Natureza do Homem



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  1. Natureza do Homem

No que diz respeito à natureza humana, Marx partiu da idéia de homem verificável, onde a vida se assenta em sólidas bases materiais, podendo ser definido biológica e fisicamente, por ser inorgânico. Portanto, além de ser natural, o homem é um ser histórico. Compreende-se que há um interrelacionamento dialético entre homem e natureza:


A natureza é o corpo inorgânico do homem, isto é, a natureza na medida em que não é o próprio corpo humano. O homem vive da natureza, quer dizer: a natureza é o seu corpo, com o qual tem de manter-se em permanente intercâmbio para não morrer. Afirmar que a vida física e espiritual do homem e a natureza são independentes significa apenas que a natureza se interrelaciona consigo mesma, já que o homem é uma parte da natureza. (MARX, 1993: p.164)
Esta história da natureza humana apresentada pelo jovem Marx nos Manuscritos é a "essência" humana, em contraste com as várias formas de sua existência histórica. Significando afirmar que Marx visualiza a distinção entre natureza humana geral e a expressão específica da mesma em cada cultura, pois reconhece os impulsos e apetites humanos que são constantes ou permanentes como a fome, a sede, os desejos sexuais, etc., que não variam, e os relativos, que não fazem parte da natureza humana, por surgirem da estrutura social, como por exemplo, a falta de dinheiro, pois são elementos culturais e sociais.

A tensão dialética entre o que é natural, social e cultural do homem se dá numa relação histórica, ou seja, o homem tanto é produto da história como é agente da mesma. Portanto, a história é história da auto-realização humana, enquanto o homem é possuidor de consciência, que o distingue dos outros animais e que o torna genérico, que é quando o homem apreende-se como gênero e espécie, como indivíduo que percebe sua própria universalidade, é consciente de si como universal e infinito, possuindo assim autoconsciência ou consciência no sentido estrito, que só aparece quando o ser tiver como objeto seu gênero e sua essencialidade.

E assim, pode-se perceber esse princípio ainda marcante no jovem Marx, no qual o "Espírito" se volta sobre si mesmo, sendo este, o princípio hegeliano, é a consciência de si que será analisada filosoficamente. Dessa forma, o princípio do movimento é característica da natureza humana; esse princípio (análogo à "consciência em si" hegeliano) não deve ser interpretado de forma mecânica, pois se, na atividade humana, a sua ação for mecanizada, não será uma ação livre, uma atividade criadora, pois:
(...) o homem está vivo a partir do momento em que é produtivo, na medida em que abarca o mundo exterior no ato de manifestar seus próprios poderes humanos específicos e de abarcar o mundo com estes.
Entretanto, a partir do momento em que o homem deixa de ser sujeito ativo de sua ação, não agindo mais livremente e sim de forma passiva, surge o homem alienado, onde o homem antes consciente, transforma suas atividades em simples meio de sobrevivência, alienando sua "essência" que é sua ação livre e genérica.

O que caracteriza o homem, enquanto ser genérico, é a sua atividade livre e consciente, ou seja, enquanto o animal identifica-se imediatamente com sua atividade vital, não se distinguindo dela, que é a sua própria atividade; o homem faz da atividade vital o objeto da vontade e da consciência. Em suma, o homem possui uma atividade vital consciente:


A actividade vital consciente distingue o homem da actividade vital dos animais. Só por esta razão é que ele é um ser genérico. Ou melhor, só é um ser consciente, quer dizer, a sua vida constitui para ele um objecto, porque é um ser genérico, unicamente por isso é que sua actividade surge como actividade livre. O trabalho alienado inverte a relação, uma vez que o homem enquanto ser consciente, transforma a sua actividade vital, o seu ser, em simples meio de existência. (MARX, 1983: p.165)
A discussão acerca do problema da alienação surge juntamente com o capital, onde o produto e a ação do homem torna-se mercadoria, não mais lhe pertencendo. E o estranhamento acontece a partir do momento em que o homem é dominado numa servidão sem precedentes, degradando e falsificando o significado de sua existência, enquanto ser individual e coletivo; e assim os produtos, através da ação humana aparecem enquanto uma realidade estranha, que surgem juntamente com o capital, tornando-os mercadorias, e isso significa afirmar que:
O trabalho, por conseguinte, em vez de ser uma forma de realização de suas capacidades criativas, em vez de permitir a manifestação de seu ‘ser essencial’, em vez de ser a sua afirmação como homem, instituiu-se na sociedade capitalista como raiz profunda de sua radical e absoluta negação. (SOUZA, 1990: p.164)
Este é o estranhamento, onde o homem não se reconhece mais no resultado de seu trabalho, pois este torna-se mercadoria na sociedade capitalista: A produção não apenas produz o homem como uma mercadoria, a mercadoria humana, o homem sob a forma de mercadoria; de acordo com essa situação, produz o homem como um ser mental e fisicamente desumanizado. (MARX, 1993: p.174)

Diante disso, a partir do momento que o homem não reconhece mais o produto de seu trabalho como sendo seu, ocorre a negação de sua própria essência, e assim o homem produz somente para sobreviver e acumular.




  1. Essência Humana

As expressões "essência do homem" ou "essência humana", "realidade humana" e "verdadeira realidade humana", têm todas o mesmo sentido conceitual de essência ou natureza do homem. Para o jovem Marx, a essência humana está presente no trabalho alienado e, neste sentido, está alienada de sua existência, acontecendo assim, a sua negação real e efetiva. Ao se referir à negação da essência humana, Marx está citando o trabalhador e analisando seu trabalho que é alienado dentro da produção capitalista, onde:


Em primeiro lugar, o trabalho é exterior ao trabalhador, quer dizer, não pertence à sua natureza; portanto, ele não se afirma no trabalho, mas nega-se a si mesmo, não se sente bem, mas infeliz, não desenvolve livremente as energias físicas e mentais, mas esgota-se fisicamente e arruina o espírito. Por conseguinte, o trabalhador só se sente em si fora do trabalho, enquanto no trabalho se sente fora de si.
E por isso, Marx apresenta, nos Manuscritos, a essência humana de forma alienada, presente no trabalho alienado, na propriedade privada e na debilidade material do homem, em sua origem diante da própria natureza; por isso, Marx conclui que o homem nunca viveu de acordo com sua própria essência, pois esta nunca se manifestou efetiva real e historicamente, pois o trabalho forçado:
Não constitui a satisfação de uma necessidade, mas apenas um meio de satisfazer outras necessidades. O seu caráter estranho ressalta claramente do facto de se fugir do trabalho como da peste, logo que não existe nenhuma compulsão física ou de qualquer outro tipo. O trabalho externo, o trabalho em que o homem se aliena, é um trabalho de sacrifícios em si mesmo, de mortificação. Finalmente, a exterioridade do trabalho para o trabalhador transparece no facto de que ele não é o seu trabalho, mas do outro, no facto de que não lhe pertence, de que no trabalho ele não pertence a si mesmo, mas ao outro. (op.cit.: p.162)
A essência humana apresentada pelo jovem Marx é concebida como sendo oposta ao trabalho alienado, sendo a essência, o trabalho criador onde o homem se reconhece em seus produtos e atividades e, nas relações estabelecidas com os demais, significa afirmar que esta essência humana não se manifestou na existência do homem e, por isso, aparece do lado da história separada da existência humana.

A concepção de história, presente nos Manuscritos, é a história de desumanização e humanização do homem e de negação e afirmação de sua essência, em que a essência humana só se dará efetivamente, quando se resolver esse rompimento entre existência e essência.


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