Neros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital



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GÊNEROS TEXTUAIS EMERGENTES

NO CONTEXTO DA TECNOLOGIA DIGITAL1

Luiz Antônio Marcuschi

Universidade Federal de Pernambuco

0. Ponto de Partida
Esta exposição analisa as características de um conjunto de gêneros textuais que estão emergindo no contexto da tecnologia digital. Não são muitos os gêneros emergentes nessa nova tecnologia, nem totalmente inéditos. Contudo, sequer se consolidaram e já provocam polêmicas quanto à natureza e proporção de seu impacto na linguagem e na vida social. Isso porque o ambiente virtual é extremamente versátil e hoje compete, em importância, nas atividades comunicativas, ao lado do papel e do som.
Já nos acostumamos a expressões como “e-mail”, “bate-papo virtual” (chat), “aula virtual”, “listas de discussão” e outras. Mas qual a originalidade desses gêneros em relação ao que existe? De onde vem o fascínio que exercem? Qual a função de um bate-papo virtual, por exemplo? Propiciar divertimento, veicular informação, permitir participações interativas? Pode-se dizer que parte do sucesso da nova tecnologia deve-se ao fato de reunir num só meio várias formas de expressão, tais como texto, som e imagem, o que lhe dá maleabilidade para a incorporação simultânea de múltiplas semioses, interferindo assim na natureza dos recursos lingüísticos utilizados.
O impacto das tecnologias digitais na vida contemporânea está apenas se fazendo sentir, mas já mostrou com força suficiente que tem enorme poder tanto para construir como para devastar. Seguramente, uma criança, um jovem ou um adulto, viciados na Internet, sofrerão seqüelas nada irrelevantes. Segundo observou David Crystal (2001:169) a propósito da participação indefinida nos bate-papos em salas abertas, a atividade se parece com “um enorme jogo maluco sem fim” ou então assemelha-se a uma “festa lingüística” (linguistic party) para onde levamos nossa “língua” ao invés de nossa “bebida”.
Neste quadro, três aspectos tornam a análise desses gêneros relevante: (1) seu franco desenvolvimento e um uso cada vez mais generalizado; (2) suas peculiaridades formais e funcionais, não obstante terem eles contrapartes em gêneros prévios; (3) a possibilidade que oferecem de se rever conceitos tradicionais, permitindo repensar nossa relação com a oralidade e a escrita. Com isso, o “discurso eletrônico” constitui um bom momento para se analisar o efeito de novas tecnologias na linguagem e o papel da linguagem nessas tecnologias. Aqui estão algumas reflexões de caráter epistemológico e metodológico para uma melhor compreensão do tema na perspectiva da teoria dos gêneros.
1. Novas tecnologias, novos fatos
Tal como observa Bolter (1991), a introdução da escrita conduziu a uma cultura letrada nos ambientes em que a escrita floresceu. Tudo indica que hoje, de igual modo, a introdução da escrita eletrônica, pela sua importância, está conduzindo a uma cultura eletrônica, com uma nova economia da escrita. Basta observar a quantidade de expressões surgidas nos últimos tempos com o prefixo e-como bem observou Crystal (2001)2. Pode-se resumir esse aspecto numa expressão que está se tornando usual para designar o fenômeno, isto é, “letramento digital”, cujas características merecem ser melhor conhecidas. Segundo Yates (2000:233), com as novas tecnologias digitais, vem-se dando uma espécie de “radicalização do uso da escrita” e nossa sociedade parece tornar-se “textualizada”, isto é, passar para o plano da escrita.
Assim, partindo da noção de gênero textual como fenômeno social e histórico3, este breve estudo tem por finalidade identificar e caracterizar alguns dos gêneros que emergiram nas três últimas décadas.4 Analisa de modo particular os gêneros desenvolvidos no contexto da hoje denominada mídia virtual, identificada centralmente na tecnologia computacional a partir dos anos 70 do século XX. Esse novo tipo de comunicação é conhecido como Comunicação Mediada por Computador (CMC) ou comunicação eletrônica e desenvolve uma espécie de “discurso eletrônico”5, cujas peculiaridades serão aqui vistas. Este estudo deveria ser ampliado no que concerne ao grave problema das novas formas de comportamento que estão surgindo nos usos por incontrolados do computador.6
Não será uma abordagem da linguagem na Internet7, nem uma análise de todos os gêneros emergidos ou em fase de emergência no meio virtual. Vale frisar que apesar dos muitos trabalhos desenvolvidos a esse respeito, particularmente a questão dos gêneros continua pouco esclarecida. A CMC abrange todos os formatos de comunicação e os respectivos gêneros que emergem nesse contexto. Futuramente, é provável que a expressão Internet assuma a carga semântica e pragmática do sistema completo, já que se trata da rede mundial de comunicação ininterruptamente interconectada a todos os computadores interligados.
O tema em si – gêneros textuais - não é novo e vem sendo tratado desde os anos 60 quando surgiram a Lingüística de Texto, a Análise Conversacional e a Análise do Discurso, mas o enfoque dado aqui, com atenção particular aos gêneros textuais no domínio da mídia virtual8, é mais recente e carece ainda de trabalhos, embora já apareçam estudos específicos9 sobre esse novo modo discursivo também denominado “discurso eletrônico”.
Para tanto, assumimos a posição de Carolyn Miller (1994:71) que vê no gênero um constituinte específico e importante da estrutura comunicativa da sociedade, de modo a constituir relações de poder bastante marcadas em especial dentro das instituições. O gênero reflete estruturas de autoridade e relações de poder muito claras. Observe-se o caso da vida acadêmica e veja-se quem pode emitir um parecer, dar uma aula, confeccionar uma prova, fazer uma nomeação, defender uma tese de doutorado e assim por diante. Os gêneros são formas de organização social e expressões típicas da vida cultural. Contudo, vale também ressaltar que os gêneros não são categorias taxionômicas para identificar realidades estanques.10
Considerando a penetração e o papel da tecnologia digital na sociedade contemporânea e as novas formas comunicativas aportadas, afigura-se relevante pensar essa tecnologia e suas conseqüências numa perspectiva menos tecnicista e mais sócio-histórica. Certamente, não será fácil dar uma noção clara sobre tema tão complexo no qual, desde a década passada, proliferam as publicações. Já se pode indagar se a escola deverá amanhã ocupar-se de como se produz um e-mail e outros gêneros do “discurso eletrônico” ou pode a escola tranqüilamente continuar analisando como se escrevem cartas pessoais, bilhetes e como se produz uma conversação. Será que o modelo de interação face a face proposto por Sacks, Schegloff e Jefferson nos anos 70 já deve ser revisto em alguns pontos essenciais?
Em princípio, parece possível concordar com Thomas Erickson (1997:4), para quem o estudo da comunicação virtual na perspectiva dos gêneros é particularmente interessante porque “a interação on-line tem o potencial de acelerar enormemente a evolução dos gêneros”, tendo em vista a natureza do meio tecnológico em que ela se insere e os modos como se desenvolve. Esse meio propicia, ao contrário do que se imaginava, uma “interação altamente participativa”, o que nos obrigará a rever algumas noções já consagradas.
Se tomarmos o gênero como texto concreto, situado histórica e socialmente, culturalmente sensível, recorrente, “relativamente estável” do ponto de vista estilístico e composicional, segundo a visão bakhtiniana, servindo como instrumento comunicativo com propósitos específicos como forma de ação social, é fácil perceber que um novo meio tecnológico, na medida em que interfere nessas condições, deve também interferir na natureza do gênero produzido. Tomemos o gênero mais praticado no nosso dia-a-dia, a conversação espontânea realizada face a face, e pensemos na descrição oferecida por Sacks, Schegloff e Jefferson (1974). Tentemos agora aplicar aquele modelo a um bate-papo on-line. Que aspectos da relação face a face transferem-se para o novo gênero? Qual a interferência do anonimato mantido num apelido (nickname)? O que muda quando a relação interpessoal passa a ser uma relação hiperpessoal11, como no caso de um bate-papo em aberto numa sala de bate-papo virtual? Criam-se novas formas de organizar e administrar os relacionamentos interpessoais nesse novo enquadre participativo. Não é propriamente a estrutura que se reorganiza, mas o enquadre que forma a noção do gênero. Em suma: muda o gênero. Desde que não tomemos a contextualização como um simples processo de situar o gênero numa situação exteriorizada, mas sim como enquadre cognitivo, os gêneros virtuais são formas bastante características de contextualização.
Por outro lado, um dos aspectos essenciais da mídia virtual é a centralidade da escrita, pois a tecnologia digital depende totalmente da escrita. Assim, nessa era eletrônica não se pode mais postular como propriedade típica da escrita a relação assíncrona, caracterizada pela defasagem temporal entre produção e recepção, pois os bate-papos virtuais são síncronos12, ou seja, realizados em tempo real e essencialmente escritos. Assim, se com o telefonema tornou-se um dia impossível continuar postulando a co-presença física dos interlocutores como característica exclusiva da oralidade, já que era possível interagir oralmente estando em espaços diversos, hoje se retira dela também a concomitância temporal. Contudo, é bom ter cautela quando se afirma que algo de novo está acontecendo, pois essa propriedade do bate-papo virtual não implica a importação automática de propriedades da fala. Existem vários aspectos a serem considerados, pois as novas tecnologias não mudam os objetos, mas as nossas relações com eles.
A idéia de que a cada nova tecnologia, como lembra David Crystal (2001:2), o mundo todo se renova por completo, é uma ilusão que logo desaparece. Novidades podem até acontecer, mas com o tempo percebe-se que não era tão novo aquilo que foi tido como tal.13 E, particularmente suas influências não foram tão devastadoras ou tão espetaculares como se imaginava. Daí a pergunta: quanto de novo vem por aí com a Internet em relação aos gêneros textuais?
Justamente por não encontrar respostas para a questão, Crystal escreveu seu livro “Linguagem e a Internet”, na tentativa de descobrir algo sobre “o papel da linguagem na Internet e o efeito da Internet na linguagem” (2001:viii). Quanto a isso, para o autor, sumariamente, três aspectos podem ser frisados:

(1) do ponto de vista dos usos da linguagem, temos uma pontuação minimalista, uma ortografia um tanto bizarra, abundância de siglas e abreviaturas nada convencionais, estruturas frasais pouco ortodoxas e uma escrita semi-alfabética;


(2) do ponto de vista da natureza enunciativa dessa linguagem, integram-se mais semioses do que usualmente, tendo em vista a natureza do meio;
(3) do ponto de vista dos gêneros realizados, a internet transmuta de maneira bastante complexa gêneros existentes e desenvolve alguns realmente novos.
E um fato é aqui inconteste: a Internet e todos os gêneros a ela ligados são eventos textuais fundamentalmente baseados na escrita. Na Internet a escrita continua essencial apesar da integração de imagens e de som. Por outro lado, a idéia que hoje prolifera quanto a haver uma “fala por escrito” deve ser vista com cautela, pois o que se nota é um hibridismo mais acentuado, algo nunca visto antes, inclusive com o acúmulo de representações semióticas.
Esta exposição dedica-se com alguma ênfase à análise do terceiro aspecto apontado – os gêneros textuais --, já que os outros dois vêm sendo cuidados há algum tempo. Tudo indica que, ainda segundo Crystal (2001), o impacto da Internet é menor como revolução tecnológica do que como revolução dos modos sociais de interagir lingüisticamente. Contudo, apesar de constatar esse fenômeno, o próprio David Crystal pouco se dedicou a uma análise dos aspectos centrais implicados pelas inovações trazidas aos modos de interagir. No meu entender, aspecto urgente na análise desses novos modos de interação ligados aos respectivos gêneros é uma análise etnográfica. Observando os estudos na área, constata-se que ainda não se fez um estudo etnográfico sério da comunicação no meio virtual. Lamentavelmente, este não será o enfoque também do presente estudo, que se dedica em particular à análise dos gêneros e apenas secundariamente apresenta observações de caráter etnográfico.
Pode-se dizer que o discurso eletrônico (ou a comunicação mediada por computador [CMC] se alguém assim o preferir) ainda se acha em estado meio selvagem e indomado sob o ponto de vista lingüístico e organizacional, segundo observou Crystal (2001). O próprio estado de anonimato dos participantes nos bate-papos virtuais favorece o lado instintivo desde a escolha do apelido até as decisões lingüísticas, estilísticas e liberalidades quanto ao conteúdo. Trata-se de uma estética em busca de seu cânone, se é que isso pode acontecer.
Várias das características atribuídas, nos anos 70-80, à linguagem da Internet e aos diversos gêneros ali praticados não ocorrem mais a partir dos anos 90, pois aquelas eram muito mais restrições impostas pela precariedade dos programas computacionais do que propriedades dos usos ou da linguagem como tal. Podemos dizer que os gêneros textuais são frutos de complexas relações entre um meio14, um uso e a linguagem. No presente caso, o meio eletrônico oferece peculiaridades específicas para usos sociais, culturais e comunicativos que não se oferecem nas relações interpessoais face a face. E a linguagem concorre aqui com ênfases deslocadas em relação ao que conhecemos em outros contextos de uso.
Assim, é possível que ainda tenhamos de esperar mais para ver o que ocorrerá em futuro próximo. Se alguém se ativesse a analisar a linguagem dos e-mails em meados dos anos 70, quando essa nova forma de comunicação estava iniciando, daria como propriedade desse gênero a produção de textos limitados a dois ou três enunciados. No entanto, aquela era uma limitação devida à baixa velocidade da transmissão de dados eletronicamente e uma dificuldade dos programas computacionais de então. Hoje, o tamanho dos e-mails é ilimitado e pode-se anexar até livros inteiros. Tudo depende do programa que se usa e da capacidade da máquina ou qualidade do servidor a que se está conectado.
É inegável que a tecnologia do computador, em especial com o surgimento da internet, criou uma imensa rede social (virtual) que liga os mais diversos indivíduos pelas mais diversificadas formas numa velocidade espantosa e na maioria dos casos numa relação síncrona. Isso dá uma nova noção de interação social. Este é o primeiro aspecto que gostaria de frisar na natureza das novas tecnologias que não são anti-sociais como alguns supuseram, mas favorecem a criação de verdadeiras redes de interesses. Surgem daí ‘comunidades virtuais’ em que os membros interagem de forma rápida e eficaz (o gênero listas de discussão encarna esse aspecto). Esse é um novo foco para a reflexão; não necessariamente um novo objeto lingüístico, mas uma nova forma de uso da língua enquanto prática interativa.
2. Comunidades virtuais
Um dos desafios neste contexto vem sendo a noção de comunidade15, particularmente na expressão comunidade virtual16 (CV), tida como uma espécie de agregado social que emerge da rede internetiana para fins específicos. Algo assim como pessoas com interesses comuns ou que agem com interesses comuns num dado momento, formando uma rede social estruturada. Seriam redes de relações virtuais (ciberespaciais). Mas será que a noção de comunidade pode ser aplicada ou deveria ser redefinida no caso do ambiente virtual?
É interessante indagar-se em que as comunidades virtuais distinguem-se das comunidades sociais, ou comunidades sociais17 do mundo real com suas “projeções discursivas”. Servindo-me aqui de um trabalho de Thomas Erickson (1997) sobre a interação social na Rede Mundial, analiso algumas características da noção de comunidade no sentido tradicional e na nova visão a fim de observar a natureza dos gêneros textuais nesse contexto. Segundo Erickson (1997:2), a noção de ‘comunidade virtual’ não parece descrever adequadamente o discurso on-line. Diante disso, o autor sugere uma “mudança de ênfase”, adotando o conceito de gênero para melhor entender esse tipo de discurso. A razão disso estaria no fato de a noção de

gênero deslocar o foco de questões como a natureza e o grau do relacionamento entre os ‘membros da comunidade’, para o propósito, da comunicação, suas regularidades de forma e substância e as forças institucionais, sociais e tecnológicas que subjazem a essas regularidades”. (p.2)


Mas ao mesmo tempo o autor nota que essa idéia de gênero é problemática, pois aqui temos algumas peculiaridades que não se aplicam muito bem a essa noção em outros casos. Quanto à noção de comunidade, Erickson (1997:3) apresenta as cinco características definidoras do conceito de acordo com a tradição da sociolingüística e da antropologia. Estas características são:

  • Membro: central para a noção de comunidade é o fato de ser membro ou de estar excluído; alguns pertencem a ela e outros não e isso por razões várias tais como religião, raça, camada social, profissão etc.

  • Relacionamento: os membros de uma comunidade formam relacionamentos pessoais entre si, desde relacionamentos casuais a amizades estáveis.

  • Confiança e reciprocidade generalizada: uma comunidade deve ter confiança mútua e estar preparada para que os membros se ajudem.

  • Valores e práticas partilhados: os membros devem partilhar um conjunto de valores, objetivos, normas e interesses, assim como uma história, costumes e instrumentos.

  • Bens coletivos: participação dos membros na produção, uso e distribuição de bens.

  • Durabilidade: enquanto uma coletividade, os aspectos acima mencionados só se efetivarão se a comunidade tiver longa duração.

Em suma, a definição de comunidade poderia ser:



Uma comunidade é uma coleção de membros com relacionamentos interpessoais de confiança e reciprocidade, partilha de valores e práticas sociais com produção, distribuição e uso de bens coletivos num sistema de relações duradouras.
Esta noção de comunidade é muito próxima da definição de Lave & Wenger (1991) para a noção hoje bastante adotada de comunidade de práticas assim definida:

um agregado de pessoas que se encontram em torno de engajamentos num empreendimento. Modos de fazer coisas, modos de falar, crenças, valores, relações de poder – em suma, práticas – emergem no decorrer desses empreendimentos mútuos. Como um constructo social, uma CdeP é diferente da tradicional comunidade, basicamente porque é definida simultaneamente por seus membros e pelas práticas nas quais os membros se engajam.”(apud Holmes & Meyerhoff , 1999:174).


Central em ambos os casos são as atividades comuns, os engajamentos mútuos e o partilhamento de bens negociáveis, sendo que a noção de partilhamento lingüístico fica como um pano de fundo e não como base. Este será um aspecto importante para a abordagem do gênero no meio virtual. Voltando à posição de Miller (1994:73) a respeito da noção de “comunidade retórica” como uma “entidade virtual” e não uma realidade empírica, pode-se ver aqui alguns aspectos comuns. Assim, enquanto “construção retórica”, uma comunidade seria uma projeção discursiva “constituída por atribuições de ações retóricas comuns características, gêneros de interação, modos agir, incluindo a própria reprodução”. Mas essas comunidades seriam muito mais comunidades de práticas discursivas.
Como observa Erickson (1997:3), as propriedades atribuídas à noção de comunidade acima lembradas se aplicam fracamente aos diversos contextos da Internet e são poucos os casos em que elas se dão. Veja-se o caso dos bate-papos on-line com indivíduos em geral anônimos, efêmeros e superficiais nas interações. Existem comunidades cujos membros se comunicam pela Internet de forma duradoura, tais como os clubes de fãs ou os membros de salas de aula e assim por diante. Mas esse não é o caso mais freqüente. O caso mais notável de CV é o das aulas virtuais e dos bate-papos educacionais, como veremos logo mais. Igualmente as listas de discussão podem ser tidas como CV em sentido amplo, embora essa comunidade muitas vezes seja efetivamente diluída, mas os indivíduos têm interesses e práticas comuns.
Os aspectos apontados fazem com que Erickson substitua a noção de comunidade pela de gênero, já que assim desloca-se o foco dos participantes, com uma suposta relação entre si, para “artefatos partilhados” que são as instâncias de gêneros. Como Erickson é um engenheiro de software, julga o gênero como único artefato sobre o qual os designers de programas teriam algum controle, ao dominarem as “convenções de forma e conteúdo que tipificam um gênero”.
Seguramente, aqui tudo vai depender da noção de gênero. O autor lembra a concepção de Miller (1984) para quem os gêneros seriam “ações retóricas tipificadas” produzidas em resposta a situações sociais recorrentes. Os gêneros, enquanto “artefatos culturais”,18 seriam instrumentos aptos para se desenvolver ações sociais em situações específicas, que se definem por objetivos comunicativos, audiência, regularidades formais e conteúdos. Por seu turno, Swales (1990) também partindo de Miller (1984) define gênero a partir de comunidade discursiva, o que leva de volta à questão da comunidade, só que neste caso, os membros de uma comunidade discursiva seriam os que participam de um gênero discursivo, ou seja, a comunidade seria uma espécie de pano de fundo e se determinaria como uma comunidade de práticas discursivas.
Em estudo posterior, Erickson (2000:3) assim define sua noção de gênero com base na qual observa-os no ambiente virtual.

Um gênero é um padrão de comunicação criado pela combinação de forças individuais, sociais e técnicas implícitas numa situação comunicativa recorrente. Um gênero estrutura a comunicação ao criar expectativas partilhadas acerca da forma e do conteúdo da interação, atenuando assim a pressão da produção e interpretação.”


Com base nessa noção de gênero, Erickson (1997:4-5) sugere observar o seguinte em relação ao discurso on-line.

  • Propósito comunicativo do discurso;

  • Natureza da comunidade discursiva;

  • Regularidades de forma e conteúdo da comunicação, expectativas subjacentes e convenções;

  • Propriedades das situações recorrentes em que o gênero é empregado, incluindo as forças institucionais, tecnológicas e sociais que dão origem às regularidades do discurso.

Na tentativa de validar o modelo construído, Erickson (1997:5-11) analisa o exemplo de uma sala de bate-papo, o Café Utne19, mostrando que se trata de uma certa “comunidade virtual” que interage com certos propósitos e regularidade. Interessante é que em todas as salas de bate-papo o participante se acha diante de um vídeo e com um teclado na mão, “livre de muitas das pressões sociais que se apresentam numa conversação face a face” (p.9). Essa propriedade é essencial a todos os discursos virtuais que se dão em gêneros produzidos on-line e terá conseqüências diversas se o gênero é o de um bate-papo virtual em salas abertas com pseudônimos e identidades “mascaradas” ou opacas, ou se é um gênero de bate-papo virtual educacional com identificação dos interlocutores.


Essa questão se torna relevante porque em certo sentido pode contribuir para definir gêneros diversos por um traço importante como a qualidade da participação dos atores sociais nas atividades conjuntas. Este será também um aspecto importante porque implica na identificação dos atores e o partilhamento desse conhecimento.
A situação da sala de bate-papo analisada por Erickson tem algumas peculiaridades do meio discursivo que a maioria das atuais salas não têm mais. A sala Utne fica aberta ou fechada por inteiro, sendo que “todos os participantes vêem a mesma coisa” e os novos participantes podem consultar a conversa por inteiro (em suas etapas anteriores) a fim de saber onde se engajar no tópico. Normalmente não se tem essa noção nas salas de bate-papos, onde são possíveis interações “reservadas” a que somente os dois participantes têm acesso. Além disso, só se tem acesso às contribuições realizadas a partir da entrada na sala sendo vedado o acesso a contribuições anteriores.
Central e sintomático para o tratamento de novos gêneros na mídia digital, é a revelação de Erickson (1997:14), quando afirma que, na qualidade de ‘designer’, toma a conversação apenas como “documento modelo” para produzir “sistemas on-line mais efetivos”. Nas palavras do autor:

O gênero parece ser um enquadre [frame] útil para analisar e projetar sistemas conversacionais on line porque ele fornece o pano de fundo [foregrounding] para o meio discursivo e encoraja o exame de caminhos nos quais características do meio moldam as práticas que se dão no seu interior.”

As propriedades centrais a que se refere o autor para o gênero “bate-papo on- line” são: “seqüencialidade”, “interatividade”, “conteúdo comum”. Isto transforma e evento em um “gênero participativo”, dando oportunidade aos participantes de se portarem como no seu dia-a-dia.

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