Márcia Regina da Silva Ramos Universidade Salgado de Oliveira



Baixar 57.62 Kb.
Encontro02.08.2016
Tamanho57.62 Kb.
Carneiro, Márcia Regina da Silva Ramos - Universidade Salgado de Oliveira
Gustavo Barroso, enfim, soldado da farda verde
Poder e força, ou poder e violência, podem ser reconhecidos como indissociáveis. São percebidos como complementos estratégicos na conquista de uma posição hegemônica na sociedade. Cabe dizer, como mostra Foucault, que as relações de poder não se resumem à esfera do Estado e se aprofundam dentro da sociedade: “não são unívocas; definem inúmeros pontos de luta, focos de instabilidade comportando cada um seus riscos de conflito, de lutas e de inversão pelo menos transitória da relação de forças1.” A possibilidade de exercer o poder, de ser reconhecido como homem, ou mulher, poderosos leva muitos a integrarem-se à organizações que demonstrem, através da doutrina ou do uso de uniformes militares, a idéia de força. Em organizações para-militares o exercício do poder pela violência dão o próprio sentido à sua existência. Por este aspecto podemos entender as ações de força de um importante movimento político brasileiro do início do século XX: a Ação Integralista Brasileira. O caráter para-militar da AIB foi regulamentado através de autorização para o uso do uniforme por um ofício do Ministério da Guerra (Diretoria de Intendência da Guerra em 6/07/1934 – ofício n°. 202 – do chefe da E5 ao senhor Chefe da Ação Integralista Brasileira)2. Sendo, então, a milícia integralista considerada uma organização para-militar, oficiais do exército é que davam as instruções militares: ordem unida e outras atividades referentes ao serviço militar faziam parte das obrigações do militante entre 16 e 42, compulsoriamente inscrito nas Forças Integralistas3.

Entre os movimentos sociais e políticos do alvorecer do Brasil pós-30, a AIB foi o que, simbólica e ativamente, mais representou a extrema-direita brasileira num momento de grandes conturbações políticas e econômicas que, então, tinham lugar no mundo. A AIB estruturou a sua doutrina a partir de conjunções tanto vindas da Encíclica Papal de 1891, a Rerum Novarum, quanto das manifestações intelectuais, organizativas e ritualísticas do fascismo italiano. Não há como negar os aspectos religiosos, que aproximam a AIB do integrismo europeu e brasileiro, inscritos no Manifesto de 32, mas também não podem ser negadas as características estruturais do movimento italiano que os integralistas aqui reproduziram. Os intelectuais integralistas trataram de formatar o movimento brasileiro de acordo com as características históricas e culturais que percebiam como representativas da nossa nacionalidade. Os três principais ideólogos da AIB eram: o Chefe Nacional, Plínio Salgado; o brilhante e, então jovem advogado, Miguel Reale, Chefe da Doutrina e o imponente “soldado”, o Chefe das Milícias, Gustavo Barroso. Este último, inquestionavelmente, é reconhecido como o mais polêmico entre todos aqueles que participaram da construção do movimento integralista, e o que, principalmente, valorizou seu aspecto para-militar.

Gustavo Barroso é tema de dissertações, trabalhos acadêmicos e, em teses de doutoramento recebeu um tratamento especial ao ter seu perfil militante avaliado: personalidade controvertida, postura militar e posições que aproximavam o integralismo do nazismo. Era ele quem organizava a rede internacional que ligava por afinidades integralismo e nazismo e mantinha contatos com a Aliança Fascista Européia com a qual queria conclamar a unidade internacional do fascismo contra o que denominava o perigo judaico. A AIB recebia, com sua autorização, panfletos anti-comunistas e anti-semitas da Deutscher Fichte-Bund e V.4 e esses eram distribuídos ao povo nas ruas. A ligação de Barroso com o governo alemão é constatada por Hélio Silva que conta que, em 1938, o Chefe das Milícias teria participado ativamente da confecção dos planos da tentativa de golpe integralista do dia 11 de maio, tendo solicitado ao representante do governo do Reich no Brasil o fornecimento de armas. No entanto, não teria sido atendido e, um dia depois, seria preso.5.

Para se compreender as idéias e de que forma Barroso entendia o exercício do poder é preciso conhecer um pouco de sua personalidade contraditória: a sua sensibilidade de intelectual que organizou um museu e que traduziu textos do precursor do romantismo Goethe e, também, sua truculência como Chefe das Milícias Integralistas: Gustavo Adolf Dodt Barroso nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1888. A mãe, alemã, diplomada pela Escola Normal de Hamburgo, morreu 7 dias depois. O avô materno, engenheiro e doutor em Filosofia pela Universidade de Iena, fora contratado para construir pontes, estradas e linhas telegráficas no sertão nordestino. Com a morte da mãe, Barroso foi separado dos irmãos mais velhos, que ficaram na companhia dos avós alemães em São Luiz do Maranhão. Foi criado pela avó paterna, octogenária; por duas tias brasileiras solteironas, com mais de 60 anos de idade e pelo pai tabelião, que, segundo Barroso era pilhérico, irônico, materialista e ateu convicto, mas amigo do Bispo do Ceará. Sua única irmã tornou-se monja beneditina na Europa contra a vontade do pai. Uma formação contraditória, entre a religião e o ateísmo, teve o futuro chefe do Departamento da Milícia da AIB: enquanto a avó e uma das tias eram católicas praticantes e o levavam à Igreja, o pai era ateu e a outra tia costumava citar Draper n’Os Conflitos da Ciência com a Religião. Fez a 1ª comunhão só para se casar, tendo sido educado num colégio leigo onde os alunos tinham rixa com um colégio religioso. Barroso, em suas memórias, relata que a tradição brasileira envolveu-o desde os primeiros dias. Embora filho e neto de alemães, não conheceu a língua alemã durante a infância e dizia que não se via como germânico, embora acreditasse que o seu pendor natural para a disciplina, a ordem, um sentido construtivo de existência seriam derivados de sua ascendência alemã. Achava que o que havia no seu caráter de mais retilíneo e mesmo áspero, vinha de sua avó paterna que, segundo suas palavras, nunca se curvou senão diante de Deus.

Embora sua família fosse contra sua inserção pelo militarismo, Barroso, desde criança entusiasmou-se pela farda e pelas solenidades militares. A família queria vê-lo doutor, mas, segundo suas memórias, acabou bacharel, contra a vontade. Recordou assim esta época: “Minha vida é povoada de recordações militares e gosto tanto de tudo que se refere à vida guerreira que todos os amigos e conhecidos de meu pai me auguram um futuro soldado. Na nossa família há o culto de tradição da pátria e a estima pela bravura pessoal”.6 Admirava o pai que, quando, comandante de polícia, montava a cavalo na frente do batalhão. As tias vestiam-no de oficial e ele desfilava pelas ruas com uma espadinha de brinquedo na cintura. Queria cursar o Colégio Militar e seu pedido foi recusado pelo pai. Lembra: “Se meu pai tivesse atendido, outro seria o meu destino. Mas recusou! Sabia que um pequeno esforço podia realizar o meu desejo. Por isso, mordendo os lábios, recalquei uma explosão e afastei-me desalentado. Nunca mais lhe pedi nada.” 7 Quando houve, realmente, a possibilidade de Barroso entrar na Escola de Guerra uma doença matou-lhe as aspirações militares. Sua ligação com os uniformes passou a ser pelo desenho. Em 1907, quando foram modificados por decreto os uniformes do Exército, Barroso colaborou anonimamente, enviando ao Ministério da Guerra desenhos de fardas. Algumas das suas sugestões foram aceitas. Mais tarde, elaborou a lei que reconstituiu os “Dragões da Independência” e escreveu livros sobre uniformes do Exército. Mas a Marinha e o posto de Almirante era a sua secreta aspiração.

Ainda na infância, Barroso fundou uma maçonaria de crianças, imitando os seus ritos que costumava observar de cima do telhado, como fazia também para observar as sessões do Tribunal de Relação. Também foram constantes s brigas de rua: armava batalhões de meninos que se feriam com pedradas e pauladas. Uma vez, ao receber uma chicotada de um carroceiro português resolveu vingar-se. Assumindo postura xenófoba, sob o pretexto de que achava um absurdo um estrangeiro chicotear meninos brasileiros, feriu o português com um ancinho e deixou-o desacordado. Durante a adolescência, adotou a navalha como arma preferida. Desde a infância, portanto, iria demonstrando que as ações de força seriam a tônica de suas atitudes também na política.

Iniciando a época adulta, se inscreveria como aluno na Faculdade de Direito em Fortaleza, recém fundada. Sobre isto escreveu: “O destino era mais forte do que eu!” Lastima esse fato a todo momento nas suas memórias. Se pudesse, erraria pelo sertão. No período de estudante de Direito assume posição contrária ao governo em Fortaleza (seu pai era amigo do governador do Ceará). Seu foco principal de acusações seriam as tradições liberais do Brasil. Atacava soldados e praticava atos contrários à ordem pública. Segundo Antônio Mello, seu sucessor na Academia Brasileira de Letras: “Mete-se em sociedades secretas e terroristas, que realizam sessões alta noite, quando a cidade dormia como uma pedra....nas quais prometiam libertar o Ceará e implantar o socialismo”8. Acreditava-se envenenado pelo espírito de análise do século XIX, que estaria mais de acordo com suas tendências de revolta e oposição. Um professor de francês ter-lhe-ia incutido o ódio pela burguesia, o amor ao proletariado e um grande anseio de justiça social que, segundo Barroso (em 1950), “não se acalmou no meu espírito...”9 Esse professor teria lhe dado a ler Bakunine e Lasalle, Proudhon e Karl Marx, que o teriam influenciado, como diz em suas Memórias. Marcado como oposicionista e terrorista, esperava ser surrado qualquer noite pela polícia: “Tomei providências para evitar isso. Refugiava-me nos consulados10, dormia em lugares diferentes, entrava por uma porta e desaparecia pelos fundos, não raro saltando muros. Isso forçou-me a andar à noite quase sempre disfarçado. Tornei-me mestre em percorrer as ruas como mendigo, embarcadiço ou capanga policial.”11 Seu gosto pelo uso da força física também levou-o a associar-se com um cobrador e “não havia devedor relapso que se agüentasse em nossas mãos.”12

Fundaria, enquanto estudante, em Fortaleza, uma República, o “Consulado Imperial da China”. As Repúblicas estudantis cearenses ligavam-se entre si por uma espécie de federação secreta que abrigava e dava fuga aos perseguidos da polícia, que “costumava procurá-los e surrá-los à noite, nas ruas mal iluminadas da cidade.”13 Seu biógrafo na ABL conta que: “Em vez de freqüentar clubes literários que aparecem em Fortaleza e fazer sonetos como a maioria dos colegas, prefere exercícios de esgrima, sendo mais dado à baioneta e ao sabre do que ao florete.”14

Embora suas tendências militares parecessem mais fortes que as científicas ou literárias, esse seu estilo contrastava com um outro aspecto de sua personalidade, que parecia mais sensível. Fazia desenhos para capas de livros, aquarelas, diplomas. Para ganhar a vida, ainda retocava retratos para um fotógrafo e dava aulas no curso primário e secundário. Trabalhava pintando cenários para teatro. Com o tempo, passou a freqüentar as rodas literárias e, nas reuniões políticas, faria discursos, passando a vestir-se com elegância. No esporte, escolheria a equitação.

No dia 11 de outubro de 1906, o jornal A República publicou seu primeiro artigo. Sob o pseudônimo de Nautilus, escreveu sobre o Descobrimento da América. Seria seu primeiro contato com a literatura histórica, a qual dedicou-se pelo resto de sua vida. Aos 21 anos de idade faria a sua primeira conferência pública numa sociedade literária. Durante essa fase de sua vida, dedicou-se aos estudos, alcançando notas altas, com distinção, na Faculdade de Direito do Ceará. Barroso teria pouco mais de 20 anos quando, em 1914, a Livraria Garnier deu-lhe a incumbência de traduzir Fausto de Goethe. A tradução, que foi publicada em 1920, mereceu elogios de Sérgio Buarque de Holanda. Segundo Barroso, não teria traduzido a 2ª parte porque o obrigaria “a meditar sobre tudo e sobre alguma coisa mais que tudo”15 Lia livros de todas as espécies, tanto em francês como em inglês. Admirava Alexandre Herculano e Eça de Queiroz e recitava Gonçalves Dias, Castro Alves e Bilac. Como jornalista do Jornal do Ceará adotou um estilo jornalístico irreverente, que ia do desprezo ao ridículo, da política ao humor. Em fins de 1907, fundou o jornal O Garoto. Acabaria precisando de segurança pessoal devido à quantidade de inimigos que arranjara com seus artigos e ações de força.

Tendo cursado a faculdade de Direito durante 3 anos – 1907 a 1908, viria concluir os estudos no Rio, onde chega em abril de 1910, fugindo das perseguições políticas e após um desentendimento com o redator-chefe do Jornal do Ceará, depois que este quis que modificasse um artigo seu, enxertando elogios ao candidato do governo cearense à Presidência do Estado. Seria considerado um dos elementos mais representativos da imprensa carioca, com a qual já vinha colaborando desde o Ceará, quando usava o pseudônimo de João do Norte, que tornou-o conhecido nos meios literários e folcloristas.

Fundador e criador do Museu Histórico Nacional em 1922 (por decreto do governo Epitácio Pessoa), Barroso permaneceria como seu diretor enquanto viveu. Durante os primeiros instantes pós-revolução de 30, o diretor foi destituído das suas funções e exonerado do cargo, por motivos políticos. Foi exilado por ter sido considerado contrário ao chamado espírito revolucionário. Barroso protestou, declarando que havia sido nomeado em caráter efetivo, e que tinha anos de serviço sem licenças ou férias. Esta condição garantiria a sua vitaliciedade. Acrescentara que seria uma exoneração injusta, contra um funcionário que sempre soubera cumprir o seu dever com honestidade e dedicação. A imprensa o apoiou e ele acabou sendo reconduzido ao cargo. Quando, por limite de idade, seria aposentado compulsoriamente, a solicitação de um grupo de intelectuais fez com que o governo o mantivesse na função. Prosseguiu como diretor do Museu até a sua morte.

Conseguiu alcançar a cadeira 19 na Academia Brasileira de Letras aos 34 anos de idade, depois de inscrever-se várias vezes nas vagas oferecidas pela instituição. Barroso foi eleito em 8 de março de 1923 (23 votos), concorrendo com o historiador Rocha Pombo (7 votos). Era o mais jovem dos imortais e seria, por 3 vezes, presidente da Academia. O fardão da Academia e as condecorações substituiriam, de alguma forma, o uniforme sonhado de Almirante. Quando foi eleito, já trazia no currículo os cargos de Secretário do Interior e Justiça do Ceará, depois deputado federal, partindo como secretário da Embaixada para a Conferência da Paz, sob a direção de Epitácio Pessoa, em 1919. Também fora inspetor escolar, função que deixou quando passou a diretor do Museu Histórico. Já tinha publicado 17 volumes, entre os quais 3 traduções editadas em Paris: Fausto, de Goethe, Lições de Moral e Vocabulário das crianças todos de 1920. O seu primeiro livro é Terra do Sol, de 1912. Viriam depois: A Balata; Tradições Militares; Ronda dos Séculos; Casa de Maribondos; Ao Som da Viola; Coração da Europa e Mula sem cabeça. Traduzira Tratado de Paz da época em que faz parte da Missão Epitácio Pessoa na Europa. Uniformes do Exército e Pergaminhos seriam publicados em Paris em 1922. Também é importante a sua obra sobre guerras e seus heróis brasileiros: Guerra do Videu (Campanha Cisplatina – de 1825 a 1828); Guerra do Flôres (Campanha do Uruguai – de 18864 a 1865; Guerra do Artigas (campanha das Missões em que se cruza o Uruguai para atacar São Bórgia); Guerra do Lopez (Guerra do Paraguai); O Brasil em face do Prata; História Militar do Brasil; Tradições Militares. E as biografias: Caxias; Osório, o Centauro dos Pampas; Tamandaré, o Nelson Brasileiro. Suas obras falam do passado e, principalmente do Ceará, do caboclo, do sertanejo. Enfatizava, no regional, o caracter nacionalista. No Rio, Barroso escrevia também para o Jornal do Commercio, para as revistas: Fon-Fon; Seleta; Ilustração Brasileira; na A Manhã e no O Cruzeiro, no qual teve a sua crônica semanal durante anos seguidos, que ainda prosseguiu meses depois de sua morte, tanta era a sua produção.

Do encontro de Barroso com os acadêmicos e intelectuais do Brasil durante quase 4 décadas, ficaram as seguintes impressões: para Antônio Mello, seu sucessor na AIB, ele lhe havia causado uma impressão desagradável à 1ª vista: “já à vontade dentro do seu sucesso e da sua glória, membro da Academia e intelectual de grande renome. Ares importantes, decisivos, dominadores...”. Aldemar Tavares o teria comparado às juremas do Ceará, “que podem ter espinhos, mas também quanta flor”. Segundo Herman Lima Barroso era um “homem cordial” (...) espadaúdo, o peito aberto numa altaneria de gladiador...”. Para Peregrino Júnior: quando presidente da Academia, Barroso era leal, tolerante, delicado. Compreensivo, bem educado, “um autêntico democrata, apesar de suas fumaças totalitárias”. Austregésilo de Athaíde, que o conheceu desde menino, como aluno de Seminário de Fortaleza, o vira montado em alazão “visão romântica de inesquecível beleza” para os noviços. O autor de Terra do Sol, João do Norte, lhes parecia um triunfador. Tristão de Athaíde achou a sua obra vibrante e variada . Pedro Calmon, que o conheceu muito o via como “um fracassado nas aspirações terrenas e um glorioso nas aspirações espirituais. (...) Barroso era aparentemente um ‘teutão’, mas no íntimo um sertanejo, bom, grande, generoso.”16



Renunciou à presidência da ABL em um momento em que encontrava-se numa situação confortável, tanto na Academia, quanto no Museu Histórico por estar já bastante envolvido com a AIB. Era escritor conhecido, com número de publicações razoável, ao empreender a campanha integralista. A Barroso, como membro do Conselho Supremo, coube o comando do Departamento de Milícia, cuja divisão espelhava-se na da guarda romana com suas centúrias, e decúrias. Parecia viver, segundo Mello, “aquelas velhas tendências infantis, quando cometia tropelias, dando-lhes não raro aspectos de vingança justiceira. Agora, ia bater-se pela Pátria, por Deus e pela Família, movido por antigos engramas do passado.”17 Sua obra, preponderantemente, passa a ser sobre a questão integralista e sobre a sua redescoberta do catolicismo: O que o integralista deve saber; A palavra e o pensamento integralista; Integralismo e Catolicismo; Integralismo de Norte a Sul; Integralismo em marcha; O Integralismo e o Mundo; Corporativismo, Cristianismo e Comunismo. Para Mello, “A sua adesão ao integralismo é quase uma tropelia para espantar burgueses e reviver sensações das suas terríveis brincadeiras infantis.” Suas obras contêm violentos ataques aos judeus, aos maçons e aos comunistas que vê como congregados numa força política, social e econômica que domina o Brasil e outras nações. Seus livros mais representativos desta sua tendência são: Brasil colônia de banqueiros; Sinagoga paulista; Reflexões de um bode; Judaísmo, maçonaria e comunismo; A maçonaria, seita judaica e uma edição d’Os protocolos dos Sábios de Sion. Para Barroso, o judeu, o maçom e o comunista seriam responsáveis por todos os males. Seria tarefa do integralismo combatê-los extirpá-los. A sua preocupação maior seria a de descobrir o judeu, o maçom, o comunista, escondidos ou disfarçados em todas as atividades. Para Mello: Parece ter sido essa uma das grandes armas do integralismo, que Barroso manobra com aquela fúria com que atacou com um garfo de jardim o luso que chicoteava crianças brasileiras. O nacionalismo transforma-se em integralismo e assim ataca José Américo como comunista, Armando Salles e os Roosevelt como judeus, pouca gente de valor, do passado e do presente, deixando de ter sangue semita.18

Gustavo Barroso defendia posições anti-semitas e sob a alegação da pretensa superioridade do aporte civilizatório da raça branca sobre as demais, o que a credenciaria como a fundadora do Império do Carneiro 19 Este distinguia-se, como império de Áries (dos arianos), segundo Marcos Chor Maio, por seu aspecto totalizador: “guiado pela moral e pelo saber e preservava um ordenamento econômico, social e político considerado ideal.”20 O Império Ariano teria sido destruído no desencadear da história da humanidade sendo alterada pela influência do materialismo dos judeus, contido no período do mercantilismo, no Renascimento e no Iluminismo. Seria preciso, para Barroso, superar as etapas materialistas e construir uma nova sociedade: o 4º Império. Ao escrever as últimas palavras de seu livro O Quarto Império, publicado em 1935, proclama uma profecia: “Os dias são chegados do reinado do Cordeiro Divino que resgatou os pecados do mundo: Cristo vive! Cristo reina! Cristo impera! E a glória infinita de Deus resplandecerá na Unidade Espiritual dos Povos! Amém.” Barroso inclinar-se-ia para uma visão de sociedade na qual o cristianismo totalitário supostamente deveria encerrar todos os conflitos, congelar o tempo e uniformizar os homens em torno de um ideal comum. Nas épocas estabelecidas nesse esquema, o materialismo e o espiritualismo21 se revezariam e se contraporiam e também se conciliam no caminho percorrido pela humanidade. Esse caminho estaria dividido em três etapas (cada uma delas dominada por uma civilização): a da Humanidade politeísta – signo da adição; da Humanidade monoteísta, a fusão; e a Civilização ateísta a da desagregação. As três civilizações não corresponderiam “a um período histórico singular, dotado de lógica própria e claramente desvinculado dos outros. Em vez disso estas três civilizações irão sempre se sobrepor, marcando presença, simultaneamente, em todos os momentos da atividade humana. Ainda que uma delas possa, por um certo tempo, sobrepujar as outras, estas nunca desaparecem por completo, mantendo continuamente alguma influência sobre o comportamento dos homens22 A posição que assumiria no integralismo seria a de uma restauração buscada pela neutralização ou pela liquidação dos únicos culpados dos males materialistas da humanidade, os judeus. Para o Chefe das Milícias, o cristianismo, que conseguira congregar várias etnias que abandonaram suas heranças culturais, não “teve condições de convencer uma raça singular, de origem oriental, a seguir o exemplo das demais.”: a judia “que impulsionada por anseios materialistas, comandou a dissolução do espiritualismo medieval, criando a modernidade, o capitalismo e o comunismo, símbolos máximos do seu domínio sobre a humanidade.”23 A revolução de Barroso, para Vasconcellos, portanto, reduziria–se “darwinisticamente, a uma competição entre hebreus e cristãos, tornando–se, mais ou menos como no nazismo, uma ‘revolução anti–judaica’. Consequentemente, o conteúdo que ele vai emprestar ao conceito de mobilização diferirá sensivelmente do de Salgado, pois, em vez de importar num elogio de valores como a novidade e a esperança, irá confundir–se coma idéia de vigilância e com o sentimento da suspeita, armas indispensáveis para se derrotar a conspiração judia e se restabelecer o império do espiritualismo.”24

Essa análise mais psicológica que filosófica da obra de Barroso deve-se ao fato de suas preferências pelo militarismo, pelo uso da força física, como fonte de poder, terem caracterizado o homem e o militante durante toda a sua vida. Não é a toa que, por trás dos ataques terroristas a comunistas e a outros desafetos da AIB, estivesse, na maioria das vezes, o nome de Gustavo Barroso envolvido. Também não podemos deixar de refletir sobre a posição que ocupa hoje as suas obras na tentativa de reorganização da AIB atualmente. Os textos anti-semitas e ultra-nacionalistas do falecido chefe das milícias ocupam a maioria das edições dos periódicos lançados pelo movimento hoje, enquanto que essa façanha, de 1932 a 37, pertencia ao chefe Salgado.



Depois de o integralismo ter sido condenado por Vargas ao ostracismo, Barroso, aparentemente também fechou-se em sua concha, vivendo a sua vida de diretor do Museu Histórico e tomando o chá acadêmico. Morreu em 3 de dezembro de 1959. No seu enterro, a solenidade que sonhara. Segundo Mello, “um soldado dos Dragões da Independência, no seu grande uniforme, do alto de um túmulo, fez soar o clarim, dando o toque de silencio. Ali estava o soldado com que ele havia sonhado, paramentado com seu uniforme que fora a sua criação!”25


1 FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir – História da violência nas prisões. Petrópolis: Vozes, 1977, p. 29.

2 Nele constava: “Comunico-vos que o Senhor Ministro da Guerra por ato de dia vinte e dois de junho do corrente ano aprovou o uniforme escolhido por essa coletividade, conforme os documentos por vós apresentado. Assinado Tenente-coronel Athanásio Loureiro da Silva. Tenente Coronel Chefe.” O Ministro era o general Góis Monteiro.

3 TRINDADE, Hélgio. Integralismo – o fascismo brasileiro na década de 30. SP/RJ: DIFEL, 1979, p.180.

4 Acervo do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro: Documentos no. 4750 e outro sem indicação da Deutscher Fichte-Bund e V (União Propagadora da Verdade Mundial). Carta a Raimundo Martins Filho, sobre recebimento de panfletos e sua distribuição. A carta faz referência à admiração de Barroso pelo nazismo.

5 SILVA, Hélio. 1938 – Terrorismo em campo verde. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

6 Discurso do Sr. Antônio da Silva Mello. In Discursos Acadêmicos 1960 –1962- Vol. XVII. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras,1971, p. 31.

7 Ibidem, p. 31.

8 Ibidem, p.77.

9 Ibidem, p.67.

10 Repúblicas de Estudantes. Consta nas Memórias de Barroso que ele teria sido o primeiro a dar o nome de Consulado a uma “República” em Fortaleza.

11 Discurso: Op. cit, p.54-55.

12 Ibidem, p.52.

13 Ibidem, p.53.

14 Ibidem, p. 57

15 Ibidem p. 81.

16 Ibidem, p.72-73.

17 Ibidem, p.111.

18 Ibidem, p.102

19 MAIO, Marcos Chor. “Nem Rotschild nem Trotsky”- O Pensamento Anti-semita de Gustavo Barroso. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

20 Idem, ibidem, p. 107.

21 Tanto o Materialismo quanto o Espiritualismo, para Salgado e Barroso, funcionariam como chaves da história como conceitos em condições explicativos de qualquer situação ou evento. Para Vasconcellos, o contraste entre os pensamentos de Reale, Salgado e Barroso, poderia ser estendido quase indefinidamente: O primeiro, não trabalhando conceitos chave, esforçaria-se por definir historicamente um perfil singular para cada civilização. O que não obedece à lógica e ao espírito da perspectiva totalitária. In VASCONCELLOS, Gilberto. Ideologia Curupira – Análise do Discurso Integralista. São Paulo: Brasiliense, 1979.

 SALGADO, Plínio. Psicologia da Revolução. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1934, p.14.

22 CHAUÍ. Marilena. Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira. In CHAUÍ, Marilena & FRANCO, Maria Sylvia Carvalho. Ideologia e Mobilização Popular. Rio de Janeiro: Centro de Estudos de Cultura Contemporânea/Paz e Terra, 1978, p. 146.

 Ibidem, p. 147.

23 Discurso:,Op. cit, p. 102.

24 ibidem, p. 109.

25 Discurso: Op. cit, p. 112.

X Encontro Regional de História – ANPUH-RJ



História e Biografias - Universidade do Estado do Rio de Janeiro - 2002




Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal