Nestor Makhno: a crítica à Autoridade e ao Estatismo na Destruição da Revolução Russa



Baixar 154.87 Kb.
Página2/3
Encontro18.07.2016
Tamanho154.87 Kb.
1   2   3

A Centralização do Poder e a Subordinação do Campesinato – Crítica ao Estatismo e a política de aliança operária-camponesa Bolchevique
A crítica ao bolchevismo, umas das primeiras a serem realizadas, é uma crítica ao Estatismo em todas as suas vertentes, seja o desenvolvimento da centralização política burguesa ou da centralização política a partir da vertente socialista estatista, que tem seu ápice no Bolchevismo. Se a social-democracia europeia, e a 2º Internacional, rapidamente passa a defender o Estado Burguês Liberal e propor dentro deles reformas, que não ameaçam a propriedade privada e o poder do Estado, o bolchevismo, e depois o Leninismo, encarnam o desenvolvimento da vertente revolucionária do Marxismo. Em ambos os casos, temos a ação política em consonância com as respectivas teorias e programas saídos da II e III Internacional.

Makhno por sua vez está preocupado com o processo de constituição do poder soviético e a ação dos anarquistas no processo pós-destruição do Estado burguês, e com isso não deixa de fazer a autocrítica ao movimento anarquista russo da época. Grande parte de sua análise se concentra no processo de estatização e nas relações entre o campesinato e o operariado e nas suas relações e formas de organização.

Os bolcheviques tomaram o poder em 1917, mas só triunfaram no sul do Império Czarista, na Ucrânia, em 26 de novembro de 1920, com a emboscada sobre o Exército Insurrecional da Makhnovitina e se consolidaram com o massacre de Krondast em março de 1921. Neste mesmo período temos a transição do comunismo de guerra para a proposição da NEP, onde os bolcheviques procuram estabelecer a política de aliança operária-camponesa, sem no entanto reverter o processo de constituição de uma autoridade central. Entretanto, o processo de centralização do poder e este tipo de aliança estabelecido pelo poder soviético é logo observado e combatido pelo movimento makhnovista, que em contraposição a centralização do poder, que implicava a subordinação dos sovietes e do EIU ao soviete central em Moscou, reafirmava a necessidade de manutenção dos sovietes livres, também como medida de estabelecimento da aliança operária camponesa e avanço da revolução.

Em suas memórias, sobre o ano de 1917, Makhno relembra as declarações dos trabalhadores da região de Ekaterinoslava:



“Consideramos os bolcheviques e os S.R. De Esquerda como revolucionários, por sua grande atividade na Revolução; cumprimentamo-los, enquanto combatentes corajosos; mas desconfiamos deles, porque, depois de ter, graças ao apoio de nossas forças, triunfado sobre a burguesia e os partidos socialistas de direita que a sustentavam em sua luta contra-revolucionária, estabeleceram imediatamente seu governo, que tem o cheiro de todos os governos em geral – que nos sufocam há séculos” (161)

A edificação do poder soviético sobre controle bolchevique já é identificado por Makhno no período anterior ao comunismo de guerra, relacionando a práxis a teoria e analisando o processo histórico dos acontecimentos.

Castoriadis(1983) procura investigar a degenerescência da revolução e o surgimento da burocracia russa. O autor se pergunta, como uma revolução operária pode dar surgimento a uma burocracia. E procura desenvolver a questão a partir desta premissa:

Com efeito, o problema que mais no interessa é o seguinte: em que medida os operários russos tentaram assumir a direção da sociedade, a gestão da produção, a regulamentação da economia, a orientação política? Qual foi a consciência que tiveram dos problemas, sua atividade autônoma? Qual foi a atitude deles em face do partido bolchevique, em face da burocracia nascente?”

Castoriadis (1983) afirma que a ampla parcela da base partidária bolchevique tinha consciência do processo de burocratização e indica a derrota da greve de Petrogrado, de Krondast e da oposição operária no X Congresso do partido como momentos chaves para entender o processo de burocratização. Se internamente, no próprio bolchevismo havia essa consciência, consideramos que a base centralista (ontológica), industrialista (econômica) e estatista (no plano da política) é continuamente reafirmada pela direção partidária, sendo sua discordância operando sobre a má política da burocracia ou aos excessos de seu poder, mas não sobre a construção da autoridade do poder central soviético, expressada, principalmente, a partir da crítica de Trotksy. Portanto, não é do campo do marxismo revolucionário que poderia se insurgir uma força política contra a constituição da autoridade central, central para edificação da aliança operária-camponesa e o desenvolvimento do socialismo.



Ainda em 1919, o Soviete Militar da Makhnnovitina avaliava a questão da construção do poder estatal:

Esta parte del proletariado se apresuró a ocupar, bajo la dirección del partido bolchevique comunista, los lugares dejados vacantes por los déspotas de la burguesía derribada, haciéndose a su vez una ama tiránica, no dudando en hacer uso de la violencia más horrible, sin ninguna discreción, contra todos aquellos que se oponían a sus intenciones. Este comportamiento ha sido al mismo tiempo hábilmente enmascarado por la "defensa de la revolución".

Em seguida à constatação sobre o processo de organização estatal, apresenta a proposta que ficou conhecida como “Sovietes Livres”:



El régimen de los soviets

Expresamos nuestra idea de un auténtico régimen de soviets libres de la siguiente manera: con el fin de instaurar una nueva vida económica y social, los campesinos y obreros crearán natural y libremente sus organizaciones sociales y económicas: comités de soviets de pueblos, cooperativas, comités de fábricas, talleres, minas, organizaciones ferroviarias, de Correo y Telégrafo y todo tipo de uniones y organizaciones posibles. Para establecer un lazo natural entre todas estas uniones y asociaciones, ponen en pie órganos federados de abajo a arriba, bajo la forma de soviets económicos, teniendo como tarea técnica regular la vida social y económica en gran escala. Estos soviets pueden ser de distrito, de ciudad, de región, etc..., organizados según las necesidades, a partir de principios libres. En ningún caso deberían ser instituciones políticas, dirigidas por políticos o partidos, que dictarían su voluntad (lo que se realiza bajo la máscara del "poder soviético"). Estos soviets son sólo los órganos ejecutivos de las asambleas de los que se derivan.

Afirmamos que é nos escritos de Makhno e nos documentos da Makhnovitina que melhor pode ser encontrar a observação regular e ao mesmo a contraproposta a esse processo. Em fins de 1917, segundo Makhno o Soviete de Goulai-Pole afirmava:

“Por toda parte se criam comissariados. E mais se parecem a instituições de polícia que a comitês igualitários compostos de camaradas que procurassem nos explicar qual é o melhor meio para nos organizar de maneira independente, sem ter que escutar chefes que, até agora, viveram a nossas custas e não fizeram senão mal.” (162)

O surgimento do comissariado e seus mecanismos de controle, em consonância com a política do comunismo de guerra, é logo evidenciada. Desta maneira, associa a prática política bolchevique a seu programa e teoria. Neste sentido, por exemplo, Castoriadis (1983) afirma que a ideologia bolchevique foi fundamental no nascimento da burocracia soviética.

Makhno observa atentamente a posição bolchevique (marxista) no que diz respeito ao centralismo, estabelecimento de uma autoridade central, ao estatismo, desenvolvimento de burocracias e formas de controle, e ao industrialismo, que conduziu a uma manutenção do estatuto da desigualdade política entre operários e camponeses. Estabelece ainda a vinculação entre a má resolução da questão agrária, até aquele momento, e a centralização da autoridade soviética. O documento do EIU afirma:

La desorganización de la vida económica a consecuencia de una mala política agraria suscitó importantes disturbios en los campos. Sin embargo, el poder bolchevique consiguió organizar en Rusia un fuerte aparato de Estado y un ejército dócil del que se sirve, exactamente igual que sus antecesores, para asfixiar toda manifestación de descontento y de resistencia popular”.

Em suas memórias ele observa atentamente esse processo de construção da autoridade e do poder central e suas consequências políticas, econômicas e sociais. Ele escreve: “No próprio Comitê [revolucionário], começou a se ouvir mais amiúde a expressão comissário de prisão”; a prisão, com efeito, já ocupava uma dos mais importantes lugares na organização “socialista” da vida” (196)

Por sua vez, em 1919, a Soviete Militar da Makhnovitina afirma sobre essa questão:



El aparato judicial y administrativo

En cuanto al hecho de presentar este aparato como una necesidad, queremos ante todo reafirmar nuestra posición de principio: estamos contra todo aparato judicial y policial rígido, contra todo código legislativo fijado una vez para siempre, que acarrean violaciones groseras de una auténtica justicia y de una defensa efectiva de la población. Éstas no deben ser organizadas, sino ser el acto vivo, libre y creativo de la comunidad.

O EIU, os militantes anarquista e Makhno já tinha grande clareza sobre o estatismo em desenvolvimento e que isso levaria a “destruição da revolução”. O anarquista ucraniano afirma em suas memórias:

Já está se vendo, disse eu aos meus amigos, que não é povo que se regojiza com a liberdade, mas sim os partidos políticos.Não está longe o dia em que ele o povo estará por completo esmagado sob seu tacão. Não são os partidos políticos que servirão ao povo, mas o povo que servirá aos partidos políticos. Observamos desde já que muitas vezes, nas questões que lhe dizem respeito diariamente, o nome do povo é apenas citado e que todas as decisões são diretamente tomadas pelos partidos. O povo só é bom para escutar o que os governos lhe dizem”(Makhno, 1988)

Esse escrito se refere ao inicio de 1918, quando o autor já tinha a percepção do processo de centralização, de criação de uma autoridade central, disputada pelo Bolchevismo e pelos Socialistas Revolucionários de Esquerda, mas sobretudo encarnada na figura de Lênin. Makhno(1988) afirmava então em reunião com operários e camponeses de Alexandrovska: “Trabalhem a aqui, mas lembrem-se que, aqui, a Revolução começa a abandonar a ação direta para as ordens e ordenanças dos Comitês revolucionários, enquanto que, no interior, isso não acontecerá tão facilmente assim”

Afirmava ainda: “Lênin agia sem nenhum controle, não somente do partido S.R. de Esquerda, aliado do partido bolchevique, mas também deste último, do qual ele era o chefe e o criador”

Não se pode perder de vista que é o momento do estabelecimento do comunismo de guerra, neste sentido as críticas dos anarquistas ucranianos ganham contornos mais fortes, pois demostram que havia leituras e práticas diferentes para a situação da Rússia e da Ucrânia. Neste sentido, Makhno observa atentamente a relação política de centralização e o impacto na aliança entre operários e camponeses. Ao analisar a regulação e centralização do controle das trocas comerciais estabelecidas em contraposição a associação livre entre camponeses e operários, a margem das autoridades soviéticas, ele afirma:

efetuar as trocas entre a cidade e as aldeias sem passa pela autoridade política do Estado.

O exemplo estava aí: sem intermediário, as aldeias poderiam melhor conhecer a cidade e a cidade, as aldeias. Duas classes de trabalhadores se entendiam, assim, nesse objetivo comum: arrancar do Estado todo o poder nas funções públicas, abolir sua autoridade social, ou melhor, suprimi-la”

(Makhno, 1988)
Dessa maneria, o autor estabelece a vinculação entre política e economia e a importância da abolição do Estado para que efetivamente os “trabalhadores de Goulai-Polé apressarem-se, então, a se entender com aquelas outras das aldeias de outras regiões para colocar em prática a ideia de trocas entre aldeias e cidade e relacioná-las com a necessidade de defender a revolução.” (Makhno, 1988) O autor continua com críticas a centralização e afirma: “as autoridades soviéticas interviram no sentido de proibir as relações comerciais entre os operários de petrogrado e os camponeses de Goulai-Polé.” (Makhno, 1988) e continua a análise descrevendo a situação dessa maneira:
“A Revolução proclamou os princípios de liberdade, igualdade e trabalho livre – gritavam os trabalhadores dos campos dominados - e os queremos ver aplicados na vida, manteremos todos aqueles que se oponham. O governo do bloco bolchevique-S.R. De esquerda, malgrado seu caráter revolucionário, é nocivo ao desenvolvimento das forças criativas da revolução. Nós os condenamos À morte ou morreremos nós, nesta luta. Mas não toleraremos que o governo coloque obstáculos ao livre desenvolvimento de nossas forças e à melhoria de nossa condição social. Não aceitaremos humilhação e a opressão que seus agentes querem nos impor para triunfar sobre tudo aquilo que há de belo na revolução.”

O período da destruição estará definitivamente terminado quando a fase criativa começar – período no qual tomará parte não somente a vanguarda revolucionária, mas toda a população, envolvida pelos acontecimentos e desejando ajudar, em atos e palavras, a superar os obstáculos que se acharem em seu caminho” (1988)


Apesar da resistência e de acordos com a autoridade central a troca entre camponeses e operários foi paulatinamente extinguida pelo próprio poder soviético, que insistia que na existência de “instituições proletárias e estatais que deveriam se ocupar da organização industrial e agrícolas das cidades e aldeias, consolidando assim o socialismo no país”(Makhno, 1988)

O desenvolvimento da Guerra Civil e o problema do abastecimento e da fome é combatido pelos Bolcheviques pela centralização, com a perda do poder dos sovietes e o enfrentamento frontal com os camponeses. É o tempo do comunismo de guerra. O exemplo é a organização da Rede Ferroviária com contínua transferência de poder para uma autoridade central, o Comissariado de Transporte, organizado por Trotsky.

A situação é bastante debatida no interior do Partido, e a “oposição dos comunistas de esquerda” não deixa de ter sua coerência: eles aceitam a “perda do poder dos sovietes”, no interesse da revolução mundial” (Linhart, 1983)

No texto “Sobre a Fome (Carta aos Operários de Petrogrado)”, de 22 de maio de 1918, Lenin afirma:



Ou vencem os operários conscientes, avançados, unindo à sua volta a massa dos pobres e estabelecendo uma ordem férrea, um poder implacavelmente severo, a verdadeira ditadura do proletariado, e obrigam o kulaque a submeter-se, implantando uma distribuição correcta dos cereais e do combustível à escala nacional”

(…)

A verdadeira e principal antecâmara do socialismo consiste na distribuição correcta dos cereais e do combustível, no aumento da sua obtenção, no mais rigoroso registro e controle sobre eles por parte dos operários e à escala nacional. Isto já não é uma tarefa «revolucionária geral», mas precisamente uma tarefa comunista, precisamente a tarefa em que os trabalhadores e os pobres devem dar a batalha decisiva ao capitalismo.”

Neste exato momento, têm-se também o debate sobre a organização econômica do sovietes, e “Lenin preconiza, entre outras medidas urgentes, visando estabelecer a disciplina do trabalho e a aumentar sua produtividade a introdução de elementos calcados no sistema Taylor” (Linhart, 1983).9 Neste sentido, a prática política de Lênin mantém-se “fiel” a teoria marxista, na medida em que o central na política do estado comunista, da Ditadura do Proletariado, é promover a redistribuição da produção coletiva por meio da autoridade central.10 Neste sentido, a autoridade centralizada se organiza em função da nova política econômica, no sentido de que é necessário colocar em funcionamento uma “eficiente máquina econômica em proveito da coletividade”(Linhart,1983)11

Podemos observar todo esse processo de reorganização estatal por meio de documentos, como a “A Reorganização do Controle Estatal
(Informe apresentado na reunião do Comitê Executivo Central de Toda a Rússia - Resenha jornalística)”, de Stálin, de abril de 1919 e o texto “Intervenções na IV Conferência do PC (b) da Ucrânia, de março de 1920, quando afirma que existe a possibilidade de acumular trigo, desde que os órgãos estatais em construção sejam menos negligentes e se combata o próprio Makhno. Nas palavras de Stálin:

Nesse assunto, poderia referir-me à nossa experiência na Ucrânia. Não faz muito tempo, afirmou-se que durante a última colheita na Ucrânia foram acumulados nada menos de 600 milhões de puds de trigo. Com um certo esforço, teria sido possível obter esse trigo. Mas os nossos órgãos de aprovisionamento decidiram declarar que os fornecimentos não deviam passar de 160 milhões de puds, e também foi decidido que em março se conseguiria colher cerca de 40 milhões de puds. Ao invés, não se conseguiu. Por negligência dos nossos órgãos, visto como os bandidos de Makhno dão literalmente caça aos encarregados da colheita do trigo, e devido às insurreições de kulaks em algumas zonas, conseguiu-se colher ao todo cerca de 2 milhões de puds em vez dos 40 previstos.”


Por sua vez o projeto de declaração, adotado pelo Soviete Revolucionário Militar do EIU, em sua reunião de 20 de Outubro de 1919, vai em outra direção sobre a questão do abastecimento. Afirmava:

La cuestión del abastecimiento

Esta cuestión tiene actualmente una gran importancia. Su resolución se sitúa en el primer lugar de las urgencias, porque toda la suerte de la revolución depende de ella en este momento. El principal defecto de la revolución precedente [de los bolcheviques - A.S.] venía de la completa desorganización del abastecimiento, lo cual provocó el corte entre las ciudades y el campo. Los trabajadores deben dedicarle la más grande atención. Esta cuestión era particularmente fácil de resolver a principios de la revolución, cuando la vida no estaba desorganizada todavía completamente y el alimento se encontraba por todas partes en cantidad más o menos suficiente. En este momento, la lucha entre los partidos socialistas para apoderarse del poder político, y luego la del Partido Bolchevique para mantenerse, acapararon la atención de los obreros y campesinos que dejaron esta cuestión indecisa y no la vigilaron lo suficiente. En cuanto al poder bolchevique, se mostró, muy naturalmente, incapaz de resolverla.

A solução do problema do abastecimento é vista pela bolcheviques com a constituição de uma autoridade central que planeje e dirija a produção e sua redistribuição. Entretanto, a construção contínua de uma autoridade central retira progressivamente o protagonismo dos trabalhadores em favor do Estado, e portanto quebra, na perspectiva anarquista, o livre desenvolvimento da associação e relações mutualistas-recíprocas entre operários e camponeses. Por sua vez, o EIU indica que esta questão só pode ser resolvida pelos “trabajadores mediante sus organizaciones libres. Nadie más podrá zanjar válidamente este problema en su lugar. Los trabajadores deben evitar sobre este plano desunirse y debe establecerse una estrecha unión entre obreros y campesinos.”

Ainda neste sentido o documento afirma que não será difícil essa resolução “si dejan de lado las organizaciones políticas y los políticos charlatanes. Las ciudades liberadas de todo poder político convocarán un congreso desarrollado por obreros y los campesinos, el cual inscribirá entre las prioridades la cuestión del abastecimiento y el restablecimiento de los lazos económicos entre las ciudades y los campos” e continua propondo como política o
intercambio equitativo de productos de primera necesidad. La tarea posterior será obra de las organizaciones profesionales, cooperativas y de los transportes. Se crearán organismos adecuados para la investigación, reagrupación y recuperación de la producción industrial y agrícola; instaurarán un sistema de intercambio y de repartición justa de los bienes. Sobre este plano, las cooperativas y las asociaciones libres de obreros y de campesinos deberán desempeñar un papel primordial. Es sólo así, según nuestra opinión, que podrá resolverse la cuestión particularmente importante del abastecimiento.”

Portanto, se no interior do Bolchevismo a questão da perda do poder dos sovietes é continuamente aceita, como afirma o próprio Lenin, em nome da edificação do Estado Soviético – burocrático-deformado, em vista da estrutura social e relações sociais da Rússia czarista, e da aliança operária-camponesa, controlada pelo Bolchevismo, é da Makhnovitina que vem a proposição federalista do anarquismo.

Essa situação é central, pois é sobre a proposta de organização econômica da sociedade e a “justa” redistribuição da produção que se assenta a perspectiva bolchevique. Para dar a continuidade ao processo de centralização da autoridade política e de avanço da regulação estatal
As autoridades do Bloco Bolchevique-SR de Esquerda tinham, em todas as usinas, interditado categoricamente as organizações operárias de entrar em relação frequentes de qualquer natureza com as aldeias. Para isso existia, no dizer das autoridades, instituições proletárias e estatais que deveriam se ocupar da organização industrial e agrícola das cidades e aldeias, consolidando assim o socialismo no país. (Makhno,1988)
O desenrolar do processo é observado por Makhno da seguinte maneira:
Mas o governo do Bloco, com Lênin à frente, não poderia deixar de perceber o alcance capital daquilo que tentamos instaurar por aquelas trocas.

Eles o perceberam. Desde o dia da instalação, o governo socialista, esquerda das esquerdas, como qualquer outro governo, viu nisso um perigo, e procurou de todas as formas entravar o desenvolvimento deste movimento enviaram, para começar, destacamentos encarregados de romper toda ligação entre o campo e a cidade; em seguida, as autoridades passaram a fixar o grau de lealdade ou deslealdade revolucionária dos indivíduos e da classe toda dos trabalhadores, seus direitos de afirmar sua inteligência, sua vontade, sua parte na revolução que se fazia a suas expensas. (Makhno, 1988)
A luta política travada entre as proposições dos anarquistas da Ucrânia e o Estado Soviético, sob direção bolchevique, é identificada por Makhno na medida em que a aliança entre camponeses e operários é confrontada pela política bolchevique, através da constituição do poder soviético, no contexto do enfrentamento frontal com o campesinato para conseguir abastecer as cidades, no período do “comunismo de guerra”. Política que será revertida com a NEP e o estabelecimento de uma aliança operária camponesa intermediada pelo Estado e pelos Bolcheviques. Sobre a constituição do Estado ele afirma:

O fato de que o Estado moderno tenha a forma de organização de uma autoridade fundada sobre a arbitrariedade e a violência na vida social dos explorados, é independente de que este seja "burguês" ou "proletário" O Estado descansa sobre o centralismo opressivo, que emana diretamente da violência que uma minoria exerce contra a maioria. A fim de reforçar e impor a legalidade de seu sistema, o Estado não recorre só as suas armas e a seu dinheiro, mas também a potente armas de pressão psicológicas. Com a ajuda de tais armas, um pequeno grupo de políticos reforça a repressão psicológica na sociedade inteira e, particularmente, nas massas trabalhadoras, condicionando-as de tal maneira, com objetivo de desviar suas atenções da escravidão institucionalizadas pelo Estado.” (Makhno, 1988)

O militante anarquista percebe muito claramente que a ação do Estado moderno não se assenta somente na coerção, mas também na persuasão. É um ponto importante de sua análise, na medida em que a fundação da autoridade soviética, como também afirma Linhart (1983) se fundou a partir destas duas vias. Essa situação também impede o estabelecimento a livre associação e constituição efetiva da aliança, política e econômica, operária-camponesa.

Mas sobretudo, seguindo Proudhon e Bakunin a legalidade do Estado não significa igualdade e justiça, muito pelo contrário. Seu direito sob um poder centralizado é justamente a expressão da desigualdade sobre o qual vai ser erigido esse poder. E neste sentido, o anarquista ucraniano percebe que a construção do Estado Soviético contra os sovietes livres é fruto do programa e da teoria marxista revolucionária, no entanto, na perspectiva anarquista, o fortalecimento e a criação do poder estatal não teria um aspecto revolucionário, pois paralisa e destrói o processo revolucionário. Esse é um aspecto fundamental observado por Makhno na ação de sua militância e reflexão.

O panfleto do Exército Insurrecional da Ucrânia, a Makhnovichina, em fevereiro de 1920, afirmava: “O Exército Insurrecional combateu e combate pelos verdadeiros sovietes, e não pela Chekas e a comissariocracia. Desde o tempo do verdugo – o Hetman – os alemães e Denikin, os insurgentes se levantam em massa contra os opressores para defender o povo trabalhador”

Em Janeiro do mesmo ano, o Soviete Militar do Exército Makhnovista, em contraposição ao estatismo, propõe:



7) Las policías estatales (guardias, policía, milicia) se suprimen. En su lugar, la población organiza su autodefensa. Esta autodefensa únicamente la pueden organizar los obreros y los mismos trabajadores.

8) Los soviets obreros y campesinos, la autodefensa de los obreros y campesinos, asicomo cada campesino y obrero no permitirán ninguna acción contrarrevolucionario de la burguesía y de los oficiales. Asimismo, no tolerarán ninguna manifestación de banditismo. Todos los que serán culpables de contrarrevolución o de banditismo se fusilarán en el sitio

El 7 de enero de 1920.

El Soviet Militar y la Plana Mayor del ejército revolucionario insurgente de Ucrania (makhnovista)

Portanto, a luta contra a centralização de poder e do avanço do estatismo era realizada muito claramente pela makhnovichina, ainda que no período de Guerra Civil, em meio a luta contra as forças estrangeiras e nacionais burguesas que lutavam pela restauração do czarismo e do capitalismo.

Em panfleto divulgado pela seção de instrução cultural do EIU (Makhnovista), de 27 de abril de 1920 é afirmando o seguinte:

3) ¿Cómo se manifiesta para nosotros el sentido de toda emancipación?



Por el derrocamiento de todo gobierno: monárquico, de coalición, republicano, socialdemócrata, bolchevique comunista que debe ser sustituido por un régimen soviético independiente de todos [los autoritarios], sin autoridad ni leyes decididas arbitrariamente. En efecto, el orden soviético no es el poder de los socialdemócratas bolcheviques comunistas, que actualmente se autodefinen poder soviético, sino al contrario la forma superior del socialismo antiautoritario y antigubernamental. Éste se expresa por la edificación de una comunidad libre, armónica e independiente de todo poder, asicomo por la vida social de los trabajadores, en que cada trabajador en particular y la comunidad en general podrá construir de modo autónomo una vida feliz y próspera de acuerdo a los principios de solidaridad, amistad e igualdad entre todos.

4) ¿Qué es el concepto del régimen soviético de los makhnovistas?

Los mismos trabajadores tienen que elegir libremente sus soviets; soviets que cumplirán la voluntad y las decisiones de estos trabajadores, o sea soviets ejecutivos y no autoritarios.”

Dentro do processo de luta, o EIU fazia a luta contra o processo de centralização e estatização da Revolução, de sua derrota. Percebem o controle do poder soviético que se estabelece a partir de Moscou pelos Bolcheviques, com o fortalecimento dos comissários em relação aos sovietes. Entretanto, os anarquistas na Rússia e Ucrânia estavam organizados em torno de algo semelhante a um programa e ação comum somente através das Confederação Nabat e da própria Makhnovichina na região sul da Ucrânia, como observa Arshinov e o próprio Makhno.12 O processo de centralização e estatização e da organização econômica da sociedade é assim observada por Makhno da seguinte maneira:

Como, permanecendo aos olhos das massas os pioneiros e agentes da revolução, poderiam chegar a desfigurar a ideia mesmo da Revolução social, sem afundar-se antes de ver realizadas suas aspirações secretas: desviar a revolução de sua via autônoma, criadora, e subjugá-la inteiramente as doutrinas estatistas, destiladas das prescrições e diretrizes do Comitê Central do partido e do governo?

Ficou evidente que, na orientação que eles imprimiram à grande Revolução russa, não havia lugar, nem para as comunidades agrícolas autônomas, organizadas livremente, sobre as terras conquistadas, nem para a passagem, às mãos dos operários, das fábricas, usinas, tipografias e outras.
Neste sentido, Makhno observa três questões importantes e interligadas entre a teoria e prática política Bolchevique. O processo de centralização e estatização, o controle da produção à autoridade central com vista a organizar a redistribuição e a subordinação do campesinato a política centralista de nacionalização da terra expressa pela edificação do Estado Soviético em lugar do desenvolvimento de uma federação de sovietes livres. Na sua visão, a edificação da autoridade estatal significava a parada no processo revolucionário, com observa nestas palavras:
Esses partidos de esquerda provocaram uma parada no processo de destruição, e a Revolução não pôde assim atingir sua fase última, a partir da qual somente o processo de reconstrução pode encontrar seu ponto de partida e ganhar seu pleno desenvolvimento.

Esses socialistas-estatisas de esquerda, aproveitando-se do calor infantil do povo russo ucraniano e outros, abusaram de sua confiança.” (1988)
Por fim, o massacre de Krondast é visto de maneira muito dura e crítica por Makhno, e não poderia ser diferente, em texto sobre os dez anos da revolução ele afirma:

Kronstadt exigiu destes bandidos estatistas a restituição de tudo o que pertencia aos trabalhadores das cidades e dos campos, tendo sido eles a fazer a revolução. Os proletários de Kronstadt exigiram que fossem postos em prática os princípios da revolução de Outubro: "Eleição livre dos sovietes, liberdade de expressão e de imprensa para operários e camponeses, para anarquistas e socialistas revolucionários de esquerda".



O Partido Comunista Russo viu nisto um atentado inadmissível ao seu monopólio no país e, escondendo covardemente a imagem de carrasco atrás da máscara de revolucionário e de amigo dos trabalhadores, declarou contra-revolucionários os operários e marinheiros livres de Kronstadt e depois lançou contra eles dezenas de bufos e de escravos submissos: tchekistas , koursantis, membros do Partido... empenhados em massacrar estes honestos combatentes revolucionários, cujo único erro tinha sido de se indignarem diante da mentira e da covardia do Partido Comunista Russo que espezinhava os direitos dos trabalhadores e da revolução.”

E termina com uma autocrítica:

Al asumir la responsabilidad revolucionaria, a la vez dolorosa y trascendental, el movimiento makhnovista no cometió más que un solo error: unirse con el bolchevismo en la lucha conjunta contra Wrangel y la Entente. Durante este acuerdo, aparentemente precioso práctica y moralmente para el éxito de la revolución, el movimiento makhnoviste se equivocó sobre los bolcheviques y no supo abstenerse a tiempo de la traición de este último. Los bolcheviques lo atacaron de manera traicionera, con la ayuda de todos sus "soldadesco", y aunque con mucha dificultad, lo vencieron por un tiempo.”

(Dielo Trouda, n°44-45, Janeiro-Fevereiro 1928)

O processo de centralização da autoridade e conformação do estatismo de origem Popular se ampliou paulatinamente, assim como a aliança anticapitalista entre operários camponeses se converteu numa aliança operária-camponesa mediada pelo Estado, se convertendo numa política econômica de organização intersetorial agricultura-indústria ao longo da década de 1920. O igualitarismo e a liberdade desenvolvida entre as jornadas de fevereiro a outubro de 1917 e na Ucrânia, principalmente em 1918, é paulatinamente substituída pela desigualdade e autoridade, que culmina no massacre do EIU e de Krondast, que marca na visão de Makhno a derrota da terceira Revolução, depois de Fevereiro e Outubro. E obriga, em certa medida, os Bolcheviques a reavaliarem sua política de confronto frontal com os camponeses para uma nova política, no caso a NEP, para manutenção do próprio Poder Soviético. Ele afirma:

Ahora bien, la existencia y la práctica del poder proletario en Rusia tienen que confirmar y confirman constantemente la sinceridad de nuestro análisis. El Estado "proletario" dejó cada vez más su naturaleza al desnudo y demostró que su carácter proletario era simple ficción, lo que los proletarios pudieron comprobar desde los primeros años de la revolución, ya que ellos mismos contribuyeron a instalarlo. El hecho de que el poder "proletario" en el curso de su degeneración demostrara no ser más que un simple poder de Estado, se volvió indiscutible y no pudo disimular más su verdadera cara.”

1   2   3


©principo.org 2016
enviar mensagem

    Página principal