Natureza, Enraizamento e Desenvolvimento Situado: Por um Mundo com Terra



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III Encontro da ANPPAS

23 a 26 de Maio de 2006

Brasília - DF


Natureza, Enraizamento e Desenvolvimento Situado: Por um Mundo com Terra
Severiano José dos Santos Jr. (CEFET/BA; CDS-UnB)

Gabriela Tunes (CDS-UnB)

Roberto S. Bartholo Jr. (COPPE-UFRJ)
Resumo:
Na contemporaneidade, a criação do que Milton Santos chama de meio técnico-científico-informacional tem gerado grandes dissociações entre a produção da vida coletiva humana e a base material (e simbólica) que a sustenta – a Terra e seus recursos. Este processo se inscreve, de acordo com Carneiro Leão, na crença moderna da possibilidade de se criar um mundo (Natureza transformada pelas ações sócio-econômicas) sem Terra (Natureza “natural”). Sem Terra o ser humano se torna desenraizado, desvinculado das matrizes que lhe permitem a sua própria condição de humanidade. Para Simone Weil, no desenraizamento, o homem conhece uma das piores formas de escravidão - a perda da autonomia de se auto-conduzir, tornando-se, assim, vulnerável a diversas potências tutelares. Grandes propulsores dessa forma de escravidão são a técnica, a ciência e o mercado. Como contraponto, Hassan Zaoual nos traz a idéia de homo situs, um sujeito histórico, vinculado às próprias matrizes sócio-econômicas e simbólicas, que dinamiza sua prática social a partir de uma clara noção de pertencimento e territorialidade. Enraizado, define autonomamente seu lugar no mundo, podendo, então, ser sujeito ativo de um desenvolvimento situado.

O Meio Técnico-científico-informacional
Nosso mundo encontra-se, por assim dizer, dissociado, como se fosse uma pessoa neurótica. (...) Este estado de coisas explica o estranho sentimento de impotência que envolve tanta gente nas sociedades ocidentais. São pessoas que começam a perceber que as dificuldades que enfrentamos são de ordem moral. JUNG, 1998, p. 85.

Essas palavras de Carl Jung, escritas na década de 60, no auge do período da Guerra Fria, ainda encontram forte ressonância na grande ambigüidade presente nos dias atuais: a grandiosidade e opulência produzidas pelos aparatos do sistema técnico-industrial não escondem o processo de empobrecimento cultural e degradação ecológica que este modelo de desenvolvimento tem gerado. Nunca a capacidade humana de potencialmente transformar os sistemas naturais em bens se excedeu ao que presenciamos com a virada do século do Séc. XXI. No entanto, nunca os impactos negativos sobre o meio ambiente atingiram tamanha proporção, bem como nunca o número de “miseráveis” e de pessoas “sem condições” foi tão elevado. A velocidade e a multiplicação exponencial da capacidade do sistema global têm criado um mundo cada vez mais rico em bens humanos, porém cada vez mais incerto em sua possibilidade de gerar felicidade e bem estar, bem como de garantir a manutenção da vida sobre o Planeta, assim como a conhecemos.

Este é um fenômeno crescente. A difusão do sistema técnico-industrial global, hoje, acontece em praticamente todos os países no mundo1. Com o processo de globalização ora em curso, a expansão do sistema, através da ampliação do poder do capital pelas grandes corporações internacionais e pelos Estados do centro, tem integrado o mundo cada vez mais com o uso de mecanismos da ciência, da técnica e da informação, por meio do que Milton Santos (1994) chama de meio técnico-científico-informacional. Difícil hoje é encontrar um pedaço de território ou paisagem que não esteja já sob a influência do sistema global, ou pessoa alguma que, direta ou indiretamente, não seja afetado por ele.

A proposição marxista, que afirma a transformação, pela produção social do trabalho, da “natureza natural” em uma “segunda Natureza” (artificializada) se torna cada vez mais presente na realidade contemporânea, marcada pela tendência à ampliação dos poderes de intervenção dos sistemas técnico-industriais. Os processos engenheirais e culturais da modernidade têm possibilitado a criação de espaços supra-naturais cada vez mais especializados e sofisticados no lugar dos ecossistemas e meios naturais.

Nos países centrais, principalmente, a construção da artificialidade se dá em cima do que já é artificial. Desta maneira, não poderíamos apenas nos referir mais a uma “segunda natureza”, mas também a uma “terceira” ou “quarta” naturezas, e assim por diante. Diante do nível de profundidade do evento, Milton Santos aponta para um possível fim da Natureza, “na medida em que nas áreas chamadas desenvolvidas, o trabalho do homem é, hoje, inteligência dando-se sobre a inteligência” (SANTOS, 1994, p. 115). Trabalho sobre trabalho, técnica sobre técnica, cultura sobre cultura, capital sobre capital geram um mundo cada vez mais artificializado, articulado e, sobretudo, distante da base mesma que o faz existir: a Natureza matriz.

O advento do meio técnico-científico-informacional, na contemporaneidade globalizada, permite uma indissociabilidade sócio-espacial (geográfica e histórica) pela transformação da técnica em um sistema unificado (tecnologia), a qual envolvendo o planeta como um todo, faz-se sentir instantaneamente em cada canto do mundo (SANTOS, 1996, Capt. VII). A fragmentação e os processos de lentas sucessões técnicas que anteriormente existiam nas civilizações pré-modernas dão lugar a um tipo novo de fazer técnico marcado pela universalização da racionalidade científica (enquanto método e razão cognitiva-conceitual) e por seu caráter estritamente instrumental. O fazer técnico é, assim, igualado e potencializado pela ciência, processo este que o torna capaz de unificar o espaço geográfico fragmentado e a gestão das pessoas e das coisas pela eficiência de métodos e instrumentos de intervenção e disponibilização do real (BARTHOLO, 1986).

Milton Santos aponta, assim, para a integração do sistema-mundo contemporâneo por meio de uma “unicidade técnica”, a qual é caracterizada por um “modelo (de técnica e tecnologias) comum a todas as civilizações” (SANTOS, 1996, p. 153), algo desconhecido no passado. Todo sistema se homogeiniza com a capacidade da plena integração tanto em nível espacial quanto em nível temporal (SANTOS, 2003, p. 27) do sistema global..

O território é uniformizado pela elasticidade da técnica moderna (comunicações, transportes) e a temporalidade converge a um único fim pela possibilidade de concentração de ritmos e tempos (simultaneidades) fundidos pelos sistemas de informação e inteligência globais. O tempo do meio técnico-científico-informacional, estendido para fora do curso natural dos dias, das noites e estações é atado a um só sistema de controle pela crescente informatização. A diversidade das paisagens e territórios é unificada pela reprodução mimetizada das paisagens homogeneizadas e hegemônicas dos países centrais. Todo o processo se dá em obediência ao que ele concebe como o “motor único”: o sistema de mais valia internacional concebido e administrado pelas grandes corporações e pelo sistema financeiro internacional (SANTOS, 1996, p. 163; 2003, p. 29).

Assim, a lógica de incremento da produção (agricultura, indústrias, serviços) e do consumo de massa (bens e serviços) vigora por meio do e para o fortalecimento da unicidade técnica, transformada em mais-valia global (ou vice-versa). A antiga divisão entre os espaços naturais/rurais e o urbano tem sido cada vez menor pelo aparelhamento técnico de todos os territórios sob o comando político-econômico-cultural da racionalidade técnico-científico centrado nas (grandes) cidades e indústrias. Nesta ordem, a geração de benefícios (bens e serviços) está ligada diretamente ao sistema de ganho do (grande) capital, internacionalizado, integrando produção/trabalho/consumo através da difusão de um capitalismo global cada vez mais orientado pelo pragmatismo utilitarista técnico-científico.

O sistema se alimenta dos recursos retirados do meio natural, assim como do desejo de pertencimento e de prazer (em última instância de sobrevivência) das pessoas pelos bens e benefícios oferecidos. Essas, entregues ao ditame do consumismo e das estruturas de trabalho dadas, são cooptadas pela promessa de um bem-estar material cada vez maior e pela negação das múltiplas potencialidades simbólicas e sócio-econômicas que acompanharam a História humana durante milênios. As resistências são dirimidas pela própria auto-inclusão das pessoas num movimento cíclico de vontade e realização que, como apontava Marcuse (1982), uni-dimensionaliza o humano pela total entrega aos sistemas de automação técnica. Resistências se transformam em exclusão. Ou se está nele e vive-se dele, ou não se está e se perece por causa dele.

No ápice da construção desse sistema-mundo e no mergulho na vontade de cada vez mais a ele pertencer, distancia-se o ser humano da vontade pela Terra, por sobre a qual o mundo da técnica é criado e re-produzido, e pela qual a vida é e se sustêm.


O Mundo sem Terra
A Terra é mais antiga do que o homem e a história. CARNEIRO LEÂO, 1988, p. 55.
O Mistério criou a Terra. A Terra criou o homem. O homem criou o mundo. E, o mundo, hoje, é o mundo da técnica.

Até certo tempo, antes da Revolução Industrial, a ação produtiva/criativa humana fez nascer diversidades de mundos, espalhados por todos os continentes, tanto quanto havia diversidades de culturas que, de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, da Terra se nutriam. Na modernidade, o ser humano - não o amarelo, o vermelho, o negro ou o pardo, mas, o branco – unificou os mundos em um único sistema-mundo. Na contemporaneidade, vivemos (agora, todos – vermelhos, negros, brancos, pardos, amarelos) no mundo do meio técnico-científico-informacional, alquimizados nos candinhos de uma Europa que começou a vigorar por ter se emancipado da Tradição, por meio do racionalismo laico, do industrialismo e do capitalismo.

Aos poucos, a ferro e fogo, com idéias, engenhos e moedas, a Europa civiliza o mundo, unificando a história e a geografia dos povos. Hoje, o mundo é o da unicidade técnica e do motor único, que abandonando o lugar como chão de morada e do viver, passa a re-territorializar os lugares e os seres humanos pela criação do mundo da técnica total (CARNEIRO LEÂO, opus cit., p. 56). É esta totalidade, que vive da exclusividade da produção humana, que se pretende livre para cada vez mais gerar uma totalidade humana ainda maior e ainda mais distante das fontes terrenas que a nutre. “O homem é mais antigo do que o mundo e a técnica. O mundo e a técnica têm lugar e data marcada (...). Por isso, a técnica pretende submeter o homem com a tecnologia, dirigindo a história e substituindo a Terra pelo mundo” (CARNEIRO LEÂO, opus cit., p. 55).

A Terra precede ao humano, ao mundo e à técnica. No entanto, na contemporaneidade vivemos da absurda visão de que os sistemas de produção e re-produção globais ao se utilizar da Terra como recurso, por meio da técnica, pensam Dela poder prescindir. Nutre-se do fruto, nega-se a árvore, pela crença de pela instrumentalidade poder desse fruto fazer nascer uma nova árvore em solo postiço. Artificialidade em cima de artificialidade. Descarte propôs o Universo como uma espécie de artefato magistralmente concebido pelo Grande Arquiteto, o qual apenas teve o esforço de colocá-Lo em movimento, cabendo à racionalidade humana desvendar seus segredos e redimensioná-Lo segundo nossas capacidades e talentos. Assim também, o avanço da tecno-ciência para além dos limites da bio-engenharia contemporânea propõe uma Terra (Natureza) apenas com um começo (indefinido), da qual pode-se extrair a finalidade da vida para a reprodução da própria vida em laboratório. Tal é o êxtase do jogo criativo humano.

O mundo, hoje, sendo esta forma de engendrar relações e coisas dadas pela capacidade técnica, encontra suas raízes no poder totalitário de intervenção utilitarista. Ademais, torna-se des-terrado, quando transforma a Terra apenas em despensa de haveres úteis ao sistema industrial, fazendo Dela, também, lugar de desterro, onde será lançado o que não é mais utilizável. Neste impacto do mundo sobre a Terra, dá-se o que se prolifera atualmente como a crise ecológica ou ambiental. No entanto, não mais da Terra se fala, mas sim, em recursos, riquezas ou capital natural. Transformada em sua essencialidade pela racionalidade técno-científica, a condição matriz da Terra é deslocada para a ordem do proceder dos conceitos, números e operacionalizações, pretendendo com isto fazer com que o sistema-mundo continue a girar e as pessoas continuem a consumir.

É desta forma que, em projetos e programas de sustentabilidade vigentes na política oficial contemporânea, as assim conhecidas capacidades de suporte e de resiliência dos ecossistemas são levadas em consideração na medida em que suas insuficiências podem levar a exaustão o sistema produtivo-mercantil. Pretende-se, desta forma, por meio de mecanismos de ajustes de gestão, gerados nos centros de excelência da racionalidade científica, re-dimensionar danos e possibilidades no sentido de se mitigar os problemas e se continuar a exploração. Nestes termos, a Terra vista como ecossistema torna-se apenas um sub-sistema do mundo da técnica total. Assim, a Terra, seus seres e dinâmicas, é astutamente tragada de volta para dentro do sistema de manipulação instrumental, sendo desconsiderada, então, a condição que lhe faz existir como tal, a qual oferece ao humano a sua forma de ser .

Neste sentido, o que se coloca para a contemporaneidade como a essencialidade do desafio ecológico não é apenas a “‘conservação dos recursos naturais’, mas nos mostrar que o que está em jogo é no fundo o nosso modo de considerar a Terra” (L. SANTOS, 1994, p. 52-53). Porque da Terra dificilmente consegue o ser humano se abster, pois que, além de fonte de manutenção e reprodução da existência concreta humana na história, também, e essencialmente, lhe oferece o seu “modo de ser” (Idem, Ibidem). Da matriz terrena, o ser humano surgiu e, nela, encontra o seu oikos. Morada aqui significa, antes de lugar da habitação física da humanidade, lugar onde o ser humano é plenamente humano, onde sua condição humana se realiza. Da Terra jamais poderá sair o humano, sem que arranque de dentro de si as raízes mais fundas da árvore de que um dia nasceu. Em outros cantos do Universo poderá até vicejar, mas, dificilmente se saberá livre sem que uma forte saudade lhe acompanhe. “Do pó viestes...”

Na preparação de uma morada que comungue com a bem-aventurança terrena, o oikos, como a casa e o habitar, fundamenta originalmente o modo de proceder da eco-logia e da eco-nomia. Ambas, lançadas a sua condição primeira vigoram como processo dialógico, no encontro com a gratuidade de uma “oykoymenege – a Terra enquanto é e pode ser habitada pela vida” (CARNEIRO LEÃO, opus cit., p. 64.)2. E, como nos aponta Carneiro Leão (Idem, Ibidem, p. 64-65) na possibilidade de uma economia ecumênica (integrada ecologicamente) estabelece-se, assim, o encontro da produção de bens com a “poesia e prosa da Terra”. Já não é a produtividade que busca arrancar da Terra suas últimas riquezas materiais, mas de um proceder humano que retira o necessário Dela, porque re-integrado simbólica e solidariamente a si, aos outros e à Terra.

O diálogo que vigora neste encontro do mundo com a Terra, por meio da economia ecumênica, permite que o encoberto do dar-se da Terra se mantenha velado. Assim, a ação produtiva humana zelosa, por que atenta e escutando, encaminha-se para uma abertura por onde não só a Terra se oferece como meio de subsistência material, mas como condição de vitalização simbólica do próprio ser humano. A gratuidade revelada permite que o encontro entre a criatividade humana e a essencialidade da Terra se dê como a raiz que possibilita tanto o vicejar das árvores e frutos quanto a sua permanência de seus ciclos. Nancy M. Unger, refletindo sobre o pensamento de M. Heidegger a respeito da técnica moderna, coloca:
O velado da Terra, a pedrice da pedra, o brilho da cor, não podem ser reduzidos unicamente ao que o pensamento do cálculo delas apreende, porque são ontofanias, modos de revelação do ser, que possibilitam múltiplos sentidos e remetem a níveis diversos de experiências. Se a imposição unilateral deste modo de se relacionar com o real constitui o desenraizamento moderno, o morar que é um preservar e salva, isto é, deixar-ser, propicia aos mortais a condição de um novo enraizamento. UNGER, 2001, p. 125.

Enraizamento e Desenvolvimento Situado
A Terra, conforme definida por Carneiro Leão, é elemento fundamental para o enraizamento do ser humano. Simone Weil (2001) discorre sobre o enraizamento afirmando ser ele a necessidade vital do ser humano mais difícil de ser definida. À necessidade de estar em sintonia com a Terra, acrescenta ela a necessidade que cada humano tem de estar plenamente integrado em sua coletividade, em seu território e em sua história. Para ela:

Um ser humano tem raiz por sua participação real, ativa e natural na existência de uma coletividade que conserva vivo certos tesouros do passado e certos pressentimentos do futuro. Participação natural, ou seja, ocasionada automaticamente pelo lugar, nascimento, profissão, meio. Cada ser humano precisa ter múltiplas raízes. Precisa receber a quase totalidade de sua vida moral, intelectual, espiritual, por intermédio dos meios dos quais faz parte naturalmente. WEIL, 2001, p. 43.

A tendência contemporânea de eliminação da Terra é sobretudo uma tendência desenraizante. E, desenraizados, não realizamos plenamente nossa condição humana, pois somos expropriados de nossa própria vida, da capacidade de conduzi-la autonomamente e encontrar nela seu sentido. Ficamos sujeitos então a uma das piores formas de escravidão, essa que advém da perda de autonomia para definir o que é importante ou não para conduzir nossa própria vida; tornamo-nos dependentes de critérios gerados exogenamente, e, contemporaneamente, podemos dizer que são a ciência, a técnica e o mercado os grandes geradores desses critérios.

Estar enraizado é estar domiciliado em sua própria morada, ou, em outras palavras, sentir-se em casa. Vários são os elementos que constituem uma verdadeira morada que se pode considerar própria. Elementos como história, memórias, pessoas, vínculos. Aqui pretendemos apontar para o fato de que não pode haver morada sem um território, sem a Terra, conforme definida por Carneiro Leão. Tudo o mais que nos enraíza em uma coletividade é construído por sobre a Terra.

O desenraizamento é o assassinato do passado. Um ato suicida, “pois não possuímos outra vida, outra seiva, senão os tesouros herdados do passado e digeridos, assimilados, recriados por nós” (WEIL, 2001, p. 50). O futuro depende da existência e da posse do passado, pois o futuro não traz nem fornece nada; os homens é que o constroem, com base no patrimônio, constituído de passado, que possuem. Por isso, o desenraizamento, ao aniquilar o passado, desfere um golpe mortal na capacidade das pessoas construírem seu futuro, tornando-as escravos de diversas potências tutelares.

O ser humano desenraizado é expropriado de sua própria vida, perde a capacidade de conduzi-la e de encontrar nela sentido. Entra em estado de servidão, pois necessita de critérios e recursos exogenamento originados. Inúmeros são os fatores que promovem o desenraizamento, e Simone denuncia que tanto a modernidade industrial capitalista, quanto o socialismo real desenraizam o homem da criação, da tradição, da história, engendrando as condições da mais plena escravidão (BARTHOLO, 2002, p. 78).

Simone Weil (2001) afirma que um dos fatores de desenraizamento é a educação moderna, realizada no meio técnico-científico-informacional (conforme descrito por Milton Santos) e a partir dos seus princípios. Segundo ela, a educação moderna se desvincula da vida real, pois é “orientada para a técnica e influenciada por ela [...], tingida de pragmatismo, extremamente fragmentada pela especialização” (WEIL, 2001, p. 45-46):

O que se chama hoje instruir as massas é pegar essa cultura moderna, elaborada num meio tão fechado, tão doentio, tão indiferente à verdade, tirar-lhe tudo o que ela ainda possa conter de ouro puro, operação que se chama vulgarização, e enfornar o resíduo tal e qual na memória dos infelizes que desejam aprender, como se enfia comida pela goela dos pássaros. WEIL, 2001, p. 46.

A educação, para ela, deveria se dar espontaneamente, e estar vinculada ao trabalho daqueles com quem os jovens convivem. Aos jovens deveria ser permitido freqüentar o ambiente de trabalho de seus pais, ou daqueles que lhes são próximos, para que fosse possível o aprendizado daquele tipo de trabalho. Os conteúdos ensinados deveriam estar completamente vinculados à realidade vivida pelos aprendizes, para que pudessem ter algum sentido. Simone Weil (2001) critica de forma contundente a educação moderna, afirmando que é algo desprovido de razão de ser:

Acredita-se que um pequeno camponês hoje, aluno da escola primária, sabe mais do que Pitágoras, porque repete docilmente que a Terra gira em torno do Sol. Mas de fato ele não olha mais as estrelas. Esse sol de que lhe falam na aula não tem para ele nenhuma relação com aquele que vê. WEIL, 2001, p. 45.

Simone Weil (2001) nos mostra que o modo de transmitir o conhecimento considerado válido para a civilização industrial contemporânea exclui o caráter territorial do ser humano. Trata-se de um conhecimento desterritorializado, desvinculado da Terra e de tudo o mais que é efetivamente parte da vida das pessoas; é hermético e inacessível. Esse modelo de educação reforça a hegemonia do meio técnico-científico-informacional, contribuindo para a perda de autonomia das pessoas para gerarem e adquirirem os conhecimentos necessários às suas vida.

A transmissão dos conhecimentos que permitem a existência e a hegemonia do meio técnico-científico-informacional é um dos principais vetores que possibilitam o desaparecimento da Terra, conforme concebida por Carneiro Leão. Pois a partir desses conhecimentos, que praticamente o mundo inteiro assimila de forma igual desde a mais tenra infância na escola, nos vemos como homens. O poder do meio técnico-científico-informacional existe porque este não cria somente teorias, mas, conforme aponta Gustav Landauer (1960, p. 23), cria também poderes da prática. Por exemplo, as construções das ciências sociais utilizadas para explicar inúmeros fenômenos, das quais podem ser citadas a divisão de classes, as classes, o povo, “não são somente ferramentas que facilitam a compreensão, mas também toda a criação de novas realidades, comunidades, instituições e organismos” (traduzido de LANDAUER, 1960, p. 23).

A produção de conhecimentos científicos que dizem respeito ao homem não é a ação neutra de contemplar a Natureza, mas é capaz de engendrar realidades em conformidade com as teorias que formula. Dessa forma, ao formular uma teoria que pretende explicar o homem em sua inteireza, a ciência é capaz de reduzir o homem a muito menos do que ele realmente é, e não só na representação que faz do homem, mas também na realidade do próprio homem vivente que toma por verdade as asserções da teoria. Em outras palavras, uma teoria da ciência, quando diz respeito ao homem e ao meio em que vive, tem a possibilidade de se converter em uma profecia auto-realizável (TUNES, 2005).

Desse modo, quando os conhecimentos associados ao meio técnico-científico-informacional são transmitidos por meio da educação moderna a um grande número de pessoas, caso elas os tomem por verdade, passam a ser elas agentes da destruição da Terra. Passam a conduzir suas vidas buscando enfraquecer os vínculos com a Terra e sua história, e, assim, vão tornando-se cada vez mais desenraizadas e sujeitas à tutela das instituições que formam o meio técnico-científico-informacional.

Hassan Zaoual (2003; 2005) aponta para a necessidade inversão dessa tendência, por meio do re-encaixe do homem em sítios simbólicos de pertencimento. O homo situs, habitante dos sítios, é o homem capaz de conduzir sua vida autonomamente. No interior do sítio, os recursos e conhecimentos do meio técnico-científico-informacional podem ser digeridos por homens concretos que sabem o que fazem, ao contrário dos robôs lobotomizados que padecem do desenraizamento, e que, comportando-se como idiotas culturais, assimilam prontamente todas as prescrições geradas por diversas potências tutelares.

A tendência à homogeneização que o meio técnico-científico-informacional impõe pode encontrar resistência na capacidade de auto-definição do homo situs. Esse homem enraizado e situado é capaz de manter outra relação com a Terra, entendida não como fonte de recursos para os projetos da moderna técnica, mas como o substrato, o chão sobre o qual a vida se desenrola. Assim, o homo situs entende que Dela não pode prescindir, pois sentido de sua existência ele encontra no interior do sítio, do qual a Terra é parte fundante. Desse modo, o homo situs vincula-se indissociavelmente à Terra, guardando com ela a relação de respeito e gratidão, e não mais a tendo como fonte de recursos para requisição utilitária por parte dos aparatos técnico-industriais.

A técnica, a tecnologia e o conhecimento gerados no interior do sítio têm como base esse outro modo de interação com a Terra. A gestão situada dos recursos naturais se torna, desta maneira, integrada à construção material e simbólica da coletividade na dinamização da busca de formas concretas de se viver e se relacionar. Assim também seria o desenvolvimento engendrado em cada sítio de pertencimento. Cada sítio apresenta um desenvolvimento próprio, que resiste à tendência totalizante de imposição de um modelo único de desenvolvimento: o desenvolvimento situado aponta para a diversidade. Conforme aponta Tunes (2005):

O desenvolvimento situado não é um modelo conceitual. Ele somente existe quando é um fato concreto. Não é algo que se busca, mas que acontece. Não traz nenhuma promessa de um futuro grandioso, não é possível conceber para onde nos levará. Não cria hierarquias ou classificações entre povos e culturas. Não permite a opressão dos sistemas totalitários e totalizantes. Traz, somente, a possibilidade da realização plena da humanidade, pela preservação da alteridade e da liberdade, e por tornar possível o exercício da criatividade. TUNES, 2005, p. 182.

Situar o desenvolvimento e a existência humana são condições de possibilidade de entendimento do Mundo como parte da Terra e da Terra como a matriz para a realização do enraizamento das múltiplas coletividades. Isso não significa negar a técnica, a ciência e a tecnologia, mas construí-las segundo outros princípios, entendendo, principalmente, que o homem depende da Terra, daquilo que lhe foi dado como base de sua existência, que não é fruto de sua criação, e não se iludir ante seus próprios feitos a ponto de pensar que pode Dela prescindir. O risco maior da surdez a esse alerta de Carneiro Leão, Milton Santos, Simone Weil e Hassan Zaoual é o homem tornar-se assassino de sua própria condição humana.

Referências Bibliográficas

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BARTHOLO, R. 2002. Passagens: Ensaios entre Teologia e Filosofia. Editora Garamond, Rio de Janeiro, 2002, 170 pp.

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Landauer, Gustav. La Revolución. Tradução de Pedro Scaron, Editora Proyección, Buenos Aires, 1960, 154 pp.

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SANTOS, Luciano C. Reflexões sobre a Terra. In: SANTOS, L. O passeio da coruja – ensaios filosóficos. Rio de Janeiro: Leviatã, p. 46-54.

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______________. A natureza do espaço – técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996, 308 pp.



______________. Por uma outra globalização – do pensamento único à consciência universal. 10ª ed. São Paulo: Record, 2003, 174 pp.

UNGER, Nancy Mangabeira. O Encantamento do Humano. Ecologia e Espiritualidade. São Paulo: Loyola, 1991. 94 pp.

UNGER, Nancy Mangabeira. Da foz à nascente. O recado do rio. São Paulo: Cortez; Campinas/SP: Editora da Unicamp, 201 pp.

TUNES, Gabriela. Sobre Raízes e Utopias: Caminhos Contemporâneos do Desenvolvimento Situado. Tese de Doutorado, Centro de Desenvolvimento Sustentável, Universidade de Brasília, 2005, 176 pp.

WEIL, Simone. O Enraizamento. Tradução de Maria Leonor Loureiro, Editora da Universidade do Sagrado Coração – EDUSC, Bauru, 2001, 272 pp,

ZAOUAL, Hassan. Globalização e diversidade cultural. São Paulo: Cortez, 2003, 120p.



______________ . Nova Economia das Iniciativas Locais. Uma introdução ao pensamento pós-global. Rio de janeiro: DP&A, 2005. 194 p. (no prelo).


1 Mesmo os países mais pobres, não deixaram de ser invadidos por aparatos, produtos ou sistemas de gestão da modernidade técnica vindos dos países centrais. Nesses países, incluindo a África, América Latina e parte do continente asiático, o que ocorre é a discrepância entre aqueles que têm acesso e controle desses bens e aqueles que são excluídos dos mesmos.


2 Para um maior detalhamento sobre a relação entre economia, ecologia e ‘ecomenia’, ver MENDES, 1996.



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