Naqueles morros, depois da chuva



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Encontro01.08.2016
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Release do livro Naqueles morros, depois da chuva, por James Cirino, da Editora Hedra.
Quem melhor poderia narrar a difícil missão do fidalgo português Luis de Assis Mascarenhas, governador da então província de São Paulo e Minas dos Goyazes, de transformar um punhado de minas de extração de ouro do cerrado brasileiro no embrião daquele que seria o Estado que abriga hoje a capital federal? Um sentinela, claro. De preferência castrado, sem humores para desviar a atenção com mulheres e treinado na arte da vigília por uma jibóia de nome Messalina.
“Naqueles Morros, Depois da Chuva” é a primeira parte de uma trilogia que pretende reconstruir, mesclando ficção e história, a colonização do Estado de Goiás, com sua linguagem característica, preservada por meio da oralidade que o autor Edival Lourenço adquiriu em sua infância. Advogado e filho único de trabalhadores rurais sem terra até a idade de 12 anos, Lourenço cresceu pelos garimpos, ouvindo as histórias dos garimpeiros e dos viajantes. Dessa vivência nasce uma linguagem que, nas palavras do autor, são “um mix dos textos de cronistas viajantes com a conversa que eu ouvia dos contadores de casos nos garimpos de Rio Claro”. Ele próprio, aos 8 anos, filho de pai e mãe analfabetos, usou a rica inclinação à expressão oral do interior goiano para decifrar pela primeira vez os textos de um Almanaque do Biotônico Fontoura, trazido por um vendedor, que leu para ele as histórias do livreto. Acreditando que estava lendo, o menino Edival repetia as histórias, assim como os sertanejos que povoaram sua vida. No entanto, para contar história tão complexa, relatos não são suficientes. Além de pesquisas entre historiadores brasileiros, Lourenço buscou registros da epopéia de Luis Assis de Mascarenhas em documentos trazidos Torre do Tombo e do Conselho Ultramarino, em Portugal, fora as inúmeras visitas feitas a garimpos desativados.
A história do livro se passa no ano de 1739, quando o contrabando de ouro, por meio dos santos do pau oco, estava se alastrando e trazendo sérios prejuízos à Coroa Portuguesa. Assis Mascarenhas, que fora padre, parte para aqueles morros, atrás da chuva, onde, segundo a narrativa dos índios, estavam as jazidas do precioso metal. “Quando o segundo Anhanguera andava com seu pai pela região de Serra Dourada

pela primeira vez, eles viram que os índios usavam folhetas de ouro como adorno. Consta da caderneta de anotação de um auxiliar que perguntando aos índios onde se achava daquelas pedras, ouviu do cacique: ‘Naqueles morros, depois da chuva’. Era o ouro de aluvião”, conta o autor.


Neste primeiro volume, a ação centra-se na chegada do governador ao Arraial de Santana com a missão de extinguir os índios caiapós e de encontrar novas minas. Observado de perto pelo sentinela castrado, que se afirma filho bastardo do próprio Anhanguera, o bandeirante notoriamente conhecido como Diabo Velho por enganar os índios com truques de ilusionismo, Assis Mascarenhas tentará, apesar de todos percalços e acontecimentos insólitos ocorridos durante a viagem, dar cabo de sua missão, enquanto, pacientemente, o narrador, sem nome, espera a oportunidade de vingar aqueles que lhe roubaram a virilidade. “Não sou castrado nem filho ilegítimo. Mas esse narrador tem algo de mim. Pelo fato de viver a infância na zona rural, sofri muito menosprezo quando fui para a cidade, talvez até mais do que um castrado/bastardo. No sertão garimpeiro, quando lá vivi, pelo menos dois sujeitos foram castrados, por rixas e vinganças. Isso era pior do que matar. Com essa cena eu quis mostrar o quanto o sertão era animoso. No mais tenho uma grande empatia por esse personagem.”


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