Nem crescimento nem estabilidade



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Leite, Antonio Dias. “Nem crescimento nem estabilidade”. São Paulo: Valor Econômico, 18 de Julho de 2001. Jel: H.

Nem crescimento nem estabilidade


Antonio Dias Leite

Lutamos, ferozmente, e com sucesso, para liquidar a hiperinflação, através de processo que deu origem, infelizmente, a novos problemas. Ficamos, depois da vitória, paralisados em torno de metas de estabilidade que se baseiam no temor do recrudescimento da memória inflacionária, temor esse que é compartilhado por grande parte dos analistas financeiros. Mas, apesar da intransigente contenção de qualquer indício de maior atividade econômica, não parece que as metas de inflação possam ser facilmente cumpridas.

As metas econômicas, tanto empresariais como governamentais, quando bem fundamentadas, definem objetivos exeqüíveis em princípio. O nível de probabilidade de serem alcançadas varia com a ousadia ou a prudência da formulação original. Já os resultados dos correspondentes planos de ação dependem principalmente da dedicação e competência dos executores, mas dependem também da sorte.

No plano nacional a diretriz econômica de longo prazo, quando existe, decorre de decisão política, apoiada em disposição da sociedade e na respectiva representação no Congresso. Desvios aleatórios dessa diretriz podem resultar, tanto de acidentes de percurso, naturais, econômicos ou políticos, originados no próprio país, como de ocorrências internacionais. Estas últimas, sustentadas pelo fantástico desenvolvimento da eletrônica e das comunicações, adquiriram enorme força após a globalização do final do século XX, à qual aderimos.


Estabeleceu-se, inclusive, uma certa solidariedade transnacional na evolução das principais variáveis econômicas, comandadas agora, mais do que nunca, pelo mercado financeiro. Em escala mundial, os fluxos de dinheiro alcançam valores muitas vezes superiores aos dos pagamentos relativos ao comércio exterior. Paralelamente, instituiu-se um sistema de "avaliação de riscos" que não se limitou às empresas, estendendo-se aos próprios governos.
Alteraram-se, assim, as bases da estratégia de desenvolvimento dos países que necessitam crescimento econômico, e que têm condições de realizá-lo.

Há décadas, em ambiente externo favorável, e com apoio de financiamentos internacionais adequados, o Brasil alcançou desenvolvimento notável. A política econômica de longo prazo se ocupava, então, da trajetória econômica possível, cujos componentes eram: uma tendência que se pretendia sustentar em função da meta de crescimento e, em torno dela, variações cíclicas de origem interna ou de amplitude mundial, que se procurava contrabalançar, nas suas fases negativas.


No presente já não é assim, pelo menos para os países, inseridos no mundo globalizado, que ainda pretendem se desenvolver. Há agora que considerar uma outra componente, também aleatória, que se apresenta com velocidade espantosa, como conseqüência financeira, de crises de variada natureza, originadas em outros países. Assim foi na crise asiática de 97, na da Rússia em 98, e assim é na atual crise argentina. O próprio Brasil foi alvo de um desses acessos no principio de 99. A magnitude do impacto, em cada país, é proporcional ao respectivo nível de vulnerabilidade externa, que pode ser acentuada ou aliviada pelas "avaliações de risco".

A exposição a criticas oriundas destas avaliações traz contribuição positiva para o aperfeiçoamento da administração pública de países subdesenvolvidos. Não deixa de ser estranho, todavia, que as políticas de Estados soberanos fiquem assim submetidos a avaliações de pequenos grupos de especialistas segundo paradigmas do mundo desenvolvido. Sobretudo diante de notórios erros cometidos por renomados peritos internacionais, com conseqüências desastrosas para os países afetados.


O Brasil, apesar de estar entre as dez maiores economias reais do mundo, tem posição insignificante no mercado financeiro. Daí advém uma vulnerabilidade externa, que tornou-se mais grave por dois motivos principais, ambos de nossa própria responsabilidade: a supervalorização do real na sua implantação e a insuficiente expansão do nosso tradicionalmente fraco comercio exterior. O equilíbrio de nossas contas externas só vai sendo alcançado através de entradas de capital, de risco e de empréstimos, muitos destes últimos em condições onerosas, exatamente pela constatação dessa nossa vulnerabilidade, que assume, por estes motivos, posição chave da nossa estratégia econômica.

O governo não pensa assim, e continua entrincheirado atrás de dogmas que o imobilizam: o da não intervenção nas decisões soberanas dos "mercados", o da abertura comercial sem restrições e, principalmente, o da estabilidade monetária segundo padrão europeu, como objetivo central e sem concorrência. Assegurada a estabilidade, o crescimento econômico, também em padrão europeu, é esperado pela equipe financeira, como conseqüência obvia de livres decisões de mercado. Mas nem isso acontece. O governo se autolimita, no campo econômico, à sustentação da austeridade fiscal e às incessantes manobras de curto prazo com o cambio e a taxa de juros.



Por outro lado, cabe reconhecer a existência de dificuldades políticas na conclusão das reformas ainda necessárias bem como na reestruturação da nossa precária administração pública e do próprio governo, que acaba de oferecer o triste espetáculo de desastrada condução da política energética.
Não obstante as importantes e corajosas contribuições para a modernização do país, e da reconhecida seriedade de sua equipe financeira, aproxima-se o atual governo do seu término deixando o país em um impasse: sem crescimento, sem estabilidade sustentável, e com vulnerabilidade externa crescente. É pena que o presidente e o ministro da Fazenda se recusem a discutir uma estratégia nacional de desenvolvimento e uma política de transição. Em conseqüência, fica o eventual candidato do governo às eleições de 2002 sem base para a formulação de uma plataforma de continuidade.Terá que se livrar dos dogmáticos, já que a perpetuação do impasse por eles criado é inadmissível.


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