Nestor Makhno: a crítica à Autoridade e ao Estatismo na Destruição da Revolução Russa



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A questão Camponesa

O problema da terra, ou a questão agrária, é visto de maneira fundamental e articulada com a questão da centralização por Makhno. Já no seu retorno a Goulai-Polé ele empreende a 1) a organização e atuação os anarco-comunistas para além da propaganda entre os camponeses e operários e 2) a organização dos próprios camponeses com vista a coletivização da terra, assim os camponeses poderão “opor-se ao problema da reforma agrária e declarar a terra propriedade coletiva; isto, sem esperar que essa questão capital para eles, tenho sido resolvida pelo Governo revolucionário” (,Makhno, 1988)

Neste sentido a principal preocupação era organizar os camponeses com vista a aprofundar a revolução e destruir a propriedade privada da terra e o Estado. Segundo o próprio Makhno (1988)

a organização de uma União dos Camponeses é, a nosso ver, necessária para permitir que estes espalhem o máximo de suas forças vivas nas correntes revolucionária. (…) Esses resultados, para os camponeses, são, logicamente, sempre os mesmos: a possibilidade de os trabalhadores dos campos e das cidades – cujo trabalho de escravos e a inteligência artificialmente refreada servem de pedestal para o Capital e para essa ladroeira organizada que é o Estado – poderem passar em qualquer tutela dos partidos políticos em sua vida e em sua luta pela liberdade, assim como de suas discussões no seio da Constituição futura”

Mais uma vez percebe a constituição do Estado e sua intermediação por meio dos partidos políticos como modo de refrear o desenvolvimento de sua autonomia, na medida em que passa a ser tutelados para definições das políticas a serem adotadas. A orientação ainda no verão de 1917 era de que os “Camponeses e Operários não devem mais se ocupar da Assembleia Constituinte. Ela é o inimigo dos trabalhadores dos campos e da cidade.” (Makhno, 1988 ) Neste sentido, se implementa antes da Revolução de Outubro o rompimento progressivo com o governo Provisório e já se percebe o Estado como elemento prejudicial ao estabelecimento da aliança operária-camponesa e da associação entre os próprios camponeses.

Se procede assim na organização do campesinato médio, pobre e dos trabalhadores agrícolas, como observa o autor nesta passagem:

Assim foi formado o Comitê da União dos Camponeses, do qual fui eleito presidente. Procedeu-se, então a inscrição dos membros. No espaço de quatro ou cinco dias, todos os camponeses, sem exceção, se inscreveram, salvo – naturalmente – os que eram proprietários. Estes últimos defensores da propriedade privada de terras, separaram-se da massa dos trabalhadores, esperando formar um grupo distinto. Eles não conseguiram atrair para si senão os mais ignorantes de seus peões. Eles contavam aguentar até a constituinte e obter a vitória com ajuda dos S.D. (a essa altura, o partido social-democrata russo defendia ainda o direito de propriedade sobre as terras)

verdade, os trabalhadores camponeses não tinham necessidade alguma de adesão dos camponeses-proprietários. Viam nestes últimos inimigos hereditários e compreendiam que se tornariam inofensivos somente quando, por meio de uma expropriação forçada, suas terras fossem declaradas de propriedade da comunidade.” (Makhno, 1988)

A associação entre o campesinato e sua organização autônoma enquanto fração da classe trabalhadora é vista como essencial para o rompimento de laços passados e instauração de uma sociedade socialista com base na mutualidade entre os sovietes livres. Todo esse esforço é feito justamente no momento que os bolcheviques estão a edificar o Estado Soviético e confrontar o campesinato.13 Em 1919 a Makhnovitina se expressa dessa maneira



El problema de la tierra

El proceso de restablecimiento y de mejora rápida de nuestra economía agraria, actualmente arruinada y muy limitada, reclama una reorganización del cultivo de la tierra puesta en marcha por una decisión absolutamente libre y voluntaria de toda la población agrícola trabajadora (con la evidente ayuda de los especialistas). Los comerciantes de los pueblos deberán ser apartados rápidamente de este proceso. Estamos convencidos de que la solución de este problema de la tierra se resolverá por si mismo mediante la organización comunista de la economía campesina. Todos ellos estarán rápidamente convencidos de que el desarrollo de la producción y la satisfacción de todas las necesidades solo podrán ser asegurados por la comunidad y no por personas particulares. Sin embargo, toda imposición del comunismo mediante la coacción y por la administración de arriba deberá ser rechazada.

Neste trecho pode-se constatar uma questão fundamental aos anarquistas, a perspectiva da ação do próprio campesinato, seu protagonismo político e econômico, como meio de destruir o Estado e o Capital, desenvolvendo uma efetiva força coletiva com base na associação por reciprocidade. Além disso, observa a questão da comercialização e do problema da coerção. Por isso, o decreto de nacionalização dos Bolcheviques é entendido desta forma:

El decreto de los bolcheviques que se refiere en la "nacionalización de las tierras", es decir a la entrega de las tierras a las manos del Estado (de hecho, a las manos del gobierno, de sus órganos y de sus funcionarios), debe ser suprimido. La apropiación de las tierras por el Estado conducirá inevitablemente, no a estructuras agrícolas justas y libres, si no a la reaparición de un nuevo explotador y dueño, en forma de Estado, que utilizará - como todos los patronos - el trabajo asalariado e impondrá por la fuerza al campesinado todo tipo de cargas, impuestos, etc.., exactamente como antes hacían los pomieshchikis. El campesinado no ganará nada encontrándose frente a un solo dueño - el Estado - todavía más poderoso y cruel que los millares de pequeños jefes, dueños y pomieshchikis.

Dessa maneira, identifica a centralização como problema político-econômico na medida que subordina o campesinato ao Estado.14 Depois de fazer a crítica a nacionalização o documento prossegue propondo uma política para a questão agrária:



La tierra confiscada a los grandes terratenientes no debe ser puesta a disposición del Estado sino en las manos de quienes la trabajan directamente: las organizaciones campesinas, los municipios libres y otras uniones. Los modos de empleo de las tierras, del material y la misma organización de la economía agrícola deben ser elaborados libremente en congresos campesinos, después de discutirlos y adoptarlos sobre resoluciones, sin injerencia de cualquier poder sea cual sea.

Consideramos que la solución de todas estas cuestiones por los mismos campesinos traerá un proceso natural de desarrollo de las organizaciones sociales de la economía campesina, comenzando, por ejemplo, con la repartición igualitaria y proporcional de la tierra, del material agrícola y del ganado; por la organización social del trabajo y de la distribución de los productos teniendo como base la cooperación; por la utilización social de la tierra y de los equipos, etc., es decir por formas comunistas más o menos afirmadas. El trabajo manual e intelectual de los aldeanos experimentados y competentes, en estrecho contacto con las organizaciones obreras, reforzará este proceso y acelerará su desarrollo. Entre tanto, las propiedades privadas serán rápida y fácilmente reabsorbidas. La población campesina activa dominará sin dificultad a los representantes de la clase de los grandes propietarios, confiscando primero sus tierras en provecho de la comunidad, luego naturalmente integrándolas en la organización social.

Llamamos la atención de la población campesina sobre una organización cooperativa ensanchada desarrollada y la producción distributiva. Consideramos que la organización cooperativa es, como primera etapa, la más adaptada y más natural sobre la vía de la edificación de la economía agrícola sobre bases nuevas.

Como pode ser observado, a saída para a questão agrária está associada a ação do próprio campesinato com vista a destruição das relações sociais de exploração e dominação, instaurando propriedade coletiva local descentralizada, federalizada. A organização da produção agrícola e da organização agrária, com base na ação da classe, no caso o campesinato, é uma diferença fundamental sobre quem é o agente do processo de organização da produção e sua redistribuição, uma vez que no marxismo o Estado se converte em protagonista para resolução dos problemas de produção e redistribuição. O documento continua com a crítica a “economia soviética”

La llamada "economía soviética", donde reinan inevitablemente el trabajo asalariado, la arbitrariedad y la violencia de los funcionarios bolcheviques comunistas, tiene que ser totalmente liquidada. La cuestión de la participación de agrónomos competentes y especializados así como otros problemas diversos serán reglamentados por la discusión y las decisiones tomadas por las organizaciones y los congresos campesinos. Todas las formas de trabajo asalariado deben ser irremediablemente suprimidas.

Es muy evidente que la solución justa y la evolución posterior de la cuestión de las tierras dependan estrechamente, en una gran medida, del reglamento equitativo de la cuestión obrera. Es a las organizaciones obreras a las que incumbe también establecer un cierto número de lazos con los pueblos, bastante numerosos, para intercambiar todo tipo de materiales y de objetos de la producción industrial por productos agrícolas. Únicamente la unión estrecha y fraternal de obreros y campesinos, en el interior de organizaciones de ayuda mutua en la producción y en el intercambio económico, podrá aportar a la cuestión agraria una solución natural, planificada y justa.”
O documento reafirmar neste sentido a política de aliança operária-camponesa e a necessidade de fortalecer os laços de mutualidade, reciprocidade, entre os trabalhadores na esfera política, econômica e social sem intermediários. Neste exato momento da Revolução os bocheviques procedem em outra direção, confrontando justamente o campesinato, principalmente médio, agente fundamental da revolução.

Durante todo a ano de 1918 e 1919 os Bolcheviques estão a procura de melhorar o abastecimento das cidades. A perda, momentânea, da Ucrânia, que afetou o abastecimento de trigo, e a cosmovisão sobre o campesinato faz com que Lênin promova uma campanha de propaganda contra supostas práticas do campesinato, como armazenamento de trigo, e pela coletivização via “as maravilhas da técnica” capitalista empregada no campo. Neste sentido, o campesinato passa cada vez mais a ser subordinado a uma política industrial conduzida por um Estado ultra-centralizado.

Como afirma Linhart (1983):

Desde abril-maio de 1918 emergem três pontos essenciais da política agrária:



      1. A colheita ensejará uma verdadeira guerra pelo trigo. 1918 é apenas o inicio; a guerra se renovará, sob uma ou outra forma, praticamente todos os anos até 1929, e muito depois disto – sob novas condições.

      2. A luta junto ao campesinato é uma luta ideológica longa e encarniçada contra a mentalidade pequena-burguesa e pequeno-proprietária. A pequena propriedade rural secreta cotidianamente o capitalismo.

      3. Cabe ao proletariado organizar os camponeses pobres que são seus aliados naturais no campo. As formulações de Lenin mostram, entretanto, que ele atribui ao movimento dos camponses pobres um papel subordinado: o proletariado apóia-se nos camponeses pobres em sua ação nos vilarejos; mas os camponeses pobres não constituem em si mesmos, uma força dirigente da luta ddas classes no campo”

A política bolchevique identifica, a princípio, o camponês como principal responsável pelo problema do abastecimento, sem contudo identificar o problema da colheita em virtude da guerra civil. Essa cosmovisão construída pela própria ortodoxia teórica marxista traça toda política para o campesinato, uma vez que a “tentativa de assalto frontal (que caracteriza os anos 1918-1920)” (Bettelheim, 1983) é substituída por uma guerra de posição. Neste sentido, a construção de um uma aliança operário-camponesa intermediada e dirigida pelo Estado, culmina na formulação da NEP, e depois no processo de expropriação por meio das coletivizações a partir de 1929, que acaba com a aliança.

Da revolução de outubro até a construção da NEP o partido se debate sobre a questão e mais uma vez Lenin coloca a questão sobre o principal agente da revolução russa, o campesinato médio:

“O camponês médio produz mais víveres do que tem necessidade, e, dispondo assim de excedentes de grãos, torna-se um explorador do operário esfomeado. Esta é (…) a contradição fundamental. O Camponês enquanto trabalhador , enquanto homem que vive do trabalho (…) está do lado do operário. Mas o camponês enquanto proprietário, que dispõe de excedentes de grãos, está acostumado a considerá-los sua propriedade, suscetível de venda livre. Todos os camponeses não compreendem absolutamente que o livre comércio de grãos é um crime de Estado “Eu produzi o grão, ele é fruto do meu trabalho, tenho o direito de comercializá-lo – eis como o camponês raciocina, por hábito, à maneira antiga. Quanto a nós, dizemos que este se trata de um crime de estado.” (Lenin, 1918 [1918] )

A NEP então é produzida no sentido de garantir que o Estado redistribua a produção camponesa, lhes garantido a sua produção. Neste sentido, apesar da insígnia de “Pão, Terra e Paz” a desconfiança sobre o campesinato é mantida e continuamente alimentada no interior do partido, por todos os setores. Alexandra Kollontai, líder bolchevique e comissária, futura líder da Oposição de Operária, afirmou: “o campesinato pequeno burguês era inteiramente hostil aos novos princípios da economia nacional proposta pelos comunistas.”

Essa questão não passa desapercebida por Makhno que analisando o 14º Congresso do Partido Comunista Russo no texto intitulado “ideia de igualdade e os Bolcheviques” comentou:

O 14º Congresso do Partido Comunista Russo condenou sem paliativos a noção de igualdade. Antes do congresso, Zinoviev tinha mencionado essa noção no decorrer de uma polémica com Ustrialov e Bukarin. Declarou então que toda a filosofia contemporânea estava baseada na ideia de igualdade. Kalinin falou energicamente durante o congresso contra este parecer, defendendo que nenhuma referência à igualdade podia ser de utilidade, mas antes prejudicial e que por isto não devia ser tolerada. Os seus raciocínios foram os seguintes:

"Podemos falar de igualdade aos camponeses? Não, de modo nenhum porque, nesse caso, se poriam a exigir direitos iguais que os operários, o que estaria em contradição absoluta com a ditadura do proletariado. Podemos falar de igualdade aos operários? Não, de modo nenhum, porque podem questionar por que razão um membro do partido comunista e outro que o não é, fazendo o mesmo trabalho, o primeiro recebe um salário duplo no segundo. Para conceder a igualdade haveria que permitir que os que não são membros do partido comunista exigissem o mesmo salário que o de um comunista. Camaradas, seria isto aceitável? Não, de maneira nenhuma. Podemos falar de igualdade entre os próprios comunistas? Também não, porque ocupam diferentes posições, tanto em relação aos seus direitos como a suas circunstâncias materiais".

Neste momento, o cerne da política bolchevique era justamente a formulação e execução da aliança operária-camponesa, um dos traços, na formulação bolchevique, do Estado Operário-Camponês, que em termos de políticas econômicas significava a NEP.

Por outro lado, a proposição anarquista das comunas agrárias é descrita assim: “Cada comuna era composta de uma dúzia de famílias e compreendia por volta de 100, 200 ou 300 membros. Cada uma recebeu, por decisão do congresso regional das comunas agrárias, uma quantidade normal de terra – isto é, proporcional à sua capacidade de cultivo – e situada em sua vizinhança imediata. Elas obtivera, por outro lado, os animais e a ferramentaria agrícola que já existiam nessas propriedades” (Makhno, 1988) Por outro lado, destaca que as autoridades soviéticas se colocavam desde aquele momento contra essa autonomia, tendo em vista que toda vida econômica, política e social passava a subordinação de uma autoridade central.
Conclusão

A riqueza do pensamento político e teórico de Nestor Makhno está justamente ligada a sua ação militante. A reflexão do autor sobre o processo de constituição de uma autoridade central, que constituiu o Estado Soviético, é de extrema importância para o entendimento do surgimento da “Nomenklatura” e da restauração capitalista na União Soviética.

O texto do Dielo Truda N°29, de Outubro de 1927 afirma:

“Es nuestro deber revolucionario alzar nuestras voces una vez más para gritar sobre las fronteras de la URSS: "¡Dad a los hijos de Octubre su libertad, devolvedles su derecho a organizarse y propagar sus ideas!" En ausencia de libertad y derechos para los trabajadores y los militantes revolucionarios, la URSS está aplastando y conduciendo a la muerte a lo mejor de sí misma. Sus enemigos están complacidos por ello y se están preparando mundialmente para, por todos los medios, extirpar la revolución y, con ella, a la URSS.”

A visão anarquista a partir de Makhno permite redimensionar todo o debate sobre a constituição do “poder soviético”, uma vez que a visão dominante na esquerda se configura a partir do Trotksimo, do Leninismo e da socialdemocracia.

No entanto, desde o inicio da Revolução, Makhno e os anarquistas organizados na Ucrânia compreenderam o estatismo como um elemento contra-revolucionário, do ponto de vista político e econômico. A edificação de uma autoridade central pelo Bolchevismo foi levado a um grau extremo, com uma ultracentralização do poder.

Segundo o próprio Makhno:

O bolchevismo, encarnando o ideal do Estado centralizado, tem-se mostrado como o inimigo mortal do espírito livre dos trabalhadores. Recorrendo a medidas sem precedentes, sabotou o desenvolvimento da revolução e destruiu os seus aspectos mais sublimes e dignos. Com uma máscara bem sucedida, ocultou o seu rosto verdadeiro aos trabalhadores, apresentando-se perante eles como o campeão dos seus interesses. Apenas agora, após um reinado de oito anos, cada vez mais próximos da burguesia internacional, começa a retirar essa máscara e a mostrar directamente ao mundo do trabalho o seu rosto de rapaz explorador.

Como observa Makhno:

Antes, e não foi há muito tempo, os bolcheviques falavam uma linguagem bastante diferente. Actuaram durante a grande revolução russa sob a bandeira da igualdade, para derrubar a burguesia conjuntamente com os operários e camponeses, em nome dos quais se apropriaram do controle político do país. Foi sob essa bandeira que, nos oito anos de reinado sobre a vida e a liberdade dos trabalhadores da antiga Rússia - agora designada "União das Repúblicas socialistas Soviéticas"- os czares bolcheviques quiseram convencer esta "União", por eles oprimida, assim como os trabalhadores dos países que ainda não dominam, que se eles perseguiram, se deixaram apodrecer nas prisões e nas deportações e se tinham mesmo assassinado os seus inimigos políticos, era unicamente em nome de uma revolução, dos princípios igualitários supostamente por eles introduzidos e que os seus inimigos pretendiam destruir.”
Seus escritos identificam claramente a centralidade do protagonismo estatal no marxismo, particularmente na sua vertente revolucionária, demonstrando a paulatina substituição do operariado e do campesinato como sujeitos pelo Partido/Estado. Neste sentido, sem se aprofundar teoricamente sobre a questão, há uma percepção de Makhno a respeito da vinculação entre o protagonismo estatal do marxismo, neste caso específico o Bolchevismo, e uma visão industrialista por meia da descrição do que chamou “economia soviética”, que se colocava contra a livre associação entre operários e camponeses, e instaurava a desigualdade política devido a visão sobre campesinato a partir da perspectiva marxista. Neste sentido, há uma importante inflexão teórica de Makhno ao estabelecer novamente a centralidade da ideia de associação e mutualidade na teoria e prática política anarquista, além da perspectiva de uma luta do operariado e do campesinato pela sua existência e liberdade.

A ação política de Makhno confirmou algumas reflexões de Bakunin, entre elas, sua reflexão sobre alguns aspectos fundamentais para ação revolucionária do campesinato russo, que seriam:


O primeiro e o principal destes aspectos é a convicção, partilhada por todo o povo, de que a terra, esta terra regada de suor e fecunda com seu trabalho, pertence-lhe de modo integral. O segundo, não menos importante, é ainda a convicção de que o direito à fruição do solo pertence, não ao indivíduo, mas a toda comunidade rural, ao mir, que reparte a terra, a título temporário, entre os membros da comunidade. O terceiro destes aspectos, de importância igual à dos dois precedentes, é a autonomia quase absoluta do camponês, ao mesmo tempo em que a gestão comunitária do mir e, em consequência, a hostilidade manifesta deste último para com o Estado” (Bakunin, 2003)
Para o líder camponês e anarquista o poder soviético não é um poder nem melhor, nem pior que os outros. Atualmente, é tão latente e absurdo como todo poder de Estado em geral.” Por fim,

A liquidação final e completa do Estado só pode ocorrer quando a luta dos explorados é orientada pelas características mais libertárias possíveis, quando os explorados mesmos forem os que determinem as estruturas de suas ações sociais. Estas estruturas deve assumir a forma de órgãos de auto-direção social e econômica, a forma de soviets livres "anti-autoritários". Os operários revolucionários e sua vanguarda (os anarquistas), devem analisar a natureza e estrutura destes soviets e especificar suas funções revolucionárias. É em base nisto, principalmente, que a evolução positiva e o desenvolvimento das idéias anarquistas nas fileiras daqueles que realizarão a liquidação do Estado por sua própria conta, a fim de construir uma sociedade livre, dependerá.”


A constituição do Poder Soviético com a formação de uma autoridade central que paulatinamente retirou poderes dos sovietes e forjou uma aliança operária-camponesa de tipo bolchevique, onde o camponês era subordinado ao operário, em situação de desigualdade política, que impediu o livre desenvolvimento das associações e da reciprocidade, política e econômica, entre o campesinato e operariado. Além disso, a retirada do protagonismo das ações do campesinato e do operariado em favor do protagonismo estatal impediu a efetiva destruição do MIR15, que a partir da constituição da NEP foi estabelecendo a aliança sob a perspectiva bolchevique, que ao longo da década de 20 transformou-se numa articulação intersetorial agricultura-indústria favorecendo política e economicamente os camponeses -ricos e rompendo a aliança operária-camponesa. Com isso é instituída a coletivização tendo em vista o acirramento da luta entre o campesinato e o Poder Soviético.

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TSÉBRY, Ossip. Souvenirs d'un partisan makhnoviste. In: Dielo Truda–Probuzdénie, New-York, n°31, Dezembro de 1949, pp. 17-19. Disponível na Internet: http://www.nestormakhno.info/french/index.htm

1Mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP -Marília/SP). Doutorando em Ciências Sociais Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade no CPDA – UFRRJ.

2Não vamos nos aprofundar sobre a crítica liberal e conservadora.

3Sobre Lênin Makhno afirma: “Lênin soube elevar o rol de durak [imbecil] a uma altura até aí desconhecida e atrair para si, deste modo, não somente os adeptos do partido político mais próximo do dele por sua atividade revolucionária e sua combatividade histórica – os S.R. De Esquerda, que se tinham tornado seus díscipulos convecidos pela metade -, mas também alguns anarquistas. É verdade que este jovem grupo do antido partido socialista-revolucionário, o partido S.R. De Esquerda, empolgou-se novamente depois de sete meses a oito meses de escravidão e pôs-se a combater Lênin por todos os meios, e até mesmo pela luta armada. Mas isso não modifica nada em nada os fatos por nós citados”

4Segundo Skirda, a composição social do movimento Machnovista era a seguinte:

"Composición social: 40 % campesinos pobres o medianos; 25 % jornaleros agrícolas o campesinos sin tierra; 10 % campesinos de una capa holgada, pero sin propiedad de las tierras; 10 % campesinos sin tierra con actividad pesquera; 7 % obreros de la industria y del transporte; 5 % conductores; 3 % pequeños burgueses. 100 % total. Outro traço fundamental do movimento macknovista era a grande quantidade de ex-combatentes da primeira guerra mundial. (...) Pirámide de edades: 80 % 20 - 35 años (con una gran cantidad de ex combatientes de la primera guerra mundial). origen geográfico: 50 % provincia de Ekaterinoslav; 25 % provincias de Taurida y Jerson; 10 % varias provincias ; 8 % provincia de Poltava ; 7 % provincia del Don. 100 % total. Tendencias políticas del ejército insurgente (makhnovista) (de 40.000 guerrilleros en noviembre de 1919, con 35.000 enfermos de tifus): 70 % makhnovistas y simpatizantes (de los cuales un 5 % de anarquistas); 20 % de simpatizantes de socialistas revolucionarios y de Petliura (independista autoritario ucraniano) 10 % de ex soldados del ejército rojo (de los cuales 1 % de comunistas bolcheviques) 100 % total. Tendencias políticas de los 13 miembros del soviet militar revolucionario que encabezaba el ejército insurgente (makhnovista): 7 anarquistas; 3 socialistas revolucionarios de izquierda; 3 comunistas bolcheviques"

5Em Maio a Cheka tenta assassinar Makhno.

6 Makhno e representates do EIU se reunem com Grigoriev e criticam sua adesão ao Exército Branco e ao partidários de Denikin. Durante o encontro o líder guerrilheiro é morto pelos Makhnovistas.

7 “as unidades del Ejército Rojo habían sido hostigadas; que los representantes soviéticos habían sido expulsados de las aldeas y pueblos; que los pobres campesinos estaban siendo perseguidos, y que una gran parte de la Makhnovina estaba compuesta por desertores y blancos... (Kubanin, pp. 157-159; Frunce, 1957, pp. 427-429).

8CONVENIO MILITAR Y POLITICO PRELIMINAR ENTRE EL GOBIERNO SOVIETICO DE UCRANIA Y EL EJÉRCITO INSURRECCIONAL REVOLUCIONARIO (MACHNOVISTA) DE UCRANIA.

Parte primera. Acuerdo político.

1. Liberación inmediata y cesación ulterior de toda persecución sobre el territorio de las Repúblicas soviéticas, de todos los machnovistas y anarquistas, excepto los que luchen con las armas en la mano contra el gobierno de los soviets.

2. Libertad entera de agitación y propaganda de sus ideas y principios, por la palabra y por la prensa, para los machnovistas y anarquistas, siempre que no inciten a un derribamiento violento del poder de los soviets y a condición de respetar la censura militar.

En lo que concierne a las publicaciones, los machnovistas y los anarquistas, en calidad de organizaciones revolucionarias reconocidas por el gobierno de los soviets, disponen del aparato técnico del Estado de los soviets, porque siguen las reglas técnicas de las publicaciones.

3. Libre participación en las elecciones a los soviets; derecho de los machnovistas y los anarquistas a ser elegidos, así como libre participación en la preparación del próximo quinto congreso panucraniano de los soviets, que se realizará en el mes de noviembre del año corriente.

Por mandato del gobierno de los soviets de la República Socialista Soviética de Ucrania, Yakovlef.

Plenipotenciarios del Consejo y del comando del ejército insurreccional revolucionario (machnovista) de Ucrania, Kurilenko y Popof.

Parte segunda. Acuerdo militar

l. El ejército insurreccional revolucionario (machnovista) de Ucrania forma parte de las fuerzas armadas de la República como ejército de guerrilleros subordinado para las operaciones al comando superior del ejército rojo. Conserva su estructura interna anteriormente establecida, sin adoptar las bases y los principios de organización del ejército rojo regular.

2. El ejército insurreccional revolucionario (machnovista) de Ucrania, que pasa a través del territorio de los soviets, que atraviesa los frentes, no acepta en sus filas destacamentos del ejército rojo ni desertores de este ejército

a) Las unidades del ejército rojo, así como los soldados rojos aislados que en la retaguardia del frente de Wrangel se hayan unido al ejército insurreccional revolucionario deben pasar al ejército rojo cuando encuentren sus unidades.

b) Los guerrilleros machnovistas que quedan tras el frente de Wrangel, así como la población del país que entra en las filas del ejército insurreccional, permanecen en él aunque hubieran estado movilizados por el ejército rojo.

3. Con el fin de aniquilar al enemigo común -el ejército blanco- el ejército insurreccional revolucionario (machnovista) de Ucrania hará conocer a las masas trabajadoras que marchan con él el acuerdo concertado, invitando a la población a suspender toda acción hostil contra el poder de los soviets; a fin de obtener más éxito, el gobierno de los soviets debe, por su parte, hacer publicar inmediatamente las cláusulas del acuerdo concluido.

4. Las familias de los combatientes del ejército insurreccional revolucionario (machnovista) que habitan el territorio de la República de los soviets gozarán de los mismos derechos que las de los soldados del ejército rojo y serán provistos por el gobierno soviético de Ucrania de documentos al respecto.

Firmado: Comandante del Frente Sur, Frunsé. Miembros del Consejo Revolucionario del Frente Sur, Bela Kun, Gusef. Delegados plenipotenciarios del Consejo y del comandó del ejército insurreccional machnovista, Kurilenko, Popof.



9 Uma maior desenvolvimento da questão está na obra “Lênin, Taylor e os Camponeses”, de Robert Linhart

10 Tendo em vista toda a teoria acerca do trabalho, alienação e surgimento da propriedade privada que marca uma fundamental diferença na perspectiva anarquista bakuninista e no marxismo em geral

11Consideramos que a ideia de coletividade no marxismo em geral está assentado na ideia de um coletivo indiviso, com base numa idealização do comunismo primitivo, que rompe com o próprio materialismo histórico.

12 “Nós anarquistas-revolucionários, não fomos jamais capazes de abraçar em toda sua amplidão os grandes atos revolucionários populares, de compreender seu alcance e de ajudá-los a se desenvolver em toda sua grandeza e eficácia. E ainda agora, estamos de todo impotentes, e isto simplesmente pela falta, nos dias mais decisivos da Revolução, de uma organização sólida” (Makhno, 1988)

13Problema que não será resolvido por meio da NEP, pelo contrário. A instauração da NEP e a orientação político-programática do partido Bolchevique transformação a alianaça operária componesa numa aliança agrária-industrial que fortaecerá a influência política, até então pequena, do campesinato rico sobre o campesinato médio e pobre.

14È interessante notar, como observar Betthelein, que os bolcheviques no final dos anos 20 identificam o problema do campesinato como pressionando mais e mais o campesinato médio e pobre.

15Bettelheim (1983) observa que os Bolcheviques identificam o problema de abastecimento a partir da sua leitura da tese da proletarização e da constituição do campesinato rico, presumindo que o problema do abastecimento se devia a “greve” dos camponeses ricos. Como defende Kamenev no XV Congresso Entretanto, quem abastecia a cidade era o campesinato médio e pobre, que com as sanções por parte do poder soviético foram os mais afetados, se aproximando politicamente do campesinato rico.

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