindo-os pela força das ameaças, violência e/ou cooptando-os, pelo menos assim é possível observar nas entrevistas dos ativistas. Indiscutivelmente, como se pode ver pelo relato, a organização consciente de grupos não hegemônicos como a RNP+ não é um evento que favoreça o grupo hegemonicamente dominante, pelo contrário, quanto mais desarticulada e fragmentada se apresente a memória-histórica dos grupos subalternos, mais frágil e estranhada se torna diante da implacável desregulamentação que lhe é imposta.

Esta contradição se dá porque a exaltada sociedade urbano-industrial, que estabeleceu a alfabetização em massa pela primeira vez no Ocidente, não eliminou com isso as distinções entre as diferentes camadas sociais, tampouco o próprio analfabetismo. Infelizmente, a “eficácia” não só da escola, mas de todas as relações entre os seres humanos parece ser direcionada pela lógica produtora do lucro, o que, portanto, traz em si a exclusão não só do enfermo, mas de toda e qualquer atividade que se diferencie da dinâmica desigual e combinada de circulação e reprodução de lucros que tem na cidade sua forma mais elaborada e, portanto, “determinante” das demais espacialidades.

Tais aspectos revelam outra importante indagação desta pesquisa: Como tem sido entendida a experiência de adoecimento ao longo dos tempos e qual sua relação com o processo político-educativo?

Para tanto, a interlocução da memória oral com as trajetórias de consciência e luta política contra o HIV evidenciam-se essenciais. Os ativistas da RNP+ são testemunhas da experiência do viver com HIV e, assim o sendo, seus relatos situam-se como reveladores imprescindíveis, pois narram uma experiência histórica acerca do vivido, do tempo vivido, das impressões de quem experimentou viver ou morrer o objeto de estudo abordado por esta tese.

Imbuídos da preocupação com o percurso histórico-social que o HIV realiza no tempo presente, é que a intenção desta pesquisa, além de mergulhar nas políticas educacionais, legislações, currículos e ideologias em voga para o objeto estudado, questões estas presentes nos registros de época, é a de propor ir mais além pois tais fontes, como vestígios do passado, deixam no ar muitas outras questões.

Essa leitura buscou articular a necessária visão geral e “oficial” da AIDS com leituras de quem viu, ouviu e participou da vida cotidiana e do processo de emergência da pandemia, resultando, por conseguinte, na possibilidade de interpretar de forma crítica e reflexiva o processo de adaptação entre Ser e Meio, processo este que teve influência no próprio florescimento histórico desse novo movimento social.

Nestes termos, fica impossível compreender a emergência histórica do vírus da imunodeficiência adquirida - HIV - e o por quê de sua rápida disseminação, sem entender como em cada contexto histórico das diferentes regiões do mundo se desenvolveram as respostas comunitárias aos antagonismos sociais decorrentes dos tempos de AIDS.

Assim, a memória histórico-educativa do corpo em experiência de adoecimento decorrente da sorologia positiva para o HIV não é apreendida simplesmente como um esquema de percepção, resultante e regido por determinações biológicas ou por uma lógica abstrata e descontextualizada das condições objetivas de fabricação da existência em sociedade. Muito pelo contrário, a experiência de educação política do corpo em adoecimento é entendida como atividade da história social humana.

Na pesquisa social com ativistas em luta política contra o HIV/AIDS, estas lembranças, “trazidas” à tona pelo filtro da oralidade, manifestam no tempo presente as inquietações e caminhos percorridos nesta trajetória de politização do viver com HIV. Isso porque no nosso entendimento a entrevista é muito mais do que a voz. Ela é gesto, é movimento, é observação de comportamentos e é também silêncio. Em síntese, a entrevista é um momento da história da educação política do corpo em experiência de adoecimento se fazendo.

Mirian Jorge Warde (1984), neste assunto, contextualiza muito bem o campo da história da educação, dizendo que
a educação não é mais uma esfera da realidade social na qual se reflete a `infra-estrutura`. A educação é uma das manifestações, em suas peculiaridades, do momento político-ideológico, e assim deve ser explicada historicamente no que se refere aos sujeitos nela envolvidos, aos currículos, às instituições que a realizam, à legislação que nele incide e assim por diante. (p.4).

Neste sentido, a história como conceito pode ser compreendida como processo relacional diluído no fazer cotidiano. Possui uma temporalidade e uma espacialidade específica e singular, inscrita tanto na objetividade quanto na subjetividade humana, o que nos faz pensar a memória histórico-educativa do corpo em experiência de adoecimento como esfera que compõe este fazer comportamental, que medeia as relações sociais, políticas, econômicas, culturais, psicológicas, religiosas, entre muitas outras.

É de fundamental importância nesta pesquisa o entendimento de que a dinâmica geradora do processo histórico-educativo possui uma espacialidade e uma temporalidade que não se desenvolvem nem se desenrolam além da vida cotidiana, como em uma realidade virtual; pelo contrário, possuem uma espacialidade e uma temporalidade inscritas no desenrolar do processo social mais amplo da história da humanidade.

Percebemos que a experiência corporal de adoecimento ao longo dos tempos foi envolta por uma névoa que mais o estereotipava do que esclarecia com generalizações que o situam em um espaço e em um tempo “estático”, a experiência chamada de doença; compreensão que esvazia de significância toda a experiência humana, que homogeneíza os costumes, valores e crenças, e que de forma alguma esclarece os sentidos do fazer de grupos que dialeticamente educam suas trajetórias objetivas e subjetivas de vida.

Vale ressaltar que o processo educativo não é uma atividade neutra, mas, de forma intensa, é produto do conjunto de ideias e teorias ideológicas postas em jogo no cotidiano humano. A educação, assim como o ser humano, é ao mesmo tempo produtora e produto do meio social onde se encontra.

Assim, pode-se dizer, com Parker (1994), que o HIV/AIDS deve ser entendido, em todos os aspectos da saúde e da doença, com um teor fundamentalmente coletivo – um constructo social que se molda em um contexto.

Por esta razão, é essencial que mais pesquisas dimensionem suas análises para a história do adoecimento e sua educação, interligando-se aos elementos de composição da conjuntura histórica mais ampla contextualizando educação e práticas políticas, percebendo, assim, a coexistência entre os recuos e avanços do sistema educacional com os recuos e avanços do tecido social em plano sistêmico conjuntural.

Estes elementos, se não forem estudados de modo mais específico e detalhado, jamais permitirão uma análise profunda e refinada sobre a existência humana, inviabilizando, portanto, a compreensão mais esclarecedora possível das múltiplas estratégias de sobrevivência do corpo em tempos de adoecimento.

Dessa maneira, a presença de epidemias como o HIV/AIDS em corpos humanos revela-se como importante espaço da pesquisa em História na reconstituição e análise de valores sociais e práticas educativas em diferentes sociedades. Para Helman (2003), a doença é definitivamente um fenômeno biológico e sociocultural ao mesmo tempo. As atitudes morais e ideológicas de uma sociedade em relação a AIDS são de tal modo importantes para o seu controle quanto a busca de uma vacina eficaz.

De forma complementar, os estudos de Nascimento (2005, p.30) ensinam que


Os processos relativos ao adoecer e à cura são socialmente vivenciados e construídos, relacionados com a ciência, a sociedade, a cultura, a religião, o meio ambiente, enfim envolvendo todo o âmbito das manifestações sócio-culturais. As análises históricas da saúde e das doenças têm tido franca expansão no interior do campo das Ciências Humanas.

Os historiadores, ao ocuparem-se da memória histórico-educativa do corpo em experiência de adoecimento, e das respostas coletivas (práticas culturais) dadas a elas em sociedades do passado e do presente, elucidaram aspectos importantes da história da humanidade, haja vista o fato de que a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. (MARX: 1997, p. 21).



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1 Segundo Abbagnano (2000), “O termo em questão indica a atitude que assume como princípio a subordinação de todos os valores, inclusive a verdade, às exigência da ação, isto é, ao êxito ou ao sucesso da ação (quase sempre, à ação política)”.

2 Sobre a análise social da História da Educação, vale aqui ressaltar as obras: (FREITAS e BICCAS, 2009); (MARTINS, 1992), (ARROYO, 1992), (FUKUI, 1992); (VIEIRA, 1982), (RIBEIRO, 2001), (SOUSA, 2002), (MONARCHA, 1996), (NUNES, 1990; 1993; 1996), (GHIRALDELLI, 1993), (VILLELA, 2000), (ALMEIDA, 1988), (CAMBI, 1999), (WARDE, 1984, 1990) (BARREIRA, 1995), (CARVALHO, 1998), (GUSMÃO, 1997), (LOPES e GALVÃO, 2001, (LOPES, 1986; 1990), (ARANHA, 1989), (RAGAZZINI, 1998), (SAVIANI; LOMBARDI; SANFELICE, 1998; 2000), (SAVIANI, 1998), (LOMBARDI, 1994), (BUFFA, 1990), SAVIANI, 1999), ( LOMBARDI; SAVIANI, 2005, 2009).

3 Tomamos com referência, para a expressão memória socialmente compartilhada, Alessandro Portelli (1997, 16), ao afirmar que a memória é um processo individual, que ocorre em um meio social dinâmico, valendo-se de instrumentos socialmente criados e compartilhados.



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