Netto, Coelho & bilac, Olavo. A pátria Brasileira



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NETTO, Coelho & BILAC, Olavo. A Pátria Brasileira. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1940. 27ª edição.


Índice


Para Oeste

Descobrimento da América

Descobrimento do Brasil

Os aborígenes

A primeira missa

Os degredados

Usos e costumes dos indígenas

As guerras, os prisioneiros

Crenças e superstições

Os precursores de Cabral

Américo Vespucci

Gonçalo Coelho

O Norte


As capitanias

Vasco Fernandes Coutinho

Aires da Cunha

Vida dos primeiros colonos

O navio negreiro

O Caramuru

O Missionário

As Missões

Villegaignon

Cunhambebe

Os aimorés

São Sebastião

Estácio de Sá

A Holanda

A Companhia das Índias

A primeira guerra

Camarão

Calabar


Duguay-Trouin

Os paulistas

Amador Bueno

Os emboabas

A volta dos bandeirantes

O Padre Antonio Vieira

O sertão do Norte

Os Palmares

O “Bequimão”

Os mascates

Os aventureiros

O garimpeiro

Os diamantes

A opressão

Felipe dos Santos

Os corsários

Cavendish e Cook

Os grandes rios

A emancipação dos índios

A inconfidência

O martírio de Tiradentes

Napoleão


D. João VI

As explorações científicas

A Constituição

1817


O “Fico”

Sete de Setembro

D. Pedro I

A dissolução

A abdicação

D. Pedro II

O gaúcho

Os farrapos

A guerra com o Paraguai

A retirada da Laguna

Aquidaban

A vida nas fazendas

O exército negro

Treze de Maio

Quinze de Novembro

Final


Bibliografia

Para oeste!
O último quartel do século XV foi uma aurora. Ardia ainda nos corações a chama sagrada que fora alumiando o caminho da palestina aos Cruzados. O povo rezava e batia-se; por entre alas de guerreiros, revestidos de couraças formidáveis, desfilavam lentas procissões monásticas, levando hereges cobertos pelo sambenito para a purificação pública nas fogueiras; os sinos dobravam funebremente em todos os mosteiros da Espanha católica e aventureira; mas, apesar do intenso respeito religioso, à luz fraca das lâmpadas acesas diante dos nichos dos santos, nas ruas, tiniam espadas e moribundos rolavam praguejando.

As forjas dos alfagemes mal se apagavam, fundindo o aço inquebrantável das armas; outros operários, porém, de obras mais duradouras, competiam vantajosamente com os que aguçavam lanças, eram os que compunham livros, servindo-se dos caracteres inventados pelo trabalhador perseverante de Mogûncia, Guttemberg, para exumar as velhíssimas literaturas, e para dar expansão à estreiteza dos manuscritos preciosamente conservados nos mosteiros.

Se era grande o fanatismo religiosos, não era menor a aspiração das almas à riqueza.

Os monges falavam das delícias celestiais, prometendo o largo prêmio da bem-aventurança, e os espíritos concentravam-se em Deus; logo, porém, surgia um marujo, queimado dos grandes sóis, e punha-se a referir as suas viagens, contando o que vira, repetindo as lendas da Atlântida, da Antila de Aristóteles, das Ilhas Afortunadas de Estrabão, da Ilha de S. Brandão, que se avistava, nos dias claros, além das Canárias, fugindo sempre se o navegador aproava para suas praias, e da Ilha das Sete cidades, colonizada por um bispo e monges, paraíso maravilhoso de verdura e flores, coberto de preciosíssimas areias d’ouro.

Não admira que os rudes marinheiros visionários mencionassem maravilhas tais, se Martin Behaïm marcara no seu famoso globo de cobre, conservado em Nuremberg, a posição dessas mesmas terras.

Todas as verdades parecem anunciar-se por um sonho. Essas miragens da maruja eram precursoras de uma realidade mais bela: a América. Apesar do globo de Behaïm apresentar um vasto hemisfério, vazio, Cristóvão Colombo, de Gênova, depois de ter recolhido na Ilha da Madeira papéis e cartas de um navegador português, aparece nas Cortes oferecendo-se para ir descobrir as Índias.

Vai primeiro a Lisboa; repelido, porém, passa a Castela, onde é aceito pelos reis católicos Fernando e Isabel, e tão cordialmente o recebem, que o marinheiro italiano não hesita em adotar por sua a pátria heróica do Cid.

O que mais o impelia à ventura era o desejo intenso de descobrir tesouros, não por avara cobiça, mas para poder equipar um exército, forte de dez mil cavalos e cem mil infantes, com que fosse, cristamente, disputar aos infiéis o túmulo do Senhor.

Era homem de leituras, mas profundamente místico; se possuía preciosos instrumentos de marear e cartas, as melhores do tempo, se levava os olhos extasiadamente postos nos astros fazendo rumo pelas claridades do céu, se observava as correntes marinhas, — a alma ia embebida da fé, cheia de uma intuição divina, de uma inabalável esperança.

Aramada a expensas dos reis espanhóis, a pequena frota — três navios nos quais hoje, de certo, o mais ousado mareante julgaria temeridade fazer-se ao oceano, — partiu de Palos, à aventura, na manhã de 3 de Agosto de 1492.



Descobrimento da América
Posto houvesse quase certeza da existência de um continente na direção de oeste, talvez o século XV se tivesse escoado, sem que o velho Mundo visse surgir dos mares a irmã formosa que Melchior de Voguë nos desenha graciosamente nestas palavras admiráveis:

“Entre os dois oceanos que lhe asseguram o silêncio, alonga-se uma terra virgem, de um perfil vago de mulher adormecida, a cabeça apoiada ao pólo Norte, os pés no pólo Sul, a cinta cingida pelo equador, um braço estirado para a Ásia — Alasca, o outro estendido para a Europa — o Labrador.”

Em rumo das Canárias, a esquadrilha singrou os mares, chegando aos seu destino, favorecida pelos ventos, afagada pelas vagas que pareciam propícias à expedição maravilhosa. A 6 de Setembro, a âncora foi recolhida e fez-se ao largo a frota seguindo para o oeste. Que destino era esse? Que roteiro o traçara? A alma do predestinado.

Velejaram sem acidentes, a princípio, velejaram sempre; os astros tornavam-se mais claros; as noites, porém, baixavam temerosamente, e a maruja, receando um fim sinistro no desconhecido, não vendo sombras de praias, entrou a murmurar; em como para lhe aumentar o desespero, levantaram-se as vagas, ventos impetuosos enfunaram e fizeram estourar as velas bojadas, relâmpagos abrasaram os céus e os mares solitários. Colombo, porém, sempre no castelo da nau, indiferente ao rumor da procela e à celeuma dos homens descontentes, observava os astros, e seguia o vôo dos pássaros como um augúrio.

Às vezes, iludido pela névoa, o gajeiro bradava “Terra!”; e atropelados e ansiosos, corriam todos às amuradas alongando os olhos; dissipava-se,porém, a bruma, a miragem sumia-se, e o horizonte aparecia desanimadoramente vazio, além...

À proa da capitania, Colombo falava ao Eterno, igual a Moisés no Sinais, recebendo de Deus, não a lei santa, mas o roteiro para o país sonhado, a terra bendita que deve ser a Canaã dos que a Miséria e o Frio perseguirem nos dias vindouros, quando o mundo antigo abarrotado começar a alijar as grandes massas humanas.

Não se lhe arrefecia o ânimo; e, ainda diante da fúria desabrida da tripulação, o seu olhar buscava o longínquo, — confiante e seguro de encontra-lo. A 11 de outubro o gajeiro, erguendo-se vivamente nas gáveas, bradou com firmeza e júbilo: —“Terra!” Não era ilusão. Uma brisa fresca trazia suaves aromas de flores, pássaros voavam pousando nas vergas; e não longe o litoral aparecia coberto de árvores, viçosamente verde, e a Pinta empavesada, com toda a sua tripulação apinhada nas vergas, saudou a terra com alegria.

O genovês, profundamente comovido, agradecia intimamente ao Senhor a graça que lhe concedera, e os seus olhos agudos baixavam do céu e alongavam-se pela terra próxima, enternecidamente e lacrimosos.

O globo de Bahïm rolaram por terra, o hemisfério vazio era berço de um mundo.

No dia seguinte desembarcaram, cravaram uma cruz na terra que recebeu o nome de San Salvador, e, ajoelhados diante de um altar improvisado, entoaram piedosamente um Te Deum em ação de graças.

Dos três navios da frota só dois lograram por retornar à Espanha; ainda assim um temporal arrojou às costas cantábricas a Niña em que se achava Pinzon. A 16 de março de 1493, sete meses depois da sua partida, Colombo entregava a América à coroa de Espanha, tendo deixado reconhecidas e ocupadas as Antilhas, São Salvador, Conceição, Fernandina, Isabel, Ispaniola e Cuba.

Os que ficaram, entre os indígenas, nessas terras estranhas, garantindo-as à pátria, bem merecem ser lembrados como heróis que foram.

A recepção feita a Colombo foi extraordinária; os sinos repicavam festivamente, as fortalezas atroavam os ares com as salvas, o povo acudia dos campos a ver o herói e os homens bronzeados que ele trazia, e as aves estranhas de maravilhosa plumagem; e toda a Espanha, arrebatada no mesmo delírio de fortuna, sonhou aventurar arriscadas, pensando em transportar-se a esses países semeados de ouro e de pedrarias, que o genovês tomara pelas Índias.

Descobrimento do Brasil
Chegando a Lisboa a notícia do maravilhoso feito de Colombo, acendeu-se a cobiça no coração de D. Manuel; e estimulado pela doação extensa feita a Castela pelo papa Alexandre VI, que lhe assegurava o direito sobre todas as terras e ilhas descobertas e por descobrir que ficassem a oeste da linha meridiana imaginada a cem léguas das ilhas dos Açores e das do Cabo Verde, - o rei português recorreu à Cúria Romana, obtendo, em 7 de Junho de 1494, a assinatura do tratado de Tordesilhas, pelo qual as terras encontradas a leste da linha imaginária, que devia passar 370 léguas para o poente da ilha de Santo Antão, deveriam ser adjudicadas a Portugal. Cessaram as dissensões que se haviam gerado entre os monarcas da Península. Prosseguindo, com maior afã, no empenho de encontrar as Índias, dobrando a extrema meridional da África, viu Portugal o problema resolvido com a chegada de Vasco da Gama, a Calecut, em 1498, viagem cheia das mesmas peripécias desalentadoras que afligiram o genovês.

Estabelecido o riquíssimo comércio das especiarias, afim de assegura-lo a Portugal, partiu da foz do Tejo, a 9 de Março de 1500, uma esquadra de 13 embarcações, alguma das quais armadas a expensas de particulares, todas, porém sujeitas ao mando do capitão mor Pedro Álvares Cabral, de ilustre família, mas ainda sem feitos que lhe desses lustre ao nome.

Pelas instruções escritas que recebeu, devia afastar-se, tanto quanto pudesse, da África, na altura da Guiné, para evitar as calmarias.

Obediente às instruções, observou-as estritamente e seguindo-as e também arrastado pelas correntes oceânicas, atraído maravilhosamente pela terra virgem que ansiava por aparecer à vista do Mundo antigo, - passados 40 dias sôbre as águas, a 22 de Abril avistou, a oeste, terra desconhecida, aparecendo logo aos olhos assombrados da gente dos doze navios errantes um alto monte, que, em atenção à festa da Páscoa, foi chamado Pascoal.

A esquadra aproximou-se da costa no dia seguinte, indo um batel à terra com gente, sendo porém possível comunicação alguma por não entenderem os intérpretes a língua dos naturais, reduzindo-se todo o tratado a algumas dádivas e trocas de parte a parte.

Decidindo-se a explorar a terra que se alongava para o Norte, Cabral, no dia seguinte, velejou em demanda de uma angra onde ancorasse se abastecesse de água, encontrando, dez léguas ao Norte, tão propícia enseada que lhe deu o nome significativo de Porto Seguro.

E assim, por um acidente feliz, foi encontrado sobre os mares o continente verde de nossa pátria.

O solo fertilíssimo, forrado de ervas balsâmicas que despontam em flores, esconde no seio tesouros incontáveis que só esperam o esforço do homem para vir ao lume da terra.

Rios caudalosos cruzam-no fertilizando-o, e são outras tantas estradas por onde vão, de um extremo a outro do país, as barcas de comunicação. Cachoeiras precipitam-se de alturas prodigiosas com estupendo fragor, e, alvas, espumantes, extasiam os que de perto as contemplam; córregos defluem com suave murmúrio e as suas águas brandas e laboriosas vão movendo engenhos e turbinas, até que se derrama nos estuários cantando. O arvoredo, sobre ser belo, é frondoso e forte; touca-se de flores que se transformam em frutos; a sua lenha, rija muitas vezes a ponto de embotar o machado do lenhador, vai ao estaleiro e à oficina, resiste à ação corrosiva das águas e ao tempo; faz-se nau e segue em derrota pelo mundo, levando desfraldado o pavilhão da pátria, armada e pronta para defender a terra de onde foi tirada; é palácio e é cabana, é a lenha que nos dá lume, é o arrimo final e o cofre do nosso despojo, quando à terra tornamos; nas mãos hábeis do artífice dá o leito do natal e o da morte, dá a mesa em torno da qual a família se reúne, e dá o cofre precioso e trescalante onde se conservam preciosamente as jóias; dá o aroma e a tinta; é a sombra amena nos campos e nos montes; é a alegria nas praças; e a alterosa folhagem da sua copa purifica o ar viciado, e as suas formidáveis raízes, estiradas em cordoalhas, absorvem a humidade maléfica do solo.

Freme o jaguar nas brenhas, o tapir assobia, as grandes cobras silvam enroscadas nos troncos ou de rastro pelas ervas; nos campos, os veadinhos meigos saltam e iraras correm. à beira dos rios, abundantes em pescado, arrastam-se répteis; e garças brancas pousam contemplativas, e tantas, que de longe parece à gente que um lençol se estende à beira das águas.

Das grotas e das luras saem ariscamente as pacas e as cotias, e pelos ramos chalram, gazilam aves de deslumbrante plumagem, sob vívido alumia ou as constelações estrelam.

Para completa prosperidade de uma terra tão prodigamente aquinhoada, basta que ao seu viço correspondam o esforço e o amor do homem; e, agora que, consciente da grandeza da pátria que possue, o brasileiro se lhe dedica com todo o interesse, o Mundo volta os olhos pasmados para esta região de magnificências, invejando-a, e já a procuram os desfavorecidos para viver, acolhidos à sombra das suas árvores, em comunhão pacífica e laboriosa, gozando a paz e preparando a abastança.



Os Aborígenes
Pero Vaz de Caminha, cronista minucioso do acontecimento, mostra-nos os primeiros espécimes do gentio brasílico. São dois jovens selvícolas que Afonso Lopes levou da terra à nau capitânica.

Cabral recebeu-os “sentado numa cadeira, com uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestido, com um colar de ouro mui grande no pescoço”; e os mais graduados da nau estavam sentados na mesma alcatifa, cercados da maruja que se apinhava cheia de curiosidade.

Os indígenas entraram sem cortesias nem palavras; um deles, porém, cravando a vista no riquíssimo colar que ornava o pescoço e o peito do capitão mor, acenou para a terra, como a dizer que lá também havia ouro; o mesmo gesto teve, quando lhe deram a ver um castiçal de prata. vendo um papagaio pardo, tomaram-no à mão e acenaram com das outras vezes; mas, como lhes mostrassem uma galinha, ficaram cheios de susto, e, só depois de com ela se acostumarem, dela se aproximaram, pasmados todavia.

Vendo um deles umas contas, ficou em tal contentamento e tão descompassados gestos fez, que logo lhas deram; e ele, com pressa, pô-las ao pescoço, ufano: tirou-as depois, enrolou-as no braço pondo-se logo com acenos a mostrar as contas e o colar ao capitão, como a querer exprimir que daria ouro por aquelas miçangas, proposta de vantajoso escambo que muito agradou aos da nau. A bordo dormiram agasalhados. Comeram do que lhes deram; o vinho, porém, mal o provaram porque logo que lhe sentiram o sabor o repeliram.

Da pintura que nos faz dos índios o mencionado cronista podemos dizer abreviando as suas palavras: — Eram geralmente de cor parda, tirando ao vermelho, simpáticos de feição, fortes e graciosos de talhe.

Posto que andassem nus, o faziam com tão natural inocência que não demonstravam o mínimo vexame. No lábio inferior traziam cravado um pedaço de osso como ornamento, sem que isso lhes causasse incomodo, porque bebiam e comiam com desembaraço.

Lisos e negros os cabelos, usavam-nos em tranças, raspando-os, porém, um pouco acima das orelhas; por armas traziam altos arcos e flechas. Dos que mais tarde viu, diz caminha que usavam pintar o corpo; alguns o tinham coberto de quadradinhos brancos e pretos como os de um tabuleiro do xadrez.

Pelo adiante, várias vezes desceram a comunicar com os índios, que sempre os recebiam com afabilidade, principalmente com Diogo Dias, que saiu alegre e ruidosamente por entre eles dançando ao som de uma gaita; e os índios, acompanhando o ritmo da música, dançaram também com ele. Um galé, Afonso Ribeiro, foi à terra, por ordem do capitão mor, para se familiarizar com os índios com os quais devia ficar; com eles passou grande tempo; mas à tarde foi trazido à praia para que tornasse a bordo, com se apenas o quisessem por visita e não por companheiro.



A primeira missa
A 26 de Abril, domingo da Pascoela, desceram todos os da frota a uma restinga onde, sob uma tenda, erigiram um altar ricamente ornamentado.

Os guerreiros, revestidos de suas brilhantes armaduras que resplandeciam ao sol, causavam admiração aos ingênuos selvagens que chegavam do coração do bosque, atraídos pelo estranho espetáculo; e, enquanto frei Henrique, seguido de acólitos, consumava o santo sacrifício elevando aos céus a hóstia cristã, o povo das selvas, apinhando-se na praia, buscava os melhores sítios de onde visse a cerimônia, uns trepando aos galhos das árvores, outros acocorando-se na areia, apoiados aos arcos fortes, as mães com os filhos enganchados na cinta ou escarranchados ao flanco, todos com as suas armas e os seus ornatos vistosos de plumagens variegadas, na cabeça e na cinta, ou sarapintados da cabeça aos pés, garridamente.

As aves cruzavam os ares que o fumo dos turíbulos incensava; perto do altar o pendão de Cristo jazia, e, desfraldado aos ventos brandos, o pavilhão das quinas dominava a turba.

Terminada a missa, frei Henrique, despindo os hábitos talares, subiu a um sólio fazendo uma larga e comovedora prédica, inspirada no Evangelho do dia e sugerida igualmente pelo sucesso venturoso do descobrimento de terras que demonstravam ser tão ricas, habitadas por gente tão hospitaleira posto que de alma inculta. Os selvagens, que não desviavam os olhos do santo homem, vendo, final do sermão, que os guerreiros se levantavam, entraram a saltar, contentes, numa dança agitada, arrancando agudíssimos sons dos seus borés e inúbias, instrumentos que usavam nas festas e guerras.

Findo o piedoso ato, tornaram os guerreiros às chalupas, ganhando as naus, que, empavesadas, arfavam sobre as águas mansas.

A 1 de Maio, descendo novamente à terra, os guerreiros levantaram uma cruz, padrão religiosos e de conquista, e, como fosse pesadíssimo o lenho, os indígenas correram a auxiliar os portugueses, ajudando-os a enterrar no fosso o poste santo, que avultou numa eminência abrindo ao sol os braços, à sombra dos quais frei Henrique rezou a segunda missa.

No dia seguinte despachou Cabral uma das caravelas para Lisboa, portadora da notícia e de várias aves e objetos da terra tão afortunadamente encontrada; André Gonçalves ou Gaspar de Lemos foi o comandante. Deixando, ao que julgavam apenas uma ilha, o nome de Vera Cruz, — a 2 de Maio os navegadores fizeram-se de vela, buscando o caminho das Índias. Na praia ficaram dois degredados, Afonso Ribeiro e outro, e, segundo o testemunho de Caminha, mais dois marinheiros que desertaram.

Os degredados
Na praias, juntos, os dois homens alongavam os olhos pelos mares, que as naus, com as velas amplas tufadas, iam rapidamente cortando. Choraram, certos que nunca mais tornariam à pátria, e, apreensivos, vendo-se desprovidos de defesa em terra desconhecida, entre gente estranha sem que, ao menos, pudessem tratar com ela por desconhecerem de todo a língua que falavam.

Enquanto assim pensavam, vertendo copiosas lágrimas, ouviam o jucundo concerto das aves que voavam de um ramo a outro tecendo ninhos; viam o céu de um azul sem mancha onde apenas um ponto havia, o sol, que vestia de ouro terras e mares; ouviam o frêmito das inúbias que ressoavam, e os gritos dos indígenas, que espiavam a partida das naus acenando com os seus arcos, com as suas flechas ou com folhagens arrancadas do arvoredo. O dia foi arroxeando, e veio a noite triste, posto que estrelada e com o luar. Os dois homens, á beira do mar, sem ânimo de penetrar no bosque cheio de cabildas, ficaram relembrando o passado, os dias felizes nos campos natais, e até as desgraças que, por maiores que houvessem sido, pequenas pareciam comparadas com a desesperada situação em que se encontravam, vizinhos da morte, na solidão e no desconhecido.

E que lhes haviam dito, como adeus, os que partiram? Que buscassem aprender a língua dos naturais, que andassem com eles explorando a terra, para que, ao tornarem do reino, encontrassem meios de comunicar com eles e de conhecer as riquezas da ilha.

À noite, a selva com a sua grande voz misteriosa, as águas com o seu lamento tristonho, os pios das aves noctívagas, o rumor dos bárbaros, ao longe, - tudo concorria pavorosamente para encher de medo as almas infelizes, que, mal distinguindo, andavam com os olhos de um para outro lado, tremendo ao mais brando estalo da folhagem, ao ruflo mais leve da asa de um pássaro errante, julgando sempre que os farejava uma fera, ou que os buscava, traiçoeiramente, um bando de selvagens.

Onde findaria tamanha terra, que tinha por horizontes a floresta e o mar? que mistério haveria nos seus meandros? que deus protegeria aquelas almas? diante de que altar se prostariam aqueles homens na hora da aflição?

Cismavam assim, quando, erguendo os olho molhados, viram, ao clarão do luar, na eminência, grande e solitário, com os braços abertos longamente, o cruzeiro que os seus companheiros haviam ali fincado. Alvoroçados, caíram de jolhos, e começaram a rezar ...



Usos e Costumes dos Indígenas
Procurando pontos estratégicos, os indígenas construíam as suas cabildas (tabas) cercando-as de estacadas feitas com troncos de palmeiras ou emaranhadas touceiras de bambu. Sobre sólidos esteios edificavam as choupanas (ocas) cobrindo-as de folhas de palmeira, revestindo as suas paredes de barro ou de taipa.

Viviam de caça e de pesca, e serviam-se de hábeis estratagemas (arapucas, mundéus, jequiás, etc.) para apanhar os animais vivos; não se descuidavam, todavia, da agricultura, cujo segredo, segundo uma lenda tamoia, lhes fora maravilhosamente revelado, por um homem branco, de nome Sumé, que, através dos mares, viera do lado do Levante.

Faziam as suas embarcações, que variavam de tamanho, cavando troncos de árvores, e chamavam às maiores igaraçús, igarités às menores, e ubás às que eram feitas com peles de animais ou folhas de palmeiras, destinadas à pesca nos rios. A canoa do cacique (igaritim) distinguia-se das outras pela presença do maracá (chocalho) à popa, com o qual era dado o sinal para a peleja.

Às armas dedicavam particular cuidado: os arcos de iri ou de jacarandá atestavam cordas de algodão ou de fibras de tucum; as flechas de ubá, esmeradamente desenhadas e lavradas, tinham em uma das extremidades fragmentos de taquaras, dentes, ossos aguçados, ou o aguilhão da cauda da arraia, farpeados ou não.

O tacape cortante, largo no meio, terminava aguçado; tinham ainda a tangapema ou espada de sacrifício, a clava (tamarana), e a zarabatana, tubo com que lançavam setas ou pelotas de barro.

Os principais instrumentos de música eram o maracá, o boré, a inúbia, trompa guerreira, e o napi, tambor destinado a convocar a tribo e a dar o rebate nos dias de festa ou de guerra.

Conheciam várias bebidas fermentadas e o fumo; domesticavam animais; e, quando saíam em expedições guerreiras, levavam, como provisão principal, farinha seca ou submetida a uma ligeira fermentação.

Habituavam-se, desde os anos mais tenros, a suportar todas as provações, desenvolvendo-se em agilidade e destreza, encarando a morte com resignação heróica. Aos condenados permitiam que entoassem o canto de morte. De apuradíssima percepção, distinguiam os mínimos rumores na selva, e preveniam-se, reconhecendo os passos cautelosos do inimigo, ou alegravam-se, se era o rumor de um bando aliado.

De um exaltado sentimento de independência e liberdade, não dispensavam entanto a autoridade de um chefe militar (morubixaba) e o prestígio de um pajé, oráculo e médico ao mesmo tempo.

Os mortos eram enterrados, ou envolvidos em redes e conservados em talhas de barro (igaçabas). As sepulturas eram circulares e profundas, sem monumento algum. Punham sobre o cadáver os melhores atavios e deixavam sobre o túmulo vasos com alimentos e bebidas destinados, segundo a lenda, a Anhangá para que não devorasse o morto.

Os funerais eram ruidosos: por entre lamentações angustiadas, num canto triste, os da tribo rememoravam as virtudes e os feitos guerreiros do finado; as mulheres cortavam os cabelos em sinal de luto, e os homens, com o mesmo sentimento, deixavam-nos crescer, o que também faziam quando projetavam alguma vingança, cortando-os quando se julgavam desforçados.

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