Nelson Werneck Sodré e a História Nova Judite Trindade



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Nelson Werneck Sodré e a História Nova

Judite Trindade

Uma nova leitura de Nelson Werneck Sodre parece hoje bastante oportuna, sobretudo quando a obra escolhida é a História Nova.

Antes de falarmos da obra vamos falar de seu autor. N.W.S. Nasceu em 1911.1 Seguiu a carreira militar, ainda jovem se integrou ao que se convencionou chamar de ala esquerda militar. Na condição de militar; intelectual e comunista- ligado ao Partido Comunista Brasileiro- já no Estado Novo se alinha na luta contra o fascismo. As primeiras informações sobre sua atuação política, são encontradas nos arquivos do DOPS/S.P e datam de 1945 e ao longo da existencia desse orgão de repressão política totalizam 91 pastas.2

Em 1950 assumiu a direção do departamento de Cultura do Clube Militar, na chapa nacionalista liderada pelo General Estillac Leal e passou a dirigir a Revista do Clube Militar. Já era então conhecido por sua posição nacionalista de esquerda e sua atuação no ISEB –Instituto Superior de Estudos Brasileiros a partir de 1955 vai torna-lo um dos principais intelectuais comunistas.

Nelson Werneck Sodré integrou o grupo fundador do ISEB. Instituto que foi responsável pela elaboração do Projeto Nacional-Desenvolvimentista. Projeto este que será a base do governo de Juscelino Kubtschek.3 O ISEB, era um instituto de Ensino e Pesquisa e possuía um Departamento de História, foi neste departamento que um grupo de historiadores, liderados por N.W.S elaborou o projeto de rescrever a História do Brasil. Pretendia-se proporcionar aos professores do nível médio textos que lhes permitissem fugir à rotina dos compêndios adotados.4

A coleção composta de 10 volumes, foi elaborada entre 1961 e 1964, sendo lançada em março de 1964, ás vésperas do golpe militar. Primeiro foi lançada pelo Ministério de Educação e Cultura-MEC- em 10 pequenos cadernos e depois pela editora Brasiliense que não chegou a publicar todos os volumes.

Logo depois do lançamento a obra recebeu severas criticas e pareceres, a obra representava segundo seus autores um rompimento com a história oficia; factual e mitificada. Se constituiu em uma leitura marxista da realidade brasileira e foi pensada também como uma ferramenta para se pensar o Brasil à luz do nacionalismo, que embasava a discussão dos principais temas naquele início dos anos 60. Embora sendo obra coletiva, foi identificada com o seu coordenador.5

No que diz respeito a História Nova, obra escolhida para ser apresentada neste evento, é necessário inseri-la no contexto das discussões daquele momento. Na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, editava um Boletim de História do Centro de Estudos de História, o que seria hoje o CAHIS, já em 1958 o Boletim conclamava a uma discussão sobre a reformulação e inovação do ensino e estudo de história, preocupada em favorecer a percepção da responsabilidade de cada um na condução dos destinos da sociedade. 6

A reflexão e revisão historiográfica, faz parte de toda a obra de Nelson Werneck Sodré. Se escolhi a História Nova e por considerar de um lado seu aspecto original para o momento de sua produção no que diz respeito ao ensino de história. E por outro lado pela influencia que teve em uma geração de estudantes, ao longo da década de 1960 e início dos anos 70.



Nos fins da década de 60, na USP, Nelson Werneck Sodre era lido pelos discentes mais por transgressão. Liamos seus livros na preparação de seminários, por exemplo, mas omitíamos seu nome ao colocar a bibliografia utilizada, porque os professores não gostariam.7

Hoje quando as questões atenientes ao livros didáticos e seu caráter ideológico estão na imprensa com destaque, parece apropriado lembrar que na década de 1960, em seus primeiros anos este assunto já estava em pauta.

A História Nova , foi no dizer de seus idealizadores, uma tentativa de interpretação popular e libertária. Buscava explicar as contradições da História do Brasil com o uso do método marxista.

Em julho de 1963, Nelson Werneck Sodré ministrou um curso intensivo de História do Brasil, na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, hoje UFRJ. Ao término do Curso formou-se o grupo que escreveria a Historia Nova. Este grupo formado por estudantes e professores de história, sendo os professores em sua maioria do ISEB, onde se desenvolveram os trabalhos.

Contavam com o patrocínio do Ministério de Educação e Cultura. Na introdução geral da obra, afirmavam os autores que “os livros didáticos de história são comprovadamente inadequados, pois neles o passado nada tem a ver com o presente, o enfoque meramente impede o arrolamento de camadas e ações decisivas de nosso povo.8

O projeto está claramente voltado para a renovação do ensino e dos livros didáticos de história. Com a implantação do regime militar os exemplares foram apreendidos, em várias cidades foram queimados em praça pública, juntamente com outras publicações. Embora derrotado este projeto representou um avanço na história dos livros didáticos e muito de sua contribuição tem sido incorporada aos conteúdos dos compêndios escolares.

Os conteúdos foram articulados em ordem cronóligaca assim divididos:

1-O descobrimento do Brasil;

2-A sociedade do açucar;

3-As invasões holandesas;

4-A expansão territorial;

5-A decadência do Regime Colonial;

6-A Independência de 1822;

7-Da indepedência a República ( evolução da economia brasileira);

8-O sentido da abolição;

9- e 10- O advento da República e O significado do florianismo.

Quando da sua publicação, foi tão grande o impacto que Nelson Werneck Sodré assim se pronunciou. História Nova do Brasil é talvez a obra científica que em todos os tempos, aqui, foi mais acusada de inferior e, entretanto, mais mereceu pareceres. Sobre essa coisa desimportante, errada, desqualificada, manifertaram-se em “pareceres”, o Estado maior do Exercíto, o Intituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Comissão Nacional do Livro Didático, etc.9

Não vamos tratar dos conteúdos, a leitura da obra, deixamos para fazer no momento oportuno no interior do evento, Leituras de História.




1 Faleceu em 1999

2 CARDOSO, Lucileide Costa Historiadores sobre a mira do DOPS/S.P.

3 O ISEB, foi fechado com o Golpe Militar de 1964, sendo destruída sua sede; seus arquivos e a Biblioteca. Seus intelectuais foram presos e ou exilados.

4 SODRÉ, Nelson Werneck. História da História Nova. Petrópolis. Vozes. 1986.

5 Autores, alem de N.W.S; Maurício Martins Mello; Pedro Celso Uchoa; Pedro Alcântara Figueira; Rubens Cézar Fernandes e Joel Rufino dos Santos ( então estudante de História na Universidade do Brasil).

6 Nelson Werneck Sodré na Historiografia Brasileira/org. Marcos Silva.Bauru.EDUSC.2001. pp.64

7 Id.Ibid.pp.71

8 IN:Nelson Weneck Sodré na Historiografia Brasileira op.cit.pp.64

9 IN: História da História Nova. Revista Civilização Brasileira. Nº 4.



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