Nação e Nacionalismo nas sociedades de Antigo Regime



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Nação e Nacionalismo nas sociedades de Antigo Regime
Comentário de textos

21 de Março de 2007

Soraia Nascimento Gonçalves

No seguimento daquilo que vimos nas aulas anteriores relativamente à noção de Estado, o objectivo desta análise é mostrar de que forma o conceito de Nação se pode ou não aplicar às sociedades de Antigo Regime.

Desse modo, vou começar com a tentativa de delimitar o conceito moderno de Nação, partindo da concepção de José Manuel Sobral. De seguida, apresentarei as posições favoráveis e desfavoráveis à sua aplicação nas sociedades de Antigo Regime e demonstrarei que o conceito de Nação, tal como hoje o entendemos, é, na verdade, uma criação dos pensadores do século XIX.


Conceito de Nação
Actualmente, a Nação é uma das formas mais importantes de identificação dos indivíduos. Pertencer a uma Nação significa partilhar as referências a um passado comum e acreditar que esse colectivo possui características próprias, que traduzem a sua identidade. Por isso, o conceito de Nação está intimamente ligado aos conceitos de memória e identidade nacionais. Nas palavras de Anthony Smith1, “sem memória não há identidade; sem identidade, não há nação”.
No entender de José Manuel Sobral2, a memória nacional é o produto de uma comunidade mnemónica específica, a Nação, que aquela, por sua vez, contribui para reproduzir. Por isso, o processo da sua formação e reprodução funde-se com a história da própria formação da Nação. Nação não é sinónimo de Estado, este é o aparelho político que governa um dado território e cuja autoridade assenta na lei e na capacidade para utilizar a força, enquanto que aquela é o grupo formado a partir de um ou vários grupos étnicos, normalmente identificado por uma literatura própria, que possui ou reivindica o direito à identidade e à autonomia política enquanto povo, bem como o controlo de um dado território3.

Assim, a identidade nacional, um das facetas da identidade social, é um processo de identificação que só pode ser entendido no tempo e quanto a ela considera importante destacar alguns aspectos.

Em primeiro lugar, a identidade nacional reporta-se a colectivos em que a absoluta maioria dos membros é constituída por desconhecidos socialmente distantes entre si, mas essa distância, que se traduz, nomeadamente, numa divisão em termos de classe e género, atitudes políticas, morais e religiosas e estilos de vida, não implica a inexistência de amplos contactos, o interconhecimento e o convívio entre as diversas gerações, geradores da experiência de se pertencer à mesma entidade ao longo do tempo.
Para a criação e perpetuação da identidade nacional é essencial a intervenção de agências de doutrinação, particularmente do Estado, através da escola e do exército.

Sublinha ainda o papel das elites intelectuais que pode ser complementar ou contraditório com o papel do Estado. São estas elites quem estuda a língua e elabora a literatura nacional, produzindo as narrativas históricas que estabelecem a continuidade entre passado e presente, ligam o cidadão anónimo às grandes personagens históricas e instituem relações imaginadas de parentesco entre antepassados e contemporâneos. São elas quem impulsiona a pesquisa arqueológica, em busca dos antecessores mais distantes, e etnográfica, procurando o mais genuíno da cultura nacional. Têm ainda um papel fundamental nos rituais e cerimónias comemorativas que asseguram a rememoração e a identificação nacional numa temporalidade cíclica que recorda a permanência e a imortalidade dos factos celebrados. São também os intelectuais quem desenvolve o discurso sobre as identidades nacionais.

Outro aspecto fundamental na formação das identidades nacionais é a fixação de um território, pois a constância de lugar fornece um sentido de se permanecer o mesmo ao longo do tempo, permitindo aquilo a que se chama a “territorialização da memória”. Esta demarcação de um espaço como território nacional tem como consequência a definição das fronteiras políticas, económicas e simbólicas, entre o que é nacional e o que é estrangeiro. Nesse território nacional haverá uma língua hegemónica, um espaço económico nacional e uma moeda nacional.

Além do território, investem-se determinadas épocas passadas de um especial simbolismo nacional. São as “idades de ouro” de um país, de que é exemplo a expansão marítima portuguesa do século XVI. Depois existe ainda uma estruturação da narrativa nacional que situa a geração presente num continuum intergeracional, e assim se explica que seja frequente dizer que os Portugueses são descendentes dos Lusitanos. Também se produz um calendário nacional para celebração dos feriados relativos a tempos distantes que assegura a sincronização mnemónica em todo o espaço nacional.


Por outro lado, a aquisição de uma identidade e memória nacionais opera em múltiplos espaços, desde aqueles geridos pelo Estado, como a escola, até ao universo familiar. Deste modo, a identidade e a memória nacionais são incessantemente aprendidas e reproduzidas no quotidiano, através dos processos pelos quais os indivíduos identificam e se identificam com o nacional. Tratam-se de processos através dos quais opera um nacionalismo banal, que leva a que a pertença a um determinado colectivo social seja encarado como algo de natural e dotado de consequências para a identidade pessoal, da qual a ideia de “matar e morrer pela pátria” faz parte.

Deste modo, cabe perguntar em que medida é que o conceito de Nação se aplica ou não às sociedades de Antigo Regime.


Como vimos, para José Manuel Sobral a identidade nacional é entendida como um processo. No caso português, defende, à semelhança de Alexandre Herculano, Martim de Albuquerque e José Mattoso, que esse processo se inicia no período medieval, e que se pode dividir em três fases.

A primeira fase reporta-se aos primeiros séculos do Reino, onde encontra várias características essenciais a uma Nação. Encontra, desde logo, a definição de um território nacional: com a fixação das fronteiras nos finais do século XIII, que praticamente se mantêm inalteradas desde então, começa a haver consciência da separação entre o que é nacional e o que é estrangeiro, entre “nós” e os “outros”, que se aplica às pessoas, às coisas e à moeda. Depois encontra relevantes factores de ordem cultural e simbólica que individualizam o Reino, designadamente a língua e o nome, Portugal, que origina a designação de Portugueses para designar o conjunto étnico formado pelos seus habitantes.

Uma segunda fase, localizada no final dos tempos medievais, terá sido influenciada pela educação humanista e a difusão do escrito e nela se assiste a uma proliferação dos discursos que têm como referência a “nação portuguesa”. Mesmo num contexto claramente bilingue, a língua portuguesa é exaltada e estudada no seio da elite letrada, sendo exemplo disso a publicação, em 1536, da Gramática, de Fernão de Oliveira. É também nesta altura que se propaga o mito da ascendência lusitana dos portugueses, que se elaboram narrativas que inserem os portugueses na história bíblica, na linhagem de Noé, e que se exalta a autonomia do reino português, mesmo na historiografia produzida durante a união dinástica. Portugal é caracterizado recorrentemente pela elite letrada como “pátria” e “nação”, tal como acontece nos Lusíadas. Tratam-se obviamente de manifestações restritas ao pequeno mundo letrado, mas comunicadas, através de mediadores culturais, como os clérigos e os agentes do Estado, a camadas mais amplas da população. E verificam-se igualmente sinais de identificação dessas camadas amplas da população com as personagens reais. É o caso do sebastianismo, que, estando ligado a ideias messiânicas anteriores que retratam os Portugueses como “Povo Eleito”, surgiu com a contestação anti-filipina e foi intensificado com a morte de D. Sebastião, resultando no movimento da Restauração, que indicia, para Sobral, uma forte identificação com o colectivo ou, pelo menos, uma forte xenofobia anti-castelhana, reveladora da consolidação de uma identidade própria.

Numa terceira fase, que se situa nos últimos dois séculos, o desenvolvimento da identidade nacional é marcado pela divulgação e inculcação das representações sobre Portugal. É este o momento da construção das histórias nacionais. A imprensa de massas, surgida na segunda metade do século XIX, torna acessíveis essas representações, que se difundem por todo o país, à medida que se alargam as redes ferroviárias e rodoviárias. Também a literatura, ao criar um corpo de leitores estável, contribui para homogeneizar as representações do país. O nacionalismo impregna o mundo político, com o aparecimento dos primeiros movimentos nacionalistas. Mas impregna igualmente o mundo cultural: a) aparecem movimentos literários nacionalistas (neo-garretismo, Renascença Portuguesa...), b) procura-se uma arquitectura nacional, c) as disciplinas emergentes da arqueologia, etnografia e antropologia são animadas por posições nacionalistas que procuram rastrear em artefactos, romances, provérbios e práticas os elementos da antiguidade e originalidade da Nação, d) procura-se preservar o passado, e) nos espaços urbanos são construídos vários monumentos destinados a perpetuar a gesta nacional, e f) realizam-se várias comemorações que agora celebram, não acontecimentos da família real, mas os homens iminentes e os eventos ligados às Descobertas (ex. as comemorações, no século XIX do tricentenário da morte de Camões).

Em síntese, José Manuel Sobral defende que a Nação se gerou a partir da fundação do Reino. Com ela, formou-se um território delimitado por fronteiras, definiu-se uma língua própria, produziram-se símbolos e estereótipos colectivos e distinções entre “nós” e os “outros”. Surgiu um nome para a entidade política e para o território que controlava, Portugal, e para os seus habitantes, Portugueses. Todos estes elementos foram consolidados ao longo do tempo.

Para a Professora Cristina Nogueira da Silva e para o Professor Hespanha4, é problemático aplicar às sociedades de Antigo Regime a ideia de Nação, porque não havia convergência de interesses entre os vários grupos sociais e porque havia uma grande solidariedade entre os grupos que diluía os vínculos nacionalistas. Este entendimento faz apelo à concepção corporativa da sociedade que convém recordar em traços muito gerais.

O pensamento social e político medieval era dominado pela ideia de existência de uma ordem universal (cosmos), que abrangendo homens e coisas, orienta todas as criaturas para um objectivo último, a Salvação. Essa unidade dos objectivos da Criação pressupunha a especificidade e a irredutibilidade dos objectivos de cada uma das ordens da Criação e de cada grupo ou corpo social. A esta, estava ligada a ideia de indispensabilidade de todos os orgãos da sociedade e da impossibilidade de um poder político simples, puro ou não partilhado. O poder era por natureza repartido e numa sociedade bem governada, essa partilha natural deveria traduzir-se na autonomia político-jurídica (iurisdictio) dos corpos sociais. A função da cabeça ou do coração, atribuída ao rei, é a de representar externamente a unidade do corpo e de manter a harmonia de todos os seus membros, atribuindo a cada um aquilo que lhe é próprio, ou seja, realizando a justiça. A esta ideia de autonomia funcional dos corpos sociais anda ligada a ideia de auto-governo, no qual se englobam os poderes de fazer leis e estatutos, de constituir magistrados e julgar conflitos e de emitir comandos. É ainda fundamental a ideia do carácter natural da constituição social. Daqui decorre a natureza indisponível das leis fundamentais da sociedade, conservando-se sempre a constituição natural como critério superior para aferir a legitimidade do direito estabelecido pelo Poder. Nestes termos, o direito desempenha uma função constitucional: impondo-se a todo o poder, não pode ser alterado, visto que se funda nos princípios necessários a toda a convivência humana. Em nome desta função constitucional do direito, toda a actividade política é orientada para a resolução de um conflito entre esferas de interesses, conflito que se resolve fazendo justiça.

Torna-se agora fácil perceber que nas sociedades de Antigo Regime convivessem diversas identidades de âmbitos e hierarquias distintos.




Que identidades são essas?
Hierarquicamente superiores à identidade nacional haveria uma identidade da Respublica Christiana, uma identidade europeia e uma identidade hispânica.

A identidade da Respublica Christiana era produzida e reproduzida pelos mecanismos ideológicos e institucionais da Igreja Católica e amplificada pelos aparelhos monárquicos que encontravam a sua legitimidade na catolicidade dos reinos. Esta identidade manifesta-se na unidade da república dos crentes, quotidianamente veiculada na liturgia, na pregação, na organização eclesial e na ordem processual canónica e na recusa de tudo o que fosse estranho à comunidade católica (ex.: os pagãos, os infiéis, os judeus, os hereges...). A ideia de uma política católica significa que sobre a identidade reinícola e as fidelidades ou vinculações que ela implica, existe uma identidade religiosa que se lhe sobrepõe. Assim, quer a legitimidade do Reino está dependente da sua fidelidade à Igreja, quer a identidade dos súbditos está dependente da sua adesão à fé do Reino. No caso português, a ligação entre a identidade reinícola e a identidade católica reforça-se com o entendimento do carácter providencial do próprio Reino: é frequente encontrar referências ao entendimento segundo o qual a Nação foi, desde sempre, favorecida com dons de Deus e distinguida por sinais inequívocos de eleição5.

A identidade europeia seria em Portugal uma identidade meramente culta, fundada na tradição literária clássica. Era uma identidade largamente prejudicada porque era identificada com a realidade política do Império e a política portuguesa recusava qualquer vinculação ao mesmo e também pela identidade católica, pois a Europa nunca fora integralmente católica e porque se hierarquizavam as regiões europeias – o Leste e o Norte europeus tinham pouco a ver com a Europa Católica e face a eles Portugal vinha-se afirmando como reino católico, “imune à praga do protestantismo”. Fora dos círculos letrados esta identidade europeia parece não ter tido grande acolhimento.

O sentimento de identidade hispânica era muito mais forte, reflectindo-se no apoio que, até ao século XVII, tiveram os projectos de união ibérica. Contra este sentimento de identidade hispânica militou inegavelmente, a partir do século XVI, nas classes populares um sentimento anti-castelhano, que se agravou com a união dinástica e com a endoutrinação subsequente à Restauração. Apesar disto, se o anti-castelhanismo aprofundava a separação entre Portugal e Castela, o certo é que os reinos peninsulares se identificavam por oposição a povos não peninsulares6.


Os portugueses identificavam-se igualmente em círculos mais restritos de sociabilidade.

Desde logo, tinham uma família e esses laços familiares constituíam solidariedades fortes que, nos casos da nobreza e dos cristãos-novos, chegavam mesmo a cruzar fronteiras.

Tinham depois uma patria chica e, assim, pertenciam a uma vila ou cidade ou a uma das seis províncias do Reino, às quais era atribuída uma individualidade própria, que determinava o temperamento dos seus habitantes e criava entre eles solidariedades especiais.

Os Portugueses acumulavam ainda uma fortíssima identidade estatutária, que fazia com que um nobre português se sentisse mais próximo de um nobre castelhano do que de um peão português. Estes sentimentos de identidade estatutária sobrepunham-se em momentos dramáticos ao sentimento de identidade reinícola, como sucedeu durante a união dinástica quando os nobres defenderam a posição de Filipe II de Castela. A eficácia dos mecanismos de produção desta identidade estatutária era muito grande, pois fundava-se em processos de distinção juridicamente institucionalizados e reforçados por práticas sociais espontâneas profundamente interiorizadas.


Contudo, não se pode esquecer que funcionava também uma ideia de identidade reinícola, oriunda de alguns meios intelectuais, que podemos designar de “proto-nacionalistas”.

A manifestação mais directa e mais precoce deste sentimento é constituída pelo anti-castelhanismo.

Fundava-se igualmente na crença numa comunidade étnica natural, originada pela vivência contínua numa mesma região (a Lusitânia), sendo a sua identidade transmitida pela natureza e pelo sangue. Essa natureza criara um Portugal natural, mesmo antes do Portugal político: Portugueses houvera-os sempre, mesmo antes do acto fundador de D. Afonso Henriques. Nesse sentido, era corrente falar de uma antiga e nova Lusitânia, realçando o facto de existir uma língua própria dos Lusitanos, separadas apenas por um lapso de aniquilação – o domínio mouro. O próprio território é descrito em termos que marcam a sua individualidade: o clima é doce e temperado, os campos formosos, as águas abundantes e frescas, a terra fértil é capaz de produzir frutos mais saborosos do que quaisquer outros, etc.

Este naturalismo reflectia-se no Providencialismo: esta terra e esta gente não eram apenas naturalmente aquilo que eram, eram-no por eleição de Deus, o que lhes permitia superar os feitos dos povos bíblicos, dos gregos e dos romanos.

Para alguns destes autores “proto-nacionalistas”, o acto fundador é o acto político de criação do Reino, o que justifica o protagonismo da dinastia reinante e uma concentração dos elementos providencialistas na família real, vista como uma galeria de santos e de heróis.


A partir de que altura podemos falar em Nação7?
É na literatura do século XIX que podemos encontrar verdadeiramente o primeiro debate acerca da génese da Nação, debate esse que gira essencialmente em torno de critérios raciais. Porém, é impossível deixar de referir que, pelo menos para um dos autores que se debruçou sobre este assunto, Alexandre Herculano, a Nação Portuguesa é um produto político, resultado da formação de um Estado pelos barões de um condado situado no noroeste peninsular – Herculano rompe, portanto, com a tradição que ligava Portugueses a Lusitanos.
Oliveira Martins mantém, no essencial, a tese de Herculano, mas admite a presença de certos traços célticos no carácter português, retomando a questão da continuidade entre Portugueses e Lusitanos. A génese nacional não se devia para Oliveira Martins somente a um factor étnico/racial, no sentido que considerava existir uma civilização ibérica, um génio peninsular, comum a toda a península, afirmado no entusiasmo religioso e no heroísmo pessoal. Dava ainda grande importância aos efeitos da romanização nas populações peninsulares.

É, nesta altura, que os argumentos étnicos/raciais começam a ser difundidos, acompanhando o desenvolvimento dos estudos no campo da geologia, da paleontologia, da zoologia, da antropologia e da etnologia, impondo como objectivos fundamentais a explicação da história particular de Portugal e a conjuntura portuguesa. A partir daqui, a representação da história de Portugal comporta duas fases: uma fase de ascensão, com o apogeu no império do século XVI e outra de decadência que explica a situação do século XIX.


Teófilo Braga insistiu numa abordagem étnica da nacionalidade portuguesa. Criticando Oliveira Martins, combinou factores étnicos e geográficos, dando primazia aos primeiros. Para ele, a raça abrangia dimensões de carácter biológico, sociológico, psicológico e histórico: literatura, arte, tradições populares, todas eram expressões da raça. Convoca, assim, o factor racial para explicar as razões da existência da nacionalidade portuguesa e as divisões no seu seio e insiste na especificidade rácica de Portugal face à Espanha, muito embora reconheça um fundo comum. Para além da ascedência lusitana dá importância aos impactos da romanização, ao período do reino visigótico e ao da conquista islâmica. Defende que as populações da Península resultam de uma fusão étnica, onde entram arianos e semitas e vê nos moçárabes o povo português.
As suas teses foram criticadas sobretudo por Correia Barata que questiona se os moçárabes são verdadeiramente uma raça. Segundo ele, não passariam de populações cristãs que viviam sob domínio árabe. Na sua visão, também racial, existe uma fusão de populações, semitas e arianas, mas o elemento ariano, representado por gregos, romanos e povos germânicos predomina.
Na segunda metade do século XIX assiste-se a uma identificação crescente entre povo, nação e raça.

Neste contexto, não podemos deixar de referir Basílio Teles, escritor e político republicano, que desenvolveu um programa nacionalista e protector da agricultura. Dividia Portugal entre um Norte, muito produtivo, de pequena propriedade, e um Sul, em grande medida inculto. Para resolver os desequilíbrios que daí resultavam, propõe a colonização do Sul por gente do Norte, o que resolveria os problemas da balança comercial, da emigração e da impotência política do país. As suas propostas apoiavam-se numa certa representação da história portuguesa, de acordo com a qual o Estado português teria sido uma monarquia guerreira assente na agricultura até finais do século XIV, altura em que deu lugar a um império ultramarino comercial, responsável pela ruína portuguesa.



Esta representação apoiava-se em certos factores étnicos. O Norte, berço de guerreiros e agricultores de origem ariana, é o verdadeiro agente histórico da formação de Portugal, tendo também uma acção decisiva na formação do Brasil. Diversamente, o Sul, com as suas “populações arabizadas”, é dominado pelo comércio, pela aventura marítima e pelo mercantilismo. A hegemonia destes últimos teria começado com o desenvolvimento de Lisboa, que representa uma clara opção pelo comércio, pela construção de um império ultramarino, pelo abandono da agricultura e pelo êxodo da população.
Esta ideia de um país dividido entre arianos e semitas, apesar de largamente criticada, não morre totalmente com Basílio Teles. Teixeira de Pascoaes retoma-a, caracterizando os portugueses como a “raça lusitana”, produto dos sangues dos arianos e semitas que aqui se cruzaram em duas partes iguais. Para ele, existe uma raça portuguesa porque existem, entre outras, uma língua, uma arte, uma literatura, uma história... portuguesas. Para Pascoaes, Raça é o equivalente de Nação.
Não obstante, a visão de Basílio Teles teve pouco acolhimento porque o autor não era considerado um especialista em antropologia, ao contrário do que sucedia com Mendes Correia, seu contemporâneo e crítico. Mendes Correia defendia que havia na etnogenia dos povos ibéricos e berberes os mesmos elementos fundamentais, ao mesmo tempo que criticava a existência de uma raça ariana primitiva. Considerava importante o factor raça na explicação do comportamento dos povos, embora admitisse que tal factor é modelado pelas influências do meio.
António Sardinha procurou estabelecer a originalidade distintiva da Nação Portuguesa numa longuíssima genealogia que recuava aos primeiros habitantes humanos do território. Para ele, os Portugueses seriam os representantes de uma população extremamente homogénea, o que não significava que fossem redutíveis a um tipo antropológico único. O facto de, contrariamente a todos os escritores e pensadores referidos, António Sardinha ser alentejano, poderá explicar que ele atribua maior valorização ao fundo étnico-racial mais associado ao Sul e que coloque a hipótese de ser o Sul o foco da nacionalidade.
Finalmente, temos António Sérgio, outro crítico de Basílio Teles. Elaborando uma interpretação muito influente, representou a história de Portugal como dividida entre duas políticas distintas. Numa primeira fase, teria existido uma monarquia agrícola com comércio integrado que promove a colonização do território, a política de fixação. Posteriormente, com as Descobertas começam os abandonos de produção, transformando-se o país num país de política de transporte. Para António Sérgio, o factor raça apresentado por Basílio Teles não possuía grande credibilidade, uma vez que se é certo que Portugal estava dividido entre dois países, o Norte (Aquém-Tejo) e o Sul (Além-Tejo), divisão que se notava ao nível humano (diferenças na maneira de ser), geográfico (território, clima) e social (pequena e grande propriedade, relações entre classes, etc.), a verdade é que não havia divisão racial, nem a factores raciais se deveriam as modificações na política económica. Defendia sim, a existência de um contraste psicológico e social na história de Portugal, que era o contraste entre o homem do campo e o homem do litoral.

As opções políticas eram assim interpretadas por António Sérgio como decorrentes de posições sociais ligadas a atitudes psicológicas integradas numa temporalidade histórica.




Bibliografia
- Silva, Ana Cristina Nogueira da, Hespanha, António Manuel, “A identidade portuguesa”, História de Portugal (dir. José Mattoso), Lisboa, Círculo de Leitores,

1993, Vol. IV.


- José Manuel Sobral, “O Norte, o Sul, a raça, a nação – representações da identidade nacional portuguesa (séculos XIX-XX), In Análise Social, Vol. XXXIX, nº 171, 2004.
- José Manuel Sobral, Memória e Identidade Nacional: Considerações de carácter geral e o caso português” in Manuel Carlos Silva (org.), Nação e Estado, Entre o Global e o Local, Porto, Edições Afrontamento, 2006, pp. 27-49 (Biblioteca da Faculdade de Direito da UNL).

- José Manuel Sobral, “Pierre Bourdieu e o estudo da identidade nacional”, in José Madureira Pinto e Virgílio Borges Pereira (orgs.), Pierre Bordieu, a teoria da prática e a construção da sociologia em Portugal, Porto, Edições Afrontamento, 2007, pp 225-246 (Biblioteca da Faculdade de Direito da UNL).





1 Citado por José Manuel Sobral no seu texto “Memória e Identidade Nacional: considerações de carácter geral e o caso português”, in “Nação e Estado, entre o global e o local”, (org. Manuel Carlos da Silva), Porto, Edições Afrontamento, pp. 27-49.

2 “Memória e Identidade Nacional: considerações de carácter geral e o caso português”, José Manuel Sobral, in “Nação e Estado, entre o global e o local” (org. Manuel Carlos da Silva), Porto, Edições Afrontamento, pp. 27-49.

“Pierre Bourdieu e o estudo da identidade nacional”, José Manuel Sobral, in “Pierre Bourdieu, a teoria da prática e a construção da sociologia em Portugal” (org. José Madureira Pinto e Virgílio Borges Pereira), Porto, Edições Afrontamento, 2007, pp. 225-246.




3 Sobral reconhece, apesar de retomar o conceito defendido por Hastings que existem inúmeras formas de explicar o conceito de Nação, que sintetiza em cinco conjuntos distintos: a) Os primordialistas, como Van den Berghe, retratam a Nação como algo inerente à própria natureza humana concebida em termos biológicos; b) Os perenialistas, como John Armstrong, aceitam a existência de Nações nos tempos pré-modernos; c) Os modernistas, que vêem a Nação como algo moderno, dependente de factores económicos, como a industrialização, no caso de Gellner, ou como dependente do desenvolvimento da noção de soberania popular, no caso de Hobsbawm ou como dependente do impacto de dinâmicas de difusão e uniformização culturais resultantes da conjugação entre capitalismo e tipografia, no caso de Andersen; d) Os etno-simbolistas, como Anthony Smith ou John Hutchinson, concebem a Nação como um colectivo moderno, mas pensam que ela tem como suporte comunidades étnicas anteriores; e) Os pós-modernistas, como Homi Bhabha, entendem o facto nacional como um produto do discurso de poder do Estado-Nação.

4 “A identidade portuguesa”, Cristina Nogueira da Silva e António Manuel Hespanha, in “História de Portugal” (dir. José Mattoso), Lisboa, Círculo de Leitores, 1993.

5 Por exemplo dizia-se que Portugal fora o primeiro reino de Espanha a converter-se à fé cristã, que em Portugal teriam aportado os primeiros apóstolos, etc.


6 A Espanha era portadora de uma herança comum. Situada na zona mais ocidental da Europa, aí se tinham fixado numerosos povos, atraídos pelas suas riquezas e fertilidade.

7 “O Norte, o Sul, a Raça, a Nação: representação da identidade nacional portuguesa nos séculos XIX e XX”, José Manuel Sobral, in “Análise Social”, vol. 39, nº 171 (2004), pp. 255-284.





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