Neste contexto cultural, pior do que ser considerado louco, é ser considerado ex-louco



Baixar 48.18 Kb.
Encontro28.07.2016
Tamanho48.18 Kb.
CINQUENTA ANOS DE DOENTE PSIQUIÁTRICO *

neste contexto cultural, pior do que ser considerado louco, é ser considerado ex-louco” (Alberto Carlos).



Introdução.
No seguimento da teoria da realidade de Jasper, oiçamos o objecto existente (Dasein),ou seja o indivíduo objeto da observação e compreensão psiquiátricas (a existência para si ou Existenz) que lhe deram existência como doente mental. Volvidos 50 anos desde as primeiras observações e reflexões psiquiátricas sobre as suas ideias e comportamento chegou o momento de ouvirmos, agora, o que Alberto Carlos (na sua Existenz) tem para nos dizer sobre si, sobre nós e sobre o mundo que o rodeia.

Ouvirmos e, mais uma vez, confrontarmo-nos com a incognoscibilidade (o Transcendente) inerente à capacidade de apreendermos a realidade na sua totalidade que, no caso do Alberto Carlos, envolve as características psicopatológicas e comportamentais da doença que apresenta, as classificações nosológicas capazes de a identificar, a formação académica e profissional do técnico que o observa e a compreensão desta desarmonia no âmbito dos dipositivos socioculturais ao dispor dos cidadãos para a partilha de experiências sociais, designadamente das descargas dos estados de tensão.

Antes porém olhemos para este homem com cerca de 1 metro e 85, sempre trajado de fato negro e com longas barbas grisalhas que, à primeira vista, faz lembrar um judeu ortodoxo, de tora debaixo do braço, a caminho do muro das lamentações. Mas não, Alberto Carlos não é um homem de lamentos nem fanático. É convicto, compromete-se em tudo o que diz e é claro nas ideias que transmite em primeira mão …é sagaz, brilhante e eloquente. Conheço-o assim há cerca de 20 anos e já, então, Alberto conhecia os meandros da psiquiatria, como doente psiquiátrico, há pelo menos 30 anos! No seu processo clínico constam os diagnósticos de transtorno de personalidade paranóide e psicose paranóide.

São 50 anos de doença mental, 50 anos de reflexão sobre a mesma e 50 anos de reflexão sobre a sociedade em mudança constante que o acolheu.

Alberto é um pensador e como tal, levanta, enquanto doente psiquiátrico, questões relacionadas com o modelo holístico psiquiátrico … como se integram os processos psicológicos, biológicos e sociais na conduta de cada um? Como é possível ser-se tão lúcido, intelectualmente rico e humano e simultaneamente completamente incapaz de se integrar na sociedade que o formou?

Vou dar-lhe a palavra ….


O seu primeiro contacto com os cuidados psiquiátricos remonta ao Dr. João dos Santos. Como o descreve?

AC- Em Outubro de 1962, contava eu nove anos, apresentando algumas perturbações de comportamento, fiz um electroencefalograma no Hospital Júlio de Matos e, após uma consulta com um médico cujo nome e especialidade não recordo, fui internado no Colégio Eduardo Claparède que se encontrava sob a direção clínica do Dr. João dos Santos, neurologista e psiquiatra (1913-1987). Em virtude da minha pouca idade era sobretudo a minha mãe que falava com o doutor, e dele guardo a recordação duma pessoa suave mas bastante distante.
Frequentou o Claparède, que memória guarda do mesmo?
AC- Era um estabelecimento pequeno, COM AMBIENTE FAMILIAR, em que conviviam alunos com diversos tipos de anomalias, desde disfunções psico-orgânicas muito profundas, até atraso mental mais ou menos grave. Na minha turma da quarta classe abundavam rapazes e raparigas com 13 e 14 anos, incluindo uma prima minha, a qual veio de resto a ter um percurso de vida perfeitamente normal. O ambiente era bom, a alimentação era boa: CONSTITUIU O ÚNICO PERÍODO DA VIDA EM QUE ME SENTI BEM. Frequentei esse Colégio durante dois anos, um ano interno e outro semi-interno, todavia senti-me melhor no ano em que estive interno. A minha saída para o colégio de São João de Brito, aos 11 anos, foi para mim assaz traumatizante.
Deixe-me abrir um parêntesis que me é particularmente querido… estamos no âmbito da pedopsiquiatria … no geral e, particularmente, no seu caso específico, quais são os fatores que maior peso têm na gênese da doença mental infantil?
AC- Considerando apenas as perturbações mais ou menos graves desencadeadas por fatores extrínsecos, mas possuindo já determinados elementos dispositivos a nível caracteriológico: A HIPOCRISIA FAMILIAR E SOCIAL, A EDUCAÇÃO ERRADA E ALIENADA, E A FALTA DE AFECTO. Efetivamente, se todos esses fatores se estruturam em sinergia negativa com um carácter marcadamente exigente no plano moral e no plano intelectual – o desastre é certo.
Temos a família, a escola, e o próprio menor que, como diz, poderá apresentar uma predisposição caracterial. Na sua ideia, no caso de famílias geradoras de perturbação mental nos filhos, consegue especificar a natureza da comunicação disfuncional existente no seu seio?
AC - Os fatores que mencionei: a Hipocrisia familiar e social, educação errada e alienada, e falta de afeto, entram em sinergia tanto mais negativa quanto mais perfeita for a estrutura caracteriológica no plano intelectual e moral. Em naturezas toscas os fatores supra-referidos são menos prejudiciais – ATÉ PORQUE TAIS NATUREZAS ENCARREGAR-SE-ÃO DE PROLONGAR ESSES FACTORES NEGATIVOS ATRAVÉS DAS GERAÇÕES; AO PASSO QUE AS NATUREZAS MAIS RICAS PROCURARÂO CONTRARIÁ-LOS,GERANDO-SE DESTA FORMA COMPORTAMENTOS CHAMADOS DESVIANTES. Tudo o que é hipócrita- é disfuncional; tudo o que aliena o ser, desintegrando-o no nominalismo social, ao sabor da representação mais forte - é disfuncional; tudo o que não é retamente personalizante e assim gerador de verdadeiro afeto – é disfuncional.
O segundo agente de socialização – a escola – não é capaz de fornecer alternativas de comunicação àquela existente na família?
AC- Em Portugal definitivamente não. Alguns aperfeiçoamentos implementados nos últimos 40 anos foram completamente dissolvidos pelo brutal crescimento quantitativo da população escolar. De nada serve incrementar a quantidade, pois se as estruturas se não qualificarem, automaticamente decresce a qualidade; neste particular, traduziu-se por um acréscimo da impessoalidade do ambiente escolar, que a coeducação na adolescência só conseguiu agravar na negatividade das condicionantes psicológicas, morais, e sociais. O ambiente escolar deve ser, não apenas pessoal, mas sobretudo familiar; o que é impossível realizar nas grandes unidades industriais escolares que conhecemos. Só é possível cultivar a inteligência e o espírito em meio não alienado do ser e da vida, como já referi. A inteligência nutre-se pela assimilação e elaboração de princípios. O Saber constitui um fim em si mesmo, um enriquecimento ontológico, não um meio de caça ao diploma da hipocrisia social. Qualquer avaliação de conhecimentos (que é absolutamente necessária) não pode ser alienada da elaboração do conhecimento em si mesmo, bem como do processo vital. Os denominados “nervos” nos exames constituem o maior sintoma da referida alienação, a qual também se consubstancia na separação absurda entre estudo e trabalho – o estudo deve ser trabalho, e o trabalho deve ser estudo.
E o meio social, fornece dispositivos socioculturais capazes de amenizar o ruído comunicacional existente nas famílias e meios académicos disfuncionais?
R- Só a Igreja Católica o poderia facultar; mas infelizmente, desde o concílio Vaticano II, esta foi-se progressivamente desintegrando, acabando por se extinguir totalmente como realidade social e cultural, dando lugar a uma seita agnóstica, relativista, pederasta, que só serve para aumentar a confusão. Efetivamente a chamada Igreja conciliar utiliza as referências culturais cristãs tal como Luís de Camões utilizou nos "Lusíadas" a mitologia da Antiguidade Clássica.
Escola- família- sociedade. Pensa que há um contínuo sociocultural disfuncional entre estes meios?
AC- Em Portugal, com certeza que sim, e até conseguem constituir uma triste sinergia negativa, tal como já mencionei.
Frequentou até que ano, e porque deixou a escola?
AC- Como já declarei, à exceção do colégio Eduardo Claparède, senti-me mal em todo o lado. Na medida em que a minha idade cronológica se foi proporcionando à profundidade mental, fui-me sentindo psicologicamente melhor. Tendo frequentado colégios da grande burguesia urbana, pude aquilatar o como a hipocrisia constitui o principal cimento social (sobretudo na já referida grande e média burguesia urbana, da qual eu próprio provenho, aliás). Ora eu nutro, e sempre nutri, a maior repulsa pela hipocrisia. Por outro lado, os meus já expendidos princípios em matéria de educação ( que foram sempre os meus) chocavam-se violentamente ( e chocar-se-iam hoje, se pertencesse à atual geração) com a brutal alienação do sistema escolar – acabei por ser expulso, definitivamente, do sistema, aos 18 anos. Só mais tarde, como adulto, pude completar o antigo sétimo ano. Considero-me, essencialmente, um autodidata.
Porque é que se considera um inadaptado?
AC- Sempre fui muito diferente de todos os outros, em todas as épocas da minha vida, muito mais respeitado do que amado, eu sempre senti este mundo, no plano moral, como lugar de exílio, algo que não me dizia respeito. A minha inadaptação, por grande que seja, é constitucional, objetiva e existencial. Não fui maltratado nos colégios que frequentei, apenas marginalizado, tal como em casa, e isto apenas por ser diferente.
Encontrou algum ritual de socialização no meio comunitário onde se revisse e sentisse realizado?
AC - Não. Efetivamente a minha realização foi sempre puramente interior, ainda que integralmente objetiva: A especulação filosófica e a contemplação Teológica e sobrenatural. A assimilação de princípios e virtudes naturais e sobrenaturais constitui, ou devia constituir, segundo Aristóteles e São Tomás de Aquino, o único fundamento ontológico e metafísico da felicidade dos seres racionais. Mas realização prática e social nunca tive.
A sociedade está perdida? Onde erra?
AC - A condição humana é o que é; gravemente deficiente, não é possível alterá-la substancialmente, mas apenas procurar remediar as suas chagas mais hiantes. Quando Karl Popper afirma que a atual civilização ocidental é a melhor jamais construída pelo homem, só posso concordar se ele se referir a um plano meramente material. Efetivamente, a Humanidade falhou em tudo, exceto nas realizações técnicas. Moralmente, a História da Humanidade constitui um enorme fracasso.
Que doença mental lhe disseram que tem?
AC - Uma paranoia delirante, fundada em crenças dogmáticas e absolutas desligadas da minha realidade atual.
Pensa que tem doença mental?
AC - Sou, e sempre fui, profundamente inadaptado, pelas razões já expendidas; uma tal condição pode contudo fazer transparecer, MATERIALMENTE, consequências suscetíveis de serem interpretadas como doença mental.
Que medicação fez, e com qual se deu melhor ou pior?
AC- Sou profundamente sensível a acatisia. Descobri isso quando estava sendo tratado pelo Dr. Eugénio Miranda Rodrigues (1913-1987) que era neurologista, já há uns 30 anos. Individualizei (não sei se bem) a substância “Haloperidol” como causadora da minha acatisia. Nessa época apenas me dei bem com o Bialzepan. Atualmente dou-me bem com o Risperdal, o Tegretol e o Atarax. Sempre recusei medicações fortes, mas tomo sempre religiosamente a minha medicação. Também recusei a cura de sono que me foi proposta pelo Dr. Miranda Rodrigues.
Que memória guarda do Dr. Miranda Rodrigues?
AC- Era uma pessoa muito correta, todavia possuía uma mentalidade bastante fechada a tudo aquilo que saísse fora da “normalidade”, apresentava nítidas dificuldades para compreender a diferença.
Qual a sua ideia da psicanálise?Tem algum futuro?
AC - A psicanálise constituindo um desenvolvimento de base materialista, procura aplicar à mente humana o conhecimento positivo haurido do estudo dos processos físicos. Penso que tem imenso futuro, na exata medida em que todo o mundo, incluindo o Islão, com mais ou menos modulações,é materialista e completamente avesso até ao simples conceito de religião natural. Desgraçadamente até a Igreja dita católica caiu na maior corrupção intelectual e moral. Portanto o futuro da psicanálise possivelmente compreenderá os desenvolvimentos da ciência genética combinados com uma "etologia" na qual a conceção escolástica, tradicional, do Homem, integrará definitivamente os anais da arqueologia cultural.
Já me disse que embora tivesse tirado a carta, não pode conduzir, porquê?
AC- Porque sendo oficialmente um doente mental, qualquer problema que houvesse teria gravíssimas repercussões familiares, sociais e legais. Também não posso tratar da maioria dos assuntos. O meu estado, desde há 32 anos, é de morte civil, sou menos do que um cãozinho. Mas isso não me traumatiza nada, nem nunca me traumatizou; posso é ter pena desta civilização. Aliás neste contexto cultural, pior do que ser considerado louco, é ser considerado ex-louco.
Cinquenta anos de psiquiatria e saúde mental são muitos anos. Da sua experiência como vê os psiquiatras em geral?
AC- O que significa o conceito de vocação? Vocação é um desenvolvimento e um acentuado apuramento de fatores específicos e sub-específicos da inteligência e do carácter, em ordem ao exercício qualificado de uma função. Quem duvida de que é necessária vocação para o exercício da Medicina? Pois para o exercício da psiquiatria é necessária mais vocação ainda; é necessário não apenas gostar de pessoas, mas gostar muito de pessoas; é necessária uma grande unidade psicológica, um grande equilíbrio de carácter, é necessário saber integrar a necessária objetividade científica com a ressonância emocional puramente humana. É muito difícil ser bom psiquiatra, eu porém tive sorte…
E o doente mental como o vê?
AC- Há muitas variedades daqueles que são, mais ou menos superficialmente, denominados doentes mentais, desde as maiores deformidades psico-orgânicas, aos atrasados mentais mais ou menos profundos, passando pelos gravemente deprimidos, os autistas etc. A ignorância coloca tudo no mesmo saco, eu próprio considero-me quase ignorante. Constitui assim um estigma social causador de grandes sofrimentos, como se a pessoa tivesse culpa da sua doença. Tudo se resume ao MEDO ACRITÍCO E SUPERSTICIOSO DA DIFERENÇA PELA DIFERENÇA, social e culturalmente assumido e elaborado e muitas vezes INSTITUCIONALIZADO. Mais até do que o próprio doente mental, teme-se a afetividade e a sexualidade do doente mental; por isso, este não sendo cognitiva e afetivamente estimulado, mais se isola e mais definha.
A doença mental existe?
AC- Quer possua uma nítida base orgânica, quer não a possua, é evidente que existe a realidade da doença mental. Se na Medicina em geral existe uma infinidade de fatores, os quais são assumidos, de forma absolutamente única, por um grande número de indivíduos; na medicina psiquiátrica o processo torna-se ainda mais complexo, sem contudo deixar de possuir uma objetividade positiva, encontramo-nos portanto perante um “complexo positivo”, o que identifica a Medicina em geral, e a psiquiatria em particular como uma ciência não exata, e como tal, dentro de certos limites, admitindo a diversidade de opiniões. Para além disso a psiquiatria admite ainda um aprofundamento no plano da conceção filosófica. As discussões acerca da imputabilidade ou não de certos criminosos, da consideração de certas práticas sexuais como doença, etc, implicam essencialmente com o exercício do ato metafísico de ser de cada profissional; aqui já nos situamos num terreno objetivo não positivo.
Falemos das coisas da vida comum. Dois ou três acontecimentos que marcaram a História da Humanidade?
AC- No plano técnico e científico( positivo): a chegada do Homem à Lua em 21/7/1969. No plano moral e cultural (negativo): a extinção da Igreja Católica, como realidade social e cultural, na segunda metade do século XX.
A era da informática: aspetos positivos e negativos?
AC- Os aspetos positivos consubstanciam-se na maior disponibilidade de comunicação entre as inteligências, no espaço e no tempo, facultando sinergias ao tesouro da globalidade do conhecimento humano. Os aspetos negativos reconduzem-se à utilização acrítica dos referidos recursos.
Comunismo e versus capitalismo. Virtudes e erros?
AC- Comunismo e capitalismo constituem dois materialismos. A sua causa remota situa-se no antropocentrismo da Renascença, reforçado pela Reforma protestante. A sua causa próxima encontra-se na revolução de 1789. Por sua vez o comunismo é, em parte, consequência do capitalismo liberal. Todos estes “ismos” destruíram o sacrossanto equilíbrio medieval entre o natural e o sobrenatural, o público e o privado, a liberdade e a autoridade, o rico e o pobre. Tal equilíbrio repousava no essencialismo metafísico e constituía razão suficiente para tudo ordenar, da base à cúpula, sendo cada realidade perfeitamente hierarquizada. O individualismo liberal dissociou os dados do espírito, atomizando as inteligências, esvaziando-as de ser. O Hegelianismo e depois o marxismo procuraram tudo reagrupar e reintegrar, mas faltava-lhes a razão Divina, e sem esta a razão humana para nada serve. Hodiernamente a Humanidade é governada pelo Nada. Até a própria Igreja Católica sucumbiu ao nada. É esta a nossa condição pós-moderna e pós-cristã.
Fátima e os três pastorinhos?
AC- Sempre acreditei em Fátima como manifestação da Caridade Divina. Infelizmente também sempre verifiquei, nitidamente, que o que conduz as massas a Fátima é, na maioria dos casos, a mais negra superstição, e não a Fé, a Esperança e a Caridade sobrenaturais e Teologais. A maioria das pessoas vai a Fátima como vai à bruxa, ou então como objeto turístico. Aliás, e raciocinando genericamente, a massa não é nada; mimetiza-se sim, nominalmente, da representação momentaneamente mais forte. Os posicionamentos políticos, filosóficos e religiosos, em todos os tempos e todas as latitudes, constituem, na maioria dos casos, mera fachada social. Esta constituiu uma característica triste da Humana condição de que eu me apercebi logo na adolescência. É natural que quem possua, formalmente, vigorosas convicções – tenha problemas.
Juventude do seu tempo e juventude de hoje, aspectos positivos e negativos?
AC- É verdade, sem dúvida alguma, que nos anos sessenta existia, no mundo ocidental, uma atmosfera moral e cultural mais solidária e mais idealista do que agora. Tal constitui um dado perfeitamente objetivo aquilatável por quem aprofunde retamente estas questões. Nessa época a droga constituía, tendencialmente, uma curiosidade; hoje constitui, tendencialmente, uma necessidade. Nos anos sessenta era mais visível um existencialismo positivo, hoje nota-se mais o niilismo. Isto é válido para a juventude em especial, a qual parece haver olvidado toda e qualquer espécie de ideal, repito, no mundo ocidental.


Arquitetura dos tempos atuais?
AC- A arquitetura é a casa do ser e expressão do ser. É uma forma de arte, e a arte constitui a expressão consciente do Belo. E o Que É o Belo? O Belo é o diálogo perfeito de todos os transcendentais reunidos: Unidade, Verdade, e Bondade. A arquitetura deve assim sublimar, numa unidade o mais perfeita possível, a expressão do ser, na utilidade da função ( a qual também é ser). A arquitetura deve assim REALIZAR O HOMEM TODO, e não somente no concreto material, mas num concreto idealizado. Mas se o homem se realiza mal, no plano moral objetivo, a sua expressão, arquitetónica ou outra, será feia, mesmo no plano funcional. No triste programa Costa Polis da Costa da Caparica foram destruídas estruturas tradicionais, perfeitamente típicas e INDIVIDUALIZADAS, para dar lugar a caixotões que não são nem tradicionais, nem típicos, nem individualizados. E que por isso NÃO SÃO FUNCIONAIS, no sentido eminente do conceito.
A política nos tempos atuais. Virtudes e erros?
AC- O que mais me impressiona, negativamente, na política nacional e internacional dos últimos vinte anos é: A ausência de estadistas; a total subordinação do poder político ao poder económico. Na exacta medida em que considero o liberalismo pior do que o comunismo, considero a queda da União Soviética como um fenómeno gravemente desestabilizador do processo geo-político mundial. Foi prejudicial aos povos da ex-cortina de ferro, na medida em que importaram o que o Ocidente possui de pior; foi negativo para o próprio Ocidente, ao desencadear todas as taras do capitalismo liberal. Fim do comunismo, sem dúvida, mas para regressar às tradições cristãs da velha Rússia, como queria Solzenytsin. Os estadistas a nível nacional e internacional são hoje homens tendencialmente medíocres, sem visão, sem magnanimidade.
Num balanço geral, valeu a pena viver esta transição do século?
AC- Quando em Outubro de 1968, com 15 anos, assisti às primeiras sessões do filme 2001 Odisseia no espaço, não esperava, de maneira nenhuma, que chegado eu mesmo ao próprio ano de 2001, assistisse à maior intervenção de Satanás na História, desde a segunda guerra mundial ( sem contar, evidentemente com a obra de destruição da Igreja Católica). Creio que me expliquei bem.
Estamos no fim da entrevista, quer acrescentar mais alguma coisa para quem nos ler?
AC- Sou um temperamento apaixonado: emotivo, ativo, de função secundária. Estou perfeitamente em paz comigo mesmo, nunca fiz mal a ninguém, esforço-me, e esforcei-me sempre por pautar a minha conduta por critérios objetivos de Verdade e de Bem – não fui compreendido, paciência, o que interessa é a mais profunda identificação com a Lei Eterna, sublimada naqueles que nos amaram tanto, que tudo deram pela nossa Salvação.

17 de Dezembro de 2012
ALBERTO CARLOS ROSA FERREIRA DAS NEVES CABRAL
Entrevista conduzida por

Bernardino Rocha (Assistente hospitalar na Unidade de Internamento de Psiquiatria Forense, CHPL)





Catálogo: Upload -> artigo
Upload -> Carência lei nº 213/91, artigo 24 10 conceito
Upload -> Jat soluçÕes contábeis – Fale conosco
artigo -> Para a efetiva implementaçÃo de um currículo integrativo em curso de medicina é imprescindível que o corpo docente esteja disposto a revisitar a biomedicina com o olhar da filosofia e das ciências humanas e sócio-educacionais
artigo -> Advocacia Fernandes Chaves Conforme prometido, segue informativo sobre Revisão de Aposentadoria
artigo -> A percepçÃo da mulher portadora de câncer acerca de suas experiências emocionais anteriores ao diagnóstico
artigo -> A doença Como Linguagem da Alma
artigo -> Diferenças Constitucionais entre as Taxas e Tarifas – Uma Proposta de Classificação
artigo -> Bioética: história, conceituaçÃo e bases filosóficas
artigo -> Sociedade dos poetas mortos ilustrando a presença das ideologias em educaçÃO
artigo -> A emenda constitucional n. 32/01 e o suposto regulamento autônomo do art. 84, VI da cf leonardo Avelino Duarte


Compartilhe com seus amigos:


©principo.org 2019
enviar mensagem

    Página principal