MultieducaçÃo terceira Parte sumáRIo terceira Parte 12 As Disciplinas do Núcleo Curricular Básico



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MULTIEDUCAÇÃO

Terceira Parte
SUMÁRIO

Terceira Parte

12 - As Disciplinas do Núcleo Curricular Básico





  • Línguas Estrangeiras - Tantas Palavras




  • Matemática - Paratodos




  • Ciências “Com Ciência”




  • História “Navegar é Preciso”




  • Geografia “Descobridor dos Setes Mares”




  • Educação Física “Janela Sobre o Corpo”




  • Artes Cênicas “Agora Eu Era o Herói”




  • Artes Plásticas “A Gente Quer... Arte”




  • Educação Musical “Música no Ar”




  • O Enfoque Religioso Na Pluralidade Cultural


13 - MULTIEDUCAÇÃO Especial


  • A Educação Especial e o Núcleo Curricular Básico




  • O que são Necessidades Educativas Especiais




  • O Conceito de Adaptações Curriculares




  • Aspectos Importantes para Concretização da MULTIEDUCAÇÃO




  • Quantidade ou Qualidade?

As Disciplinas

Do Núcleo Curricular Básico

Língua Portuguesa
MINHA PÁTRIA, MINHA ALEGRIA

Fernando Pessoa





O GLOBO - 20 de junho de 1995.

Pobre Calvin!!! O que será que fez com que nosso personagem usasse de tantos artifícios e argumentos para não " fazer a redação "?


O que será que fez Calvin dissociar " fazer redação " do " prazer no ato criativo "?
É preciso repensar: afinal, se Calvin (como tantos outros " Calvins ") foi capaz de dizer com tanta ênfase e muita esperteza a sua palavra, por que não seria capaz de produzir, construir seu próprio texto escrito?
Estes quadrinhos nos levam a pensar que, na maioria das vezes, os alunos não encontram espaço para falar e escrever sua história de vida, seus desejos, seus valores, enfim, seus " disparadores " pessoais. Para muitos, a VIDA não entrou na escola, em sua sala, nas aulas onde a PALAVRA deve cantar, encantar, emocionar , criar inúmeros sentidos e significados.
Assim, é preciso que algumas concepções sobre Sujeito/ Língua e sobre o que deve e como deve ser ensinado/ aprendido em Língua Portuguesa sejam repensadas por todos nós, Professores de Língua Portuguesa.
Nosso aluno: como ele aprende se desenvolve e se constitui como pessoa. A Língua: como linguagem e seu papel na constituição dos Sujeitos e do pensamento humano. Língua não apenas como expressão do pensamento, simples instrumento de comunicação. Mais do que isto, como interação, como processo de diálogo entre interlocutores onde vários sentidos são criados produzindo nos diferentes sujeitos, situados em diversos espaços e tempos, variadas leituras textuais e contextuais.
Encontrar prazer no trabalho com a Língua, viver dela, tratá-la com tanta intimidade, sem medo, sem rancor, sem barreiras, deve ser tarefa de todos nós, seus falantes e usuários .
Sentir - se livre para falar, brincar, descobrir os mistérios das palavras... O texto e eu:

"Se olho demoradamente para uma palavra descubro, dentro dela, outras tantas palavras. Assim, cada palavra contém muitas leituras e sentidos. O meu texto surge, algumas vezes, a partir de uma palavra que, ao me encantar, também me dirige. E vou descobrindo, desdobrando, criando relações entre as novas palavras que dela vão surgindo. Por isso, digo sempre: é a palavra que me escreve.

Leia lentamente, por exemplo, a palavra janela, tentando encontrar novas palavras que nela estão debruçadas. Aí você verá como foi fácil escrever este DIÁRIO DE CLASSE"

Queiroz, 1992

Como o próprio autor reconhece, é a palavra que lhe escreve. Ela está acima de tudo. De objeto passa a SUJEITO, tal sua força.


Caetano Veloso , compositor baiano, por sua vez, considera uma variedade enorme de situações que o levam a escrever: cenas cotidianas, notícias, fatos reais ou imaginários, pessoas ilustres, etc. No entanto, reconhece que o prazer de brincar com o som das palavras (fonética) associado à possibilidade de criar novas palavras, outros sons e significados, prepondera sobre suas outras alternativas ao compor.
Na música LÍNGUA, não só Caetano faz uma referência a Fernando Pessoa, poeta português que tornou famosa a frase " Minha Pátria, Minha Língua ", como, através da simples troca de letras da palavra " pátria ", amplia suas possibilidades de significação, criando novas palavras, uma nova frase, trazendo à tona uma série de novos significados.( Delorme, 1994 )

A língua é minha pátria e eu não tenho pátria, tenho mátria e quero frátria ".

Inicia sua música dizendo do seu gosto de " roçar a sua língua na língua de Luiz de Camões " e, mais adiante revela sua paixão pelos sons das palavras:



Adoro nomes, nomes em " ã ", de coisas como rã, como imã, nomes como Scarlet Moom de Chevalier, Glauco Matoso, Arrigo Barnabé e Maria da Fé

Ítalo Calvino, complementa e enriquece estas " falas" dizendo que são as imagens que, nos momentos decisivos, submetem e regem a mente dos poetas e dos cientistas.



...é o processo de associação de imagens o sistema mais rápido de coordenar e escolher entre as formas infinitas do possível e do impossível. A fantasia é uma espécie de máquina eletrônica que leva em conta todas as combinações possíveis e escolhe as que obedecem a um fim, ou que simplesmente são as mais interessantes, agradáveis ou divertidas."

(1991, p.107)

Que espaço favorecemos em nossas escolas para que se toque na imaginação, na fantasia, na brincadeira com as palavras, a partir dos sentidos (individuais) para a construção de significados (coletivos)? Trabalhar com a Língua Portuguesa, brincar e criar com ela , descobrir o prazer de ser Caetanos, Bartolomeus, Ítalos. Ser o " dono " de sua Língua.


A proposta MULTIEDUCAÇÃO aponta para um novo olhar sobre teorias e práticas que subsidiam o universo escolar.

A sala de aula, local privilegiado para a construção de conhecimentos, conceitos, significados e valores, se constitui num espaço onde as diferenças de linguagens trazidas por crianças de diferentes meios culturais se fazem presentes. Trabalhar com a diversidade sem associá-la a julgamentos de valor, tanto relativos à superioridade quanto à inferioridade, é um dever do professor. É importante, também, o trabalho com as variadas possibilidades de transmissão cultural: músicas, brincadeiras, jogos, hábitos ressaltando a importância da linguagem escrita para a memória e vida das diferentes culturas."

( Delorme, 1994)
Este posicionamento pressupõe um enfoque de língua(gem) que respeita variantes lingüísticas utilizadas pelo sujeito, por levar em conta a situação de uso. O ensino de nossa Língua, no entanto não deve ficar restrito, somente, à língua que os alunos já dominam. Cabe à escola levá-los a compreender que o discurso reconhecido " como padrão " pela sociedade, eqüivale ao discurso do aluno, do ponto de vista da expressividade e da comunicabilidade. Assim, o aluno não ficará bloqueado; ao contrário, irá se sentir mais livre e seguro para se expressar, tanto oralmente quanto por escrito. Será, enfim, mais espontâneo e consequentemente mais produtivo.
A preocupação com a " forma ", necessária e importante, não pode ignorar as raízes culturais ou aprisionar a fantasia, a imaginação, a brincadeira com a palavra dita, desenhada, dramatizada, imaginada e, também, escrita.
O trabalho com a Língua, com a Palavra... O prazer de criar e de se comunicar. A apreensão/ compreensão da Língua no uso do dia - a - dia, nas alternativas de compor novas palavras, novos significados, outros tantos textos...
Nossos alunos precisarão se sentir livres para imaginar, para dialogar e compartilhar notícias, desejos, histórias; precisarão que lhes oportunizem a descoberta de seus " disparadores próprios " para a linguagem escrita. Assim, certamente, o trabalho com a Língua Portuguesa não poderá ficar restrito às questões ortográficas, sintáticas, às concordâncias etc... e, sim, facilitar a descoberta do que há de mágico na leitura/ escrita.
E o caminho para esta descoberta passa, necessariamente, pelo convívio e pela apreciação dos bons textos escritos por nossos poetas, romancistas, jornalistas, historiadores, autores de livros técnicos e científicos, críticos, cronistas, redatores e todos aqueles que, cotidianamente, abrem para nós as portas do mundo da escrita.


Línguas Estrangeiras
TANTAS PALAVRAS

Caetano Veloso

O mundo vive em permanente transformação e, consequentemente, mudam a vida, os valores, os hábitos, os projetos, os desejos e as necessidades humanas. Novas idéias e linguagens surgem, se entremeiam e vão sendo apropriadas por nós ao longo de nossas vidas.


E o ensino/ aprendizagem de línguas estrangeiras nas escolas públicas do Rio de Janeiro, mudou também?
Quem não se lembra da ênfase dada à gramática e à memorização de listas de vocabulários? E a crença nos métodos áudio - visuais e áudio - orais?
Estas perspectivas e outras mais, ainda estão presentes no nosso cotidiano de professores. Elas contam nossa história, nossas constantes tentativas de vencer a tradição, desvendar o novo, pensar em soluções para problemas que ainda persistem, enfim, abrir janelas para o mundo de modo a estabelecer um diálogo atualizado com a realidade de nossos dias.
Uma das características do mundo contemporâneo é o estreitamento de culturas, através da disseminação do saber, da arte e da tecnologia, através da comunicação, cada vez mais facilitada e ampliada, entre diferentes povos. Parece que a cada dia uma linguagem comum aproxima mais e mais as pessoas, seja pela via da arte, da tecnologia, da política, das formas de viver, agir e pensar.
As crianças e jovens cariocas, brasileiros e de diferentes partes do mundo se defrontam, cotidianamente, com uma série de palavras e expressões de outras línguas que, muitas vezes, já estão incorporadas ao seu vocabulário. Os hot- dogs, as madames, as big- cokes, os abajures, os purês de sabores variados, petit-pois, hamburgers, etc, já estão incorporados aos hábitos dos brasileiros e nos mostram influências marcantes da língua e da cultura inglesa, francesa e italiana na nossa cultura. As línguas estrangeiras estão presentes no nosso dia- a- dia e tomamos contato com elas de diferentes formas: pela televisão, pelo rádio, nos jornais, nos out- doors, nos computadores, nos vídeo- games, manuais, músicas, etc. Este contato permanente acaba por despertar o desejo de desvendar os mistérios destas outras línguas, o desejo de conhecer estas "tantas palavras", a vontade de acessar novos saberes.
No entanto, o ensino de Línguas Estrangeiras deve buscar a superação da leitura incidental e da linguagem informal que nossos alunos fazem cotidianamente, dando maior ênfase ao trabalho com o texto escrito. Assim, estará o professor articulando a multiplicidade de linguagens presentes no mundo atual com que precisa ser aprendido/ ensinado.
A escola precisa ouvir os percursos do desejo dos alunos para aprender as línguas estrangeiras, da mesma forma que deve proceder com a nossa língua materna, de maneira a revestir de sentido e de significação o trabalho que desenvolve nestas áreas.
Diz a revista Veja, em 19/04/95, p. 106:

"(...) às vésperas do terceiro milênio, as diferenças entre os jovens desapareceram. Pela primeira vez na história da humanidade, existe uma geração que, em escala planetária, sob o bombardeio de uma onipresente indústria cultural e extraordinário acesso à informação, sente, quer, veste, ouve e vê as mesmas coisas"

Partindo deste contexto e da compreensão de que vivemos num mundo pluri e intercultural é preciso que a escola esteja sintonizada com seu tempo, vivendo crítica e criativamente todo este "bombardeio de informações " e de diferentes formas de expressão e de linguagem. O ambiente escolar precisa favorecer aos alunos uma apropriação crítica e criativa de todas estas formas de expressão e de linguagens contemporâneas, estabelecendo um diálogo permanente entre a nossa cultura, nossa identidade como cidadãos cariocas e brasileiros e as múltiplas influências dos demais povos e culturas, de modo a construir conhecimentos, conceitos e valores valiosos para a vida nos dias de hoje e para a sociedade do futuro.




Matemática
PARATODOS

Chico Buarque

No livro Cem Dias entre o Céu e o Mar, o poeta - navegador Amir Klink conta:



"Eu conseguira, enfim, uma posição pelo sol, que foi recalculada uma dúzia de vezes. Colocava-se a 115 milhas de Lüderitz, mas a somente sessenta milhas da costa. Não era um mau resultado em cinco dias, considerando o tempo e a adaptação a uma vida que ainda me era estranha - mas precisava melhorar o rendimento. Nesse ritmo eu chegaria ao Brasil em 140 dias, quando planejava gastar 109 apenas."

Eu levava provisões para pelo menos 150 dias, mas, honestamente, não tinha planos de passar um mês a mais no mar. Ao mesmo tempo, era urgente aumentar esta distância da costa. Se entrasse uma tempestade de oeste por mais três dias, minha situação se complicaria bastante. Resolvi tomar uma atitude enérgica.

Até então eu remava sem um horário determinado, de acordo com minha disposição e vontade, e observei que o maior problema de passar oito a dez horas nos remos não estava no esforço físico necessário - eu remava num ritmo lento e equilibrado, e só no dia anterior havia acumulado mais de dezesseis horas de trabalho - mas apenas em fazer que as horas fluíssem. Havia horas, no fim do dia, que consumiam séculos para passar."

(1985: 37 - 38)

Este brasileiro criado em Paraty, cidade histórica do Estado do Rio de Janeiro, viajou por vários lugares do mundo, pelo mar. Nesta viagem, diferentes conhecimentos foram utilizados integradamente para tornar possível o seu projeto.


Quantos conhecimentos matemáticos construídos fora e dentro da escola se articularam para atender às necessidades dessa viagem? Quantas hipóteses foram levantadas no seu planejamento para que a mesma fosse um sucesso?
A íntima relação existente entre a matemática e a vida pode ser percebida, através dos seus usos, funções e possibilidades. A cada dia o modelo de matemática infalível, distanciada da intuição, da experimentação e da realidade está sendo questionado mudando, assim, a sua própria natureza e imagem construída ao longo dos tempos.
Contrapondo-se à concepção de ciência neutra, desvinculada do modo como as pessoas a usam, surge a interpretação da matemática enquanto conhecimento intrinsecamente ligado à cultura. Sob esta ótica, passa a ser considerada como uma construção social e, como tal, vinculada aos interesses e necessidades do homem.
A partir deste enfoque, uma nova concepção, que considera os conhecimentos e valores sócio- culturais dos alunos, surge com uma abordagem conhecida como: etnomatemática.
A etnomatemática caracteriza-se por analisar as influências de fatores sócio- culturais sobre a matemática, identificando verdades e técnicas como um produto cultural. Baseia-se na investigação das práticas matemáticas de um grupo social e na sua utilização em situações da vida real, tornando a matemática algo vivo e atraente para os alunos, "PARATODOS", de diferentes séries, escolas, etnias, classes sociais, etc ...
É importante pensar a matemática sob dois enfoques básicos: como "ferramenta" e como ciência abstrata generalizadora. Estes dois enfoques se complementam, constituindo-se em alicerce para que a relação entre a matemática e a vida se estabeleça, dando sentido ao seu ensino/aprendizagem. A matemática tem que ser interpretada enquanto conhecimento intrinsecamente ligado à cultura e à construção social, como tal, vinculada aos interesses e necessidades do homem.

Os conhecimentos matemáticos construídos através da intuição, da experimentação e da aplicabilidade têm que ser trabalhados para que os alunos cheguem ao processo de abstração e de generalização, reconhecendo-os e aplicando-os em situações diversas, quando então o processo de aprendizagem, estará "acontecendo".


A matemática não pode ser entendida como uma ciência neutra e hermética. Seus usos, funções e possibilidades transcendem à própria matemática, sendo utilizada como ferramenta para a vida e o trabalho: como linguagem, como forma de raciocínio e como instrumental para outras ciências.
Não podemos, entretanto, deixar de refletir a respeito da necessidade do aluno estabelecer a articulação entre o saber popular e o saber acadêmico e universal, construindo, assim, a síntese dos diferentes saberes, que transcendem o saber popular e que poderão ser utilizados para resolver situações reais, como as descritas pelo viajante Amir Klink e as nossas do dia- a- dia.


Ciências
COM CIÊNCIA

Rodolpho Caniato
Ide, ide de mim

Passa a árvore e fica dispersa pela natureza

Murcha a flor e seu pó dura sempre

Corre o rio e entra no mar e sua água é sempre a que foi sua

Passo e fico, como o Universo.

Fernando Pessoa

É sempre encantador nos depararmos com as diferentes leituras e linguagens utilizadas pelos homens na sua tentativa constante de apreender os fenômenos naturais. Essa tentativa, tal como na poesia de Fernando Pessoa , não é apenas a de dar ao mundo natural um significado humano, mas de perceber o significado do ser humano neste mundo.


Nesse movimento permanente de busca de nossa humanidade, lutamos contra a força do hábito; todos temos a possibilidade de estranhar, com uma certa dose de curiosidade, os significados "prontos" das coisas ao nosso redor . É desse estranhamento que surge a Arte! É desse estranhamento que surge a Ciência!
Embora a ruptura entre a ciência e a arte ainda se apresente para muitos como um dos critérios básicos de cientificidade, a ciência como um processo inventivo, criativo, não prescinde, tal como na arte, de uma luta árdua contra a força do hábito. Fazemos esta afirmação recorrendo não apenas a Fernando Pessoa e outros artistas, mas a Galileu, Kepler, Darwin, entre tantos cientistas que enfrentaram esta força imposta pelas instituições que ditavam os "hábitos" de cada época.
Vivemos, hoje, uma época de intensas mudanças, de muitos estranhamentos, de muitos conflitos. Algumas das premissas sobre o papel da ciência e da tecnologia na formação de uma sociedade mais justa, mais humana são constantemente abaladas pela dura realidade que vive grande parte da população mundial.
O homem desvenda os mistérios do código genético, mas a fome ainda é a tônica do mundo moderno. O homem produz tecnologias que prolongam a sua vida, mas elas não estão disponíveis para todas as pessoas.
Como professores de ciências também vivemos estas tensões quando buscamos socializar o saber científico e as descobertas tecnológicas e, a todo momento nos defrontamos com a precariedade das condições de vida dos nossos alunos.
Encantar - se com a ciência, percebê-la como uma das mais instigantes produções humanas, parece-nos hoje um grande desafio. Mas somos professores de ciências ...
E como professores convivemos com crianças e adolescentes que se surpreendem diante do mundo natural, diante do conhecimento ... Quantos de nossos alunos chegam até nós encantados com a última descoberta científica que viram na televisão? Quantos se emocionam com o perigo de extinção de animais e plantas que eles nunca viram, mas que não querem que desapareçam?
Portanto, como professores também vivenciamos as outras possibilidades da ciência: vivenciamos, através da curiosidade de nossos alunos, a ciência como um diálogo do homem com o mundo e não só como instrumento humano de dominação.
Um diálogo historicamente determinado onde afloram interesses econômicos, sócio- políticos e culturais. Um diálogo repleto das contradições inerentes a sua produção.
Explorar essas contradições ... Possibilitar esse diálogo a outros interlocutores ( nossos alunos ) se constitui como o principal caminho que dá sentido social a nossa prática pedagógica, enquanto professores de ciências.

História
NAVEGAR É PRECISO

Fernando Pessoa

"Colocar um problema é precisamente o começo e o fim de toda a História. Se não há problemas, não há história. Apenas narrações."

Lucien Febvre,1985

O historiador Marc Bloch em página memorável observou que cabia à História "compreender o passado a partir do presente e compreender o presente à luz do passado." A História seria pois "a ciência dos homens no tempo que, sem cessar, tem necessidade de unir o estudo dos mortos ao estudo dos vivos". É pois essa viagem permanente entre passado e presente, entre o hoje e o ontem que nos permite conhecer e compreender a trajetória humana. Esse conhecimento é entretanto, sempre reconstruído. Sendo o historiador uma pessoa do seu tempo, as perguntas que ele coloca em relação ao passado são sempre informadas pelo momento por ele vivido e por sua visão de mundo. Dentro dessa ótica, o saber histórico é constantemente refeito à luz de novos saberes, novas experiências e novas exigências.


A renovação experimentada pela ciência histórica, a partir dos anos sessenta, conhecida pelo nome de "Nova História", demonstrou de forma eloqüente que novas perguntas geradas por novas condições políticas, econômicas e sociais redundam em novos conhecimentos. Daí porque, na atualidade, os novos objetos da História surpreendem os menos avisados. Defrontar-se com a História do clima, a história das mulheres, da sexualidade, da família etc., causa surpresas e por vezes, embaraços. É muito comum ouvir dos professores que atuam no segundo segmento do primeiro grau que tal história, embora importante, atual e interessante é impossível de ser trabalhada com os alunos. A proposta MULTIEDUCAÇÃO sugere, nesse caso a inclusão dessas novas preocupações nos conteúdos escolares.
Ao se estabelecer, como princípios educativos, o meio ambiente, o trabalho, a cultura e as linguagens integrados aos núcleos conceituais identidade, espaço, tempo e transformação, abre-se a possibilidade para inserção de novos temas, sem destituí-los de sua dinâmica e do grau de tensão que lhes são próprios. Dessa forma, pode-se estudar, por exemplo, a ascensão do capitalismo com todas as suas implicações econômicas, políticas e sociais, mas sob um novo olhar. Por que não falar, por exemplo, das novas linguagens artísticas como a fotografia e o cinema surgidos com a afirmação desse sistema? Ou talvez do novo estilo de vida surgido nos grandes aglomerados urbanos consubstanciado nos novos espaços dedicados ao lazer e ao consumo?
Pode-se trabalhar, igualmente, a época colonial no Brasil buscando um cotejo entre os tipos de família existentes no período - a família do colonizador branco, a "família" do negro escravo e a "família" índia - e a família da atualidade, mostrando variados aspectos como a divisão do trabalho, as relações do gênero e o exercício do poder, o lazer, os hábitos de higiene ou a culinária.
E por que não trabalhar uma história ambiental com os alunos reportando ao início da colonização, com a derrubada das matas para a exploração da madeira e a introdução de cultivos em larga escala para a exportação? Essa história ambiental passaria igualmente pelas mudanças climáticas verificadas no nordeste, o aparecimento das primeiras secas e a constituição de uma identidade nordestina expressa no estilo de vida do sertanejo, nos ritmos musicais, na culinária, na indumentária, etc.
Se, como bem observa Marc Bloch em seu livro "Métier d'Historier", "é o espetáculo das atividades humanas que forma o objeto particular da História" resta-nos apenas pôr mãos à obra.


Geografia
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