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NET PROCESSO - arte contemporânea - Entrevista com José Francisco Alves

NET PROCESSO - arte contemporânea



Entrevista com José Francisco Alves

Arte sintonizada com a natureza

Convidado pelo Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (Ipuf), José Francisco Alves esteve na capital catarinense dialogando com técnicos envolvidos no novo plano diretor. Na oportunidade, fez um encontro com a comissão municipal de arte pública. Nesta entrevista exclusiva, concedida à jornalista Néri Pedroso, ele revela um pouco de suas concepções.



José Francisco Alves

Porto Alegre, a capital gaúcha, abriga um patrimônio invejável no que se refere à arte pública. Por trás desta conquista, o trabalho realizado pela 5ª Bienal do Mercosul, que resultou na instalação de quatro obras permanentes – de Carmela Gross, Mauro Fuke, José Resende e Waltércio Caldas. Essas criações mudaram radicalmente a paisagem da orla do rio Guaíba e a relação do público com a arte contemporânea. Projetadas para o local, elas provocam novos olhares para o ambiente, permitem passeios e, até, descansos sobre elas.

Graduado em escultura, José Francisco Alves é especialista em gestão do patrimônio cultural e mestre em teoria, história e crítica de arte pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Tem realizado curadorias e organizado eventos de artes visuais desde 1989, destacando-se a coordenação técnica do 1º Encontro Latino-Americano de Artes Plásticas e a curadoria da 1ª Exposição Internacional de Esculturas ao Ar Livre, Sesc Porto Alegre. Em 2004, publicou o livro "A Escultura Pública de Porto Alegre - História, Contexto e Significado" (Artfolio). Como curador-assistente da 5ª Bienal do Mercosul, ele esteve plenamente mergulhado no projeto que buscava conferir um novo desenho para a cidade a partir da produção contemporânea. A arte, para José Francisco Alves, funciona como um vetor humanizador do espaço urbano.



Convidado pelo Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (Ipuf), José Francisco Alves esteve na capital catarinense dialogando com os técnicos envolvidos com os estudos do novo plano diretor para a cidade. Na oportunidade, fez um encontro com a comissão municipal de arte pública. Nesta entrevista, ele revela um pouco de suas concepções, entre elas, a de que a crítica de arte deixou de existir porque os instrumentos nos quais ela se manifesta desapareceram, ou seja, as revistas de arte, as colunas de arte em jornais. Para ele, o que vale mesmo é a resposta do público.



Net Processo - Conceito amplo - monumento, intervenção, abandono da cultura de galeria, apropriação do espaço público, inicialmente é preciso saber como você entende a arte pública?

José Francisco Alves - Arte pública é um campo bem amplo e diferenciado de experiências artísticas que ocorrem em espaços de circulação de público. São trabalhos tanto de arte permanente e/ou integrados à arquitetura quanto de manifestações de caráter efêmero e experimental. Não existe arte pública para "todo" o público, podendo essa arte ser dirigida a audiências específicas e existente em locais de acesso mais restrito - semipúblicos - como quartéis, parques, cemitérios etc. Desde o início da humanidade, nas paredes das cavernas, pirâmides, catedrais e palácios, o lugar da arte foi o espaço público. A existência da arte no âmbito dos museus e galerias é um momento recente da história da arte e a presença da arte contemporânea nas ruas é um momento mais recente ainda, dada as potencialidades e desafios que a arte no ambiente urbano propicia.

NP - Por que arte pública é um tema tão polêmico?

José - A polêmica é uma presença constante quando se fala de arte em espaço público. Isso ocorre porque a arte trabalha com questões pulsantes e às vezes incompreendidas, por estarem adiante de seu tempo, no momento de sua realização. Soma-se a isto o uso da arte na disputa da construção simbólica das sociedades. Um exemplo é a derrubada da estátua do déspota, simbolizando a mudança do poder mais do que qualquer outra imagem.

NP - Por que o Brasil é tão insensível com relação à arte pública? Por que há tanta coisa inexpressiva no meio do caminho? Qual a origem do problema?

José - A arte em ambiente "tradicional", nos museus, galerias de arte e coleções privadas do Brasil já é uma existência precária, o que se dirá da arte ao ar livre. Mas desde a década de 1970, de forma tímida, tem-se alterado essa situação, dentro e fora do "cubo-branco". Quanto a existência de obras inexpressivas, isso é inevitável e não ocorre só nas artes plásticas; basta ligar o rádio e escutar música, ver televisão, ir ao cinema ou ao teatro, ou ainda entrar numa livraria e ver que tipo de literatura é a mais lida. Na quantidade há muitas obras boas e muitas peças ruins. Se a institucionalização da colocação de trabalhos ao ar livre paulatinamente tiver mais profissionalização - recursos financeiros - por parte dos comissionadores, a situação só tende a melhorar.

NP - Por não dispor de um espaço próprio, a Bienal do Mercosul criou novas relações espaciais com a cidade, estimulando o desenvolvimento da arte pública contemporânea. Em função disso, hoje a cidade tem um valioso patrimônio. Como foi a sua experiência como curador-assistente na 5ª Bienal do Mercosul?

José - A experiência como curador-assistente da 5ª Bienal do Mercosul, respondendo pela curadoria das mostras do artista homenageado (Amilcar de Castro) e do Vetor Transformações do Espaço Urbano (arte pública permanente) foi muito gratificante, graças a oportunidade de trabalho e responsabilidade que me foram dadas pelo curador-geral, Paulo Sérgio Duarte, e pelo curador-adjunto, Gaudêncio Fidelis. A Bienal do Mercosul tem uma relação especial com a cidade onde ocorre, Porto Alegre, realmente porque não possui um espaço próprio e dessa dificuldade nasceu uma relação diferenciada com o espaço urbano. No caso da 5ª Bienal do Mercosul, soma-se a isso a existência, pela primeira vez, de curadores gaúchos, ou seja, do próprio local onde se realiza a exposição. Com curadores unicamente de fora, sem conhecer a cidade, sua história etc., realmente isso fica mais difícil de ocorrer. A conservação desse patrimônio vai depender do interesse e da responsabilidade dos administradores da cidade e da Fundação Bienal do Mercosul.

NP - Quais as maiores dificuldades nesta tarefa? Quais os principais cuidados adotados? Como funcionou a seleção das obras e artistas?

José - A tarefa de construir arte permanente no espaço urbano é realmente muito grande, tanto por sua responsabilidade quanto às questões envolvidas, a negociação artista-prefeitura-curadoria etc. Para realizar a tarefa da melhor maneira possível é preciso recursos financeiros significativos. Poucos projetos de arte ao ar livre na América Latina tiveram recursos ideais para o comissionamento de trabalhos, como os da 5ª Bienal do Mercosul. Isso só ocorreu pela importância (dinheiro) dada para a tarefa pelos curadores e pelo presidente da Bienal, Elvaristo do Amaral. Também foi importante a escolha de artistas de alto profissionalismo e experiência na criação, negociação coletiva e realização de projetos permanentes em espaços públicos.

NP - Quais as principais diferenciações entre uma curadoria para um espaço fechado (galeria, museu) e uma obra instalada na rua? A discussão do público e do privado, a interatividade do público com a obra, a arte em diálogo com as comunidades, a questão do financiamento, as regras para a colocação das obras em ambiente urbano?

José - A diferença principal é o entendimento de todos os envolvidos de que a tarefa é coletiva, pois envolve a negociação de todos os lados (instituição, curadoria, artistas, administração municipal). Sempre há a preocupação sobre a resposta do público. Neste caso da 5ª Bienal do Mercosul, é mais difícil de aferir, pois o local das obras é um parque de "freqüência geral": um público anônimo, numeroso e indefinido.

NP - A crítica de arte em relação à arte pública? Existe? Qual foi a resposta dada em Porto Alegre?

José - Primeiro: a crítica de arte não existe mais, stricto sensu o que seja crítica de arte, porque os instrumentos nos quais ela se manifesta desapareceram, ou seja, as revistas de arte, as colunas de arte em jornais etc. A resposta "crítica" mais importante dentro da arte é o aumento do interesse pelo estudo do tema, e ajuda, neste sentido, a construção de uma elaboração teórica mais precisa no campo da arte pública brasileira. Porém, a resposta do público é a mais importante. Nesse caso da Bienal do Mercosul, a população parece ter "encampado" esses trabalhos de arte no seu cotidiano, dado o estado de conservação dos mesmos, até o momento.

NP - Qual o papel da crítica com relação à arte pública?

José - O papel do estudo teórico é da maior importância, mas a massa crítica só vai existir após as obras de arte pública contemporânea serem uma presença mais sólida na cena urbana, com a participação de artistas de peso e recursos financeiros para tal.

NP - Florianópolis tenta incluir a arte pública nos estudos do plano diretor, aliás, fato motivador de sua recente vinda à cidade? Como você recebe e percebe essa iniciativa?

José - Por enquanto, Florianópolis é único lugar em que a arte pública aparece na cena da administração pública no Brasil para ser uma questão mais permentente na vida da cidade, como tema estratégico no planejamento da construção do espaço coletivo. O importante agora é avançar mais, não se esquecendo que o poder público deve também ter iniciativas, passo-a-passo com as igualmente importantes iniciativas de cunho privado.

Néri Pedroso



29/10/2006

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