Nacionalismo e formaçÃo docente: a revista de educaçÃO



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NACIONALISMO E FORMAÇÃO DOCENTE: A REVISTA DE EDUCAÇÃO (1921-1923) E A COLEÇÃO ATUALIDADES PEDAGÓGICAS (1931-1945)
Leila Maria Inoue

leinoue@marilia.unesp.br

Programa de Pós-Graduação em Educação

Faculdade de Filosofia e Ciências – UNESP/Marília

Agência de fomento: FAPESP

Neste texto apresento os resultados preliminares de minha pesquisa de mestrado intitulada O nacionalismo através dos impressos: a Revista de Educação (1921-1923) e a coleção Atualidades Pedagógicas (1931-1945), orientada pela professora Dra. Ana Clara Bortoleto Nery com apoio da FAPESP.

Este estudo tem o objetivo de compreender e analisar a circulação das idéias nacionalistas por meio dos impressos destinados à formação de professores e as mudanças que essas idéias vão sofrendo ao longo das décadas. Esta pesquisa tem como fonte primária a Revista de Educação, publicada entre 1921 a 1923 pela Escola Normal de Piracicaba que teve Lourenço Filho como um de seus principais editores e, os 43 livros da coleção Atualidades Pedagógicas publicada pela Companhia Editora Nacional entre 1931 a 1945 (fim do Período Vargas, ela foi idealizada e dirigida por Fernando de Azevedo até 1946. Após o ano de 1946, a direção da coleção passa para J. B. Dasmaco Pena até 1981, quando a coleção se encerra.

Esta pesquisa de mestrado é parte integrante do projeto Biblioteca Histórica da Escola Normal de Piracicaba: constituição do acervo, circulação de modelos culturais e formação do leitor coordenado pela professora Ana Clara B. Nery (com apoio da FAPESP). A presente pesquisa de mestrado deriva do estudo realizado durante a iniciação científica1 que tinha por objetivo compreender por meio da análise do ciclo de vida, da materialidade e do conteúdo da Revista de Educação como os professores estavam sendo formados naquele período, como estavam sendo divulgados os conhecimentos educacionais e, verificar como a Escola Normal de Piracicaba pretendia se firmar, no campo educacional paulista, como formadora de um ideário educacional, pedagógico e político com a criação de uma revista, seleção e publicações de artigos que privilegiavam os conhecimentos de professores e alunos das escolas normais e outros profissionais.

A escolha das fontes teve por critério a presença dos textos (impressos) em publicações com orientação editorial. Desse modo, os artigos são de um único periódico e os livros são de uma única coleção. Com isso pretendo verificar as orientações dadas a essas coleções e a política editorial que ditam seus rumos. O texto em si passa a ser um dos componentes de um projeto maior, cuja orientação passa a constituir um modelo cultural, por isso, o estudo da materialidade do periódico e da coleção são pontos iniciais e essenciais desta pesquisa.

O desenvolvimento desta pesquisa é realizado sob as perspectivas da História Cultural, com base nas premissas de Roger Chartier e Carvalho. Neste referencial, o impresso é tido em sua materialidade de objeto cultural se preocupando com as práticas que o produziram e os usos que são feitos deles. Assim, será realizado o estudo da materialidade do conjunto em que os textos se inserem e do conteúdo destes impressos para compreensão das idéias nacionalistas que fundamentaram a formação de professores no período de 1920 a 1945.

A análise da materialidade é necessária, pois, segundo Chartier (1990, p. 127) “não existe texto fora do suporte que o dá a ler e que não há compreensão de um escrito, qualquer que ele seja, que não dependa das formas através das quais ele chega a seu leitor”.

De acordo com Carvalho (1998), o referencial proposto por Chartier pretende empreender a “arqueologia dos objetos em sua materialidade”. Este procedimento pretende discernir, na materialidade dos impressos analisados as marcas de sua produção, circulação e usos, por isso, os impressos de destinação pedagógica, devem ser analisados do ponto de vistas de sua produção, circulação e distribuição, como estratégias editoriais que pretendem impor um modelo cultural, e também, analisá-los como dispositivo de normatização pedagógica e como suporte material das práticas escolares.

Carvalho (1998) considera importante o uso dos impressos como fonte de estudos em educação considerando que a investigação dos impressos de destinação pedagógica e seus usos escolares dão suporte para a história cultural dos saberes pedagógicos, interessada na materialidade dos processos de difusão e imposição de saberes e na materialidade das práticas que deles se apropriam. Assim, a ênfase da nova historiografia na materialidade das práticas, dos objetos e de seus usos produz um novo modo de olhar e interrogar as fontes históricas.

No caso dos impressos de destinação escolar, trata-se, em primeiro lugar, de analisá-los da perspectiva de sua produção e distribuição como produtos de estratégias editoriais em estrita correspondência com os usos que modelarmente lhe são prescritos. De uma perspectiva complementar, mas distinta, trata-se de analisá-los como suportes materiais de práticas pedagógicas na sala de aula; trata-se, portanto, nesse segundo caso, de pensar os usos escolares do impresso. (CARVALHO, 1998, p. 35)

Para Carvalho (2007, p. 18-19), as

[...] coleções de livros que, destinadas ao uso de professores, organizam e constituem a cultura pedagógica representada como necessária ao desempenho escolar de seu destinatário, o professor. Parte-se do pressuposto de que, na materialidade da coleção, inscrevem-se dispositivos de constituição e organização dessa cultura; dispositivos estes que não se resumem a procedimentos de seleção dos enunciados pedagógicos, teóricos ou doutrinários veiculados nos volumes que a compõem, mas que abrangem, também, a própria configuração material - textual e tipográfica – desses volumes.

Os estudos sobre os impressos são de suma importância, pois nos revelam as transformações culturais e políticas que emergiam naquele momento e as tendências pedagógicas que formavam os professores. A publicação dos periódicos não visava apenas divulgar as reivindicações profissionais, mas também divulgar o conjunto de idéias educacionais que vigoravam, sobre a estrutura da escola e as políticas educacionais. Dessa forma, os acervos das Escolas Normais são de extrema importância para nosso conhecimento sobre a História da Educação Brasileira.

Neste estudo foi utilizada a seguinte metodologia: busca e mapeamento dos impressos; digitalização das partes dos impressos que apresentam aspectos da materialidade; organização do material; leitura; seleção e análise do conteúdo referente ao nacionalismo; análise da materialidade (tamanho, editora(s), material utilizado, tiragem, etc), do ciclo de vida, da organização, da divulgação e distribuição dos impressos. Para a análise é preciso considerar também que a Primeira República e o Período Vargas são momentos distintos da educação brasileira, o primeiro de regime democrático e o segundo se trata de um período ditatorial, desse modo, as idéias nacionalistas podem ter enfoques diferentes.

As idéias nacionalistas, de certa maneira, influenciaram a constituição da cultura pedagógica na educação brasileira em alguns momentos. Segundo Antunha (1976), a Primeira Guerra Mundial trouxe às autoridades brasileiras o receio de que o Brasil pudesse ser invadido pelos estrangeiros devido à superioridade do imigrante estrangeiro, a falta de civismo e ao baixo nível cultural da população brasileira. Esse conflito colocou em evidência a necessidade de rever os princípios e instituições de ensino, a fim de obter um sólido alicerce para a manutenção da paz (TANURI, 1979, p. 153). Com as influências dessas idéias foram criados diversos movimentos e organizações de cunho educacional que visavam fortalecer a nação como a Liga Nacionalista de São Paulo (LNSP) criada em 1916.

Para Oliveira (1990), o nacionalismo político esteve presente em todos os momentos em que se procurou reestruturar a vida política do Brasil. Em nosso país, a mudança do regime monárquico para o regime republicano, ou a mudanças de regimes autoritários para liberal-democrático, como em 1945, trazem a tona as questões sobre o pacto social básico que fundamenta a vida do país. Nesse contexto, o livro se torna arma fundamental na formação e transformação da cultura nacional e na divulgação das idéias.

Segundo Antunha (1976), a Primeira Guerra Mundial trouxe preocupações às autoridades brasileiras, havia o receio de que o Brasil pudesse ser invadido pelos estrangeiros devido à superioridade do imigrante relativamente ao nacional, ao insuficiente preparo militar, a falta de civismo e de consciência política e ao baixo nível cultural da população. Esse conflito colocou em evidência a necessidade de rever os princípios e instituições de ensino, para obter um sólido alicerce para a manutenção da paz (TANURI, 1979, p. 153). Com as influências dessas idéias foram criados diversos movimentos e organizações de cunho educacional que visavam fortalecer a Nação como a LNSP.

Sampaio Doria (diretor Geral da Instrução Pública entre 1920 e 1921; sócio e um dos fundadores da Liga) incorporou as idéias nacionalistas na base ideológica da Reforma da Instrução Pública de 1920, devido às preocupações do momento. Os objetivos da LNSP eram tanto de caráter militar, quanto cívico, político e educacional que visava o desenvolvimento do ensino em todos os níveis. A LNSP exerceu grande influência no magistério nas primeiras décadas do século XX. Essa adesão do magistério e de seus lideres aos princípios nacionalistas ocorreu principalmente como forma de revalorização da educação e do professor, pois naquele momento se ressaltava que não apenas a educação cívica, mas a educação em todos os níveis era “o instrumento básico do progresso espiritual e material dos indivíduos e das nações” (ANTUNHA, 1976, p. 144). Assim, a escolarização passa a ser vista como o principal meio para a formação do cidadão republicano brasileiro.

A LNSP tinha como objetivos principais lutar pelo voto secreto e obrigatório, pela efetivação da obrigatoriedade do serviço militar e pela difusão da instrução e desenvolvimento da educação em todo país. A luta contra o analfabetismo e a propaganda para disseminar a instrução foram os pontos principais de sua atuação. Para a LNSP, a nação enfrentava dois grandes problemas: os imigrantes e seus filhos, muito deles analfabetos que se sentiam ligados aos países de origem e os brasileiros que não cultivavam o sentimento nacional. Desse modo, criou escolas noturnas destinadas aos trabalhadores. As “Escolas Nacionalistas” eram localizadas em bairros de população operária funcionavam de segunda às sextas feiras das 19h00às 20h30, e apenas poderiam se matricular aqueles que não pudessem freqüentar a escola durante o dia. (MOREIRA, 1988, p. 45-46)

De acordo com Antunha (1976), as medidas de ordem nacional implantadas pela Reforma de 1920 se constituíram em um intenso trabalho através da alfabetização, da educação moral e cívica e do desenvolvimento do escotismo entre outras medidas que visavam o patriótico e o cívico e a intervenção do Estado nas escolas particulares estrangeiras que deveriam respeitar os feriados nacionais, ministrar o ensino em vernáculo, incluir no programa o número de aulas que o governo brasileiro determinasse, o ensino de português, da geografia e da história do Brasil deveriam ser ministrados por professores brasileiros, e também, nessas escolas deveriam ensinar as classes infantis os cantos nacionais e franquear os estabelecimentos às autoridades estatais de ensino. Além disso, tornava-se proibido o ensino de língua estrangeira às crianças menores de 10 anos de idade, mas essa medida acabou não sendo aprovada pelo senado.

Antunha (1976) afirma que o fundamento da Reforma de ensino de 1920 pode ser encontrado no nacionalismo e no civismo e na idéia de que a educação é fundamental para o crescimento nacional, mas também, apresenta em sua base ideológica alguns princípios escolanovistas. Já Hilsdorf (1998), considera que a Reforma de 1920 representa a adesão à Escola Nova

Se durante a Primeira República as Forças Armadas se manifestam no modelo do “quartel como escola” com a propagação da idéias nacionalista e cívico-militares de Olavo Bilac, no Período Vargas (período de publicação da coleção Atualidades Pedagógicas), durante o Estado Novo (1937-1945), devido ao papel político desempenhado pelo exército na Revolução de 1930, aparece o modelo da “escola como quartel”. Nesse modelo, os militares teriam ação preventiva e repressiva em nome da segurança nacional, mediante duas estratégias: a educação pré-militar, que seria ministrada nas próprias escolas e o controle do ensino de educação física. (FRANCISCO FILHO, 2001, p.94)

De acordo com Oliveira (1987), o nacionalismo do Estado Novo centralizava politicamente e administrativamente o país, construindo uma identidade nacional tomando diferentes modelos culturais regionais, fazendo-o conviver com um novo projeto ufanista no Brasil.

O governo de Getúlio Vargas, com a imagem de novo, isto é, moderno e nacional, manteve uma linha de atuação autoritária, centralizada e intervencionista. Sendo assim, a educação deveria promover os valores atribuídos à família, à religião, à pátria e ao trabalho para serem propagados e aceitos nacionalmente formando uma nação moderna. (OLIVEIRA, 1987 p. 99)

“Assim, as linhas ideológicas que definem a política educacional do período vão se orientando pelas matrizes instituintes do Estado Novo: centralização, autoritarismo, nacionalização e modernização”. (HILSDORF, 2003, p. 99)

Como na Primeira República, a educação em todo no período Vargas também foi vista como a solução de muitos problemas vividos pela sociedade e a exaltação da nacionalidade é incorporada como elemento importante da ideologia educacional. Segundo Hilsdorf (2003, p. 98), no Estado Novo, definiu-se e propagou-se o nacionalismo como cultura oficial do regime, os meios de comunicação de massa da época, como rádio, a imprensa e o cinema foram controlados a fim de reprimir e censurar as manifestações do liberalismo e do comunismo, o departamento de Imprensa e propagando (DIP), organizado em 1939, defendia a “raça bandeirante”, o culto a pátria, a família tradicional, a mulher mãe, o trabalhador herói e a nação eugênica. Desse modo, o Estado Novo procurava governar a mentalidade da sociedade brasileira para instituir uma nação moderna.

Nesse contexto, a educação deveria promover tais valores acima mencionados, assim, a política educacional de todo o período Vargas se orientaram pela centralização, autoritarismo, nacionalismo e modernização.

Dentro do universo ideológico da cúpula de poder, a educação era encarada como sendo a fórmula mágica que permitia resolver se não todos os problemas nacionais, pelo menos quase todos. A escola tinha envergadura de uma enorme pá niveladora, capaz de conferir ao povo certa uniformidade, não só de pensamento, como também física. (SILVA, 1980, p. 25-26)

De acordo com Hilsdorf (2003, p. 100), para reforçar o nacionalismo, o Estado Novo destacou no currículo dos cursos elementares e secundários a importância da educação física, do ensino da moral católica e da educação cívica pelo estudo da História e da Geografia do Brasil, do canto orfeônico e das festividades cívicas.

Para reforçar o nacionalismo o Estado Novo destacou no currículo dos cursos elementares e secundários a importância da educação física, do ensino moral católico e da Educação cívica pelo estudo da História e Geografia do Brasil, do canto orfeônico e das festividades cívicas, como a ‘Semana da Pátria’. Ecoando Comte – uma das importantes matrizes do pensamento de Vargas -, no ensino primário o objetivo da formação era dar ‘sentido patriótico’, a ‘consciência’ patriótica.


Em março de 1940 foi criada a Juventude Brasileira, entidade submetida aos Ministérios da Educação e Saúde e da Guerra, que tinha objetivos de contribuir com a educação cívica das novas gerações. Silva (1980, p. 26) acredita que, a Juventude Brasileira foi inspirada em instituições congêneres existentes na Itália (os Balila e os Avanguardistas) e na Alemanha (a Juventude Hitlerista).

Durante o Estado Novo, a educação militar passou a ser requerida intensamente, pois, considerava-se que o Brasil estava em desvantagem em relação a outras nações por não possuir uma tradição guerreira2. Sendo assim, era considerada necessária uma organização pedagógica sistematizada e orientada para essa finalidade. O anti-comunismo também contribuiu para compor a ideologia educacional desse período (SILVA, 1980, p. 27-28).

Desse modo, a partir da ideologia educacional estabelecida no período Vargas, os professores também deveriam ser formados para formar seus alunos de acordo com os valores, por isso, os impressos de destinação pedagógica fornecem informações sobre os modelos culturais que formavam os professores nesse período.

Com isso, a análise de impressos de destinação pedagógica é importante para a História da Educação, pois revelam as tendências educacionais, políticas e culturais que formavam os professores em determinadas épocas. Segundo Carvalho (1998, p. 35-36), os impressos de fornecem:

[...] indícios sobre as práticas escolares que se formalizam nos seus usos, mas tem peso documental fortemente demarcados por sua relação com as estratégias que são produtos. O que significa dizer que as informações que fornecem sobre as práticas escolares são mediadas por sua configuração como produtos dessas estratégias. Essas configurações dão índices sobre políticas de atendimento escolar, sobre métodos pedagógicos, sobre critérios de seleção de conteúdo, sobre públicos visados; sobre os princípios e sobre as prioridades que orientam uma determinada iniciativa de reforma educacional.

A Revista de Educação se localiza no acervo da Biblioteca Histórica da Escola Estadual Sud Mennucci, em Piracicaba/SP (antiga Escola Normal de Piracicaba), é composta por três volumes e seis números, porém o volume III, número 1 ainda não foi localizado e a coleção Atualidades Pedagógicas, idealizada e dirigida por Fernando de Azevedo até 1946, é uma das cinco séries que compõem a Biblioteca Pedagógica Brasileira. Os 43 livros a serem analisados são aqueles publicados até 1945 - fim do Período Vargas - e a maioria deles fazem parte do acervo da Biblioteca Histórica da Escola Estadual Sud Mennucci, mas a coleção completa se encontra na IBEP – editora privada que possui o Acervo Histórico da Companhia Editora Nacional em São Paulo.


A Revista de Educação foi publicada pela antiga Escola Normal de Piracicaba3 entre 1921 a 1923. Até o momento foram encontrados no acervo da Biblioteca Histórica da Escola Estadual Sud Mennucci 5 números da Revista que compõem 2 volumes: v. I n. 1 – maio de 1921; v. I n. 2 – agosto de 1921; v. II n. 1 – maio de 1922; v. II n. 2 – outubro de 1922 e, v. II n. 3 – dezembro de 1922. O acervo da Escola esta em fase de recuperação e restauração pelo projeto Biblioteca Histórica da Escola Normal de Piracicaba: constituição do acervo, circulação de modelos culturais e formação do leitor coordenado pela professora Ana Clara B. Nery, do qual faço parte.






Fonte: capa da Revista de Educação v. I n. 1, maio de 1922.

A Revista de Educação é um periódico que visa estudar, discutir e divulgar as questões educacionais do momento e combater o ensino considerado “tradicional” em favor de uma educação ativa, moderna de acordo com os ideais propostos pelos republicanos.

A Revista de Educação, orgam da Escola Normal de Piracicaba e escolas annexas, conforme a sua propria denominação indica, é uma publicação periódica que tem por fim estudar, discutir e divulgar as mais salientes questões que, directa ou indirectamente, se prendam a educação em geral. O objetivo immediato é o de contribuir de uma maneira pratica e tão efficaz quanto possível, para o progresso scientifico do ensino primario e secundario; e como nesse ensino, o mal mais geral e nefasto é o verbalismo estéril, o aprendizado só de palavras, o cultivo desintelligente e brutal da memória, a Revista inscreve como primeiro artigo do seu programma systemático a esse desvio de insutrucção, que tanto mal causa ao espírito da creança e do adolescente. Por isso mesmo, toda collaboração, ao mesmo tempo que orienta nesse sentido, deve ser vasados nos moldes da concisão da clareza e da precisão da linguagem, fazendo questão da idéias e não só das palavras. (REVISTA DE EDUCAÇÃO, v. 1, n. 1, 1921).

Essa apresentação da Revista publicada no v. I, n. 1 é assinada pela Comissão de Redação composta por Honorato Faustino, que publicou artigos em todos os números, os professores Antônio Pinto de Almeida e Lourenço Filho pela Escola Normal, Pedro Crem e Dário Brasil pela escola Complementar e Antônio dos Santos Veiga e Maria Graner, pela Escola Modelo.

Considero que a Revista de Educação teve ampla participação, pois publicou artigos de professores da Escola Normal de Piracicaba e seus alunos, de professores da Escola Normal de Campinas e de Pirassununga e outros profissionais que se preocupavam com questões educacionais. Entre os autores, destaco neste texto, a participação de Lourenço Filho (Lente de Psicologia e Pedagogia na Escola Normal de Piracicaba) - que foi um dos maiores idealizadores da Revista e que depois de sua ida ao Ceará ainda contribuiu com a formação dos professores de Piracicaba proporcionando a troca de correspondências entre normalistas de São Paulo e Ceará -, o Diretor da Escola Normal de Piracicaba Honorato Faustino e, Sud Mennucci (Delegado Regional de Ensino da época).

A Revista de Educação publicou artigos sobre diversas temáticas identificadas como: alunos, professores, ensino, escola normal, reformas, administração do ensino, saberes, práticas e outras. Essas diversas temáticas refletiam o contexto político, econômico, cultural e principalmente educacional vivido naquele momento no estado de São Paulo, nas primeiras décadas do século XX compondo um modelo cultural de formação de professores. A Revista publicou diversos artigos sobre as idéias nacionalistas Artigos como O Civismo Pelo Ensino de Historia; O ensino de História; Ensino Particular e o Nacionalismo; e Pela Cultura do Vernaculo, divulgam as idéias nacionalistas que atribuíam à educação o papel fundamental na formação do homem brasileiro e buscavam valorizar os elementos nacionais como a história do país.





Identificação da Revista de Educação

Ano/volume

Número

Data

Tipografia

I

1

Maio de 1921

Jornal de Piracicaba

I

2

Agosto de 1921

Jornal de Piracicaba

II

1

Maio de 1922

Jornal de Piracicaba

II

2

Outubro de 1922

Jornal de Piracicaba

II

3

Dezembro de 1922

Jornal de Piracicaba

III

1

Setembro de 1923

Desconhecido

A coleção Atualidades Pedagógicas foi publicada pela Companhia Editora Nacional (CEN) de 1931 a 1981. A coleção é uma das cinco séries constitutivas da Biblioteca Pedagógica Brasileira, destinada à formação de professores, idealizada e dirigida por Fernando Azevedo de 1931 a 1946. Após a saída de Azevedo em 1946, a coleção passa a ser dirigida por J. B. Damasco Pena (TOLEDO, 2001).

Segundo Toledo (2001, p. 73), o projeto da Biblioteca era vinculado aos projetos de Azevedo. Ele vinculou seus projetos políticos ao empreendimento comercial e editorial e seu objetivo seria “combater a literatura e a escola tradicional”. Sob a direção de Azevedo, a coleção lançada pela CEN e ganhou o título de qualidade devido o reconhecimento da importância do diretor no setor educacional do país. A escolha do nome do diretor, sob o ponto de vista de estratégia comercial pode ter garantido o convencimento que a coleção é confiável e como propaganda para o público consumidor.

Com base nos argumentos de Toledo mencionados acima, considero que Azevedo procurou imprimir nos livros da coleção os ideais escolanovistas defendidos por ele e também expressados no Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, para isso, ele convidou para compor à coleção os educadores e intelectuais que compartilhavam das mesmas idéias.

Os nomes que encabeçavam as coleções as distinguiam e as credenciavam como selos de qualidade das escolhas nelas efetuadas. Considerados como especialistas ou técnicos em suas áreas de atuação podiam selecionar o que poderia ser de maior importância para os leitores cujos perfis se enquadravam na proposta da coleção.

Os organizadores das coleções também poderiam vincular seus projetos às coleções para quais eram chamados a organizar, ganhando espaços estratégicos para a divulgação de suas idéias e as dos grupos aos quais estavam vinculados. Como especialistas em determinadas questões ou áreas estavam autorizados a constituir projetos de leituras específicos para o público visado, prescrevendo aquilo que era necessário para a sua formação. Neste sentido, a empresa, ao convidar tal ou tal nome para colaborador, acaba por constituir sua identidade com as propostas de publicação do convidado e conseqüentemente, uma imagem perante a clientela. (TOLEDO, 2001, p. 72)

Ao convidar nomes de prestígio para formar seu corpo de editorial, fazendo circular assim seus projetos, a CEN transforma-se em espaço de disputa entre os que pretendiam dela participar. Toledo (2001) considera que, a escolha de Azevedo se deu pela proximidade entre ele e Monteiro Lobato e que a CEN articulou suas novas frentes de publicação, abertas na década de 1930, ao movimento educacional ligado ao grupo de Azevedo, trazendo para a editora seus principais representantes. “É neste contexto que a Biblioteca Pedagógica Brasileira é definida como larga ofensiva de renovação cultural” (TOLEDO, 2001, p.82).

O ambicioso programa da B.P.B. – de larga ofensiva de renovação cultural – é uma espécie de síntese das propostas preconizadas pelo grupo de educadores, do qual Azevedo fazia parte, que pretendia reformar a cultura realizando ampla reforma educacional que atacasse dois pontos fundamentais: a modificação da mentalidade das novas gerações das classes média e alta, por meio de uma educação mais realista cujos fins seriam o de formar a consciência nacional, preparando melhor as elites do país; educar as classes populares para que encontrassem meios mais racionais de viver, elevando seu nível econômico, moral e intelectual, dando-lhes a possibilidade de participar da circulação das elites dirigentes do país. A solução educacional seria o modo mais racional de gerar as transformações necessárias para o Brasil. (TOLEDO, 2001, p. 91)



Nesse contexto, para modificar a mentalidade de sociedade brasileira, a escola também deveria passar por modificações, não apenas nos prédios precários, mas também nos métodos de ensino com pessoal formado adequadamente. Por isso, a ação dos intelectuais contribuiu para as discussões em torno da formação dos professores que deveriam estar mais preparados para alcançar os novos fins políticos e sociais da educação. Com isso, as idéias nacionalistas também fizeram parte dessas discussões sobre a educação brasileira e os livros eram peças importantes na formação profissional e cultural dos novos profissionais.

Coleção Atualidades Pedagógicas (1931-1945)

Volume

Autor

Título

Ano

1

Fernando de Azevedo

Novos caminhos e novos fins

1931

2

Jonh Dewey

Como pensamos

1933

3

Anísio Teixeira

Educação progressiva

1933

4

Ed. Claparèd

Educação funcional

1933

5

Afrânio Peixoto

Noções de história da educação

1933

6

Delgado de Carvalho

Sociologia educacional

1933

7

Arthur Ramos

Educação e psicanálise

1934

8

Adalbert Czerny

O médico e a educação da criança

1934

9

A. Almeida Junior

A escola pitoresca e outros trabalhos

1934

10

Celso Kely

Educação social

1934

11

Henri Piéron

Psicologia do comportamento

1935

12

Henri Wallon

Princípios de psicologia aplicada

1935

13

Djacir Menezes

Dicionáriao psico-pedagógico

1935

14

Sylvio Rabello

Psicologia do desenho infantil

1935

15

A. M. Aguayo

Didática da escola nova

1935

16

A. Carneiro Leão

O ensino de línguas vivas – seu valor e sua orientação científica

1935

17

Delgado de Carvalho

Sociologia aplicada

1935

18

A. M. Aguayo

Pedagogia Científica – psicologia e direção da aprendizagem

1936


19

Aristides Ricardo

Biologia aplicada à educação

1936

20

Aristides Ricardo

Noções de higiene escolar

1936

21

Jonh Dewey

Democracia e educação

1936

22

Fernando de Azevedo

A educação e seus problemas

1937

23

Sylvio Rabello

Psycologia da infância

1937

24

J. Melo Teixeira e outros

Aspectos fundamentais da educação

1937

25

Euclides Roxo

A matemática na educação secundária

1937

26

Sylvio Rabello

A representação do tempo na criança

1938

27

Afrânio Peixoto

Ensinar a ensinar

1938

28

Ariosto Espinheiro

Arte popular e educação

1938

29

Penteado Jr.; Onofre de Arruda

Fundamentos do methodo

1938

30

Noemy da Silveira Rudolfer

Introdução à psicologia educacional

1938

31

Milton C. da Silva Rodrigues

Educação comparada

1938

32

Guerino Casassanta

Jornais escolares

1938

33

A. Carneiro leão

Introdução a administração escolar

1939

34

Paul Monroe

História da educação

1939

35

A. Almeida Jr.

Biologia educacional

1939

36

Paul Guillaume

A formação dos hábitos

1939

37

Arthut Ramos

A criança problema

1939

38

Francisco Venâncio Filho

A educação e seu aparelho moderno

1941

39

J. Arthur Jones

A educação dos líderes

1942

40

Fernando de Azevedo

Velha e nova política

1943

41

J. Roberto Moreira

Os sistemas ideais de educação

1945

42

Theobaldo Miranda Santos

Noções de psicologia educacional

1945

43

Theobaldo Miranda Santos

Noções de história da educação

1945

Diante do estudo em andamento, como resultados preliminares considero que as temáticas dos impressos fazem parte de um ideário político, educacional e pedagógico que os autores, junto de uma linha editorial, selecionavam e publicavam construindo, assim, um discurso do que era relevante para a formação dos futuros professores, ou seja, uma cultura de formação docente. Os impressos funcionavam como dispositivo de normatização pedagógica, como suporte material das práticas escolares e podem ser analisados como estratégias editorias para divulgar tanto as idéias nacionalistas como os princípios do movimento de renovação da educação iniciado nas primeiras décadas do século XX, conhecido anos depois como Escola Nova. Assim, Lourenço Filho procurou divulgar através da Revista de Educação os princípios renovadores da Reforma de 1920 e Azevedo enfatizou os ideais escolanovistas também divulgados no Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova na coleção Atualidades Pedagógicas.




Referências

ANTUNHA, Heládio César Gonçalves. A instrução pública no Estado de São Paulo: a Reforma de 1920, São Paulo: FEUSP, 1976.


CARVALHO, Marta Maria Chagas de. Por uma história cultural dos saberes pedagógicos. In: CATANI, D. B.; SOUZA, C. P. (Orgs.). Práticas educativas, culturas escolares, profissão docente. São Paulo: Escrituras, 1998. p. 31-40.
_______. Uma biblioteca pedagógica francesa para a Escola normal de São Paulo (1882): livros de formação profissional e circulação de modelos culturais. In: BENCOSTA, Marcus Levy. (Org.). Culturas escolares e práticas educativas: itinerários históricos. São Paulo: Cortez, 2007, p. 17-40.
CHARTIER, Roger. História Cultural entre Práticas e Representações. Rio de Janeiro: Berltrand, 1990.
FRANCISCO FILHO, Geraldo. A educação Brasileira no contexto histórico. Campinas: Editora Alínea, 2001.
HILSDORF, Maria Lucia S. Lourenço Filho em Piracicaba. SOUZA, In: Cyntia Pereira de. História da Educação: processos, práticas e saberes. São Paulo: Escrituras, 1998, p. 95-112.
_______. História da Educação: leituras. São Paulo: Pioneira Thomson Learing, 2003.

MOREIRA, Silvia Levi. São Paulo Na primeira República. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.


OLIVEIRA, Lúcia Lippi. A questão nacional na primeira república. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.
REVISTA DE EDUCAÇÃO. v. I n. 1, Piracicaba: Escola Normal de Piracicaba, mai. de 1921.
SILVA, Marinete dos Santos. A educação Brasileira no Estado Novo. São Paulo: Editora Livramento, 1980.

TANURI, Leonor Maria. O Ensino Normal no Estado de São Paulo (1890-1930). São Paulo: FEUSP, 1979.



TOLEDO, Maria Rita. Coleção Atualidades Pedagógicas: do projeto político ao projeto editorial (1931-1981), 2001. Tese (Doutorado em Educação) - PUC. Campinas. 2001.


1 A pesquisa intitulada Formação de Professores: a Revista de Educação (1921-1923) iniciou-se em outubro de 2005, no 2º ano da graduação em Pedagogia sob a orientação da professora Ana Clara B. Nery, na Faculdade de Filosofia e Ciências, UNESP, campus de Marília, até dezembro de 2007 com vinte e sete meses de bolsa FAPESP e também, resultou na monografia de conclusão de curso Divulgando “Novos” Ideais de Formação Docente: a Revista de Educação (1921-1923).

2 As preocupações como o despreparo militar do Brasil se estendem desde a Primeira República.

3 Atual Escola Estadual Sud Mennucci que atende alunos do 5°ano do Ensino Fundamental até o 3º ano do Ensino Médio.

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