Mística de resistência: cultura política no Exército Zapatista de Libertação Nacional e no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Sebastião L. Ferreira Vargas



Baixar 167.63 Kb.
Página1/6
Encontro01.08.2016
Tamanho167.63 Kb.
  1   2   3   4   5   6
Mística de resistência: cultura política no Exército Zapatista de Libertação Nacional e no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
Sebastião L. Ferreira Vargas *

O objetivo deste artigo é tentar fazer algumas reflexões sobre a nova cultura política que atualmente emerge no campo latino-americano a partir do estudo comparativo de novos sujeitos do protesto social: o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN). Pela extensão e natureza mesma do trabalho, decidi fragmentar o texto em tópicos que me pareceram centrais para discussão.

O MST e o EZLN são organizações populares paradigmáticas do combate contra o capitalismo em sua versão neoliberal. Entender as raízes da rebeldia das populações do meio rural é tarefa básica de todos aqueles interessados na contestação e transformação da sociedade da exploração. Um olhar atento sobre esses movimentos sociais ajuda a compreender a história de resistência e rebeldia tão recorrentes na larga noche de nuestra america. Brasil e México são países que possuem histórias e cenários políticos muito diferentes. O MST e o EZLN também são organizações bem distintas. O primeiro é um movimento de massas presente em quase todo o imenso país e tem na luta por terra seu principal objetivo. O outro, apesar de apoiado pela imensa força das comunidades indígenas, é um exército guerrilheiro que tem como demandas explícitas nada menos que “democracia, liberdade e justiça” para o México. Até aí pouco que justifique uma comparação. Mas será somente isso? MST e EZLN tem uma história cronológica e “espiritual” muito semelhante. Sem dúvida, fazem parte da mesma família revolucionária. Sua base é constituída por gente do meio rural que sofreu um processo semelhante de exclusão social. Não é a toa que ambos identifiquem o neoliberalismo e seus efeitos no campo como adversário central. Ambos tiveram, na sua criação, uma mescla de militantes oriundos da esquerda revolucionária e elementos que trabalhavam sob a inspiração da teologia da libertação. São movimentos que tecem críticas às organizações de esquerda como partidos políticos, sindicatos e até mesmo outras forças guerrilheiras. Ambos tem na recuperação/valorização/hibridação da cultura tradicional uma componente essencial de sua estratégia política. Apesar de demandas específicas como os direitos e culturas indígenas ou a reforma agrária, estes movimentos desejam transformações mais profundas na sociedade. Valorizam e revitalizam os horizontes da utopia e da rebelião, tendo na ação direta e no diálogo franco com a sociedade seus principais meios de pressão.

A maior parte dos historiadores contemporâneos da cultura encontram dificuldades em operar com supostas categorias estanques e oponentes (por ex. cultura popular X cultura erudita, cultura de massas X cultura “autônoma”, cultura dominante X cultura de resistência, etc...) que estariam devidamente delimitadas e definidas. O problema é que as fronteiras entre essas categorias muitas vezes são difíceis, senão impossíveis, de se traçar. Esse fenômeno tem obrigado os historiadores a (re)pensar os complexos processos de hibridação, sobreposição e “mestiçagem” cultural se quiserem apreender a realidade de inúmeros fatos culturais do mundo atual. Exemplo disso são os modos que os novos movimentos sociais, no caso o zapatismo e MST, se relacionam com a cultura. Num momento que diversas posições “pós-modernas” declaram o desaparecimento, não somente daquelas categorias acima referidas, mas do próprio conceito de cultura, tido como insuficiente, seria interessante verificar nesses movimentos sociais qual seria a importância da cultura. No que ela consiste? Como se “utiliza” essa cultura? Em que ela se contrapõe à cultura dominante?

Um primeiro olhar sobre essas questões nos obriga a discutir profundamente as “hibridação e mestiçagens” culturais. Nesse campo muito pouca coisa é “pura”, e a mescla de tradições culturais aparentemente díspares aparece como uma constante. O caso do zapatismo é emblemático. Nele podemos discernir um complexo quadro de referencias aparentemente “dissonantes”, mas que constroem a própria essência, se é que podemos utilizar esses termos, do movimento insurgente. A construção e emergência do atual zapatismo é fruto de uma série de hibridações e “mestiçagens” que um olhar atento encontra semelhanças sejam cronológicas, sejam ideológicas com o surgimento, consolidação e ascensão do MST. Podemos elencar sumariamente elementos dessa semelhança:
 a valorização da cultura e os processos de hibridação cultural;

 a identidade na luta pela terra;

 a memória histórica e a recuperação de “mártires” e lutadores sociais (Emiliano Zapata, Pancho Villa, Hidalgo, Antônio Conselheiro, Zumbi dos Palmares, Che Guevara, Carlos Marighella, etc..);

 a influência da Teologia da Libertação;

 a importância do messianismo (mística), da mitologia e da “religião popular” (sincretismo);

 a incorporação difusa de várias ideologias revolucionárias (maoísmo, guevarismo, leninismo, anarquismo, etc...);

 a “vez dos valores”: a dignidade insurrecta, a utopia e a “alegre rebeldia”.
Novas culturas políticas
“O zapatismo não é uma nova ideologia política nem um cozido de velhas ideologias. O zapatismo não é, não existe. Só servem, como servem as pontes, para atravessar de um lado para o outro. Portanto, no zapatismo cabem todos, todos os que quiserem atravessar de um lado para o outro. Cada qual tem o seu e o outro lado. Não há receitas, linhas, estratégias, táticas, leis, regulamentos ou palavras de ordem universais. Há apenas um anseio: construir um mundo melhor, isto é, novo.”

Subcomandante Insurgente Marcos

“Nunca demos muita importância para as terminologias. Nós, não. Acho que é em decorrência disso que os anarquistas gostam da gente. Se a coisa não estiver dando certo, a gente desmancha e faz outra. Não tem nenhum compromisso burocrático.”



João Pedro Stedile, liderança do MST

Os novos movimentos sociais, em alguns sentidos mais próximos da tradição libertária, são ligados a formas de organização autogeríveis caracterizadas pela velocidade do aparelho e permitem aos agentes reapropriarem-se de seu papel de sujeitos ativos – sobretudo contra os partidos aos quais contestam o monopólio da intervenção política. Segundo traço comum: criam ou recriam formas de ação originais, em seus fins e seus meios, de forte conteúdo simbólico. Orientam-se para objetivos precisos, concretos e importantes para a vida social como terra, teto, saúde, educação, etc. para os quais empenham-se em trazer soluções diretas e práticas; e zelam para que tanto suas recusas como suas propostas se concretizem em ações exemplares, diretamente ligadas ao problema em questão e exigindo um forte engajamento pessoal dos militantes e responsáveis, que, em sua maioria, viraram mestres na arte de criar acontecimentos.

Falar de cultura política é tratar do comportamento de indivíduos nas ações coletivas, dos conhecimentos que os indivíduos têm a respeito de si próprios e de seu contexto, dos símbolos e linguagem utilizados, bem como das principais correntes de pensamento existentes1. É importante observar que a cultura é um campo não homogêneo envolve também o conflito. Na prática cotidiana, os conflitos no interior das organizações sempre revelam discrepâncias e revelam visões de mundo e expectativas diferenciadas, por exemplo entre o MST e os assentados quanto ao modelo cooperativo/coletivo e no EZLN entre guerrilheiros e comunidades temerosas dos efeitos brutais da repressão e violência estatal e para-militar.

É comum encontrar na literatura especializada lado a lado as siglas do EZLN e do MST como paradigmas dos chamados “novos movimentos sociais”. Essas comparações, por vezes superficiais, geralmente baseiam-se no fato de ambos movimentos articularem, no seu discurso, críticas aos efeitos perversos da globalização neoliberal. Além disso, se sublinha seu apelo e capacidade mobilizadora para com os excluídos dessa nova modalidade de expansão do capital.

Com efeito, o levantamento do EZLN e as ações praticadas pelo MST são, basicamente, rebeliões (cuidadosamente organizadas) dos excluídos 2– num contexto onde exclusão social aparece como um dos fatores dominantes da “política neoliberal” em escala global.

Desse modo, um dos conceitos-chave para compreensão tanto dos discursos quanto das ações desses movimentos, gira em torno do termo exclusão social. Perdidas as terras, perdido o trabalho esses atores sociais estão condenados ao mesmo processo brutal de perda da sua identidade. É essa recusa desesperada de aceitar tal destino e a conseqüente formulação de projetos sociais alternativos, que engendra a originalidade das formas de organização e resistência contra uma modalidade de “desenvolvimento” que prescinde do homem. As rebeliões das populações rurais marginalizadas, de ontem e do hoje, e em toda América Latina aparecem como gestos coletivos, materiais e simbólicos cujo conteúdo, na maioria dos casos, pode ser encontrado na vontade dessas comunidades em persistir no seu ser. Se revoltam e se organizam para resistir, porque somente a resistência é possível frente ao movimento do mundo que dissolve e nega esse ser.

Assim, tanto a oposição dos zapatistas quanto a dos camponeses sem-terra brasileiros à nova ordem global tem duas faces: eles lutam contra as conseqüências excludentes da modernização econômica, e também opõem-se à idéia de inevitabilidade de uma nova ordem geopolítica sob a qual o capitalismo, e seus valores e subculturas, tornam-se universalmente aceito. Dito de outra forma, tanto o zapatismo quanto os sem-terra brasileiros percebem que a batalha a ser travada não é somente por terra e sim por uma nova forma societária, ainda que não saibam ao certo qual. Sob esta ótica é que se pode falar de modo mais amplo de cultura de resistência.

Se observarmos as linhas gerais dessa nova cultura política provinda desses movimentos sociais, podemos apontar seus pontos convergentes:





  1. Protagonismo da sociedade civil em detrimento do estado, partidos políticos e política tradicional. Crítica ao estatismo e ao socialismo burocrático.

  2. Construção de um novo projeto, ou modelo, que supere o neoliberalismo e que resgata o caráter participativo da política, numa democracia radical.

  3. A dificuldade teórica e prática de construir um modelo hegemônico alternativo onde o poder provenha de baixo, controlado diretamente pela cidadania organizada.

  4. A utopia e a crença na possibilidade de um “novo mundo”, com novos valores de convivência, não-exclução, respeito à diversidade, aliança e construção de redes solidárias.

Muitos dos lemas zapatistas, de grande originalidade, ilustram muitos dessas linhas gerais referidas:


Mandar obedeciendo: a democracia direta com os processos de consulta consensual nas comunidades.

Preguntando caminamos”: a liberdade da palavra, do pensamento crítico e da imaginação. A paciência para organizar-se, a riqueza da memória, a valorização do diálogo e da reflexão.

Um mundo onde caibam vários mundos”: a união na diversidade. A intenção de formar amplas redes de resistência e de construção do mundo novo, capazes de enfrentar e ir descontruindo as redes da dominação até seus últimos vazos capilares.

Para todos todo, nada para nosotros.”: A descrença na política tradicional e partidária. O fortalecimento de uma sociedade civil livre, democrática e vigilante. A valorização da utopia e esperança.

E ainda:

Servir y no servirse.

Representar y no suplantar.

Construir y no destruir.

Obedecer y no mandar.

Proponer y no imponer.

Convencer y no vencer.

Bajar y no subir.
Todos esses lemas zapatistas possuem identidade com a proposta do MST de “saber ocupar espaços”: os espaços do latifúndio, da cultura e da política num processo de construção de um poder popular alternativo que tenha como objetivo solucionar os grandes problemas da maioria da população. Talvez o lema mais radical do MST e que resume bem essa postura seja o famoso “OCUPAR, RESISTIR E PRODUZIR”.
Ideologias rebeldes
A ideologia desses novos movimentos sociais é, para falar em termos zapatistas, escorregadia para definições. Não podemos mais falar, como antigamente, de “uma” ideologia rígida e determinante que levaria o “único” partido conduzido por “um” líder ou timoneiro ao futuro certeiro. Ao que parece, a lógica política de vários novos movimentos sociais, não é mais unitária e sim múltipla, ou como dizem misticamente os zapatistas, representa a lógica dos “setes”: é variada e não singular.

Os próprios termos revolução e revolucionário aparecem matizados, principalmente no discurso zapatista. O subcomandante Marcos, líder militar, ideólogo e voz oficial do movimento gosta de assinalar o caráter “rebelde” do movimento em oposição aos “revolucionários”:


“Nós nos definimos mais como um movimento rebelde que luta por mudanças sociais. O termo “revolucionário” não é tão apropriado porque todo dirigente ou movimento revolucionário tende a querer se tornar dirigente ou ator político. Enquanto que o rebelde social não para nunca de ser um rebelde social. O revolucionário quer sempre transformar as coisas a partir de cima, enquanto o rebelde social quer transformá-las a partir de baixo. O revolucionário se diz: eu tomo o poder e, por cima, eu transformo o mundo. O rebelde social age diferente. Ele organiza as massas e, a partir de baixo, ele transforma pouco a pouco as coisas sem se colocar a questão da tomada do poder. O EZLN é um movimento insurrecional sem ideologia estritamente definida. Ele não corresponde a nenhum dos tipos políticos clássicos: marxismo-leninismo, social-comunismo, castrismo, guevarismo, etc. Nós pensamos que os movimentos revolucionários, mesmo os mais revolucionários, são no fundo arbitrários. O que deve fazer um movimento armado é resolver um problema – falta de liberdade – e depois sumir. Como nós tentamos fazer atualmente.” (Ramonet, 2001 – tradução do autor)
Essa forte crítica ao termo e prática revolucionário não deixa de ser uma das ambigüidades do movimento, pois não é o subcomandante Marcos quem assina os comunicados do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comandância Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional (CCRI – CG)?

Talvez um olhar para as origens ideológicas do atual EZLN ajude a compreender esse certo “ressentimento” do subcomandante com o clássico pensamento revolucionário. O EZLN representa a fusão de três elementos: um movimento indígena organizado e politizado com lideranças experientes e muitas vezes de inspiração maoísta; o imenso trabalho de conscientização política de catequizadores e educadores inspirados pela Teologia da Libertação e o núcleo guerrilheiro, instalado em Chiapas desde 1983, que fazia parte de uma organização mais antiga e de porte nacional: as Forças de Libertação Nacional. Nos estatutos da FLN pode-se encontrar a opção pelo socialismo, que Marcos e os atuais zapatistas tendem a matizar, bem como referências à “ditadura do proletariado”, ao “combate ao imperialismo estrangeiro” e outras fórmulas do mais tradicional jargão revolucionário-comunista típico dos anos sessenta e setenta. Uma das interpretações da mudança de discurso e orientação ideológica do movimento assinala que o contacto desse núcleo guerrilheiro, branco, de origem urbana e na maior parte universitário, com os indígenas chiapanecos forçou uma guinada ideológica pela simples razão de que seu esquema interpretativo e revolucionário não ‘colava’ com os índios. Foi a partir desse encontro, cujo símbolo é o Velho Antônio, que os guerrilheiros tiveram que parar de falar e começaram a ouvir, abandonando vários dos clássicos esquemas interpretativos provindos do marxismo revolucionário e incorporando as práticas organizativas e o pensamento indígena. Ao que parece essa guinada e subordinação “indigenista” causam turbulências nas FLN provocando o abandono de vários componentes da guerrilha. De qualquer forma é desse “sincretismo político” que mescla ideologias revolucionárias de tradição comunistas, como maoísmo e o guevarismo, com a tradição organizativa e ‘cosmovisão’ indígenas que se forma lentamente a atual insurgência zapatista. Esse incorporação da contribuição do elemento indígena, que por exemplo tanto contribuem para a bem-sucedida fórmula dos comunicados zapatistas, tornou a orientação ideológica do movimento indeterminada e em muitos sentidos mais próxima da tradição libertária: autogestionária, crítica ferrenha do estado e dos partidos políticos, valorizando mais a rebeldia social do que a revolução política. O próprio subcomandante Marcos que já se disse “culpado pelo crime da anarquismo”. O quanto essa aparência reflete uma postura real e quanto de imagem e função tática ela tem é algo difícil de dizer. Muito da solidariedade internacional ao zapatismo é oriunda de círculos de algum modo ligados ao pensamento libertário e ao anarquismo.

É interessante notar que dirigentes e intelectuais que falam em nome do MST temem a associação com o anarquismo, se é que podemos extrair clareza desse termo. Muitos ao contrário, consideram o MST uma organização anárquica, porque, ao mesmo tempo que parece haver uma centralização nas decisões nacionais, quem detém o poder é o movimento nos Estados. Mas essa vontade de circunscrever e rotular movimentos de grande originalidade e enraizados numa tradição histórica própria de seu povo e lutas é muitas vezes puramente acadêmica. A democracia significa poder popular e não representação popular. Ou seja, a massa respeita seus representantes, mas estes devem estar entrelaçados com ela numa postura próxima ao que os zapatistas definem como “mandar obedecendo”. Os próprios militantes, por serem em quantidade significativa, se confundem com a massa. A não ser que afastemos do termo anarquia o corriqueiro sentido de ‘desordem’, ‘desorganização’ e ‘baderna’, há pouca razão para utilizar o termo, porque na organização há instâncias, comandos, setores, planos de ação, mas o poder está com esta estrutura local e estadual. A Direção Nacional cumpre a função de aglutinar as partes e fazê-las agir ao mesmo tempo, respeitando as características e condições de cada local. Mas a força de comando está com as lideranças locais.

O MST e seus líderes não escondem sua preferência pelo socialismo. Mas esse socialismo também é matizado diversas vezes como “socialismo cristão”, “humanista” ou “anti-burocrático”. Ao contrário dos zapatistas, que por diversas razões mantêm uma postura de afastamento para com o regime cubano e Fidel Castro, os dirigentes do MST não se cansam de elogiar seu modelo e referenciar o histórico da Revolução Cubana. Sempre falam dos revolucionários e da revolução com grande empatia e sentimento, como mostra um poema afixado em paredes do assentamento Pirituba em São Paulo e escrito por uma importante liderança do MST, Gilmar Mauro:


Ser revolucionário é CONJUGAR SENTIMENTOS, UTOPIA E RAZÃO

É resgatar toda MEMÓRIA dos que lutaram trazendo os sonhos em suas mãos

É dar seu ombro para derrubar todas as cercas, todos os muros

E edificar nesses escombros, mirando sempre pra o futuro

Vencer o inferno, vencer o ESCURO, com muitos terno, com poucos duro

E construir o homem novo, novos valores, um novo povo

Que possa ter eternamente a força interna para lutar, os sentimentos para sonhar

E novamente, sempre, até sempre revolucionar

Ser revolucionário é sobretudo, ser humano.
Numa entrevista de 1996, o líder sem-terra João Pedro Stedile ao ser perguntado sobre as influências ideológicas do MST cita uma profusão de nomes que dá bem a idéia de multiplicidade no movimento3:

Pensadores e textos como Lênin, Marx, Engels, Mao Tsé-Tung, Rosa Luxemburgo, James Petras, Marta Harnecker, o Evangelho, Josué de Castro, Manuel Correia de Andrade, Florestan Fernades, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Caio Prado Jr. Num outro bloco de pensadores, inspiradores e dirigentes: Leonardo Boff, Frei Betto, dom Pedro Casaldáliga, dom Tomás Balduíno, Luís Carlos Prestes, Ernesto Che Guevara, José Martí, Fidel Castro, Sandino, Emiliano Zapata, Nelson Mandela, Samora Machel, Amílcar Cabral, Patrice Lumumba, Agostinho Neto, Martin Luther King, Gandhi além de mencionar o respeito para com Antônio Conselheiro, Zumbi dos Palmares e Sepé Tiaraju.

Esse ímpeto de incorporar elementos considerados positivos e eficazes em diversas tradições (nem sempre revolucionárias) sem aparentes dogmatismo ou ortodoxia é que torna a identidade desses movimentos difícil de ser delimitada. É uma identidade camponesa/indígena/mestiça/negra/branca/eletrônica/tradicional/nacional/local/global “glocal”/terceiro-mundista/religiosa/revolucionária/plural/híbrida e dinâmica. Alguns a definem como “pós-identitárias”, o que não passa de um disparate ou, no melhor dos casos, um modo de falarem sobre si próprios. A identidade zapatista e a dos sem-terra, a comunhão de imaginários daqueles que fazem a guerrilha e as ocupações massivas de terra, foi forjada num duro processo de resistência e lutas coletivas.

  1   2   3   4   5   6


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal